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A Liberdade num copo de Viña Ardanza...

E na Grécia com Níkos...

por Robinson Kanes, em 29.01.21

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Imagem: Robinson Kanes

 

Nada espero, nada temo: sou livre

Epitáfio de Níkos Kazantzákis

 

Aproxima-se a hora de jantar... Celebremos... Nada em particular para celebrar, somente a existência e o estar por cá. Não celebramos porque é a data X ou Y, celebramos porque sim, o calendário não tem de ditar a nossa vida, para isso já basta ser a contagem dos dias em que adiamos a nossa extrema-unção. 

 

Juntemos-lhe um bom petisco e associemos-lhe um La Rioja, mais propriamente um Viña Ardanza - Reserva 2012. Só tenho de agradecer a sugestão aquando da deslocação às Caves Rioja Alta por esta mistura fatal de "tempranillo" e "garnacha". É bem possível que se sigam mais encomendas... No Natal acompanhou o cabrito e o borrego, hoje acompanha... Sei lá, ainda nem decidi e não me apetece pensar nisso. 

 

Enquanto o Viña Ardanza respira, deixo-me levar neste sentimento de falta de abraços, de falta de sermos humanos - quero visitar Zorba pela perspectiva do seu "criador", o apaixonante Níkos Kazantzákis. O filme de Yannis Smaragdis é uma forma de sonharmos e viajarmos com este senhor e de conhecermos uma das suas grandes personagens, Zorba. Simplesmente apaixonante, sobretudo se apreciarmos a obra do escritor grego e o seu mundo que é tão nosso - existem filmes para sonhar, este é um deles.

 

E dou comigo a pensar naquele taxista que era também professor de História, também de seu nome Níkos... Saudades do bulício ateniense, da Plaka e das discussões para comprar um pote "hand made" e com o respectivo selo. E é nestas alturas que damos connosco a pensar em como é que é possível ter saudades daquela poluição quando atravessamos a cidade em direcção a Pireu... Em como é possível ter saudades de olhar do alto do Licabeto a obra de Demiurgo... Penso na liberdade de Níkos, do taxista... Penso em Jovanotti...

 

La voglio qui per me, la voglio qui per te
La voglio anche per chi non la vuole per sé
Tempi difficili, a volte tragici
Bisogna crederci e non arrendersi

Sim! Viva la Libertà! Porra!

 

Pois que se beba a Kazantzákis, a Smaragdis, a Atenas, a Jovanotti e ao Níkos pois, enquanto o o fruto de Baco brilha no copo, só podemos mesmo pensar em nada esperar e nada temer, ser somente livres... Nessa liberdade, acho que também preciso de ser, não apenas em projecto, essa forma de não ser, mas com tranquilidade de consciência. Vergílio Ferreira não poderia estar mais certo.

 

Bom fim-de-semana,

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Holocausto ou Holocaustos?

Onde a vítima se confunde com o agressor...

por Robinson Kanes, em 28.01.21

RTS1RIU6_IsraelPalestine_Nakba_protest_0.jpgCréditos: Mohamad Torokman/Reuters

 

Um cérebro pode servir para fins bastante diferentes e (a) conquista do mundo é mais desejável que a sua ordem.

André Malraux, in "A Tentação do Ocidente"

 

Causa-me alguma angústia pensar que muitos jovens não sabem o que foi o Holocausto nazi. Causa-me também igual angústia imaginar que um número ainda maior nem sabe o que foi a União Soviética, o que não é de estranhar tendo em conta os adeptos que esta ainda vai tendo, sobretudo em Portugal onde, neste campo, se tenta reescrever a História. Podemos desculpar os jovens, já não podemos desculpabilizar os adultos, os mesmos que fecham os olhos aos holocaustos presentes.

 

Esquecer o Holocausto é esquecer toda uma História que está para trás, aliás, os holocaustos até lá não foram uma novidade, todavia, a proximidade, o horror e uma máquina bem oleada de propaganda (é inegável) dão-nos a sensação de que foi caso único. Não foi! Mesmo depois da guerra, os holocaustos multiplicaram-se e de uma forma ou de outra, alguns ainda por aí existem... Passemos pela China, por alguns países do Sudoeste Asiático, por África e até por Israel.

 

Nada me move contra israelitas ou judeus, bem pelo contrário. Provavelmente terei influências judaicas também e tenho uma grande admiração por todos aqueles com quem tenho oportunidade de partilhar momentos da minha vida e onde os conflitos israelo-árabes são sempre tema de discussão. Todavia...

 

... Não deixa de ser caricato que o "estado do Holocausto", desde há muito, e também por causa das políticas de desenhar fronteiras a régua e esquadro das potências europeias, seja também aquele que tem mais guerras em pouco mais de meio século de História do que alguns com milénios. A Guerra dos Seis Dias, a Crise do Suez e tantas outras bravatas que inclusive culminaram com a anexação de territórios de outros países, veja-se o exemplo dos Montes Golan e dos denominados "territórios ocupados", tem lançado a região no caos.

 

Já passou tempo suficiente para "pagarmos" pelo Holocausto e começar a exigir que Israel (também conhecida pelo seu terrorismo de Estado) cumpra os Direitos Humanos e se abstenha de perpetrar um Holocausto contra o povo palestiniano, numa sede imensa de ampliar o seu território. A questão palestiniana é complexa, daria muitos artigos, até porque a dificuldade em encontrar quem tenha mais razão nesse conflito não é fácil e talvez por isso seja algo que até hoje ainda não foi resolvido - o estadista israelita que esteve mais perto de uma solução foi assassinado por um dos seus. 

 

Numa base diária, Israel tem subjugado o povo palestiniano, tem-no morto e tem-lhe roubado território com uma passividade internacional gritante, direi até assustadora - um pouco à semelhança do que foi encetado pelos causadores do "Holocausto" nos primórdios da Segunda Guerra Mundial. Não é justificável e não deixa de ser um paradoxo ver a vítima a fazer exactamente o mesmo que o agressor. Imaginem estar na vossa casa, no vosso bairro e no vosso país e de repente terem um bulldozer e dezenas de soldados a expulsarem-vos de casa sem razão aparente e a destruir-vos o lar... Dizer que isto é algo normal é quase como negar o Holocausto - por menos começou uma guerra violentíssima na Síria. Neste campo, a loucura com o coronavirus, tem ajudado a que muitas destas acções praticamente nem sejam do conhecimento público - não se confinam só pessoas, confina-se o pensamento e a liberdade.

 

Na verdade, esta sensação de impunidade permitiu o desplante, e aliás o erro histórico de, nos mesmos dias em que se "celebrava" o aniversário do Holocausto, Israel ter feito um ultimato ameaçador aos Estados Unidos a propósito da aproximação ao Irão e inclusive deixar transparecer que planeia um ataque àquele país. Imaginem confortar um inocente que, enquanto recebe o vosso abraço, carrega a sua masada para matar ainda mais inocentes. O timing foi desastroso e o argumento ainda mais. Se a isto juntarmos também o facto de terem "passado ao lado" os alegados bombardeamentos israelitas em solo sírio, junto à fronteira com o Iraque da passada semana, temos um estranho cocktail de hipocrisia. 

 

Se tratar outro povo como bestas, retirando-lhe direitos, humilhando-os numa base diária, criando muros e invadindo as suas casas e dispondo das suas vidas rasgando toda e qualquer emanação da Carta dos Direitos Humanos é digno, pois bem, então não se admirem de que, mais do que um dia nos esquecermos do Holocausto, o aplaudirmos...

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Porque existem vírus bem mais perigosos...

por Robinson Kanes, em 26.01.21

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Créditos: https://imgflip.com/i/3u4tcj

 

Hoje estamos no SardinhaSemLata a falar de vírus muito perigosos, mas podem ficar mais calmos... O SARS-CoV 2 não é um deles... 

Passem por lá, é só clicar aqui.

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141984225_10158178486731867_4966213057139066488_o.Créditos: https://www.elmundo.es/ - @taverinez

 

 

A esperança nada mais é do que uma alegria inconstante que emerge da imagem de qualquer coisa futura ou passada, sobre a qual não é possível ter certezas.

António Damásio, in "Ao Encontro de Espinosa"

 

Parece que o Mundo nunca esteve tão mal... De facto, os tempos não são bons, mas não é pior momento da Humanidade e muito do caos não é obra do ocaso mas das nossas escolhas. O anunciado "fim dos tempos" com o SARS-CoV 2 leva ao pânico quase global. Estranhamente com tantas guerras, doenças e miséria que continuam e "sempre" estiveram aí não tenhamos entrado em pânico. Dá que pensar... Dá que pensar...

 

Mas enquanto a lógica vigente de que tudo é mau continua a ter lugar, existem os pessimistas optimistas que não perdem a esperança apesar de dispararem em todas as direcções. E é nesse optimismo que partilho algo que num país como Portugal importa pouco neste momento (triste sina) mas que é uma conquista única em termos de ciência! 

 

Foi na Ruhr-Universität de Bochum, Alemanha, que um conjunto de investigadores conseguiu um genial feito, e até hoje impossível em mamíferos, ao conseguirem que ratos com lesões ao nível da medula espinal voltassem a andar! Isto significa uma esperança enorme para tantos acidentados pelo mundo fora! 

 

Por intermédio da injecção de uma proteína no cérebro (hiprinterleucina-6), estes investigadores conseguiram provocar um estímulo nas células nervosas ao ponto destas se regenerar em. Está proteina espalha-se igualmente pelo cérebro conseguindo um efeito nunca alcançado até hoje. 

 

O passo seguinte serão os mamíferos de maior dimensão, todavia, e embora ainda possa levar décadas para termos resultados mais concretos, é uma conquista única para a Humanidade e sobretudo para os apaixonados das neurociências!

 

Neste mundo actual, onde após o "vai ficar tudo bem" parece ter dado lugar ao "vai ficar tudo péssimo" - como se palmas e clichés nos procurassem enganar e pensar que tudo passava em semanas - ainda vão existindo muitas coisas boas e muitas vidas a serem salvas, seja agora... Seja num futuro que parecemos não querer encarar e muito menos preservar.

 

É segunda-feira... E para os que se recusarem a estar em casa a ouvir, a ler e a visualizar uma quase lavagem cerebral (afinal, para muitos que pedem que fiquemos em casa no sofá não há nada melhor que um confinamento para aumentar audiências e likes) sempre existem boas notícias por esse mundo fora, ou até neste nosso pequeno bairro...

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Irrepresentable...

por Robinson Kanes, em 22.01.21

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Imagem: GC e Robinson Kanes

 

Mon royame est de c'est monde.

Albert Camus, in "L'Envers et l'Endroit" (Amour de Vivre) - Camus cita os gregos contrariando o que Cristo respondeu a Pilates em João, XVIII, 36 

 

Não tento sobreviver ao vírus, tenho as minhas cautelas, os riscos existem, isso basta-me para me sentir bem - no que concerne à desgraça, lamento não dar para o peditório, usando as palavras de um dos visitantes deste espaço.

 

Procuro sobreviver ao agudizar da hipocrisia (agora as políticas governamentais já são más, mas há uns meses chamavam a quem tal afirmava de idiota) numa fase em que temos de garantir a paz e a calma, agora é tarde e também é cedo para apontar armas. Agora não é tempo de discursos da moral, das opiniões que mudam segundo as redes sociais, segundo a turba e as diferentes plataformas, noticiosas e não noticiosas. Como se muda de opinião de um minuto para o outro, hoje em dia... Ainda bem que tal, maioritariamente, só acontece a quem usa o teclado de forma pública... Ainda bem...

 

Tento sobreviver ao pânico e ao medo, não em mim, mas junto de alguns que me rodeiam, não é fácil quando tenho uns minutos face aos meses de invasão grosseira da mente que  tantos continuam a perpetrar a troco de leituras e audiências. Talvez agora me chamem de idiota, como "chamaram" há uns tempos... Mas perdoem-me não resistir ao mordaz e cínico: eu bem dizia! Leia-se eu como um grande "nós".

 

Não exploro esta situação como uma espécie de carona invertido, não me coloco como especialista em saúde, apenas alguém que diz umas coisas e que parece que ao invés de procurar holofotes, teima em disparar sobre qualquer luz que se acenda - uma busca por não sofrer por aquilo em que não acredito, pois isso faz-me não acreditar na vida e não a pretendo jogar à aventura, socorrendo-me aqui "Do Mundo Original" do grande VF . Talvez um dia me arrependa, quiçá... 

 

Nessa sobrevivência, e não sendo um homem que aprecie as quatro paredes de um escritório, por vezes é necessário uma retirada, não gosto da palavra meditação... Sair das gentes, pensar a sós, isolar-me desse mundo nem que o escritório mais formal dê lugar ao assento de um carro ou mesmo a um tijolo qualquer numa praia ou beira-rio desprezada e pejada de detritos. 

 

Retiro-me, não escuto o "Addio a Palermo", de Morricone e composto para o filme "Corleone", como por estes dias mencionei ao amigo João-Afonso. Procuro outras sonoridades, talvez me faça bem agora o "Vacío Sideral" de Miguel Ángel Delgado e do espectacular albúm "En Mundo en la Boca".

 

Deixo que o vento me misture os pensamentos, o meu reino é, de facto, deste mundo... De um mundo que desconheço e que rapidamente oscila entre o discurso mais terno e a mais ignóbil descarga de ódio. Um mundo de faz de conta ou talvez não... Talvez esse reino seja mesmo assim e os restos de acomisme sejam isso mesmo, detritos de uma esperança que nunca se concretizará - o melhor dos mundos poderia ser hoje e não é, porque terá de ser no futuro que se avizinha ainda mais desafiante e sedento de Homens sem conseguir livrar-se de wannabes. A Terra bem roda... Mas teima em não conseguir sacudi-los para fora da sua órbita ou sequer transformá-los em húmus transformando podres almas em saprófitas.

 

Acabo este texto a ouvir Davide Salvado, e o seu galego inconfundível... Talvez o "Aire" de um dos melhores músicos da Ibéria me possa inundar e me dar todas as forças para vencer mais um dia em que sei que tenho de estar bem para que outros também possam estar. Preciso dos ares de lá... Sufocam-me os ares de um rectângulo fechado sobre si próprio... Um rectângulo irrepresentable de García Lorca mas com uma náusea perpétua cujas metástases corrompem um dos solos mais ricos do Mundo.

 

São horas de levantar, aguardo mais uns minutos. Fecho um pouco os olhos e deixo que o Tejo se transforme na Avenida de la Constitución em Granada... Permito-me, eventualmente, a ter dois dedos de conversa com o poeta e com o dramaturgo acerca da revolução social antes de voltar ao reino.

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Discurso do Pânico... Continuem que vão bem...

por Robinson Kanes, em 21.01.21

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Capa da edição do histórico Diário de Notícias de 21/01/2021 - que para isto, não precisava de ter voltado.

Imagem: Diário de Notícias

 

 

E quando se deixa de acreditar nas pessoas, o que é que fica a um homem?!... Pouca coisa e nada de bom... Uma noite danada dentro da gente, uma grande vontade de morrer quando o coração amacia e uma grande vontade de matar quando se pensa que viver é bom e são os outros que não deixam.

Alves Redol, in "A Barca dos Sete Lemes"

 

 

O caronismo e o buescismo vieram para ficar. Já não basta a situação delicada e temos uma nova imposição do pânico e do medo. Parabéns, algumas pseudo-celebridades, médicos sem ética e alguns meios de comunicação conseguiram... "Estamos" cheios de medo.

 

Em relação ao caronismo, faz-me espécie como é que um candidato a Dr. Oz português, que não olha a meios para alcançar o protagonismo, continua a ter destaque máximo nos meios de comunicação, mais do que outros médicos experientes e muito mais prudentes quando falam da situação actual. A apologia do medo e da desgraça, sobretudo vinda de um indivíduo que diz ter estado em cenários de guerra, faz-nos pensar se tal terá servido de alguma coisa: a última coisa que, num cenário de guerra ou de pandemia, devemos fazer é a apologia do pânico e do medo, pelo menos dentro das nossas fileiras... Alguém estudou mal a lição... A cegueira por meia dúzia de likes e futuras audiências não tem limites! Caronas e dokinnis deste país semeiam o pânico e o medo sem olhar às consequências do seu discurso. Também não entendo o que os chefes do serviço destes profissionais andam a fazer...

 

Homens, verdadeiros médicos como António Sarmento (apenas um exemplo), mostram que não devemos entrar neste estado de pânico, mesmo em entrevistas que, mais do que buscar informação, o jornalista (ou licenciado apenas em jornalismo e com faltas a todas as aulas) tenta por todos os meios fazer com que o especialista ceda ao discurso do pânico. Mesmo perante as investidas sem sucesso insiste em dramatizar uma situação que ainda não chegou a tal. Para isso, para o desastre, voltaram os matemáticos dos números lapalissados, a semear o terror ao anunciarem números como 16 000 casos numa semana quando na corrente já temos 12 000 e estamos numa curva ascendente. Brilhante, e pagamos milhões a indivíduos como estes para ensinarem...

 

Também não deixa de ser paradoxal ver o mundo das pseudo-celebridades a embarcarem no discurso do medo e a apregoar o internet shaming e o encerramento de todos em casa - não seria grave se isto não afectasse a saúde mental de muitos que lhes dão ouvidos. Estas estrelas cadentes são as mesmas que há uma semana contestavam o encerramento de espaços culturais mas devem ter chegado à conclusão que, na tentativa de aparecerem, nada como ter as pessoas fechadas em casa e adoptar o discurso do medo - assim não vão cair no esquecimento de facto, mesmo que um dia sejamos contra o panda do kung fu e no outro dia a favor, vive-se de likes e a realidade pouco importa. Ninguém é responsável, mesmo que tenham passado o verão em férias à grande (e não poucas vezes pagas por outrem) a ostentar o seu confinamento. Também ninguém é responsável por, aquando de um acidente de viação em período de proibição de circulação entre concelhos, que pelo que me vem à memória deve ter sido o único em Portugal nos últimos anos, muitos destes indivíduos terem tido vontade de tomar parte na desgraça e afinal se terem esquecido que em tempo de confinamento, a A1 era um desfile destas celebridades quando outros estavam fechados.

 

Voltámos também ao discurso da guerra. Só quem nunca esteve debaixo de fogo real em situação de conflito pode chamar a isto guerra. Não, isto não é uma guerra!  Mas pelo menos, já que andamos todos tão preocupados com a guerra e com a linha da frente, pode ser que seja desta que possamos dar valor aos ex-combatentes do ultramar que combateram numa guerra que nem sabiam muito bem para quê... Esses e os desertores que um certo Presidente da República que na altura já ambicionava estar à frente de uma ditadura, apelidou de cobardes e apátridas mas quando chegou a sua vez, como sempre enquanto era jovem, lá chorou junto do pai para fugir às picadas africanas... E é isto Presidente de uma Democracia... Ainda por estes dias alguém me dizia, vocês (europeus) não sabem aproveitar a paz, estiveram demasiado tempo sem guerra.

 

Sou critico do Governo de António Costa, mas é preciso muito para sentir que desta vez o nosso Primeiro-Ministro não é dos maiores culpados (sim, é o Robinson a escrever isto). Perante tantas decisões complexas, perante tantos especialistas que só querem dar nas vistas (não todos), perante um Presidente da República que se confunde com Primeiro-Ministro quando as coisas correm bem e cospe publicamente em António Costa quando as coisas correm mal, mesmo que tenha tomado parte (e influenciado até) nas decisões, é motivo para ter alguma compaixão. Pelo menos, com más decisões, não deixa de ser um estadista, já o outro... A história falará por si e de um dos maiores actores e youtubers (seja lá o que isso for) da sociedade portuguesa

 

Assassínios em massa? Alguém tem real noção do que significa (mesmo em termos legais) de acusar um Primeiro-Ministro deste tipo de crime? Será que, com todos os erros, ainda não percebemos que não é possível salvar toda a gente e os custos económicos e sociais de um confinamento geral serão fatais? Continuo a não defender confinamentos gerais, não pode ser... Porque é que muitos europeus, e sobretudo os portugueses não se convenceram que os riscos existem? Mas onde é que andaram com a cabeça, pelo menos alguns deles, para acreditar que a segurança é absoluta? É impossível salvar toda a gente se o vírus, seja ele qual for, atacar em força! Podemos mitigar, sim podemos mitigar, mas o risco existirá sempre... Em que raio de bolha andámos a viver estes anos todos? Em que raios de guerras andaram os caronas deste mundo, pois parece que andaram foi a jogar Risco ou a Operação e quando algo é a sério parecem tontos a correr de mãos no ar a gritar acudam!

 

Já se fazem contagens de mortos nos cantos dos ecrãs... Mas o que é isto? Já não há ética, já não há decoro e o jornalismo tende a ocupar mais campas que o SARS-CoV. Somos um Heinrich de Malraux a fazer render a situação, posto que a mesma já foi encontrada! Estamos a abrir precedentes perigosos...

 

E é nesse contexto que, mais do que a situação actual, dá-me medo o futuro neste país, porque isto é só o começo do que um futuro incerto nos reserva. E como diz o povo, continuem que vão bem...

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Sardinhas de raça e Eugénio de Andrade...

por Robinson Kanes, em 19.01.21

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Imagem: Robinson Kanes

 

Hoje é o dia da habitual sardinhada no espaço SardinhaSemLata, onde o anti-racismo, mais do que o racismo, merecerá destaque, vejam aqui

 

Não posso também deixar passar, sobretudo tendo em conta o poeta e a paixão que alguém próximo tem pelo mesmo... A 19 de Janeiro de 1923, entre as terras frias do Fundão nascia um dos maiores vultos da poesia: Eugénio de Andrade!

 

Adeus

Como se houvesse uma tempestade 

escurecendo os teus cabelos belos,

ou se preferes, a minha boca nos teus olhos 

carregada de flor e dos teus dedos

 

como se houvesse uma criança cega

aos tropeções dentro de ti,

eu falei em neve, e tu calavas,

a voz onde contigo me perdi.

 

Como se a noite viesse e te levasse,

eu era só fome o que sentia;

digo-te adeus, como se não voltasse

ao país onde o teu corpo principia.

 

Como se houvesse nuvens sobre nuvens,

e sobre as nuvens mar perfeito,

ou se preferes, a tua boca clara

singrando largamente no meu peito

Andrade, E (1990). Obra de Eugénio de Andrade / 2 (pp.16). Porto: Limiar

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Créditos: https://pixabay.com/pt/photos/motor-ciclo-3260697/

 

Sabendo que existem múltiplas ocorrências em que a actividade que um centro de estudos, um ATL ou uma creche diz desempenhar é efectivamente aquela que podemos verificar, existem situações em que a lei é contornada em todas as suas formas... E a recente polémica relacionada com o encerramento destes espaços veio confirmar algumas áreas mais obscuras como sucedeu com os lares ilegais que praticamente toda a gente sabe que são às centenas mas parece ser normal e até encarado como se de estabelecimentos legalizados se tratassem.

 

Se existiam dúvidas que muitos centros de estudo e ATL eram somente depósitos de crianças, essas dúvidas ficaram dissipadas. Não são raros os casos em que para fugir à lei (e aos impostos) muitos centros de estudo não são aquilo que dizem ser. São meras creches ou então depósitos de crianças que não reúnem as condições (inclusive em termos de dimensões) para exercer uma actividade que implica outras licenças e outras prerrogativas. Se fizermos algumas pesquisas às notícias dos últimos dias, vemos pais que deixam as crianças nestes centro de estudos de manhã e só as recolhem ao fim do dia... Também a actividade de muitos ATL pode ser questionada, pois para mim, ainda me faz uma certa confusão se Actividades de Tempos Livres ou de Enriquecimento Curricular são somente brincar com jogos de tabuleiro, atirar bolas uns aos outros ou ficar sentado (muitas vezes no chão) a ver televisão e muitas vezes acompanhados por indivíduos não habilitados para as funções. Não tenho filhos, mas se fosse pai, pensaria duas vezes antes de colocar o meu filho numa espécie de "filhão".

 

Esta situação leva a outras que tenho ouvido pontualmente e que se referem ao impacte destes espaços em, por exemplo, prédios habitacionais. Ora se uma creche tem de obedecer a vários trâmites e normalmente até estão localizadas em edifícios independentes, um Centro de Estudos ou um ATL, não raras vezes, estão situados em infraestruturas habitacionais o que levanta, normalmente, situações relacionadas com ruído e até riscos para a segurança das crianças e daqueles que habitam no mesmo prédio.Todavia, esse parece não ser um problema, o que é de estranhar, pois se tivermos em conta que para ter um pronto-a-vestir tenho de reunir mil e uma condições, por vezes descabidas de qualquer nexo. 

 

Casos destes pululam por aí, e não parece existir por parte dos municípios e do próprio Governo, vontade em rever este género de situações... Também não raras vezes, estes estabelecimentos são explorados a tempo inteiro por indivíduos que deveriam estar a prestar um serviço público pago por todos nós mas que ninguém consegue conceber como é que conseguem estar num local e no outro ao mesmo tempo...

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Al Qaeda no Irão? Really?

por Robinson Kanes, em 15.01.21

irão.jpgImagem: Robinson Kanes

 

A new challenge everyday

You keep away and delay;

When I act to close the gap

Fate says there is a bigger play.

Hāfez

 

Ainda bem que existem notícias que passam ao lado (estou a ironizar) embora me admire que tendo o Irão como tema central não tenha sido mesmo algo bombástico. Será que foi por ser Trump e existe um acordo tácito em muita imprensa para não dar aval às declarações dos seus correligionários como Mike Pompeo?

 

Pompeo teve o seu momento Cantinflas ao afirmar que a nova casa da Al Qaeda é no Irão! Eu acredito que depois da invasão do Iraque tudo seria possível, mas colocar os headquarters da Al Qaeda no Irão é só mesmo para nos trazer algum humor em tempos difíceis, além de causar alguma pressão na presidência de Biden e nas relações que esta terá com a antiga Pérsia. Estas afirmações surgem numa altura em que o Irão está em exercícios militares no Golfo Pérsico, o que poderá estar a causar alguma consternação junto dos aliados americanos na região.

 

Sendo que Pompeo é livre de ter o seu palco, também é livre de estudar um pouco das relações entre o Irão e a organização terrorista. Pompeo também se terá esquecido que a Al Qaeda é essencialmente Sunita e o regime de Teerão é na sua maioria Xiita? Basta este ponto para fazer toda a diferença... E já que falámos em Iraque, um dos motivos para a má relação entre a Bagdade de Saddam e Teerão era a perseguição do primeiro aos xiitas. 

 

A estratégia de "maximum pressure" ao Irão é de tal modo desesperada (e perigosa) que nem se preocupa em apresentar provas. Todavia, não seria perigosa se não estivéssemos numa época em que os factos são ultrapassados pelo discurso e pelas convicções. Juntar o Irão com a Al Qaeda é quase como juntar Israel com o Hezbollah... Mesmo que os serviços secretos daquele país tenham abatido em Teerão um alto responsável da Al Qaeda no ano passado. 

 

Finalmente, e posto que o fantasma do 11 de Setembro também foi abordado por Pompeo, importa reter que nenhum dos terroristas que perpetraram os atentados eram iranianos mas sim de outras nacionalidades bem próximas dos Estados Unidos e até com grandes ligações aos governantes americanos.

Motivo para dizer... Really? 

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Balada do Pequeno Soldado...

por Robinson Kanes, em 13.01.21

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Columbano Bordalo Pinheiro - "Cabeça de Rapaz" (Museu José Malhoa)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

Dei por mim, mais uma vez a tentar interpretar o Mundo, a "sofrer", afinal precisamos desse tempo, e fui catapultado nos meus pensamentos para um tema que já abordei aqui aqui.

 

Um dia de sol, não o de hoje onde os pneus já comem asfalto há muitos quilómetros e este artigo irá ser disparado, mas um outro, com vista do Tejo.  O Tejo com as suas pequenas vagas adivinhando o vento que irá entrar pela planície adentro e afastar os flamingos para as salinas. Recordo a "Ballade vom kleinen Soldaten, ou se preferirem a "Balada do Pequeno Soldado", obra de um dos mais brilhantes realizadores do nosso tempo, o alemão Werner Herzog.

 

Somos transportados para a Nicarágua dos anos oitenta, terra onde os sandinistas na sua cavalgada para impôr um regime socialista naquele país, tomaram como uma das suas frentes de batalha a eliminação dos povos indígenas, neste caso em particular os Miskito. Nada de novo numa ideologia que procura limpar a História e o que dela resta, mesmo que tal testemunho tenha a forma de um ser-humano.

 

Recordo aquele pequeno soldado que abre o "documentário" e também o "Dia Mundial dos Povos Indigenas". Foi no dia 09 de Agosto, por sinal, o dia em que escrevo este texto. Poucos se terão recordado da data, é impossível chegar a tudo. Sem perceber porquê, e perdoem não ter uma história cheia de epifanias para contar acerca de, os meus pensamentos foram levados para esta obra de Herzog. Talvez culpa dos meus pais, da minha irmã, que me carregaram de realidade e nunca tiveram qualquer pejo em mostrar-me o que era o Mundo. Até aquilo a que memória me alcança, vejo-me a absorver todo o tipo de documentários na televisão, para o bem e para o mal. Sangue, morte, fome... Nunca foram um problema que levasse os meus pais a desligarem a televisão, a tirarem-me um livro da mão ou até a orientarem o caminho que percorria, bem pelo contrário. Bem, a minha mãe...

 

Na Nicarágua dos anos 80 e até 90, estes pequenos guerreiros formaram batalhões inteiros, muitos deles porque só tinham esse destino  - destino, não raras vezes, desenhado pelos pais e pelos desejos de vingança. Podemos tecer todo o tipo de comentários anti-violência, eu próprio os faço, mas explicar isso a quem vê toda uma aldeia ou vila incendiadas, os seus habitantes (independentemente de serem homens, mulheres ou crianças) serem fuzilados não é de todo a tarefa mais fácil do Mundo... O "olho por olho, dente por dente" tende a ser mais forte.

 

Quiçá por isso recorde um amigo de alguém cá de casa que fugiu de um país da América Latina com a família. Diz-nos ele que, naquele país, todos sabem que existe um projéctil com o seu nome, é uma roleta russa.

 

Crianças fardadas e prontas para a guerra, é dos crimes mais hediondos que se podem cometer. É ver a infância roubada, mesmo que as hipóteses de atingir algum nível de felicidade sejam baixas. Ver crianças que já perderam tudo e se transformaram em máquinas de guerra ou simplesmente carne para canhão deveria chocar, fazer-nos tremer! Ainda são milhares - e sabemos como as estatísticas são generosas nestes números - as crianças que sabem manejar um morteiro ou uma automática melhor que a maioria da população adulta. Provavelmente, quandos os nossos filhos brincam na rua e fazem o "pfiii pxiiiiu" com uma arma de plástico, outros sentem o som dos projécteis a passar-lhes por cima e sentem a dor de ver a pela rechassada por um ferro a alta velocidade ou por uma explosão. Enquanto os nossos filhos dão à costa embalados pelas pequenas ondas e riem, outros dão à costa ou à margem de rios crivados de balas.

 

A somar a tudo isto, porque isto é "só" uma consequência de, é importante que olhemos para os povos indígenas deste mundo. Em alguns casos, é lá que está a nossa história como seres-humanos, como homens que somos - simplesmente ignoramo-los como o faríamos se hoje em dia Edison fosse vivo e tantos outros pioneiros do nosso bem-estar. Não basta andar vestido em tons tribais e achar-se um cidadão mais para a frente, bastará afinal, saber que estes povos existem, até porque, numa época em que algumas vidas interessam, talvez fosse mais humano perceber que todas as vidas importam, mesmo aquelas cujas raízes ancestrais jamais deverão ser esquecidas ou destruídas. Mesmo aqueles cujos descendentes já não são mais que um pequeno grupo de dezenas ou centenas.

 

Olho o horizonte e acompanho o pequeno soldado, cuja Kalashnikov mais parece uma viola e onde o olhar de criança é corrompido por um olhar vazio e triste de menino soldado...

 

(...)

Que te pasa chiquillo, que te passa

Me dicen en la escuela y me preguntan en mi casa

Y hasta ahora lo supe de repente

Cuando vi pasar la lista y ella no estuvo presente 

Ella de la mochila azul

la de ojitos dormilones

Me dejo gran inquetud

Y bajas calificaciones 

Ni al recreo quiero salir

No me divierto con nada

No puedo leer ni escribir

Me hace falta su mirada

De recuerdo me quedan sus colores

Dos hojas del cuaderno dice amores entre borrones

Yo quisiera mirarla en su pupitre

Porque si ella ya no vuelve mi salon sera muy triste

(...)

Bulmaro Bermúdez, "La  de la Mochila Azul"

 

(Publicado originalmente a 11 de Agosto de 2020 no espaço SardinhaSemLata)

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