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A Elite dos Otorrinos no SNS!

por Robinson Kanes, em 16.12.19

Stupid Stock Photos (1).jpg

Créditos: https://1.bp.blogspot.com/-Ao6nkr-G444/Tq2QXGb3JSI/AAAAAAAALCs/Gr7if-G6uv0/s1600/Stupid+Stock+Photos+%25281%2529.jpg

 

Os grandes valores não se definem, como se não define uma simples dor de dentes.

Vegílio Ferreira, in "Conta Corrente V"

 

 

Sou um acérrimo defensor do Serviço Nacional de Saúde (SNS), aliás, quando a coisa aperta é lá que todos vão parar! Junto-me nessa causa a muitos políticos deste país onde se inclui o Presidente da República que defende com unhas e dentes o SNS, sobretudo se a lista de espera, para este, não se aplicar.

 

O que vou contar vem de fonte mais que fidedigna, aliás, assisti a algumas das peripécias. Um doente que se desloque a um certo hospital da cidade de Lisboa e que seja um caso de vertigem postural paroxística benigna (VPPB) é atendido por um internista, o que é rotineiro. Mas, e porque existem critérios, não é visto por um otorrinolaringolista, mesmo que este esteja disponível. Ou seja, "leva" com o habitual "Betaserc" e com sorte um "Primperan", além do "vá para casa descansar que isso passa" (independentemente deste nem se aguentar de pé ou estar há dias/semanas nesta situação). E antes de começarmos a pensar mal dos internistas, lembrem-se que estes nada podem fazer quando o outro especialista recusa ver o doente... Nesta primeira situação, a enfermeira, já na triagem, pediu desculpas pelo facto de não conseguir que o doente (diagnosticado, por sinal no privado mas por um excelente profissional do SNS) fosse visto logo pelo otorrino pois já não é novo e é perfeitamente explicado pelo doente - o que não dispensa que o profissional de saúde faça a sua avaliação.

 

A verdade é que a velha história de que o "Betaserc" e o "Primperan" resolvem, não é assim tão linear. Existe ainda a hipótese de realizar a manobra de reposicionamento dos canalitos, (manobra de Epley) ou então a manobra de Sermont e a manobra de Brandt-Daroff. Existem especialistas que imediatamente seguem o caminho das manobras, outros nem tanto, mas não é a minha especialidade e não quero ir mais longe sob pena de começar a tecer disparates.

 

Com a repetição dos sintomas, o doente regressou ao hospital. Desta vez, temendo o mesmo tratamento,  foi a outro hospital central que, por sinal, nesse dia, tinha a urgência de otorrino a funcionar no hospital anteriormente escolhido. Sem solução, regressou ao primeiro hospital, onde o enfermeiro da triagem informou que o ideal era ser visto por um otorrino. Mais um telefonema, mais umas trocas de olhares e mais um pedido de desculpas por parte da enfermeira: "desculpem, não posso fazer mais, mas isto está assim...". E mais não digo para não comprometer ninguém.

 

Mais uma vez, a chegada ao internista, uma médica jovem e excelente, daquelas que ainda é humana. Contada a história, e após contacto com a especialista, seguido de contacto com chefe de equipa, sugere uma ida ao privado - e acreditem que insistiu muito para que o doente tivesse o tratamento adequado. A especialista recusara atender este caso - não reúne os critérios! Ou seja, após 20 minutos de insistência por parte da internista que diz não poder fazer mais nada, é sugerida uma consulta de urgência nos dois dias seguintes: isto enquanto o paciente vomita, vê tudo a andar à roda e não come há mais de 4 dias porque, passo a expressão, tudo o que entra sai. "Vão ao privado, ninguém merece ficar a sofrer assim só porque...".

 

Dois dias depois, com o doente um pouco recuperado depois de mais um dia e meio infernal, o atendimento numa consulta onde lhe é dado um novo medicamento que calmamente (mais de duas semanas e...) lá foi diminuindo os sintomas... Com manobras o alívio é quase imediato, todavia, mais do fazer ou não as manobras - não domino a especialidade - é esta forma de encarar os doentes. Se a culpa é dos otorrinolaringolistas, da direcção clínica ou do Ministério da Saúde, não sei, mas que nos colocar a pensar, é um facto e chega a roçar a omissão de auxílio. Mas também não é de admirar... Basta andar atento às peripécias (algumas criminais) que ocorrem com alguns directores de serviço nesta área...

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25 comentários

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Folhasdeluar a 16.12.2019

A história é chocante...mas olhe que acompanho um familiar já idoso, (já passou dos 90), há vários anos no SNS, e não tenho a mínima queixa a registar, nem em urgências, nem em hospitalização, nem em consultas de rotina. Inclusivamente quando ele faz análises, só vai ao hospital depois de eu falar com a médica que o segue, ela vê as análises e depois diz-me se ele lá deve ir ou não. Tenho uma excelente opinião dos profissionais do SNS. Contudo sei que essa situações existem....
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Robinson Kanes a 16.12.2019

Como referi, sou defensor do SNS, o que não impede que seja imune a crítica. Aliás, já o referi por aqui que, quando a coisa aperta, é lá que todos vão parar...
Mas isso é uma questão boa para se colocar a um chefe de serviço de otorrino de um hospital central de Lisboa que presta serviço em ambos os lados...
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Folhasdeluar a 16.12.2019

É evidente que devemos criticar o que está errado. Só assim as coisas podem melhorar.Só quis salientar que também há bons médicos no SNS...
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Robinson Kanes a 16.12.2019

Concordo. Médicos, enfermeiros, auxiliares e técnicos das mais diversas áreas.:-)
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Luísa de Sousa a 16.12.2019

Que situação mais triste!!!
Nem sei o que dizer!!!

Beijinhos
Resto de um Dia Feliz!
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Maria Araújo a 16.12.2019

Infelizmente, parece que os médicos ainda mandam alguma coisa.
Ano passado, no dia 25 de Dezembro, um familiar meu foi com o bebé doente ao hospital privado, com receio de no SNS haver grande afluência às urgências, esteve lá desde as 12:00h até às 19:00h, só estava uma médica de urgência, havia um caso de outra criança que também precisava médico, pelo que foi dito, outro médico estaria de serviço, a médica precisava de o contactar para um exame, ele não estava disponível, mãe com fome, familiar acompanhante também, o bebé tomou apenas leite.
Foi um desespero
Ei ligava a toda a hora e pedia para sairem dali e irem ao hospital público.
Não foram.
Quando chegaram a casa vinham incrédulas.
Foi feita um reclamação no livro.
Uns dias depois, a médica enviou mensagem pessoal a pedir desculpa, teria feito o possível pelas crianças, mas estava dependente do outro.
Se os familiares tivessem ido ao público, provavelmente não teria ficado a tarde inteira, sem comer à espera de um imbecil que não teve o mínimo respeito pelas crianças.
"Tudo" está mal neste país enquanto dermos mais importância ao que se passa, ou tenhamos medo de reagir.
Beijinhos
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Maria Araújo a 16.12.2019

Desculpe, há umas falhas no discurso.
Mas sei que entende.
No último parágrafo, deve ler" enquanto dermos mais importância a assuntos irrelevantes...

Escrever no telemóvel acontece isto.
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Robinson Kanes a 16.12.2019

Se entendo... Tardes e noites nas urgências? Ui, é no público e no privado. Todavia, aqueles que lá estão, dão o seu melhor...
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/i. a 16.12.2019

É o estado caótico que está o SNS e o privado também. Só que eu preocupo-me com o SNS pois depende dos impostos que se pagam com esforço. E como diz há atos criminosos a acontecer. E sabemos que não há recursos humanos suficientes... no entanto, começamos a assistir ao seguinte: ao aproveitamento desta crise no SNS para certos recursos humanos afectos a certos serviços hospitalares se desculparem o negligente diagnóstico e correspondente terapêutica na especialidade.
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Robinson Kanes a 16.12.2019

Quando temos hospitais centrais, não só em Lisboa, que são dominados completamente por maçonarias e outro tipo de entidades que é melhor nem dizer aqui (não vão os "solidários" ficar chocados", está tudo dito...

A questão dos otorrinos nos hospitais centrais de Lisboa não é nova, sobretudo desde a entrada de um determinado indivíduo... Basta dar uma volta por aí...
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MJP a 16.12.2019

Olá, R.!

Um relato lamentável... todo e qualquer acto que consubstancie má prática é, obviamente, condenável e deverá ser denunciado...

Beijo
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Robinson Kanes a 16.12.2019

Hi MJ,

O problema é que aqui não existe nada para denunciar... Os profissionais estão a agir de acordo com as regras, o que torna a questão ainda mais complexa. ;-)

Beijo,
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MJP a 16.12.2019

Há que questionar quem de direito (o CA) e perceber os critérios subjacentes a tal prática...

Beijo
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Robinson Kanes a 16.12.2019

Para mim, é apenas mais um testemunho... Já não me atormento com os critérios médicos de alguns... professores e políticos, perdão... médicos.

Beijo,
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O ultimo fecha a porta a 16.12.2019

Parece-me um caso muito específico, mas há coisas que funcionam mal.
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Robinson Kanes a 16.12.2019

Específico não poderá ser... Se estes critérios são aplicados, acredito que aconteça mais que uma ou duas vezes. O problema é que as pessoas têm pouca noção do que é VPPB, não é propriamente uma doença da moda... :-)
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The Travellight World a 17.12.2019

São situações que devem ser denunciadas para poderem ser evitadas ou no mínimo melhoradas. O SNS tem bons profissionais, mas uma vez por outra, não há duvida que as coisas correm mal... Às vezes é realmente dificil entender (aceitar) os "critérios"
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Robinson Kanes a 17.12.2019

Não me parece que isto só lá vá com denúncias... Depois admiram-se que alguns médicos se revoltem...
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Psicogata a 17.12.2019

Há situações vergonhosas no SNS e há negligência e muitas vezes desinteresse pelos doentes, às vezes resulta reclamar, outras só piora.
Cada vez mais me convenço que infelizmente é uma questão de sorte, apanhar a equipa certa pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Conheço um caso que se fosse detectado a tempo a pessoa poderia não ter morrido, foi a primeira vez ao hospital com fortes dores abdominais, mandaram para casa com medicamentos para as dores, regressou no dia seguinte, ficou por lá perdido nas urgências até às 4h da manhã, após mudança de turno uma médica olhou para ele com olhos de ver e percebe que algo está muito errado, ecografia, uma grave hemorragia interna, operação urgente, já não foram a tempo, demoraram mais de 24h a fazer o diagnóstico, tivessem realizado de imediato a ecografia provavelmente o senhor ainda estaria cá.
A família optou por não fazer queixa, eu teria feito, mesmo que não desse em nada, pois é por existirem poucas queixas que continuam a ocorrer situações destas todos os dias.
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Robinson Kanes a 17.12.2019

Esse caso é bicudo. Eu até aceito os erros - quem pensar a medicina como uma prática imune ao erro não pode falar da ciência. O problema é que em medicina os erros pagam-se caro... Espero que esse caso tenha sido erro e não desleixo, espero...
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Psicogata a 18.12.2019

Infelizmente acho que foi desleixo, porque o senhor tinha a barriga muito roxa... como disse a família devia ter apresentado queixa.
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Figueiredo a 17.12.2019

O problema do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é estar infiltrado de gente que lá foi colocada, para a título individual ou em grupo, sabotarem o funcionamento dos hospitais e serviços de saúde públicos, por forma a canalizar os cidadãos para as empresas privadas ligadas ao negócio da saúde.

Enquanto não for efectuado um saneamento no quadro orgânico do Serviço Nacional de Saúde (SNS), enquanto não se fizer cumprir as normas e regulamentos de funcionamento desta entidade e respectivos serviços, e não se der início a uma investigação judicial e análise ao rasto do dinheiro que financia toda esta estrutura, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não terá qualquer hipótese.
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Robinson Kanes a 17.12.2019

Eu vou por outro caminho, acho que em alguns casos essa gente de que fó lá está por poder, grupos e tráfico de influências e nem tanto para desviar utentes para o privado... Portugal é um país pequeno mas com grupos a mais que ainda têm muitos militantes que gosta m do seu feudo...

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