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Paisagens de Portugal: Fisgas do Ermelo

por Robinson Kanes, em 26.11.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Este senhor já tinha falado nisso aquando da partilha da "Senhora da Graça" e eu não lhe fechei a porta... As Fisgas do Ermelo são das coisas mais bonitas que temos em Portugal, uma queda de água, esculpida com uma perfeição que pensamos se Rodin não havia deambulando pela Terra antes de nos ter surgido como mestre da escultura.

 

As Fisgas do Ermelo dão uma vida especial a um concelho (Mondim de Basto) que congrega algumas das áreas mais bonitas do Baixo-Tâmega. Trazem-me também um misto de deslumbramento e tristeza... Foi das últimas vezes que estive com alguém que já não está presente na minha/nossa vida, sobretudo pelo episódio de pouca esperança face a uma fatalidade que mesmo assim todos acreditávamos ser possível superar... Hoje estaria muito orgulhosa de ti, muito orgulhosa! Eu ainda não te disse, mas é num simpático bar de aeroporto em Belfast, com os Coldplay de fundo (dos tempos em que eram Coldplay), que também tenho de dizer que estou muito orgulhoso de ti, minha deutsche em London.

 

Mas a Natureza é assim, dona de uma força que nunca conseguiremos superar, seja nestes episódios, seja na criação destes monumentos! É um encantamento, como diria Teixeira de Pascoaes, poeta nascido bem perto (Amarante) e que veio a falecer ainda mais perto, em "Gatão".

 

Encantamento

 

Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar
A tua dôce e angelica Figura,
Esquecido, embebido num luar,
Num enlêvo perfeito e graça pura!

E á força de sorrir, de me encantar,
Deante de ti, mimosa Creatura,
Suavemente sentia-me apagar...
E eu era sombra apenas e ternura.

Que inocencia! que aurora! que alegria!
Tua figura de Anjo radiava!
Sob os teus pés a terra florescia,

E até meu proprio espirito cantava!
Nessas horas divinas, quem diria
A sorte que já Deus te destinava!

Teixeira de Pascoaes, in "Elegias"

 

 

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Paisagens de Portugal: Sudoeste Alentejano

por Robinson Kanes, em 24.11.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

O Valor do Vento

 

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento

O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e

só entram nos meus versos as coisas de que gosto

O vento das árvores o vento dos cabelos

o vento do inverno o vento do verão

O vento é o melhor veículo que conheço

Só ele traz perfume das flores só ele traz

a música que jaz à beira-mar em agosto

Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento

O vento actualmente vale oitenta escudos

Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

 

Ruy Belo, in "Homem de Palavras"

 

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Paisagens de Portugal: Senhora da Graça

por Robinson Kanes, em 22.11.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Seja do alto de Leiradas, em Cabeceiras de Basto, seja da Estação de Mondim de Basto ou de qualquer outra localização na região do Baixo-Tâmega, é impossível não ver aquele colosso lá bem erguido na paisagem. E do seu alto... E do seu alto é uma paisagem sem fim, é o que resta de Portugal para Trás-os-Montes e o longo sul que vai até Sagres.

 

Ar Livre

 

Ar livre, que não respiro!

Ou são pela asfixia?

Miséria de cobardia

Que não arromba a janela

Da sala onde a fantasia

Estiola e fica amarela!

 

Ar livre, digo-vos eu!

Ou Estamos nalgum museu

De manequins de cartão?

Abaixo! E ninguém se importe!

Antes o caos que a morte

De par em par, pois então?!

 

Ar livre! Correntes de ar

Por toda a casa empestada

(Vendavais na terra inteira,

A própria dor arejada,

- E nós nesta borralheira

De estufa calafetada!)

 

Ar livre! Que ninguém canta

Com a corda na garganta

Tolhido da inspiração!

Ar livre, como se tem

Fora do ventre da mãe

Desligado do cordão!

 

Ar livre, sem restrições!

Ou há pulmões,

Ou não há!

Fechem as outras riquezas,

Mas tenham fartas as mesas

Do ar que a vida nos dá!

 

Miguel Torga, in "Cântico do Homem"

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Os sentimentos referem-se primordialmente à qualidade do estado de vida no interior "antigo" do corpo em qualquer situação, durante o repouso, durante uma actividade conduzida com um objectivo, durante a resposta aos pensamentos que estamos a ter, quer sejam causados por uma percepção do mundo exterior ou pela recordação de um acontecimento, arquivado nas nossas memórias.

António Damásio, in  "A Estranha Ordem das Coisas. A Vida, os Sentimentos e as Culturas Humanas"

 

 

Tanta chapada de mar... Depois da "Nau dos Corvos" abre-se um novo mundo, um mundo onde sabemos que vamos mas não sabemos se voltamos, acreditamos no mar, acreditamos no destino. Tanta chapada de mar levei em miúdo, agarrado a barcos maiores e a semi-rigídios onde cada vaga nos levantava e a paisagem passava a ser vista de cima.

 

Tantas "ralhadelas", tantas... "Oh Miguel, qualquer vocês matam-me o miúdo"... Mas era tão bom chegar todo molhado - nesse tempo não existiam constipações, não existia medo. Existia boa caldeirada, muitas vezes terminada na lota em Peniche, de onde hoje sai o barco para os turistas. Terminada em Peniche ou em Porto Dinheiro, "Portnhero" como dizem/diziam os locais...

 

Tantas tardes a ver aquele mar bravio, a ver os barcos chegarem, a comer tremoços e pevides, estas últimas descascadas pelo meu pai. Gente de pele queimada, gente de dura faina... Gente que me odiava quando me enrolava nas redes que as mulheres tão habilmente teciam...

 

Fins de tarde na varanda para o Atlântico, fins de tarde no "Chico Neto", fins de tarde nos locais recônditos da Avenida do Mar, onde a caldeirada e o peixe grelhado ou cozido eram bem mais saborosos que em qualquer restaurante.

 

Tantas tardes, tanta amizade, tanta camaradagem... E é tão difícil encontrar essas experiências de criança, hoje em dia. Olhando as Berlengas, talvez aproveite para me colocar na pele daquele miúdo que entre admirava o labor nas traineiras ou a alegre solidão enquanto os primos andavam na pesca submarina. Talvez entre a solidão do semi-rigido e a azáfama das traineiras, e mais tarde de outras "tábuas", encontre aí essa memória, essa companhia dos homens e do mar na tristeza de um mundo que em terra perdeu o seu sentido e a sua humanidade.

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Imagens: Robinson Kanes

 

O mar começa a ficar para trás e eis que Cangas de Onís fica à nossa frente. Este destino, como aquele que nos espera imediatamente a seguir, são muito conhecidos do grande público, talvez por isso a nossa base tenha ficado ligeiramente distante daquela localidade, em Labra.

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Isto não impede que possamos beber uma sidra, comer queijo e continuar a provar o que de bom se faz nas Astúrias. Passamos obrigatoriamente pela ponte romana e tiramos uma fotografia, é rápido... Não somos adeptos de selfies ou de registarmos a nossa presença no local. Caminhamos por Cangas de Onís e como não poderia deixar de ser perdemo-nos em compras: queijo (Cabrales, Gamonéu e Beyos...), verdinas (e que boas ficam aquelas feijoadas de chocos e camarão), lentilhas pretas e um sem número de coisas que vamos metendo no saco! "La Barata", a loja com muito bom gosto onde adquirimos os produtos torna-se cara dado o volume nos sacos...

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"Marcamos" o jantar, deixamo-nos ir pelo cheiro a sidra e a vinho e aterramos na recomendação que o nosso anfitrião em Labra - a pequena e pistoreca aldeia asturiana a 8 quilómetros de Cangas - nos aconselhou. Ah! "Casa Pinin" ou também "El Polesu", como são conhecidos - o verdadeiro tasco que nós amámos e onde insistiam no nosso sotaque de Girona (mais uma vez). 

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Entretanto, e porque o dia é longo passamos pelo Santuário de Covadonga... Também é daquelas visitas obrigatórias, embora só pense em subir ao monte que se encontra em frente para poder observar as aves mais de perto e tentar imaginar quão dura terá sido a Batalha de Covadonga - a "primeira" vitória cristã após a invasão árabe por terras da "Hispânia" e onde os Islâmicos do Califado de Omíada saíram derrotados, para desespero de Munuza. O vencedor, o nobre visigodo Pelágio, ainda hoje é recordado ou não tivesse sido o primeiro rei do reino das Astúrias, na época com capital em Cangas de Onís. Deambulamos pela área, nota-se a presença de muitos turistas, o que é normal. Desejamos, contudo, que a maioria não pense em ir aos lagos. E não vai...

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Ainda pensamos em fazer o caminho a pé (24km ir e vir, sendo que metade é sempre a subir)... Sobra-nos "pouco" tempo e queremos aproveitar os altos ao máximo e poder explorar a fauna. Como não é possível a deslocação pelos nossos meios de transporte, apanhamos o único autocarro que faz a ligação ao topo das montanhas - a viagem não é barata, mas manobrar um veículo pesado daqueles, em tais condições, não é para todos. Além disso, aquilo com que nos deparamos não tem preço.

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As vistas, ao longo do caminho, são de cortar a respiração, não conseguimos estar quietos... A chegada e os lagos: o "Enol", o "La Ercina" e até o "El Bricial" (só visível em certas alturas do ano) lá estão à nossa espera. Não são lagos gigantes e grandiosos, todavia, são lagos bem no alto da montanha, desenhados para encaixar perfeitamente naquele monumento natural que é a Serra de Covadonga. No "Enol" a cerca de 1000m de altitude, dizem que no fundo das suas águas se encontra a virgem de Covadonga, que aí zela pelos seus bem lá no alto/fundo. O "La Ercina" fica a mais 100m de altitude e é mágico ver o gado nas margens do mesmo, cria uma imagem pitoresca e totalmente diferente daquela que já tivemos na Áustria, Suiça ou até mesmo Açores... Em cada local o seu encanto.

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Uma manada começa a afastar-se, seguimo-los com as devidas cautelas, é uma área altamente protegida. O gado sabe sempre para onde vai e informa-nos sempre dos melhores caminhos. Preparamo-nos para a aventura, pois entre raios de sol alterna um nevoeiro denso e uma chuva intensa, além disso começamos a caminhar para o interior da montanha e os visitantes dos lagos começam a ser uma mera miragem ao longe.

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Seguimos um caminho e encontramos um especialista em preservação de aves na sua pick-up. Interpela-nos e pergunta-nos do nosso interesse por aquelas bandas. Lembramos que estamos por lá para apreciar a montanha, para usufruir de um dos mais belos recantos da natureza, onde cada vento conta uma história antiga de pessoas, vivências entre montanhas e dos diálogos da natureza protagonizados pelo mar e pela montanha. No entanto, também revelamos o objectivo principal: observar a Águia Imperial Ibérica (Aquila adalberti) - adalberti em homenagem ao príncipe Adalberto da Baviera. 

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Existem em nós muitas paixões em termos de fauna na Ibéria e talvez as maiores sejam o Lobo Ibérico (Canis lupus signatus), a Águia Imperial Ibérica (Aquila adalberti) e a Garça Real (Ardea cinerea). Existem mais, os ursos, por exemplo, e um sem número de espécies que simplesmente nos fazem percorrer muitos e muitos quilómetros e até, enfim, envolvermo-nos em algumas "missões de salvamento".

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Mas esta águia, o gado e toda a fauna por alí encontrada será tema para outro artigo... Agora é tempo de dizer adeus ao nosso anfitrião da montanha, que nos disse ser um óptimo dia para observar as aves. Aproveitamos para recuperar forças e atacar as bananas e as maçãs. Alguma chuva, os rostos ficam molhados e acabamos por dispensar a água porque cada gota é um pouco das Astúrias, traz o cheiro do ar, da terra e da natureza... Queremos aproveitar e beber o que nos vem dos céus.

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Agora permitam-nos e deixem-nos ir em busca das rainhas dos céus...

 

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1000.jpegCréditos: AP/Sam Mednick

 

O Sudão do Sul é mais um daqueles países que, pontualmente, tem 20 segundos de atenção nas notícias e pouco importa para todos nós! O "folclore" dos refugiados no Mediterrâneo tem mais impacte, no entanto, esquecemos que a origem não está nas águas deste mar... Está em locais mais longínquos.

 

Num país devastado pela guerra e consequente violência, travam-se guerras "anónimas". São guerras travadas entre guardas armados de metralhadoras automáticas e caçadores furtivos. Os primeiro defendem as reservas da tirania dos segundos e também da invasão humana. Muitos destes guardas são também antigos soldados que combateram na guerra e agora travam uma guerra que já não é civil mas sim contra aqueles que querem destruir uma das, se não a maior, riquezas do Sudão do Sul: os parques nacionais! São seis parque nacionais e 13 reservas de caça (13% do território).

 

Num país onde a guerra matou mais de 400 000 pessoas e cuja paz ainda é recente e frágil, procura-se agora estimular um turismo sustentável e promover o estudo de todos estes espaços - alguns passos já foram dados em relação ao elefantes da floresta e à grande migração dos antílopes, uma das maiores do continente. No entanto, a tarefa não é fácil: a disseminação de armamento e a sede de consumo dos países desenvolvidos são promotores da caça furtiva! Também os recursos são escassos, num país que investe, mesmo assim cerca de seis milhões de dólares na defesa da natureza (é pouco, mesmo assim, mas acredito que bem mais que num país como Portugal - mais rico, por sinal).

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Créditos: AP/Sam Mednick

 

Esta é uma guerra que não pretende dar tréguas - para que se tenha uma ideia, os guardas do parque dormem sempre separados, pois os ataques dos caçadores furtivos a estes são constantes e a garantia de que pelo menos alguns possam sobreviver já é uma conquista! Estes são os verdadeiros guardas da Natureza, ou melhor, os soldados da Natureza que além de lidarem com autênticos guerrilheiros ainda têm de conter o avanço das populações que, com a exploração agricola, vão devastando importantes áreas protegidas. Juntem-se a isto as ameaças de morte e temos um cocktail explosivo!

 

Todavia, entre a crueldade existem sempre focos de esperança. É importante ter em conta que estamos num país em ruinas e no centro de África, mas surgem iniciativas no sentido de mostrar e explicar este valioso património às crianças, de fazer viagens de campo colocando as crianças "em contacto" com os animais - só assim a destruição poderá dar lugar à preservação e criar uma mentalidade de união nacional na defesa daquele que é um património do Sudão do Sul e de todos nós! Também assim, o Sudão do Sul está a investir em futuros soldados da Natureza e também em, quiçá, futuros técnicos de turismo ambiental e sustentável ou até biólogos e investigadores!

 

Com o apoio de entidades estrangeiras mas ainda sem o peso de muitas associações ou ONG (que, não raras vezes, atrasam o processo e não criam empowerment nas populações), podemos ter aqui um exemplo para o mundo. Talvez assim, também possamos ser mais activos na defesa do ambiente no nosso país, até porque andamos preocupados com as políticas ambientais de um país (sempre o mesmo) do outro lado do Atlântico e fechamos os olhos ao que se passa por cá e no resto do mundo.

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Adeus TAM!

por Robinson Kanes, em 29.05.19

rinoceronte51.jpgCréditos: https://www.lifegate.com/people/news/sumatran-rhino-is-extinct-in-the-wild-in-sabah

E assim... Todos os dias nos vamos despedindo de mais uma espécie, desta feita foi o rinoceronte-de-sumatra (Dicerorhinus sumatrensis)... Perdemos o TAM, o último representante da espécie... A vida selvagem, mais uma vez, agradece ao ser-humano e à sua estupidez crónica! Adeus TAM... Hoje, mais uma vez, enchemo-nos de vergonha!

P.S.: poupem-nos ao argumento de que a Terra se regenera e também as espécies acabam por sofrer com isso! Estes animais desaparecem porque alguém se lembrou de dar valor aos cornos dos mesmos (fins medicinais que ninguém consegue explicar, decoração e até como afrodisíaco!) e também porque alguém se tem lembrado de destruir o habitat destes animais.

 

 

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O Urso Pardo e um certo Hebetismo Colectivo...

por Robinson Kanes, em 10.05.19

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Créditos: https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2018/11/video-viral-de-urso-mostra-o-lado-negativo-de-filmar-animais-com-drones

 

Existe por aí um urso-pardo (Ursus arctos) que deveria ter sido motivo de orgulho para qualquer português! Orgulho e vergonha, afinal fomos nós que acabamos com a presença deste animal no nosso país. Além de que histerismos e show off na comunicação social, nem sempre correm bem...

 

Como este, outros... O lobo ibérico (Canis lupus signatus) quase extinto porque lhe destruímos o habitat e é normal que este queira caçar fora desse espaço; múltiplas espécies de aves de rapina porque uma religião intolerante, falsa e alicerçada em dogmas que, na actualidade, seriam punidos com prisão, se lembrou de repetir que eram animais de mau agoiro (embora os único que conheça e que se encaixam nese rótulo são, de facto, os humanos) e tantos outros animais que o egoísmo humano tem levado ao extermínio. Outro exemplo é o lince ibérico (Lynx pardinus), mais uma espécie que deveria ser uma das imagens de marca do nosso país mas o cidadão comum nem faz ideia de que existe, só quando são atropelados ou surgem envenenados.

 

Espero efectivamente que todo o espectáculo em torno desta descoberta não leve a uma autêntica caça ao urso e que, vindo de Espanha, rapidamente seja levado para a Cantábria e Astúrias de modo a ser devolvido ao habitat, até porque em Espanha a estrutura de protecção está já montada e em Portugal continuamos a deixar que espécies marinhas, como os golfinhos, morram em "lagos" no Parque das Nações porque a vontade, a burocracia e a incompetência a isso levam - num país onde tudo se controla, só ainda não se controla a incompetência e a corrupção.

 

Também não irei entrar no humor brejeiro e típico que se foi ouvindo de que "é só mais um urso" e do "o que não falta aí são ursos". Isso é conversa de quem protesta muito mas faz pouco, além de que, nos dias de hoje, comparar um urso a um ser humano é uma ofensa para o primeiro.

 

E como vem aí o fim de semana, deixo uma sugestão, o livro "O Urso-pardo em Portugal", de Paulo Caetano e Miguel Brandão Pimenta, que aborda a extinção deste mamífero em Portugal.

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Créditos: wook

 

Bom fim de semana...

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Créditos: Robinson Kanes e GC

 

A manhã chega com o som do mar a dizer-nos que não está para grandes conversas... Apesar do vento, procuro sair e ficar a sentir a brisa no rosto, a recordar os meus tempos em que passava o fim de semana junto dos lobos do mar e sentia aquele cheiro em Porto Dinheiro ou em Peniche. 

 

Contudo, mesmo para quem gosta de mar, o estômago é quem manda e claro, o pequeno-almoço é no Porto Velho - duas tostas, dois sumos e dois cafés! O resto da refeição é preenchido com animação a cargo dos diálogos entre lobos do mar.

 

Chega a hora de nos fazermos ao caminho e, logo após o Lajedo,  apreciar a "Rocha dos Bordões", ponto de fulcral importância para os habitantes das Flores, além disso é um interessante ponto geológico na medida em que estamos perante uma rocha que se formou pela solidificação do basalto em altas estrias verticais - pensamos em iniciar uma "escalada", mas a incerteza com o tempo e com as autorizações faz-nos recuar.

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Continuamos na direcção de um local que não nos faria recuar nunca, nem que estivessem ventos muito acima dos 200 km/H - na semana anterior a passagem da tempestade "Diana" foi bem sentida embora sem estragos de maior. Refiro-me obviamente ao "Poço da Ribeira do Ferreiro" ou "Alagoinha" como também é conhecido. Para aqui chegar o caminho é feito a pé, e depois de dias de tempestade, nem sempre o caminho está nas melhores condições, no entanto... Preparem-se para entrar numa outra dimensão e deixem-se envolver pela vegetação cerrada, pelos cheiros e pela natureza no seu estado mais puro e, de repente... entram num outro mundo. As cascatas e o poço a fazerem-nos pensar se estamos realmente em Portugal ou numa qualquer floresta tropical. 

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Com aquele local só para nós, ficamos por ali muito tempo, tiramos fotografias, comemos algo para repor energias e não fechamos os olhos! Ficam bem abertos a absorver tamanha beleza para que jamais percamos tais imagens do nosso pensamento! Ousaria dizer que um dia é pouco para por ali ficarmos...

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E por ali ficamos, mas não descansamos, o espectáculo com que nos deparamos não o permite...

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Mas a fome aperta e também as botas pedem mais caminho, é altura de ir até à Fajãzinha (Mosteiro e a Caldeira -sem habitantes desde 1992 por questões de segurança - serviram para relaxar). 

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Descemos e encontramos a pacatez, o silêncio e a pa que caracterizam o local... Temos outra visão da ilha e do espaço, ficamos indecisos entre o apelo da serra e do mar, das gentes e de um cheiro a comida que anda pelo ar...

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Do lado da serra, a neblina anuncia que o tempo muito provavelmente vai fechar e ainda temos mais uma etapa pelo caminho antes de jantar com um casal de alemães (novamente os alemães, mas não me perguntem porque temos esta afinidade com aquele povo) num restaurante onde os produtos servidos são todos locais e biológicos - a Casa do Rei, também nas Lajes da Flores! Uma nota, o restaurante é propriedade dos mesmos.

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Mas antes do jantar é preciso arriscar um pouco mais e partir em direcção à Fajã Lopo de Vaz, mais escondida e mais perigosa! Queremos, contudo, ver as cascatas a debitarem a sua água no mar e queremos percorrer todos aqueles caminhos enquanto o vento e a cacimba nos afrontam. Chegamos ao ponto onde as tempestades também entram pelas Flores, por norma, antes que de chegarem a outros grupos e até ao continente, é nas Flores que as tempestades abrem as hostes em território português!

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Nas Flores, por pior que seja uma tempestade, nunca é um drama para os seus habitantes, diz-se mesmo que, quando nas ilhas do grupo central e oriental ficam em pânico, nas Flores, onde estas são mais fortes, o povo recebe-as calmamente, até porque é aqui que, por norma, são mais fortes.

Continua...

Flores, Parte 1: A Chegada, as Lajes e o Porto Velho

 

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O Meu Reino por um Cavalo!

por Robinson Kanes, em 28.02.19

A Liberdade. Como é difícil. Numa carroça, quem tem menos problemas é o cavalo.

Vergílio Ferreira, in "Conta Corrente III"

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Cavalo inteligente? É o cavalo que não se deixa montar.

Entre vinho branco do Tejo e petiscos... Uma conversa onde o Robinson estava metido... Algures na Chamusca...

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O corpo humano é a carruagem, eu, o homem que a conduz, os pensamentos as rédeas, os sentimentos são os cavalos.

Platão, in "República"

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Um cavalo, o meu reino por um cavalo.

William Shakespeare, in "Ricardo III" 

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Fotos: Robinson Kanes

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