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A Morte... Nós... Eles...

por Robinson Kanes, em 09.10.17

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Fonte da Imagem: Própria. 

 

 

Malraux dizia que "a morte transforma a vida em destino" e chegamos à conclusão que, quer queiramos quer não, esse é o destino da vida. Embora afastemos esse pensamento do nosso quotidiano, façamos o que fizermos, esse destino determinado irá acontecer transformando as palavras de Malraux num lugar-comum.

 

Pelo meio, ainda há quem planeie a vida no sentido de pensar o que está para lá da morte: os que ficam, a memória, o prestígio, o reconhecimento... Mas na realidade e pegando nas palavras de Vergílio Ferreira, "é perfeitamente absurdo dizermos   «quando estivermos mortos». Porque nos imaginamos «nós» quando já não há «nós». Não estamos mortos, haverá apenas mortos.". De facto, podemos alegar que existe, independentemente das nossas crenças um mundo para lá da morte, mas a realidade demonstra-nos - pelo menos até aos dias de hoje - que se existe, ou é algo de tão fantástico que ninguém regressa ou então não passa disso mesmo... Morte! Morte não como um vazio, mas numa lógica ao estilo de Lavoisier em que somos apenas matéria que não se perde, mas que se transforma. Contudo, sem as qualidades que nos caracterizam como humanos.

 

 

Também o meu pai dizia, quando se falava de heranças ou temas afins, "que quem cá ficar que se oriente" - e foi assim que este procurou encarar a vida. Não se preocupou com o dia depois da sua morte, embora tenha feito muitos sacrificios que permitiram que me transformasse na pessoa que sou hoje e procurando garantir uma vida feliz sem destruir os outros e o futuro. Na verdade, de que nos vale pensar em quando estivermos mortos? Não existirá nós! Não seremos nós, não seremos mais nada a não ser um punhado de matéria que deambula pelo ar e permitirá que outros sistemas se desenvolvam... Não passaremos do sujo porto onde as fezes e a urina fazem nascer as grandes obras, como defendia Agustina em "Fanny Owen".

 

Aceite esta concepção, será que já estamos a abraçar essa lógica de tal forma que não concebemos o futuro? Camus dizia que o "homem sem esperança e consciente disso, já não pertence ao futuro (...) mas também está na ordem natural das coisas que ele faça esforços para escapar ao universo de que é criador". Será que já não temos futuro e somos um bando de seres sem esperança que, pelo presente abdicamos da nossa ética, dos nossos valores, das nossas faculdades de sermos... humanos? Mais que nunca, a Humanidade não pensa o futuro, não o pensa na medida em que não defende os valores essenciais da experiência humana e esquece inclusivamente que, ao focar-se tanto no agora, está a matar o amanhã. Não podemos tentar escapar ao universo da nossa criação se o egoísmo for imenso que nos consome em cada acto.

 

Pior, nunca tivemos tantos instrumentos para criar um mundo melhor, e não me foco apenas nas questões técnicas mas também nas questões do pensamento. Deus morreu, o pensamento tem vindo a morrer, o espírito critico da segunda metade do século XX está a morrer e no fim, somos apenas um rebanho sem esperança... Somos um rebanho sem esperança que chora as mortes do terrorismo mas não o hesita em praticar com os colegas no trabalho, com os vizinhos no prédio ou na rua, com aqueles com quem nos cruzamos e nos fazem pensar o nosso caminho. Lutamos por questões fúteis, enchemos jornais e redes sociais com temas e preocupações que já não se deveriam colocar e esquecemos as verdadeiras questões estruturais da existência: as boas e as más. Uns chamam-lhe desumanização, procurando um conceito mais pomposo, eu chamo-lhe desleixo ou até mesmo fraqueza.

 

Teremos perdido a esperança e estamos a alimentar o "nós" com tanta sagacidade que esquecemos, estando o mundo entregue ao Homem, que também ele é o responsável pela solidariedade com as gerações futuras e, no fundo, com as presentes. Dispenso também o discurso de que a culpa é do Capitalismo como forma de colocar num conceito/prática os nossos pecados.

 

Será que o Homem não é capaz de perceber que o único Deus é ele próprio e assumir essa responsabilidade? Acredito, verdadeiramente, que é por aí que se trilha o "nós", porque depois de mortos...  e encontrando aqui o pensamento de Levinas, depois de mortos, a morte será levada, não pelo morto, mas por aqueles que ficam e aí... Aí não teremos um "nós" mas teremos  "eles" e isso faz toda a diferença.

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O Mundo Que Não Pára mas que nos Pára.

por Robinson Kanes, em 23.06.17

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 Fonte da Imagem: Própria.

 

Uma das coisas acerca da qual mais se tem ouvido falar nos últimos dias é a questão do seguir em frente e de que o mundo não pára. Entendo, até porque se existe pessoa que não fica à espera que as coisas se resolvam e coloca  mãos-à-obra sou eu - mesmo que por vezes não abone a meu favor. 

 

No entanto, será que não podemos parar um pouco? Isto a propósito daqueles que afirmam (e com toda a razão) de que não podemos pensar muito nos que morreram nos incêndios ou até em outras situações e que temos de avançar sem nos fixarmos muito nisso... Levinas dizia que nos  consolamos "como se pudessemos escapar à morte [e que] a vida pública não se quer deixar perturbar pela morte que considera como uma falta de tacto". De facto o mundo não pára, sobretudo se estivermos envolvidos directamente numa situação não existe tempo para grandes lamentações mas sim uma necessidade imediata de agir, mas agir bem! A vida pública não quer perder tempo com a morte e com o fim - com o fim da utilidade de outrem nos destinos do mundo... "A vida continua", diz o povo. 

 

Mas também existe o outro lado. O mundo também pode parar, ou melhor, nós podemos parar, sobretudo aqueles que podem agora fazer um luto e reflectir sobre esta situação já que, infelizmente, outros estão ainda nas operações e não podem fazer esse luto vendo-se obrigados a adiar o mesmo.

 

Três dias de luto! Pelo menos esses três dias deveriam fazer-nos reflectir. Reflectir sem os espalhafatos mediáticos acerca da tragédia que começou no Sábado. Acredito até, que seja demasiado prematuro a declaração imediata de "Luto Nacional" pois, efectivamente no quadro dos desenvolvimentos e da cabeça dos indivíduos, a intenção do mesmo tende a ser completamente desvanecida. Bandeiras a meia-haste, um ou outro acto mais protocolar, mas o luto não é feito. Esse tempo tem de ser fora da agitação dos factos...

 

Por experiência pessoal, profissional e até no quadro de vida de muitos que conheci, encaro o luto como fundamental: o tempo para digerir é fundamental, o tempo para reflectir é fundamental, o tempo de atirar tudo pelo ar é imperial. E nem me foco no luto com cariz mais religioso, porque "mesmo os homens sem evangelho têm o seu Monte das Oliveiras", como defendia Camus no seu Mito de Sísifo. Mesmo aqueles que se encontram a trabalhar no combate precisarão desse tempo mais tarde. Até numa situação de guerra é preciso parar e fazer um luto e a ausência desse luto acaba por ter consequências no longo prazo e aqui exemplos não faltam - o stress pós-traumático de guerra é um exemplo e não é somente o reflexo dos acontecimentos na vida de quem combateu, mas também a ausência de um luto bem feito. 

 

Até no amor o luto é essencial para que todas as portas possam ficar bem fechadas e todas as pontas bem atadas, sob pena de um dia mais tarde isso nos abalar, trazer dissabores ou afectar o nosso estado de alma.

 

Talvez não possamos parar o mundo, todavia, parece-me capital que não deixemos que o mundo nos pare sob pena de termos uma digestão mal feita e cujos resultados só sentem ao fim de algumas horas...

 

Por hábito, à sexta-feira deixo algumas sugestões, mas admito que não é uma semana para grandes euforias, pelo menos por aqui... Todavia, deixo uma sugestão literária:  "Pensar", um livro com 671 pensamentos de Vergílio Ferreira. É aquele livro no qual podemos tirar algumas pequenas lições acerca do mundo e acerca de nós, sobretudo vindo de alguém que era um dos mais atentos observadores desse mesmo mundo e cujas inquietações são hoje tão actuais. E que falta nos faz parar um pouco e... Pensar. 

 

Não há espécie humana. Há cada indivíduo de per si que envolve a espécie e o mundo. Mas num montão de cadáveres, que é que significa cada um dos mortos? Porque então ele é mesmo elemento da espécie e uns tantos a mais ou a menos são uma fracção mínima que se despreza para as contas gerais. E é aí que deverias talvez pensar-te mais para te pensares menos.

 

Vergílio Ferreira, in "Pensar"... 

 Bom fim de semana...

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A Desumanização de Mortos e Vivos.

por Robinson Kanes, em 06.06.17

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 Fonte da Imagem: Própria

 

Inegável... O facto de que quanto mais mortes ocorrem mais insensíveis nos tornamos às mesmas. Procuramos criar mecanismos de defesa de modo a que possamos afastar essa morte de nós, até porque é fugindo dela com elementos distractores, como o quotidiano, que podemos conceber uma vida normal.

 

Será que recusamos essa responsabilidade e queremos afastar-nos desse fardo, do peso desse caixão? Será que Aristóteles teria razão quando dizia que “a morte é morte de alguém e tê-lo sido de alguém não é levada pelo moribundo mas sim pelo sobrevivente”?. Será por isso que fugimos dessa e da nossa própria morte que será herança que outrem nos deposita? O alguém que só existe porque nós existimos?

 

Costumo afirmar que morro sempre um pouco quando perco as pessoas que realmente interferiram na construção do meu ser - as pessoas que, para o bem e para o mal, fizeram aquilo que eu sou. As pessoas que me acompanharam na criação da minha essência, que por elas foi influenciada e não por um qualquer Deus, seja através de uma predestinação, seja pela bondade do mesmo em relação a um livre-arbítrio. Vejo-me um pouco na imagem de Vergílio Ferreira quando nos diz no seu Conta-Corrente (Volume II) que “o homem viveu até hoje pelo que acumulou da humanidade – e viverá amanhã pelo que acumulou de desumanização”.

 

Por vezes sinto que carrego um pouco desses mortos comigo e que provavelmente vivo essa desumanização. Que os sustento a combater a desumanização, ou seja, de não encontrar a minha morte e, no fundo, também a dos outros mesmo antes de morrer. Mas o peso é grande demais e paradoxalmente tendo a perder a guerra...

 

Talvez não seja mais que isso mesmo: a dificuldade, não em encontrar uma nova Humanidade, mas em encontrar uma forma de ser novo perante uma velha Humanidade e, com isso, percorrer o caminho que um dia acabará na desumanidade de uma boca cheia de terra ou um corpo transformado em cinzas.

 

 

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As Criancinhas que Morrem e Não Têm Sonhos...

por Robinson Kanes, em 24.05.17

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Bartolomé Estéban Murillo - Crianças Comendo Uvas e Melão, (Alte Pinakothek)

Fonte da Imagem: Própria

 

Deve, portanto,  cada um por sua vez descer à habitação comum dos outros e habituar-se a observar as trevas. Com efeito, uma vez habituados, sereis mil vezes melhores do que os que lá estão e reconhecereis  cada imagem.

Platão, in "República"

 

 

As criancinhas que morreram em Manchester colocaram o mundo a pensar em como é possível que se matem crianças num concerto, onde algumas até estão a realizar o sonho de uma vida. Como é possível? É a questão que todos colocam...

 

Lamento essas mortes como lamento quaisquer outras, mas o ódio e tristeza de muitos coloca o foco nas crianças que morreram. Por serem crianças, por serem jovens, por terem tantos sonhos e por estarem a realizar um deles que não era mais que ver um concerto. É legítimo, é um sonho...

 

Contudo...

 

E as criancinhas dos países do Sudoeste Asiático, da América do Sul, de África e até de países como na Turquia, qual imagem com que a personagem Mevlut de "Estranheza em Mim" (Orhan Pamuk) se deparou aquando da venda de Booza. A imagem de assistir a crianças que vivem fechadas em apartamentos a fabricar brinquedos, peças de roupa e calçado para muitas marcas que muitos de nós compramos... Às nossas criancinhas?

 

E as criancinhas que ficaram sem pai e/ou sem mãe porque foram mortos pela guerra? Criancinhas que nunca souberam o que era paz.

 

E as criancinhas que mal conseguem andar e começam a trabalhar para ajudar a família ou que então são escravizadas? 

 

E as criancinhas que não querem ficar fechadas em casa a viver no medo e arriscam brincar entre as crateras das bombas?

 

E as criancinhas que dão à costa ou andam a boiar? Quantos sonhos se perderam nas ondas que as arrastaram às areias do mediterrâneo e não só? São as mesmas areias onde muitos de nós vamos passar férias, com as nossas... Criancinhas...

 

E as criancinhas vitimas da guerra que aos 10-14 anos falam como adultos? Que demonstram uma frieza de adultos e guardam uma tristeza profunda por viverem como vivem? Criancinhas que nos fazem envergonhar e pensar como é que um discurso tão evoluído daqueles cabe em tão poucos anos de vida!

 

E as criancinhas que aos 12 anos sabem o que é disparar uma AK 47 e armar uma granada?

 

E as criancinhas que sufocam com gases tóxicos ou são contaminadas com urânio empobrecido?

 

E as criancinhas que são feitas em pedaços porque estavam a brincar na rua e a última coisa que ouviram foi o “click” da mina anti-pessoal que as enviou pelo ar e desfez as mesmas em pedaços?

 

E as criancinhas que sobrevivem a tudo isso e são transportadas para um hospital até o céu lhes cair em cima, porque lá de cima alguém o fez cair sob a forma de uma bomba?

 

E as criancinhas que, apesar de tudo isso, ainda conseguem ter um sorriso e não pedir nada?

 

E as criancinhas que, ao contrário das nossas, provavelmente nunca saberão o significado da palavra sonhar?...

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É Tudo Uma Questão de Nervos...

por Robinson Kanes, em 06.04.17

 

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Fonte da Imagem: http://www.cbsnews.com/news/chemical-nerve-agents-a-very-toxic-and-horrible-way-to-die/

 

Um serão em família bem planeado... pai e mãe chegam dos empregos, ele prepara o jantar, ela dá banho aos miúdos. Brinca-se, pensa-se em como pagar o empréstimo da casa, diz-se mal dos amigos e chega a hora do jantar.

 

Entre chamadas de “João anda para a mesa” ou “Matilde, deixa a internet”, todos se sentam à mesa e começam a jantar. Cheira a comida oriental, uma receita que o pai retirou de um blogue. Uma ideia dos amigos e que, segundo ele, é uma receita de um país atrasado e de Terceiro Mundo.

 

A cidade está alegre, é Verão, ouvem-se crianças a brincar na rua, o vizinho do lado a chegar e aquela família a jantar com os últimos raios de sol a inundarem a cozinha daquele T3 nos arredores de Lisboa.

 

Pelo meio fala-se de futebol e do Ronaldo, fala-se do carro novo que já está decidido, dos detalhes do empréstimo e da escola dos miúdos. João exige umas sapatilhas novas, todos os amigos têm.

 

De repente, um estrondo... a mãe levanta-se, vai ver. Só os cães ladram, as crianças na rua continuam a brincar. O sol em Lisboa é mágico e inunda a praceta de uma cor de fim de tarde que contrasta com o cinzento esverdeado dos prédios.

 

A televisão ligada corta o diálogo, deixou-se de falar do melhor penteado e da figura pública mais bem vestida e chegam as notícias do mundo. O Pai diz - Não há paciência, merda para esses árabes! – e desliga a televisão.

 

É nesse momento que o som das crianças na praceta também se desliga, é também nesse momento que João começa a tossir. Os músculos do rosto contraem de tal modo que o João fica desfigurado num rosto digno de uma tela de Goya no seu período mais negro. Cai ao chão e apresenta convulsões que o fazem babar o ladrilho e urinar as calças que a avó com tanto carinho lhe deu. Agarra o pescoço, luta com os seus braços ainda pequenos, mas em vão...

 

Os pais acorrem em pânico, não conseguem perceber o que se passa, a linha de emergência está ocupada... Matilde, até então em choque, contorce-se na cadeira, agarra-se ao peito, o coração deixa de bater e os pulmões contraem-se de tal modo que nenhum oxigénio circula. Asfixia, cai perto de João que jaz já cadáver perante a falência respiratória. O seu rosto de menino transformou-se num retrato dantesco, as suas pupilas transformadas em mínimas esferas e o rosto com um olhar de horror, transformaram-no num pedaço de tragédia humana. A mãe vem gritar para a janela e vê os corpos das crianças que brincavam na rua no chão e amortalhados entre saliva e urina. Os pais, em pânico na praceta, choram e agridem os tripulantes das primeiras ambulâncias a chegar ao local.

 

No apartamento, de joelhos e em lágrimas, os pais sentem-se perdidos no mundo, João de 10 anos e Matilde de 8, foram vítimas de um ataque com agente nervoso. O cheiro da urina dá lugar a um cheiro pesado a insecticida... a um cheiro a morte.

 

Um dia pode ser na sua casa... com os seus filhos... os ataques com armas químicas são crimes de guerra, são verdadeiros crimes contra a Humanidade! Humanidade, significa que são contra si. Já foi ver se os seus filhos estão bem?

 

 

(Os ataques com armas químicas não são recentes. Sobretudo na Síria não é nada de novo, em 2013 não morreram 100 pessoas como no último ataque conhecido... morreram 1300 pessoas e o mundo virou a cara. Ao longo destes últimos anos o cenário tem-se repetido e penso... não aprendemos nada com a memória plástica que nos deixou Pablo Picasso com o seu Guernica.)

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"Jorge Miguel" e Eu.

por Robinson Kanes, em 26.12.16

 

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Acabei de receber um telefonema e, do outro lado, perguntam:

 

-Sabes quem morreu?

-O Mário Soares? – Perguntei eu.

Do outro lado, a resposta crua e dura:

-Não! O George Michael!

 

Confesso que não procurei notícias, para mim basta-me a notícia da morte e... não fosse ter escrito recentemente um texto sobre Bowie, provavelmente não estaria a escrever este... confesso que abomino os escritos imediatos que surgem após a morte de alguém... desconfio, muito seriamente, que existem pessoas que já têm textos escritos para a morte deste e daquele indivíduo e contam ansiosamente o tempo para os publicar, tal como os "humoristas". Por vezes, ainda o indivíduo está a “fechar os olhos” e já estão a sair artigos e opiniões...

 

Hoje, e durante os próximos dias, George Michael vai ter mais fãs do que alguma vez teve, chega a hora de todos, especialmente as pseudo-celebridades, dizerem que adoravam o senhor.

 

Conheci o “Jorge Miguel” tarde... a minha irmã era altamente viciada no senhor, sobretudo durante os anos 80. Mas... durante os anos 80, era eu um miúdo sem qualquer sensibilidade para essas coisas, aliás, não poderia mesmo e a Rua Sésamo era o meu passatempo (graças a Deus que em Portugal não existiam Telteubbies).

 

Foi, efectivamente, em meados dos anos 90, que ouvindo os discos dos Wham (todos temos as nossas pedras no sapato e... quem nunca fez figuras tristes a dançar o “Wake Me Up Before You Gogo” que atire a primeira pedra”) lá fui entrando no universo deste senhor.

 

O apogeu deu-se quando ouvi “Jesus to a Child” e especialmente o “You Have Been Loved”. Numa época de miúdo armado em galã, ouvir esta última e passear pela escola de “peito feito” com a mais desejada da turma... a mistura não poderia ter sido melhor. 

 

Songs From The Last Century” e, mais recentemente, “Symphonica” fizeram-me apreciar, não só as músicas deste senhor, mas a voz (lembram-se que foi o único músico que, após a morte de Freddy Mercury, reuniu consenso entre os fãs de Queen, para o substituir?). Ainda hoje, sinto que vou pegar no último e deixar que ecoe pela sala... afinal, estas coisas têm de ser recordadas com alegria.

 

 

People

You can never change the way they feel

Better let them do just what they will

For they will

If you let them

Steal your heart from you

People

Will always make a lover feel a fool

But you knew I loved you

We could have shown them all

We should have seen love through

(Kissing a Fool do álbum “Faith”)

 

Num mundo, onde as referências, sobretudo na música, vão sendo menos, estas perdas fazem-nos pensar... não na morte dos mesmos em si, afinal a morte faz parte da vida, mas em como vão sendo cada vez menos os bons artistas e como o futuro não é propriamente recheado de qualidade no que a esta temática concerne. 

 

O Jorge Miguel vai continuando por aqui... bem vivo, em cada música, em cada disco e cd que vai girar vezes sem fim, fazendo companhia a outros grandes mestres.

 

Fonte da Imagem: Própria.

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Falar de Bowie e da Morte...

por Robinson Kanes, em 19.12.16

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Agora que os ventos estão mais calmos e em que tudo já se escreveu sobre David Bowie - que ficaria feliz ao perceber que afinal tem o quádruplo dos fãs que pensava - escrevo eu quando pouco falta para o primeiro aniversário da sua morte. Sobretudo porque, sempre que morre alguém, tenho a sensação de que já existem rascunhos prestes a serem publicados para não se perder a corrida das lamentações e com isso os holofotes.

 

De repente fiquei a saber que poderia ter falado de "Absolute Beginners", de "Ziggy Stardust" ou de outros temas com tanta gente que eu pensava não conhecer muito da vida e obra deste senhor... possivelmente não as conheciam mesmo. Nada que no prazo de um dia umas pesquisas na internet não resolvessem e... a cada aniversário lá virá mais uma colectânea para o lembrar.

 

Bowie, apesar de ter trabalhado uma vida inteira e de, por isso, ter sido reconhecido também em vida, teve de morrer para chegar a número um nos Estados Unidos. Isto faz-nos pensar um pouco... afinal, quer queiramos, quer não, as conquistas, os prémios e os reconhecimentos depois de mortos de nada valem para os artistas. “Vou ser reconhecido pelo meu trabalho... fantástico!... mas estou morto e, mesmo que até na minha fé esteja a visualizar tudo o que se passa na terra, convenhamos, de pouco ou nada me serve”. Somos nós, sobreviventes (por mais algum tempo), que podemos lucrar e transportar para aí um pouco a nossa crença de imortalidade.

 

Falou-se muito de David Bowie, sobretudo em termos de aprendizagem organizacional, de como era inovador, diferente e até de como a sua atitude se reflectiu numa carreira que se prolongou por várias décadas. David Bowie foi sempre ele próprio e a “única” coisa que teve de inovador foi isso mesmo: ser ele próprio. David Bowie não cedeu às muitas inovações (absurdas) de que o mundo musical foi sendo alvo nos últimos anos. Aproveitou como ninguém a tecnologia, mas jamais se deixou contagiar pelo muito lixo musical que foi sendo produzido. Podemos nesse aspecto continuar a falar de inovação? Claro que sim! Também isto é ser inovador – cada vez mais...

 

Outra descoberta: a apropriação da morte de Bowie por todos nós - “o meu Bowie”; “quando ouvia a música do Bowie”; “foi um cd do Bowie que...”; “como vai ser sem a música do Bowie” (interessante que também descobri no decorrer deste ano que a maioria dos portugueses e não só tem dificuldade em pronunciar o nome do senhor).

 

Tudo isto é interessante, e eu aí também sou apanhado na teia, mas esquecemos que o Bowie era uma pessoa e não pensamos muito nisso. Não pensamos muito no lado de lá... na família, no próprio (afinal morreu)... Não conseguimos ir mais além do “eu” que aqui também ganha destaque. É lugar comum falar em sociedade individualista, mas não vamos ao encontro dos focos desse mesmo individualismo. Não me alongo muito nesta matéria, deixo-a para os especialistas.

 

Finalmente, falar da morte de Bowie é também, passe a redundância, falar de... morte! Bowie é um cidadão da Idade Média. Ou melhor, é gente da Idade Média, pois o conceito de cidadania nessa época, com a queda do Império Romano do Ocidente, ficou um pouco marginalizado. Bowie soube preparar a sua morte com discrição - convidou a senhora da foice, sentou-a à mesa e discutiram todos os preparos para a festa que se seguiria. Uma das coisas em que a nossa sociedade não evoluiu, pelo contrário, foi a questão da morte. Talvez por perda de fé; talvez pelo simples facto do homem estar entregue a si próprio; talvez porque nos julgamos imortais; talvez porque perdemos aquele ente querido mas acreditamos poder viver eternamente porque a medicina nos vai salvar... até ao dia em que corremos o risco de morrer “velhinhos”. E quando a morte nos pisca o olho, temos um medo terrível e lutamos com todas as nossas forças, pois ainda há esperança de sermos salvos, mesmo quando não somos mais que um vegetal condenado a essa mesma morte.

 

Bowie foi gente da idade média, basta ler Ariés para perceber em que medida, naquela época, a Ocidente, o cerimonial da morte era preparado: morrer fazia parte da vida e a aproximação da morte era como que celebrada. Era o próprio moribundo que, apercebendo-se da aproximação do fim, preparava todo o cerimonial. Não existiam pontas soltas, quer em termos de heranças, quer em termos de palavras ou gestos. Havia tempo para serenamente discutir as questões da morte, não só entre o moribundo e os médicos da morte, mas também entre o moribundo e todos aqueles que o rodeavam. Segundo Ariés a morte era uma cerimónia pública e organizada e mais importante que isso, a simplicidade com que os ritos da mesma eram aceites e cumpridos, sem qualquer drama ou emoção excessiva. Fugir da morte, esconder o moribundo é uma prática recente do início do século XX.

 

Bowie não teve medo da morte. Preparou-a aliás, com um sorriso no rosto e trabalhou em parceria com ela no sentido de deixar tudo finalizado apesar de possivelmente ter travado uma luta interior que nos é desconhecida. Quantos clientes com esta postura não adoraria ter a morte?

 

No entanto, não esqueçamos... isto não é coisa que se faça cinco minutos antes de termos aquele AVC que nos vai levar de vez... este é um projecto também de vida, pois a serenidade da morte tem a ver com a serenidade da vida, caso contrário teremos aquilo a que Sartre chamava de “viver” e não a “aventura” (da vida) que só existia quando pudesse ser contada e acrescento eu, realmente sentida...

 

Talvez uma das maiores lições e inovações de Bowie tenha sido essa: a morte é normal, faz parte da vida e, fazendo parte dessa vida, também nós, “pseudo-imortais”, temos de estar preparados para a receber. Foi essa a última grande inovação de Bowie, ser gente da Idade Média em pleno século XXI.

 

Fonte da Imagem: http://thefashiontag.com/2016/01/13/david-bowie-a-style-icon/

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Hoje Morreu o Correia

por Robinson Kanes, em 03.10.16

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 Hoje morreu o Correia.

 

Não, o Correia (nome fictício) morreu em Janeiro. É como se praticamente 10 meses nos separassem desde aquela última conversa em Novembro. Recordo-me, estava com a Maria (nome fictício) e, em trabalho visitamos, o nosso amigo de curta data. Uns meses... fomos àquele teatro, mais um vez, descobrimos a doença recém-diagnosticada e quedámo-nos desamparados perante a subtileza do destino.

 

Sim, a doença também toma conta dos mestres. Sim, o Correia, naquele seu ar austero, com um sorriso contido mas genuíno como o halo que circundava os seus gestos, também contidos, era um mestre do Teatro e da Cultura.

Era o amigo de curta data que nos contagiou de imediato e nos ensinou a diferença entre o animar e o criar, entre o fazer teatro e o fazer espectáculo. Que nos mostrou, como outros, que o Teatro é de todos e não somente de alguns, no fundo como a sua própria personagem, agora contida, mas abatida pelas escaras da doença que lhe dava um ar inverosímil daquele Correia que nós conhecíamos.

 

Discutimos, ainda sorrimos e inclusive, no seu estilo rebelde, lá tivemos de tirar o Correia daquele parque de estacionamento sem que este tivesse que pagar por ele. Quem me lê, vai-me já atirar a primeira pedra, mas apesar de defender a ética e a transparência também tenho o meu lado rebelde e de criança, beati mundo corde.

 

A chuva de Novembro, que sempre tirou um ar luminoso ao mês do meu aniversário, caía forte sobre Lisboa, aquela Lisboa esquecida lá para os lados do Beato, aquela Lisboa que por mais escura que seja, não consegue cevar aquele ar escuro e carrancudo quando o sol cruza o mar da palha, entra rio adentro e decide ali pintar de cor aqueles bairros que até há muito pouco tempo, eram a porta de entrada da cidade.

 

Saímos e nem pensámos em trabalho... tomámos a difícil decisão de deixar o Correia descansar. Por vezes sentíamos que carregava o peso do mundo e apesar do paz exterior, internamente tentava dominar todos as erupções que emergiam do interior da terra.

 

O Correia morreu, mas não foi hoje, foi em Janeiro... e só hoje soubemos que o nosso parceiro e amigo tinha morrido. Talvez, e como o disse Levinas, tenhamos em nós aquele sentimento de que a morte é morte de alguém e tê-lo sido de alguém não é levada pelo moribundo mas pelo sobrevivente. Talvez tenhamos aquele arrependimento de não ter percebido os sinais. Talvez o trabalho e todos os desafios que dez meses nos proporcionaram e quase sem tempo para respirar, nos tenham deixado ficar somente por correspondência electrónica à qual não tivemos resposta. E o telefone que estava tão ali à mão...

 

Por certo o nosso parceiro, o nosso colega de trabalho sempre estivesse ali, mas nós não. Talvez até, o Correia, que de nós pouco conhecia, não quisesse a nossa presença.

 

Talvez ouse escolher uma banda sonora para o Correia, para este momento e para alguém que gostava de piano tal como eu, talvez lá do alto (se ele assim existir) esteja sentado ao lado de Beethoven, enquanto este executa com mestria o Concerto para Piano nº 5 e se possa deixar envolver por cada acorde tocado com toda a emoção que cada nota nos transmite. Talvez, também para mim, para nós, essa banda sonora seja uma espécie da cura e não de paliativo... minuetur atrae carmine curae.

 

Termina Bethoven, que nos tenta escutar de “funil” ao ouvido e é como se sentisse uma alegria desesperada nesta tarde aérea de brisas. É assim que estou, é assim que me quero sentir.

 

Hoje morreu o Correia, hoje morremos também nós um pouco...

 

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