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A Democracia Pervertida

por Robinson Kanes, em 17.09.19

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Créditos: https://www.concrete-online.co.uk

 

 

A política de espectáculo oculta os problemas de fundo, substitui pelos programas o encontro da personalidade, embrutece a capacidade de raciocíonio e de juízo em proveito das reacções emocionais e sentimentos irracionais de atracção e antipatia (...) os cidadãos são infantilizados, deixam de se envolver na vida pública, ficam alienados, são manipulados por gadgets e imagens, a Democracia é desnaturada e pervertida.

Gilles Lipovetsky, in "O Império do Efémero"

 

 

No passado dia 15 de Setembro, foi o Dia Mundial da Democracia, do que vi, pouco se falou, até por aqui... Um ou outro apontamento, mas nada completamente dedicado, a Democracia não está na moda, não é hype que queiramos seguir. Confundimos Democracia com total liberdade, sobretudo com liberdade para ser apático, nulo na capacidade de ser humano e cidadão.

 

Repito, tantas e tantas vezes, e não me cansarei de repetir (e não sou o único) em como é possível que uma sociedade que atingiu o topo da evolução - pelo menos em comparação com períodos históricos anteriores - esteja tão apática, tão embrutecida e tão ausente da realidade. No apogeu do que é ser um humano, e no apogeu da informação, nunca estivemos tão virados para nós e tão alheados do mundo, nunca fomos tão moldáveis e tão criticos daqueles que assumem a nossa defesa porque não fica bem que alguém nos aponte o dedo e o apoio a estes pode retirar-nos da zona de conforto. Em Portugal, por exemplo, nunca estivemos tão alheados do que se passa por cá e especialmente por esse mundo, nunca estivemos tão renitentes a aceitar a realidade e a discutir a mesma - o provincianismo também se encontra aí.

 

Criticamos/elogiamos quando é moda, mesmo que seja algo que nem percebemos muito bem, e deixamos o que é realmente importante de lado. Entregamo-nos à hipocrisia, e pegando num dos exemplos mais recentes, ficamos amigos da Amazónia e queremos mudar o mundo com um like ou com uma fotografia, no entanto, com o nosso país em chamas estamos completamente desligados - a tragédia dos incêndios este ano, em Portugal, passou completamente ao lado! Algo maravilhoso em pré-época de eleições legislativas e também porque alguém disse que não se recandidaria perante a repetição de tragédias semelhantes a Pedrogão e aos incêndios de Outubro daquele fatídico ano - mesmo que, todos os anos, desde então, muitas tragédias se repitam.Importa lembrar também que, muito convictos da nossa liberdade, só nos lembrámos da Amazónia porque fomos quais carneiros, seguidores de uma campanha anti-Bolsonaro. Com isto, não quero ilibar o senhor da sua responsabilidade, mas a verdade é que a questão só teve destaque por isso mesmo e não porque andamos preocupados com a floresta!

 

Ouvi alguém dizer, um destes dias, que o "ideal era arder tudo, os portugueses e tudo o mais para ver se isto começa de novo com gente mais digna de ser chamada de português", portante uma espécie da castigo divino qual dilúvio "noeniano". É extremo, mas convenhamos que é um alerta para algo.

 

Somos também os primeiros a ficar revoltados porque um desconhecido escreveu que o ser-humano era uma peste, mesmo que todos os dias deixemos escapar que o ser-humano é estúpido e mesmo que humilhemos aqueles seres-humanos que nos rodeiam, mas quantas vezes assumimos uma posição para mudar alguma coisa? Quantas vezes saímos do nosso conforto, dos nossos artigos, das nossas redes sociais para fazer alguma coisa? Quando é que deixamos de ser heróis à mesa do café e passamos a ser heróis na praça e com a coerência desejada? É mais fácil continuar como se está, ou numa eterna hipocrisia ou num eterno queixume! E ai daquele que se mexa, esse é arrogante e estúpido! Alguém disse o que pensava (mesmo que da forma menos correcta) e temos uma calamidade nacional... O país arde, os profissionais de saúde não têm meios para trabalhar, a corrupção grassa, mas isso pouco importa... Somos básicos e infantis, gostamos de uma mão protectora que nos retire o ónus da cidadania e do sacrifício.

 

Pode ser até que estejamos num mundo de palermas como nos quis dizer o Shade, da "Esperança" de Malraux. Shade só gostava de "problemas" e criticava o facto de "toda a gente (andar) agora com as cabeças inchadas desmedidamente inchadas e não (saberem) o que fazer com elas". Shade, hoje, seria estúpido... Provavelmente seria isso que López lhe chamaria. Provavelmente, alguém que partilhe destas palavras também seja estúpido... Talvez eu seja estúpido...

 

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O Wine & Music Valley e o Grande Bryan!

por Robinson Kanes, em 16.09.19

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Imagens: GC

 

Até há uns anos arrogava-me no direito de dizer que conhecia o Douro... Até ter conhecido a alemã que me veio mostrar verdadeiramente aquela região, e consequentemente, fazer-me chegar à conclusão que não conhecia nada...

 

E foi neste cenário, do Douro, que decorreu o Wine & Music Valley. Devo expressar que o mote da viagem foi, sem dúvida, assistir ao concerto de Bryan Ferry e à despedida do dia 14 com DJ Vibe e Rui Vargas... Tivemos tempo para assistir a uma parte do concerto de Mariza, mas não sendo admiradores da mesma, temos de assumir que a senhora esteve bem e até caminhou entre o público enquanto cantava o "Oh Gente da Minha Terra". Caiu bem...

 

Mas o grande momento da noite foi mesmo Bryan Ferry - com grandes sucessos, o gentleman da música, num tom bastante descontraído encantou todos os presentes, mesmo alguns que não o conheciam. Uma banda singular, muita sabedoria do que é música e claro... Bryan Ferry sempre impecável num estilo inconfundível e que o tornam num dos grandes músicos vivos! Com as vinhas atrás de nós, um cenário de lua cheia, bom vinho branco da região - só bebemos o branco porque a noite a isso convidava e o almoço no "Cortiço" (sempre em grande, do melhor) em Viseu também a isso obrigou. Digamos que não acabámos propriamente sóbrios, e isso foi bom!

 

Bryan Ferry deu para abraçar, para beijar e para dançar, há muito que não nos divertiamos tanto com um concerto e ainda por cima tivemos companhia - um casal de ingleses que, como nós, vibrou o concerto inteiro e nos acompanhou na nossa bolha, aquela onde dançávamos. Bryan Ferry, bom vinho, o rio Douro e todo aquele cenário, não podia ter sido melhor! Grande momento e sem dúvida que fica o mote para futuras iniciativas do género, mesmo que tenhamos de fazer quase 800 km.

 

Também não somos propriamente pessoas de reclamar, no entanto, em muitos aspectos a organização deixou muito a desejar! A GNR no local não conhecia os parques, "estacione por aí" disseram-nos. O "estacione por aí" levou também a que o real civismo nacional afastasse as fitas da GNR e da protecção civil e desse lugar ao estacionamento de viaturas, uns reboques não teriam feito mal nenhum! Lembremo-nos que estamos em Cambres/Lamego e na Régua!

 

Também, só no próprio dia é que recebemos um email, já estávamos em Lamego, que nos dava conta de pormenores do evento e da existência de transfers a €1 por viagem. Ao vermos tantas dificuldades, pensámos em voltar a Lamego e estacionar o carro, aí não faltava espaço e foi o que fizemos. Aliás, o ideal é nunca levar o carro e ir de transportes, mas esquecemos essa velha máxima! No entanto, o transporte não pode ser uma carrinha com "meia-dúzia" de lugares da Junta de Freguesia de Magueija e o autocarro da Filarmónica da mesma localidade! Estivemos, para chegar ao recinto, cerca de duas horas à espera do autocarro! Além de ser só um autocarro entre curvas, subidas e descidas, claro está, as dificuldades mais perto do recinto eram imensas devido à inexistência de corredores de passagem e ao volume de trânsito. Mais uma vez, o facto de não apreciarmos Salvador Sobral (voltou a achar que era um grande músico e portou-se mal, segundo soubemos), acharmos António Zambujo o mestre da desafinação, permitiu que chegássemos a tempo ao recinto, muitos não o conseguiram.

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No regresso, a mesma situação, e a total ausência de informações claras - eram alguns festivaleitros locais que conheciam este e aquele e que via telemóvel íam conseguindo informações. Apesar de tudo, o esforço e muito boa vontade daqueles dois motoristas foi fundamental para que as coisas não tivessem sido piores! Cumprissem todas as instruções e muita gente só de taxi ou nem isso é que teria chegado a Lamego. Soubemos também que os transfers da Régua foram cancelados cerca da meia-noite, alegadamente, por motivos de segurança. Nesta aspecto, uma coisa é Lisboa e Porto, outra coisa é organizar eventos deste género em Lamego/Régua. O lado bom, no meio das ervas e no alcatrão não faltavam espectadores deitados a curar alguns excessos mas sempre todos de bom humor, ou não estivesse o Douro mesmo ao lado.

 

Apesar de tudo, é um evento a repetir e lá estaremos se o cartaz o justificar, porque contávamos ir ver Bryan Ferry fora do país e as notícias de que este estava de volta a Portugal só nos animaram! Bryan é grande, e mesmo a poupar a voz, mostrou o Senhor que é. E claro... Sempre de fato e até gravata, como nos habituou.

 

Ah! Bôlas de Lamego... Lá veio o carro cheio... Enfim, não temos emenda.

 

Uma nota final: o habitual fogo de artifício da Festa da Senhora dos Remédios (uma festa onde já estive e recomendo, merece bastante a pena) não teve lugar no último dia da mesma e veio a ocorrer no dia do festival, no recinto do festival. Quem agradeceu foram os habitantes da Régua que viram o fogo da outra margem do Douro. Além de desconhecer se o fogo terá sido cancelado devido às proibições vigentes, importa referir que estes eventos são bons e trazem visitantes à terra, no entanto, é importante ter em conta que são os locais que lá vivem e é deles que devemos cuidar e com eles planear estas coisas sob pena de termos o efeito de repulsa. É assim que se governa! Até porque em Lamego a satisfação não era assim tanta com a história do adiamento do fogo de artifício. 

 

 

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Liberdade, Dor e Glória e o Wine & Music Valley...

por Robinson Kanes, em 13.09.19

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Peter Paul Rubens - O Conselho dos Deuses (Museu do Louvre)

Imagem: Robinson Kanes

 

E que tal começarmos com um sugestão de leitura e já agora, uma espécie de "Follow Friday"? Pois é, hoje a MJ lembrou-se de colocar um texto meu no seu espaço - o "Liberdade aos 42", haja paciência, mas como é algo que a mesma tem, se quiserem sempre lá podem dar uma vista de olhos. O tema é a liberdade, por isso, quem quiser perder tempo ou simplesmente não tiver nada mais interessante para fazer pode sempre aceder aqui... Aproveitem também o espaço, são interessantes os temas levantados e as discussões que se geram... Espaços com conteúdo, algo que faz falta...

 

Pela música, volto a Bryan Ferry... O Wine & Music Valley está aí! E sem conhecer o cartaz, sabendo que o mestre estava por aí, não hesitei. Este fim-de-semana, sem dúvida, o melhor incentivo para ir a Lamego - não digo ao Douro porque nada supera a época das vindimas. Deixo "The Right Stuff" para recordar o gentleman dos anos 80 e não só.

Nada também como bom cinema... E desta vez, com algo bem recente: "Dolor y Gloria" (Dor e Glória) de Pedro Almodóvar é um dos melhores filmes dos últimos anos! Finalmente, um bom filme a entrar em 2019, sobretudo depois do flop de Tarantino. Dor e Glória é tudo... É a mescla de temas que está sempre presente nos filmes de Almodóvar e, ao contrário do que li na critica, pouco tem a ver com a preocupação da personagem principal com a velhice, aliás, acredito que esse tema é bastante forçado e só para encher colunas de opinião. Muitas emoções, muitas memórias e mais não posso dizer - afinal, nada como ver o filme e um Banderas irrepreensível (talvez o grande filme do actor) ao lado de excelentes actores. Se existe filme perfeito, este não anda longe e estando ausente dos cinemas pela falta de qualidade cinematográfica, devo admitir, que há muito tempo que não via um filme assim nas salas de cinema. TOP! TOP! TOP!

Também não posso deixar escapar a banda sonora ou, à semelhança do que acontece em muitos dos filmes de Almodóvar, não fosse do compositor basco, Alberto Iglesias! É um dos compositores contemporâneos mais apreciados cá por casa e por isso deixo "Salvador Sumergido", facilmente reconhecível quando começarem a ver o filme. Adoro Alberto Iglesias!

 

E finalmente, para que esta paragem de dois dias possa ter algo de muito bom para todos, é importante lembrar que em Portugal já se roubam ambulâncias em serviço enquanto os tripulantes prestam socorro à vítima. Populismo ou não, ultimamente têm acontecido situações que, pensava eu, só em filmes... Estes casos não seraão de admirar, afinal existem esquadras a fechar durante alguns períodos do dia por falta de efectivos e má gestão... E para fechar, também vivemos no país onde alguém sem qualificações para um cargo no Estado, nomeadamente no Ministério da Administração Interna, permanece no mesmo sem contestação. Para camuflar a coisa antes que se saiba, abre-se um concurso, normalmente feito à medida para o indivíduo em questão passar, o mesmo chumba, mas continua no cargo a aguardar novo concurso e com o total apoio do Ministro da Administração Interna. E tudo isto é normal - provavelmente a maioria de nós também já fez o mesmo.

 

Bom fim de semana,

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Giorgio Vasari e Federico Zuccari - Juízo Final/Pormenor da Cúpula (Catedral de Santa Maria del Fiore - Florença)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

A maior parte do raciocínio exige uma interacção entre aquilo que as imagens presentes mostram como sendo o agora e aquilo que as imagens recordadas mostram como sendo o antes. O racicíonio eficaz também exige a antecipação do que vem a seguir, e o processo de imaginação necessário para a antecipação de consequências, também depende da recordação do passado.

António Damásio, in " A Estranha Ordem das Coisas. A Vida, os Sentimentos e as Culturas Humanas".

 

 

Foi aprovado pelo parlmento português um voto de congratulação pelo facto de um padre, José Tolentino Mendonça, ter sido nomeado para Cardeal no Vaticano. De facto, em bloco (excepto com o voto contra do PCP e do seu apêndice o PEV) o Parlamento congratulou-se com a nomeação. Sempre me suscitou imensa curiosidade que, num país com tanto para resolver e com tantos deputados que se dizem sempre muito ocupados, se perca tempo com estas coisas.

 

De um dia para outro, todos ficaram a saber que Tolentino Mendonça é um poeta e padre madeirense e que, segundo as palvras dos autores do voto de congratulação, "nos cargos em que tem servido, como padre, capelão e posteriormente vice-reitor da Universidade Católica, como responsável pela Pastoral da Cultura e pela Comunidade da Capela do Rato ou agora, como arquivista no Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Biblioteca Apostólica, marcou e marca com o seu extraordinário humanismo e abertura ao mundo”. Honestamente? 99% dos portugueses não está interessado, apesar das toneladas de artigos e reportagens que procuram à força fazer-nos entrar este senhor pelos olhos!

 

Todavia, é extraordinário, Portugal está mais rico e mais desenvolvido porque existe Tolentino Mendonça, vejam-se os feitos conseguidos por este senhor - com tanta gente em Portugal a empurrar um país (que por vezes nem quer ser empurrado) para a frente, com tantos portugueses lá fora a fazerem de Portugal mais do que aquilo que muitas vezes é, e voltamos a nossa passadeira vermelha, mais uma vez, para a Igreja, ou melhor, para um outro Estado, o Vaticano. Eu sugiro, se não existir já, uma condecoração da República, afinal estas são as melhores formas de fazer amigos, pagar e cobrar favores - começou com Sampaio, passou ao de leve por Cavaco e tem o seu expoente em Marcelo. Junte-se a isto os favores às editoras com a feira do livro de Belém - as mesmas editoras que Marcelo promovia em horário nobre na televisão com livros que nunca lia.

 

E por falar em Marcelo: junte-se a isto que temos o beato-mor (ou será servo) do reino que já fez mais viagens ao Vaticano que muitos cardeais, que se ajoelha e beija a mão a um Chefe de Estado (o Papa representa o Estado do Vaticano) confirmando a submissão de todo um povo a um outro país, além de que, sempre que o assunto é Igreja Católica lá está na linha da frente, seja em procissões, seja para deixar o país em momentos criticos para ir ao beija-mão, seja até para vir a público defender a Universidade Católica (entidade privada) pelo simples facto de não pagar qualquer imposto e taxas e mesmo assim isso ser normal. Sabemos que a Igreja abre muitas portas, sobretudo a leigos, que o diga também António Guterres e até a muitos que foram encontrando alguns bons empregos graças a umas presenças constantes lá na capela ou igreja do sítio.

 

No entanto, este também é o país que, na sua Casa da Democracia, condena a criação de um museu em Santa Comba Dão, nomeadamente o Museu Salazar. Se por um lado aplaude um lado da história e cria um museu que tem vindo a ser apropriado pelo comunismo (Peniche) por outro quer varrer o outro lado da História para debaixo do tapete. Lembremo-nos que um dos braços mais fortes de Salazar e da ditatura em Portugal foi a Igreja, a mesma a que Tolentino Mendonça pertence e, no fundo, Marcelo Rebelo de Sousa e tantos outros servem. Fátima nasceu no Estado Novo, a mesma Fátima que agora move milhões e até já é palco para desfiles mediáticos com políticos e pseudo-estrelas de televisão a colaborarem para a selfie - é cool ser "mariano", essa grande obra do Estado Novo. Essa maldição que nem deve ser lembrada!

 

Todo o parlamento em bloco (para mim a abstenção de PSD e CDS-PP é apenas ridícula e portanto assumo como estejam a favor) votou que a História fosse apagada, mesmo aqueles que beberam do regime e claro, também aqueles que aproveitarem o 25 de Abril para irem construíndo algumas ditaduras mais ou menos privadas. Importa lembrar que, com o desaparecimento de muitos que chegaram ao poder após o 25 de Abril, o sentimento de um povo deveria ser de muita consternação e pesar, mas é somente de alívio. Nem a manobra de marketing com o funeral de Mário Soares teve sucesso, nomeadamente o "efeito espelho" para parecer que eram muitos os presentes. Portugal no pós 25 de Abril chega a lembrar-me a queda de Ceaușescu na Roménia, onde o novo regime foi distribuído pelos democratas de ocasião: a facção moderada do partido comunista, membros do partido e pelos outros que lutavam contra o regime mas nutriam uma paixão especial por ocupar os lugares do mesmo. A verdade é que nenhum lutador da liberdade morreu de fome, bem pelo contrário.

 

Mais uma vez, o parlamento, com tanto para fazer, perde tempos infinitos com votos de condenação que nada mais servem do que para justificar a criação de mais um grupo de trabalho sem quaisquer efeitos práticos. O Parlamento português votou ontem o apagar da História e à semelhança da Constituição, admitiu ser um estado praticamente comunista! E por falar em comunismo, porque é que não nos tornamos em paladinos da Democracia e fazemos, em Portugal, uma espécie de extensão do Museu do Terror de Budapeste ou até do Museu do Comunismo de Praga? Como se fez com o Hermitage em Málaga ou com o Louvre em Abu Dhabi.

 

P.S.: leram lá em cima "arquivista no Arquivo Secreto do Vaticano"? Sim, aquele que se um dia fica aberto ao público pode levar ao fim de muitas instituições por esse mundo fora, inclusive da Igreja Católica.

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O Pré-Românico Asturiano e Oviedo...

por Robinson Kanes, em 11.09.19

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Imagens: Robinson Kanes e GC

 

 

Os Picos da Europa começam a ficar para trás. Numa gasolineira, de uma marca portuguesa, e após os meus comentários, dizem que todos os portugueses se queixam do preço dos combustíveis em Portugal sendo que, em Espanha, os impostos sobre os produtos pretrolíferos também são elevados.

Carro atestado, e à semelhança do que havia pensado, o caminho até Oviedo não foi directo. É preciso viajar na História, é preciso subir mais montanhas e ir ao encontro de igrejas quase milenares e admirar o pré-românico asturiano classificado como Património da Humanidade!

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Vindos dos Picos da Europa, começamos por aquela que nos suscita, talvez maior interesse e nos obriga a um desvio, a Ermida de Santa Cristina de Lena, no vale do "Río Lena" e cuja data de construção aponta para o ano de 850! Podemos chamar desvio ao facto de termos acedido a esta ermida via Parque Natural de las Ubinãs - La Mesa - Esta gente não consegue deixar os montes da cordilheira cantábrica, enfim... Chegados à Ermida, admiramos toda aquele pequeno monumento mas que respira história, muita história...

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Tantos séculos, anos e dias, continua imponente naquela colina apenas acordada pelo ruído da via rápida que fica uns quilómetros abaixo. Conversamos com os locais, percebemos que metemos o carro onde não deviamos mas nem isso tira a simpatia àquelas gentes... Imaginamos aquela Ermida noutras épocas, sem estradas e apenas com o pueblo atrás de si. Quantos não terão perdido aqui horas a admirar a paisagem que se abre ao longo das montanhas e que este pitoresco ponto permite contemplar com agradável decoro...

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É hora de partir, além disso já se comia qualquer coisa... Como tinhamos a noção de que nos poderíamos "perder" pelo parque natural viemos prevenidos... Enlatados, fruta e muita água. Não fomos a restaurantes glamourosos e entregámo-nos ao glamour de "las Ubiñas". 

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Agora sim, seguimos em direcção a Oviedo onde, num dos montes que ladeia a cidade, encontramos mais dois magnificos monumentos pré-românicos e também Património da Humanidade: a "Iglesia de San Miguel de Lillo" e o "Palacio Ramiro", conhecido como "Santa María del Naranco". Mais visitados, estes dois monumentos são duas das principais atracções da cidade! Olham para Uviéu bem lá de cima e são obras-primas da arquitectura que, de uma forma simples e pequena fascinam todos aqueles que os visitam. Por ali nos quedamos um pouco. É preciso digerir, com calma... Ainda nos espera o centro de Oviedo e toda a azáfama da capital do principado.

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Oviedo é a típica cidade antiga e até algo escura... Mas estamos em Espanha, e mesmo a norte, a animação é constante, as ruas falam, vivem... Como não poderia deixar de ser, procuramos deixar o carro perto da "Camilo de Blas", uma pastelaria fantástica, daquelas bem antigas e onde nos acompanha o café dois apetecíveis carbayones. Tenho de admitir, contudo, que o melhor momento em termos de comidas e bebidas foi ao balcão de uma bela tasca perto da catedral.

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Carregados de açúcar, nada como começar pela Catedral. É impossível ignorar este monumento que se localiza na "Plaza de Alfonso II", especialmente a sua torre gótica! Como seria de esperar, encontramos muitos peregrinos (é um ponto de passagem para quem faz este Caminho de Santiago"). O interior é belo, austero como gostamos, e a "Cámara Santa" um dos seus maiores atractivos, além das jóias e das reliquias que ignoramos - admito que é algo que não nos fascina.

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Caminhamos pela zona, esta cidade medieval com todas as suas torres tornam-na apetecível para nós. Faz-se, contudo, sentir algum frio, é preciso aquecer, mas na rua... Qual a melhor escolha? A "Plaza del Fontán" que deve o seu nome ao facto de aí ter existido uma pequena lagoa! É aí que também se localiza o mercado e lojas com coisas bem interessantes, sobretudo para quem gosta de comer... É um local extremamente movimentado, não fosse também uma forte zona de comércio e próxima da "Plaza del Ayuntamiento" e da "Plaza de Abastos". É por aqui que se sente Oviedo, é por aqui que queremos estar...

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A visita ao "Museo de Bellas Artes" é obrigatória, a paixão pela arte obriga-nos. Somos obrigados também a correr até ao "Teatro Campoamor" no sentido de saber se há espectáculo. Nunca percebemos bem porquê, mas sempre quisemos pisar este espaço.

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No entanto, Oviedo é feito das caminhadas pelo seu "casco histórico", é passar pela Universidade e terminar para umas compras na "Calle Uría", ligeiramente mais moderna. É a cidade antiga por excelência, é a capital do "reino"... Despedimo-nos do "interior", o dia seguinte já será junto ao mar, ainda nas Astúrias e numa cidade que, estranhamente, nos conquistou logo após a primeira visita.

 

Mais informação:

Valladolid: Primeiro Estranha-se... Depois Entranha-se...

Pela A62, de Palencia a Burgos.

Atravessar a verde Cantábria!

Regresso ao Passado em Santillana del Mar...

 

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Imagens: Robinson Kanes e GC

 

 

Novo dia e mais um pequeno-almoço em Labra - bem rico e o cachopo que ainda por cá continua a dar forças, sem esquecer as vieiras. Não falei das vieiras à Asturiana, mas são qualquer coisa... Casa María é o nome do restaurante, mesmo à beira da AS-114. Simpatia e uma comida divinal. 

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Mas hoje é dia de colmatar algumas falhas, nomeadamente ir até Tielves e Sotres (Monte Camba) - recomendação dos locais, os melhores conselheiros. Desta vez, deixamos Bulnes... Gostamos de Bulnes quando alcançado pelo caminho da montanha - gastar uma fortuna num transporte sem qualquer vista não nos convence (a nós e a todos os asturianos com quem falámos). A estrada que liga a Tielves e sobretudo a Sotres é por si só um verdadeiro monumento. Sotres, a 1050 m de altitude, é uma das aldeias mais altas das Astúrias e é também aí que o Cabrales tem um dos seus pontos de referência - só isso já justifica a ida, sobretudo depois de não resistirmos ao Cabrales entretando comprado em Cangas de Onìs. Gostamos de Sotres, gostamos daquele vale enorme que nos acompanha e nos transporta para uma espécie de alpes espanhóis... É algo único, e onde as montanhas falam, as pedras têm vida, e isso não conseguimos encontrar nos Alpes que ficam mais ao centro da Europa.

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Em Sotres caminhar é a palavra de ordem, caminhar e ter preparação para... Se é para caminhar, então que amemos efectivamente os Picos da Europa e possamos ir conversando com cada pedra, com cada brisa, caso contrário... Será uma simples caminhada. Em Sotres existe uma queijaria... Mais queijo Cabrales? Por favor, Robinson...

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É hora de voltar e percorrer caminhos e vales apaixonantes, é tempo de parar em Tielves e fechar os olhos - apertamos as mãos e deixamo-nos descair um pouco na cadeira. De olhos fechados, regressamos aos Lagos de Covadonga e àquela caminhada. É tempo de nos recordarmos do objectivo principal da visita ao local, avistar a águia-imperial-ibérica... Fantástico... Parece que se juntaram de propósito em voos rasgados ou simplesmente a planear para nos agradecerem a nossa presença. Ver aqueles gigantes dos ares é qualquer coisa. Tão perto que praticamente são dispensados os binóculos. Não pensamos em fotografias, queremos simplesmente assistir ao espectáculo e voar. Aquando da partida, pode ser que se tire qualquer coisa.

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A preservação desta ave de presa (espécie vulnerável e protegida) está a ter grande sucesso em Espanha, infelizmente em Portugal, nem por isso. Voamos, deixamo-nos voar... Acho que reparam no pin que transporto no exterior da mochila: uma águia-imperial-ibérica! Começam a voar por cima de nós e é mágico. Uma forte neblina, em segundos, abate-se sobre nós, ficamos parados na direcção do ponto de referência para onde queremos ir. No entanto, e estamos nas Astúrias, a neblina desaparece à velocidade que chegou e todo aquele espectáculo revela-se diante de nós, mais uma vez. A experiência repete-se várias vezes... Enchemos a barriga, mas não queremos voltar... Começa a chover, o frio tende a ser mais gelado mas nada nos demove... 

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Acordamos... Ainda queremos parar em Poncebos e fazemo-nos ao caminho... É hora de descansar um pouco e decidir onde jantar, o que, nas Astúrias, não é propriamente a tarefa mais complicada. Resistimos à Fabada e amanhã é dia de deixar a alta montanha e entrarmos em Uviéu (asturiano), ou se preferirem, Oviedo... Mas, como sempre, temos a sensação que o caminho não será assim tão linear.

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Chega a noite, e não descansamos como os pastores, mas o nosso anfitrião consegue que nos sintamos como verdadeiros asturianos no aconchego do seu pequeno hotel.

 

Mais informação:

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O país onde não havia natureza...

por Robinson Kanes, em 09.09.19

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Imagem: GC

 

 

Os portugueses são daqueles povos que se podem orgulhar de ter legislação para tudo. Existe uma falha, cria-se imediatamente uma lei para preencher esse vazio ou alguém influente na política comete um crime, cria-se uma lei que permita a fuga desse indivíduo à Justiça. No entanto, quantas leis têm efectivamente aplicabilidade prática? Quantas leis são seguidas e quantas outras não são  mais que um processo de entropia à própria aplicação da justiça?

 

Existem em Portugal, tantas outras leis relacionadas com o ordenamento do território e com o ambiente, mas só aquelas que acompanham o cimento parecem merecer a atenção de quem governa e de quem é governado. O tema ambiente não dá votos! Poderão falar do crescimento do PAN, no entanto, a bandeira deste são os cães e os gatos, não propriamente as políticas ambientais e de sustentabilidade. Os "Verdes" não existem, pura e simplesmente, lembram-me sempre aquelas micro e pequenas empresas que ninguém percebe como sobrevivem perante a ineficiência de vendas e concretização de negócio.

 

Os temas ambientais não merecem destaque porque simplesmente ninguém quer saber! Queremos ter um aeroporto para viajar mais barato e aumentar o turismo de "chinelo no pé", mas não queremos saber os impactes do mesmo no ambiente. Não queremos saber dos Parques Naturais, das Reservas Naturais e muito penas de Zonas Especiais de Protecção. Não estamos preocupados com o processo mais que visível de desertificação e muito menos nos preocupamos se todos os dias alguém faz descargas no Tejo e em outros rios e nada se faz. Ninguém está preocupado com as promessas (e algum trabalho, efectivamente) realizadas no âmbito de pós-Pedrogão e dos incêndios de Outubro daquene ano fatidíco.

 

Um aparte, sei que não acontece com todos, mas não são raras as situações em que já presenciei bombeiros no terreno sem saber o que fazer ou, passo a expressão, "à nora" porque o comando é fraco. Não são raras as vezes que assisto a bombeiros plantados à entrada de localidades à espera de um incêndio que está a quilómetros, porque as ordens passam por desmobilizar a frente e proteger habitações! É importante que não morra ninguém e poucas casas sejam destruídas sob pena dos media serem implacáveis. Até porque, em termos de área ardida, destruição da fauna e da flora, os cidadãos não estão interessados.

 

Deveríamos ter vergonha pelo simples facto do Tribunal de Justiça da União Europeia ter condenado Portugal pelo falhanço na declaração de 61 sítios como zonas especiais de conservação - simplesmente porque ignorou as orientações da Comissão Europeia no âmbito da "directiva Habitats". Será assim tão difícil num país tão pequeno e com prazos tão alargados? Terão os cidadãos cultura ambiental (ou interesse) para exigirem mais dos Governos nestas matérias? Eu envergonho-me de estar num país em que tal acontece, em que Pedrogão e o "Outubro negro" foram óptimos para o mediatismo de muita gente e onde todos os mortos, feridos e envolvidos na tragédia foram completamente ignorados e as suas mortes ou dificuldades acabaram por ser em vão. E hoje como estou em "apartes", não é estranho que o piloto de uma força militar que disse anos a fio (e ainda diz) não ter condições para o combate a incêndios, estar a pilotar um helicóptero privado de uma empresa ligada à indústria do papel? E como este quantos existem? Não é também estranho que um piloto de 34 anos, que mora no Montijo (segundo me foi dado a saber), faz uma "perninha" a pilotar helicópteros privados e ainda é comandante de uma corporação de bombeiros a cerca de 350 km de casa? Como é que se consegue tempo e eficiência para todos estes deveres? Deveres esses que, na sua maioria são pagos com dinheiro de todos nós. Todavia, também não quero, com isto, menosprezar a capacidade de trabalho do profissional.

 

Finalmente, também o Tribunal de Contas arrasou, e voltando ao tema, a ineficiência ou total ausência do plano para a desertificação! Perdoem-me a expressão, mas "caramba que raio anda tanta gente a fazer?". Temo que estes reparos de uma das instituições públicas que melhor funciona fique, mais uma vez, no esquecimento. Não deve ser fácil estar no Tribunal de Contas e ser constantemente humilhado pelo total desprezo político em relação a esta instituição! Num país com cidadania e patriotismo fora de estádios de futebol, esta seria uma das instituições mais acarinhadas pelos cidadãos e que mais apoio teria destes para fazer valer aquilo que agora são meras observações...

 

Portugal talvez seja mesmo o país onde, além de contas claras, não há natureza...

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Entre deveres e pérolas até à ressurreição...

por Robinson Kanes, em 06.09.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Como a injustiça pode ser cometida de duas maneiras, isto é: pela força ou pela fraude - assemelhando-se a fraude à da raposa e a força, à do leão - são ambas totalmente ,indignas do homem, suscitando, porém, a fraude um ódio ainda maior. Em todas as injustiças nenhuma é mais hedionda do que aquela cometida por aqueles que, enquanto ludibriam com o ar mais refinado, a fazem, assim parecendo a sua acção ser própria da conduta do homem de bem. E isto basta para a discussão acerca da justiça.

Cicero, in "De officiis"

 

 

Uma semana complicada, um fim de semana para fugir para perto, um próximo para fugir para mais ou menos perto (e cumprimentar o Bryan Ferry em Lamego) e depois, duas semanas para muito, muito longe...

 

A semana complicada fez-me recorrer aos livros e à música como há muito já não o fazia. Fez-me recordar também as palavras e os conselhos da GC (a alemã) e do meu pai... O último, infelizmente, já não está cá para acompanhar as peripécias. Não está, nem nas estrelas nem em mais lado algum, não está...

 

Talvez por isso a minha selecção literária vá para os clássicos, para Cicero e o seu "De officiis" que é o mesmo que dizer "Dos Deveres". Li vários excertos deste livro em latim e depois, já na minha língua mãe, e é um verdadeiro tratado. Hoje muito se escreve disto e daquilo, mil e uma pessoas a escreverem tudo e nada do mesmo assunto, mas quantos textos perdurarão? Este, de Cicero, ainda perdura, cada vez mais escondido nas prateleiras da História até ser esquecido... Como tantos outros. Por vezes, chego também à conclusão que não deveria ter lido nenhum deles... "Nah"...

 

Tudo aquilo que é honesto dimana dos seguintes quatro elementos: o primeiro é conhecimento, o segundo , o espírito de solidariedade, o terceiro a magnanimidade, e o quarto, a moderação.

Cicero, in "De officiis"

 

Musicalmente, esta semana tenho de entrar na ópera, uma das minhas paixões, embora algumas figuras da nossa praça insistam em dizer que a mesma se encontra morta - uma certa forma de criticarem uma elite como estratégia para fazerem prevalecer a sua, mesmo que também se seja radialista e nunca tenha existido preocupação em trabalhar a dicção...  Só me posso recordar de uma obra magnifica de Georges Bizet, "Les Pêcheurs de Perles" ou seja, "Os Pescadores de Pérolas"... O CD comprado no "Palais Garnier" ainda cá mora...

 

Gratidão, coragem e amor - o amor, sempre presente mesmo em tempos conturbados! O exemplo de Nadir e Leila e sobretudo de Zurga não deixa ninguém indiferente! Uma ópera, um libretto que deveria ser obrigatório em todas as estantes... Fica a ária, talvez a mais conhecida e consequentemente a mais bela, aqui interpretada por Roberto Alagna e o grande Bryn Terfel: "Au fond du temple saint".

Finalmente... Esta semana também recordei, de Florian Henckel von Donnersmarck,  o filme "Das Leben der Anderen" (penso que traduzido como "A Vida dos Outros") - vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007. Alguns talvez conheçam melhor este realizador através do filme "O Turista". Sem desvendar muito, vamos assistir à passagem de um homem da "morte" para a "vida" por intermédio da experiência que terá como agente da Stasi na antiga República Democrática Alemã. Amor, história, calculismo... 

Finalmente, e para que tenham um excelente fim de semana, pensem alegremente que arderam em Agosto deste ano, na Amazónia brasileira, cerca de 2,5 milhões de hectares e na Venezuela, Bolívia e Colômbia foram registados, respectivamente 26000, 18000 e 14000 incêndios! Em África foram detectados pela NASA (até 21 de Agosto) 6902 focos de incêndio em Angola e 3395 na República Democrática do Congo (RDC) - vejam a fauna e a flora que existem nestes países, nomeadamente a floresta tropical da RDC.

Para Domingo, podem sempre pensar que na Sibéria arderam até hoje 5,4 milhões de hectares de bosques e floresta e só 9% dos fogos estão a ser combatidos - é bom que arda para se começar a extrair o que há naquele solo, maravilha! Na Indonésia, onde todos gostam de passar umas boas férias, só na primeira metade do ano e na região de Kalimantan (o lado indonésio da ilha de Bornéu) a desflorestação aumentou 52% em comparação com 2018! O governo indonésio tem vindo a ser pressionado pela comunidade internacional, mas nada faz... Na Europa, mais precisamente na Península Ibérica, para terminar, estamos a assistir ao nascimento de um novo conceito de fogo: " incêndios sem capacidade de extinção". Nada mau, hein?

 

Bom fim de semana...

 

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Astúrias: de Labra para a Ruta del Cares.

por Robinson Kanes, em 05.09.19

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Imagens: Robinson Kanes e GC

 

 

Em Labra o amanhecer é surpreendente. Durante a noite nevou nas montanhas e dpois de um pôr do sol com cores únicas, a alvorada é preenchida com a névoa a desvanecer deixando as montanhas com os cumes pintados de branco.

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Depois de um pequeno-almoço bem composto, pois o dia prometia: o objectivo era apreciar o "Picu Urriellu", mais conhecido por "Naranjo de Bulnes". O caminho torna-se "duro" de Labra a Poncebos e as paragens são constantes... Para-se, caminha-se, volta-se ao carro e mais meia dúzia de quilómetros um novo ritual. Começar cedo é fundamental, sobretudo se, nos planos, estiver a "Ruta del Cares".

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E eis que, entre o nevoeiro, a montanha mostra-se! O primeiro objectivo fica concluído, não "escalámos" a montanha, não era essa a pretensão - mais que isso queríamos ver aquele monumento de pouco mais de 2500 m a mostra-se, entre outras montanhas, aos nossos olhos - admirável!

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Mas o "melhor" do dia está para vir, nomeadamente os 24 km entre Poncebos e Caín de Valdeón, sempre com o rio Cares a dividir os dois desfiladeiros. Começamos em Poncebos (Astúrias) e contamos terminar em Caín (Castilla y León). A "Garganta Divina" permite-nos hoje que a percorramos devido ao acesso criado em 1950, acesso que permitiu o acesso para manutenção do canal de água entre Caín e Poncebos - canal esse que desde o primeiro quartel do século XX já estava em funcionamento. 

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É esse o percurso que, embora em altitude, raramente obriga a grandes subidas, excepto nos primeiros 2/3 km (direcção Poncebos - Caín). É um facto que estamos perante um percurso que tende a ser considerado de baixo risco, embora não seja essa a nossa opinião - o risco está sempre iminente, estamos a uma altitude elevada e além do caminho ser estreito não existe qualquer protecção (é assim que tem de ser). Já foram registados muitos casos de quedas (com mortos), sem esquecer que a travessia no Inverno tende a ser perigosa, devido ao gelo/frio e ao perigo de queda de pedras. O Verão pode ser mais calmo e é muito aconselhado por quem já visitou e fala do local, mas em dias muito quentes, quem não estiver preparado e hidratado pode meter-se em sarilhos. No Verão a queda de pedras é um risco também, sobretudo devido às cabras da montanha.

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A tudo isto, temos de juntar o número de pessoas que, novamente no Verão, pois consta que é bastante elevado, aumenta o risco de nos encontrármos com os peritos do trekking instagrameiro que, com roupas compradas horas antes para o look desportivo e aventureiro, arriscam demasiado.

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Questões logísticas à parte, entramos numa nova dimensão... Num local onde somos nós e a natureza! A beleza da montanha, o rio lá em baixo e por vezes os canais a correrem lado-a-lado connosco, é simplesmente apaixonante. É a oportunidade de vermos e contactarmos com as cabras da montanha em autêntico trapézio, o uivo dos lobos e um pastor a correr montanha acima preocupado com o rebanho.

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É calcorrear um caminho que já perto de Caín nos oferece a oportunidade de molhar o rosto nas águas frias do Cares, é passar dentro das rochas, é parar e sentir a humidade e os cheiros da terra e dos minerais. 

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A chegada a Caín é, mais do que um alívio, é um objectivo cumprido e a oportunidade de repor energias! Atacamos os enlatados, os frutos secos, os ovos cozidos e a água. No entanto, Caín, outrora terra de pastores, tem agora no turismo o seu sustento, pelo que tem alguns pequenos cafés e restaurantes - não resistimos a ir comprar pão e queijo cabrales para nos alimentarem para o regresso! Enquanto almoçamos, partilhamos o espaço junto ao cemitério com caminhantes franceses: queijo, vinho de Bordéus, enchidos franceses, falamos muito de Saint-Malo e da Bretanha - temos a a típica imagem de portugueses e franceses à mesa - não aceitamos o vinho, não ajuda ao caminho.

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Ao nosso lado, a Igreja e o cemitério oferecem-nos uma vista única sobre os picos e aproveitamos para prestar homenagem àqueles que morreram a escalar os mesmos. É tempo de silêncio que é interrompido com um "merci a vous, au revoir". Tomamos um café, um espaço com um anfitrião muito simpático e que nos obrigou a colocar no lugar um grupo de portugueses (professores de velha guarda em época de correção de exames) cujo complexo de inferioridade estava a reflectir-se com algum desrespeito no simpático proprietário. Agora partimos com um "venga, hasta luego" e fazemo-nos ao caminho. Os professores ficaram a pensar que éramos espanhóis...

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Mais uma oportunidade para nos maravilharmos... Não queremos deixar aquele local e só já pensamos em 2020 para percorrer o que falta do Parque Natural de Somiedo, já a sudoeste de Oviedo. Pelo caminho novo encontro com portugueses, desta vez com um "Wait!Wait! Só sei dizer isto porra". A companheira de viagem desta senhora aliviava-se agora a meio do caminho! Mais um postal de bom português.

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Estamos a chegar e prestes a terminar mais um dia... Amanhã voltamos à montanha, agora é hora de ir tomar banho, comer um "Cachopo" e cair na cama que o dia seguinte promete ser longo...

 

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O "fantástico" dia de ontem...

por Robinson Kanes, em 04.09.19

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Créditos: https://www.psychologies.co.uk/why-we-should-all-say-yes-more

 

 

Estávamos em final de Dezembro... Um emprego estável, no entanto, uma oportunidade que surge. Uma oportunidade diferente, um estilo diferente e um projecto diferente; uma equipa diferente; um indivíduo (aparentemente) bem visto na praça e que até "trabalha" para a União Europeia. Adicionem muito espaço para coisas novas e criatividade. Porque não? Deixam um bom cargo (sobretudo pelos contactos que vos permitia e portas que abria em termos de sair do país), por vezes é bom mudar, mesmo que a vossa crença seja abraçar projectos grandes e preferencialmente multinacionais. Mas se é para fazer a diferença, porque não?

 

O primeiro choque, logo no segundo dia: o escritório pimpão com mesas carregadas de papéis, computadores ligados e abertos, montado para enganar incautos afinal não acomodava ninguém! Pura encenação quando descobrimos que afinal a organização repleta de indivíduos conta apenas com dois - vocês e um indivíduo que é gerente de mil e uma organizações e associações! Cuidado quando agendam reuniões fora da hora de expediente - é um óptimo pretexto para vos dizerem que metade da grande equipa está de férias e a outra já saiu. Não se deixem levar também por websites fantásticos e com muito stock footage.

 

Ao longo do tempo (pois por teimosia, CV e consideração) percebem que as coisas não são como parecem - são encostados e não vos deixam desempenhar nenhum dos papéis para os quais foram contratados! Existem para dar credibilidade à organização, porque tem bons profissionais, mesmo que seja uma organização que nada produz e também não tem interesse em produzir. Para conseguir o salário é uma guerra, negam-se a cometer ilegalidades e extorquir parceiros/fornecedores e são humilhados pelo vosso passado de sucesso. Por outro lado, existe um grupo de indivíduos que gira em torno da organização e do aparecer, vivem disso, bebem disso, evidenciam-se por isso... Vocês insistem no trabalho e dizem que não se podem "matar" estagiários meia dúzia de meses só para se dizer que a organização tem muita gente a trabalhar. Não podemos viver numa política de medo e deixar miúdos a entrar em depressão( depressão? São miúdos!) porque não têm nada para fazer e o assédio moral é constante! Dizem basta! Revoltam-se e as próprias instituições de ensino retiram compulsivamente alguns dos alunos...

 

Um dia, dizem efectivamente basta, o vosso percurso profissional não tem que ficar manchado por estranhos esquemas e ficam cansados de tentar ser profissionais e também profissionalizar a organização - por vezes é bom acreditar que não se pode mudar o mundo! No entanto, é importante combaterem tudo aquilo que não permitiram no passado enquanto estavam em posição de liderança!

 

Solicitam uma reunião, apresentam uma proposta de acordo para abandonar a organização - são quase agredidos e intimidados por indivíduos externos à mesma e têm de chamar as autoridades sob pena de serem agredidos. Recebem no email e no correio, no dia seguinte, uma "suspensão preventiva" como se tivessem sido vocês os responsáveis, mesmo que tudo o que está escrito diga precisamente o contrário, começam as ameaças com advogados e uma política de intimidação (esquecem quem está do outro lado, mas enfim). No entanto, existem indivíduos, sobretudo em Portugal que só perante uma sentença judicial (e nem assim) acabarão por perceber que iniciaram uma guerra perdida - contudo, a tacanhez faz isto, há que ir até ao fim só para estragar a vida de alguém... Good luck with that...

 

Hoje é dia de reflexão e de alívio! Amanhã é dia de arregaçar as mangas e segurar a vontade de ser rápido a superar pedindo favores a este e àquele. É dia de ir atrás daquilo que se defende e acredita, é dia de ir à luta pelos meios mais difíceis mas também mais tranquilos em termos de espírito - sou teimoso, não gosto de dever e muito menos de criar pontas soltas que podem um dia quebrar a minha transparência...

 

É também dia de relegar uma guerra que se avizinha para segundo plano e seguir os trâmites da legalidade. É acreditar no que os estrangeiros com quem trabalhei sempre me disseram - keep the focus, mesmo que a queda seja grande!

 

É apostar no futuro, até porque a meu lado tenho sempre quem nunca me deixa cair... E só isso, é o suficiente para nunca, mas nunca, baixar os braços e deixar de acreditar no que é correcto! Amanhã é outro dia e o mundo não vai acabar por isto, bem pelo contrário!

 

Por isso ontem, aquele Moscatel me soube tão bem...

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