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Operação "Anthropoid"

por Robinson Kanes, em 13.01.17

antropoid_jaroslavsvarc e josef valcik.png

Foi em Praga, perto da Igreja dos Santos Cirilo e Metódio (Svathéo Cyrila a Metodeje), que um americano, em viagem, meteu conversa comigo. Por norma é ao contrário, não descanso enquanto não falo com toda a gente de uma cidade, vila ou aldeia. Este americano, já de provecta idade, deu-me a conhecer um episódio bastante interessante da Segunda Guerra Mundial e cujo cenário, ou parte dele, tinha sido exactamente num local onde eu próprio já tinha passado e não havia dado por nada.

 

A Igreja, ou melhor, a sua cripta, presenciaram a luta pela vida e pela honra de 7 pára-quedistas checoslovacos responsáveis pelo assassinato do General das SS e responsável pelo governo do Protectorado da Boémia e Morávia, Reinhard Heydrich (os dois militares que estiveram directamente envolvidos foram Josef Gabcik e Jan Kurbis).

IMG_4528.JPG

 

Para terem uma ideia de tal personagem, este senhor foi o Comandante do Einsatzgruppen1 e ainda hoje, na República Checa e até na Eslováquia, mesmo após o domínio soviético, é conhecido pelo “Carniceiro de Praga”.

 

No decorrer da conversa, saltou o nome “Anthropoid” (antropoide em português, ou seja, semelhante ao homem, uma espécie de transição entre macaco e homem), nem mais nem menos que o nome de código da operação. Para uma pessoa que tem alto interesse por este tempo histórico, devo dizer que fiquei um pouco envergonhado pela minha ignorância.

IMG_4533.JPG

 

Fiquei a saber que este acontecimento, desconhecido por muitos, acabou com dois dos pára-quedistas (com o apoio do Reino Unido) a atentarem contra Heydrich e a morrerem sem saberem que tinham sido bem sucedidos, pois este viria a morrer mais tarde e não no local.

 

Após o atentando, os militares refugiram-se na cripta da Igreja  e com a colaboração do pároco (Matej Pavlík) e da congregação - estes viriam a ser detidos e executados - acabaram por conseguir guarida até serem denunciados por um traidor (Karel Curda que viria a ser executado por traição aquando do fim da guerra). Todavia, até chegarem aí, já Hitler ordenara uma perseguição e retaliação tal que se saldara em cerca de 5 mil mortos, crianças incluídas! Muitos viriam a ser executados e exterminados em campos de concentração.

Descobertos na cripta, ofereceram toda a resistência possível e só quando a Waffen SS2 pediu apoio aos bombeiros para inundar a mesma é que a situação se virou contra os pára-quedistas.

IMG_4527.JPGNo meio desta luta de 6 horas, contra 750 homens, tendo abatido dezenas e ferido outros tantos, estes bravos acabariam por ceder, ora suicidando-se com tiros na cabeça, ora sendo abatidos pelos nazis.

 

Perante esta dramática, mas empolgante ocorrência, parti à procura de mais informação e descobri que existe um filme sobre esta temática, datado de 1975 e um outro de 2016 (não é brilhante, mas é uma lição de história também). Infelizmente não passou em Portugal, pelo menos que tenha conhecimento. Estranho, até porque não tem de ser somente uma memória para os checos.

 

Enquanto, hoje em dia, mais que ser é preciso parecer, deveríamos olhar para estes “anónimos” e outros tantos como exemplo de coragem. Depois de ter tido conhecimento destes factos, poucos conheci na República Checa que não conhecessem estes heróis. Entrando na cripta, o que se sente não é agradável - facilmente, se conhecedores dos factos, vamos sentir o cheiro de morte mas também da luta que aqueles homens sentiram. Ao olhar pela pequena abertura existente na cripta, veremos aquelas 6 horas a passarem-nos à frente dos olhos e os rostos destes homens que   enverdaram por uma luta sabendo que tinham cumprido o seu dever, mas que jamais voltariam a casa.

 

IMG_4535.JPG

 

Fonte das Imagens: Própria

Legenda das Imagens (por ordem de apresentação): 

Foto 1: Sargento Jaroslav Svarc e Subtenente Josef Valcik.

Foto 2: 1º Tenente Adolf Opalka.

Foto 3: 1º Tenente Josef Bublík e Sargento Jan Hruby.

Foto 4: Subtenente Josef Gabcík e Subtenente Jan Kurbis.

Foto 5: A abertura por onde se deram os combates e o bombeamento de água.

 

Notas:

  1. Grupo de Esquadrões de Morte Nazis, responsável pela morte de mais de dois milhões de pessoas.
  2. Guarda Pessoal de Hitler, Tropa Regular e Braço Armado do Partido Nazi.

 

Para os que quiserem pesquisar mais sobre esta temática:

 

Trailer do filme “Anthropoid” de 2016 em https://www.youtube.com/watch?v=blAKCJcXC5c

 A cena do atentado no filme de 1975 em https://www.youtube.com/watch?v=FhpSaQ05Nts (denotem que o atentado ia falhando porque a metralhadora não disparou).

A cena final no filme de 1975 em https://www.youtube.com/watch?v=v5YVAqwC5UU 

Operação Anthropoid: http://www.holocaustresearchproject.org/nazioccupation/heydrichkilling.html

 

 Actualização a 14/01/2017

Como o prometido é devido deixo algumas imagens da Igreja e da Cripta.

Fonte das imagens: Própria

 

IMG_4514.JPG

Fachada lateral da Igreja dos Santos Cirilo e Metódio

 

IMG_4515.JPG

Pormenor da "abertura" por onde foi bombeada a água e se deram os combates.

IMG_4534.jpg

Panorâmica do interior da cripta.

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Escada interior de acesso à cripta.

IMG_4526.JPG

 Pormenor da cripta.

 

 

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Je Suis Palmira... Je Suis Aleppo...

por Robinson Kanes, em 17.12.16

6fev2016---os-recem-casados-nada-merhi-18-e-hassan

 

 

Je suis Palmira ou Je suis Aleppo não é tão pomposo como Je suis Charlie Hebdo ou Je suis Bataclan e existem algumas razões, nomeadamente...

 

Em Aleppo e Palmira não se compram discos, não se arranjam empregos e há pouca gente interessada no local onde fomos jantar ontem. Os “famosos” não encontram, aí também, gente que esteja muito interessada nestes - ou seja, gente que não permite que os primeiros se perpetuem com pequenas mensagens egoístas de solidariedade – mas gente que somente procura fugir da guerra e isso não é lucrativo para a imagem de bom cidadão das redes sociais mas que nem se levanta da cama se a casa do vizinho estiver em chamas.

 

Dar um concerto de “solidariedade” no Bataclan é mais interessante para as vendas do novo disco, do que arriscar a pele num Estado Árabe.

 

Aleppo e Palmira estão cheia de gente esfarrapada que convive “bem” com a morte e (in)felizmente está até preparada para morrer. Na Europa e na restante sociedade ocidental, a morte é somente um espectáculo a que todos gostam de se associar. Fica bem dizer que estou solidário com uns atentados na Alemanha, mesmo que não entenda o contexto em que os mesmos ocorreram... afinal, para os canais noticiosos é mais fácil e... barato... conseguir imagens praticamente em directo de todos os acontecimentos cá em casa do que esperar três dias para que os preços praticados pelas grandes agências noticiosas baixem e estes possam adquirir uma versão low-cost do que se passa lá tão longe. Aquela morte espectáculo chega-nos com outro impacte.

 

“A Síria é longe, quero lá saber”... é verdade, mas também é verdade que foi por ali perto que cedo se ficou a conhecer o termo “civilização”. Ou seja, como sociedade que somos devíamos estar gratos por ser ali a nossa génese (como organização de pessoas).

 

Também é verdade e... paradoxal, que num mundo globalizado, onde estamos todos interligados olhemos para esta realidade como... distante... A Síria faz fronteira com a Turquia que por sua vez ocupa também um espaço na Europa e onde em menos de meia dúzia de horas é possível chegar de avião.

 

Morrer na Síria e em massa... ou em muitos outros países não é notícia, não é uma tragédia... nem é uma estatística como diria Estaline, é ignorar... é não existir. Morrer na Europa é diferente, é alguém que morre na nossa casa, é um cidadão que tinha nome, vida, família e um sem número de características que a sociedade ocidental tem e os outros não... os outros não, pensamos nós de forma arrogante... Morrer na Europa é caro, morrer na Síria sai barato.

 

Na Síria morre-se porque sim, não existe uma ideia para dar ao gatilho como dizia Vergílio Ferreira, morre-se sem saber porquê... um tiro, numa conjuntura destas, nunca poderá ser eficaz.

 

Falar da morte de Mário Soares (poderia ser outro) antes do mesmo morrer efectivamente, mesmo que mais de metade dos portugueses não nutram por este grande simpatia, é mais lucrativo e sempre abre mais umas portas do que pensar no que se passa ali ao lado, também em hospitais (hospitais?) da Cruz Vermelha, mas com tanta gente como nós que... humildemente só quer paz.

 

De facto, pensar nas coisas não é algo que se partilhe nas redes sociais, mas talvez permita construir seres-humanos mais atentos à realidade. A verdadeira rede social somos todos nós... independentemente da localização ou do credo.

 

Fonte da Imagem: http://imguol.com/c/noticias/5d/2016/02/06/6fev2016

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