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historia_da_morte_ocidente.jpgImagem: Robinson Kanes

 

A última coisa que vem à cabeça de alguém que está prestes a ir de fim de semana é a morte! No entanto, o prometido é devido (promessa à MJP) e assim sendo começa de forma bastante célere o artigo de hoje como uma sugestão do diabo: Philippe Ariès e o seu trabalho "Sobre a História da Morte no Ocidente". Arìes foi um historiador, no entanto, foi um pioneiro a desmistificar a morte, sobretudo numa óptica mais sociológica e até antropológica.

 

Arìes faz-nos uma demonstração de como a temática da morte, a Ocidente, foi evoluindo ao longo dos séculos  bem como dos seus avanços e recuos na forma como lidamos com a mesma. Arìes vai ao homem medieval que se preparava para a morte e chega ao homem moderno com descobertas muito interessantes como a evolução da própria localização do cemitério. Esta é uma das obras que mais gostei de ler e de facto é fascinante, levando-me a aferir de que em muitas situações relacionadas com o tema da morte, estamos mesmo lá para trás. Em muitas situações o homem medieval estava bastante mais à frente que nós, sobretudo na preparação para a morte - é um facto que a religião ajudava, a fé em algo superior também.

 

Em termos musicais, o último fim de semana de Agosto traz-me algumas memórias e uma certa nostalgia... Sinto que tenho de ouvir "The Last Waltz" do compositor sul-coreano Jo Yeong-wook. Transporta-nos efectivamente para essa nostalgia, para esses passos alegres num passado distante alternando entre as memórias longínquas e os sorrisos presentes. Este tema faz parte da banda sonora do filme "Old Boy", prémio do júri, em 2014, no Festival de Cannes - não associo a música ao filme, mas tenho de admitir que a banda sonora e o filme merecem uma visita.

Um fim de semana sem um filme não é um digno desse nome... Não sei porquê, de repente recordei-me do filme "Merry Christmas Mr. Lawrence", indicado para uma palma de ouro em Cannes e que até contou com David Bowie como actor. É um filme de 1983 e que baseia nos livros e experiências de Laurens van der Post como prisioneiro de guerra no Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Talvez me tenha deixado influenciar por "Old Boy" ou talvez não...

 

Afinal, a banda sonora tem esta obra-prima de Ryuichi Sakamoto - "Merry Christmas Mr. Lawrece" para escutar e ver. Acho que ainda anda algures por aqui! Sakamoto (que participou no filme) anda de certeza em CD, mas será tema para outro artigo...

E porque as boas notícias são para ser dadas e sempre fica algo para se pensar: Angola também está a arder... Muitos países em África também estão a arder... A Sibéria arde há meses... Em Moçambique continuam a morrer milhares de pessoas devido às cheias, mas ninguém quer saber... Desta vez não há folclore e por isso também não existem likes. Quando o tecto vos cair em cima, os vossos corpos forem carbonizados ou descobrirem qual a sensação de morrerem afogados, lembrem-se que também só serão lembrados se as vossas mortes derem likes.

 

Um apontamente final: em Hong Kong também se cancelou uma manifestação pela Democracia e por não ser possível acautelar a integridade física dos participantes. Na Rússia a história repete-se, mas aqueles que andaram calados nos incêndios de Pedrogão (PAN, BE, PCP, PS, Quercus e demais suspeitos do costume) criticam Portugal por não tomar uma posição em relação à Amazónia e até se esquecem do nosso papel em Timor e nos 20 anos do referendo para a independência - algo que tem sido celebrado ao longo da semana...

 

Bom fim de semana...

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Imagens: Robinson Kanes

 

O mar começa a ficar para trás e eis que Cangas de Onís fica à nossa frente. Este destino, como aquele que nos espera imediatamente a seguir, são muito conhecidos do grande público, talvez por isso a nossa base tenha ficado ligeiramente distante daquela localidade, em Labra.

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Isto não impede que possamos beber uma sidra, comer queijo e continuar a provar o que de bom se faz nas Astúrias. Passamos obrigatoriamente pela ponte romana e tiramos uma fotografia, é rápido... Não somos adeptos de selfies ou de registarmos a nossa presença no local. Caminhamos por Cangas de Onís e como não poderia deixar de ser perdemo-nos em compras: queijo (Cabrales, Gamonéu e Beyos...), verdinas (e que boas ficam aquelas feijoadas de chocos e camarão), lentilhas pretas e um sem número de coisas que vamos metendo no saco! "La Barata", a loja com muito bom gosto onde adquirimos os produtos torna-se cara dado o volume nos sacos...

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"Marcamos" o jantar, deixamo-nos ir pelo cheiro a sidra e a vinho e aterramos na recomendação que o nosso anfitrião em Labra - a pequena e pistoreca aldeia asturiana a 8 quilómetros de Cangas - nos aconselhou. Ah! "Casa Pinin" ou também "El Polesu", como são conhecidos - o verdadeiro tasco que nós amámos e onde insistiam no nosso sotaque de Girona (mais uma vez). 

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Entretanto, e porque o dia é longo passamos pelo Santuário de Covadonga... Também é daquelas visitas obrigatórias, embora só pense em subir ao monte que se encontra em frente para poder observar as aves mais de perto e tentar imaginar quão dura terá sido a Batalha de Covadonga - a "primeira" vitória cristã após a invasão árabe por terras da "Hispânia" e onde os Islâmicos do Califado de Omíada saíram derrotados, para desespero de Munuza. O vencedor, o nobre visigodo Pelágio, ainda hoje é recordado ou não tivesse sido o primeiro rei do reino das Astúrias, na época com capital em Cangas de Onís. Deambulamos pela área, nota-se a presença de muitos turistas, o que é normal. Desejamos, contudo, que a maioria não pense em ir aos lagos. E não vai...

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Ainda pensamos em fazer o caminho a pé (24km ir e vir, sendo que metade é sempre a subir)... Sobra-nos "pouco" tempo e queremos aproveitar os altos ao máximo e poder explorar a fauna. Como não é possível a deslocação pelos nossos meios de transporte, apanhamos o único autocarro que faz a ligação ao topo das montanhas - a viagem não é barata, mas manobrar um veículo pesado daqueles, em tais condições, não é para todos. Além disso, aquilo com que nos deparamos não tem preço.

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As vistas, ao longo do caminho, são de cortar a respiração, não conseguimos estar quietos... A chegada e os lagos: o "Enol", o "La Ercina" e até o "El Bricial" (só visível em certas alturas do ano) lá estão à nossa espera. Não são lagos gigantes e grandiosos, todavia, são lagos bem no alto da montanha, desenhados para encaixar perfeitamente naquele monumento natural que é a Serra de Covadonga. No "Enol" a cerca de 1000m de altitude, dizem que no fundo das suas águas se encontra a virgem de Covadonga, que aí zela pelos seus bem lá no alto/fundo. O "La Ercina" fica a mais 100m de altitude e é mágico ver o gado nas margens do mesmo, cria uma imagem pitoresca e totalmente diferente daquela que já tivemos na Áustria, Suiça ou até mesmo Açores... Em cada local o seu encanto.

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Uma manada começa a afastar-se, seguimo-los com as devidas cautelas, é uma área altamente protegida. O gado sabe sempre para onde vai e informa-nos sempre dos melhores caminhos. Preparamo-nos para a aventura, pois entre raios de sol alterna um nevoeiro denso e uma chuva intensa, além disso começamos a caminhar para o interior da montanha e os visitantes dos lagos começam a ser uma mera miragem ao longe.

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Seguimos um caminho e encontramos um especialista em preservação de aves na sua pick-up. Interpela-nos e pergunta-nos do nosso interesse por aquelas bandas. Lembramos que estamos por lá para apreciar a montanha, para usufruir de um dos mais belos recantos da natureza, onde cada vento conta uma história antiga de pessoas, vivências entre montanhas e dos diálogos da natureza protagonizados pelo mar e pela montanha. No entanto, também revelamos o objectivo principal: observar a Águia Imperial Ibérica (Aquila adalberti) - adalberti em homenagem ao príncipe Adalberto da Baviera. 

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Existem em nós muitas paixões em termos de fauna na Ibéria e talvez as maiores sejam o Lobo Ibérico (Canis lupus signatus), a Águia Imperial Ibérica (Aquila adalberti) e a Garça Real (Ardea cinerea). Existem mais, os ursos, por exemplo, e um sem número de espécies que simplesmente nos fazem percorrer muitos e muitos quilómetros e até, enfim, envolvermo-nos em algumas "missões de salvamento".

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Mas esta águia, o gado e toda a fauna por alí encontrada será tema para outro artigo... Agora é tempo de dizer adeus ao nosso anfitrião da montanha, que nos disse ser um óptimo dia para observar as aves. Aproveitamos para recuperar forças e atacar as bananas e as maçãs. Alguma chuva, os rostos ficam molhados e acabamos por dispensar a água porque cada gota é um pouco das Astúrias, traz o cheiro do ar, da terra e da natureza... Queremos aproveitar e beber o que nos vem dos céus.

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Agora permitam-nos e deixem-nos ir em busca das rainhas dos céus...

 

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Sem Palavras...

por Robinson Kanes, em 28.08.19

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Imagemhttps://www.ilsole24ore.com/art/il-vino-veleno-stalin-AELELqY

 

(Seguindo o mote do Pedro e talvez pensando seriamente em fazer as malas para um país mais democrático, talvez a Somália ou a Guiné Equatorial, sempre me sinto mais seguro).

 

Mais informação aqui

 

E esta em Inglaterra?

 

P.S.: e eu que abomino sindicatos...

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Playlist para um gin junto ao Tejo!

por Robinson Kanes, em 28.08.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Um destes dias fui "convidado" para um gin, foi o Filipe da Caneca. Não o provaria mas alguém estaria por certo habilitado a consumi-lo por mim, e acredito, que com muito vontade. Dei comigo a pensar um destes dias, com o Tejo mesmo ali à frente e os phones nos ouvidos. Era uma zona do Tejo, sem turistas, apenas com os locais nas suas vidas deambulando entre aquela esplanada e os passeios.

Hoje, e como vem sendo habitual, partilho a playlist desse momento. Foram mais que dez músicas, mas penso ser capaz de rapidamente escolher as 10 que poderiam acompanhar um gin com vista para o Tejo... Um "Real Gin", assim era apelidado pelo barman responsável pela carta.

Começo talvez pela música que ainda vinha no carro, até porque as demais pouco terão a ver. É uma das malhas preferidas para a condução, embora não tenha tiques de Rainho. Os Kasabian e a sua "Club Foot" são daquelas que transformam o mais tranquilo festivaleiro num verdadeiro maluco da poeira ou da lama. Para rolar no alcatrão ou encher as cavas das rodas com terra, "Club Foot"!

Mas um gin com vista rio quer-se mais calmo, sobretudo enquanto se espera e se vai tentando perceber o que aí virá. Faz sol... Faz sol, o tempo convida e volto-me para outros ritmos, não consigo deixar Itália... Aquele momento, não sei porque motivo, lembrou-me Como, a cidade, a porta do Lago e a Georgia (aqui em dueto com Eros Ramazzotti). Pouco tem a ver, mas talvez a companhia, talvez as curvas e todo aquele lago até lá chegar, no fundo, "Inevitabile".

É notória a calma e o percurso da força da música para algo mais leve. Chego a Lorenzo Jovanotti, em Portugal, ficou em tempos conhecido pelo "apelido" mas depois desapareceu... Como tantos outros. Em Itália vai tendo o sucesso habitual. Fica "Chiaro Di Luna", uma música que me tem acompanhado desde o final do ano passado!

E enquanto os meus olhos navegam pelo Tejo e pela senhora que é arrastada por um Labrador... Pelo cavalheiro que, ao meu lado, troca a música por um cigarro, continuo por Itália e não mudo de pasta. Quererá isto dizer alguma coisa? Por norma sucede mais com Espanha. Quem não gostar pode já deixar este espaço. Estou em querer que vamos andar por aqui, e agora com Ermal Meta com "A Parte Te".

Temos dias assim, o copo ainda nem vai a meio. Vou abandonar os italianos, prometo... Mas avanço e tenho de acabar com duas das melhores vozes de Itália. Duas cantoras singulares e com timbres tão diferentes - o resultado não poderia ter sido melhor, novamente Giorgia, mas agora Gianna Nannini (e como eu adoro ambas). Salvami... De quê, não sei...

Os ouvidos voam agora para os Estados Unidos, para o CD Metropolis, o quarto de Peter Cincotti e que alguém há "muito" tempo meu deu a conhecer e desde então, a cada lançamento, o Robinson corre para o comprar! Peter Cincotti é um indivíduo bem disposto, lutador e que se deu bem mas não perde o seu lado sofredor! Gosto disso e com este gin, com este sol, só me poderia recordar de "Madeline"... "Oh Madeline... Always in the back on my mind".

Uma coisa leva à outra e agora é mesmo preciso tragar o gin, calmamente... Lembro-me de uma história que acabava com um "glass of wine" mas não a vou contar aqui, até porque pouco tem a ver com o estado de espírito do momento.  Por falar em momento, talvez uma das melhores vozes internacionais da actualidade, Jacob Banks! Uma espécie de Seal mas que se arrisca a ser ainda mais intenso na sua música, na sua voz. "Unknown (to you)" é um hino ao amor, à música... A tantas e tantas outras coisas. Esta tarde tinha de estar ao meu lado. Wow...

Wow... Por isso me repito e volto à carga com Jacob Banks. Abano a cabeça, o indivíduo do cigarro olha para mim. É ele que tem a nicotina na mão mas sou eu que percorro o alcatrão dos pensamentos que uma tarde soalheira junto ao Tejo traz. "Chainsmoking" é o tema escolhido, não pode ser outro, agora não.

O tempo está-se a esgotar, vão chegando mais pessoas... Gosto do movimento humano, sobretudo quando respeita os demais humanos. Mas admito, estou na minha bolha e quero sossego, vou aproveitando o que sobra do gin e entra Lloyd Cole com "Like a Broken Record". Música à Lloyd Cole e que contagiou a plateia em tempos quando apresentou o albúm por estas terras. Com esta música acabo por "entrar" num dos barcos ancorados e olhar a terra desde o rio. É interessante, sentimo-nos protegidos. Os verdadeiros homens do mar chegam a ter medo da terra...

Acaba a bebida, obrigações cumpridas e pagamento saldado. Escolho uma música para me acompanhar nos últimos minutos deste momento. Procuro... Tem de estar por lá. Surge Nick Cave (com os The Bad Seeds, claro) com a sua voz poderosa! "Into my Arms" é uma música forte, não deveria concluir este pedaço da tarde desta forma, mas Nick Cave não é homem para nos deixar indiferentes. É hora de sair com as ideias baralhadas, o que, pontualmente, também nos ajuda a organizar o nosso mundo... Nosso mundo? Nah...

E  no final, é interessante perceber como tudo começou e como tudo acabou. O copo vazio, a tarde a perder o seu sol mas a minha cabeça bem cheia...

 

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A crise que está a caminho...

por Robinson Kanes, em 27.08.19

What should startups do when they encounter a cris

Créditos: http://elitebusinessmagazine.co.uk/sales-marketing/item/what-should-startups-do-when-they-encounter-a-crisis

 

Andamos todos a gastar que nem doidos, pouco interessados (mais uma vez) na produtividade porque, mal ou bem, o consumo exagerado e o dinheiro que vai chegando da União Europeia e outros expedientes vão segurando a economia (os expedientes vão deturpando). Contudo, depois do efeito devastador da última crise a próxima pode ser ainda pior, sobretudo porque novos actores estão mais activos quer em termos políticos quer em termos ambientais e sociais.

 

O mundo de há 10 anos não estava tão ameaçado por guerras comerciais e bélicas e os problemas ambientais eram menores (embora a tendência fosse de aumento). Também a diplomacia estava menos tensa e os próprios media tinham menos poder de monopolização e distorção da informação: mais do que nunca, hoje é possível desencadear uma guerra só com uma ou duas "fake news". As massas nunca estiveram tão apáticas e a inteligência artificial (IA) ainda estava muito longe (pelo menos para o público em geral, porque a mesma já existe há muito, a capacidade de operar e monitorizar é que era muito fraca). Também a questão das migrações é um problema global que continua a não ser combatido na origem. Estamos perante um tema cuja defesa se dá sob a capa do politicamente correcto e a servir de palco para alguns actores mostrarem quão caridosos são.

 

Pelo mundo, a produção industrial está a abrandar, as trocas estão a cair e as maiores economias começam também a dar sinais de  abrandamento. As soluções de há 10 anos podem também não resultar, afinal as taxas de juro estão mais baixas que nunca e as divídas soberanas mais altas. Por cá, o normal, continuamos a gastar e António Costa até brinca quando se fala de divída externa - continuamos a gastar, e a esquecer que tudo se paga. A Moody's já avisou que a tendência de decrescimento vai ser o normal nos próximos três/quatro anos. A acompanhar este pessimismo temos também a OCDE e o FMI a reverem os números. Além disso também é importante termos em conta que a injecção de dinheiro fácil na União Europeia e Japão algum dia tem de terminar.

 

Juntem a tudo isto uma China a crescer menos, a crise com os impostos comerciais, o Brexit (que ninguém sabe como vai acabar/começar) e temos o caos montado, sobretudo com uma Europa que não cresce: vejam o primeiro semestre e uma Alemanha com fortes hipóteses de entrar em recessão - a crise dos motores a Diesel ainda está a provocar muitas baixas.

 

Outra realidade é o facto das empresas estarem a controlar investimentos (a guerra comercial assusta quando se fala de investimentos no exterior e a expectativa de uma crise também). Temos também o dilema de que a teoria do crescimento tem de sofrer uma nova abordagem na medida em que os recursos nunca foram tão escassos face às necessidades de um mundo que não quer parar de crescer e consumir, sobretudo nos países mais industrializados. Temos de repensar os pilares económicos, sociais, humanos e ambientais sob pena de estarmos a entrar em colapso iminente. É fundamental desenvolvermo-nos e garantir a sustentabilidade económica sem crescimento desenfreado.

 

É necessário que a comunidade como um todo se mobilize, a cidadania se mostre, se encontrem novas formas de governar - lá por fora já vai falando do localism , por cá, fala-se pouco e porque é um conceito giro. Não pensamos em como vamos gerir todos os desafios, pensamos no agora quando o amanhã é isso mesmo, já amanhã ou até daqui a umas horas.

 

Quero também deixar uma nota para a questão do emprego. Não sou um pessimista em relação a todo um mundo que é a IA, mas é importante estarmos preparados e começarmos a discutir tudo aquilo que aí vem. Por incrível que pareça, a chegada em força da IA vai-nos tornar mais humanos e provocar essa necessidade no mercado de trabalho, temos sim, de estar preparados para tal. Nos países onde a veia humana e a criatividade são combatidas, podemos ter um grande problema - Portugal é um deles.

 

Também por cá as coisas também não têm tudo para correr pelo melhor, nem sempre sabemos administrar os fundos, não nos desenvolvemos assim tão bem (estamos a reboque de outros actores) e continuamos a viver com meia-dúzia de empresas que vão suportando o tecido económico e empresarial e até aniquilindo demais concorrentes. Acreditamos no Turismo e com isso justificamos todos os atropelos e mais alguns - as consequências não tardarão. O Estado continua a gastar e a adiar a sua própria reforma a troco de votos dos funcionários públicos - por isso talvez nunca falte dinheiro para "luxos" mas falte para ambulâncias.

 

A cimeira do G7 em Biarritz e sobretudo aquela (menos badalada, mas quiça mais importante) que teve lugar no Wyoming não acontecem por acaso. E se existem muitas soluções que podem ser colocadas on track, o intuito deste texto é demonstrar que o diabo (como ficou convencionado chamar a estes acontecimentos) talvez não se tenha ido embora e ande por aí à procura de uma oportunidade - porque o diabo são todos aqueles que não aprendem com o passado e que não se preparam para o futuro. 

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Adeus Nilo...

por Robinson Kanes, em 26.08.19

IMG_1614.JPGImagem: Robinson Kanes

 

O amor de um cão é algo puro! Dá-nos uma confiança total. Não devemos traí-la.

Michel Houellebecq

 

Hoje é o teu dia, ou talvez não, porque isto do "Dia Mundial do Cão" é coisa de humanos, para ti - e para todos vós - o vosso dia é todos os dias. Talvez por isso tenhas antecipado a tua partida um dia.

 

Hoje o húmus da terra ficará mais rico, esse regresso às origens. As folhas, no Outono que se avizinha terão outra cor, as folhas que outrora pisavas enquanto corrias pela quinta e que agora deixarão que a água da chuva escorra por elas até ti. Estarão mais luminosas, já não sentirão o teu pêlo molhado, cheio de esterco de vacas barrosãs e contigo, na degradação natural que faz rodar todo este universo, aguardarão também pelo passar dos tempos, até um dia final. Depois do Outono virá o Inverno e tanto a pesada chuva como a névoa perderão o encanto de outrora, passarão a ser meros adereços entre a alta montanha. O verão já não te verá à sombra dos carvalhos ou entre buracos escavados nos canteiros.

 

Deixará de existir um alerta face à chegada de forasteiros, deixarão de existir piadas sobre sabujos e sobre a forma pouco formal como devoravas a comida e bebias água. Sentiremos a tua ausência, até porque eras um dos últimos elos que nos ligava àquela terra, eras também uma das últimas memórias que ligavam a G. à mãe... Ontem, também um pouco dela partiu contigo. Regressar já não será a mesma coisa, já não serão as calças sujas, o teu pedir de mimos em ruído de grilo - crim... criiiiim... - e a vontade imediata de garantir que estás bem tratado.

 

Teremos saudades tuas, dos teus saltos suicidas, afinal não foi isso que te matou... Alguém te ficará eternamente grato por teres descoberto a "venenosa Bijoux", alguém te ficará eternamente grato por aqueles passeios entre montes cobertos de pinheiros. Aí corrias, desaparecias e voltavas, nunca demonstrando cansaço. Invejávamos tamanha resistência, tamanha vontade de sentir o feno ou a caruma, invejávamos a tua pureza que nunca conseguiremos alcançar na forma como a mesma comungava com a natureza. Nunca mais um passeio a Norte terá toda essa emoção.

 

Não esqueceremos os teus abracinhos, ou melhor, a forma como gostavas de sentir os nossos. Não te esqueceremos mesmo que amanhã já quase ninguém se recorde de ti. Não te esqueceremos e a tua presença será uma constante enquanto, também nós, não entregarmos os nossos corpos à terra. E aí, aí será a eternidade a desempenhar o seu papel e, talvez, por obra deste desordenado cosmos, nos possamos encontrar quais átomos perdidos, mesmo bem lá no fundo da terra ou até como particulas num espaço que dizem ser infinito... Em toda essa mescla de fenómenos intemporais, por certo te voltaremos ver correr como um louco entre estrelas e cometas desenhando constelações ou simplesmente baralhando os corpos celestes que não ficarão indiferentes à tua energia.

 

Adeus Nilo...

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Um miserável intocável e existencialista...

por Robinson Kanes, em 23.08.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

A semana foi longa, com mais altos que baixos, com alguma perda de esperança em relação ao futuro - não ao meu, mas ao deste Mundo. Talvez por isso, e por outras trocas de palavras que fui tendo com um senhor chamado "Folhas", recorde para o fim-de-semana o seguinte ensaio: "O Existencialismo é um Humanismo - Da Fenomenologia a Sartre" de Vergílio Ferreira. É uma interessante abordagem onde o pensamento de Sartre, Husserl e Heidegger estão bem presentes e são soberbamente dissecados pelo professor de Melo, concelho de Gouveia. Sem esquecer outros, conceitos como o de "realidade humana" estarão bem presentes.

 

 

Tudo se passa como se, para todo o homem, toda a humanidade tivesse os olhos postos no que ele faz e se regulasse pelo que ele faz. E cada homem deve dizer-se a si próprio: "terei eu seguramente o direito de agir de tal modo que a humanidade se regule pelos meus actos?" E se o homem não diz isso, é porque ele disfarça a sua angústia.

Vergílio Ferreira, in "O Existencialismo é um Humanismo - Da Fenomenologia a Sartre"

 

 

E porque talvez o espírito o alimente, a banda sonora deste fim-de-semana é mesmo uma banda sonora, ou melhor, um musical... "Les Misérables", o romance de Victor Hugo que já foi filme, musical e tudo e "mais alguma coisa" mas que continua tão presente em todos nós como uma das mais belas Histórias de sempre! Por cá, em formato musical, não mp3, está a banda sonora do filme de 2012 realizado por Tom Hooper e com a música de Alain BoublilClaude-Michel Schönberg. Gosto de ouvir a música, não ter imagem para poder criar o puzzle das diferentes representações, a que já assisti, no meu pensamento. Todos têm uma personagem preferida, eu tenho a minha, Javert! E se quiserem acrescentem Éponine. Enfim, só poderiam ser estas duas... 

Nos últimos tempos faz-nos falta ser Misérables... Muita falta. E se existem romances que nos podem ensinar muita coisa sobre a vida, este é um deles. Selecciono duas passagens relacionadas com as personagens: a primeira, Por muito que goste de Russel Crowe e queira colocar a do CD, tenho de escolher Philip Quast com "Stars"... É impossível não nutrir simpatia pelo grande "vilão" "Javert" depois de ouvir esta música...

A segunda, para Éponine, e aqui Samantha Barks (a do filme de Hooper) tem todo o destaque, uma das melhores actrizes e vozes do filme, aliás já trazia esta escola antes de chegar a 2012. Phénoménal este "On My Own".

E para terminar, um filme, como vem sendo habitual... "Les Misérables" será demasiado... Fico-me por "The Untouchables", o filme de Brian de Palma e que, grosso modo,  representa a vida de um grupo de polícias, liderado por Eliot Ness, que decidiu arriscar a vida e tentar capturar o temido Al Capone! Um filme de corrupção, honra e de "Homens" para "Homens". Muitos já o terão visto mas colocar Robert de Niro, Kevin Costner, Sean Connery e Andy Garcia no mesmo filme só pode dar bom resultado. Um filme em homenagem a todos os que combatem o crime e a corrupção.

E não se esqueçam: Na eventualidade das temperaturas aumentarem em média 2 a 2,5, todos os anos o gelo do ártico estará derretido completamente em Setembro. Acho que todos sabemos o que isso significa.

Talvez este e outros motivos nos façam levantar a voz e... (em Hong Kong já o fizeram em Junho)...

 


Do you hear the people sing?
Singing the song of angry men?
It is the music of the people
Who will not be slaves again!
When the beating of your heart
Echoes the beating of the drums
There is a life about to start
When tomorrow comes!


Will you join in our crusade?
Who will be strong and stand with me?
Beyond the barricade
Is there a world you long to see?


Then join in the fight
That will give you the right to be free!


Do you hear the people sing?
Singing the song of angry men?
It is the music of the people
Who will not be slaves again!
When the beating of your heart
Echoes the beating of the drums
There is a life about to start
When tomorrow comes!


Will you give all you can give
So that our banner may advance?
Some will fall and some will live
Will you stand up and take your chance?
The blood of the martyrs
Will water the meadows of France!


Do you hear the people sing?
Singing the song of angry men?
It is the music of the people
Who will not be slaves again!
When the beating of your heart
Echoes the beating of the drums
There is a life about to start
When tomorrow comes



Bom fim de semana...

 

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Imagens: Robinson Kanes

 

Esta é talvez uma das bandeiras deste espaço, quem já o vem seguindo vai percebendo a afinidade que por aqui se tem com o mesmo e a forma como se tem lutado para que o novo aeroporto de Lisboa não destrua um dos mais belos santuários naturais do Mundo.

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O Tejo é, cada vez mais, um rio em vias de extinção: em Espanha soam os alarmes (ver o Tejo em Toledo  mete dó) e em Portugal ignora-se, e até se fomenta (não punir é o mesmo que aceitar) a sua poluição que vem desde Ródão e Fratel e segue por todo o rio até às descargas, já em Lisboa - sem esquecer toda a movimentação de navios que agora ganha novo ritmo com o terminal de cruzeiros - é sempre a poluir.

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O Tejo é um dos nossos maiores bens, o Estuário ainda mais, mas insistimos em obras faraónicas, em investir mais dinheiro e continuar a alimentar interesses de meia-dúzia em prol da destruição de outros. Andamos tão tristes com a Amazónia (e o que aí vem não vai ser agradável, de facto) mas andamos a esquecer os nossos incêndios e um dos estuários mais belos do Mundo. 

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É triste perceber que a grande maioria dos lisboetas não conhece este Estuário! Ainda recentemente me desloquei com um "alfacinha" ao Seixal (nascido, criado e ainda com casa bem no coração da cidade) que, ao chegar, perto da Câmara Municipal e num ponto mais alto, ficou deslumbrado com aquela baía e parecia um tonto a tirar fotografias: "mas isto é lindo, não conhecia... Isto é lindo!".

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Enquanto pensamos no novo aerporto, numa das mais belas praias da região de Lisboa, em Alcochete, os avisos desaconselham os banhos... O que se fez para reverter esta situação ao longo dos anos? Nada! O que se tem feito para combater a pesca ilegal de bivalves e a existência de autênticas máfias no rio? Tudo acontece sob o olhar da GNR e da Polícia Marítima que parecem estar de mão atadas. Nada se faz ou ficamo-nos por escassas intervenções - apreende-se uma embarcação, surgem logo duas ou três! Entretanto, a autarquia continua a investir em touradas, com o consentimento dos seus habitantes, é preciso ter isso em conta.

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Ainda recentemente se falou de um problema com aves no aeroporto de Sá Carneiro, que obrigou a uma aterragem de emergência, foi em Portugal. No entanto, pouco se falou do voo da Ural Airlines que saiu de Moscovo e que, após a descolagem, viu os reactores serem destruídos por aves obrigando a uma aterragem num campo de milho! Não utilizarei a palvra milagre, porque é dar os louros ao que não existe e esquecer o trabalho dos pilotos! Aterrar um avião acabado de descolar, carregado de combustível, num campo de milho e sem incendiar ou provocar mortos é uma proeza daquelas! Não terão os holofotes dos pilotos do Rio Hudson, Hollywood e a CNN não ficam em Moscovo.

 

Uma nota final para a Amazónia: a Amazónia é um património do mundo, a Amazónia tem vindo a ser destruída ao longo de décadas e só agora o mundo acordou para esta realidade! Porquê? Dá "likes"? O efeito rebanho afinal é mesmo uma realidade? Porque todos querem seguir as celebridades? Quando é que nos lembramos que, embora influenciando pela positiva, não raras vezes estamos perante um "show off" que se esgota em horas e os resultados serão nulos! Quando é que agiremos por nós? Quando é que o mundo viola pela "primeira vez" uma lei internacional em prol do bem e faz questão de dizer que a Amazónia é de todos?

 

Deixo este gráfico e uma ligação com mais informações para percebermos que toda esta calamidade não é só "obra de Bolsonaro" (embora também este esteja a falhar redondamente), como parece ser o pensamento geral! Um olhar mais atento vai descobrir que os anos anteriores à eleição deste foram negros para a floresta! No entanto, a culpa maior é de todos nós que consumimos produtos oriundos desta floresta e que nada fazemos para mudar o estado das coisas! Além disso, a floresta amazónica não compreende só o Brasil!

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Fonte: https://rainforests.mongabay.com/amazon/amazon_destruction.html

Até lá, fiquemos sentados a assistir e a aguardar pelos voos baratos que nos levarão de Lisboa para outros destinos igualmente com voos baratos a troco de um investimento que nos vai sair muito caro!

 

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photo-1497129907035-91f1b95c8119.jpgCréditos: Jez Timms

 

Nota Introdutória

Tinha este texto sem título e em rascunho há muito, daí a alusão a um estudo. Como era o único, abri pensando que era algo para apagar. Tenho dúvidas que o tenha publicado - já o procurei e não me parece que esteja. Por acreditar que continua actual, faço-o sair hoje. Por sinal, a Mia durante o dia de ontem publicou alguns pontos que podem muito bem completar este artigo e por isso a sua saída foi inevitável.

 

 

A chave para sermos felizes é prestarmos mais atenção ao que nos faz felizes e menos ao que não nos causa felicidade. Não é a mesma coisa que prestar atenção à própria felicidade.

Paul Dolan, in "Projectar a Felicidade".

 

Um dos temas tabu deste país voltou a ter um foco de atenção (pouco, mas melhor que nenhum) pela mão de um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos: "As mulheres em Portugal: como são, o que pensam e o que sentem?".

 

Muito se tem falado em igualdade de género e, no caso das mulheres, as que mais reivindicam e apregoam o actual hype, são as mesmas que pactuam com salários mais baixos que os homens, aliás, algumas até impulsionam essa prática nos locais onde trabalham.

 

E quantas também não vivem infelizes no sexo e já nem amam as pessoas com quem estão mas, por força do hábito ou de uma posição mais tranquila na vida, vão aguentado esse martírio. Muitas são também aquelas que não lidam bem com o sexo oposto e portanto criam a sua posição de uma forma mais agressiva, direi.

 

E aquelas que usam o facto de serem mulheres mas quando chamadas à praça, não querem ferir susceptibilidades (mesmo que não saibam dizer a última palavra). Muitas são também aquelas que agora exaltam as mulheres no trabalho mas choravam junto dos homens (inclusive em redes sociais profissionais) por um emprego, apelando à boa-vontade dos amigos - uma tanto chorou que depois da saída (forçada) de uma instituição financeira como Human Resources Business Partner chegou rapidamente a Directora de Recursos Humanos numa empresa ligada aos media.

 

Estranho que muito se fale da questão de género mas esta temática (salários, sociedade, vida em família, liberdade de escolha) continue a passar ao lado das reais reinvindicações... Não dá likes e até pode tirar o emprego ou uma vida estável e, quando assim é, viramos as atenções para algo que, aparentemente, é mais popular e "solidário". Ainda um destes dias procurava alguém que falasse sobre esta temática, alguém que até gosta de aparecer e só repete que é COO/CEO/CFO/CSO/CCCCCCCCC de tudo e mais alguma coisa e que até é mulher mas quando a temática passava ao lado do hype e se centrava naquilo que era importante... Lembram-se das susceptibilidades?

 

Mas deixo uma questão, ou várias: quando é que se começa a debater seriamente a diferença salarial? Quando é que uma mulher pode dizer claramente ao marido ou companheiro que o sexo é uma porcaria? Quando é que uma mulher pode, inclusive trair o marido e merecer o mesmo tipo de recriminação que o próprio? Quando é que uma mulher, e é aqui que pretendo chegar, pode dizer que não quer ter filhos por opção ou está profundamente arrependida de ter filhos? Ou até que teve filhos por uma questão de pressão social, de moda ou de status? Quando é que uma mulher pode encarar os homens com a mesma força, por exemplo, numa reunião onde nem sempre é a líder? Poucas o ousam fazer e perdoem-me, mas nesse campo as mulheres são, ou mostram ser, bastante mais frágeis e emocionais que os homens... Isso também pode mudar.

 

Um aparte... Existem indivíduos que actualmente trazem crianças ao mundo por que é cool ou então porque lhes permite (pensam) subir um patamar! Como casar, comprar a casa, fazer a viagem de lua-de-mel e comprar carro novo e... aumentar a dívida familiar. Aliás, até será mais bem aceite que uma esposa de outrem durma com uma chefia para aguentar a economia lá de casa mas que jamais diga que não quer ter filhos porque quer ter outro estilo de vida!

 

As mulheres (e também os homens) ainda não podem dizer simplesmente que não querem ter filhos por opção! A chuva de criticas e a ostracização social faz-se imediatamente notar! A família critica, os amigos criticam (muitos, lá no fundo, porque invejam) e a própria sociedade o faz - essa mulher - ou homem - pode assim trabalhar mais que os outros, não ter férias quando os outros podem e sacrificar-se como fosse um ser cujo facto de não ter filhos aparentemente faça com que não tenha vida própria. Já lidei com situações em que mulheres foram primeiramente despedidas porque não choraram nem usaram os filhos como forma de alterar a posição do empregador! Que podemos chamar a isso: discriminação? Segregação? 

 

Será crime uma mulher dizer que não quer ter filhos porque quer viver a vida? Será assim tão egoísta num mundo onde não faltam crianças? Lembro-me em tempos de ter lido as palavras de um CEO de uma fábrica de brinquedos portuguesa chamar de egoístas às mulheres que não queriam ter filhos porque assim não ajudavam a segurança social do país! Acredito, todavia, que estas palavras queriam dizer seria mais: sim, quanto mais crianças mais negócio para mim, além disso fica-me bem dizer isto porque sou um networker nato e gosto de aparecer porque sou muito solidário - todavia, dos colaboradores deste senhor, ninguém ouve falar, mesmo quando a entrada em bolsa se revela um desastre. Espero também que este senhor não fuja nem com um cêntimo às obrigações fiscais e não necessite de apoios do Estado para nada! Isso é que é ser solidário com todos nós.

 

Ferreira de Castro, em "A Experiência", dizia que uma "moral, qualquer que seja, se, por um lado, se renova, por outro envelhece, e há normas de moralidade colectiva que, com o tempo, revelam toda a sua desumanidade e tornam-se portanto, imorais". Portanto que moral preside ao facto de ter o direito a não querer ter filhos? Onde é que entra! E o direito a dizer arrependo-me de ter tido filhos? E o direito a dizer separei-me porque já não amava nem suportava mais outrem ou até porque sexualmente não me satisfazia?

 

Andamos muito atentos e participativos nos hypes das redes sociais e dos media, e no entanto, na realidade, vamos ficando mais conservadores e egoístas que nunca... Porque a realidade não tem holofotes e aí podemos mostrar (involuntariamente) o que realmente somos, e por norma, não é algo bonito de se ver. Andamos reféns e passamos ao lado de problemas que estão a destruir um país, um continente e um mundo.

 

Finalmente, temo também que se ande a utilizar em demasia o exemplo isolado para fazer uma grande campanha em torno desta ou daquela mulher, mas com parcos efeitos no longo prazo. Uma espécie de "G.I. Jane".

 

P.S.: é um texto sobre mulheres, mas muito do que aqui é escrito também é aplicável a homens. E sim, acredito na classificação homens/mulheres, dispenso todas as outras classificações independentemente de apoiar que cada um pode dispôr da sua vida, do seu corpo e do seu intelecto como bem entender. Espero que não me expulsem como expulsaram um aluno (criança) de uma escola em Inglaterra por insistir com o professor que só existiam homens e mulheres, independentemente das tendências sexuais.

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O Candidato a Emprego em Portugal. Um Exemplo.

por Robinson Kanes, em 20.08.19

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Créditos: https://i.pinimg.com/originals/ee/78/8e/ee788eb436efe391d18d272ab28052e8.jpg 

 

 

Em nada o homem está, ainda hoje tão perto do macaco como no que diz respeito aos negócios.

Elias Canetti, in "Massa e Poder"

 

Em Portugal existe a tendência para o queixume em relação à forma como os candidatos a um emprego são tratados pelas organizações. É um facto que existe uma mais que proeminente tendência para a ausência de clareza e respeito nos recrutadores, no entanto, não são raras as situações em que nem sempre o "lado negro da força" está na entidade recrutadora/empregadora.

 

Partilho uma situação que me chegou, e que me leva a crer que em Portugal existem vários mundos, mesmo entre candidatos: o mundo daqueles que se mexem muito bem em termos de compadrio e nem se podem considerar candidatos, o mundo daqueles que pouco fazem para conseguir um emprego mas ele lá acaba por surgir (muito networking, muito show off, muitos louros por intermédio de outros e falta de ética) e ainda aqueles que, por mais que se esforcem, não conseguem um emprego com facilidade. Ainda há espaço, curto, para aqueles que se esforçam e até conseguem alguma coisa.

 

A situação que relato é verídica e encontra-se, muito provavelmente, no segundo patamar. Portugal é um país de corporativismos que se reflectem também nas classes profissionais e por isso, embora existam muitos profissionais no mercado, só meia-dúzia parece ter a atenção dos recrutadores.

 

Imaginem um indivíduo que não é genial mas vos é remetido por uma empresa de recrutamento (genial é, pelo menos na forma como se promove). Não é o vosso preferido, mas também não são vocês que têm de escolher, é dada a liberdade para o supervisor directo o fazer. Este indivíduo, não sendo brilhante, sofre do excesso de confiança de quem está confortável num emprego e está alheio a muitas dificuldades - sobretudo as que virão num futuro não longínquo. Em todo o processo e com o indivíduo a merecer a preferência, é tida em conta a oferta de um salário bruto acima dos €3000 - bastante acima - viatura (algo que nem estava no plano) e os habituais seguros e benesses que já vão sendo prática em algumas empresas.

 

A verdade é que existem red flags que alguns de nós já vão conseguindo identificar, nomeadamente o medo de sair da actual empresa (porque se tem um contrato efectivo e com alguns anos de permanência) e a interpelação ao recrutador com perguntas do género, e passo a citar: "Qual é a marca,o modelo, tipo de combustível e qual o plafond de combustível?". É importante focar que este profissional, no seu trabalho, não tinha nem metade dos benefícios e muito menos viatura própria para uso pessoal - sim, porque a função mal exige que se desloque. Bons tempos em que um Fiat Uno ferrugento servia muito bem para mim e nem isso tive! E não sou assim tão velho, aliás, já nem sou do tempo do Fiat Uno.

 

Apesar de tudo, e porque existem boas pessoas neste país (por mim tinha sido imediatamente descartado), são dados todos os esclarecimentos. São prestados os esclarecimentos e ao fim de alguns dias chega o compromisso de que a oferta vai ser aceite. 

 

A organização mobliza-se, tudo se prepara para receber o candidato e eis que, o departamento de recursos humanos recebe um email numa madrugada de um fim de semana. O grande candidato, esse "terror" do LinkedIn, o "profissional top" (ainda estou para perceber onde) informa que vai voltar atrás na proposta - na segunda-feira era o primeiro dia. 

 

Contactado pela organização, ignora todas as chamadas! Fá-lo também em relação à empresa de recrutamento e, até hoje, ainda não existe retorno. Entretanto, já se passaram umas semanas e casos destes não faltam. Talvez seja um aviso à navegação, talvez para procurar naqueles currículos que são enviados por candidatos que ainda acreditam que alguém um dia vai olhar para os mesmos e reconhecer todo o seu valor.

 

Em relação à nossa "estrela cadente" (porque o mundo é pequeno), "profissionais" destes não faltam, sobretudo num país onde são sempre os mesmos, onde não existe abertura para recrutar pessoas diferentes e até com diferentes backgrounds. Ainda por estes dias, à procura de uma pós-graduação, em várias instituições de ensino dou sempre comigo a ter de ver os suspeitos do costume, sempre a mesma gente e em alguns casos, sempre a mesma súcia.

 

São também estes mercenários que não permitem a "ascensão" ou chegada ao mercado de trabalho de outros indivíduos que efectivamente são bons, se esforçam, e perdoem a expressão, dão o litro! Dão o litro, e sejamos francos e racionais, até trabalham por muito menos - embora eu não defenda políticas de baixos salários só porque sim. Os outros, os outros são os "profissionais" que trabalham apenas por ganância e com total ausência de ética, que trabalham para a viatura que impressiona amigos e vizinhos mas que, na realidade, o trabalho em si, pouco os move.

 

Mas afinal, talvez seja eu que estou errado e não consigo conceber um emprego sem uma dose de paixão. 

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