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Imagem: Robinson Kanes

 

Enquanto formos refractários à verdade e sensíveis apenas a estímulos artificiais, seremos, não tenho dúvida, incapazes de nos governarmos.

Rabindranath Tagore, in "A Casa e o Mundo"

 

Alguém disse "Alcochete Jamais (jamé)" e na verdade não poderia ter dito melhor, embora o sentido da afirmação fosse uma ignorância atroz para um político... Alcochete jamais deverá ser destruído por uma implacável sede de crescimento e até de poder. Alcochete é das poucas vilas verdadeiramente ribatejanas que está tão perto da capital... Alcochete, ao contrário do que circula por aí, não quer ser Cascais da margem sul (Cascais da margem sul jamais. Alcochete quer ser ela mesmo, uma vila única e singular, o Ribatejo às portas de Lisboa e com a especial identidade que a caracteriza. Alcochete que ter na Reserva Natural do Estuário do Tejo uma das suas maiores riquezas e não a sua destruição.

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Paisagens de Portugal: Alcácer do Sal

por Robinson Kanes, em 01.12.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

 

Um dos símbolos de Alcácer, as cegonhas sempre vagueando entre as culturas e os arrozais. Fiéis companheiras das chaminés e das torres das igrejas. Alcácer do Sal é uma das mais belas cidades portuguesas. Admito que para mim é uma vila, mas pelo encanto e pelo grau pitoresco que não deixa ninguém indiferente.

 

Parar na cidade para contactar com aquelas gentes, para sentir o Sado no seu caminho contrário em direcção a norte enquanto bebemos um café na companhia da sua trajectória e para partir por imensos arrozais e conhecer todos os habitantes de um ecossistema singular no mundo!

 

É impossível dizer-se português sem percorrer as ruelas e as paisagens deste concelho.

 

P.S.: obrigado ao SAPO pelo destaque de Palmela/Setúbal que mais para o norte da Europa foi muito apreciado...

 

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Paisagens de Portugal: Fisgas do Ermelo

por Robinson Kanes, em 26.11.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Este senhor já tinha falado nisso aquando da partilha da "Senhora da Graça" e eu não lhe fechei a porta... As Fisgas do Ermelo são das coisas mais bonitas que temos em Portugal, uma queda de água, esculpida com uma perfeição que pensamos se Rodin não havia deambulando pela Terra antes de nos ter surgido como mestre da escultura.

 

As Fisgas do Ermelo dão uma vida especial a um concelho (Mondim de Basto) que congrega algumas das áreas mais bonitas do Baixo-Tâmega. Trazem-me também um misto de deslumbramento e tristeza... Foi das últimas vezes que estive com alguém que já não está presente na minha/nossa vida, sobretudo pelo episódio de pouca esperança face a uma fatalidade que mesmo assim todos acreditávamos ser possível superar... Hoje estaria muito orgulhosa de ti, muito orgulhosa! Eu ainda não te disse, mas é num simpático bar de aeroporto em Belfast, com os Coldplay de fundo (dos tempos em que eram Coldplay), que também tenho de dizer que estou muito orgulhoso de ti, minha deutsche em London.

 

Mas a Natureza é assim, dona de uma força que nunca conseguiremos superar, seja nestes episódios, seja na criação destes monumentos! É um encantamento, como diria Teixeira de Pascoaes, poeta nascido bem perto (Amarante) e que veio a falecer ainda mais perto, em "Gatão".

 

Encantamento

 

Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar
A tua dôce e angelica Figura,
Esquecido, embebido num luar,
Num enlêvo perfeito e graça pura!

E á força de sorrir, de me encantar,
Deante de ti, mimosa Creatura,
Suavemente sentia-me apagar...
E eu era sombra apenas e ternura.

Que inocencia! que aurora! que alegria!
Tua figura de Anjo radiava!
Sob os teus pés a terra florescia,

E até meu proprio espirito cantava!
Nessas horas divinas, quem diria
A sorte que já Deus te destinava!

Teixeira de Pascoaes, in "Elegias"

 

 

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Paisagens de Portugal: Palmela/Setúbal

por Robinson Kanes, em 25.11.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Subir ao Castelo de Palmela é sempre um dos pontos altos de qualquer percurso de bicicleta no Parque Natural da Arrábida. Subir o paralelo que nos leva pelas ruelas da pequena vila até ao cimo é entrar dentro dos ritmos daquele lugar que na época das vindimas adquire um aroma especial. É subir... subir... sem nos cansarmos... É subir sabendo da conquista que nos aguarda no topo.

 

Mas chegar ao Castelo é também ser dono do Mundo, é olhar ao longe o encontro entre o Sado e o Atlântico. É apreciar Setúbal e a sua baía, uma das mais belas do Mundo. É vislumbrar a Península de Tróia que procura tocar o outro lado do estuário, é ver quase todo o Alentejo que se está ali tão perto. É comungar com tamanha imensidão e beleza e pensar: como é belo e eclético este distrito! E é com um dos grandes deste distrito, mais precisamente de Azeitão, que recordo agora, tão longe... esta paisagem.

 

Versos ao Mar

Ai!,
o berço da tua voz,...
e esse jeito de mão que tens nas ondas,
Mar!

Quando eu cair exausto
sobre as conchas da praia e fique ali
doente e sem ninguém,
hás-de ser tu quem me trate,
quero que sejas tu a minha Mãe.

Há-de embalar-me a tua voz de berço,
pra que a febre me deixe sossegar,
e hás-de passar, ó Mar!
pelo meu corpo em chaga,
as tuas mãos piedosas comovidas,
pra que sintas por mim as minhas dores
e eu sinta só o bálsamo nas feridas.

Como se fosses tu a minha Mãe…
Como se fosses tu a minha Noiva…

E hás-de contar-me histórias velhas
de Marinheiros…
Histórias de Sereias e de Luas
que se perderam por ti…
E se a Morte vier há-de quedar,
toda encantada, a ouvir-te,
e, sem ânimo já me há-de quedar,
Toda encantada, a ouvir-te,
E, sem ânimo já de me levar,
sorrindo, voltará por seu caminho
(não na sentimos vir, nem ir, tão de mansinho
se passou tudo, Mar!),
voltará de mansinho,
pé ante pé, pra não nos perturbar,

mas saudosa da tua voz de berço…

Sebastião da Gama, in "Serra-Mãe"

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Paisagens de Portugal: Sudoeste Alentejano

por Robinson Kanes, em 24.11.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

O Valor do Vento

 

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento

O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e

só entram nos meus versos as coisas de que gosto

O vento das árvores o vento dos cabelos

o vento do inverno o vento do verão

O vento é o melhor veículo que conheço

Só ele traz perfume das flores só ele traz

a música que jaz à beira-mar em agosto

Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento

O vento actualmente vale oitenta escudos

Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

 

Ruy Belo, in "Homem de Palavras"

 

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Paisagens de Portugal: Salvaterra de Magos

por Robinson Kanes, em 23.11.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

O concelho mais pobre do distrito de Santarém, paradoxalmente é um dos mais belos. Acompanhando o Tejo, é um território ímpar onde a actividade agrícola, a pecuária e uma população amistosa se confundem em séculos de trabalho árduo. 

Andar de bicicleta por este concelho, é descobrir alguns dos locais mais encantadores de Portugal, sobretudo se dermos um salto à Aldeia Avieira do Escaroupim e seguirmos a Mata Nacional com o mesmo nome até Muge. Mas eu não posso falar do Ribatejo, serei sempre parcial e o cheiro daquela terra molhada ou seca pelo sol, cultivada ou em pousio, transforma-me num dos seus maiores apaixonados.

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Paisagens de Portugal: Senhora da Graça

por Robinson Kanes, em 22.11.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Seja do alto de Leiradas, em Cabeceiras de Basto, seja da Estação de Mondim de Basto ou de qualquer outra localização na região do Baixo-Tâmega, é impossível não ver aquele colosso lá bem erguido na paisagem. E do seu alto... E do seu alto é uma paisagem sem fim, é o que resta de Portugal para Trás-os-Montes e o longo sul que vai até Sagres.

 

Ar Livre

 

Ar livre, que não respiro!

Ou são pela asfixia?

Miséria de cobardia

Que não arromba a janela

Da sala onde a fantasia

Estiola e fica amarela!

 

Ar livre, digo-vos eu!

Ou Estamos nalgum museu

De manequins de cartão?

Abaixo! E ninguém se importe!

Antes o caos que a morte

De par em par, pois então?!

 

Ar livre! Correntes de ar

Por toda a casa empestada

(Vendavais na terra inteira,

A própria dor arejada,

- E nós nesta borralheira

De estufa calafetada!)

 

Ar livre! Que ninguém canta

Com a corda na garganta

Tolhido da inspiração!

Ar livre, como se tem

Fora do ventre da mãe

Desligado do cordão!

 

Ar livre, sem restrições!

Ou há pulmões,

Ou não há!

Fechem as outras riquezas,

Mas tenham fartas as mesas

Do ar que a vida nos dá!

 

Miguel Torga, in "Cântico do Homem"

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Imagens: Robinson Kanes

 

Depois de Persépolis é sempre bom descansar. Avizinha-se um fim-de-semana de chuva e por certo, fora de Portugal também estará, aposto.

 

Por isso, para os que não querem apanhar chuva, uma ideia para o fim-de-semana e inspirado na "inquietação" de sua excelência Vorph Valknut, volto a Hermann Hesse com o colossal "O Jogo das Contas de Vidro", um livro cuja leitura vai bem para além de um fim-de-semana. A utopia do conhecimento de uma comunidade fechada assente num jogo e o paradoxo do mundo exterior em jogo. Interessante e para ler com calma.

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Para algo mais fluído, se é que podemos falar de fluidez quando nos referimos a Hermann Hesse, nada como nos deixarmos ir nas letras de "Viagem ao País do Amanhã"! Uma viagem de auto-conhecimento, de desafios em comunidade e com a espiritualidade a que Hermann Hesse sempre foi fiel. Quantos de nós não merecíamos uma viagem assim?

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Para ouvir, nada como chamar um dos mestres da casa, o grande Bruce. Ainda me lembro dos posters deste senhor colados no guarda-fatos da minha irmã, mais velha que eu e já com bom gosto para a música - anos mais tarde percebi o porquê da paixão. Bruce Springsteen é um senhor, ponto!

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Um dos seus albúns mais "recentes" é "High Hopes" e entre outras, destaco "Down in The Hole". O resto é conversa!

E como ir ao teatro é das melhores coisas do mundo, nada como ir à Politécnica ver a peça "Vemo-nos ao Nascer do Dia" de Zinnie Harris! Os Artistas Unidos no seu melhor com uma peça sobre amor e morte! Andreia Bento e Joana Bárcia numa excelente, mas excelente, interpretação!

 

Finalmente,  bom cinema... Volto a Espanha, volto a Almodóvar com "Todo sobre mi Madre". Acompanhar a luta de Manuela (Cecilia Roth) após a morte do filho e a busca pelo pai do mesmo - uma surpresa enquanto assistimos a todas as peripécias de Manuela e à tristeza da pequena Irmã Maria, interpretada por Penélope Cruz. De destacar, entre os muitos prémios, o "Óscar para Melhor Filme Estrangeiro", a "Palma de Ouro" em Cannes para Almodóvar, o "César para Melhor Filme Estrangeiro" e o BAFTA para "Melhor Filme em Língua não Inglesa". 

Também não me posso esquecer da banda sonora de Alberto Rivera, mas destaco uma das músicas que nos vai acompanhando ao longo de todo o filme, "Tajabone" de Ismael Lô. Não se poderia ter escolhido melhor música para acompanhar este filme. E é também com esta que vos desejo um Excelente fim-de-semana.

P.S.: e não se esqueçam de acompanhar esta caldeirada com um "HT Reserva", de Tiago Cabaço. Também ele uma bela caldeirada de Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Syrah.

 

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Agora sim, mais bem regados, bom fim-de-semana,

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Persépolis: A Cidade Persa

por Robinson Kanes, em 21.11.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

A poucos quilómetros de Shiraz, e debaixo de um intenso calor, encontra-se aquela que foi uma das capitais do Império Aquemênida: Persépolis! Iniciada por Dario, a construção deu-se durante séculos até a mesma ser conquistada por Alexandre Magno. Persépolis foi sempre uma capital mais espiritual, até pelos difíceis acessos, as capitais administrativas acabaram por ser Pasárgarda, Susa, Ecbátana e Babilónia. Com Alexandre Magno, em 330 a.c. a cidade seria ocupada, saqueada e parcialmente destruída. Era o início do declínio de umas das pérolas de todo o império.

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Falar da história de todos os pormenores da cidade é matéria para centenas e centenas de artigos, por isso, nada como a consulta da imensa bibliografia, sobretudo a técnica, que existe acerca da cidade. Na internet, existem centenas de documentários e animações 3D, acerca da cidade, uma delas está aqui.

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No entanto, debaixo de um calor abrasador, e onde nos imaginamos nas montanhas do Afeganistão, fascinou-nos sobretudo a grandeza do império, também nestas pedras contada. Para se ter uma ideia, o império iniciado por  Ciro, "o Grande", acabou por ser o maior da antiguidade, nomeadamente uma extensão para ocidente até aos balcãs e leste europeu, uma rota de estradas onde se incluem as da Rota da Seda, o uso de uma língua ao longo de todo o território e o canal que ligou o Nilo ao Mar Vermelho.

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A este aspecto junta-se o facto de que, ao contrário de muitas outras edificações da Antiguidade, Persepólis, como outras grandes construições do império eram realizadas com trabalho remunerado, ou seja, não escravo. Foi com Ciro também que, apesar de muitos povos terem sido conquistados, que existiu o respeito por todos os costumes e religiões de todos os povos. Como nota de curiosidade, também é Ciro, o responsável pelo "Cilindro de Ciro", aquele que é considerado a primeira declaração de Direitos Humanos da história. Infelizmente para o povo iraniano, encontra-se no British Museum em Londres. No Museu Nacional, em Teerão, encontramos apenas uma réplica. Admito que nas duas visitas ao British, bem que já me apeteceu trazer o cilindro e devolver o mesmo ao povo que o escreveu e que é o seu legítimo detentor! Este cilindro, é talvez um dos mais importantes documentos da Humanidade!

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Agora é tempo de percorrer este espaço, de fechar os olhos e com a ajuda dos óculos de realidade virtual, admirar a escultura e a arquitectura, donde se destacam o Terraço, a Escadaria de Persepólis; a magnifica Porta de Todas as Nações; a Apadana e a sua escadria; a Tachara, ou Palácio de Dário, um dos mais belos, o Hadixe, ou Palácio de Xerxes; o Palácio Central e o grandioso Palácio das 100 Colunas.

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Ao alto, podemos vislumbrar e percorrer também, os túmulos de Artaxerxes II e Artaxerxes III com esculturas de nos deixarem de boca aberta onde são claros os símbolos Zoroastras e do próprio império - um pouco à semelhança do que acontece em todo o edificado de Persépolis. A sul, existe também um túmulo que não foi concluído e que consta que teria em vista ter como hóspede Dario III.

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Pisar o solo de Persépolis é viajar na História, é pisar cada pedaço daquele espaço com um sentimento especial, sentir cada pedra como pudessemos recuar séculos e séculos para trás. É repensar a própria história e acima de tudo é termos a sensação de que somos tão pequenos. É termos a noção de que uma certa História, bem lá atrás ainda tem tanto por contar... É termos respeito e perder a arrogância de que a Ocidente é que esteve/está o patamar máximo do desenvolvimento, até porque, se existiu império que não ficou atrás (bem pelo contrário) de outros como o Grego e o Romano, foi este. E ainda hoje, tal se nota em cada iraniano, desde o mais letrado até àquele que não foi bafejado com a sorte de uma educação mais formal.

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Uma coisa é certa... De Persépolis, saíremos mais ricos, mais ricos do que se comprássemos qualquer produto de luxo no Harrods. Mais ricos do que se trouxéssemos meia-dúzia de lingotes de ouro na mão!

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Os sentimentos referem-se primordialmente à qualidade do estado de vida no interior "antigo" do corpo em qualquer situação, durante o repouso, durante uma actividade conduzida com um objectivo, durante a resposta aos pensamentos que estamos a ter, quer sejam causados por uma percepção do mundo exterior ou pela recordação de um acontecimento, arquivado nas nossas memórias.

António Damásio, in  "A Estranha Ordem das Coisas. A Vida, os Sentimentos e as Culturas Humanas"

 

 

Tanta chapada de mar... Depois da "Nau dos Corvos" abre-se um novo mundo, um mundo onde sabemos que vamos mas não sabemos se voltamos, acreditamos no mar, acreditamos no destino. Tanta chapada de mar levei em miúdo, agarrado a barcos maiores e a semi-rigídios onde cada vaga nos levantava e a paisagem passava a ser vista de cima.

 

Tantas "ralhadelas", tantas... "Oh Miguel, qualquer vocês matam-me o miúdo"... Mas era tão bom chegar todo molhado - nesse tempo não existiam constipações, não existia medo. Existia boa caldeirada, muitas vezes terminada na lota em Peniche, de onde hoje sai o barco para os turistas. Terminada em Peniche ou em Porto Dinheiro, "Portnhero" como dizem/diziam os locais...

 

Tantas tardes a ver aquele mar bravio, a ver os barcos chegarem, a comer tremoços e pevides, estas últimas descascadas pelo meu pai. Gente de pele queimada, gente de dura faina... Gente que me odiava quando me enrolava nas redes que as mulheres tão habilmente teciam...

 

Fins de tarde na varanda para o Atlântico, fins de tarde no "Chico Neto", fins de tarde nos locais recônditos da Avenida do Mar, onde a caldeirada e o peixe grelhado ou cozido eram bem mais saborosos que em qualquer restaurante.

 

Tantas tardes, tanta amizade, tanta camaradagem... E é tão difícil encontrar essas experiências de criança, hoje em dia. Olhando as Berlengas, talvez aproveite para me colocar na pele daquele miúdo que entre admirava o labor nas traineiras ou a alegre solidão enquanto os primos andavam na pesca submarina. Talvez entre a solidão do semi-rigido e a azáfama das traineiras, e mais tarde de outras "tábuas", encontre aí essa memória, essa companhia dos homens e do mar na tristeza de um mundo que em terra perdeu o seu sentido e a sua humanidade.

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