Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Barceloneta, Onde Fica o Coração...

por Robinson Kanes, em 08.11.17

IMG_1503.jpg

 Fonte das Imagens: Própria.

 

Do Port Olímpic caminhamos facilmente junto ao mar pelo passeio marítimo. Este é talvez um dos melhores programas entre o bulício de uma moderna metrópole e o azul do mediterrâneo, isto, enquanto observamos as crianças de diferentes origens e nacionalidades no "Parc de la Barceloneta". E é aí, ao chegar a Barceloneta que o ar tem outro cheiro, que uma diferente Barcelona olha para nós e nos apela a deixar o mar apesar do convite dos bares mais turísticos.

 

Barceloneta não é um bairro muito antigo, percebe-se pela arquitectura. Nasceu no século XVIII quando os habitantes da "La Ribera" foram expulsos por Filipe IV que ordenou a construção da "Ciutadella". Foi, e é ainda, um bairro típico de pescadores e operários (uma dos ambientes que gosto de frequentar), todavia, bem diferente daquele que era antes da modernização de que foi alvo aquando dos Jogos Olímpicos em 92.

IMG_1522.jpg

Lembro-me de Barceloneta que, segundo alguns, inspirou Cervantes numa passagem de D. Quixote, e sentir inveja de ver muitos dos meus amigos morarem naquele bairro - denote-se que estava a viver em Ausiàs Marc, pelo que não me poderia queixar, pelo contrário. Barceloneta é o expoente máximo da cultura mediterrânica em Barcelona (apesar de ser um bairro recente), dos cheiros, das conversas, da vida e contrastes que nos fazem indagar se estamos no norte de África, ou num qualquer bairro do sul de Itália. Mas não comparemos, Barceloneta é diferente. Foi lá que aprendi a cozinhar alguns petiscos senegaleses, foi lá que descobri uma forma low-cost e eficaz de polir faróis, foi também naqueles recantos que, entre peixe frito e outras tapas únicas me foi possível conhecer grandes indivíduos.

 

É também aqui que fica o "La Bombeta", um pequeno restaurante e sempre apinhado de gente e que acabava por ser o escape aos restaurantes caros e tremendamente turísticos do "Passeig Joan de Borbó". Aliás, como qualquer bairro, para se encontrar boa comida e... bons amigos, o ideal é sempre ir para o centro, neste caso, alguns dos mais especiais encontram-se perto do "Mercat de la Barceloneta", uma óptima alternativa à carérrima e descaracterizada "Boqueria". Basta seguir pela "Carrer de la Maquinista" que é também onde se encontra o "La Bombeta". Nem cinco minutos são a pé e sempre é possível recordar os bombardeamentos da aviação alemã durante a "Guerra Civil" através da inúmeras placas que se encontram espalhadas. Também é aí que temos uma imagem tipicamente mediterrânica, com habitantes locais à conversa e crianças ainda a brincar na rua - uma raridade - bem mesmo em frente na "Plaça de Pompeu Gener". E depois de tantos recantos, perceberemos que o "La Bombeta" nem é o melhor de todos...

IMG_1509.jpg

Neste pequeno bairro conquistado ao mar, existe também espaço para apreciar o património que vai para além das construções civis, refiro-me sobretudo à "Església de Sant Miquel del Port", uma igreja barroca que vibra, quando em Setembro, Barceloneta é um palco de festa com cortejos e uma animação no bairro e nas praias. É totalmente impossível não ficar contagiado pelas danças e folia daqueles dias. Penso que só em Andaluzia conseguem isso de mim, até porque não sou de danças, mas este foi um dos locais onde não consegui resistir.

IMG_1507.jpg

Uma outra nota de destaque é o edifício e o próprio "Museu de História da Catalunha", já na direcção do "Port Vell". Este museu é interessante, pois além de contar a história da Catalunha desde a época pré-história é bastante interactivo, os miúdos adoram-no e os adultos apaixonam-se pelo restaurante no piso superior com um terraço e umas vistas únicas para o "Port Vell".

IMG_1494.jpg

Recordo agora com saudade a praia depois de umas animadas conversas entre vinho e comida em alguns dos pequenos recantos de Barceloneta... Recordo aquele momento que nos fins de tarde outonais tinha para mim um encanto especial, mais do que no Verão onde os turistas e os próprios habitantes da cidade preenchem o espaço até à exaustão. Recordo o dia em que tirei algumas destas fotografias, um dia em que vesti a pele de turista e não senti nem um terço das emoções que se têm como habitante...

Barcelona é especial e se admito que o meu coração ainda hoje está naquela cidade, por certo está bem guardado num qualquer local de Barceloneta, possivelmente numa das varandas à espera que o resto do corpo o encontre um dia.

IMG_1520.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

Recursos Humanos: "Jobs for the Boys".

por Robinson Kanes, em 07.11.17

gettyimages-152216249_custom-f5763ffd4816aec3fa6ec

Fonte da Imagem: http://www.npr.org/2016/11/15/502250244/to-make-the-godfather-his-way-francis-ford-coppola-waged-a-studio-battle

 

 

Deve ter cuidado. Ser um homem honesto é perigoso. 

Mario Puzo, in "O Padrinho"

 

 

Há muito tempo, remeti esta carta a um Director de Recursos Humanos para Portugal de uma multinacional:

 

Bom dia, Estimado C.,

 

Espero que este meu email o encontre bem, e escrevo em português porque sei que domina a língua como ninguém. Poderia fazê-lo em francês, mas porque não utilizar a língua do país em que está.

 

Este meu email,vem no seguimento de uma apresentação que vi sua onde mostrou a importância de detectar talento na "X" e a sua visão sobre essa área, gostei imenso da parte da "servidão" em relação à chefia, sobretudo porque sempre tive uma relação aberta com as minhas chefias e isso sempre foi interessante, não fossem muitas delas estrangeiras. Mas enfim, os portugueses gostam de servos e aí eu não me encaixo.

 

Espero também que o rigor de recrutamento da "X" seja esse que aponta. Sabe, não sou adepto do networking e muito menos do personal branding e se tenho LinkedIn foi porque começou como trabalho e lá foi ficando. Para mim não, mas entendo a importância que as redes sociais têm em termos de mercado, talvez por isso as trabalhe, mas não me deixe contagiar, sim não tenho uma vida propriamente feliz para lá expor. Digamos que networking em termos de RH é o novo nome para "cunha/compadrio" espero que perceba o que digo. Perdoe-me, mas sou daqueles que acredita no trabalho e mais do que em competências técnicas (muitas vezes empoladas), acredita nas competências "soft" ou se quiser "sociais".

 

Sim, também já me candidatei várias vezes à "X" via "black hole" dos HR, o recrutamento online por candidatura espontânea, ou seja, aquele em que acreditamos que um dia alguém vai olhar para a nossa candidatura mas... "nunca" olha.

 

A minha questão é simples: não sendo adepto de networking pessoal, nem de grandes favores deste e daquele, como é que é possível nos dias de hoje ser reconhecido no mercado de trabalho? Sobretudo porque já poderia ter um CV ainda melhor se tivesse cedido à tentação dos favores.

 

Espero também, que nessa sua leitura, os seus colaboradores também um dia possam olhar para o meu CV e dizer: "bem, este indivíduo merece pelo menos uma oportunidade".

 

Um Abraço,

 

"Robinson Kanes"

 

 

A verdade é que tive uma resposta bastanto positiva, pois o C. respondeu-me e pediu-me uma data e hora para agendarmos uma reunião. Todavia, o C. copiou o responsável de recrutamento daquela organização, a típica chefia intermédia portuguesa. A partir desse ponto as coisas alteraram-se, a resposta tardou e só foi obtida com o seguimento que fiz a posteriori. Dois dias depois, pelas 14h, recebo finalmente um email do responsável de recrutamento que me faculta um número de telemóvel e me pede para falarmos às 15h... Deduzi que a reunião presencial ficara sem efeito e que quem estava ao comando era agora o indivíduo que me contactava e assim com aquele espaço temporal, varria a situação para debaixo do tapete. Aliás, a forma como agendou o contacto era claramente para boicotar a reunião. Por sinal, acedi ao email antes das 15h. Vamos chamar-lhe E.

 

O E., estava no perfil de LinkedIn como se tendo formado numa área e ter começado a carreira pela porta grande numa outra totalmente diferente. Confesso que pensei de imediato que iria falar com a pessoa errada, e assim foi... Estas coisas cheiram-se.

 

Perante as minhas questões a resposta que obtive foi "oh Robinson desculpe, eu recebo muitos CV por dia, acho que tenho tempo para ler algum? Agora só referências ou contactos, não tenho tempo para ver CV e alguém com a experiência que você já tem se não o fizer ninguém o chama". Sempre pensei que o screening fosse uma das principais funções de um recrutador, mas pelos vistos não, as relações públicas (privadas?) são agora uma das suas mais extensas funções. Mas este indivíduo foi mais longe: "o mercado é assim, ou você se adapta ou já era, sem contactos que o coloquem aqui e acolá nunca vai arranjar emprego. Tem de pensar que os amigos são quem melhor o conhece e melhor o pode ajudar" ou então pode sempre abordar no LinkedIn e pedir-me! Muitos não fazem isso, mas eu faço muito, vejo os contactos que a pessoa tem também e nunca se sabe".

 

Finalmente, questionei: "então e as ofertas que colocam no V/site?". A resposta foi de que não havia tempo para olhar para as mesmas. Ainda pensei porque é que se faziam campanhas para atrair talento para aquela organização (até porque a mesma se gaba da transparência e por ser óptima a atrair talento), mas apercebi-me que estava a falar com um corrupto e não iria mudar a opinião do mesmo.

 

A conversa ficou por ali, até porque o E. já tinha em mente dar um salto para uma outra organização empresarial, algo que acabei por saber semanas depois. A verdade é que desisti daquela conversa, era uma luta que não faria sentido, pelo que, optei por boicotar as marcas vendidas pela organização. Vem este texto bem a propósito de mais uma recente notícia em que o interesse, neste caso do país, é posto em causa, quando os amigos são os preferidos para ocupar cargos de responsabilidade, e assim vai a ANPC (Autoridade Nacional de Protecção Civil).

 

Lembram-se da carta aberta que enviei a um director-geral de uma empresa de recursos humanos? Tive resposta. Uma resposta cordial, acompanhada com um pedido de desculpas (corporativo e pessoal) e com uma promessa do próprio em iniciar uma investigação interna para detectar estas más práticas que, segundo o mesmo, não vão de modo nenhum ao encontro do que é defendido na organização. Por motivos óbvios, não colocarei aqui a resposta completa sob pena de deixar transparecer a organização em causa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Paleo? Não é Realista!

por Robinson Kanes, em 06.11.17

IMG_0909-2.jpg

 Bodegón con Costillas , Lomo y Cabeza de Cordero, Francisco de Goya - Musée du Louvre

Fonte da Imagem: Própria.

 

Sempre que surge uma nova "dieta", existe um vasto número de "nutricionistas" na nossa praça que quase nos obrigam a aderir à sua ideologia alimentar. Para mim, e por ser um tema demasiado sério para andarmos a brincar com o mesmo ou a assumir o papel de um especialista, penso que cada um de nós deve consultar sempre um profissional da área... Não estamos propriamente a adquirir ou a aderir a uma forma de vestir - a "última" tendência é o Paleo ou os "Primitivos Modernos" ou "Neo Primitivos".

 

Não sou seguidor da corrente e muito menos especialista na área da saúde alimentar pelo que estudei um pouco sobre a matéria, mas não o suficiente, reconheço, pelo que os vossos comentários serão mais que importantes. Nestas matérias mais do que embadeirarmos algo em arco, só porque é cool ou está na moda, temos de ver todas as frentes, eu vou-me focar nos contras, porque prós não faltam, embora mencione alguns.

 

O desenvolvimento desta tendência tem por detrás o polémico Chef Pete Evans. Evans defendeu nos media que se começássemos a replicar a alimentação dos nossos antepassados do paleolítico, a nossa saúde melhoraria substancialmente. Pete Evans, apenas criou uma tendência, e com o devido usufruto para o próprio, mas temos de ter em conta que é só isso e até aí, nada a apontar. Importa sublinhar, contudo, que Evans apenas mediatizou o que já vinha a ser estudado por alguns especialistas que defendem esta prática há mais de 40 anos. Desenganem-se aqueles que pensam que é uma descoberta recente, livros dos anos 70 não faltam.

 

Um dos maiores contestários de Evans, é Marlene Zuk, especialista em Biologia Evolutiva na Universidade do Minesota e uma referência na área. Esta advoga que a dieta Paleo é baseada na ideia de que a genética humana não mudou desde há 10.000 anos para cá, nomeadamente, desde o desenvolvimento da agricultura. Todavia, mais uma vez e segundo a mesma, os nossos genes mudaram e isso fez com o nosso organismo possa perfeitamente "aceitar" alimentos que nunca seriam aceites pelo Homem do Paleolítico. Os especialistas como Zuk vão mais longe, e assumem até, que pouco sabemos do que se alimentavam os nossos antepassados pelo que não podemos sustentar tal teoria. Zuk é a autora do livro "Paleofantasy: What Evolution Really Tells Us about Sex, Diet, and How We Live".

 

Uma outra questão, prende-se com o facto dos defensores desta corrente excluirem das épocas históricas a questão social e das próprias necessidades - à época o homem tinha de caçar ou recolher o que a natureza lhe dava, hoje isso não é necessário, pelo que ficará a questão: justifica que nos comportemos como tal? Coloca-se ainda a questão de que tudo o que comemos actualmente, ou quase tudo, já sofreu a transformação do homem e da própria evolução natural - não podemos conceber que as frutas, legumes e até carne de outrora existam hoje como existiram um dia. Temos de ter cuidado e ter em conta que a tendência paleo não resolve todos os problemas de saúde, como em alguns casos já se tentou fazer crer - a propósito disso, este artigo publicado na Lancet, demonstra que o Homem de outrora não era propriamente aquele ser belo, de corpo esculpido e saudável. Já vão sendo realizados alguns estudos, todavia, muitas doenças poderiam não ocorrer no paleolítico pelo simples facto de muito poucos atingirem uma grande longevidade... Além disso, as doenças actuais não estão só relacionadas com a idade mas também com o estilo de vida e outros factores que vão bem para lá da alimentação. 

 

Outro pormenor prende-se com o facto do Homem, ao longo da história, ter estabelecido diferentes dietas que sempre dependeram da geografia e da variedade de "produtos" disponíveis. Recomendo o artigo de William Leonard na Scientific American de Dezembro de 2002 e este outro da Nature realizado com base no estudo do ADN da placa dentária dos Neandertais - se gostarem desta matéria, para lá das dietas, é sem dúvida uma viagem interessante. Ambos os estudos têm acesso pago e por esse motivo as minhas desculpas.

 

Um outro factor, e aqui creio que podemos extender a todas as dietas, está relacionado com a importância de prevenir aquilo a que os americanos chamam o "what the hell effect", algo como "efeito, mas que raio" e que não é mais do que sublinhar que a prática de diferentes dietas não leva a uma perda de peso, bem pelo contrário. Este comportamente surge também devido à vulnerabilidade a que muitos estão sujeitos assim que "caem em tentação". Neste campo, os estudos vão mais longe, e apontam que basta só a ideia de se ter quebrado determinado regime alimentar, para que os indivíduos percam o auto-controlo. Sugiro este estudo da Universidade de Toronto. 

 

Finalmente, a adopção de determinados hábitos como o regime paleo, pode levar, inclusive, à perda de um ambiente social agradável e também a restrições que são irrealistas para os dias de hoje. Esta é também a opinião de Charlotte Markey, psicóloga e professora na Rutgers University com 15 anos de investigação nesta área. Sugiro o livro "Smart People Don't Diet: How the Latest Science Can Help You Lose Weight Permanently" e também o artigo "Don't Diet!", da autoria da mesma, e publicado na Scientific American Mind de Setembro/Outubro de 2015. Podem encontrar o artigo online mediante pagamento ou adquirir, como eu, a revista.

  

Todavia, nem tudo é mau, uma das vantagens apontadas para esta dieta, é a ausência das chamadas "comidas processadas". Penso que aí é indiscutível. 

 

Com isto, não procuro censurar quem segue estes hábitos (é uma escolha dos próprios, livre e que deve ser respeitada), contudo, temos de ter cautela quando utilizamos o conceito de ciência como se fosse marketing ou um lifestyle, até porque dizer que hoje é possível adoptar uma forma de estar paleolítica é totalmente absurdo - ainda não conheci ninguém que adira a este modo de estar e viva numa caverna sendo recolector ou caçadorO ideal, será sempre conhecer diferentes perspectivas e, sobretudo, quando é de saúde que falamos, conversar com os verdadeiros especialistas (a favor e contra). 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Do Dia dos Mortos...

por Robinson Kanes, em 31.10.17

IMG_0672.jpg

Fonte da Imagem: Própria.

 

Independentemente das convicções religiosas, o "Dia de Todos os Santos" é um dia em família e de alguma reflexão que, em Portugal, tende a ficar transformado numa espécie de Carnaval dos Mortos com o toque de "Halloween" ou "Dia das Bruxas". 

 

É por respeitar as diferentes culturas que sou levado a aceitar que esta é mais uma daquelas importações que jamais deveria ter saído dos países anglo-saxónicos. Podemos alegar que também tem raízes cristãs, o que seria discutível porque há quem aponte os celtas e outras tradições pagãs, muito antes de alguém ter decidido criar uma religião! Transformamos tudo numa festa que mais parece um filme de comédia de terceira linha. Querem fazer festas com mortos? Vão ao México, ou então até muitas regiões de África, aí sim vão ver como estas coisas se fazem e com uma componente étnica e cultural digna de registo. Substituir o "Pão por Deus" ou outras tradições mais bem enraizadas por algo forçado e completamente fora da nossa realidade é, no mínimo, triste! Portugal parece estar na moda desde que se transforme numa colónia de importações "baratas".

 

Eu sugiro até que possamos celebrar o "Halloween" em todos os velórios. Pela forma como tenho visto alguns, além de ser um enfado para muitos que só lá estão para ficar bem perante a sociedade, é também uma festa para outros. O morto já começa a ficar como adereço nestes encontros, em que numa boa forma primitiva, depois de enterrado ou cremado, todos lhe cospem em cima e se juntam para uns copos. Tenho sempre a sensação que o único morto não é aquele que se encontra no caixão, mas um sem número de almas que por ali vagueia sem realmente saber o que está ali a fazer, serão esses os verdadeiros mortos?

 

Recordo-me sempre do "Dia dos Mortos" como aquele dia que era passado em família, com um passeio, mas sem esquecer aqueles que já não estão cá. Não era um dia alegre, não era um dia triste, era sobretudo uma forma de celebrarmos a vida sem andarmos vestidos como se de repente entrássemos no Carnaval de Torres Vedras ou num desfile da "Moda Lisboa". E não, não lhe chamem saudosismo que ainda não estou em idade para isso... Talvez valorizasse o convívio genuíno ao invés dos efeitos distractores.

 

E como é feriado, para o "Dia dos Mortos", nada como uma sugestão! Talvez o meu requiem preferido (esqueçam o de Mozart que é sobrenatural e não entra nestas contas), "Ein deutsches Requiem, Op.45" ou em português "Um Requiem Alemão, Op.45" de Johannes Brahms! Dividido em 7 partes, é a maior obra do compositor, dedicado à sua mãe e também a Schumann. Ao contrário de outros requiem, este baseia-se na tradução da bíblia encetada por Martinho Lutero, um requiem verdadeiramente protestante.

 

 

Admito que me sinto abençoado por já ter ouvido o mesmo ao vivo num Domingo de Páscoa. Na Alemanha, não precisamos de pagar para assistir a concertos porque basta assistir a algumas cerimónias religiosas para ter momentos sinfónicos de uma qualidade que não lembra a ninguém. Um destes locais é a Michaelskirche (Igreja de São Miguel) em Munique! Ainda hoje consigo colocar a música de Brahms nos ouvidos e recordar aqueles momentos singulares em que nos sentimos a ficar sem ar perante tamanho arrebatamento e força com que aqueles coros e aquelas orquestras nos contagiam e ecoam pelas paredes das austeras igrejas da Baviera.

 

Bom feriado...

Autoria e outros dados (tags, etc)

De Léon, o Profissional aos Ratoneiros...

por Robinson Kanes, em 27.10.17

1*cQ3z3DWc3rw5uc9cstN3tA.jpeg

Fonte da Imagem: https://cdn-images-1.medium.com/max/1600/1*cQ3z3DWc3rw5uc9cstN3tA.jpeg

 

 

Como prometido a um habitual seguidor e posto que a imagem coloriu um dos meus artigos esta semana, uma das minhas sugestões vai passar por um filme: "Léon, o Profissional". Este é um filme com Jean Reno, Natalie Portman (e que prodígio já ali estava) e Gary Oldman. Não sendo um dos meus realizadores preferidos, só Luc Besson conseguiria inesperadamente  transformar um filme de pura acção com corruptos e pistoleiros, num drama singular.

 

Não desenvolvendo muito do filme, assistir a Jean Reno no papel de um assassino profissional mas que no fundo não passa de um ingénuo indivíduo é algo fantástico - Léon mata para o seu "padrinho" (Tony, um mafioso) que lhe "guarda" todo o dinheiro e faz com que Léon carregue uma vida miserável. Léon nada conhece do mundo, mas é um apaixonado por filmes musicais dos anos 40 e 50, bebe copos de leite quando outros bebem Vodka e ainda cuida de uma planta como muitos de nós não cuidam de um ser-humano. É interessante este lado de Léon que se irá reflectir na relação que terá com Mathilda (Natalie Portman).

 

É Mathilda que mudará a vida de Léon e também acabará por ver a sua altamente marcada por este... Aliás, Léon morrerá a salvar a sua protegida e a vingar a morte dos cuidadores desta e especialmente do seu irmão. Todo o filme tem uma carga dramática, a relação de ambas as personagens é deveras interessante, e na chamada "versão do realizador", Besson chega a explorar uma certa paixão entre o assassino e a menina de 12 anos - o público não gostou e os cortes impuseram-se, mas eu aconselho essa versão. A isto, acresce aquele que me encantou na primeira vez que vi um filme e, sendo eu à época, um miúdo de 10 anos, jamais conseguiria apanhar mais que isso - Gary Oldman. Reparem quando este fala de Beethoven e Mozart depois de ter morto uma família inteira e o célebre grito (que afinal foi um improviso para fazer Besson rir um pouco) "bring me everyone" que acabou por ficar no filme original - surge no minuto 1:44 do trailer. Um filme onde os bons não ganham sempre...

 

Considerado por muitos digno de figurar na lista dos melhores filmes de sempre, é uma fita que à primeira vista pode parecer mais um "dirty harry style" mas consegue agarrar-nos de uma forma nem sempre normal nestes argumentos. Talvez por essa surpresa tenha gerado tantas paixões.

 

Para ler, e já que andamos pelo lado de lá do Atlântico, nada como visitar o escritor do Mississipi, William Faulkner. Escolhi "Os Ratoneiros", último livro do autor que deu origem ao filme com o mesmo nome e com Steve Mcqueen no papel do destemido Boon. Nos Estados Unidos dos anos 20, Boon, um ratoneiro (ladrão) e empregado da família, convence Lucius a roubar o carro do avô e com Ned viajam até Memphis vivendo um sem número de aventuras que são uma tremenda descoberta para todos. Estamos perante uma viagem para o desconhecido, cheia de peripécias e onde a amizade é sempre posta à prova. Gosto particularmente de Boon que terá também um final interessante com uma das personagens que não mencionei aqui, por motivos óbvios. E porque não associarem o filme ao livro e debruçarem-se sobre os dois? Vai ser impossível não gostarem de Boon e do "tolo" Ned.

 

IMG_20171027_093241.jpg

Fonte da Imagem: Própria.

 

 

Se Steve Mcqueen não for suficiente, talvez a banda sonora de John Barry o seja... Histórias diferentes, também para diferentes estados de espírito... Duas grandes obras, uma da literatura e outra do cinema...

 

Por fim... Uma outra sugestão... Apaixonem-se...

 

Bom fim-de-semana... 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Será que me Amaste?

por Robinson Kanes, em 26.10.17

WP_20170201_13_27_28_Pro.jpg

Fonte da Imagem: Própria.

 

 

O "meu" artista de rua não só tem inspirado a minha pessoa a escrever por aqui como a pensar nas coisas como elas são ou não são. Depois de me ter feito pensar em quem somos nós daqui a 365 dias, trouxe-me uma nova inquietação que até surgiu nesse mesmo artigo.

 

"Será que me amaste?" Quantos de nós já não colocamos essa questão? Aliás, será que já colocamos mesmo a questão a nós próprios, uma espécie de "será que te amei?". Oui, tout est simple. Ce sont les hommes qui compliquent les choses, talvez seja eu que esteja a complicar e a desafiar as palavras de Camus (Vide o ensaio "Entre o Sim e o Não"), mas será algo tão subjectivo também descomplicado...

 

No campo das relações amorosas quem é que nunca colocou essa questão? Quando as relações terminam equacionamos sempre se outrem nos amou e aí entramos naquela questão de que o amor até pode existir mas termina, não tem de ser eterno. Mas poucas vezes questionamos se nós amámos. Na verdade, o fim de uma relação, ou melhor, o choque do fim de uma relação pode ser aligeirado se reservarmos um momento de introspecção e equacionarmos que provavelmente nunca amámos. A revolta e o choque devem-se ao abalo num certo egoísmo da nossa parte porque foi o outro que colocou um ponto final na relação e não nós.

 

Podemos sempre dizer que não concebemos estar com alguém sem a amar, mas na realidade, quando experimentamos o "amor" ou aquilo que lhe quiserem chamar, começamos a perceber que provavelmente tudo não passou de uma mera paixoneta ou de uma pressão social ou até de um certo comodismo. Quantas vezes o "primeiro amor" é aquela coisa que... daqui a dois meses já não nos diz nada?

 

Actualmente, quando conhecemos alguém, a primeira coisa que queremos saber é o que faz e um outro sem número de pormenores que pouco têm a ver com... Amor. Mas o amor vem depois, dirão... Mas será que o amor está sujeito a critérios materiais ou de status? Não é o amor desprovido de tudo isso? Como é que podemos dizer que amámos quando esses critérios são tidos em conta? E sim, já disse que o amor pode ser algo químico, físico, completamente normal sem nenhuma aura especial, ou pode até não existir, mas... Mesmo assim, tal processo estar condicionado a factores externos tem algo de falacioso.

 

Será que ao convidar aquela executiva de topo, ou melhor... Será que ao convidar aquela administrativa que ambiciona ser executiva de topo para aquele jantar romântico num local fantástico (nunca percebi porque também têm sempre de ser caríssimos) e de repente dissermos que ao invés de sermos "Specialist in Account Management of Multiple Projects in Different Departments and Internal and External Procedures and Evaluation Standards" (em suma, vendedor), somos serventes ou trabalhamos numa empresa de limpezas (no terreno) vai resultar? Será que é um bom começo para começarmos a amar?

 

Recordo-me agora de um amigo, que já não está entre nós, que quando saía à noite para conhecer pessoas - quem quero eu enganar? Miúdas, conhecer miúdas - levava sempre o seu Seat Marbella com mais de 20 anos e deixava o automóvel topo de gama em casa. Dizia ele que assim filtrava as oportunistas e encontraria o amor.

 

Acabei por me debater em questões distintas, mas independentemente de tudo, as questões que não devemos evitar são de facto estas: Será que me amaste? Será que amei? Talvez a resposta seja simples, nós é que complicamos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

goodpitch.jpg

 Fonte da Imagem: https://www.moviepitcher.com/what-is-a-good-pitch/

 

Caro A.,

 

Espero que esta email o encontre muito bem (sim, o email foi enviado hoje mesmo).

 

Após ter recebido o vosso email a solicitar que, mais uma vez, colocasse os meus dados na vossa base de dados, admito que não fui capaz de conter algo que já me tem vindo a consumir há muito...

 

Da M. tenho a dizer o pior, talvez por isso, quando poderia ter sido vosso cliente não o fui e um dia lá voltarei e colocarei no lixo o cartão que um dia me enviou com uma pomposa carta a apresentar os seus serviços, posso garantir-lhe. Questionar-se-á do porquê desta minha afirmação, vejamos com alguns exemplos:

 

Sempre que vos contacto nunca obtenho qualquer resposta, mesmo quando são posições em que me encaixo - regra basilar, nunca se deixa um cliente sem resposta mesmo que o contactemos só para afirmar que temos muita gente na nossa base de dados que até cedemos pontualmente. Mas não fiquemos por aqui, já estive nas vossas instalações por uma vez, onde um consultor (e pelo discurso autoritário que usava a falar dos outros colegas, acredito que ambiciona uma posição de chefia na vossa organização - embora tenha de corrigir a postura) efectuou uma entrevista exploratória, por certo para cumprir os objectivos. Fui incitado a candidatar-me sempre, mas... Sempre que contactado, nunca tive qualquer retorno. Espero também que internamente informe esse colaborador de que a chefia não é ele... É um discurso deveras deselegante.

 

Tenho exemplos, bem perto da minha pessoa, que atestam o ridículo a que Vossas Excelências se sujeitam: uma das vossas consultoras (uma júnior, também com grande ambição, pelo menos a arrogância de má chefia já tem), chama um sénior com nome no mercado, mas que não chegou pela via do networking. Sei que actualmente alguém que seja realmente bom e não peça emprego a este e àquele não vale nada, nomeadamente face àquele que se poupa a isso e mais que garantir que faz um bom trabalho, procura garantir uma boa rede de amigos, perdão contactos, que o vão colocando aqui e acolá, mesmo que seja um inútil incompetente e que ande sempre a saltar até encontrar um lugar onde goze de impunidade ou encaixe numa organização tão "standardizada" que os processos disfarçam a incompetência... Acredito que foi isso que a mesma pensou ao mostrar alguma arrogância e que, perante um CV brilhante, se dá ao luxo de não apontar o mesmo salientando que o "forte deste" eram as línguas e menosprezar a procura de emprego sem ser por via dos abençoados contactos... Esse indivíduo é responsável hoje pelo recrutamento e recusa trabalhar convosco. 

 

Também me parece de mau tom, depois de ignorar um CV durante meses não dando retorno ao candidato que, de repente, com o candidato no estrangeiro, um consultor contacte o profissional (também sénior) e lhe peça com toda a urgência para falarem. Estando em viagem, o mesmo pediu um dia e eis que... Esse dia nunca mais veio porque o consultor desapareceu do mapa. Isto não é profissionalismo e, mesmo com grandes volumes de trabalho, não pode acontecer. Também esse sénior explora, entre outras, a área dos recursos humanos e não trabalha convosco. O que o vosso consultor não sabe, é que para a posição que o mesmo desesperadamente queria contratar, essa mesma pessoa foi contratada por uma Vossa concorrente e não muito longe de vós. Escusado será dizer-lhe que vão perder um cliente em breve...

 

Mais recentemente, uma candidatura foi por vós ignorada. Depois de "mil e uma" tentativas de contacto com o consultor, este responde que a pessoa não reúne o perfil indicado. Segundo o anúncio publicado, tudo apontava para pelo menos merecer um contacto, mas a Vossa arrogância e falta de nível dos vossos "profissionais" ultrapassa tudo. Esse indivíduo, com nome na praça (não na praça do LinkedIn ou dos seminários vazios de conteúdo, mas das multinacionais de topo) pediu imediatamente a retirada dos dados pessoais da V/base de dados. Mas o pior estaria para vir, pois semanas mais tarde voltou a ser contactado (por outro consultor, igualmente desesperado - penso que seja importante reverem esta parte, dão muito nas vistas quando o vosso cliente não quer os vossos candidatos e vos obriga a procurar aqueles que provavelmente não são amigos dos consultores). O contacto era para essa mesma posição - o desespero era tal que até os dados que anteriormente haviam sido confidenciais foram revelados ao candidato. Recordem também, que já tinha sido pedida a eliminação dos dados, isso incorre numa situação grave. Contudo, a pessoa em causa acedeu em enviar o CV e disponibilizar-se para uma entrevista, mesmo sem tempo para tal e após ter mencionado o vosso flop. A verdade é que na M. devem trabalhar fantasmas, que desaparecem, que ficam incontactáveis por email, telefone ou até telemóvel... O vosso Consultor simplesmente desapareceu do mapa. Eu teria vergonha de ter uma equipa assim, deduzo que seja a mão-de-obra barata a causar isto ou a má selecção de candidatos (estranho, numa organização que recruta para outros)... Dirão que é cultural e a minha formação e experiência não vão por aí... Também é cultural o real desleixo nacional e o desenrasque... Vejam onde estivemos e estamos com este período de crise, é cultural... Mas querer continuar estúpido não é cultural em país nenhum do mundo. 

 

Portugal é um país pequeno onde tudo se sabe, até os favores que são prestados a amigos (não é novo, nem tem de ser grave, mas existem situações que ultrapassam tudo) e na M. não faltam esse tipo de procedimentos em alguns dos consultores, prejudicando claramente os clientes! Por este e por outros motivos A., só me apraz dizer que não acredito minimamente neste email que, para mim, não passa de marketing que não tem expressão na realidade. Infelizmente, e talvez por orgulho, não peço nem nunca pedirei trabalho a ninguém e talvez seja isso que me faz continuar no mercado à procura... Talvez ainda não tenha encontrado esse emprego, mas orgulho-me de viver e poder ser transparente, pois será isso que me garantirá ter imparcialidade e profissionalismo de modo a pautar a minha actuação com a maior competência e sem interferências ou pressões que prejudicam a minha organização ou os clientes da mesma. E lamento informar, mas não estou desesperado à procura de emprego... E o A. e os seus consultores?

 

Com os Melhores Cumprimentos,

"Robinson Kanes"

 

P.S: não é raro, e aqui não é só a M., ver indivíduos que pouco ou nada fazem nas organizações onde estão (ou melhor, fazem sobretudo no smartphone e nas redes sociais a dinamizar contactos) a assumirem claramente que basta contactar ou esperar que o consultor amigo os contacte com uma oferta (alguns gabam-se diariamente disso)... Os outros enviam CV, porque têm de trabalhar e porque têm ética e honra, mas esses caem no "black hole" dos recursos humanos e não têm margem para dedicar 90% do seu tempo ao networking e 10% ao trabalho. São esses que eu procuro, são esses que me dão garantias de fazer um bom trabalho... 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Eu Tenho um Incendiário na Família!

por Robinson Kanes, em 18.10.17

fire-175966_1920.jpg

Fonte da Imagem: https://pixabay.com

 

Chama-se "Duarte", perdoem que não coloque o nome do mesmo, mas é imperial proteger a sua identidade e consequentemente a sua integridade, até porque já cumpriu o seu castigo perante a sociedade e, não sendo propriamente a melhor das desculpas, também ele foi vítima de um certo aproveitamento de outros que viram no mesmo alguma debilidade mental alicerçada numa oportunidade para que este sujasse as mãos em nome destes.

 

Ter um condenado na família não é fácil, sobretudo por uma situação que, para mim, é terrorismo. Não é fácil porque o "Duarte" é um homem com perto de cinquenta anos, mas é boa gente. O "Duarte", nascido no interior do país entre Coimbra e a Guarda, cedo teve de aprender a trabalhar e também cedo se percebeu no seu estilo ingénuo que era boa gente. Ser boa gente levou a que o "Duarte" tivesse muitos amigos que acabariam por ser responsáveis pela sua hospitalização e consequente plano de tratamentos que agudizou uma pequena perturbação mental, que passaria quase incógnita não fossem os amigos e... o álcool.

 

A paixão do "Duarte" é a natureza, passar horas a contemplar a mesma enquanto escuta as suas músicas. Em tempos, através de  leitor de cassetes e agora com um leitor de CD, o "Duarte" gosta de ouvir aquilo a que chamamos "música pimba", mas é isso que lhe dá gosto. Orgulhosamente, sempre que o visitamos (e há tanto que não o fazemos), mostra-nos o seu lote de músicas e dá-nos a conhecer os seus cantores preferidos - até termos de encontrar uma desculpa para orientarmos a atenção do mesmo para outra coisa. O "Duarte" gosta daquilo e é isso que também anima os seus dias.

 

Quando nos aproximamos daquela aldeia esquecida no alto dos montes da Serra do Açor, não é raro ouvir a música do "Duarte". O "Duarte" só quer amigos, só quer ser feliz e talvez um dos maiores choques que tive, foi, na minha adolescência, eu com 15/16 anos não conseguir dialogar com o "Duarte", não porque ele já fosse um homem, mas porque o "Duarte" não precisava de ter um terço das preocupações que eu já tinha com aquela idade e portanto, eu já me encontrar num patamar mais "evoluído", ou talvez não, de desenvolvimento. Para mim era estranho e colocou-me em interrogações constantes.

 

Um dia soubemos da notícia... O "Duarte" fora detido porque tinha sido encontrado a atear um fogo. A vantagem das polícias neste locais, é que conhecem as pessoas e sabem que o "Duarte" não era pessoa para simplesmente se lembrar atear fogos aqui e acolá. Com a chegada das autoridades judiciárias, rapidamente se percebeu que o "Duarte" era uma mera marioneta nas mãos de outrem. 

 

Apesar dos interrogatórios e consequente inquério e audiências nos tribunais, o "Duarte" acabou condenado. Até aqui, nada de novo, a Justiça a funcionar como tem de ser... No entanto, como em tantos outros, o que fica é a sensação de que se poderia ter ido mais longe, pois o "Duarte", perante a pressão da família e das autoridades disse sempre que preferia passar a vida na cadeia a dizer quem foram os ordenantes do crime! O medo e a pressão a que foi sujeito não conseguiram ser derrubados pela ameaça dos verdadeiros criminosos e o "Duarte", como seria de esperar, acabou condenado sem que a culpabilidade total daquele crime fosse apurada.

 

Como alguns já tentaram demonstrar, que muitos incêndios são provocados deliberadamente pelos "tontinhos" do costume, é preciso ter em conta que estes são também um dos instrumentos mais fáceis para quem almeja algo maior e não pretende que as cinzas lhes sujem as mãos...

 

Por estes dias, o "Duarte" e o pai já idoso ficaram em risco quando a primeira casa da sua aldeia ardeu tendo sido prontamente evacuados, bem como toda a aldeia. Talvez porque algum "tontinho" decidiu fazer das suas...

 

P.S: Ontem foram detidos em Terras de Bouro um homem de 57 anos e a mulher de 50 por atearem fogos. O homem está desempregado e a mulher é jornaleira... Dá que pensar...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Incêndios: Espanha nas Ruas, Portugal no Sofá.

por Robinson Kanes, em 17.10.17

58.jpg

Fonte da Imagem: http://www.antena3.com/noticias/sociedad/en-galicia-permanecen-sin-control-siete-incendios-en-situacion-2_2017101759e5ab300cf2e892aa27b566.html

 

Em dia de luto nacional, tenho a sensação que metade ou mais dos cidadãos portugueses não sabe o que significa uma bandeira a meia-haste. Seria interessante que todos percebessem o real significado do luto nacional, quanto mais não fosse para pararem e pensarem... Guardar 10 minutos ou mais do nosso dia para pararmos, desligarmos e reflectirmos é cada vez mais um luxo ou, segundo muitos, uma parvoíce... Tenho todo o gosto em ser parvo (parvus-parvi: pequeno) se isso for ter consciência que sou um ser humano não diferente dos outros todos. Na Era "me" entendo que muitos não compreendam o que acabei de escrever...

 

Em Portugal, país onde somos todos o máximo, continuamos com a cabeça enterrada na areia e não existe a humildade governantiva de assumir um erro e pedir desculpas. Alguém falhou os módulos de "liderança inspiradora", por certo, e também alguém sabe que os estudos de popularidade "martelados" serão capazes de influenciar um povo que continuará a perpetuar a sensação de impunidade de quem tudo acha que pode fazer. Enganem-se os portugueses que pensam que ao votarem estão a eleger alguém que vos represente, pelo contrário, estão a dar poder a outrem para que faça o que bem entender... Basta passar os olhos pelas leis que definem a governação - isto para aferir da importância de sermos cidadãos e principal supervisor de toda e qualquer actividade pública.

 

Por cá, já estamos no momento do espectáculo com as pseudo-celebridades a publicarem mensagens e a gravarem vídeos nas redes sociais perante tamanho choque. É que isto de ser solidário ou estar chocado com qualquer coisa é bom, desde que tenha projecção nos media, caso contrário não merece a pena - a propósito, ainda ontem num velório, tive oportunidade de ver uma das pseudo-celebridades (ligada à música e que anda sempre em campanhas para ajudar as criancinhas e os pobrezinhos com o irmão) completamente fria e tentando espectacularizar, perante o espanto dos presentes, a morte daquele que nos tinha ali trazido. Mas em Portugal luta-se, ou faz que se luta, no conforto do sofá, a partilhar fotografias, ou a arriscar morrer queimado dentro de um carro enquanto se filma a tragédia a troco de uns momentos de fama... E obviamente, também a escrever textos como este. Desliguem a televisão e a internet e procurem aqueles que combateram os fogos por estes dias, aqueles cidadãos, bombeiros e não bombeiros, que fizeram tudo para acabar com esta calamidade e deem um abraço a essas gentes, sem partilhas e selfies, mas apenas com as emoções verdadeiras que nos tornam melhores humanos! Os heróis são esses e não os heróis covardes que depois da tempestade, espreitam, saem do seu canto e se juntam às celebrações...

 

Todavia, em Espanha, as coisas têm sido diferentes - o povo saiu à rua, exigiu responsabilidades e obrigou a um esforço das autoridades na justificação das suas acções e a estarem próximas das populações. Em Espanha não se anda à procura de raios nem de tempestades e claramente já se assumiu que existe mão-humana nos incêndios. Em Espanha existe uma preocupação extrema com a questão natural/ambiental e com a situação económica das populações e empresas, as pessoas assim o exigem, porque esperam resultados concretos e não um abraço ou uma fotografia com Rajoy ou com Filipe VI. Em Espanha, até os media estão sob o jugo da população e de entidades reguladoras que já pediram demissões pelo facto de muitas coberturas aos incêndios serem tendenciosas ou desprovidas de tudo aquilo que deve ser o jornalismo! Em Espanha já se pensam em alterações ao Código Penal. Em Espanha até pelo "fim dos fogos" em Portugal se manifestaram, isso deveria envergonhar-nos!

 

... Em Portugal, apenas se pede que se saia à rua e se faça alguma coisa acerca do referendo da Catalunha, ou para pedir progressões automáticas de carreira (mesmo que não se faça nada para o merecer), ou para ir para a praia, porque isto de exigir um país digno desse nome, dá muito trabalho não traz "likes" e carros topo de gama na garagem. Que venha a febre do Natal bem depressa, para não nos dar tempo de pensar no essencial...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Portugal em Guerra!

por Robinson Kanes, em 16.10.17

ss-171015-portugal-wildfires-2_0ef31990e760314bd50

 Fonte da Imagem:https://media4.s-nbcnews.com/j/newscms/2017_41/2190226/ss-171015-portugal-wildfires-2_0ef31990e760314bd502a730570f4ded.nbcnews-ux-1024-900.jpg

 

Portugal ostenta orgulhosamente (sem aspas) o título de ser o país mais seguro do mundo. Um país onde o terrorismo não ataca, enaltecendo isso como uma forma de captar mais visitantes que fogem de outros destinos mais ameaçados... No entanto, o que Portugal está a esquecer, é que foi provavelmente o país do mundo que mais ataques terroristas sofreu este ano! Poderá ser porque para muitos portugueses o turismo português continua a ser Lisboa, Porto e Algarve e enquanto esses territórios não forem atacados... Se pensarmos bem, só nesta época de incêndios já morreram mais pessoas que em muitos ataques terroristas!

 

Um país que está quase seis meses em chamas, com a maioria das ignições a ocorrerem ao fim do dia, à noite e de madrugada, só pode estar a ser alvo de terrorismo! Um país que arde diariamente e com autoridades incapazes sequer de prestar socorro às populações é um país que já não existe, aliás, é um país sem Governo e completamente abandonado apenas seguro por pequenas bolsas de resistência. São populações e operacionais que parecem soldados abandonados em combate, a desesperar até à última gota de água antes de serem derrotados sem piedade por um inimigo que, ao contrário do que possamos pensar, pouco tem de invisível. É um país onde entregamos a vida de milhares de homens a um sem número de incompetentes que os comandam (e conheço alguns que não foi por mérito que chegaram a posições de comando), é um país onde preferimos um abraço e uma selfie alicerçados num discurso folclórico a verdadeiras acções no terreno, é um triste orgulho patriótico que é incapaz de criar sinergias com o país vizinho no que a esta matéria diz respeito é, finalmente, um país onde o dizer que vamos fazer e esboçar cinicos sorrisos é mais importante que o fazer.

 

Estamos perante um país, onde os nossos votos vão para aqueles que nos fazem sonhar que daqui a um mês já nos podemos endividar e gastar mais dinheiro num dia que um alemão em 10 anos! É um país onde o conceito de "empowerment" não pode ser accionado e, de facto, muitos também não o querem conhecer. Estamos perante um país que arde, onde o colapso existiu e não é capaz de assegurar a protecção do seu território e dos seus cidadãos. Continuaremos a enterrar a cabeça na areia, uns porque já não acreditam (e quando um cidadão não acredita, deixa de ser um cidadão e passa a ser um vassalo, um escravo) e outros porque só poderão despertar quando o fogo lhes invadir o apartamento e os consumir, a eles e aos filhos e sobretudo, para um bom português, aos bens!

 

Estes incêndios demonstraram, mais uma vez, a incompetência reinante, o compadrio e o desinteresse de um povo que, apesar de puxar pela sua génese no futebol, pouco tem de tempos idos e prefere enterrar-se no seu umbigo até sufocar. Um povo que se une pela selecção mas logo a seguir é capaz de atropelar tudo e todos por uns miseráveis cêntimos!

 

O jardim à beira-mar plantado tornou-se num campo de morte e destruição, deixou de ser verde e passou a ser negro... Negro no chão, negro no céu e negro na mentalidade. Em tempos escrevi um texto e fiz um apelo para que muitos nos visitassem e vissem os nossos verdadeiros heróis, que não são aqueles que a nacional tacanhez apregoa mas sim aqueles que encontramos em muitas ruas, todavia, hoje diria que já tenho vergonha que baste pelo que não venham àquele que um dia foi o mais belo país do mundo, até porque neste momento, mais parece um país em guerra!

 

Se hoje me perguntarem, independentemente dos moralistas do costume, se tenho vergonha de ser português... Tenho muita vergonha de ser português! Quem não a tiver não é português, um português de uma estirpe capaz de se levantar e lutar em solidariedade com o seu concidadão! Sim, hoje tenho vergonha de ter um país alicerçado em partidos/autoridades/instituições/boys  cujo interesse é o poder pelo poder e um povo que assobia para o lado, talvez porque prefere o servilismo de ser alimentado por estes aparelhos a lutar e a exigir efectivamente um país melhor. 

 

Nota: Em Vigo, Espanha, as chamas invadiram a cidade... Até quando é que os incêndios continuarão a não ser tratados como terrorismo? A propósito dos fogos na Galiza alguém por lá, com responsabilidades governativas disse que os mesmos têm “atividade incendiária homicida” e que “fogos que vêm de Portugal”! Em tempos relatei por aqui uma conversa que tive com um espanhol em Plasência, acerca do medo que os espanhóis tinham dos fogos em Portugal...

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Mensagens

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog



subscrever feeds




Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB