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Giovanni Bellini e Atelier -  A Virgem e o Menino (National Gallery)

Fonte da Imagem: Própria 

 

O estudo da fauna humana recebe o seu mais glorioso "input" na pessoa de Cidalina.

National Geographic 

 

Ter filhos ou não ter, eis a questão.

William Shakespeare, Hamlet

 

Parece que entramos no filme Delicatessen.

Sónia Pereira, in Quimeras e Utopias

 

A paternidade e a maternidade segundo o Evangelho de Santa Cidalina...

 

Chegou a minha vez com um “é o Robinson?”. Percebo a questão, se é para ser tudo ao molho convém sempre certificarmo-nos de quem se trata.

 

Peço para me sentar, pois a Cidalina, já sentada, estava a olhar para o computador que tinha em cima da mesa e não me dizia nada. 

 

Depois de um “sim, sim”, observo a sala. Uma sala de reuniões comum, com um computador em cima da mesa, correspondência do Ministério Público à vista de todos e um sem número de outros papéis.

 

A Cidalina, além da voz de bagaço, tinha uma atitude demasiado pesada e um total desmazelo em relação aos dentes. Contudo, o dinheiro não chega sempre para todas as coisas. O reflexo do desmazelo também era visível no estado em que se encontrava a mesa.

 

Esperei mais uns momentos até que a Cidalina percebeu que eu estava ali. Fazendo aquele suspiro que um GNR do Posto Territorial de Ansião faria depois de almoço, disse:

 

-É o Robinson, deixe ver se tenho aqui o seu currículo.

 

Sou o Robinson. Sou o Robinson e também já percebi que nem olhou para o meu currículo. Mais interessante ainda, passa por eu conseguir apreciar os currículos de todos os outros candidatos enquanto a Cidalina procurava o meu. Confidencialidade no seu melhor, mais uma vez. "É esse! O meu é esse"...

 

Nova pausa, com o computador a tirar-me o protagonismo e eis que no típico ar gingão da fauna lusitana:

 

-Oh Robinson, fale-me de si, mas não me fale do currículo. É uma pessoa feliz, é casado e tem filhos?

 

“Fale-me de si, é uma pessoa feliz, é casado e tem filhos”! Tendo em conta que é sempre difícil fugir às duas últimas (e até concordo que se façam), mesmo que contra a lei, não é propriamente o mote para começarmos uma entrevista. Lá disse que era feliz, que não corria atrás da felicidade e que tinha de saber apreciar cada momento bom que a vida me dava. Mencionei que era importante gerir os maus momentos e também aqueles que a vida não me dá, mesmo quando luto por isso. Sugeri que tinha de criar um balanço entre prazer e propósito.

 

Percebi que não tinha dado a resposta certa! Devia ter mentido e ter dito que adorava festas e passeios, que adorava fazer compras e viajar pelo mundo ou então que sonhava com uma vida no Butão. Que o meu sonho era ser feliz como todos os outros, mesmo que todos os outros (eu incluido) não saibam o que é ser feliz.

 

Nova questão, fundamental para o trabalho em si:

 

-É casado, tem filhos?

 

Respondi que não era casado nem tinha filhos e comecei a criar o clima para iniciar a Terceira Guerra Mundial. Numa sala triste a sem qualquer cor, num edifício soturno e também sem cor dos arredores de Lisboa, as coisas iam começar a aquecer. A Cidalina insiste neste ponto:

 

-Mas vive com alguém? Não tem filhos porque?

 

Foi aí que eu pausei o meu discurso e considerei várias opções:

  1. Dou eu a entrevista por terminada pois perdi toda e qualquer vontade de continuar a conversa?
  2. Dou mais uma oportunidade e pode ser que a entrevista tome outro rumo, afinal não é o cliente final?
  3. Adoro conhecer as pessoas, avaliar o comportamento humano e aprender acerca daquilo que não devo fazer, pelo que fico mais um pouco?
  4. Confirmo a minha expectativa de que hoje em dia é maior o ruído que o profissionalismo?
  5. Tenho um blog, ou seja, fico e estico isto até dar um artigo daqueles?

 

Optei pela situação dois e respondi que vivia com alguém e que não tinha filhos.

 

Nova abordagem e a Cidalina começa a acusar desconforto:

 

-Mas não tem filhos? 

 

Respondi que nunca tinha pensado nisso. Mencionei que um dia poderia ter ou não, que não fazia com que a minha vida fosse controlada sob a expectativa de ter um filho e muito menos acusava pressões sociais. Além disso, mencionei a minha juventude e, consequentemente, o facto de ainda ter uma vida pela frente. Neste momento já estávamos a esgrimir argumentos sobre o ter ou não ter filhos.

 

-Então e a pessoa com quem vive, não quer ter filhos também? Que idade tem? O que é que faz? – Insistia a Cidalina.

 

A opção dois caía por terra e neste momento ficavam apenas as opções 4 e 5. Como a 4 estava confirmada, optei pela 5! Tenho um blog, isto vai dar mais sumo que um pomar com 100 hectares de laranjeiras!

 

Respondi que também não era do interesse da mesma, aumentei a idade e disse o que esta fazia. E pronto, estavam lançados os dados para mais um interpelação:

 

-Mas com essa idade, é que depois começa a ficar difícil! Mas como é que não querem ter filhos? Mas nem falam disso?

 

Ainda pensei em explicar que embora os riscos aumentassem com a idade, hoje, é possível colmatar até bem tarde essa situação. Não percebi que alguém tão preocupado com a maternidade não tenha pensado na adopção ou nem sequer tenha percebido que pode não ser possível a um dos indivíduos ter filhos e que é um tema que pode melindrar alguns casais. Ainda pensei em falar sobre isso, mas já seria ir longe de mais e perder tempo com quem não merece. 

 

Respondi que não estava nos planos e não fazíamos desse tema uma preocupação constate, que quando tivesse que acontecer lá aconteceria. Percebi no olhar da mesma que eu era uma carta fora do baralho. Por sinal, eu não precisei de chegar tão longe para perceber isso. Penso que a questão ficou "arrumada" quando comecei a citar Malthus numa tentativa de quebrar o gelo. Senti-me um "alien", o indivíduo jovem que já devia ter filhos, uma casa, uma station-wagon na garagem e um monte de hipotecas desde os 20 anos! 

 

O sorriso de desdém no rosto da Cidalina era qualquer coisa de genial e de repente o estilo matrafona transformou-se num estilo de habitante de Dogville, o filme de Lars von Trier. Acredito que a Cidalina terá pensado "que grande anormal, como é que não tem filhos!". Também já fiquei com uma carta na manga: quando alguém me vier com a história que foi discriminado porque tinha filhos que se prepare.

 

E ainda não tinhamos falado de trabalho... O meu lado alemão já me deveria ter obrigado a cortar e a ir directo ao assunto mas... Se o fizesse, ia perder o que ainda estava para vir! 

 

Continua...

 

Capítulo 01, clique aqui

Capítulo 02, clique aqui

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54 comentários

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HD a 30.05.2017

Quase que te obrigava a fazer um filho no meio da entrevista hehehehe
Gosto de ver essas tuas opções na mesa, qualidade... distinta qualidade :)
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Robinson Kanes a 30.05.2017

Olha que só percebi isso quando há pouco me falaram disso…

Credo!
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HD a 30.05.2017

Que mentalidade... em que ano estamos?! :s
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HD a 30.05.2017

Parece... mas vincado de uma forma paleolítica!!!! -.-
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HD a 30.05.2017

A sério, não me parece que tenhas exagerado nessa parte...
Creepy :s
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Robinson Kanes a 30.05.2017

Falemos de bactérias então :-)
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HD a 30.05.2017

A mim sabia-me bem era um suminho de laranja agora :)
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HD a 30.05.2017

Exatamente, mas natural! Sem um cheirinho de bagaço ahahahha
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O ultimo fecha a porta a 30.05.2017

Que falta de educação e de respeito do entrevistador. Perdeu o tempo dela e fez perder o teu. Gente assim nem vale a pena. Nunca serias feliz lá. Quando as entrevistas são um mero proforma e está tudo escolhido, é uma coisa revoltante. Tb já passei por uma situação dessas. No teu próximo post conto-te.

Mas não percebi, era numa agência de recrutamento ou numa empresa "final". Aqui no Porto, já fui a duas e havia um gabinete com o sigilo necessário (aliás isso é o core business da Empresa)
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Robinson Kanes a 31.05.2017

Temos de pensar positivo. Fique com mais umas quantas peripécias.

Não sei se foi apenas para passar à frente, acredito que é mesmo falta de preparação e clara ausência de perfil para a função.

Era uma agência…Ou seja, torna tudo bem mais complicado. O sigilo tem sempre de ser uma das imagens de marca destas organizações.

Fico então a aguardar… Amanhã é o último episódio aqui, fechas a porta em grande :-)
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C.S. a 31.05.2017

Li os três posts de seguida e só me apetece gritar: mas o que é isto???
Que falta de profissionalismo e de mais uma série de coisas...
Sempre estou para ver até onde é que isto pode ir.
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Ana a 01.06.2017

Eu não acho isto nada normal, já nem me dá vontade de rir.
Não compreendo como é que podem fazer perguntas tão pessoais nas entrevista de emprego, isto é completamente não-ético, devia mesmo ser proibido.
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Robinson Kanes a 01.06.2017

E é, por lei é! No entanto, acima de uma lei está uma ética que também não é tida em conta.

Ri-te! O objectivo é esse!
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Maria Araújo a 01.06.2017


Todo o ambiente do gabinete , leva-me para os filmes de detectives privados, americanos dos anos 40, cigarro no canto da boca, um ar de intelectual rasca, e ela a secretária antipática e estranha sem qualquer formação para nada.
Quanto à entrevista, acho que perdia a paciência e a vontade. Mas, ao mesmo tempo, também esperaria no que iria dar a conversa final.
Aguardo o próximo. Pelo título, imagino o que virá por aí.

Uma boa noite descansada.
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Robinson Kanes a 02.06.2017

Já está disponível o IV e o V :-)
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Maria Araújo a 02.06.2017

Vou para um consulta, logo volto para ler o que se segue.
Uma boa tarde.
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Rita a 06.06.2017

Que obsessão com os filhos...

Por acaso em entrevistas acho que nunca me perguntaram, mas nas consultas de rotina do médico é sempre a mesma conversa. Ainda há dias fui a uma médica para fazer um exame e lá veio a conversa.

- Tem filhos?
- Não.
- Porquê?!?!?!
- Não é algo que me interesse...
- Mas é a melhor obra que uma mulher pode fazer!!!
- Acredito que sim, para algumas mulheres, mas nem todas querem ser mães...

Ela calou-se e o silêncio disse muito. Ao menos acabou-se o assunto.

É como dizes, se queremos ter uma vida que de alguma forma difere do que é considerado a norma somos olhados de lado.
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Robinson Kanes a 06.06.2017

Também sabes o que isso é, já vi.

Acho estranho que alguém com uma base cientifica como é a medicina veicule um comentário destes: "Mas é a melhor obra que uma mulher pode fazer"!!! Reduz-se o papel da mulher a uma parideira e ainda se deixa o homem fora da equação. Afinal não estamos assim tão longe dos outros animais…

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