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Da Apologia da Escroqueria!

A Visão e o Raríssimo Manuel Delgado...

por Robinson Kanes, em 16.10.19

 

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Créditos: TVI

 

 

Os hábitos são fáceis de criar mas muito difíceis de quebrar.

Paul Dolan, in "Projectar a Felicidade"

 

No país dos compadrios, não é de admirar que uma prática comum seja o facto dos verdadeiros escroques, dos verdadeiros pulhas passarem de bestas a bestiais e os verdadeiros bestiais em segundos se transformarem em bestas, sobretudo se não estiverem inseridos em grupos e grupelhos de cariz partidário, profissional, solidário e mediático. 

 

Devo admitir, embora respeite a liberdade que um meio de comunicação tem de "botar faladura" de todo e qualquer indivíduo, que foi com perplexidade que vejo em destaque um comentário do alto da sua sabedoria do senhor Manuel Delgado. Na Visão e com o respectivo destaque no SAPO, o raríssimo Manuel Delgado, o tal que não acha imoral acumular fortuna com dinheiro destinado ao tratamento de crianças com doenças raras; o tal que viaja, e passo a expressão, "à conta" das crianças com doenças raras e ainda tem o displante de se fotografar em belos e próximos passeios com a presidente de uma associação que já todos percebemos como funcionava, volta a aparecer. O tal que nada sabia, um pouco à semelhança de Vieira da Silva, então Ministro que teve o justo prémio de se manter no cargo e continuar como se nada tivesse acontecido - quem tem a família "toda" no Governo não deve abandonar os seus, de facto.

 

Delgado vem falar de novos modelos, de moralidade e claro, de política. Utiliza até expressões como " ignorância, imaturidade e excesso de ideologia liberal" para criticar aqueles que têm uma opinião diferente da sua. Quanto a isso, não tenho nada contra, é o retrato de um moribundo moral que ainda respira, mas este senhor, mais um dos que sofre da real amnésia nacional quando confrontado com factos que o colocam em maus lençóis, não deveria ter vergonha de aparecer? E o palco que lhe é dado? Sabemos que continua a desempenhar funções em áreas que muitos que até sabem mais nunca poderão sonhar, quando muito poderão emigrar. Estarão a Visão e o Sapo a dar tempo de antena e a trazer para a praça de cara lavada este indivíduo? É assim que procuramos a renovação? É assim que valorizmaos os melhores? Não!

 

Neste país onde prejudicar o erário público e ser um pulha, desde que bem relacionado, se pode aguardar uma demissão e uma ligeira caminhada pelo deserto para voltar em força como salvador da pátria, não é de espantar. Não é de espantar que indivíduos como este continuem por aí a pulular, com altos cargos públicos e partidários, com altos cargos aqui e acolá e com o nome manchado na praça.

 

O público esquece-se, mas um verdadeiro aluno deste senhor da Universidade Nova, por certo, não hesitaria em recusar-se a assistir às aulas de tão "reputado" profissional! No entanto, fica sempre bem dizer que o professor é deste e daquele partido, desta e daquela associação, mesmo que se trate de um verdadeiro pulha! Os valores, o saber e a integridade pouco interessam para o CV... Afinal, e como dizia Paula Brito da Costa, por outras e palavras quando ainda era presidente da Raríssimas, são senhores como este que podem trazer o "guito"... E não só...

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Das Dívidas Perdoadas...

por Robinson Kanes, em 14.10.19

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Créditos:https://www.thoughtco.com/al-capone-1779788

 

Como tantos outros animais, temos de uma necessidade muitas vezes desesperada de nos adequar, pertencer e obedecer. Tal conformidade pode ser marcadamente prejudicial, pois negligenciamos soluções melhores em nome da loucura da multidão. Quando nos damos conta que estamos fora da sintonia com o resto do grupo, as nossas amígdalas contraem-se de ansiedade, as memórias são revistas e as regiões de processamento sensorial são inclusive pressionadas a experimentar o que não é verdadeiro. Tudo para nos encaixar.

Robert Sapolsky, in "Comportamento"

 

 

Muitos são aqueles que argumentam que somos um país de gente boa, de brandos costumes e perdolários do próximo. Da minha experiência como ser humano e português, uma coisa eu sei: um português nunca se esquece de alguma que lhe fizeram e à mínima oportunidade lá estará ao ataque. O português quando perdoa é porque tem um interesse óbvio nesse perdão.

 

Tudo isto a propósito dos perdões sucessivos dos bancos públicos (Novo Banco e Caixa Geral de Depósitos) a determinados indivíduos e entidades da nossa praça. Que os privados o façam, ainda posso compreender, não é o nosso dinheiro - a não ser que as injecções de capital público (de todos nós) não sejam utilizadas para esse efeito. 

 

Percebo também porque tal é feito, de facto até percebo, mas convenhamos que para o comum cidadão -  aquele que é perseguido pelos bancos públicos por não conseguir pagar os míseros €5000 que deve e que até pagaram os seus estudos - perdoar milhões atrás de milhões a empresas que muitas vezes se gabam na comunicação social e redes sociais de fecharem negócios e até de estarem a crescer é, no mínimo, cruel. Podemos falar das empresas, muitas delas detidas por indivíduos com filiações partidárias que viram muitas das suas dívidas perdoadas e claro, como não poderia deixar de ser, dos grandes clubes de futebol.

 

É vergonhoso, para não dizer criminoso, que os bancos públicos perdoem milhões aos clubes de futebol (o Sporting Clube de Portugal foi o mais recente caso) e ninguém esteja interessado em perceber o porquê! Onde andam os comentadores da praça? Onde andam as entidades que deveriam olhar para estes factos? Onde anda o jornalismo sério? Onde andam os  fanáticos da bola? Ondem andam os partidos da esquerda? Onde andam os pequenos partidos que dizem que é hora de mudar?

 

Que o futebol em Portugal é uma instituição/religião todos sabemos, que corrompe a política e é um jogo de interesses, também todos sabemos, mas perdoar dívidas astronómicas a clubes que pagam milhões em salários a um só jogador, que não abdicam do luxo e da ostentação e que não abdicam de compras e vendas de mais milhões é, no mínimo, gozar com a cara de todos aqueles que todos os dias laboram para que a sua empresa não feche por falta de pagamentos. É criminoso que uma empresa produtiva e com reais impactes na economia feche porque não consegue pagar aos bancos ou ao fisco, mas é perfeitamente aceitável que um ou vários clubes de futebol continuem a receber dinheiro do Estado, a ter perdão de dívidas e mais um sem número de regalias que incluem muitas isenções fiscais!

 

E mais uma vez, censuramos o vizinho caloteiro que deve €10.000 e não paga, censuramos o gestor que até recebe pelos bons resultados, mas aceitamos de bom grado e até aplaudimos nos estádios e no sofá aqueles que todos os dias nos enganam e nos retiram dinheiro do bolso. 

 

Até podem acusar este discurso de ter o seu quê de populista, mas ver as tribunas de honra apetrechadas de políticos e responsáveis públicos desde as mais altas instâncias até aos lambe-botas locais, ver ministros e presidentes a mendigarem bilhetes para a bola é esclarecedor do estado criminoso em que algumas instâncias se movem, mas isso não é populismo, dizem que é dever de Estado.

 

Em Portugal, para se ser imune à lei e agir como um perfeito Al Capone, basta estar ligado ao futebol... Sobretudo aos grandes clubes da praça! E aqui temos uma vantagem, é que nem os "Eliot Ness" têm poder para acabar com o estado das coisas, ao contrário do que acontecia na Chicago da década de 30 do século passado.

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A Floresta: Portugal e a Costa Rica.

por Robinson Kanes, em 10.10.19

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Imagem: Lisa Kessler

 

A Costa Rica é conhecida pela sua flora, nomeadamente as suas florestas tropicais, pela fauna e claro, pelas bananas. No entanto, a sede de lucro e total inexistência de fiscalização devastou grande parte das florestas do país até tempos recentes.

 

Em Portugal, que também se pode orgulhar da pouca floresta que lhe resta e também das bananas da Madeira, o cenário não foi diferente - se por um lado a destruição da floresta se dá para o crescimento do eucalipto e do imobiliário (e muito pouco de fala do imobiliário), por outro, foi mais longe que a Costa Rica e especializou-se na indústria do fogo - na reactiva e não na preventiva.

 

No entanto, o que a Costa Rica nos pode ensinar é o facto de ter encontrado na floresta uma fonte de rendimento, não só em termos ambientais mas também de ecoturismo - o turismo em Portugal continua a ser pensado em massa e para o retorno fácil e rápido, normalmente por parte dos suspeitos do costume - aumentar alojamento, promover os monumentos do costume e encher cidades como Lisboa e Porto, sem esquecer as regiões da Madeira e do Algarve, gentrificação a todo o custo e despreocupação com os exemplso que cidades como Barcelona nos dão. Enquanto isto, os incêndios vão destruindo e desertificando o país sem que alguém se preocupe com isso, até em termos turísticos. Continuamos a não rentabilizar os nossos Parques Naturais e basta atravessarmos a fronteira para aferir das diferenças, quer em termos de controlo e preservação quer em termos de geração de revenue para o próprio Estado e para as populações.

 

Na Costa Rica, por exemplo, foi criada uma Comissão Nacional da Floresta, não só para controlar e reduzir a emissão de licenciamentos que poderiam ser nocivos para a mesma como também para a salvaguarda e "policiamento". Esta comissão geriu também a gestão de um fundo financiado por taxas ambientais que têm em vista a preservação do ambiente, taxas essas que não são desviadas para outras áreas mas sim para a redução da probeza e conservação da natureza em áreas rurais e florestais. A Costa Rica encarou a floresta como um meio de dinamizar o ecoturismo, conservar a fauna e flora, reduzir o CO2, permitir a retenção de água e até utilizar a mesma para o desenvolvimento de fármacos e medicinas naturais, portanto, uma verdadeira indústria com estratégia a longo prazo.


Para se ter uma clara ideia, o fundo ajudou à criação de sensivelmente 18 000 postos de trabalho directos e 30 000 indirectos! Todavia, o grande resultado parece também ser a forma como estas medidas tiveram impacte no aumento do Produto Interno Bruto (PIB) sobretudo devido à actividade turística nestas áreas. O turismo é um dos pesos pesados no PIB da Costa Rica e isso deve-se às políticas entretanto aplicadas.

 

Em Portugal e em tantos outros países, bem podemos aprender com o exemplo da Costa Rica que, não sendo perfeito, nos pode dar uma clara ideia de como podemos voltar a ter um Portugal verde e que tem na floresta uma das suas mais-valias, não só em termos industriais mas também em termos turísticos. Contudo, isso implica apostar em estratégias, envolver outros actores e acima de tudo apostar na preservação e na prevenção - será que estamos dispostos a depenar a indústria reactiva dos incêndios em prol de uma indústria proactiva e geradora de benefícios ambientais, sociais e económicos e onde cada euro aplicado gera retorno ao invés dos euros que são queimados com o combate?

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Dinheiro para o Atletismo? Não!

por Robinson Kanes, em 08.10.19

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Créditos: https://www.fpatletismo.pt/diário-de-doha’2019-–-nota-positiva-para-portugal

 

 

Não é com palavras que comunicamos o que em nós há de melhor.

Raul Brandão, in "A Farsa"

 

Os mundiais de Doha, no Qatar, terminaram com uma prestação modesta dos atletas portugueses. Não vou cair na tentação de dizer que tudo foi mau e que os nossos atletas pouco ou nada valem - somos um país pequeno e nunca poderemos chegar ao nível das grandes potências, quando muito, podemos potenciar o talento inegável de alguns atletas. Admito até que, para país pequeno, temos atletas fantásticos, embora, ao fim de alguns dias em Doha, o mínimo que dois deles deveriam saber é que estavam no Qatar e não no Dubai!

 

No entanto, uma das queixas mais comuns em relação ao atletismo, e também outros desportos, é de que o dinheiro é pouco, que os atletas vivem de forma muito modesta e que é um milagre conseguir levar os melhores lá fora. Para alguns é verdade, para outros, nem por isso, sobretudo se juntarmos um sem número de regalias entre as quais se enquadra o estatuto de atleta de alta competição e a permanência de alguns dinossauros que só abandonam os cargos quase com a morte, quais monarcas abençoados pela graça divina.

 

Contudo, a questão económica não parece ser preocupação para o Director Técnico da Federação Portuguesa de Atletismo e Seleccionador Nacional, José Santos, que, viajou em 1ª classe (não disse executiva, disse  1ª classe) num voo da Qatar Airways com a sua comitiva aquando do término dos Mundiais de Atletismo em Doha. Se por um lado sou adepto de que um "treinador" está sempre com os seus, também sou adepto do exemplo: na realidade, é que de uma forma ou de outra, também existe dinheiro de todos os portugueses para o Atletismo, e no mínimo, parece-me absurdo que um seleccionador nacional de atletismo viaje em primeira classe numa companhia aérea premium, longe dos seus e em condições das quais já nem as altas figuras do Estado usufruem! Infelizmente, estes tiques de provincianismo ainda vão permanecendo e é também por isso que, dinheiro público para o atletismo, não!

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A Democracia Pervertida

por Robinson Kanes, em 17.09.19

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Créditos: https://www.concrete-online.co.uk

 

 

A política de espectáculo oculta os problemas de fundo, substitui pelos programas o encontro da personalidade, embrutece a capacidade de raciocíonio e de juízo em proveito das reacções emocionais e sentimentos irracionais de atracção e antipatia (...) os cidadãos são infantilizados, deixam de se envolver na vida pública, ficam alienados, são manipulados por gadgets e imagens, a Democracia é desnaturada e pervertida.

Gilles Lipovetsky, in "O Império do Efémero"

 

 

No passado dia 15 de Setembro, foi o Dia Mundial da Democracia, do que vi, pouco se falou, até por aqui... Um ou outro apontamento, mas nada completamente dedicado, a Democracia não está na moda, não é hype que queiramos seguir. Confundimos Democracia com total liberdade, sobretudo com liberdade para ser apático, nulo na capacidade de ser humano e cidadão.

 

Repito, tantas e tantas vezes, e não me cansarei de repetir (e não sou o único) em como é possível que uma sociedade que atingiu o topo da evolução - pelo menos em comparação com períodos históricos anteriores - esteja tão apática, tão embrutecida e tão ausente da realidade. No apogeu do que é ser um humano, e no apogeu da informação, nunca estivemos tão virados para nós e tão alheados do mundo, nunca fomos tão moldáveis e tão criticos daqueles que assumem a nossa defesa porque não fica bem que alguém nos aponte o dedo e o apoio a estes pode retirar-nos da zona de conforto. Em Portugal, por exemplo, nunca estivemos tão alheados do que se passa por cá e especialmente por esse mundo, nunca estivemos tão renitentes a aceitar a realidade e a discutir a mesma - o provincianismo também se encontra aí.

 

Criticamos/elogiamos quando é moda, mesmo que seja algo que nem percebemos muito bem, e deixamos o que é realmente importante de lado. Entregamo-nos à hipocrisia, e pegando num dos exemplos mais recentes, ficamos amigos da Amazónia e queremos mudar o mundo com um like ou com uma fotografia, no entanto, com o nosso país em chamas estamos completamente desligados - a tragédia dos incêndios este ano, em Portugal, passou completamente ao lado! Algo maravilhoso em pré-época de eleições legislativas e também porque alguém disse que não se recandidaria perante a repetição de tragédias semelhantes a Pedrogão e aos incêndios de Outubro daquele fatídico ano - mesmo que, todos os anos, desde então, muitas tragédias se repitam.Importa lembrar também que, muito convictos da nossa liberdade, só nos lembrámos da Amazónia porque fomos quais carneiros, seguidores de uma campanha anti-Bolsonaro. Com isto, não quero ilibar o senhor da sua responsabilidade, mas a verdade é que a questão só teve destaque por isso mesmo e não porque andamos preocupados com a floresta!

 

Ouvi alguém dizer, um destes dias, que o "ideal era arder tudo, os portugueses e tudo o mais para ver se isto começa de novo com gente mais digna de ser chamada de português", portante uma espécie da castigo divino qual dilúvio "noeniano". É extremo, mas convenhamos que é um alerta para algo.

 

Somos também os primeiros a ficar revoltados porque um desconhecido escreveu que o ser-humano era uma peste, mesmo que todos os dias deixemos escapar que o ser-humano é estúpido e mesmo que humilhemos aqueles seres-humanos que nos rodeiam, mas quantas vezes assumimos uma posição para mudar alguma coisa? Quantas vezes saímos do nosso conforto, dos nossos artigos, das nossas redes sociais para fazer alguma coisa? Quando é que deixamos de ser heróis à mesa do café e passamos a ser heróis na praça e com a coerência desejada? É mais fácil continuar como se está, ou numa eterna hipocrisia ou num eterno queixume! E ai daquele que se mexa, esse é arrogante e estúpido! Alguém disse o que pensava (mesmo que da forma menos correcta) e temos uma calamidade nacional... O país arde, os profissionais de saúde não têm meios para trabalhar, a corrupção grassa, mas isso pouco importa... Somos básicos e infantis, gostamos de uma mão protectora que nos retire o ónus da cidadania e do sacrifício.

 

Pode ser até que estejamos num mundo de palermas como nos quis dizer o Shade, da "Esperança" de Malraux. Shade só gostava de "problemas" e criticava o facto de "toda a gente (andar) agora com as cabeças inchadas desmedidamente inchadas e não (saberem) o que fazer com elas". Shade, hoje, seria estúpido... Provavelmente seria isso que López lhe chamaria. Provavelmente, alguém que partilhe destas palavras também seja estúpido... Talvez eu seja estúpido...

 

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Giorgio Vasari e Federico Zuccari - Juízo Final/Pormenor da Cúpula (Catedral de Santa Maria del Fiore - Florença)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

A maior parte do raciocínio exige uma interacção entre aquilo que as imagens presentes mostram como sendo o agora e aquilo que as imagens recordadas mostram como sendo o antes. O racicíonio eficaz também exige a antecipação do que vem a seguir, e o processo de imaginação necessário para a antecipação de consequências, também depende da recordação do passado.

António Damásio, in " A Estranha Ordem das Coisas. A Vida, os Sentimentos e as Culturas Humanas".

 

 

Foi aprovado pelo parlmento português um voto de congratulação pelo facto de um padre, José Tolentino Mendonça, ter sido nomeado para Cardeal no Vaticano. De facto, em bloco (excepto com o voto contra do PCP e do seu apêndice o PEV) o Parlamento congratulou-se com a nomeação. Sempre me suscitou imensa curiosidade que, num país com tanto para resolver e com tantos deputados que se dizem sempre muito ocupados, se perca tempo com estas coisas.

 

De um dia para outro, todos ficaram a saber que Tolentino Mendonça é um poeta e padre madeirense e que, segundo as palvras dos autores do voto de congratulação, "nos cargos em que tem servido, como padre, capelão e posteriormente vice-reitor da Universidade Católica, como responsável pela Pastoral da Cultura e pela Comunidade da Capela do Rato ou agora, como arquivista no Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Biblioteca Apostólica, marcou e marca com o seu extraordinário humanismo e abertura ao mundo”. Honestamente? 99% dos portugueses não está interessado, apesar das toneladas de artigos e reportagens que procuram à força fazer-nos entrar este senhor pelos olhos!

 

Todavia, é extraordinário, Portugal está mais rico e mais desenvolvido porque existe Tolentino Mendonça, vejam-se os feitos conseguidos por este senhor - com tanta gente em Portugal a empurrar um país (que por vezes nem quer ser empurrado) para a frente, com tantos portugueses lá fora a fazerem de Portugal mais do que aquilo que muitas vezes é, e voltamos a nossa passadeira vermelha, mais uma vez, para a Igreja, ou melhor, para um outro Estado, o Vaticano. Eu sugiro, se não existir já, uma condecoração da República, afinal estas são as melhores formas de fazer amigos, pagar e cobrar favores - começou com Sampaio, passou ao de leve por Cavaco e tem o seu expoente em Marcelo. Junte-se a isto os favores às editoras com a feira do livro de Belém - as mesmas editoras que Marcelo promovia em horário nobre na televisão com livros que nunca lia.

 

E por falar em Marcelo: junte-se a isto que temos o beato-mor (ou será servo) do reino que já fez mais viagens ao Vaticano que muitos cardeais, que se ajoelha e beija a mão a um Chefe de Estado (o Papa representa o Estado do Vaticano) confirmando a submissão de todo um povo a um outro país, além de que, sempre que o assunto é Igreja Católica lá está na linha da frente, seja em procissões, seja para deixar o país em momentos criticos para ir ao beija-mão, seja até para vir a público defender a Universidade Católica (entidade privada) pelo simples facto de não pagar qualquer imposto e taxas e mesmo assim isso ser normal. Sabemos que a Igreja abre muitas portas, sobretudo a leigos, que o diga também António Guterres e até a muitos que foram encontrando alguns bons empregos graças a umas presenças constantes lá na capela ou igreja do sítio.

 

No entanto, este também é o país que, na sua Casa da Democracia, condena a criação de um museu em Santa Comba Dão, nomeadamente o Museu Salazar. Se por um lado aplaude um lado da história e cria um museu que tem vindo a ser apropriado pelo comunismo (Peniche) por outro quer varrer o outro lado da História para debaixo do tapete. Lembremo-nos que um dos braços mais fortes de Salazar e da ditatura em Portugal foi a Igreja, a mesma a que Tolentino Mendonça pertence e, no fundo, Marcelo Rebelo de Sousa e tantos outros servem. Fátima nasceu no Estado Novo, a mesma Fátima que agora move milhões e até já é palco para desfiles mediáticos com políticos e pseudo-estrelas de televisão a colaborarem para a selfie - é cool ser "mariano", essa grande obra do Estado Novo. Essa maldição que nem deve ser lembrada!

 

Todo o parlamento em bloco (para mim a abstenção de PSD e CDS-PP é apenas ridícula e portanto assumo como estejam a favor) votou que a História fosse apagada, mesmo aqueles que beberam do regime e claro, também aqueles que aproveitarem o 25 de Abril para irem construíndo algumas ditaduras mais ou menos privadas. Importa lembrar que, com o desaparecimento de muitos que chegaram ao poder após o 25 de Abril, o sentimento de um povo deveria ser de muita consternação e pesar, mas é somente de alívio. Nem a manobra de marketing com o funeral de Mário Soares teve sucesso, nomeadamente o "efeito espelho" para parecer que eram muitos os presentes. Portugal no pós 25 de Abril chega a lembrar-me a queda de Ceaușescu na Roménia, onde o novo regime foi distribuído pelos democratas de ocasião: a facção moderada do partido comunista, membros do partido e pelos outros que lutavam contra o regime mas nutriam uma paixão especial por ocupar os lugares do mesmo. A verdade é que nenhum lutador da liberdade morreu de fome, bem pelo contrário.

 

Mais uma vez, o parlamento, com tanto para fazer, perde tempos infinitos com votos de condenação que nada mais servem do que para justificar a criação de mais um grupo de trabalho sem quaisquer efeitos práticos. O Parlamento português votou ontem o apagar da História e à semelhança da Constituição, admitiu ser um estado praticamente comunista! E por falar em comunismo, porque é que não nos tornamos em paladinos da Democracia e fazemos, em Portugal, uma espécie de extensão do Museu do Terror de Budapeste ou até do Museu do Comunismo de Praga? Como se fez com o Hermitage em Málaga ou com o Louvre em Abu Dhabi.

 

P.S.: leram lá em cima "arquivista no Arquivo Secreto do Vaticano"? Sim, aquele que se um dia fica aberto ao público pode levar ao fim de muitas instituições por esse mundo fora, inclusive da Igreja Católica.

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O Anselmo e os erros ertográficos em televisão...

por Robinson Kanes, em 03.09.19

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Créditos: https://mag.sapo.pt/showbiz/artigos/erro-da-rtp3-sobre-catalunha-inspira-trocadilhos-nas-redes-sociais

 

 

Quem nunca deu um erro ortográfico, mesmo que por gralha? Eu já! Dizem que as minhas mãos falam, e quando o tempo é pouco, lá se escapa qualquer coisa - sim, os textos do Robinson raramente são revistos. 

 

A propósito de alguns artigos publicados no Delito, venho procurar uma explicação para tanto erro ortográfico nos canais de televisão e até nos jornais (online e não só): agradeço ao Pedro o facto de nos dar algumas pérolas porque eu não tenho nem vejo televisão.

 

Uma das explicações poderá estar na história que vou contar. Em tempos, tirava eu o meu primeiro curso e dividia a minha casa com um colega de Gaia - vamos chamar-lhe "Anselmo". O "Anselmo" era um indivíduo que gostava de carros e velocidade e que tinha acabado de entrar numa outra faculdade, mais precisamente para o curso de Engenharia Mecânica.

 

Gostava do "Anselmo", fazia-me rir e era um verdadeiro maluco, não gostava era de estudar. Admito que ainda tentei, mas o "Anselmo" passava mais tempo a fazer street racing e em encontros de malta que gosta de acelerar do que propriamente na faculdade e até na cidade onde deveria estudar. Deixem o "Anselmo", eu também não fui nenhum menino...

 

Os pais do "Anselmo", indivíduos com poucas dificuldades, mais tarde, lá arranjaram forma de colocar o filho na residência de estudantes, sempre se poupam uns "cobres" e o contacto assim foi sendo perdido, mesmo que o pobre "Anselmo" em dois anos tivesse comprado dois carros novos - a troca deu-se, porque o primeiro, a gasolina e topo de gama, já não servia e era preciso apostar em mais cavalagem, mas a diesel. Percebem agora porque é que os serviços sociais tiveram pena do "Anselmo": pagar uma vida de luxo, os estudos e um apartamento/quarto, não está ao alcance de um "pobre" indivíduo.

 

Tudo isto para chegar ao dia em que o "Anselmo" (ou alguém por ele), mexeu os cordelinhos, que isto de estudar não ía dar em nada e de repente se vê a trabalhar em part-time na RTP. E que trabalho (bem cunhado) foi esse? Legendas e rodapés de programas de televisão! O "Anselmo" não era bom de letras, mas afinal para entrar na RTP também nunca foi preciso um grande CV, enquanto existir quem pague todos os meses a contribuição audiovisual há lugar para "todos". Numa coisa, no entanto, o "Anselmo" foi bom: conseguiu a trabalhar para o Estado, enganar o próprio Estado e manter todos os apoios escolares mesmo sendo trabalhador-estudante, lá está e repito, no próprio Estado.

 

Mas, como o "Anselmo" existiam mais, na RTP não, mas a trabalhar no sector público (ainda hoje tento perceber como se é Técnico Superior sem curso superior). Aliás, pelas residências de estudantes pululavam estes parasitas, ou não fossem estas, alvo de brincadeira por parte de muitos perante o facto de possuírem o melhor parque automóvel da faculdade. Alguns e algumas até se vangloriavam dos supostos esquemas para enganar os serviços sociais ou então ostentavam a sua rede de contactos para afirmar o porquê de tais regalias.

 

O primeiro ano passou, o "Anselmo" chumbou (quase a todas as cadeiras), e eis que no segundo ano, pouco ou nada mudou, a não ser o carro, como referi. Também não mudou um certo grau de deficiência escrita e oral, o que pouca importa para se escrever rodapés num canal de televisão público e auferir mais que um gestor de algumas empresas. Mudou o carro e o "Anselmo" passou de part-time a full-time o que levou o "profissional" de televisão ao abandono da faculdade. O "Anselmo" podia não ser bom em muita coisa, mas a fazer pela vida sem muito trabalho era exímio.

 

Talvez, não faltem por aí muitos "Anselmos"... E assim sendo, pois Pedro, muitas das suas inquietações poderão estar esclarecidas.

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Críticas ao "Centralismo"?

por Robinson Kanes, em 02.09.19

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Créditos: https://thesaurus.plus/antonyms/centralization

 

Nota introdutória: se as coisas em Portugal estão demasiado centradas na capital? Estão!

 

É recorrente, inclusive por estas bandas, a critica contra o centralismo: ou porque o evento "x" é em Lisboa, ou porque Lisboa vai receber mais dinheiro para isto e para aquilo, é porque em Lisboa há de tudo e no resto do país não existe nada. Não concordo e passo a explicar o porquê:

 

- Algumas cidades e os seus arredores sempre quiseram ser Lisboa. Lisboa é a capital, como em qualquer outro país, é natural que tenha mais investimento e consequentemente um maior índice de desenvolvimento. Querer ser uma outra capital, além de mentalidade tacanha e bairrista, é simplesmente ignorar a realidade e perpetuar o tão apregoado isolamento. 

 

- Na hora de votar, os eleitores dos círculos eleitorais fora de Lisboa, votam em deputados que irão representar as respectivas regiões na Assembleia da República... em Lisboa. Será que são interpelados pelos cidadãos dessas regiões no sentido de aferirem o que tem sido feito em prol da região que os elegeu? Não esperem que sejam os eleitores de Lisboa a fazê-lo.

 

- Em muitas vilas e cidades, existem autênticos impérios de determinados indivíduos e instituições que controlam esses mesmos locais. Esses impérios que vão desde autarquias, misericórdias e um ou outro indivíduo da terra, são responsáveis por muito do centralismo. As localidades ficam fechadas sobre si próprias e, no caso das autarquias e outras instituições públicas (inclusive IPSS), o poder é tal que ninguém questiona sob pena de perder o emprego em toda a família ou até sofrerem represálias! Não são raros os casos em que, quem vem de fora empreender, rapidamente é excluído. O forasteiro que traz algum know-how ou investimento não é bem-vindo. É mais fácil conseguir apoios junto dos munícipios para esta ou aquela associação que ninguém sabe propriamente o que faz do que para constituir um negócio com impactes na economia local.

 

- Existem também os indivíduos que criticam um certo centralismo e a própria capital, mas temos os outros que fogem para a mesma por já estarem a sufocar nas respectivas vilas/cidades, o motivo? Muito do que referi acima e não só.

 

- Também não podemos querer ser como a capital e dizer que não estamos dispostos a passar duas horas no trânsito e nem pensar em trabalhar fins de semana, feriados ou horas extraordinárias. Não podemos quer ser como a capital e chorar porque todos os dias temos de fazer 20km para o trabalho! Na capital, 20km é para quem "trabalha de casa".

 

- Mais do que criticar ou querer ser como este ou aquele, o ideal passa por fazer mais e melhor, ser cidadão e ir contra poderes obscuros e instituidos que em nada abonam a favor desta ou daquela região. É ser coerente e aproveitar sim o associativismo e muito do know how existente para fazer diferente, para realçar e unir todos em prol do desenvolvimento das regiões que não são Lisboa! Descentralização não é só andar por Lisboa à procura de dinheiro e fundos para viadutos de milhões onde passam "meia dúzia" de automóveis por ano... Um exemplo? Cabeceiras de Basto!

 

- O centralismo não existe apenas em Lisboa, existem cidades em Portugal que também exercem uma espécie de centralismo mas a um nível regional.

 

- Finalmente, falem-me de localism, e aí já faz sentido voltarmos a abordar esta questão.

 

E em jeito de provocação, muitas vezes não entendo a critica do isolamento e do "pouco dinheiro", pois o parque automóvel, em algumas vilas/cidades/aldeias é bem mais apetecível que em Lisboa... O parque automóvel, as casas, a qualidade de vida e até para se conseguir um restaurante é uma luta... Se a isso juntarmos hipermercados sempre a abarrotar, dá que pensar.

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A crise que está a caminho...

por Robinson Kanes, em 27.08.19

What should startups do when they encounter a cris

Créditos: http://elitebusinessmagazine.co.uk/sales-marketing/item/what-should-startups-do-when-they-encounter-a-crisis

 

Andamos todos a gastar que nem doidos, pouco interessados (mais uma vez) na produtividade porque, mal ou bem, o consumo exagerado e o dinheiro que vai chegando da União Europeia e outros expedientes vão segurando a economia (os expedientes vão deturpando). Contudo, depois do efeito devastador da última crise a próxima pode ser ainda pior, sobretudo porque novos actores estão mais activos quer em termos políticos quer em termos ambientais e sociais.

 

O mundo de há 10 anos não estava tão ameaçado por guerras comerciais e bélicas e os problemas ambientais eram menores (embora a tendência fosse de aumento). Também a diplomacia estava menos tensa e os próprios media tinham menos poder de monopolização e distorção da informação: mais do que nunca, hoje é possível desencadear uma guerra só com uma ou duas "fake news". As massas nunca estiveram tão apáticas e a inteligência artificial (IA) ainda estava muito longe (pelo menos para o público em geral, porque a mesma já existe há muito, a capacidade de operar e monitorizar é que era muito fraca). Também a questão das migrações é um problema global que continua a não ser combatido na origem. Estamos perante um tema cuja defesa se dá sob a capa do politicamente correcto e a servir de palco para alguns actores mostrarem quão caridosos são.

 

Pelo mundo, a produção industrial está a abrandar, as trocas estão a cair e as maiores economias começam também a dar sinais de  abrandamento. As soluções de há 10 anos podem também não resultar, afinal as taxas de juro estão mais baixas que nunca e as divídas soberanas mais altas. Por cá, o normal, continuamos a gastar e António Costa até brinca quando se fala de divída externa - continuamos a gastar, e a esquecer que tudo se paga. A Moody's já avisou que a tendência de decrescimento vai ser o normal nos próximos três/quatro anos. A acompanhar este pessimismo temos também a OCDE e o FMI a reverem os números. Além disso também é importante termos em conta que a injecção de dinheiro fácil na União Europeia e Japão algum dia tem de terminar.

 

Juntem a tudo isto uma China a crescer menos, a crise com os impostos comerciais, o Brexit (que ninguém sabe como vai acabar/começar) e temos o caos montado, sobretudo com uma Europa que não cresce: vejam o primeiro semestre e uma Alemanha com fortes hipóteses de entrar em recessão - a crise dos motores a Diesel ainda está a provocar muitas baixas.

 

Outra realidade é o facto das empresas estarem a controlar investimentos (a guerra comercial assusta quando se fala de investimentos no exterior e a expectativa de uma crise também). Temos também o dilema de que a teoria do crescimento tem de sofrer uma nova abordagem na medida em que os recursos nunca foram tão escassos face às necessidades de um mundo que não quer parar de crescer e consumir, sobretudo nos países mais industrializados. Temos de repensar os pilares económicos, sociais, humanos e ambientais sob pena de estarmos a entrar em colapso iminente. É fundamental desenvolvermo-nos e garantir a sustentabilidade económica sem crescimento desenfreado.

 

É necessário que a comunidade como um todo se mobilize, a cidadania se mostre, se encontrem novas formas de governar - lá por fora já vai falando do localism , por cá, fala-se pouco e porque é um conceito giro. Não pensamos em como vamos gerir todos os desafios, pensamos no agora quando o amanhã é isso mesmo, já amanhã ou até daqui a umas horas.

 

Quero também deixar uma nota para a questão do emprego. Não sou um pessimista em relação a todo um mundo que é a IA, mas é importante estarmos preparados e começarmos a discutir tudo aquilo que aí vem. Por incrível que pareça, a chegada em força da IA vai-nos tornar mais humanos e provocar essa necessidade no mercado de trabalho, temos sim, de estar preparados para tal. Nos países onde a veia humana e a criatividade são combatidas, podemos ter um grande problema - Portugal é um deles.

 

Também por cá as coisas também não têm tudo para correr pelo melhor, nem sempre sabemos administrar os fundos, não nos desenvolvemos assim tão bem (estamos a reboque de outros actores) e continuamos a viver com meia-dúzia de empresas que vão suportando o tecido económico e empresarial e até aniquilindo demais concorrentes. Acreditamos no Turismo e com isso justificamos todos os atropelos e mais alguns - as consequências não tardarão. O Estado continua a gastar e a adiar a sua própria reforma a troco de votos dos funcionários públicos - por isso talvez nunca falte dinheiro para "luxos" mas falte para ambulâncias.

 

A cimeira do G7 em Biarritz e sobretudo aquela (menos badalada, mas quiça mais importante) que teve lugar no Wyoming não acontecem por acaso. E se existem muitas soluções que podem ser colocadas on track, o intuito deste texto é demonstrar que o diabo (como ficou convencionado chamar a estes acontecimentos) talvez não se tenha ido embora e ande por aí à procura de uma oportunidade - porque o diabo são todos aqueles que não aprendem com o passado e que não se preparam para o futuro. 

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photo-1497129907035-91f1b95c8119.jpgCréditos: Jez Timms

 

Nota Introdutória

Tinha este texto sem título e em rascunho há muito, daí a alusão a um estudo. Como era o único, abri pensando que era algo para apagar. Tenho dúvidas que o tenha publicado - já o procurei e não me parece que esteja. Por acreditar que continua actual, faço-o sair hoje. Por sinal, a Mia durante o dia de ontem publicou alguns pontos que podem muito bem completar este artigo e por isso a sua saída foi inevitável.

 

 

A chave para sermos felizes é prestarmos mais atenção ao que nos faz felizes e menos ao que não nos causa felicidade. Não é a mesma coisa que prestar atenção à própria felicidade.

Paul Dolan, in "Projectar a Felicidade".

 

Um dos temas tabu deste país voltou a ter um foco de atenção (pouco, mas melhor que nenhum) pela mão de um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos: "As mulheres em Portugal: como são, o que pensam e o que sentem?".

 

Muito se tem falado em igualdade de género e, no caso das mulheres, as que mais reivindicam e apregoam o actual hype, são as mesmas que pactuam com salários mais baixos que os homens, aliás, algumas até impulsionam essa prática nos locais onde trabalham.

 

E quantas também não vivem infelizes no sexo e já nem amam as pessoas com quem estão mas, por força do hábito ou de uma posição mais tranquila na vida, vão aguentado esse martírio. Muitas são também aquelas que não lidam bem com o sexo oposto e portanto criam a sua posição de uma forma mais agressiva, direi.

 

E aquelas que usam o facto de serem mulheres mas quando chamadas à praça, não querem ferir susceptibilidades (mesmo que não saibam dizer a última palavra). Muitas são também aquelas que agora exaltam as mulheres no trabalho mas choravam junto dos homens (inclusive em redes sociais profissionais) por um emprego, apelando à boa-vontade dos amigos - uma tanto chorou que depois da saída (forçada) de uma instituição financeira como Human Resources Business Partner chegou rapidamente a Directora de Recursos Humanos numa empresa ligada aos media.

 

Estranho que muito se fale da questão de género mas esta temática (salários, sociedade, vida em família, liberdade de escolha) continue a passar ao lado das reais reinvindicações... Não dá likes e até pode tirar o emprego ou uma vida estável e, quando assim é, viramos as atenções para algo que, aparentemente, é mais popular e "solidário". Ainda um destes dias procurava alguém que falasse sobre esta temática, alguém que até gosta de aparecer e só repete que é COO/CEO/CFO/CSO/CCCCCCCCC de tudo e mais alguma coisa e que até é mulher mas quando a temática passava ao lado do hype e se centrava naquilo que era importante... Lembram-se das susceptibilidades?

 

Mas deixo uma questão, ou várias: quando é que se começa a debater seriamente a diferença salarial? Quando é que uma mulher pode dizer claramente ao marido ou companheiro que o sexo é uma porcaria? Quando é que uma mulher pode, inclusive trair o marido e merecer o mesmo tipo de recriminação que o próprio? Quando é que uma mulher, e é aqui que pretendo chegar, pode dizer que não quer ter filhos por opção ou está profundamente arrependida de ter filhos? Ou até que teve filhos por uma questão de pressão social, de moda ou de status? Quando é que uma mulher pode encarar os homens com a mesma força, por exemplo, numa reunião onde nem sempre é a líder? Poucas o ousam fazer e perdoem-me, mas nesse campo as mulheres são, ou mostram ser, bastante mais frágeis e emocionais que os homens... Isso também pode mudar.

 

Um aparte... Existem indivíduos que actualmente trazem crianças ao mundo por que é cool ou então porque lhes permite (pensam) subir um patamar! Como casar, comprar a casa, fazer a viagem de lua-de-mel e comprar carro novo e... aumentar a dívida familiar. Aliás, até será mais bem aceite que uma esposa de outrem durma com uma chefia para aguentar a economia lá de casa mas que jamais diga que não quer ter filhos porque quer ter outro estilo de vida!

 

As mulheres (e também os homens) ainda não podem dizer simplesmente que não querem ter filhos por opção! A chuva de criticas e a ostracização social faz-se imediatamente notar! A família critica, os amigos criticam (muitos, lá no fundo, porque invejam) e a própria sociedade o faz - essa mulher - ou homem - pode assim trabalhar mais que os outros, não ter férias quando os outros podem e sacrificar-se como fosse um ser cujo facto de não ter filhos aparentemente faça com que não tenha vida própria. Já lidei com situações em que mulheres foram primeiramente despedidas porque não choraram nem usaram os filhos como forma de alterar a posição do empregador! Que podemos chamar a isso: discriminação? Segregação? 

 

Será crime uma mulher dizer que não quer ter filhos porque quer viver a vida? Será assim tão egoísta num mundo onde não faltam crianças? Lembro-me em tempos de ter lido as palavras de um CEO de uma fábrica de brinquedos portuguesa chamar de egoístas às mulheres que não queriam ter filhos porque assim não ajudavam a segurança social do país! Acredito, todavia, que estas palavras queriam dizer seria mais: sim, quanto mais crianças mais negócio para mim, além disso fica-me bem dizer isto porque sou um networker nato e gosto de aparecer porque sou muito solidário - todavia, dos colaboradores deste senhor, ninguém ouve falar, mesmo quando a entrada em bolsa se revela um desastre. Espero também que este senhor não fuja nem com um cêntimo às obrigações fiscais e não necessite de apoios do Estado para nada! Isso é que é ser solidário com todos nós.

 

Ferreira de Castro, em "A Experiência", dizia que uma "moral, qualquer que seja, se, por um lado, se renova, por outro envelhece, e há normas de moralidade colectiva que, com o tempo, revelam toda a sua desumanidade e tornam-se portanto, imorais". Portanto que moral preside ao facto de ter o direito a não querer ter filhos? Onde é que entra! E o direito a dizer arrependo-me de ter tido filhos? E o direito a dizer separei-me porque já não amava nem suportava mais outrem ou até porque sexualmente não me satisfazia?

 

Andamos muito atentos e participativos nos hypes das redes sociais e dos media, e no entanto, na realidade, vamos ficando mais conservadores e egoístas que nunca... Porque a realidade não tem holofotes e aí podemos mostrar (involuntariamente) o que realmente somos, e por norma, não é algo bonito de se ver. Andamos reféns e passamos ao lado de problemas que estão a destruir um país, um continente e um mundo.

 

Finalmente, temo também que se ande a utilizar em demasia o exemplo isolado para fazer uma grande campanha em torno desta ou daquela mulher, mas com parcos efeitos no longo prazo. Uma espécie de "G.I. Jane".

 

P.S.: é um texto sobre mulheres, mas muito do que aqui é escrito também é aplicável a homens. E sim, acredito na classificação homens/mulheres, dispenso todas as outras classificações independentemente de apoiar que cada um pode dispôr da sua vida, do seu corpo e do seu intelecto como bem entender. Espero que não me expulsem como expulsaram um aluno (criança) de uma escola em Inglaterra por insistir com o professor que só existiam homens e mulheres, independentemente das tendências sexuais.

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