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Imagem: Robinson Kanes

 

A poucos dias das dragagens, mais uma vez num país gretado que celebra a chegada folclórica (e a culpa não é da miúda, bem pelo contrário) de mais uma greta e esquece os seus problemas... Partilho um pouco do que é a Arrábida, do que é o Sado a encontrar o Atlântico, do que é um dos mais belos tesouros do Mundo.

 

Entre a ondulação causada pelo abraço destas águas ou até a partir de Tróia, esperemos que a solução encontrada não venha a causar mais dano que retorno, e quando falo de retorno, falo de retorno ambiental, económico, social e natural.

 

Somos tudo e mais alguma coisa, por isso hoje, "Je Suis Sado".

 

 

 

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Paisagens de Portugal: Lisboa

por Robinson Kanes, em 05.12.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Não posso deixar passar a minha cidade, aquela que me viu nascer e também partir e regressar. Lisboa é a mais bela capital do Mundo e apesar da sua tristeza não perde a beleza com a sua luz única no Mundo.

 

Lisboa não sejas francesa, vais perder o teu encanto, vais ser ainda mais infeliz... Bebe da Europa e do Mundo a alegria de muitas grandes cidades, sim bebe, mas não entregues a alma que faz de ti a mais especial de todas. Não te vendas às modas e à política de meia-dúzia, conserva o provincianismo da tua localização e do teu aspecto e luta sim pelo cosmopolitismo daqueles que em ti nasceram e cujas almas provincianas são um empreendimento mais complexo de moldar...

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Recursos Humanos: Os Suspeitos do Costume.

por Robinson Kanes, em 04.12.19

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Créditos: https://www.dicionariopopular.com/facepalm-meme-emoji/

 

 

Existem muitos truques que permitem a ascensão e o reconhecimento profissional de nulidades encartadas. Um pouco como aqueles indivíduos que aparecem do nada em televisão, jornalismo ou cinema e depois de nos serem impingidos e terem sucesso, é que vão ter formação para aquilo que estão a fazer. Ou então aqueles que para venderem o seu produto/pessoa dizem que vão à televisão, como se isso pudesse superar qualquer curriculum vitae.

 

É algo que também acontece na função pública e em muitas organizações privadas: o importante é entrar na organização, ocupar determinado cargo e depois pensa-se na formação e nas competências. Os resultados? Se a equipa for boa, eles acontecem. Desde que estejam a ocupar as suas funções enquanto eu vou ao cabeleireiro, não há como falhar, mesmo que seja fora do horário de trabalho destes, forço-os a ficar e pronto. Portugal, ou grande parte dele, portanto...

 

Mas uma das tácticas mais conhecidas não dispensa um certo estrelato. Quem é que nunca ficou com a sensação de que são sempre os mesmos em determinadas áreas e cargos a aparecerem em conferências, redes sociais e a vencer concursos disto e daquilo? Quem é que nunca ficou com a sensação de que aquele (e isto é um exemplo) director de recursos humanos sem autoridade ou que é uma nulidade hoje, amanhã está a receber o prémio de excelência da área, a dar palestras todos os dias e a escrever sobre tudo e sobre nada. E então quando as políticas que implementa estão debaixo de fogo mediático...

 

Alguns, nomeadamente aqueles que rapidamente vão realçar o seu lambe-botismo com comentários vazios e a aspirar a uma ascenção profissional não darão por isso. Ou darão e só querem apanhar o comboio do personal branding.

 

No entanto, existem outros que já deixaram de acreditar em tudo o que lhes aparece à frente e até já nem frequentam os habituais congressos, feiras, palestras, galas onde se fala de tudo e de nada e cuja aplicabilidade prática não é demonstrada - opto por nem mencionar o dizer-se uma coisa e fazer-se outra totalmente diferente fora dos palcos. Quando muito servem para o networking e aí é uma falha minha... Só gosto de distribuir business cards para gerar negócio e não para colocar o meu interesse pessoal à frente do resto! No dia em que isso acontecer, carta de demissão, e nada como me dedicar à procura exaustiva de emprego.

 

Mas toda esta conversa para dizer que num país de corporativismos e aldrabice (sim, censurem-me, não é uma palavra que saiu) como é Portugal, é fácil ganhar prémios e ser reconhecido, não raras vezes, por aquilo que não se faz. Um exemplo para a ascensão pode ser estar dentro de uma associação ou de uma comissão de honra ou advisory board ou lá o que lhe quiserem chamar - nunca vão a nenhuma reunião, mas o vosso nome aparece no website e na comunicação e está feito, rapidamente são reconhecidos como profissionais de excelência. Uma nota: também existem entidades que usam profissionais de excelência para se catapultarem...

 

Outra são os prémios, se existem prémios que são bem atribuídos, também sabemos que é fácil conhecer este e aquele que faz com que ganhemos aquele prémio tão desejado, sobretudo se quisermos um novo emprego ou reconhecimento. Uma troca de favores e uns contratos aqui e acolá e temos um vencedor na categoria de aldrabice. Então se fizermos parte dos grupos que surgem sempre em determinadas revistas de algumas áreas, é certo que o sucesso está garantido. Não faltam revistas, publicações e até associaçõess que são meros canais de divulgação e exaltação deste e daquele indivíduo cujo culminar acaba com grandes prémios. E tudo isto se paga, quer em favores quer em outras coisas mais... E tudo isto é aplaudido por muitos que nem se dão conta como se movem estes mundos e outros que só querem entrar nos mesmo pelo papalvismo primário.

 

Ainda me lembro de um que ao mesmo tempo que falava de boas práticas e ética numa palestra vazia de conteúdo, tinha acabado de lançar um livro e surgia como um grande exemplo mas nessa mesma manhã as notícias davam conta de um caso vergonhoso para a organização e para o país e onde além de ter pactuado com, ainda tinha sido beneficiado...

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Playlist para a chuva e para o vento...

por Robinson Kanes, em 03.12.19

Tenho andado alheado da realidade nacional. Terei perdido o interesse no país que me viu nascer? Terei perdido a esperança? A aproximação (mais uma) a outras culturas, a outras formas de estar tem-me levado a esse distanciamento e a focar-me naquilo/naqueles que realmente importa/importam? Quiçá... É com esse pensamento que, mais uma vez, recolho uma playlist que também é um pouco de mim e que aconchega nestes dias de chuva e vento no regresso a casa ou enquanto vou pensando o mundo, mesmo que na minha cabeça, nas minhas paredes, na minha pequena particula de existência.

 

Num estilo de Portishead, Zero 7 e claro, de Massive Attack, os Groove Armada sempre mereceram a minha preferência. Para um dia de chuva e vento enquanto contemplo as paisagens da Irlanda do Norte, oscilo entre "Inside My Mind" e "Think Twice". Penso duas vezes e vou pela segunda escolha... Deixo-me levar pela minha zona de conforto da paixão...

Com Londres a pouco mais de uma hora de avião, penso que não posso esquecer a cidade que vive a 100, que nos preenche e que nos abre ao mundo. Acrescento por isso uma das minhas bandas "recentes" mais apetecíveis do panorama musical britânico, os "London Grammar" e como não poderia deixar de ser "Wasting My Young Years" é a minha escolha! Porque será?

Vou buscar um dos velhos para me acompanhar enquanto, ao longe, os prados parecem ficar mais verdes e esta chuva que nem é chuva nem é borriço vai descendo pelos vidros: Tom Waits. Não sou o maior adepto do músico, mas tenho de reconhecer que "All the World is Green" é uma peça daquelas! Para me acompanhar à medida da chuva...

Estou melancólico?... Ou estarei a apreciar autênticos monumentos musicais? Talvez nostálgico por um mundo que não foi o meu mas que, por certo, foi daqueles que amei. Led Zeppelin e "Stairway to Heaven", uma música que nos eleva, de facto, ao céu... Que nos eleva e traz saudades daqueles que partiram. Se existir um céu, se existir um mundo para lá da vida, pois que a minha subida seja feita ao som desta música!

Continuo pelos velhos e não posso deixar também passar esta estada sem olhar a Belfast. Nessa homenagem não vou aos U2, mas uma música bem mais bela e profunda, não tão trágica mas intensa... A primeira vez que a ouvi foi uma sensação incrível, por isso, partilho uma das grandes dos Simple Minds: "Belfast Child".

Desço ao mediterrâneo e vou a Itália onde encontro a senhora Veronica Scopelliti, mais conhecida por Noemi. Deixo a alma vaguear entre palavras escritas, faladas e imaginadas... "Sono solo Parole", porque talvez sejam isso mesmo, só palavras.

Ainda pelo sul, antes de voltar a subir, escuto os Vetusta Morla e "Cuarteles de Invierno". Uma das minhas bandas espanholas preferidas e com grande sucesso no país vizinho. Recordei o título e pensei em como é bom ouvir esta música num dia como este, lamentando-me de ainda não ter partilhado a mesma por aqui. Que o vento de invierno a leve até vós.

Manchester Orchestra é daquelas bandas que nunca me lembro de disparar quando falo das minhas preferência. É daquelas bandas que ouvimos por mero acaso mas que insistem em lá estar e acompanhar-nos ao longo da nossa vida e até em momentos especiais. Talvez por isso, e estando também perto de Manchester (embora a banda seja americana) escute um dos mais recentes hits: "I Know How To Speak".

E para terminar uma tarde onde chuva e vento disputam o palco, despeço-me com dois toques mais clássicos. Um deles é um "contemporâneo clássico" e é por aí que começo: Philip Glass é daqueles compositores que não conseguimos deixar de ouvir, seja com as suas bandas sonoras seja com as composições que só aqueles que o amam na sua especial forma de compor conhecem. Do albúm "Solo Piano", inspirado no livro de "Metamorfose" de Kafka, partilho "Metamorphosis Two", a segunda de 5. Philip Glass é simplesmente brilhante e eclético!

Finalmente, o homem que os espectadores da Gulbenkian, no passado dia 18 de Novembro, não queriam deixar ir embora: Tigran Hamasyan! Um concerto espectacular de  um jovem prodigío arménio que ainda consegue surpreender a cada concerto. Um pianista e compositor que se entrega e vive de tal forma a música que só percebo que é terrestre na sua humildade e partilha com o público. Banda sonora ideal para o dia de hoje, e primeira música do concerto que deu em Portugal, "Fides Tua" é uma das muitas e grandes obras deste músico - em Portugal ou fora do país, se ele estiver por perto, a nossa presença é garantida.

Boa semana,

 

P.S.: "hoje" o cosmos terá mais uma estrela a transmitir-lhe a melhor música: Mariss Jansons.

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Imagem: Robinson Kanes

 

Enquanto formos refractários à verdade e sensíveis apenas a estímulos artificiais, seremos, não tenho dúvida, incapazes de nos governarmos.

Rabindranath Tagore, in "A Casa e o Mundo"

 

Alguém disse "Alcochete Jamais (jamé)" e na verdade não poderia ter dito melhor, embora o sentido da afirmação fosse uma ignorância atroz para um político... Alcochete jamais deverá ser destruído por uma implacável sede de crescimento e até de poder. Alcochete é das poucas vilas verdadeiramente ribatejanas que está tão perto da capital... Alcochete, ao contrário do que circula por aí, não quer ser Cascais da margem sul (Cascais da margem sul jamais. Alcochete quer ser ela mesmo, uma vila única e singular, o Ribatejo às portas de Lisboa e com a especial identidade que a caracteriza. Alcochete que ter na Reserva Natural do Estuário do Tejo uma das suas maiores riquezas e não a sua destruição.

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Paisagens de Portugal: Alcácer do Sal

por Robinson Kanes, em 01.12.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

 

Um dos símbolos de Alcácer, as cegonhas sempre vagueando entre as culturas e os arrozais. Fiéis companheiras das chaminés e das torres das igrejas. Alcácer do Sal é uma das mais belas cidades portuguesas. Admito que para mim é uma vila, mas pelo encanto e pelo grau pitoresco que não deixa ninguém indiferente.

 

Parar na cidade para contactar com aquelas gentes, para sentir o Sado no seu caminho contrário em direcção a norte enquanto bebemos um café na companhia da sua trajectória e para partir por imensos arrozais e conhecer todos os habitantes de um ecossistema singular no mundo!

 

É impossível dizer-se português sem percorrer as ruelas e as paisagens deste concelho.

 

P.S.: obrigado ao SAPO pelo destaque de Palmela/Setúbal que mais para o norte da Europa foi muito apreciado...

 

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Paisagens de Portugal: Fisgas do Ermelo

por Robinson Kanes, em 26.11.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Este senhor já tinha falado nisso aquando da partilha da "Senhora da Graça" e eu não lhe fechei a porta... As Fisgas do Ermelo são das coisas mais bonitas que temos em Portugal, uma queda de água, esculpida com uma perfeição que pensamos se Rodin não havia deambulando pela Terra antes de nos ter surgido como mestre da escultura.

 

As Fisgas do Ermelo dão uma vida especial a um concelho (Mondim de Basto) que congrega algumas das áreas mais bonitas do Baixo-Tâmega. Trazem-me também um misto de deslumbramento e tristeza... Foi das últimas vezes que estive com alguém que já não está presente na minha/nossa vida, sobretudo pelo episódio de pouca esperança face a uma fatalidade que mesmo assim todos acreditávamos ser possível superar... Hoje estaria muito orgulhosa de ti, muito orgulhosa! Eu ainda não te disse, mas é num simpático bar de aeroporto em Belfast, com os Coldplay de fundo (dos tempos em que eram Coldplay), que também tenho de dizer que estou muito orgulhoso de ti, minha deutsche em London.

 

Mas a Natureza é assim, dona de uma força que nunca conseguiremos superar, seja nestes episódios, seja na criação destes monumentos! É um encantamento, como diria Teixeira de Pascoaes, poeta nascido bem perto (Amarante) e que veio a falecer ainda mais perto, em "Gatão".

 

Encantamento

 

Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar
A tua dôce e angelica Figura,
Esquecido, embebido num luar,
Num enlêvo perfeito e graça pura!

E á força de sorrir, de me encantar,
Deante de ti, mimosa Creatura,
Suavemente sentia-me apagar...
E eu era sombra apenas e ternura.

Que inocencia! que aurora! que alegria!
Tua figura de Anjo radiava!
Sob os teus pés a terra florescia,

E até meu proprio espirito cantava!
Nessas horas divinas, quem diria
A sorte que já Deus te destinava!

Teixeira de Pascoaes, in "Elegias"

 

 

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Imagens: Robinson Kanes

 

Depois de Persépolis é sempre bom descansar. Avizinha-se um fim-de-semana de chuva e por certo, fora de Portugal também estará, aposto.

 

Por isso, para os que não querem apanhar chuva, uma ideia para o fim-de-semana e inspirado na "inquietação" de sua excelência Vorph Valknut, volto a Hermann Hesse com o colossal "O Jogo das Contas de Vidro", um livro cuja leitura vai bem para além de um fim-de-semana. A utopia do conhecimento de uma comunidade fechada assente num jogo e o paradoxo do mundo exterior em jogo. Interessante e para ler com calma.

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Para algo mais fluído, se é que podemos falar de fluidez quando nos referimos a Hermann Hesse, nada como nos deixarmos ir nas letras de "Viagem ao País do Amanhã"! Uma viagem de auto-conhecimento, de desafios em comunidade e com a espiritualidade a que Hermann Hesse sempre foi fiel. Quantos de nós não merecíamos uma viagem assim?

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Para ouvir, nada como chamar um dos mestres da casa, o grande Bruce. Ainda me lembro dos posters deste senhor colados no guarda-fatos da minha irmã, mais velha que eu e já com bom gosto para a música - anos mais tarde percebi o porquê da paixão. Bruce Springsteen é um senhor, ponto!

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Um dos seus albúns mais "recentes" é "High Hopes" e entre outras, destaco "Down in The Hole". O resto é conversa!

E como ir ao teatro é das melhores coisas do mundo, nada como ir à Politécnica ver a peça "Vemo-nos ao Nascer do Dia" de Zinnie Harris! Os Artistas Unidos no seu melhor com uma peça sobre amor e morte! Andreia Bento e Joana Bárcia numa excelente, mas excelente, interpretação!

 

Finalmente,  bom cinema... Volto a Espanha, volto a Almodóvar com "Todo sobre mi Madre". Acompanhar a luta de Manuela (Cecilia Roth) após a morte do filho e a busca pelo pai do mesmo - uma surpresa enquanto assistimos a todas as peripécias de Manuela e à tristeza da pequena Irmã Maria, interpretada por Penélope Cruz. De destacar, entre os muitos prémios, o "Óscar para Melhor Filme Estrangeiro", a "Palma de Ouro" em Cannes para Almodóvar, o "César para Melhor Filme Estrangeiro" e o BAFTA para "Melhor Filme em Língua não Inglesa". 

Também não me posso esquecer da banda sonora de Alberto Rivera, mas destaco uma das músicas que nos vai acompanhando ao longo de todo o filme, "Tajabone" de Ismael Lô. Não se poderia ter escolhido melhor música para acompanhar este filme. E é também com esta que vos desejo um Excelente fim-de-semana.

P.S.: e não se esqueçam de acompanhar esta caldeirada com um "HT Reserva", de Tiago Cabaço. Também ele uma bela caldeirada de Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Syrah.

 

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Agora sim, mais bem regados, bom fim-de-semana,

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Persépolis: A Cidade Persa

por Robinson Kanes, em 21.11.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

A poucos quilómetros de Shiraz, e debaixo de um intenso calor, encontra-se aquela que foi uma das capitais do Império Aquemênida: Persépolis! Iniciada por Dario, a construção deu-se durante séculos até a mesma ser conquistada por Alexandre Magno. Persépolis foi sempre uma capital mais espiritual, até pelos difíceis acessos, as capitais administrativas acabaram por ser Pasárgarda, Susa, Ecbátana e Babilónia. Com Alexandre Magno, em 330 a.c. a cidade seria ocupada, saqueada e parcialmente destruída. Era o início do declínio de umas das pérolas de todo o império.

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Falar da história de todos os pormenores da cidade é matéria para centenas e centenas de artigos, por isso, nada como a consulta da imensa bibliografia, sobretudo a técnica, que existe acerca da cidade. Na internet, existem centenas de documentários e animações 3D, acerca da cidade, uma delas está aqui.

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No entanto, debaixo de um calor abrasador, e onde nos imaginamos nas montanhas do Afeganistão, fascinou-nos sobretudo a grandeza do império, também nestas pedras contada. Para se ter uma ideia, o império iniciado por  Ciro, "o Grande", acabou por ser o maior da antiguidade, nomeadamente uma extensão para ocidente até aos balcãs e leste europeu, uma rota de estradas onde se incluem as da Rota da Seda, o uso de uma língua ao longo de todo o território e o canal que ligou o Nilo ao Mar Vermelho.

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A este aspecto junta-se o facto de que, ao contrário de muitas outras edificações da Antiguidade, Persepólis, como outras grandes construições do império eram realizadas com trabalho remunerado, ou seja, não escravo. Foi com Ciro também que, apesar de muitos povos terem sido conquistados, que existiu o respeito por todos os costumes e religiões de todos os povos. Como nota de curiosidade, também é Ciro, o responsável pelo "Cilindro de Ciro", aquele que é considerado a primeira declaração de Direitos Humanos da história. Infelizmente para o povo iraniano, encontra-se no British Museum em Londres. No Museu Nacional, em Teerão, encontramos apenas uma réplica. Admito que nas duas visitas ao British, bem que já me apeteceu trazer o cilindro e devolver o mesmo ao povo que o escreveu e que é o seu legítimo detentor! Este cilindro, é talvez um dos mais importantes documentos da Humanidade!

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Agora é tempo de percorrer este espaço, de fechar os olhos e com a ajuda dos óculos de realidade virtual, admirar a escultura e a arquitectura, donde se destacam o Terraço, a Escadaria de Persepólis; a magnifica Porta de Todas as Nações; a Apadana e a sua escadria; a Tachara, ou Palácio de Dário, um dos mais belos, o Hadixe, ou Palácio de Xerxes; o Palácio Central e o grandioso Palácio das 100 Colunas.

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Ao alto, podemos vislumbrar e percorrer também, os túmulos de Artaxerxes II e Artaxerxes III com esculturas de nos deixarem de boca aberta onde são claros os símbolos Zoroastras e do próprio império - um pouco à semelhança do que acontece em todo o edificado de Persépolis. A sul, existe também um túmulo que não foi concluído e que consta que teria em vista ter como hóspede Dario III.

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Pisar o solo de Persépolis é viajar na História, é pisar cada pedaço daquele espaço com um sentimento especial, sentir cada pedra como pudessemos recuar séculos e séculos para trás. É repensar a própria história e acima de tudo é termos a sensação de que somos tão pequenos. É termos a noção de que uma certa História, bem lá atrás ainda tem tanto por contar... É termos respeito e perder a arrogância de que a Ocidente é que esteve/está o patamar máximo do desenvolvimento, até porque, se existiu império que não ficou atrás (bem pelo contrário) de outros como o Grego e o Romano, foi este. E ainda hoje, tal se nota em cada iraniano, desde o mais letrado até àquele que não foi bafejado com a sorte de uma educação mais formal.

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Uma coisa é certa... De Persépolis, saíremos mais ricos, mais ricos do que se comprássemos qualquer produto de luxo no Harrods. Mais ricos do que se trouxéssemos meia-dúzia de lingotes de ouro na mão!

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IMG_1701.JPGImagens: Robinson Kanes

 

Amanhece em Shiraz, o sol brilha logo cedo e nem sentimos a diferença de horário. Preparar um jantar iraniano foi fantástico, abençoada suite de hotel que nos permitiu, nesta estada, também tomar parte neste cultura de forma mais profunda.

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Não deixámos de passar uma noite agradável e na companhia de duas jovens iranianas que nos mostraram um pouco das ruas do norte da cidade e ainda nos fizeram prometer que faríamos compras no supermercado dos pais. Uma sem sonhos ainda definidos, outra com um desejo de ser professora de inglês. Quiseram saber tantas e tantas coisas da nossa vida e que nos interrogaram mil e uma vezes do porquê de não poderem ter um namorado não-iraniano.

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Mas temos de seguir caminho pela cidade, há tanto para ver e sentir. Depois do "Jardim Eram" e das suas águas límpidas, a "Casa Qavam/Museu Nerenjestan", construída em finais do século XVIII por ricos comerciantes de Qazvin.

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Os jardins e o espaço são mais uma demonstração do encontro da cultura ocidental com a cultura persa - uma curiosa representação de como ambas podem combinar muito bem arquitectonicamente. A rua movimentada lá fora, não nos deixa permanecer por lá muito tempo, chama por nós... Não obstante, à saída, paramos, olhamos mais uma vez os jardins, recordamos os espelhos, inalamos o odor das flores do jardim e saímos para um sumo de romã.

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Entre talhos, lojas de ferragens, lojas de comida, enfim... lojas de tudo, percebemos que está a chegar a melhor hora para visitar a "Mesquita Nasir ol Molk", também conhecida como "Mesquita Rosa". No bairro de Gawd-i Arabān, encontramos esta herança dos Qajars. Amplamente conhecida, esta é uma mesquita singular pelos seus vitrais que, escolhida a hora certa da posição do sol, se tornam ainda mais encantadores! É um local muito procurado pelos turistas para as fotos, mas é no pico da sua beleza que encontramos menos gente e nos permite apreciar toda a sua arquitectura. Podemos examinar o seu pátio e deixar que as cores dos vitrais se possam reflectir no nosso rosto, nos tapetes persas e transformar-nos também em parte daquele mundo de maravilhas. É um monumento único, belo e onde nos sentimos a viajar por contos e lendas da pérsia.

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Alguns turistas "irritam-nos" tentanto simular orações e uma certa pose para a fotografia, o banalismo habitual... Fascina-nos, contudo, a condescendência da segurança que com um sorriso no rosto sente que partilha um pouco de si com todos aqueles que deliciam perante um património de uma riqueza invejável... Fascinam-nos aqueles que lá se encontram em recolhimento... E é junto desses que também nos sentamos antes de abandonar o local e voltar às movimentadas ruas da cidade. No entanto, a sensação de que saímos de um mundo grandioso e mirífico contido numa sala tão pequena não nos abandona.

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E é tão difícil deixar este templo, no entanto, mal sabemos que ao longo dos dias ficaremos a perceber que uma das imagens de marca do Irão está longe de ser apenas esta e mais uma ou duas que conhecemos até agora. É hora de almoçar e pela rua vamos comendo aquilo que nos oferecem, temos que passar pela famosa "Universidade de Shiraz" e pela "Porta Quran" - queremos apenas sentir se o conhecimento que já temos destes locais se reflecte de poderosa forma nas nossas emoções.

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É hora de começar a pensar no "Santuário de Ali Ibn-e Hamze" que se apresenta hoje como mais uma reconstrução pois os sismos em Shiraz são frequentes.

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Ao entrarmos sentimos o peso da religião e da história. Sentimos o peso da amizade, nenhum dos acessos nos é vedado, tomamos chá, comemos doces e ainda temos um diálogo sobre o Islão e o Cristianismo. O diálogo e a experiência acaba por se sobrepor à beleza do espaço, dos seus espelhos, da sua arquitectura. Para nós é interessante na medida em que sendo pouco crentes (pelo menos eu), do outro lado temos um crente fervoroso mas com uma abertura de espírito tal que reconhece as fragilidades da sua religião e entre esse reconhecimento (até porque o tema das mulheres acaba sempre por surgir) nos prova que a própria Bíblia é muito mais castradora em relação às mulheres do que o Alcorão.

Ali Ibn-e Hamze_shiraz_iran.jpgÉ interessante esse diálogo... A abertura religiosa é, aliás, uma das imagens de marca deste povo. Como já havíamos sentido noutros países, por vezes, algum desconforto religioso sucede dentro da própria confissão e não com crenças exteriores. Conversamos largos minutos... Sentados dentro do santuário enquanto outros estudam e fazem as suas orações, o diálogo inter-religioso (e até entre quem não é crente) a acontecer e o respeito permanente entre os três vértices deste triângulo. 

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Terminamos a conversa com um convite para a "Mesquita Vakil", um edifício que ocupa uma área de mais de 8500m2 e que foi construído no terceiro quartel do século XVIII durante a dinastia Zand, sendo restaurado já no século XIX sob a liderança dos Qajars.

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A entrada, o pátio das orações, os minaretes e os pilares são algumas dos seus aspectos mais peculiares. O pôr-do-sol é também o momento perfeito para apreciar este espaço. A luz do crepúsculo cria uma imagem perfeita que, se complementada com aqueles que vêm aqui prestar o seu culto, se torna ainda mais pulcra.

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"Acompanhamos" as orações e voltamos ao exterior. Hoje ainda lá anda o "nosso" declamador de poesia persa. E é com ele que deixamos que o anoitecer se intensifique... E é com a poesia de Hafez e de tantos  outros que nos entregamos novamente às delicias astronómicas iranianas...

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Uma nota final para o facto de Shiraz ser também a região onde, no Irão, se produz/produzia um vinho fantástico. Até hoje, ainda é controverso se a casta Syrah vem de Shiraz. Testes genéticos dizem que não, todavia, também a produção deste vinho (deste e de outros) em terras iranianas não é permitida desde a revolução de 1979.

 

Sobre Shiraz

Shiraz: Cidade dos Jardins e dos Poetas

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