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O Beijo...

por Robinson Kanes, em 24.09.18

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E por hoje, mais não digo...

 

Créditos: http://countercurrentnews.info/2016/01/video-of-israeli-jews-and-palestinian-arabs-kissing-removed-from-facebook/

 

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Israel e um Estranho Paradoxo...

por Robinson Kanes, em 19.06.18

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 Créditos. http://america.aljazeera.com/articles/2013/9/13/oslo-accords-explained.html

 

 

Admito que é extraordinário ver um país como Israel, a grande nação do judaísmo, a cometer erros históricos semelhantes àqueles de que foi sendo vítima ao longo dos séculos - o culminar foi o genocídio nazi, tão falado, talvez demais falado em detrimento de outros genocídios perpetuados antes, durante e após.

 

Os últimos tempos, para além da construção de muros e vedações, tem mostrado uma hostilidade atroz por parte deste Estado face ao Estado Palestiniano que, obviamente, também não é isento de culpas. Todavia, o modo como são abatidos palestinianos por parte das forças israelitas é qualquer coisa para a qual o mundo e sobretudo as Nações Unidas não parecem estar muito interessadas em discutir, inclusive o seu Secretário-Geral, completamente inapto para o cargo que tem vindo a desempenhar - não basta o papel do bom cristão, de santo salvador que deixou um país à beira do abismo e uma demagogia obsoleta para mudar o mundo.

 

A agressão israelita tem sido tão forte que nem os mortos são poupados, e nos últimos anos, não são raros os casos em que polícia e forças militares israelitas invadem cemitérios e destroem túmulos, campas para construirem espaços de lazer para israelitas e quiçá acabarem com uma cultura e com um povo da face da terra - onde é que já vimos isso! O último foi e está a ser o cemitério de Bab Al-Rahma, onde estão os túmulos de Ubada ibn as-Samit e Shadad ibn Aus, dois próximos do profeta Maomé! Esta é uma prática constante, onde os bulldozers de Israel entram sem dó e arrasam em segundos estes espaços sagrados e que são a identidade cultural e religiosa de um povo - entretanto vão-se matando a tiro aqueles que defendem estes locais sagrados - tratados pela alta esfera israelita quase sempre como terroristas. Aliás, para muitos governantes e cidadãos israelitas não existem palestinianos mas sim terroristas - não é raro em entrevistas não existir sequer uma menção a estes indivíduos como palestinianos mas sim como terroristas perante a passividade de muitos jornalistas e responsáveis políticos.

 

É um discurso que ao longo de décadas tem ganho uma força que hoje em dia alguém que atira pedras a um soldado é visto como uma terrorista, mas um soldado que retira alguém que está em casa e mata só porque sim esse mesmo alguém em frente aos filhos é um agente de paz! Também nós colocamos a mão no gatilho ao continuar a permitir o perpetuar destes comportamentos.

 

É uma questão antiga, uma má gestão por parte do Ocidente, empenhado em resolver os expedientes da Segunda Guerra Mundial e do passado colonializador... Talvez por isso procure agir como uma avestruz... Entretanto, os terroristas vão morrendo enquanto o ódio, por culpa destes actos, vai sendo incentivado e, ao invés de estarmos a limpar um povo da face da Terra, talvez estejamos a contribuir para a criação de um povo de ódio... Um povo com ódio que será visto sempre como o principal culpado enquanto o outro lado, não menos sangreto mas mais poderoso e talvez inteligente na forma como gere a comunicação e a teia de influências, vai sendo tratado como vítima... Mesmo quando levanta muros, cria vedações e desrespeita culturas ancestrais, encarcerando o povo palestiniano num gueto - palavra que a muitos lembrará os anos 30 e 40 do século XX e não pelos melhores motivos.

 

Todo este processo deveria deixar-nos envergonhados, sobretudo aqueles que passaram por um genocídio, que a História, ou melhor, aqueles que escrevem a História, insistem em quase assinalar que foi o único.

 

(é importante recordar que tenho amigos de ambos os lados da barricada e tento sempre perceber um lado e o outro e não estou a fazer a apologia de uns em detrimento de outros).

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Futebolada e Selfies! Basta!

por Robinson Kanes, em 16.05.18

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Créditos da Imagem: https://me.me/i/i-have-no-clue-what-my-governmentis-doing-butiknoweverything-there-5907005

 

Mas em que país, ou até em que mundo, vivemos? Mas porque é que em todo o lado temos de levar com tudo e mais alguma coisa que tenha a ver com o futebol? 

 

É mais importante o futebol que a economia; que os massacres que andamos todos a legitimar no médio-oriente; que os números do emprego/desemprego; que o dia-a-dia que faz andar um país! É na rádio, é nas conversas, é nas montras, é no emprego (onde quem já não gosta de futebol se arrisca a ser alvo de discriminação) é em todo o lado e mais algum! 

 

Mas que império é este onde não faltam comentadores, programas, processos e todo um monopólio de informação e desinformação em torno do mesmo! Mas que império é este que movimenta milhões e mais milhões, muitas vezes sem origem conhecida e ninguém se preocupa em saber? Mas que império é este onde a corrupção é tolerada e defendida pelos supostos adeptos, vulgo, e no caso português, praticamente toda a população! Mas que império é este onde um episódio de violência tem mais eco que os episódios de violência em outros sectores e até no mundo?

 

Mas que histeria colectiva é esta em que, mais importante que ser português, é a porcaria (sem aspas) do clube que se tem? Que histeria colectiva é esta que transforma o "estudo" do futebol numa autêntica aula de matemática aplicada forçando uma coisa que não tem sabedoria nenhuma em algo complexo?

 

E a política no meio de tudo isto? Silêncio, promiscuídades e um deixa andar que chega a assustar - a mim assusta-me, como cidadão. Entretanto, o professor da nação, vai ensinando os franceses a tirar selfies, talvez porque não tenha mais nada para lhes ensinar senão uma cartilha de que estamos todos muito bem e somos o máximo... 

 

E no Governo e na Assembleia da República? Viva o futebol! Legislar e garantir que o combate à corrupção, evasão fiscal, enriquecimento ilícito, reforma do Estado, financiamento partidário, benefícios dignos de um Estado totalitário, afinal tudo isso pode esperar... Até vender a alma ao diabo por uns bilhetes para a bola, e aqui não é só no sector público, só a título de exemplo, não faltam recrutadores em empresas que o fazem a troco da colocação deste ou daquele indivíduo...

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Um Sírio em Český Krumlov...

por Robinson Kanes, em 18.04.18

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Fonte da Imagem: própria

 

Estava uma tarde de frio, de um frio aconchegante, longe daquela intensidade que nos congela os ossos quando a Boémia decide testar os limites do sofrimento humano. A baixa temperatura, associada ao tempo nublado, convidava a uma entrada na "ilha" e a uma das suas praças onde, numa pequena feira de Natal, se poderia comer uma carne assada ou então o tradicional  "trdelník".

 

Não sentimos a simpatia dos vendedores daquela praça, ou talvez esse espírito não estivesse em nós, afinal já eram quase 300 quilómetros desde Bratislava. Procurámos por esse espírito ao longo das ruelas de uma das belas cidades do centro da Europa e foi numa pequena loja que parámos para vencer a fome. Por fora, uma loja simples, sem grande história, colorida mas confundindo-se com todas as outras. Quase que numa espécie de desespero entrámos, afinal já estávamos outra vez perto do rio Moldava, o mesmo que atravessa Praga.

 

Lá dentro, um pequeno espaço onde o "kebab" era rei. Um balcão sujo para comermos de pé, uma mesa com duas cadeiras, bebidas de um supermercado low cost dentro de um frigorifico de self service e as paredes com um sem número de fotografias com monumentos milenares que chamaram a minha atenção. Por momento dei comigo na Turquia e pelo médio-oriente.

 

O empregado era árabe. Numa primeira abordagem apresentou-se mais fechado mas rapidamente abriu o sorriso às nossas perguntas. Disse-nos que nos havia confundido com húngaros e daí a sua reticência em arriscar um comportamento mais expansivo. Falámos muito de Marrocos, da presença dos árabes em Espanha e Portugal e da nossa paixão pela Turquia - isto até ter indagado que duas das fotografias eram de Palmira. Foi aí que percebemos que não estávamos perante um turco mas sim perante um sírio que tinha fugido da guerra.

 

Enquanto comíamos um kebab, e também enquanto o sírio ia brincando, mexendo com as mãos na alface e na cenoura do balcão que albergava as cubas com que ornamentava a iguaria da casa, ficámos a saber mais sobre as suas origens - a família que vivia na Síria, alguns em Aleppo e outros próximos de Palmira - foi neste intervalo que pudemos ver fotografias de Palmira completamente destruída, fotografias reais, daquelas que não surgem nos jornais mas nos olhos trágicos daqueles que sempre viveram naqueles territórios, fotografias actualizadas que, depois comparámos em nada tinham a ver com as últimas que haviam chegado aos media.

 

Apesar de alguma tristeza que os seus olhos não conseguiam disfarçar, o sírio mostrava-se optimista no seu sorriso humilde. Fazia perguntas acerca de Portugal e de como poderia lá montar o seu negócio - respondemos que não era fácil e de como o nosso país também não era tão atraente como se vendia nos postais turísticos. Foi aí que levantou os olhos, sorriu, estendeu as mãos para a alemã e disse: "mas vocês têm paz".

 

Mas nós temos paz, de facto. Dei comigo a pensar no que seria pior, se enfrentar toda uma máfia que prolifera no nosso país ou se, realmente, deitar-me sem saber se no dia seguinte acordaria tal o estrondo das bombas à minha volta. Pensámos ambos em como era morrer sufocado por gases tóxicos, como era ser atingido por uma bala perdida enquanto se vai comprar algo para comer no intervalo em que também as peças de artilharia precisam de respirar antes de debitarem o seu fogo.

 

Para aquele Ser, pessoas como Assad,Obama, Trump e Putin eram todos terroristas, pouco diferentes de um Estado Islâmico. Para aquele Ser, qualquer um deles podia acabar com a guerra num minuto mas não era essa a sua vontade nem o seu interesse. Perguntei como era possível que o Presidente de um país ordenasse um ataque químico como de Ghouta em 2013 e que matou milhares de compatriotas - hoje, quando muitos partidos políticos, facções e pseudo-personalidades falam de mentira em Douma e tentam também influenciar e tirar proveitos dessas declarações, é importante fazer recuar as mesmas uns 5 anos e perceber que nada disto é novo e que esse arsenal químico existe e é utilizado! Perguntei e o sírio baixou ainda mais os olhos, não me respondeu - optei por não desenvolver o assunto.

 

Pedi um copo para despejar o refrigerante que tinha tirado do frigorífico. De entre vários copos, pois consegui apreciar a procura, escolheu o mais limpo. O copo mais limpo que levou a que a "alemã" arregalasse os olhos tal era a gordura que envolvia o mesmo, muito por culpa de uma má lavagem. Não era novo para nós, despejei algum refrigerante e bebi, não seria de bom tom beber pela garrafa. A conversa continuou e ficámos a saber o destino, à data, da irmã e do irmão daquele indivíduo... Dos sobrinhos... Da restante família... Ficámos a conhecer os rostos e aqueles olhares, apesar de tudo... Felizes. Estarão ainda vivos?

 

Entrou um checo, conhecido já do proprietário do estabelecimento. Cumprimentou, assistiu um pocuco à nossa conversa, sorriu... Sorriu bastante e em checo disse algo como "volto mais tarde". Deve ter pensado que eu era árabe, sobretudo porque entrou no momento em que eu dizia também ter esse sangue e orgulhar-me desta mescla de culturas em que nasci e cujos meus genes não me deixam mentir.

 

Como bom árabe, ofereceu-se para nos fazer um café. Café de cafeteira, como tem de ser entre seres que partilham esse "maldito" sangue! O café veio prolongar a conversa e permitir que numa cidade Património da Humanidade, mais que construções e um sem número de património material, o verdadeiro Património da Humanidade, indestrutível e rico estava ali, naquelas pessoas que conversavam. Gostámos da cidade, mas sem dúvida que a grande recordação que de lá temos foram estes momentos onde o frio da Boémia foi vencido pelo calor de uma boa conversa, de uma amizade, do conforto da troca de laços. O aroma de um café que não era brilhante mas carregado de amizade, perseguiu-nos até ao adormecer.

 

Chegada a hora de pagar, indaguei do valor do café, erro crasso e que já não deveria permitir a mim mesmo. Reparei que o sírio quase que ficou ofendido, tendo eu, sido obrigado a dizer que estava demasiado ocidentalizado e ele que me perdoasse o facto de me ter deixado levar por aquela lógica. Quebrámos o gelo, e antes de sair, entre um forte abraço, olhámos mais uma vez aquelas fotografias e o sírio... Queríamos levar aquele momento connosco e sem qualquer suporte digital afinal, dia menos dia iria desaparecer - queríamos registar aquele acontecimento no melhor disco rígido do mundo e assim o fizemos.

 

Não vou falar dos ataques dos últimos dias, mas não posso deixar a revolta que sinto ao, num dos países que mais me apaixona naquela região, a par do Líbano, ver e ouvir o que vejo. Revolta-me que tenha de assistir a uma matança que ninguém percebe muito o porquê, que tenha de assistir a um ditador que não hesita um segundo em matar todo o seu povo, seja de que forma for! Sugiro, aliás, que se matem todos os sírios e que fique Assad e a sua legião a governarem um país vazio e que não alimente as vidas de luxo que este e a sua família não hesitam em ostentar... Tudo isto enquanto cartuchos de gás matam o seu povo e tornam, como dizia Gabriel Garcia Márquez,  invisíveis todos aqueles que morrem, porque é esse uma das faces da fatalidade.

 

Entretanto, em Český  Krumlov, espero que o sírio continue a mostrar as fotografias da família com um sorriso nos lábios e um brilho nos olhos e não com as lágrimas de quem já só pode contemplar aqueles rostos numa fotografia.

 

 

 

 

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Os Revoltosos Acomodados...

por Robinson Kanes, em 26.02.18

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Texto: Anónimo

Fonte da Imagem: Própria 

 

 

 

A era das comunicações de massa é de deterioração da comunicação inter-humana. 

Gilles Lipovetsky in, "O Império do Efémero".

 

 

Nunca como hoje, o Ocidente teve oportunidade de se expressar de forma tão livre. As redes sociais, aliás, o digital como um todo, permitem que uma grande maioria da população tenha voz - ou será que é uma maioria assim tão grande? - e se expresse de forma mais ou menos entusiasta. Neste campo, tenho de enaltecer todas as inovações e de como a transformação foi, e é, necessária.

 

Nunca como hoje, em Portugal e não só, a revolta da sociedade foi tão generalizada e tão audível. Mas talvez, nunca como hoje essa revolta não passa de meros caracteres digitados num café enquanto se espera por um amigo, ou então porque é preciso escrever qualquer coisa para mostrar que existimos ou que temos opinião. Que temos opinião mesmo não tenhamos pesquisado sobre o tema e a única fonte de informação são os títulos de um qualquer artigo notícioso que nem sempre é o mais fidedigno ou opiniões de uma massa que não interessa contrariar. Camuflamos a nossa incapacidade de ter opinião própria, embarcado no comboio daqueles que nem sempre seguem para um destino esclarecido. 

 

Actualmente, temos opinião sobre tudo e sobre todos mas, talvez depois de esmioçadas convicções e argumentos não tenhamos opinião sobre nada a não ser sobre nós próprios, e mal. Baseamos a nosso opinião naquilo que nos chega e não paramos um momento para pensar - não procuramos ir mais longe e imediatamente desatamos a escrever e a falar como se estivessemos na posse de toda a informação e presenciado factos in loco. Podemos dizer que sempre foi assim... E foi. Mas antes a maioria da população não utilizava nomes "pomposos" para definir as suas habilitações ou o seu cargo profissional... Não estávamos perante uma população tão esclarecida, tão letrada e com os níveis de vida que encontramos na sociedade actual. Mas pensar em algo, analisar uma temática, leva a que percamos o comboio que leva todos aqueles que querem ser ouvidos, mesmo que não digam nada digno de ser escutado... 

 

Nunca como hoje fomos tão revoltados, revoltados no nosso sofá, na nossa secretária em casa ou no trabalho (porque até nem gostamos do que fazemos, mas ao invés de mudarmos preferimos protelar essa decisão para garantir que a nossa imagem perante os outros continua alicerçada em vigas de areia) mas tão cobardes na praça pública. Na praça pública que não é uma rede social, mas aquela praça pública onde somos rosto, cheiro, voz e cidadãos. Mais do que um povo reprimido, que não pode falar sob pena de acabar numa cadeia, tenho medo de um povo que pode dizer o que quer e revoltar-se por tudo e por nada, mas que embarca neste folclore de entra tema e sai tema como se nada tivesse acontecido. Mais que tudo, e seguindo as palavras da Faulkner nos "Ratoneiros", o nosso exterior é apenas aquilo em que vivemos, em que dormimos, e pouca ligação tem com o que somos e ainda menos com o que fazemos".

 

Aquele que contesta no digital o poder político por ser corrupto, é o mesmo que amanhã troca favores com outrem a bem de trazer mais uns euros no final do mês para além do ordenado. Aquele que se revolta contra a fome em África, é aquele que atropela tudo e todos no emprego e no regresso a casa, só para que ao filho não falte um carro de passeio que custa mais que alguns automóveis. Aquele que critica e despeja toda a raiva nas redes sociais, em blogs, em jornais e outros meios, é aquele que mal chega a hora de sair, fecha o computador, não deseja bom descanso a ninguém, chega a casa, janta e vê televisão e dorme um descansado sono sem qualquer inquietação em relação ao mundo que o rodeia... A não ser que tenha contraído dívidas quando teve necessidade de viver acima das posses e agora não as possa pagar. Ou então aquele que se bate (nas palavras e na imagem) pela luta contra o racismo mas não é capaz de trabalhar lado-a-lado com um preto. Ou finalmente, aquele que se bate contra a pobreza, mas nem arrisca passar de carro num bairro social, mesmo que goste de tirar fotografias ao lado dos desgraçadinhos enquanto lhes coloca um pacote de arroz no saco enquanto faz voluntariado de holofote - sobretudo agora que o voluntariado abre portas também no emprego.

 

Para aqueles que praticam o mal, para aqueles cuja ética e bem-estar não passam de notas de rodapé em revistas sociais, talvez, nunca como hoje, o mundo tenha sido um local tão apetecível para perpetuar tantas más práticas... Pois, já diz o povo, "os cães ladram mas a caravana passa", mesmo que vá cheia de bandidos, pois também diz esse mesmo povo que "cão que ladra não morde". Para os revoltosos acomodados, na verdade, podem ficar tranquilos no sofá enquanto a única noção que têm de conflito é o Netflix, pois "quem não age, não corre riscos", já dizia Vergilio Ferreira.

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 Fonte da Imagem: 

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Sexta-feira, o dia já conhecido pela actividade que me há-de acompanhar toda a vida: passar-a-ferro.

 

Lamento não ter texto sobre uma cidade onde vivi três meses e que foi alvo de um atentado, mas confesso (do ponto de vista pessoal) que não sigo a loucura dos "bicos de pés", vulgo hashtags... Posto que, quando a poeira assentar e termos percebido um pouco o que se passou, vou voltar ao assunto. Espero que as "Madres-Teresa de Calcutá" aproveitem também para partilhar fotos com os cadáveres dos mais de 50 civis que morreram esta semana na Síria "por engano" e durante um ataque da coligação. Eu sei que dizer que se esteve ou está em Barcelona é mais cool, mas Damasco é logo a seguir a Ankara e além disso tem uma história milenar.

 

Hoje pensava falar de uma zona de praia e de mar, mas a revolta que por aqui vai com os incêndios é maior e não pretendo ser mais um a dizer que está muito preocupado com a temática ao mesmo tempo que tira uma foto a beber uma caipirinha no Algarve ou num outro destino qualquer.

 

Deste modo, esta semana deixo também a música de lado e parto para os livros: "A Farsa" de Raúl Brandão e a personagem de "Candidinha" fazem-nos querer matar tal figura logo de início e, sobretudo no fim da obra, quase que nos sentimos vingados com a morte do filho. Deixo que leiam este livro de desencanto com o mundo, ódio e ambição bem pincelada de tristeza, em suma, um expressionismo e neo-romantismo bastante característicos da obra de Raúl Brandão.

 

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Fonte da Imagem: Própria 

 

E como os temas estão fortes, revisito também Gabriel Garcia Márquez (parece que ando em maratona com o génio) e o seu "Outono do Patriarca". Sem entrar em grandes revelações, é interessante a leitura na medida em que é um retrato fiel de muitos ditadores e marca a literatura de uma época (apesar da obra estar bastante actual) que se debateu também nesta matéria - nomes como Miguel Angel Asturias ou Augusto Roa Bastos são bons exemplos. Garcia Márquez é conhecido pelas suas descrições violentas, mas aqui tem um toque especial, pois no fundo é um relato com espaço para toda a imaginação e espelho do real do autor sobressairem num máximo esplendor. Provavelmente ainda voltarei a este livro para a semana.

 

E um filme? Imaginem que numa só pelicula conseguem ter Sean Connery, Michael Caine (uma vénia), Robert Redford (idem), Gene Hackman (idem), Dirk Bogarde (de "Morte em Veneza"), Antonhy Hopkins (outra vénia), Edward Fox, Ryan O'Neil (gostei dele em "Barry Lindon"), James Caan,  Lawrence Olivier  e um outro sem número de estrelas.

 

Se gostarem do género, somem o facto de ser um filme de guerra, baseado numa conhecida operação militar da 2ª Guerra Mundial, nomeadamente a "Operação Market Garden" (e também no livro de Cornelius Ryan)!

 

Quem já andou pela Holanda e não ficou só por Amesterdão decerto passou pela icónica ponte de Arnhem - é aí que a missão falha redondamente para o lado dos aliados, que animados pela "vitória" na Normandia tentam entrar na Alemanha pela Holanda conquistando várias pontes.

 

O filme realizado por Richard Attenborough tem o nome de "A Bridge too Far". O nome ficou famoso, pois na realidade, o Tenente-General "Boy" Browning (interpretado por Dirk Bogarde no filme) virou-se para um optimista General Montgomery e disse que os aliados tentaram ir longe demais, neste caso, uma ponte longe demais. Se gostaram de Anthropoid, que já teve por aqui um artigo, vão adorar este. Aposto também que, ao fim de 3 horas de filme, vão assobiar durante muitos dias a banda sonora de John Addison. Com estes actores e com mais uma lição de história, não tenho dúvidas que o fim-de-semana ou a semana têm tudo para ser mais animados... Ideal para o pós-ferro e para quem sabe que já não se assiste a um bom filme de guerra desde "O Resgate do Soldado Ryan".

 

E não me acusem de ser saudosista ou velho! Em 1977, penso que ainda nem os meus pais se tinham conhecido.

 

Bom fim-de-semana...

 

P.S: A ponte de Arnhem tem agora o nome de "Ponte John Frost" em homenagem ao Tenente-Coronel John Frost que esteve à frente das tropas aerotransportadas que defenderem a ponte naquele fatídico mês de setembro. Esta personagem é interpretada no filme por Anthony Hopkins (uma vénia).

 

Actualização a 19/08: Se repararam, tive o meu momento à Jorge Jesus no último parágrafo quando escrevi "defenderem" ao invéms de "defenderam".

 

 

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Granada. O Fim da Conquista...

por Robinson Kanes, em 07.06.17

 

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Fonte das Imagens: Própria 

 

Recebendo as chaves de Granada, os Reis Católicos avançaram para a cidade - embora tenham esperado que esta fosse pacificada – encontrado pelo caminho uma recepção de prisioneiros cristãos visivelmente abatidos pelo cativeiro e que acolheram os reis de Castela e Aragão em sorrisos e lágrimas. Os reis eram acompanhados por Cidi Yahye (lembram-se dele?), já com o nome cristão de Don Pedro de Granada Vanegas e com a missão de ser o responsável pelos mouros da cidade e do reino.

 

Interessante é o relato de Agápida aquando do desfile dos reis católicos, chegando mesmo a apelidar os monarcas de seres sobrenaturais. Também interessante é o mesmo relato que aponta para a ostentação do clero que quase ofuscava a dos monarcas tal o brilho dos diamantes e riquezas transportadas pelos seus membros.

 

Após D. Fernando ter agradecido a Deus na Mesquita Central, entretanto consagrada como Catedral, o cortejo seguiu até ao Alhambra entrando pela Porta da Justiça. Segundo os cronistas, Boabdil solicitou que jamais alguém entrasse pela porta (Puerta de La Alhambra) por onde este havia deixado ocomplexo pela última vez. Esta sua vontade foi respeitada. Ainda hoje esta porta não é acessível, sendo apenas um monumento comemorativo.

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Terminava assim a Conquista de Granada que, segundo Frei António Agápida, teve a mesma duração do cerco de Tróia. Terminava também o domínio dos Mouros em Espanha, 778 anos após a derrota do rei Visigodo Rodrigo nas margens do Guadalete.

 

Termina também esta aventura, pelo que subo novamente ao Alhambra e contemplo mais uma vez a “vega” de Granada, o Albaicín e toda a cidade no seu fervor, esse fervor que não se perdeu com a passagem dos séculos. Contemplo a Serra Nevada e aprecio o belíssimo complexo que é o Alhambra. Recordo os meus encontros com o Zagal, com Boabdil e com todos aqueles que me acolheram dentro daquelas muralhas. Passeio pelas salas onde o Zagal me tratou como um rei, onde partilhamos as nossas semelhanças culturais e de sangue onde, fosse hoje, talvez encontrasse alguém que pudesse ser um bom conselheiro para uma escalada de tensão entre o mundo árabe e o mundo ocidental. Talvez com a maturidade dos séculos fosse possível encontrar uma solução.

 

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Sinto agora os cheiros do Alhambra e vou descer à cidade para também prestar a minha homenagem na Catedral e na Capela Real aos Reis Católicos. Com a noite a cair passo a Calle Navas, conhecida pelos restaurantes e tabernas, mas demasiado turística, isso faz-me recuar e entrar no "La Cueva", em plena Calle Reyes Católicos. Sento-me junto aos presuntos que decoram aquele espaço e aí aprecio umas fatias desse diamante fumado acompanhado de uma Alhambra enquanto espero pela Paella. Entre o barulho infernal (tão típico e tão bom de Espanha) fico a olhar aquelas gentes e o convívio que envolve todo aquele espaço... Penso em como o sangue de dois povos corre nas veias daquele povo e daquela cidade, de como isso, ao contrário do que se apregoa, é que torna tudo mais perfeito, mais genuíno e sem dúvida mais belo.

 

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Para os recém-chegados a esta aventura:


http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/aben-hacen-e-zahara-17518

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/salobrena-e-a-morte-de-aben-hacen-19240

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/cordoba-o-quartel-general-cristao-19524

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/malaga-o-inicio-das-hostilidades-20973

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/malaga-o-desastre-e-a-capitulacao-21257

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/da-serra-nevada-e-das-alpujarras-se-22619

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/granada-cada-vez-mais-perto-23369

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/o-alcazaba-do-alhambra-e-a-inspiracao-24720

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-conversa-com-o-zagal-na-sala-dos-25527

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/ainda-com-o-zagal-o-palacio-e-o-26537

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/um-lanche-com-o-zagal-no-generalife-27602

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/entre-os-ataques-de-muza-e-as-facanhas-28754

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/granada-o-capricho-da-rainha-em-zubia-e-29976

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/granada-a-decisao-da-rendicao-e-a-31735

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-historia-de-muza-e-os-tumultos-em-33531

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/o-dia-da-rendicao-de-granada-35050

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/granada-entre-a-despedida-de-boabdil-e-37910

 

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Fonte das Imagens: Própria 

 

Com os estandartes de Castela a destacarem-se no Alhambra, os reis católicos iniciaram a sua procissão em direcção a Granada. Pelo caminho encontraram Boabdil que, num acto de submissão, desceu do seu cavalo e tentou beijar as maõs aos Reis Católicos. Contudo, em sinal de respeito estes recusaram. Como sinal de reconhecimento, Isabel de Castela entregou a Boabdil o seu filho, Ahmed que estava refém das tropas castelhanas até então.

 

Boabdil era um derrotado, toda uma cultura e um povo eram derrotados, pelo que, amargamente, se virou para os soberanos de Castela entregando-lhes as chaves, tendo proferido as seguintes palavras: " estas chaves são as últimas relíquias do império árabe em Espanha. Tuas são, oh rei! As nossas conquistas, o nosso reino, a nossa pessoa! Tal é a vontade de Deus. Recebe-nos com a clemência que nos prometeste  e que de ti esperamos". 

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Recebendo a garantia por parte de Fernando de Castela, que até abriu portas para uma amizade entre ambos, Boabdil seguiu o seu caminho em direcção às Alpujarras. Na última colina, que permitia ver a cidade de Granada, as tropas de Boabdil detiveram-se e olharam pela última vez a cidade que havia sido a capital daquele extenso império. Segundo Agápida, nunca a mesma lhes tinha parecido tão bela e grandiosa. Mesmo Boabdil, após contemplar aquela imagem pela última vez, desatou num choro que fez a sua mãe,a sultana Aixa la Horra, surpreendida com a debilidade deste, interpelá-lo dizendo-lhe que "bem fazes em chorar como uma mulher, o que não soubeste defender como homem".

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 Este local, onde Boabdil chorou, ainda hoje é conhecido pelos espanhóis como "o último suspiro do morto".

 

Entretanto em Granada, como apreciador de Kafka, convido a que assistam ao contraste entre a alegria dos conquistadores espanhóis e a tristeza dos conquistados árabes. Na "La Taberna de Kafka", no Realejo,somos brindados com um carinho especial pelo anfitrião e ficamos a conhecer os vinhos espanhóis acompanhados pelas tapas granadinas que são uma autêntica referência em toda a Espanha. As de bacalhau, são uma surpresa interessante. Penso em Boabdil, mais uma vez, como sofreu e como a sua inconstância levou à queda do reino. Penso nos heróis de Castela e nos de Granada...

 

 

... Retempero forças para subir novamente ao Alhambra e assistir à entrada triunfante dos Reis Católicos naquele complexo. Provavelmente irei pela Gran Via de Colón e aproveitarei para apreciar a beleza dos edifícios enquanto chegado ao fim desta, contemplo a estátua à Rainha Isabel.

 

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As Criancinhas que Morrem e Não Têm Sonhos...

por Robinson Kanes, em 24.05.17

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Bartolomé Estéban Murillo - Crianças Comendo Uvas e Melão, (Alte Pinakothek)

Fonte da Imagem: Própria

 

Deve, portanto,  cada um por sua vez descer à habitação comum dos outros e habituar-se a observar as trevas. Com efeito, uma vez habituados, sereis mil vezes melhores do que os que lá estão e reconhecereis  cada imagem.

Platão, in "República"

 

 

As criancinhas que morreram em Manchester colocaram o mundo a pensar em como é possível que se matem crianças num concerto, onde algumas até estão a realizar o sonho de uma vida. Como é possível? É a questão que todos colocam...

 

Lamento essas mortes como lamento quaisquer outras, mas o ódio e tristeza de muitos coloca o foco nas crianças que morreram. Por serem crianças, por serem jovens, por terem tantos sonhos e por estarem a realizar um deles que não era mais que ver um concerto. É legítimo, é um sonho...

 

Contudo...

 

E as criancinhas dos países do Sudoeste Asiático, da América do Sul, de África e até de países como na Turquia, qual imagem com que a personagem Mevlut de "Estranheza em Mim" (Orhan Pamuk) se deparou aquando da venda de Booza. A imagem de assistir a crianças que vivem fechadas em apartamentos a fabricar brinquedos, peças de roupa e calçado para muitas marcas que muitos de nós compramos... Às nossas criancinhas?

 

E as criancinhas que ficaram sem pai e/ou sem mãe porque foram mortos pela guerra? Criancinhas que nunca souberam o que era paz.

 

E as criancinhas que mal conseguem andar e começam a trabalhar para ajudar a família ou que então são escravizadas? 

 

E as criancinhas que não querem ficar fechadas em casa a viver no medo e arriscam brincar entre as crateras das bombas?

 

E as criancinhas que dão à costa ou andam a boiar? Quantos sonhos se perderam nas ondas que as arrastaram às areias do mediterrâneo e não só? São as mesmas areias onde muitos de nós vamos passar férias, com as nossas... Criancinhas...

 

E as criancinhas vitimas da guerra que aos 10-14 anos falam como adultos? Que demonstram uma frieza de adultos e guardam uma tristeza profunda por viverem como vivem? Criancinhas que nos fazem envergonhar e pensar como é que um discurso tão evoluído daqueles cabe em tão poucos anos de vida!

 

E as criancinhas que aos 12 anos sabem o que é disparar uma AK 47 e armar uma granada?

 

E as criancinhas que sufocam com gases tóxicos ou são contaminadas com urânio empobrecido?

 

E as criancinhas que são feitas em pedaços porque estavam a brincar na rua e a última coisa que ouviram foi o “click” da mina anti-pessoal que as enviou pelo ar e desfez as mesmas em pedaços?

 

E as criancinhas que sobrevivem a tudo isso e são transportadas para um hospital até o céu lhes cair em cima, porque lá de cima alguém o fez cair sob a forma de uma bomba?

 

E as criancinhas que, apesar de tudo isso, ainda conseguem ter um sorriso e não pedir nada?

 

E as criancinhas que, ao contrário das nossas, provavelmente nunca saberão o significado da palavra sonhar?...

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O Dia da Rendição de Granada...

por Robinson Kanes, em 11.05.17

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Fonte das Imagens: Própria

 

Com a morte do lendário Muza, esta aventura começa a aproximar-se dos seus momentos finais. (Sugiro que vão ao fim do texto e "liguem" a Banda Sonora).

 

No Pátio dos Leões, em pleno Alhambra, a azáfama aumenta, sobretudo porque, temendo mais tumultos, Boabdil acelerou a entrega da cidade aos Reis Católicos.

 

A última noite da família real naquele Palácio sem igual foi de dolorosas lamentações, lamentações que se estenderam a toda a cidade enquanto dentro das muralhas se despiam as salas do complexo, se embalavam os tesouros e, no fundo, se embalavam também séculos de história, de cultura e de momentos sem igual. Era o fim do Reino de Granada.

 

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A família real abandonou a cidade antes de Boabdil, por um dos bairros menos movimentados de Granada, pois não se queria colocar esta à mercê do regozijo do inimigo e dos mercadores. Relatos da época sugerem que as esposas de Boabdil choravam e lamentavam aquela sorte e que só a mãe deste, a sultana Ayxa la Horra, não exteriorizou qualquer mágoa e se manteve firme, apesar do semblante carregado. As crónicas da época relatam o momento da saída, com as sentinelas da cidade a abrirem portas, enquanto derramavam lágrimas pela sorte que havia calhado a estas e à família real que agora se dirijia em direcção à nova morada nas Alpujarras.

 

No dia da rendição da cidade, Boabdil encarregou Yusuf Aben Comixa do protocolo da entrega do Alhambra. Segundo Irving, baseado no relato de Agápida, Boabdil ainda se dirigiu ao Comandante do Destacamento de Castela e Leão e proferiu as seguintes palavras: "ide senhor e tomai posse daquelas fortalezas que Alá outorgou aos vossos poderosos Soberanos, como castigo pelos nossos pecados". Após estas palavras abandonou a cidade.

 

Do lado de Castela, o regozijo aumentou aquando do desfraldar das bandeiras na Torre da Vela, em pleno Alhambra. O estandarte daquela cruzada e também o estandarte com a cruz de Santiago tomavam agora conta do Alhambra e consequentemente de toda a cidade, de todo o reino.

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Deixando a nossa cerveja Alhambra e umas tapas de pão com presunto ibérico na Plaza San Miguel Bajo, podemos continuar a nossa caminhada pela Calle Santa Isabel la Real. Aí paramos para olhar Mosteiro com o mesmo nome, seguindo depois para a Plaza de S.Nicolás. É aí que encontramos o Miradouro com o mesmo nome... O miradouro que poderá relembrar-nos a agonia, a tristeza, a impotência e a dor que terão sentido os habitantes do Albaicín ao verem ser retirados os seus estandartes do Palácio de Alhambra. Nas nossas costas, a Igreja de S. Salvador em plena Plaza de la Santíssima Trinidad e do nosso lado esquerdo, ladeando o Alhambra o Sacromonte.

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Sentamo-nos a admirar a paisagem e a relembrar esses tempos... Sentamo-nos com os Palácios Nazaríes e a Serra Nevada em frente e ouvimos uma guitarra espanhola a percorrer os acordes dos Concertos de Aranjuez, dos Recuerdos de Alhambra ou, com sorte, a acompanhar um Andaluz a beber as letras de Agustin Lara e do seu Granada... Granada, tierra soñada por mi, mi cantar se vuelve gitano cuando es para ti, mi cantar hecho de fantasia, mi cantar, flor de melancolia que you te vengo a dar...

 

 

 

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