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Amanhecer em Teerão...

por Robinson Kanes, em 31.10.19

 

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Imagens: Robinson Kanes

 

São quatro da manhã e acabamos de chegar no salão de festas (como chamamos ao Boeing 777-300ER) que acaba de aterrar em Teerão. Não somos muitos, a maioria chegou deitada ao longo dos bancos, quase não fomos excepção mas a fome manteve-nos acordados a apreciar as iguarias servidas a bordo.

 

Madrugada quente, como esperamos. Algumas dificuldades com o inglês, sobretudo quando as malas ficaram do outro lado do Golfo Pérsico. Conseguimos encontrar alguém que fala bem francês, temos agora um canal privilegiado de comunicação.

 

Depois dos tapetes de recolha de bagagem, na zona das chegadas, uma celebração! São quatro da manhã, alguém celebra com música e dança um herói desportivo, juntamo-nos à festa e somos agraciados com um abraço. Em Teerão sê iraniano e ambienta-te. O nosso contacto espera-nos com um ar de quem precisa de dormir, temos consciência disso e seguimos caminho.

 

O 206 já não sabe o que é a quinta mudança e a luz do motor ligada já é rotina (mais tarde iremos perceber que não é assim tão fora do comum). Conversamos num inglês complicado - paramos entre o aeroporto e o hotel, a nossa anfitriã oferece-nos água e nós pedimos se têm garrafões para podermos encher os mesmos de gasóleo e levar para Portugal. Sorrimos, encetamos a conversa e falamos de coisas boas, de cá e de lá.

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De repente, um salto de alegria num rosto cansado... "Sabes, tenho uma filha com 7 anos. Vai ser o primeiro dia dela na escola e eu vou levá-la. Estou tão contente!". O sorriso e a felicidade com que esta jovem nos disse isto comoveu-nos - não fossem quase cinco e meia da manhã e a nossa anfitriã ter de estar levantada para levar a filha às sete. Contudo, com o desenrolar da conversa, o pouco optimismo em relação ao futuro nos estudo era evidente - tentámos deixar algum desse optimismo e dar força à mãe para nunca deixasse que a filha desistisse dos sonhos.

 

A noite já quer dar lugar à manhã, e o trânsito começa a adquirir o seu aspecto caótico, tão característico desta cidade - a poluição já é notória, outra característica capaz de, em dias, levar à morte alguém mais fraco dos pulmões.

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Estamos cansados, é hora de nos despedirmos - aproveitamos o quarto apenas para um banho e para o pequeno-almoço. Não esqueceremos aquele sorriso e desejar o melhor para o futuro de mãe e filha. O Irão hóstil? De madrugada e ao início da manhã não...

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Imagens: Robinson Kanes

 

Decidi antecipar o "Dia dos Mortos" e consequentemente aquele artigo que antecede quase sempre o final da semana. Talvez esse sentimento de perda se tenha abatido sobre mim por antecipação, talvez essa saudade, não das coisas más, mas das coisas boas que este dia trouxe durante muito tempo... Aproveitarei, no entanto, para amanhã deixar algo mais reconfortante para os três dias de "descanso" que se avizinham.

 

Para uma leitura, depois de "A Esperança" terei de voltar a André Malraux, é imperativo que assim o seja. Para estes dias, nada melhor que "A Estrada Real", que conhecer pelos olhos de Claude o grande Perken e a sua luta pelos valores e quiçá pela morte. É um livro que nos torna mais adultos enquanto deambulamos pela Indochina.

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Uma das minhas paixões por música clássica deve-se aos requiem. Este estilo, apesar da tristeza, mas também da força e da esperança que nos dá tem-me acompanhado desde muito jovem - cedo fiquei fascinado com as composições de Mozart e Verdi. No entanto, ao longo dos anos, fui descobrindo preciosas obras e deixo as minhas duas sugestões para estes dias, talvez os melhores (ou não) para escutarmos um requiem. A primeira audição vai para um dos meus preferidos, o "Requiem em Dó Menor" de Luigi Cherubini. Imaginem-se em Florença, junto ao rio ou até em Fiesole, bem perto a escutar esta composição! Talvez me tenha deixado influenciar pela naturalidade do compositor, porque o mesmo foi escrito em memória de Luis XVI de França.

E porque é importante não compactuar com a ocultação dos nossos grandes mestres, não posso deixar passar um dos mais belos requiem de sempre e que é português! O "Requiem Op.23" de João Domingos Bomtempo! Uma "homenagem" a Camões, à sua memória e à língua portuguesa que hoje está sob ataque cerrado! Escutemos Bomtempo e escutemos aquele(s) que muitos teimam em fazer esquecer mesmo que continue a passar nas grandes salas por esse mundo fora.

E a propósito de Bomtempo, porque não irem à Igreja de São Roque no dia 1, pelas 21h:00m, ouvir o Ensemble MPMP? Poderão ouvir do compositor Bomtempo "LIBERA ME" e as "Quatro Absolvições". Aproveitem e vejam também a estreia das "Canções do espaço e da luz" de Hugo Ribeiro. Estas apresentações estao incluídas na Temporada de Música em São Roque! Podem consultar aqui o programa.

 

E porque o pedantismo já vai longo, nada como fechar com um filme... Amor e morte, mas muito mais amor. O filme "Amour" de Michael Aneke deveria ser obrigatório para jovens e adultos. Um filme que ganhou a Palma de Ouro em Cannes e o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro - conta ainda com a portuguesa Rita Blanco e duas brilhantes interpretações de Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. Há quem o veja como um retrato positivo no meio de tanta dor, tristeza e solidão, no entanto, desperta-nos para a realidade inerente a todos os estados anteriormente enumerados - e essa nem sempre é a mais agradável... Mas o amor, o amor tudo vence e aí sim, poderemos esboçar um sorriso ao longo do filme. Além disso, foi lançado numa data muito especial para mim.

E para reflectir durante os dias que se avizinham, e desta vez não é uma má notícia - os gorilas das montanha, no Ruanda, cuja extinção esteve anunciada para o ano 2000 passaram por estes dias a espécie "em perigo" deixando a categoria de " em grande perigo". É uma vitória para todos aqueles que protegem uma espécie que partilha 98% do nosso ADN. Os gorilas têm aumentado em número e por isso todos estão de parabéns, não só no Ruanda, mas também na República Democrática do Congo e Uganda. África também precisa que as boas notícias cheguem até nós!

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"Tá a Andar de Mota"...

Rosa Mota e o Pavilhão...

por Robinson Kanes, em 29.10.19

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Créditos: https://www.ligarunning.pt/noticias/details.php?id=2536417&s=r

 

O Governo já apresentou o programa que pretende implementar em Portugal para os próximos quatro anos deixando de fora um sem número de medidas estruturais que todos prometem década após década mas nada se vê.

 

No entanto, o país, não deixou ficar esquecida a vaidade da atleta do povo, Rosa Mota. Esta senhora, que vemos sempre em corridas por tudo e por nada e também em campanhas partidárias, ficou muito ofendida porque o seu nome não vem em primeiro na nova designação do "Palácio de Cristal" ou "Pavilhão Rosa Mota". O novo nome "Super Bock Arena - Pavilhão Rosa Mota", não agrada à atleta que parece achar que tem mais importância do que quem investe no crescimento e desenvolvimento de uma cidade e não vive à sombra desta.

 

Mas vejamos, pois até podemos ficar do lado de Rosa Mota, daí a importância deixar algumas questões:

- Em todo este tempo que Rosa Mota teve o exclusivo do nome, será que fez o suficiente para que o edifício não acabasse por ficar quase em ruínas? Sendo embaixadora desse local, o que fez?

 

- Para a remodelação do edifício, o que fez Rosa Mota em termos de investimento e ideias para o mesmo?

 

- Sabendo das intervenções no edifício, porque é que Rosa Mota e o seu agente, fintaram a autarquia portuense e encetaram negociação com a Unicer (que aparentemente não teve sucesso)? Quem faz este tipo de manobra não procura propriamente discutir nomes mas outras coisas, nomeadamente contrapartidas monetárias.

 

- Será Rosa Mota assim tão importante para o Porto? Sabemos o quão traiçoeiro pode ser dar nomes de ruas e espaços a indivíduos que nos podem deixar ficar mal - Cristiano Ronaldo e José Mourinho, por exemplo, só não foram presos porque pagaram milhões de euros por simplesmente terem sido criminosos, no entanto, como outros (sobretudo ligados ao desporto) continuam a ser os nossos grandes embaixadores.

 

- Rosa Mota, tão activa partidariamente, terá alguma vez tentado transformar o "seu" Porto e com isso deixar a sua marca na cidade - e não estou a falar de duas ou três corridas para entreter as pessoas.

 

- Será que este drama não está relacionado com o simples facto de Rosa Mota não ter sido considerada quando se falou de pagamentos?

 

- Será que Rosa Mota se esqueceu que as homenagens não são dados adquiridos e que podem ser retiradas (e aqui nem foi o caso)? Será que Rosa Mota ainda não percebeu que as homenagens não surgem a pedido? Rosa Mota não é proprietária do espaço, portanto é algo que era passível de acontecer a qualquer momento.

 

- Será também Rosa Mota melhor que muitos portuenses que têm trabalhado para o desenvolvimento da cidade? E são muitos que diariamente fazem mais do que dizer que são do Porto. Não são apenas portuenses em capas de revista ou tempos de antena partidários. Além de que ainda circula a história de que perante a falta de subsídios a atleta ameaçou representar outra bandeira - se foi verdade, desconheço, mas fica aqui uma boa dica para o polígrafo investigar.

 

- E será que vale mais ter um espaço em ruínas com um nome de um atleta ou um espaço dinâmico e que se pode rentabilizar a si próprio?

 

- Deste modo, não devemos também devolver o nome original à primeira ponte sobre o Tejo? Consta até que o pouco democrático indivíduo em questão nem queria o seu nome na mesma!

 

E será que Francis Obikwelu, Fernanda Ribeiro, Aurora Cunha, Manuela Machado (eleita a melhor atleta ibero-americana em 1998) e tantos outros são menos importantes que esta senhora, ou será que o facto de não estarem ligados a partidos políticos (excepto Fernanda Ribeiro)e corporativismos tem influência? Em países pequenos, onde são sempre os mesmos, é isto que acontece... Muitas ditaduras e muitas sensibilidades.

 

Uma nota final: e se efectivamente o Presidente da República cancelou a sua presença na inauguração do espaço por desconforto com esta situação, temos mais uma vez Marcelo igual a si próprio, ao sabor do vento e a presidir a um país para comunicação social ver. Além disso, a ser verdade, mais uma vez, Marcelo toma parte numa matéria que nada tem a ver com a posição que ocupa.

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Manhã de Sábado em Belém...

O Chulo e o Provinciano...

por Robinson Kanes, em 28.10.19

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Claude Monet - Regates a Argenteuil (Musée d'Orsay)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

Doca de Belém... O sol brilha, é Sábado de manhã... Eu não estou a fazer nada, apenas a aproveitar esta luz fantástica enquanto vejo turistas e mais turistas com camisolas falsas de grandes estilistas e com sacos dos pastéis de belém. No meio da azáfama, tento pensar numa estratégia para um projecto avançar. 

 

Viatura estacionada junto às linhas que permitem a passagem daquele carro anfibío que anda pela cidade e respeitando as indicações da Autoridade Portuária. Penso... Penso no projecto. As viaturas vão-se avolumando e a minha viatura acaba por ficar, hipotéticamente a ocupar dois lugares. 

 

É nesse momento que surge um digno trabalhador deste país, vulgo arrumador ou como se encontra nos estatutos da Real Federação Portuguesa de Arrumadores de Viaturas (RFPAV): Chulo! Com uma distância de segurança, profere as seguintes regras do espaço:

 

- Podia mexer carro e tirá-lo daqui, está a ocupar dois lugares e assim a malta não consegue estacionar e eu não posso fazer o meu trabalho. Assim não dá, um gajo não anda aqui a brincar, ests gajos não respeitam ninguém.

 

Penso que o meu olhar pelo espelho foi esclarecedor, porque o indivíduo não mais palavras proferiu. De facto, confesso que me arrisquei, porque a Polícia Municipal, com a gestão do trânsito no local, estava mesmo ali ao lado a presenciar e o nosso profissional da calanzice poderia chamar as autoridades e quem ficava mal era eu. Realmente, esta falta de cidadania...

 

Devo admitir, e por isso peço desculpa, por me ter comportado de modo pouco civilizado e ter gozado com o trabalho dos outros, que é um trabalho louvável, importante para o bem-estar dos cidadãos e para a mobilidade urbana. Aliás, a minha atitude ainda foi mais reprovável na medida em que não lhe dei uns trocos... Muitos trocos! Sim, porque quem estava a pagar rapidamente ouvia o comentário "não tem mais qualquer coisa?". As pessoas andam a trabalhar e têm de ser remuneradas pelo seu trabalho! Uma vergonha, e por isso, publicamente peço desculpa aos legais profissionais do gamanço deste país.

 

Entretanto, e porque Belém é Belém... Escuto isto vindo daqueles indivíduos que até pensam que o facto de viverem na cidade os torna mais "elegantes":

 

- Epá, não sei, eu vou almoçar à EXPO, comer um peixinho, lá é que se come bom peixe, mas vocês é que sabem. Tem de ser, sabes como é... Eh... Eh... Eh... (Eh... Eh... Eh... aquele tipíco Eh... Eh... Eh... do "estás a ver Zé, isto é que é qualidade de vida, isto é que é viver à grande").

 

E nisto, depois do seu ar de pedante sai uma real escarreta para o chão (daquelas que até estalam e parecem santolas quando tocam no chão) e um "pois é cara...". Homem digno, fino e distinto, que come peixe do melhor na EXPO e usa corta-vento náutico para passear junto à doca quando faz um calor que não se aguenta... Que diga palavrões, cuspa no chão, que não saiba sequer remar e ande de corta-vento num dia soalheiro e sem vento só porque está junto ao Tejo, nem é grave... Já é um hábito! Mas caramba, peixe bom na EXPO? Irra! Realmente o que são os restaurantes de Setúbal, Sesimbra, Montijo, Alcochete, Guincho e Ericeira comparados com a EXPO! Esta é imperdoável!

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Head On com um Lobo em Time Lapse...

por Robinson Kanes, em 25.10.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Fechar a semana com a ideia de que talvez tenhamos feito justiça, de que talvez possamos ter contribuído para que o país tenha menos fantochada, menos corrosão... Ou talvez não... Talvez tenha sido apenas uma espécie de utopia que alguns lobos solitários teimam em criar, apesar do seu pragmatismo lhes dizer o contrário... Talvez por isso, para o fim de semana que se aproxima (e para a semana, pois nem todos gozam o Sábado e o Domingo) pense em Hermann Hess e no seu "O Lobo das Estepes". Talvez pense como o país seria um local melhor para se trabalhar, viver e desenvolver se levássemos esta frase a sério:

 

Imagine-se um jardim com centenas de variedades de árvores, milhares de variedades de flores, centenas de variedades de frutos, centenas de variedades de ervas. Se o jardineiro deste jardim não conhecer nenhuma outra classificação botânica para além da distinção entre "comestível" e "ruim", não saberá o que fazer com nove décimos do seu jardim, arrancará as mais encantadoras flores, cortará as mais nobres árvores ou então vai odiá-las e olhá-las com desconfiança.

Hermann Hess, in "O Lobo das Estepes"

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Para se escutar, uma série de autênticos "poemas" outonais. Talvez me sinta sempre defraudado quando assisto aos concertos de Ludovico Einaudi - é o meu egoísmo! Quero sempre que Einaudi toque só para mim, sem o aparato da banda que traz consigo. Só eu, a alemã (que abriu as portas de Hermann Hess a este indivíduo que aqui se chama Robinson) e Einaudi - preferencialmente com um Steinway & Sons. Do mestre italiano, o albúm "Time Lapse", ideal para acompanhar ou ajudar a digerir a leitura de Hess e do mundo... Uma nota para o facto de em composições como "Orbits", "Experience" e "Underwood" contar com o excelente violinista Daniel Hope. 

Um filme? Um alemão com contornos turcos, também do realizador nascido na Alemanha mas filho de pais turcos Fatih Akin. Um filme que a critica cinematográfica portuguesa não gostou muito... Não atinge patamares de intelectualidade que só os criticos percebem e como também não foi propriamente alvo de grande divulgação é normal que assim seja por terras lusas onde se alterna entre a estratosfera e a moda - sempre é mais confortável. Eu gostei... Violento, amargo, duro e pouco romântico - a vida tende a ser assim muitas vezes, como em "Gegen die Wand" mais conhecido por "Head on - A Esposa Turca". O romantismo fica sempre bem nos livros...

E porque o fim de semana também ajuda a pensar, talvez seja uma boa altura para questionarmos a nossa abordagem, sobretudo em termos de comunicação, face às alterações climáticas - a verdade é que quanto mais ruído provocamos menos eficientes estamos a ser, ou seja, o excesso de informação que vemos em tantos canais de media e não só, estão apenas a alimentar criadores de conteúdos ultrapassados e a não produzir o engagement esperado. A este propósito, e é apenas um entre muitos, nada como investirem alguns euros no website da American Psychological Association (APA) e na leitura de Susanne Moser:

Moser, S. C. (2007). More bad news: The risk of neglecting emotional responses to climate change information. In S. C. Moser & L. Dilling (Eds.), Creating a climate for change: Communicating climate change and facilitating social change (pp. 64-80). New York, NY, US: Cambridge University Press.

 

Bom fim de semana

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Da importância do CHEGA!

por Robinson Kanes, em 24.10.19

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Créditos: www.publico.pt

 

Não venho com este texto defender a ideologia de um partido como o CHEGA , ou até apelar a que este partido algum dia seja maioritário no parlamento. Não o defendo, até porque entendo que, como partido e como pessoa que tem à frente, ainda tem um longo caminho a percorrer, no entanto...

 

O modo como o CHEGA tem sido alvo de ataques no Parlamento revela que a "extrema" não está só com um deputado na Assembleia da República. O modo como outros partidos têm censurado a presença deste deputado (especialmente CDS-PP, BE, PCP e Livre - que afinal não é assim tão livre) é vergonhosa do ponto de vista da Democracia! Depois do partido ser catalogado como extrema-direita (como erradamente o Vox o é em Espanha), o partido populista, eis que agora é o alvo a abater - soa de forma estranha quando existem partidos com maior presença parlamentar que, segundo a União Europeia, estão equiparados a regimes genocidas e que não podem ser "permitidos" nessa União.

 

Também é estranho que André Ventura e membros do CHEGA não possam circular livremente em Portugal como outros o fazem! André Ventura vive numa bolha de segurança sob pena de ser agredido ou até abatido por expressar a sua opinião, dá que pensar quando apelidamos o CHEGA de intolerante. Outros circulam livremente, mesmo defendendo a morte deste e daquele político que vai contra a sua ideologia de pensamento único.

 

Para o mal ou para bem, vai ser interessante aferir como o Parlamento vai reagir à proposta de diminuição de deputados a apresentar pelo CHEGA. Vai ser interessante aferir qual a expressão dos inúmeros jornalistas que se referem a este partido em tom de "gozo" ou "desprezo" e de forma parcial indo contra a ética (se é que a mesma ainda existe) e tudo aquilo que aprenderam - inclusive, deturpando propostas e mensagens. Vai ser interessante ver os deputados e os responsáveis políticos a discutirem propostas e não a pessoa de André Ventura.

 

Como cidadão, "não me assusta" ter extrema-direita no Parlamento, pois também existe extrema-esquerda e não vejo muita gente preocupada com isso. Se é para acabar, acabe-se com as duas! Na verdade, uma coisa é certa, o CHEGA veio abanar o status quo e mostrar muita da podridão e hipocrisia presentes nos actuais partidos e movimentos políticos (pouco) amigos do cidadão.

 

O CHEGA é também um alerta àqueles que acusam André Ventura de se ter aproveitado do mediatismo na televisão. Em Portugal exemplos desses não faltam, um até é Presidente da República (outro, aos Domingos, anda a ver se o é) e foram precisos mais de 20 anos para chegar ao cargo, inclusive com jornalistas descaradamente a fazerem campanha pelo mesmo em prime time e espaços noticiosos. Um dos criticos,  que até alinha em "cartas abertas" contra André Ventura é Ricardo Araújo Pereira, cuja cor política, convicções e objectos de critica mudam sempre de acordo com orçamento e com as audiências - convenhamos, também nunca utilizou o espaço mediático (começou como "palmeiro) nem o clube desportivo para ser elevado de humorista à falsa categoria de intelectual-mor do reino.

 

Vamos esperar para ver... E contra os defensores da liberdade que estão contra, tenho de dizer: é a Democracia, estúpido!

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IMG_2374.jpgImagem: Robinson Kanes

 

 

Algures no Curdistão (não importa qual dos lados), longe daquilo que se pode chamar uma rota turística e onde dispensamos a utilização das câmeras fotográficas para "rede social ver", o sol parece queimar. Valem-nos as pessoas, se existe povo simpático e afável, esse povo encontra-se no Curdistão.

 

O calor faz crepitar a pele, por aqui a temperatura aumenta de forma considerável (ou desce na mesma proporção). Estamos perto de fronteiras sensíveis, nomeadamente com a Turquia, Irão e Iraque e já perto da Síria. Utilizamos vestes curdas, ajuda a  que não tenhamos problemas.

 

Existem povos que sempre reclamaram um Estado e têm conseguido esse intento com o apoio da comunidade internacional, já os curdos têm vindo a lutar ao longo de muitos séculos também pela sua independência e essa luta tem vindo a ser aproveitada também para que algumas potências consigam alguns dos seus intentos com escala temporal. Não procurando defender ou criticar a causa curda, a recente utilização e posterior traição dos Estados Unidos é exemplo. Mais uma vez utilizámos um povo, uma facção, um movimento para conseguirmos um objectivo claro e depois zarpámos! Sabemos os impactes que tal provoca no longo prazo, o terrorismo é um deles.

 

No entanto, existem coisas que ninguém deve ver. Não falo da morte em si, essa é inevitável tantas vezes. Não falo dos feridos nem de corpos decepados que nos consternam, que nos horrorizam e nos marcam para sempre. Refiro-me sobretudo ao cinismo e à truculência daqueles que empreendem o mais lucrativo comércio do mundo: as armas.

 

Ninguém deve ser confrontado com o mercado negro do armamento, em plena rua, sem qualquer embaraço ou segredo. Indivíduos cujas origens parecem vir desde o Médio-Oriente até á Ásia Oriental, passando pelo Ocidente e pela Europa de Leste. Armas, munições e até veículos com a chancela das potências da paz, outras com a chancela daquelas que se dizem culturas pacifistas. Máquinas de matar novas e usadas que irão cair nas mãos de homens, mulheres e crianças com um claro objectivo: matar outros homens, mulheres e crianças.

 

Quando pensamos em tráfico de armas nunca pensamos que em algumas situações possa ser verdadeiramente um mercado a céu aberto, um bazar onde se vende a morte. Engolimos em seco, imaginamos os efeitos em combate, até porque também sabemos como utilizar uma "arma ligeira" e os efeitos que a mesma provoca. Isso agonia-nos, deixa-nos angustiados e paralisados. Não podemos fazer nada, se o tentarmos acabamos com um projéctil na cabeça, muito provavelmente. Qual o destino destas armas? A Síria e o Iraque tão perto, tanta tensão no Cáspio...

 

Por perto passam os habitantes da "aldeia", indiferentes à chacina que está a acontecer, indiferentes ao facto de um dia poderem ser eles também vitímas do que ali se troca. São gente que vive o seu dia-a-dia, que já se habituou e que até é feliz assim, não podemos ver os outros apenas pela nossa perspectiva. Já outros, sabem muito bem o que está a acontecer e no olhar mostram toda a sua inquietação.

 

Contemplamos a paisagem em redor - estamos no fim do mundo entre pedras e montanhas. Imaginamo-nos no regresso, num hipotético centro de mundo, numa esplanada junto ao mar, enquanto naquele "fim de mundo"... Enquanto naquele fim de mundo sob a ilusão da religião, de algumas políticas se coloca fim à Humanidade.

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Um Martha's, Tawny, engarrafado em 2016 e pistácios do Irão... Dos melhores, segundo o vendedor que perto do bazar de Tajrish os vendia, mesmo ao lado da Mesquita de Imamzadeh Saleh. O toque de açafrão associado a menos sal, de facto, faz milagres.

 

Tal remete-me para algumas músicas que habitualmente fazem parte do "cancioneiro" cá de casa, ou até mesmo do trabalho. Presenças habituais numa vida que não seria a mesma sem música. A luz outunal ajuda a que experiência seja quase perfeita.

 

Épico, deslumbrante e com concertos espectaculares que não deixam ninguém indiferente. Woodkid é daqueles que não tem talvez lugar nas rádios mais ouvidas por um simples motivo - é demasiado grande. De 2011, recordo "Iron", um som poderoso e ao qual é impossível ser indiferente.

Hozier, mais uma vez. Esta é talvez uma das mais conhecidas... A música ideal para acompanhar um Porto, uma viagem, uma noite de amor quiçá - "Take me to Church". Decidam o que fazer com ela.

"Ederlezi", é um clássico, aliás... é uma música tradicional romena conhecida pelo mundo inteiro e especialmente nos balcãs. Gosto de ouvir, recorda-me amigos e momentos inesquecíveis - escolho uma banda que também vem de uma terra onde as boas recordações são mais que muitas e onde os últimos dias têm sido vividos a ferro e fogo... De Barcelona ( tantas vezes deles já falei), a Gipsy Balkan Orchestra e a brilhante voz de Sandra Sangiao.

Vou ficando perdido entre pensamentos e sonhos e lembro-me de "Matilda". Não que conheça propriamente uma Matilda, no entanto, conheço os Alt-J o suficiente para fazerem parte do meu dia-a-dia. Troquem o nome, até lhe podem dar o nome de alguém que gostam e cantem-na!

Outonal e profunda quanto baste, A Fine Frenzy é uma daqueles vozes que não se apagam, que até podem chegar por moda mas que se distinguem de todas as outras. Devo à "Alemã" ter conhecido tão brilhante intérprete - nunca mais a larguei, uma e outra. E não, não é uma espécie de "Almost Lover"...

Não me posso esquecer do que se faz em Portugal, afinal também estou a beber um Porto. Keep Razors Sharp, uma banda daquelas que perguntamos sempre se são realmente portugueses. Mais uma daquelas bandas que merecia muito mais! "Overcome" é a minha escolha para hoje.

Tantas vezes aqui falei dele, tanto o escuto e nunca lhe dei a oportunidade de cantar. Peter Gabriel, é daqueles compositores que ninguém consegue não gostar. Em Peter Gabriel existe sempre qualquer coisa que nos encata e que nos surpreende. Neste outono em que muitas fronteiras estão a ser ultrapassadas, em que muitos conceitos resvalam num caos de blocos, "Games Without Frontiers". Para ouvir e estar atento à letra.

Não consigo fugir aos italianos e aos espanhóis... Ainda a semana passada falei de Javier Limón e desta música. É hora de escutar a mesma quando Outubro se despede e mais uma viagem se avizinha - mais aprendizagem, desta vez é para isso, para mais mundo. Para uma abertura de horizontes profissionais e técnicos que nem sempre têm o impacte desejado. Fica "Agua Misteriosa" pela brilhante voz de La Shica.

Uma das músicas que paralisa, seja o que se estiver a fazer em casa. São também uma presença assídua, mas "In a Manner of Speaking" tem uma força e uma envolvência que só bandas ao nível de "Nouvelle Vague" conseguem provocar. Paralisem-se e deixem-se contagiar pelo ritmo e pela letra.

Como fechar isto... Até porque ainda há vinho no copo e pistácios no prato. Música do Irão a condizer com os pistácios, Marjan Farsad com "Khooneye Ma".

 

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O Objectivo 12 - Consumo e Produção Responsáveis

por Robinson Kanes, em 21.10.19

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Créditos: https://www.bt.undp.org/content/bhutan/en/home/presscenter/articles/2016/08/12/engaging-youth-to-eradicate-poverty-and-ensure-sustainable-consumption-and-production/

 

 

A meta 12 é um dos 17 objectivos que fazem parte dos "Objectivos Globais para o Desenvolvimento Sustentável". Este objectivo, mais do que um trabalho para os governos e instituições internacionais, é acima de tudo um apelo à cidadania e até ao carácter democrático da mesma.

 

A verdade, sempre relembrada pelas Nações Unidas,  e que não é novidade, é o facto do nosso planeta ter uma extrema abundância de recursos naturais. No entanto, os mesmos não são utilizados de forma responsável e, como os recursos são finitos, todos sabemos como acaba - uma das grandes metas da economia, a gestão de recursos finitos, adulterou-se e agora temos graves problemas pela frente. 

 

Mas caberá o papel de mudar as coisas somente às autoridades governamentais? Será que estas são matérias que só ao nível estatal poderão ser abordadas? Sim, se estivermos a falar de um conjunto de cidadãos apáticos, desinteressados e sem valores. Contudo, numa comunidade onde a cidadania está presente, cada um de nós pode ter um papel fundamental, vejamos:

 

1. Cada um de nós pode colaborar com instituições (nomeadamente ONG) que desempenhem um papel relevante - isto não implica apenas uma donativo mas uma intervenção directa.

2. Cada um de nós pode e deve apoiar o comércio local - além de permitirmos que a circulação de dinheiro se faça em modo 360º, ajudamos ao nível do emprego e do desenvolvimento local. 

3. Menos é mais - Será que precisamos de tantas coisas? E será que temos necessidade de investir em tantas embalagens e afins? 

4. Podemos adquirir muitas das coisas que precisamos em "segunda mão". Também podemos reutilizar muitas das coisas que temos.

5. "Food sharing" : esta diz-me muito, até porque já tentei implementar um projecto/app deste género que, em tempos, foi chumbado sob a lógica de que os portugueses não confiam no próximo e de que a comida podia ser contaminada. Numa comunidade onde as relações de vizinhança funcionam, pode ser uma prática com resultados excelentes!

6. Compra de produtos reutilizáveis: os eco-bags, por exemplo, ou até as garrafas de água.

7. Este talvez um dos mais interessantes em termos de cidadania e fuga à "zona de conforto": adquirir produtos de empresas responsáveis em termos de economia, ambiente e pessoas.

8. No seguimento do ponto anterior, e com a mesma importância, criar grupos que finalmente, e em Portugal precisamos tanto, façam pressão para as organizações implementarem verdadeiros programas de Responsabilidade Social Corporativa e alertem para as más práticas! Grupos de cidadãos independentes e não associações que se perpetuam com poucos efeitos.

9. Aquisição de produtos que não prejudicam o ambiente e têm uma origem controlada e sustentável.

10. Trazer aqueles que estão junto de nós para estas iniciativas, ter a coragem de dizer não!

 

Mais do que leis e imposições, se seguirmos estas e tantas outras práticas, provavelmente até estaremos a fazer mais pelo nosso país e pelo nosso mundo do que muitas políticas nacionais e internacionais - do que é que estamos à espera para sermos cidadãos e também verdadeiros actores na mudança deste paradigma?

 

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Nitidamente Nulo à Chuva...

Conformado com Lehár e Bertolucci...

por Robinson Kanes, em 18.10.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

Lá fora a chuva cai... Devia ficar melancólico, tantas frentes. Não o faço, não é saudável e não deixa de ser uma perfeita perda de tempo. Pelo contrário, penso que é importante continuar, nunca baixando a cabeça, mas não dando azo ao que não importa, mesmo que também isso, numa cultura provinciana, nem sempre seja bem visto. É assim, não se pode ter tudo.

 

Talvez por isso, me recorde da fogosa "Giuditta", que na sua alma inquieta não se deixa abalar pelo presente. Alguém que se move e agita e não se perde em devaneios nem em discursos e simplesmente é mulher, dona de si. "Giuditta" de Franz Lehár, uma operetta que contagia desde o princípio mas onde não poderei deixar escapar "Meine Lippen sie kussen so heiss" - aqui com toque da soprano portuguesa, Dora Rodrigues.

Este tempo, esta época, convida também a leituras que podem ser mais introspectivas ou mais densas. Lembro-me particularmente de "Nítido Nulo" de Vergílio Ferreira. Para mim, um dos melhores da obra do autor. Acredito também que uma das melhores formas de descrever este livro cabe a Jorge Costa Lopes e que aqui cito:

 

“[Nítido Nulo] coloca-nos perante um (…) dilema: que mais poderemos admirar? O naturalismo das recoleções do passado, com a recriação das figuras rigorosamente reais de Tia Matilde e Dolores; as memórias da infância e as páginas em que o narrador recorda a partida do pai; o estudo da figura de Lucinho; passado e futuro, infância e morte da infância; o espetralismo de Marta; o convencionalismo de Teófilo; o arcaísmo dos discursos políticos do poder; a saturação de anedotas extraídas do real quotidiano; a rápida descrição de ambientes e paisagens? Ou, pelo contrário, a naturalização do absurdo e do fantástico, a prisão, os banhistas, o ‘filho’, o guarda, os diversos Messias; as frases que nos fazem regressar a momentos fundamentais da história das ideologias mas que surgem num contexto dominado pelo irreal; o cinismo; a miséria moral; a decadência; a velhice; os relâmpagos do passado que irrompem no fluxo das cogitações e lhes insinuam novas descobertas; a interpelação a Vergílio Ferreira, ele próprio, remetendo-nos para a consciência súbita do jogo literário?”

nitido_nulo.jpg

Para ver, não poderia pensar num outro filme que poderá ser um retrato do que temos hoje, embora o fascismo, este fascismo como aqui é demonstrado por Bernardo Bertolucci num tardio modernismo, seja algo que já "não exista". É a cobardia do homem, é o conformismo perante a necessidade de pertencer a algo. "The Conformist" é isso tudo, e é uma obra dos anos 70 (baseado no romance de Alberto Moravia) que talvez nos ensine como não ser nos dias de hoje - não é a história repetida, mas talvez o declínio da mesma que tende a não se reinventar, mesmo em tempos contemporâneos. Jean-Louis Trintignant, no papel de Marcelo, é um actor que não nos deixará indiferentes.

E para pensarmos em coisas boas durante o fim de semana, algumas palavras de Álvaro Santos Pereira proferidas esta semana na Fundação Serralves - um português que não gosta de ser tratado por Dr. (é raro, por isso digno de apontamento):

 

As corporações são demasiado fortes em Portugal. Não gostam da concorrência e quem paga somos todos nós, os contribuintes.

...

Uma cultura de impunidade como temos em Portugal – de deixarmos os processos arrastar-se anos a fio, de recurso em recurso, sem as pessoas serem condenadas e irem para a prisão – é uma pouca vergonha para a nossa Justiça.

...

Se crescemos 1%, só vamos duplicar o rendimento em 70 anos. Não é aceitável que isso aconteça.

 

E como nada disto se faz a seco, nada como uma bela surpresa chegada do Redondo, um Porta de Santa Catarina Tinto, de 2015. Verdadeira maravilha!

vinho_porta_de_santa_catarina.jpg

 

Bom fim de semana,

 

 

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