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Irão: Do Pedido de Desculpas...

por Robinson Kanes, em 24.01.20

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Em nove décimos do homem o que pensa é o animal. E é com o décumo que resta que quereis reinventá-lo? Quereis? Mas é da parte que negais nos outros que vos servis de engodo para a pregação.

Vergílio Ferreira, in "Signo Sinal"

 

Podemos até afirmar que não haveria outra hipótese... Que era a resposta esperada mas...

... Quantas vezes vimos altos responsáveis políticos e militares a assumirem o que generais, líderes políticos e religiosos assumiram com o abate do avião da Ukranian Airlines? Não passou uma semana e um país como o Irão assume a responsabilidade pela destruição de um avião com cidadãos estrangeiros e nacionais daquele país.

 

A verdadeira bofetada que o Irão deu ao assumir este acidente mostrou que os erros existem e mesmo em situações de alta tensão temos de os assumir! De quantos pedidos desculpas estamos à espera relativos a massacres, atentados e guerras iniciadas por países ditos desenvolvidos? Ainda estamos à espera de um pedido de desculpas em relação ao Iraque! Ainda estamos à espera de um pedido de desculpas em relação à Síria! Ainda estamos à espera de um pedido de desculpas relativo a muitas colónias no Norte de África e na América do Sul! É importante lembrar que numa coisa tão simples como foi o "Bloody Sunday" na Irlanda do Norte, só com David Cameron o pedido de desculpas surgiu. E o pedido de desculpas relativo à destruição do avião da Malaysia Airlines sob território ucraniano? E mesmo as organizações empresariais que exploram crianças e demais população em países sub-desenvolvidos, o tais que em tempos era chique apelidar de Terceiro Mundo? E quando é que pedimos desculpas por fazer negócios e parcerias com países que torturam e eliminam dissidentes e indivíduos de diferentes etnias e culturas? Quando é que pedimos desculpas por apertar a mão a criadores de sistemas como o "skynet"?

 

O Irão, para o mal ou para o bem, deu-nos uma grande lição e mesmo não sendo o maior admirador do regime iraniano, tenho de reconhecer que se existissem mais líderes e países a ter este tipo de atitude o mundo poderia ser um local muito melhor! Além disso, não me custa engolir que um país como o Irão tem mais anos disto (civilização) que nós... Até porque, consta que ainda mais antigo que a própria Pérsia, é o Irão.

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Fim de Tarde em Janeiro...

por Robinson Kanes, em 22.01.20

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Imagem: Robinson Kanes (Bari)

 

A vida não é uma forma, é uma mistura complexa de géneros.

Antal Szerb, in "Viajante à Luz da Lua".

 

Os London Grammar, com o seu "Strong", acompanham o momento em que escrevo este artigo. O sol começa a ficar mais fraco, é o fim de tarde de Inverno que tanto me apaixona. Custa-me imaginar que esperemos ansiosamente pelo Verão quando temos um fim de tarde como este para apreciar... Somos seres estranhos na beleza de nós no mundo e do mundo em nós.

 

Hoje quiseram saber de mim, ou talvez mera calhandrice... Foi bom, não tenho andado por aqui e no que tenho, acabo por ser mais selectivo - também não tenho muito para escrever deste nosso país, acho que acabei por abandoná-lo na minha cabeça, fechei-me às notícias, aos desenvolvimentos políticos e por aí adiante - as chuvas do Uganda têm este efeito em nós, talvez um dia fale disso. E não... Não tive milhares de emails de também milhares de pessoas a chorarem por mim, a oferecerem-me bolas de queijo, toalhas de linho ou presuntos inteiros no tempo em que vou andando desaparecido. 

 

"Hey Now" toca agora. Uma voz melodiosa e tão pura de Hannah Reid... O reflexo do sol nos prédios, a sonoridade que ecoa pelas esquinas desta sala e o calor de estar aqui. Uma ambulância que passa, o amarelo dos prédios mais adiante a adquirir um tom mostarda, queimado pelos últimos raios de sol de uma tarde de Janeiro. Não sei mais o que dizer, no entanto, sei que vão passando, sei que vão lendo e levando um pouco de mim, e isso já me faz querer ficar por aqui. 

 

Vou lavar a cara e partir para mais um repasto na companhia daqueles de quem mais gostamos. E é só mais um final de tarde de Janeiro, algo bucólico, mas que nas voltas do cosmos é o mais especial do Universo.

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Do turismo LGBTYZGHJKL...

por Robinson Kanes, em 15.01.20

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Imagem: https://www.projectq.us/atlanta/atlanta_stages_gay_pensacola2014_instagram_takeover?gid=15667

 

Existe uma coisa que me faz alguma confusão e que me custa a entender do ponto de vista pessoal embora reconheça que, se gera lucro, deve ser aproveitado num âmbito mais empresarial. Refiro-me àquela designação de turismo que tem muitas letras e todos os dias vai tendo uma nova, algo como turismo LGBTWSCEFBRTYHGBNUNMKIOLPQAX...

 

De facto, o arco-iris é um mercado apetecível do ponto de vista das vendas, no entanto, aqueles que tanto reinvindicam igualdade não estarão a cair no erro de criar mais desigualdade? A sede de igualdade é cada vez mais uma forma de criar uma espécie de elite e que por sua vez alimenta o ódio de outros.

 

Custa-me perceber porque é que vejo dinheiros públicos a promoverem, por exemplo, um turismo que promove a desigualdade. Ainda preciso que alguém me explique se um hotel para um indivíduo LGBGHJDXVNTEXHMJUDFHGNJTYTEYGTJTEJYRTJYTJT é diferente de um hotel para um homem ou para uma mulher que não se identifica com siglas.

 

Alguém me pode explicar se o facto de ser LGBTVFEWFGWGRWGWGTGTRG obriga a que existam acessos diferentes num museu ou se a comida tem de ser diferente. Eu assumo-me como hetero, e espero não ser perseguido por ser hetero, pois sou e assumo isso sem medo de represálias, mas será que devo começar a não frequentar determinados locais e destinos sob pena de ser perseguido ou até me sentir mal - perante a lei, e como cidadãos, não somos todos iguais? É que nem é só nesta matéria, mas em outras, começo a sentir que o facto de ser um indivíduo que paga impostos, trabalha, é hetero, consegue pagar as contas, não vive de subsídios, não embandeira em arco o facto de ter esta ou aquela doença e procura ter uma vida normal me começa a prejudicar....

 

É óbvio que existem temáticas e atracções diferentes dependendo dos gostos de cada um, mas uma coisa é promover isso comercialmente, outra é utilizar a arma dos direitos e do civismo para promover algo que além de ser, por vezes ridículo, é mais corrosivo do que propriamente agregador.

 

Agora podem chamar-me homofóbico, mas se achar que todos somos iguais é uma espécie de homofobia, pois bem, então que me chamem de tal e já agora não se esqueçam da designação de populista ou fascista, tão comum nos dias de hoje e que encaixa em todos aqueles que fazem perguntas ou dizem não!

 

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Do Irão com Paixão...

por Robinson Kanes, em 08.01.20

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Imagem: Robinson Kanes (Não percam nunca a vossa amizade...)

 

 

O direito do homem a não matar. A não aprender a matar. Este direito não está consagrado em nenhuma constituição.

Svetlana Alexievich, in "Rapazes de Zinco"

 

 

Hoje não venho falar de visitas ao Irão... O Irão é mais que isso, é mais do que um postal, é um país com uma cultura e uma História que países como os Estados Unidos, por exemplo, nunca terão. Não vou ser contra os Estados Unidos, até porque prefiro (pelo menos para já) viver num regime mais semelhante ao norte-americano.

 

No entanto, não posso deixar de elogiar uma terra que me recebeu muito bem, quer pelas minhas origens culturais e religiosas totalmente diferentes quer por respeitar a minha negação das segundas. Denoto que algumas das discussões religiosas mais leves e mais abertas que tive aconteceram no Irão. Senti até que, ao contrário do que se diz, o dilema não se dá entre religiões mas entre "derivações" da mesma.

 

Não posso deixar de recordar aqueles sorrisos de homens carimásticos e de belas mulheres que podemos encontrar em qualquer cidade ou vila iraniana! Caramba, deixemos a porcaria da política e de interesses obscuros (vejam as acções de algumas empresas de armamento a subir) e foquemo-nos nas pessoas, no povo! Esse é um povo que não deseja violência, sobretudo no caso iraniano, que até por vários acontecimentos históricos demonstra uma grande vontade em estar junto do Ocidente, inclusive dos Estados Unidos.

 

Todavia, o que um povo não pode suportar é sofrer ameaças e sanções só porque uma Democracia decidiu atacar directamente o país - a morte de Qasem Soleimani é um ataque ao país. O povo iraniano e também o iraquiano não podem tolerar que uma Democracia invada os seus territórios e mate os seus líderes com total apoio de vários outros países e ainda recuse abandonar esses mesmos territórios. As ameaças de Donald Trump ao Iraque (e não falo do Irão) são qualquer coisa que deveria envergonhar qualquer democrata, qualquer cidadão com direitos, seja ele americano ou não! Junte-se a isto o abandono dos aliados curdos e mais vale cavarmos um buraco e escondermo-nos bem lá no fundo. A postura da comunidade internacional ocidental também é lamentável e nem o próprio Secretário-Geral das Nações Unidas consegue esconder o facciosismo.

 

Todo este aparato só servirá para uma coisa: endurecer a postura do regime iraniano que já mostrava alguma vontade de abertura, além de que existem países aliados do Ocidente com maior limitação aos direitos humanos, e ainda reforçar o apoio ao regime por parte dos iranianos. Ninguém é isento de culpas, mas este levantar de poeira pode acabar da pior forma, até porque uma nação soberana e com a dimensão do Irão não pode cruzar os braços sob pena de se repetirem mais actos hediondos.

 

Os Estados Unidos e Europa estão também a perder uma oportunidade soberana de tomar parte na(s) nova(s) Rota(s) da Seda e com isso embarcar num caminho de prosperidade económica, social e política, aliás, estão neste momento a ser um entrave a esse desenvolvimento e a permitirem que países como a China e a própria Rússia aproveitem e assumam os destinos da região.

 

Todavia, neste momento, só me posso recordar de toda aquela gente boa, especialmente um pequeno grupo que, nas margens do Zāyandé-Rūd, partilhou connosco da sua comida, da sua casa e da sua vida, desde o primeiro momento em que nos conheceu numa clara demonstração de afecto que não vemos por cá, inclusive em Portugal, onde os principais seguidores da política dos afectos são os mais distantes daqueles a quem querem vender tamanha falsa ideia.

 

O Irão, aliás, os iranianos são um povo com quem todos temos de aprender e com uma bagagem intelectual e cultural que me faz, perante os mesmos, curvar-me e fazer uma vénia em respeito por tão importantes indivíduos. 

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Ferro Rodrigues e a Oxidação da Política.

por Robinson Kanes, em 06.01.20

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Henri Regnault - Execução Sumária (Musée d'Orsay)

Imagem: Robinson Kanes

 

A moral, mesmo quando se renova, anda mais atrasada em relação à melhor inteligência de cada época, do que os comboios em relação aos seus horários, quando os nevões obstruem as linhas.

Ferreira de Castro, in "A Experiência".

 

Já diz a malta que "e se o Ferro Rodrigues incomoda muita gente, o Ventura incomoda muito mais". Ou talvez não... Se existe uma coisa que André Ventura tem incomodado são os criminosos e muitos políticos deste país que, por sinal, alguns também são criminosos - tendo em conta que são cada vez mais, talvez daqui a um ano a forma como escrevi dê lugar a uma figura de estilo.

 

Sabemos que Ferro Rodrigues é mais um daqueles portugueses da nossa praça que caminha impunemente e não teme nada nem ninguém. Não querendo tecer considerações se foi ou não culpado (eu quero acreditar que não) num daqueles casos no processo Casa-Pia que poderia ter ficado mais bem esclarecido, até em abono do próprio. A nuvem em torno deste ainda paira!

 

Ferro Rodrigues também é aquele que disse não querer saber do segredo de justiça e claro defensor de um governo socialista que tem uma grande parte dos seus membros, inclusive o então chefe do executivo a contas com a justiça. Ferro Rodrigues também é aquele que abomina a palavra vergonha, e talvez por isso não utilize a mesma quando percebe que as dívidas dos partidos prescreveram. Não é uma vergonha, é um facto. É pulhice, é intrujice, é uma embaçadela criminosa!

 

Dá também que pensar o facto de Ferro Rodrigues, como presidente da Assembleia da República, venha ser parcial e atacar um deputado que estava a pôr a descoberto algumas peripécias do seu partido. Em Portugal deixou de ser pemitido utilizar a palavra "vergonha" ao que parece, desde que se seja de Esquerda, obviamente...

 

Ferro Rodrigues é mais um dos escroques que vai pululando por aí, com uma rede de influências nefasta e que é carregado qual Leão X aos ombros de todos nós que não exigimos justiça, não exigimos carácter e muitos menos integridade a alguém que tem ocupado os cargos que Ferro Rodrigues tem tido a sorte (só pode ser sorte...) de ocupar.

 

André Ventura não é perfeito, está longe de ser perfeito, no entanto, o patinho feio dos pequenos partidos entretanto eleitos para a Assembleia da República, parece estar a fazer mais que uma Iniciativa Liberal que se quer profissional e vanguardista mas que é antiquada e está na posse de meia-dúzia que de diferente em relação aos demais da praça, tem pouco. É uma espécie de malta cuja pele já não exala mofo, usa camisa sem gravata e blazer caro, mas ainda tem muito do seu pensamento a cheirar a bafio e vestido de preto. Uma espécie de "cool people" com mentalidade "retro".

 

Falar do Livre e da sua deputada, é pura perda de tempo...

 

André Ventura agradece e demonstra que é capaz de colocar muita gente incomodada - inclusive o próprio Marcelo que já aconselha este e aquele a candidatar-se ou não à Presidência, qual Presidente do Conselho perante Humberto Delgado, velhos tiques que não se perdem). Depois da vergonhosa atitude de Ferro Rodrigues, os aplausos de algumas bancadas, demonstraram bem de como o sistema político está montado em Portugal, ou seja, um verdadeiro cancro, com metástases que fazem do nosso país a república das bananas, como, certo ministro, há algumas semanas, fez questão de dizer que não o é. Um ministro que  foi empurrado pelo mesmo aparelho e por padrinhos e que Ferro Rodrigues bem conhece.

 

É importante lembrar que o Presidente da Assembleia da República é "só" a segunda figura da nação... Talvez Ferro Rodrigues leve isso tão a peito e ache que lhe dá direito de ser déspota ou simplesmente um sem vergonha, porque isto de ser déspota também exige um nível que Ferro Rodrigues e outros não apresentam.

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Paisagens de Portugal: Bataria do Outão.

por Robinson Kanes, em 02.01.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

Existe um local onde é possível tocar as águas do Atlântico como se fôssemos uma espécie de Gulliver. Não é preciso irmos para muito longe, basta ficarmos por Setúbal e subir à Bataria do Outão... A bataria naval abandonada que é um dos locais com maior potencial lúdico e hoteleiro do nosso país. Espero que possa ser um lugar aberto a todos, porque a Arrábida, Setúbal e o Atlântico bem merecem que todos possam contemplar um dos mais belos cenários do mundo.

 

Pasmo

 

Nessas noites de morna calmaria

em que o Mar se não mexe e o Arvoredo

não murmura, pedindo o Sol mais cedo,

que o resguarde da fria Ventania;

 

em que a Lua boceja, se embacia,

e as palavras estagnam, no ar quedo,

noites podres - até chego a ter medo

de me volver também Monotonia.

 

E então sinto vontade de atirar 

meu corpo bruto e nu contra o espanto

da Noite, a ver se o quebro e vibro, enfim;

 

cair no lago morto e acordar

os cisnes que adormecem de quebranto...

... ... ... ... ... .. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Mas só caio, afinal, dentro de mim.

 

Sebastião da Gama, in "Serra-Mãe"

 

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