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Teerão: A Cidade de Onde é Difícil Sair

E não é só por causa do trânsito...

por Robinson Kanes, em 07.11.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

O calor aperta, em Teerão aperta bastante e um dos taxistas que vamos conhecendo diz-nos que ainda não é nada. A tarde começa a mostrar a força da poluição, em algumas zonas é impossível respirar - onde é que já vimos isto.

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As ruas continuam pejadas de carros e de gentes - uns em trabalho, outros simplesmente deambulando. É notável como se sente o conhecimento que também habita este povo. Este povo que faz questão de se assumir como persa e que não precisa de engalanar um facto que está à vista: a inteligência, o saber e a forma de estar. 

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Dirigimo-nos agora para o Palácio de Sadabade, mais a norte da cidade. Ainda voltamos a passar por um dos pontos de referência para quem se desloca na mesma, a Torre Milad. O taxista, numa cidade onde não faltam taxis e é habitada por 10 milhões de pessoas já é um conhecido, encontrámo-lo por mero acaso em Tajrish e foi uma alegria ao ver-nos! Pelo caminho vamos vendo entrar e sair passageiros, em Teerão também é assim e sempre fica mais barata a viagem. Inesperado é também o facto dos transportes públicos terem áreas (e até carruagens no caso do metropolitano) separadas para homens e mulheres mas dentro de um taxi ter circulado várias vezes quase abraçado a muitas mulheres - as coisas estão a mudar.

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Mas o Palácio de Sadabade? Sim, entre jardins (não fossem os persas uns autênticos mestres na arte) encontramos um edifício moderno mas bem decorado, foi aqui que viveu o último Xá da Pérsia com a família. Mohammad Reza Pahlavi deixa-nos esta herança que já vinha dos Qajars e desde o seu abandono em 1979, ficou um complexo ajardinado com vários palácios, edifícios museológicos e governamentais, inclusive o palácio presidencial.

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Gostamos de estar aqui, respira-se ar puro, é bom ventilar os pulmões em Teerão e além disso as montanhas já estão perto. Passamos pela "Embaixada" dos Estados Unidos que não é mais que uma memória histórica da crise dos reféns americanos de 1979! Praticamente intacta, transporta-nos para aqueles dias e onde é inevitável a propaganda anti-americana. Salvo uma situação ou outra, não vamos encontrar no Irão propaganda anti-ocidente em tudo o que é local, ao contrário do que é transmitido por algumas publicações. Nota-se sim uma presença ainda forte da memória da guerra Irão-Iraque e dos mártires da mesma, inclusive no cinema e na televisão.

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Mais um taxi, mais uma viagem onde conseguimos por meio de gestos chegar à "fala" com o condutor pois a música que este ouve é fantástica - indica-nos duas boas rádios que prontamente registamos e até nos daremos, mais tarde, ao desplante de pedir aos taxistas que sintonizem as mesmas. Chegamos ao Grand Bazaar, queremos percorrer novamente a cidade mas não deixar para trás a visita à Mesquita Shah ou Mesquita Soltani.

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O relógio e os minaretes compõem o edifício e dão uma alma especial a uma praça onde comerciantes e clientes se misturam num ponto de passagem obrigatória, mesmo para os locais. Ficamos a sabe, em conversa com um iraniano, que este espaço, da era dos Qajars é histórico na medida em que foi aqui que se deram os primeiros passos para a Revolução Iraniana de 1905.

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Esta revolução teve as suas raízes depois da humilhação de alguns comerciantes acusados de serem os culpados pela especulação em torno do aumento do açúcar e que, além do encerramento do Grand Bazaar, levou à revolta de todo um povo. Foi também quando se dirigia para esta mesquita em 1951, que foi morto Haj Ali Razmara, primeiro-ministro do Irão, quando se dirigia para o funeral do Aiatola Feyez e que acabou por gerar mais um período complexo na história do país.

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Estamos cansados e Teerão ainda tem tanto para ver e sobretudo para sentir...

 

Amanhecer em Teerão

Teerão - A Metrópole da Pérsia

 

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Teerão: A Metrópole da Pérsia...

por Robinson Kanes, em 06.11.19

Teerão_grand_bazaar-2.jpgImagens: Robinson Kanes

 

 

Há que distinguir entre conhecer e experimentar. Verdade conhecida não é o mesmo que verdade experimentada. Devia haver duas palavras distintas.

Aldous Huxley, in "Sem Olhos em Gaza"

 

 

Teerão não é a cidade mais bonita do mundo, mas existe algo que a torna especial: as suas ruas sempre numa azáfama, a poluição e a aridez que não abonam a seu favor mas... mas as suas gentes são outra coisa. A ausência de qualquer conduta na condução é algo que nos obriga a esquecer que existe um código da estrada, atravessar passadeiras é outro dilema, sobretudo quando aprendemos a atravessar e a arriscar, "eles vão parar, quando nos virem no meio da estrada param". Muitas vezes não procuram parar e até nos fintam seja de mota ou de carro mas sentimos que é aí que "perigosamente" já estamos com o chip da cidade. Torna-se ainda pior quando damos connosco a resmungar duas ou três palavras em farsi - é preciso dar resposta às buzinadelas e às criticas que chegam de todos os lados nestas situações.

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Queremos conhecer mais do Irão e embora (injustamente na maioria dos casos) muita da história deste país e desta civilização se encontre em museus espalhados sobretudo pela Europa, é importante visitar o Museu Nacional. É atroz a forma como muitas das mais importantes relíquias de um povo se encontram em museus de outros países!

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Por esse motivo este espaço museológico não é tão rico! No entanto, divididas entre duas áreas (O Museu do Antigo Irão e o Museu Islâmico) - a desculpa, dada a ocidente, de que o museu é pobre esconde uma vergonha em não assumir que não é propriamente por causa da divisão dos artefactos ou até a ausência de explicações mas sim pelo simples facto das principais peças estarem noutros lugares fora do país. Após a visita fica-nos não uma vontade de procurar as peças no exterior mas de conhecer Persepólis, um verdadeiro tesouro da Humanidade.

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Mas Teerão tem também o Palácio Golestan, uma jóia (extravagância?) dos Qajars. Deslumbramo-nos com o exterior do palácio, com a sala dos espelhos, com os azulejos e com toda a envolvência e simpatia daqueles que lá trabalham. A mim, perguntam-me se sou iraniano, algo que estranho - ao fim de alguns dias  deixarei de estranhar e até aproveito as deixas. 

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Este palácio, Património Mundial da Unesco, é uma jóia e onde as culturas ocidentais e persas se fundem numa forma única e se complementam num espectáculo de beleza singular - O "Khalvat-e Karim Khani", os tapetes, o "Emarat Badgir" e os azulejos são o nosso fascínio.

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E com tudo isto finda-se uma manhã bem no centro da cidade, entre quartéis, edifícios governamentais e claro, uma visita aos tesouros nacionais - não somos propriamente entusiastas, mas as pedras e metais preciosos que o Banco Nacional alberga são de deixar qualquer um de boca aberta. É hora de almoçar e no Irão, seja na rua, sentados num jardim ou efectivamente num restaurante, a oferta não falta e os pistácios crús não alimentam por aí além.

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Passamos ainda uma vez (e passaremos tantas mais) pelo Grand Bazaar e como esperávamos, esquecemo-nos de almoçar! Por incrível que pareça apenas compramos alguns frutos secos mas deliciamo-nos com as gentes, mais uma vez. Dizer que estes espaços são como na Turquia, é estar completamente fora do contexto. Queremos ver as gentes, apaixonam-nos os rostos, alguns tristes mas com uma vontade enorme de esboçar um sorriso - é algo que encontramos com abundância. Deambulamos, conhecemos, conversamos e vemos gente bonita e isso em Teerão não é nada difícil.

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Vamos almoçar, agora sim... 

 

- Amanhecer em Teerão

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E se na Web Summit...

Houvesse uma Invasão de Vândalos e Faltasse a Água?

por Robinson Kanes, em 05.11.19

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René Magritte - La Clef des Champs (Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, Madrid)

Imagem: Robinson Kanes

 

O caminho para o inferno está pavimentado de racionalização.

Robert Sapolsky, in  "Comportamento"

 

Por estes dias andamos "todos" em festa com a "Web Summit", mesmo que, também por cá, seja uma minoria que saiba e se preocupe realmente com isso. O ruído em torno dá a ideia de uma mobilização em massa, nada mais errado. Contudo, é importante percebermos que a tecnologia está aí e veio para ficar, ignorar a mesma é ficar na Idade da Pedra.

 

No entanto, neste país desenvolvido, como seria se no grau máximo do desenvolvimento faltasse a água na "Web Summit"? Desde que não faltasse a internet acredito que muitos conseguiriam sobreviver meses sem água. Mas se faltasse? Se as torneiras secassem mesmo que um ministro afirmasse que havia água para toda a gente e perante provas cabais depois dissesse que afinal nem havia água? Se mesmo em frente o Tejo secasse, por exemplo? Só não nos preocupamos tanto com o Tejo porque em Lisboa temos o Atlântico e não parece existir redução de caudais...

 

Que manobras mediáticas e de comunicação faríamos para dizer que está tudo bem? Chamávamos o célebre Mário Lino para dizer que afinal também a margem norte da região de Lisboa é um deserto? Poderíamos contar com os ambientalistas do costume (Zero e outros.... Ambientalistas?), com os "Verdes" que estão podres nada fazerem, com o PAN que anda a ver se ninguém fala do silêncio deste depois do Estudo de Impacte Ambiental no Montijo e até do Bloco de Esquerda, o anti-capitalista que segue o PAN no Montijo, mas que entretanto é social-democrata apesar de gostar de uma festa bem regada com euros. O que fazer?

 

Também neste país desenvolvido parece que uma prática com anos tem vindo a ser descoberta porque existem pessoas que finalmente perceberam que a tecnologia não é uma feira de vaidades e também está ao serviço da população, sobretudo na divulgação de um país podre social e culturalmente.

 

Parece que as agressões a bombeiros e a vandalização de quartéis já é um hábito de norte a sul com especial incidência a sul, mas só agora chega aos ouvidos de todos (agora com a ocultação de raças, credos e crenças dos envolvidos)... Reina a impunidade neste país desenvolvido, onde se criou um "Fort Knox" para um evento privado, altamente subsidiado, não acessível a todos, pseudo-elitista (embora querem que pensemos que é mesmo de elite), sem envolvimento da comunidade, mas se permite que aqueles que salvam vidas apanhem no lombo perante a total ausência de punição e o silêncio ensurdecedor de autoridades locais, regionais e nacionais.

 

Vivemos num país demasiado evoluído, tão evoluído tecnologicamente que quem tem tecnologia de ponta (e passo a redundância) na ponta dos dedos ainda não tem liberdade, coragem e à vontade para ver que os caudais dos "seus" rios estão a secar e que reina para alguns indivíduos uma espécie de impunidade que ninguém consegue compreender. 

 

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Halloween? Not!

Importar para Destruir...

por Robinson Kanes, em 04.11.19

Jean Baptiste Greuze - La Malédiction Paternelle.

 

Jean Baptiste Greuze - La Malédiction Paternelle (Musée du Louvre)

Imagem: Robinson Kanes

 

Agora que a febre do "Halloween" já passou, penso nos efeitos do mesmo nas nossas crianças e sobretudo nos nossos adultos.

 

Espanta-me que, mais uma vez, Portugal tenha abdicado da sua identidade para ceder a uma importação fraca de uma prática que em nada está relacionada com a nossa forma de estar. Enquanto o México (e não é fácil com os Estados Unidos tão perto) luta por manter a sua tradição do Dia(s) dos Mortos (1 e 2 de Novembro) transformando-a até em atractivo turístico, por cá apagamos a memória, e não é a memória religiosa mas a memória de um povo. Ainda esta semana recebi um vídeo de um amigo mexicano que mencionava claramente a necessidade de não se confundir o "Dia dos Mortos" com o Halloween.

 

Fui criado em seio católico mas estou longe de me afirmar como tal... No entanto, não é por não ser católico que não celebro o Natal, a Páscoa e se quisermos o "Dia dos Mortos" ou "Dia de Todos os Santos".  Muitas das celebrações do cristianismo nem são mais que meras apropriações de práticas bem mais ancestrais e que de religiosas tinham pouco. Durante muitos anos, lembro-me que este era um dia para ser celebrado com a família, com alegria sim, mas recordado quem não estava. 

 

A verdade é que trocámos um momento de reflexão (reflectir, esse bem escasso), paz e até de recordação daqueles que já não estão cá por fantasias de terror e um cravar de doces que pouco ou nada significa, aliás, em muitos casos até reveste contornos de "vandalismo" com carros e casas que são alvos de brincadeiras menos próprias - afinal é "Halloween" e são crianças. Não!

 

Não explicamos às nossas crianças (e aos adultos) o porquê, independentemente de sermos religiosos ou não,  a importância de um dia como este! Não procuramos preservar o chamado "Pão por Deus" (seja lá Deus o que for) e o quão essa prática era importante na dinâmica de comunidade e até de estabelecimento de laços de vizinhança sólidos. A verdade é que vestimos as nossas crianças de mortos com uma facilidade tremenda, a mesma com que mudamos de canal ou ignoramos quando vemos cadáveres na televisão ou até ao nosso lado - a não ser que alguma imagem se torne viral e aí todos nos tornamos seres sensíveis. Somos os mesmos que afastamos as nossas crianças dos funerais quando alguém morre - a avó foi fazer uma viagem! Somos os mesmos que fazemos um frete em ir ao funeral de...

 

No fundo,  ninguém retira nada disto a não ser uma carga de açúcar e uma brincadeira que ninguém sabe muito bem para que serve. Espanta-me, por exemplo, que algumas escolas e infantários façam um alarido com o "Halloween" e pouco ou nenhuma importância atribuam à Páscoa, ao Dia de Portugal ou até ao Dia Mundial da Criança.

 

Temos de nos recordar que, sendo portugueses (e seres-humanos) temos uma identidade, temos uma forma de estar e até um humanismo e sentido de comunidade (?) que não é trocado porque meia-dúzia de indivíduos ou instituições decidiram, à pressa, substituir práticas intrínsecas e enraizadas durante séculos. Provavelmente até estamos a conseguir uma coisa com o "Halloween" e que reveste o terror, de facto - o terror que é matar o que de humano ainda nos resta.

 

Uma nota que me parece também interessante é o facto de que aqueles que até "são contra" estes dias por terem uma matriz religiosa (o que nem sempre acontece) serem os mesmos que depois o substituem por uma prática puramente mercantil e da qual também são acérrimos criticos.

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Amanhecer em Teerão...

por Robinson Kanes, em 31.10.19

 

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Imagens: Robinson Kanes

 

São quatro da manhã e acabamos de chegar no salão de festas (como chamamos ao Boeing 777-300ER) que acaba de aterrar em Teerão. Não somos muitos, a maioria chegou deitada ao longo dos bancos, quase não fomos excepção mas a fome manteve-nos acordados a apreciar as iguarias servidas a bordo.

 

Madrugada quente, como esperamos. Algumas dificuldades com o inglês, sobretudo quando as malas ficaram do outro lado do Golfo Pérsico. Conseguimos encontrar alguém que fala bem francês, temos agora um canal privilegiado de comunicação.

 

Depois dos tapetes de recolha de bagagem, na zona das chegadas, uma celebração! São quatro da manhã, alguém celebra com música e dança um herói desportivo, juntamo-nos à festa e somos agraciados com um abraço. Em Teerão sê iraniano e ambienta-te. O nosso contacto espera-nos com um ar de quem precisa de dormir, temos consciência disso e seguimos caminho.

 

O 206 já não sabe o que é a quinta mudança e a luz do motor ligada já é rotina (mais tarde iremos perceber que não é assim tão fora do comum). Conversamos num inglês complicado - paramos entre o aeroporto e o hotel, a nossa anfitriã oferece-nos água e nós pedimos se têm garrafões para podermos encher os mesmos de gasóleo e levar para Portugal. Sorrimos, encetamos a conversa e falamos de coisas boas, de cá e de lá.

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De repente, um salto de alegria num rosto cansado... "Sabes, tenho uma filha com 7 anos. Vai ser o primeiro dia dela na escola e eu vou levá-la. Estou tão contente!". O sorriso e a felicidade com que esta jovem nos disse isto comoveu-nos - não fossem quase cinco e meia da manhã e a nossa anfitriã ter de estar levantada para levar a filha às sete. Contudo, com o desenrolar da conversa, o pouco optimismo em relação ao futuro nos estudo era evidente - tentámos deixar algum desse optimismo e dar força à mãe para nunca deixasse que a filha desistisse dos sonhos.

 

A noite já quer dar lugar à manhã, e o trânsito começa a adquirir o seu aspecto caótico, tão característico desta cidade - a poluição já é notória, outra característica capaz de, em dias, levar à morte alguém mais fraco dos pulmões.

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Estamos cansados, é hora de nos despedirmos - aproveitamos o quarto apenas para um banho e para o pequeno-almoço. Não esqueceremos aquele sorriso e desejar o melhor para o futuro de mãe e filha. O Irão hóstil? De madrugada e ao início da manhã não...

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Imagens: Robinson Kanes

 

Decidi antecipar o "Dia dos Mortos" e consequentemente aquele artigo que antecede quase sempre o final da semana. Talvez esse sentimento de perda se tenha abatido sobre mim por antecipação, talvez essa saudade, não das coisas más, mas das coisas boas que este dia trouxe durante muito tempo... Aproveitarei, no entanto, para amanhã deixar algo mais reconfortante para os três dias de "descanso" que se avizinham.

 

Para uma leitura, depois de "A Esperança" terei de voltar a André Malraux, é imperativo que assim o seja. Para estes dias, nada melhor que "A Estrada Real", que conhecer pelos olhos de Claude o grande Perken e a sua luta pelos valores e quiçá pela morte. É um livro que nos torna mais adultos enquanto deambulamos pela Indochina.

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Uma das minhas paixões por música clássica deve-se aos requiem. Este estilo, apesar da tristeza, mas também da força e da esperança que nos dá tem-me acompanhado desde muito jovem - cedo fiquei fascinado com as composições de Mozart e Verdi. No entanto, ao longo dos anos, fui descobrindo preciosas obras e deixo as minhas duas sugestões para estes dias, talvez os melhores (ou não) para escutarmos um requiem. A primeira audição vai para um dos meus preferidos, o "Requiem em Dó Menor" de Luigi Cherubini. Imaginem-se em Florença, junto ao rio ou até em Fiesole, bem perto a escutar esta composição! Talvez me tenha deixado influenciar pela naturalidade do compositor, porque o mesmo foi escrito em memória de Luis XVI de França.

E porque é importante não compactuar com a ocultação dos nossos grandes mestres, não posso deixar passar um dos mais belos requiem de sempre e que é português! O "Requiem Op.23" de João Domingos Bomtempo! Uma "homenagem" a Camões, à sua memória e à língua portuguesa que hoje está sob ataque cerrado! Escutemos Bomtempo e escutemos aquele(s) que muitos teimam em fazer esquecer mesmo que continue a passar nas grandes salas por esse mundo fora.

E a propósito de Bomtempo, porque não irem à Igreja de São Roque no dia 1, pelas 21h:00m, ouvir o Ensemble MPMP? Poderão ouvir do compositor Bomtempo "LIBERA ME" e as "Quatro Absolvições". Aproveitem e vejam também a estreia das "Canções do espaço e da luz" de Hugo Ribeiro. Estas apresentações estao incluídas na Temporada de Música em São Roque! Podem consultar aqui o programa.

 

E porque o pedantismo já vai longo, nada como fechar com um filme... Amor e morte, mas muito mais amor. O filme "Amour" de Michael Aneke deveria ser obrigatório para jovens e adultos. Um filme que ganhou a Palma de Ouro em Cannes e o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro - conta ainda com a portuguesa Rita Blanco e duas brilhantes interpretações de Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. Há quem o veja como um retrato positivo no meio de tanta dor, tristeza e solidão, no entanto, desperta-nos para a realidade inerente a todos os estados anteriormente enumerados - e essa nem sempre é a mais agradável... Mas o amor, o amor tudo vence e aí sim, poderemos esboçar um sorriso ao longo do filme. Além disso, foi lançado numa data muito especial para mim.

E para reflectir durante os dias que se avizinham, e desta vez não é uma má notícia - os gorilas das montanha, no Ruanda, cuja extinção esteve anunciada para o ano 2000 passaram por estes dias a espécie "em perigo" deixando a categoria de " em grande perigo". É uma vitória para todos aqueles que protegem uma espécie que partilha 98% do nosso ADN. Os gorilas têm aumentado em número e por isso todos estão de parabéns, não só no Ruanda, mas também na República Democrática do Congo e Uganda. África também precisa que as boas notícias cheguem até nós!

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"Tá a Andar de Mota"...

Rosa Mota e o Pavilhão...

por Robinson Kanes, em 29.10.19

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Créditos: https://www.ligarunning.pt/noticias/details.php?id=2536417&s=r

 

O Governo já apresentou o programa que pretende implementar em Portugal para os próximos quatro anos deixando de fora um sem número de medidas estruturais que todos prometem década após década mas nada se vê.

 

No entanto, o país, não deixou ficar esquecida a vaidade da atleta do povo, Rosa Mota. Esta senhora, que vemos sempre em corridas por tudo e por nada e também em campanhas partidárias, ficou muito ofendida porque o seu nome não vem em primeiro na nova designação do "Palácio de Cristal" ou "Pavilhão Rosa Mota". O novo nome "Super Bock Arena - Pavilhão Rosa Mota", não agrada à atleta que parece achar que tem mais importância do que quem investe no crescimento e desenvolvimento de uma cidade e não vive à sombra desta.

 

Mas vejamos, pois até podemos ficar do lado de Rosa Mota, daí a importância deixar algumas questões:

- Em todo este tempo que Rosa Mota teve o exclusivo do nome, será que fez o suficiente para que o edifício não acabasse por ficar quase em ruínas? Sendo embaixadora desse local, o que fez?

 

- Para a remodelação do edifício, o que fez Rosa Mota em termos de investimento e ideias para o mesmo?

 

- Sabendo das intervenções no edifício, porque é que Rosa Mota e o seu agente, fintaram a autarquia portuense e encetaram negociação com a Unicer (que aparentemente não teve sucesso)? Quem faz este tipo de manobra não procura propriamente discutir nomes mas outras coisas, nomeadamente contrapartidas monetárias.

 

- Será Rosa Mota assim tão importante para o Porto? Sabemos o quão traiçoeiro pode ser dar nomes de ruas e espaços a indivíduos que nos podem deixar ficar mal - Cristiano Ronaldo e José Mourinho, por exemplo, só não foram presos porque pagaram milhões de euros por simplesmente terem sido criminosos, no entanto, como outros (sobretudo ligados ao desporto) continuam a ser os nossos grandes embaixadores.

 

- Rosa Mota, tão activa partidariamente, terá alguma vez tentado transformar o "seu" Porto e com isso deixar a sua marca na cidade - e não estou a falar de duas ou três corridas para entreter as pessoas.

 

- Será que este drama não está relacionado com o simples facto de Rosa Mota não ter sido considerada quando se falou de pagamentos?

 

- Será que Rosa Mota se esqueceu que as homenagens não são dados adquiridos e que podem ser retiradas (e aqui nem foi o caso)? Será que Rosa Mota ainda não percebeu que as homenagens não surgem a pedido? Rosa Mota não é proprietária do espaço, portanto é algo que era passível de acontecer a qualquer momento.

 

- Será também Rosa Mota melhor que muitos portuenses que têm trabalhado para o desenvolvimento da cidade? E são muitos que diariamente fazem mais do que dizer que são do Porto. Não são apenas portuenses em capas de revista ou tempos de antena partidários. Além de que ainda circula a história de que perante a falta de subsídios a atleta ameaçou representar outra bandeira - se foi verdade, desconheço, mas fica aqui uma boa dica para o polígrafo investigar.

 

- E será que vale mais ter um espaço em ruínas com um nome de um atleta ou um espaço dinâmico e que se pode rentabilizar a si próprio?

 

- Deste modo, não devemos também devolver o nome original à primeira ponte sobre o Tejo? Consta até que o pouco democrático indivíduo em questão nem queria o seu nome na mesma!

 

E será que Francis Obikwelu, Fernanda Ribeiro, Aurora Cunha, Manuela Machado (eleita a melhor atleta ibero-americana em 1998) e tantos outros são menos importantes que esta senhora, ou será que o facto de não estarem ligados a partidos políticos (excepto Fernanda Ribeiro)e corporativismos tem influência? Em países pequenos, onde são sempre os mesmos, é isto que acontece... Muitas ditaduras e muitas sensibilidades.

 

Uma nota final: e se efectivamente o Presidente da República cancelou a sua presença na inauguração do espaço por desconforto com esta situação, temos mais uma vez Marcelo igual a si próprio, ao sabor do vento e a presidir a um país para comunicação social ver. Além disso, a ser verdade, mais uma vez, Marcelo toma parte numa matéria que nada tem a ver com a posição que ocupa.

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Manhã de Sábado em Belém...

O Chulo e o Provinciano...

por Robinson Kanes, em 28.10.19

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Claude Monet - Regates a Argenteuil (Musée d'Orsay)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

Doca de Belém... O sol brilha, é Sábado de manhã... Eu não estou a fazer nada, apenas a aproveitar esta luz fantástica enquanto vejo turistas e mais turistas com camisolas falsas de grandes estilistas e com sacos dos pastéis de belém. No meio da azáfama, tento pensar numa estratégia para um projecto avançar. 

 

Viatura estacionada junto às linhas que permitem a passagem daquele carro anfibío que anda pela cidade e respeitando as indicações da Autoridade Portuária. Penso... Penso no projecto. As viaturas vão-se avolumando e a minha viatura acaba por ficar, hipotéticamente a ocupar dois lugares. 

 

É nesse momento que surge um digno trabalhador deste país, vulgo arrumador ou como se encontra nos estatutos da Real Federação Portuguesa de Arrumadores de Viaturas (RFPAV): Chulo! Com uma distância de segurança, profere as seguintes regras do espaço:

 

- Podia mexer carro e tirá-lo daqui, está a ocupar dois lugares e assim a malta não consegue estacionar e eu não posso fazer o meu trabalho. Assim não dá, um gajo não anda aqui a brincar, ests gajos não respeitam ninguém.

 

Penso que o meu olhar pelo espelho foi esclarecedor, porque o indivíduo não mais palavras proferiu. De facto, confesso que me arrisquei, porque a Polícia Municipal, com a gestão do trânsito no local, estava mesmo ali ao lado a presenciar e o nosso profissional da calanzice poderia chamar as autoridades e quem ficava mal era eu. Realmente, esta falta de cidadania...

 

Devo admitir, e por isso peço desculpa, por me ter comportado de modo pouco civilizado e ter gozado com o trabalho dos outros, que é um trabalho louvável, importante para o bem-estar dos cidadãos e para a mobilidade urbana. Aliás, a minha atitude ainda foi mais reprovável na medida em que não lhe dei uns trocos... Muitos trocos! Sim, porque quem estava a pagar rapidamente ouvia o comentário "não tem mais qualquer coisa?". As pessoas andam a trabalhar e têm de ser remuneradas pelo seu trabalho! Uma vergonha, e por isso, publicamente peço desculpa aos legais profissionais do gamanço deste país.

 

Entretanto, e porque Belém é Belém... Escuto isto vindo daqueles indivíduos que até pensam que o facto de viverem na cidade os torna mais "elegantes":

 

- Epá, não sei, eu vou almoçar à EXPO, comer um peixinho, lá é que se come bom peixe, mas vocês é que sabem. Tem de ser, sabes como é... Eh... Eh... Eh... (Eh... Eh... Eh... aquele tipíco Eh... Eh... Eh... do "estás a ver Zé, isto é que é qualidade de vida, isto é que é viver à grande").

 

E nisto, depois do seu ar de pedante sai uma real escarreta para o chão (daquelas que até estalam e parecem santolas quando tocam no chão) e um "pois é cara...". Homem digno, fino e distinto, que come peixe do melhor na EXPO e usa corta-vento náutico para passear junto à doca quando faz um calor que não se aguenta... Que diga palavrões, cuspa no chão, que não saiba sequer remar e ande de corta-vento num dia soalheiro e sem vento só porque está junto ao Tejo, nem é grave... Já é um hábito! Mas caramba, peixe bom na EXPO? Irra! Realmente o que são os restaurantes de Setúbal, Sesimbra, Montijo, Alcochete, Guincho e Ericeira comparados com a EXPO! Esta é imperdoável!

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Head On com um Lobo em Time Lapse...

por Robinson Kanes, em 25.10.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Fechar a semana com a ideia de que talvez tenhamos feito justiça, de que talvez possamos ter contribuído para que o país tenha menos fantochada, menos corrosão... Ou talvez não... Talvez tenha sido apenas uma espécie de utopia que alguns lobos solitários teimam em criar, apesar do seu pragmatismo lhes dizer o contrário... Talvez por isso, para o fim de semana que se aproxima (e para a semana, pois nem todos gozam o Sábado e o Domingo) pense em Hermann Hess e no seu "O Lobo das Estepes". Talvez pense como o país seria um local melhor para se trabalhar, viver e desenvolver se levássemos esta frase a sério:

 

Imagine-se um jardim com centenas de variedades de árvores, milhares de variedades de flores, centenas de variedades de frutos, centenas de variedades de ervas. Se o jardineiro deste jardim não conhecer nenhuma outra classificação botânica para além da distinção entre "comestível" e "ruim", não saberá o que fazer com nove décimos do seu jardim, arrancará as mais encantadoras flores, cortará as mais nobres árvores ou então vai odiá-las e olhá-las com desconfiança.

Hermann Hess, in "O Lobo das Estepes"

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Para se escutar, uma série de autênticos "poemas" outonais. Talvez me sinta sempre defraudado quando assisto aos concertos de Ludovico Einaudi - é o meu egoísmo! Quero sempre que Einaudi toque só para mim, sem o aparato da banda que traz consigo. Só eu, a alemã (que abriu as portas de Hermann Hess a este indivíduo que aqui se chama Robinson) e Einaudi - preferencialmente com um Steinway & Sons. Do mestre italiano, o albúm "Time Lapse", ideal para acompanhar ou ajudar a digerir a leitura de Hess e do mundo... Uma nota para o facto de em composições como "Orbits", "Experience" e "Underwood" contar com o excelente violinista Daniel Hope. 

Um filme? Um alemão com contornos turcos, também do realizador nascido na Alemanha mas filho de pais turcos Fatih Akin. Um filme que a critica cinematográfica portuguesa não gostou muito... Não atinge patamares de intelectualidade que só os criticos percebem e como também não foi propriamente alvo de grande divulgação é normal que assim seja por terras lusas onde se alterna entre a estratosfera e a moda - sempre é mais confortável. Eu gostei... Violento, amargo, duro e pouco romântico - a vida tende a ser assim muitas vezes, como em "Gegen die Wand" mais conhecido por "Head on - A Esposa Turca". O romantismo fica sempre bem nos livros...

E porque o fim de semana também ajuda a pensar, talvez seja uma boa altura para questionarmos a nossa abordagem, sobretudo em termos de comunicação, face às alterações climáticas - a verdade é que quanto mais ruído provocamos menos eficientes estamos a ser, ou seja, o excesso de informação que vemos em tantos canais de media e não só, estão apenas a alimentar criadores de conteúdos ultrapassados e a não produzir o engagement esperado. A este propósito, e é apenas um entre muitos, nada como investirem alguns euros no website da American Psychological Association (APA) e na leitura de Susanne Moser:

Moser, S. C. (2007). More bad news: The risk of neglecting emotional responses to climate change information. In S. C. Moser & L. Dilling (Eds.), Creating a climate for change: Communicating climate change and facilitating social change (pp. 64-80). New York, NY, US: Cambridge University Press.

 

Bom fim de semana

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Da importância do CHEGA!

por Robinson Kanes, em 24.10.19

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Créditos: www.publico.pt

 

Não venho com este texto defender a ideologia de um partido como o CHEGA , ou até apelar a que este partido algum dia seja maioritário no parlamento. Não o defendo, até porque entendo que, como partido e como pessoa que tem à frente, ainda tem um longo caminho a percorrer, no entanto...

 

O modo como o CHEGA tem sido alvo de ataques no Parlamento revela que a "extrema" não está só com um deputado na Assembleia da República. O modo como outros partidos têm censurado a presença deste deputado (especialmente CDS-PP, BE, PCP e Livre - que afinal não é assim tão livre) é vergonhosa do ponto de vista da Democracia! Depois do partido ser catalogado como extrema-direita (como erradamente o Vox o é em Espanha), o partido populista, eis que agora é o alvo a abater - soa de forma estranha quando existem partidos com maior presença parlamentar que, segundo a União Europeia, estão equiparados a regimes genocidas e que não podem ser "permitidos" nessa União.

 

Também é estranho que André Ventura e membros do CHEGA não possam circular livremente em Portugal como outros o fazem! André Ventura vive numa bolha de segurança sob pena de ser agredido ou até abatido por expressar a sua opinião, dá que pensar quando apelidamos o CHEGA de intolerante. Outros circulam livremente, mesmo defendendo a morte deste e daquele político que vai contra a sua ideologia de pensamento único.

 

Para o mal ou para bem, vai ser interessante aferir como o Parlamento vai reagir à proposta de diminuição de deputados a apresentar pelo CHEGA. Vai ser interessante aferir qual a expressão dos inúmeros jornalistas que se referem a este partido em tom de "gozo" ou "desprezo" e de forma parcial indo contra a ética (se é que a mesma ainda existe) e tudo aquilo que aprenderam - inclusive, deturpando propostas e mensagens. Vai ser interessante ver os deputados e os responsáveis políticos a discutirem propostas e não a pessoa de André Ventura.

 

Como cidadão, "não me assusta" ter extrema-direita no Parlamento, pois também existe extrema-esquerda e não vejo muita gente preocupada com isso. Se é para acabar, acabe-se com as duas! Na verdade, uma coisa é certa, o CHEGA veio abanar o status quo e mostrar muita da podridão e hipocrisia presentes nos actuais partidos e movimentos políticos (pouco) amigos do cidadão.

 

O CHEGA é também um alerta àqueles que acusam André Ventura de se ter aproveitado do mediatismo na televisão. Em Portugal exemplos desses não faltam, um até é Presidente da República (outro, aos Domingos, anda a ver se o é) e foram precisos mais de 20 anos para chegar ao cargo, inclusive com jornalistas descaradamente a fazerem campanha pelo mesmo em prime time e espaços noticiosos. Um dos criticos,  que até alinha em "cartas abertas" contra André Ventura é Ricardo Araújo Pereira, cuja cor política, convicções e objectos de critica mudam sempre de acordo com orçamento e com as audiências - convenhamos, também nunca utilizou o espaço mediático (começou como "palmeiro) nem o clube desportivo para ser elevado de humorista à falsa categoria de intelectual-mor do reino.

 

Vamos esperar para ver... E contra os defensores da liberdade que estão contra, tenho de dizer: é a Democracia, estúpido!

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