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Edvard Munch - "Entardecer" (Museu Nacional-Thyssen Bornemisza)

Imagem: Própria

 

É cultural... 

 

Quando queremos desculpar comportamentos estúpidos e para o qual não temos uma justificação que possa validar tal irresponsabilidade, lá nos socorremos do "é cultural".

 

Um desses comportamentos é aquilo a que se pode chamar o "quarto do hora académico", vulgo atraso irresponsável e falta de respeito pelos outros. Em Portugal, e mesmo por outras paragens, o chegar atrasado ou até falhar a um compromisso é algo visto como perfeitamente normal. Tão normal, que até se incute em programas de televisão, jornais e rádios como uma coisa boa - chegar atrasado é ser cool, é ser yeah, é ser... estúpido.

 

Temos de descontar os atrasos que, obviamente, são forçados e não são a regra mas sim a excepção, aliás, quem nunca se atrasou que atire a primeira pedra - é melhor não dizer isto porque até conheço alguns indivíduos que...

 

No entanto, cada vez que nos atrasamos estamos a prejudicar alguém ou até mesmo um processo. Quando nos atrasamos para uma reunião ou para um encontro profissional estamos a destruir a agenda daqueles com quem combinámos uma hora e a promover também o atraso destes noutros compromissos - ou seja, uma bola de neve. Além de que, quando nos atrasamos, também em âmbito profissional, estamos a fazer com que outrem não possa sair a horas para estar junto da família ou em outras actividades porque tem de fazer o trabalho que não pôde fazer enquanto estava à nossa espera e também, enquanto esteve connosco. Afectamos o bem-estar e a produtividade daquele com quem irresponsavelmente interagimos! Mas na verdade, quem é que quer saber disso, sobretudo quando é B2C (business to client)?

 

Quando nos atrasamos, temos de ter em conta que do outro lado está uma pessoa que tem uma agenda, pessoal e profissional, e que também tem de trabalhar e viver - por cá, tendemos a esquecer isso, sobretudo quando não temos nada que fazer e passamos o dia na praia, mas depois forçamos o desgraçado deste ou daquele estabelecimento a esperar por nós às nove da noite para, por exemplo, visitarmos um espaço ou fazermos uma reunião. Esquecemo-nos que, enquanto estivemos na praia e nos levantámos às onze da manhã, alguém já estava fora da cama às cinco e no dia seguinte repete a rotina.

 

A desculpabilização deste tipo de atítudes não pode ser uma prática, sobretudo quando quem as pratica fica muito revoltado, ou porque é chamado à atenção, ou porque, e passo a expressão, "bate com o nariz na porta". A revolta é tal que se fica com a ideia de que o grande crime é cometido por aquele que esperou horas a fio e se fartou de tanto esperar ou até porque teve outros compromissos.

 

Temos ainda os atrasados (mentais) que enviam mensagens ou telefonam a dizer que em cinco minutos estão a chegar. Por norma, quando um português diz que chega em cinco minutos, o ideal é fazermos uns bons quilómetros para ir tomar um café, ler o jornal e voltar... Com um pouco de sorte ainda o apanhamos a chegar.

 

Recordo-me que em tempos, no primeiro dia em que cheguei para dar aulas a alunos do ensino superior, o director do curso me disse que tinha de ter em conta o "quarto de hora académico" seguido daquele "eh eh eh, sabe como é". Lembro-me também de ter feito uma expressão pouco simpática e ter respondido que, um dia, quando os alunos tiverem compromissos profissionais, não iriam existir quartos de hora académicos e de que além disso era uma tremenda injustiça para com aqueles que cumpriam e chegavam a horas, pelo que, nas aulas do Robinson, a repetição desse comportamento não seria tolerada. Não obtive resposta e fiquei a pensar que tinha carimbado o passaporte para não voltar a dar aulas naquela instituição.

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Bater no(s) Fundo(s)...

por Robinson Kanes, em 28.08.18

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Imagem: Própria.

 

 

Na passada semana, em conversa com alguns conhecidos, tomei conhecimento de uma reportagem televisiva que, alegadamente, colocou o dedo na ferida - mais um - em relação aos apoios e acções de solidariedade para com Pedrogão Grande. 

 

Temos de atentar no facto de que, em Portugal, os incêndios de Pedrogão (como se os de Outubro, Monchique e outros não fossem de interesse) produziram, pela primeira vez e em larga escala, a ideia de que a solidariedade é um negócio pouco transparente. Confirmou-se, pois até hoje ainda ninguém explicou com rigor o destino dos fundos, que afinal para esclarecidos e ignorantes ou meros ingénuos, o dinheiro da "esmolinha" nem sempre acerta no bolso do "pobrezinho". Aliás, 2017 e 2018 foram pródigos em casos de solidariedade pessoal, literalmente...

 

Mas é voltando a essa reportagem que temos de fazer três exercícios: o primeiro é de que estamos perante uma reportagem que aponta alguns factos concretos e verídicos mas ainda é só uma reportagem. O segundo é de que devemos pensar porque é que casos como estes só chegam ao conhecimento do público e das autoridades por intermédio dos media... E terceiro, e se tudo isto for verdade?

 

Debato-me no terceiro e último: e se tudo isto for verdade? Se for verdade que o dinheiro dos contribuintes e de  todos aqueles que solidarizaram com Pedrogão (e falo de Pedrogão mas abarco todos os outros concelhos afectados) estiver a ser esbanjado por oportunistas corruptos? E se tudo isto for verdade, como é que fica o papel dos políticos - muitos deles ao mais alto nível - que se solidarizaram também com estes indivíduos e até lhes deram apoio mediático e não só? Se tudo isto for verdade, como é que um povo reage quando, aqueles que deveriam garantir a sua segurança, são os primeiros a falhar. Como é que saíndo impunes e abusando dessa impunidade ainda desrespeitam mortos e vivos absorvendo os lucros, pois a palavra é essa, os lucros da desgraça? Não defendo, nunca defendarei a Justiça feita na rua, todavia... Devo admitir que não é fácil desejar que algumas cabeças se afastem do resto do corpo num qualquer pelourinho! A conversa do doa a quem doer, sem causar dor começa a ser enfadonha...

 

E se tudo isto for verdade? Presumo que até existirem factos que provem todos estes esquemas são verdadeiros devemos ter cautela nos comentários e nos ditos julgamentos públicos, no entanto, também é nas ruas que se diz que "contra factos não há argumentos". Se tudo isto for verdade, uma coisa Pedrogão Grande tem de nos ensinar - chega de corrupção, irresponsabilidade, impunidade e incompetência!

 

Talvez a melhor homenagem que podemos prestar a todas as vítimas dos incêndios e não só, é finalmente começar a combater ferozmente estes comportamentos! Mais do que criar brigadas de combate a incêndios, é criar mecanismos que promovam a competência, o mérito e a responsabilidade. Mais do que criar oficiais de segurança, é criar mecanismos que combatam a corrupção... Até porque, todos sabemos, que o poder autárquico, a par do central, é também ele, em muitas situações um antro de corrupção que só não é mais posto a nu porque a apetência pelo paternalismo luso permite que autarquias e autarcas sejam a única fonte de rendimento e justifiquem a existência de algumas localidades. É esta apetência que permite que em alguns concelhos tenhamos autênticos ditadores que semeiam o medo e paralisam todos aqueles que levantem a voz contra os mesmos... Não são raros os casos em que tive pessoas diante de mim em pânico porque o "senhor presidente da câmara" ou o "vereador X" podiam acabar com uma carreira, uma família ou até com a sobrevivência dessas mesmas pessoas.

 

Fuji ao tema, de facto, mas na verdade, este tipo de situações continua a ocorrer e é a apatia das instituições e sobretudo dos cidadãos que o permite... Entretanto, também a Democracia vai ardendo de forma totalmente descontrolada.

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Atrás de Marcel Proust em Cabourg...

por Robinson Kanes, em 24.08.18

IMG_3401.JPG Imagens: Próprias e GC.

 

 

A única verdadeira viagem de descoberta, a única fonte da eterna juventude, será não visitar terras que nos são estranhas, mas sim possuir outros olhos, contemplar o universo através dos olhos do outro, de centenas de outros, ver as centenas de universos que cada um contempla, ver o que cada um deles é.  

Marcel Proust, in "Em Busca do Tempo Perdido - Volume V: A Prisioneira"

 

 

Já tive oportunidade de falar de Erik Satie, ou até de Eugène Bodin aquando do meu artigo sobre Honfleur. No entanto, agora é a vez de um mestre das letras merecer um destaque, é ele Marcel Proust!

 

Falo de Marcel Proust para poder também falar de Cabourg, localidade, sobretudo conhecida por ter sido o local preferido de férias do escritor! Estar em Trouville-sur-Mer, ou mesmo em Dieppe e não ir a Cabourg acabará por ser quase um crime, nomeadamente cometido por parte daqueles que têm em Proust uma referência.

 

Cabourg, no Departamento de Calvados, é um daqueles locais de França em que as flores e as plantas transformam uma cidade... E uma espécie de cataplana típica também, devo confessar. Para mim, é também um local onde, como amante do estudo da 2ª Guerra Mundial, olhando o mar, já começo a ter uma sensação menos boa. Devo admitir que, na primeira vez que visitei Cabourg - e já explico porque é importante lá voltar - não consegui colocar um pé na água. Já imaginava muito daquilo que iria sentir mais para a frente, já perto de Caen.

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Mas Cabourg é mais que um majestoso Casino do século XIX. Cabourg é poder passear na "promenade Marcel Proust" e sentir um pouco certos tempos que não vivi. É sentir um certo glamour dos anos 60, 70, 80 ou até mesmo de finais do século XIX e imaginar o charme e requinte de tal estância balnear. Não será dificil conceber Cabourg, e daí ser importante regressar, como uma daquelas escapadas românticas únicas ou não foss conhecido pelo Festival de Cinema, também ele dedicado a filmes românticos! Acrescentem a isto, que uma parte do programa inclui cinema na praia!

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Mas Cabourg não se fica por aqui no que concerne a romantismo! O São Valentim é também celebrado de uma forma muito especial, com direito a banhos nocturnos e muito fogo de artifício - esta temática é tão levada a sério que se abrem ciclos de debates e um sem número de iniciativas culturais e até cientificas ligadas ao amor... Quiçá, e nem sou adepto da data, o próximo dia 14 de Fevereiro não venha a ser passado em Cabourg!

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Ainda falando de amor, Cabourg, mais precisamente a "Promenade Marcel Proust", é também o local onde encontramos o "Le Méridien de L'Amour", uma celebração do amor a uma escala universal e onde vários "quiosques" nos abrem os horizontes nesta matéria e em 104 línguas" - algo que não fica indiferente a ninguém! É fácil deambular por entre os  telegramas em diferentes línguas e sentir o amor num passeio junto à praia, numa localização privilegiada e romântica. Talvez seja isso que está a sentir aquele casal na segunda fotografia.

 

Bom fim de semana...

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Morreu o Correia!

por Robinson Kanes, em 23.08.18

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 Imagem: Própria.

 

 

 

A morte não é, então, o acabar de uma duração feita de dias e de noites, mas uma possibilidade sempre aberta.

Emmanuel Levinas, in "Deus, a Morte e o Tempo".

 

Num canal ou numa época em que, quando alguém conhecido da praça morre e de repente se percebe que tinha milhões e milhões de amigos que procuram prestar-lhe uma homenagem, venho recordar um daqueles primeiros artigos que aqui se escreveram e que hoje me veio à memória... Chegou-me à memória porque me lembrei do Correia... O Correia que não era uma pop star ou um indivíduo daqueles que, quando morre, é notícia e todos têm opinião sobre o mesmo (mesmo aqueles que nunca ouviram falar dele). O Correia, apesar de conhecido num meio mais fechado, era o Correia, um anónimo... E é como anónimo que, mais uma vez, recordo o Correia...

 

Hoje morreu o Correia.

 

Não! O Correia (nome fictício) morreu em Janeiro. É como se praticamente 10 meses nos separassem desde aquela última conversa em Novembro. Recordo-me, estava com a Maria (nome fictício). Em trabalho visitámos o nosso amigo de curta data. Uns meses... fomos àquele teatro, mais um vez, descobrimos a doença recém-diagnosticada e quedámo-nos desamparados perante a subtileza do destino.

 

Sim, a doença também toma conta dos mestres. Sim, o Correia, naquele seu ar austero, com um sorriso contido mas genuíno como o halo que circundava os seus gestos, também contidos, era um mestre do Teatro e da Cultura.

 

Era o amigo de curta data que nos contagiou de imediato e nos ensinou a diferença entre o animar e o criar, entre o fazer teatro e o fazer espectáculo. Que nos mostrou, como outros, que o Teatro é de todos e não somente de alguns, no fundo como a sua própria personagem, agora contida, mas abatida pelas escaras da doença que lhe dava um ar inverosímil.

 

Discutimos, ainda sorrimos e inclusive, no seu estilo rebelde, lá tivemos de tirar o Correia daquele parque de estacionamento sem que este tivesse que pagar por ele. Quem me lê, vai-me já atirar a primeira pedra, mas apesar de defender a ética e a transparência também tenho o meu lado rebelde e de criança, beati mundo corde.

 

A chuva de Novembro, que sempre tirou um ar luminoso ao mês do meu aniversário, caía forte sobre Lisboa, aquela Lisboa esquecida lá para os lados do Beato, aquela Lisboa que por mais escura que seja, não consegue cevar aquele ar escuro e carrancudo quando o sol cruza o mar da palha, entra rio adentro e decide ali pintar de cor aqueles bairros que até há muito pouco tempo, eram a porta de entrada da cidade.

 

Saímos e nem pensámos em trabalho... tomámos a difícil decisão de deixar o Correia descansar. Por vezes sentíamos que carregava o peso do mundo e apesar do paz exterior, internamente tentava dominar todos as erupções que emergiam do interior da terra.

 

O Correia morreu, mas não foi hoje, foi em Janeiro... e só hoje soubemos que o nosso parceiro e amigo tinha morrido. Talvez, e como o disse Levinas, tenhamos em nós aquele sentimento de que a morte é morte de alguém e tê-lo sido de alguém não é levada pelo moribundo mas pelo sobrevivente. Talvez tenhamos aquele arrependimento de não ter percebido os sinais. Talvez o trabalho e todos os desafios que dez meses nos proporcionaram e quase sem tempo para respirar, nos tenham deixado ficar somente por correspondência electrónica à qual não tivemos resposta. E o telefone que estava tão ali à mão...

 

Por certo o nosso parceiro, o nosso colega de trabalho sempre estivesse ali, mas nós não. Talvez até, o Correia, que de nós pouco conhecia, não quisesse a nossa presença.

 

Talvez ouse escolher uma banda sonora para o Correia, para este momento e para alguém que gostava de piano tal como eu, talvez lá do alto (se ele assim existir) esteja sentado ao lado de Beethoven, enquanto este executa com mestria o Concerto para Piano nº 5 e se possa deixar envolver por cada acorde tocado com toda a emoção que cada nota nos transmite. Talvez, também para mim, para nós, essa banda sonora seja uma espécie da cura e não de paliativo... minuetur atrae carmine curae.

 

Termina Bethoven, que nos tenta escutar de “funil” ao ouvido e é como se sentisse uma alegria desesperada nesta tarde aérea de brisas. É assim que estou, é assim que me quero sentir.

 

Hoje morreu o Correia, hoje morremos também nós um pouco...

 

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Vending de Bens Intangíveis...

por Robinson Kanes, em 22.08.18

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 Imagem: Art & About Sidney

 

 

O mundo das artes tem, cada vez mais, de estar aberto ao mundo real. Muitos artistas e correntes que vivem fechados em autênticos mausoléus ou em bairros das grandes cidades, como se estivessem acima dos demais mortais têm os dias contados, sobretudo quando os financiamentos públicos de projectos inúteis começarem a terminar - financiar cultura só porque sim não é o caminho, sobretudo em sociedades onde a grande maioria dos cidadãos já não são propriamente analfabetos.

 

É nesse âmbito que destaco um projecto, "Art & About Sidney" e um dos seus subprojectos, nomeadamente o "Intangible Goods", ou seja, bens intangíveis. Em relação ao projecto mãe, o "Art & About Sidney" não é mais que um projecto que procura, sobretudo junto dos artistas, a promoção de ideias que possam ajudar à definição do espaço urbano quer em termos de identidade quer em termos de desenvolvimento e bem-estar. Procura-se que artistas e público trabalhem juntos e criativamente desenvolvam projectos com real impacte no dia-a-dia de uma metrópole como Sidney.

 

Foi neste âmbito que um dos projectos mais interessantes teve lugar e por isso, também chamou a minha atenção. O "Intangible Goods" não é mais que uma iniciativa que, numa sociedade onde tudo se compra e tudo se vende, procura também trazer para o mercado algo que ainda ninguém consegue vender, e muitos parecem nem sequer perceber que se pode comprar... Que se pode sentir... Falamos de coisas como bem-estar, um propósito, paz, relações e mais um sem número de estados de espírito e emoções que não encontramos no supermercado.

 

Imaginem que numa "vending machine", aquelas máquinas onde colocamos umas moedas e nos sai uma sandes ou um café, conseguimos colocar à venda um pacote de "calma" ou de "repouso", ou então até de" amor" ou "auto-estima". Quais poderão ser os resultados? Sobretudo se estes produtos forem desenvolvidos por profissionais de saúde mental e artistas? E imaginem que alguns dos lucros acabam por reverter para instituições que trabalham na área da saúde mental, sobretudo do ponto de vista cientifico? Parece estranho, mas como qualquer produto de sucesso, também este passou por uma fase de teste e estudo de necessidades junto de uma amostra da população de Sidney.

 

De facto, parece-nos estranho comprar, por exemplo, um estado de alegria, todavia, mais estranho é poder viver essa alegria quase todos os dias, afinal Camus era o primeiro a dizer ("Entre Oui et Non") que tudo era simples, somente os homens é que complicava as coisas... No entanto, praticamente esquecermo-nos anos a fio que, por exemplo, a alegria existe e depende, em muito, de nós próprios.

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Paul Delaroche - "A Execução de Lady Jane Grey" (National Gallery)

Imagem: Própria

 

 

A Liberdade! Como é difícil. Numa carroça quem tem menos problemas é o cavalo.

Vergílio Ferreira, in "Conta Corrente II"

 

E é pelo título que começo este texto: a única diferença é que os primeiros utilizam um discurso totalmente diferente e mais meigo para dizerem o mesmo que os segundos não escondem defender.

 

A semana transacta veio mostrar, mais uma vez, que Portugal é um país tendencialmente de esquerda, aliás, a Constituição da República Portuguesa disso é exemplo! É mais fácil criar um grupo terrorista de esquerda que uma tertúlia de extrema direita. 

 

Não vou entrar pelo discurso que vem dizer que os regimes totalitários de esquerda mataram mais indivíduos que os de direita, até porque poderia ferir algumas susceptibilidades, sobretudo de indivíduos que ainda clamam por muitos desses mesmos ditadores e bebem da cartilha dos mesmos como se fosse uma bíblia. No entanto, o caso do (des)convite de Marine Le Pen para ser oradora na Web Summit em 2018 foi uma das maiores demonstrações de que em Portugal a Democracia ainda não entrou numa fase de maturidade, sobretudo debaixo dos tectos daqueles que falam dela diariamente e desfilam pelas avenidas no 25 de Abril.

 

O PCP foi logo um dos primeiros partidos a insurgir-se contra tal convite! É estranho quando estamos perante um partido que apoia Nicolás Maduro na Venezuela, Kim Jong Un na Coreia do Norte e só não apoia Estaline na Rússia (URSS) porque esse já morreu e mesmo os que o seguiram já não estão disponíveis para levantar o grande império. Importa lembrar que o PCP era também apoiante de um grupo terrorista financiado pelo tráfico de droga, nomeadamente as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

 

Outro dos partidos que contestou este convite foi o Bloco de Esquerda... Aquele partido clean, de gente que diz ser do povo e de mente aberta mas que tem vindo a mostrar a sua verdadeira face. Fizesse esse mesmo partido o ruído que fez durante os anos da Troika e agora com esta matéria, com casos como o de José Sá Fernandes, Ricardo Robles e os voltes de face de Francisco Louçã, já para não falar na brilhante gestão da única Câmara que alguma vez conquistou (Salvaterra de Magos) e da presença de Nigel Farage na Web Summit do ano passado, e teríamos sem dúvida um país bastante melhor! Ou então já não teríamos Bloco de Esquerda. E o que terão a dizer o Bloco de Esquerda e o PCP, países declaradamente anti-europeístas mas que depois não abdicam do assento parlamentar em Estraburgo e até em outras instituições europeias, já para não mencionar os subsídios europeus!

 

França, um país democrático, permite a existência de um partido como aquele da qual Marine Le Pen faz parte, já Portugal (ou meia dúzia de indivíduos que gosta de dizer que fala em nome de todos os portugueses - o que é errado, pois não são raras as vezes em que meia dúzia de indivíduos estão sozinhos nessas reinvindicações) não aceita sequer que essa senhora venha a um evento. É razão para perguntar: que Democracia é esta que permite que partidos que suportam o Governo possam agir como uma censura? A tal censura de outros tempos e que tanto criticam... Que Democracia é esta que só defende e só quer ouvir as ideias de um lado em detrimento do outro? Temo que seja mais um caso em que a vítima rapidamente passa a agressor e estes casos têm vindo a repetir-se, a revolução soviética começou assim, só para falar em temas queridos a estes dois partidos... Estamos perante aqueles casos em que os ofendidos animais da quinta, delegando nestes demagogos a sua sobrevivência, acabam por ser mortos ou então ficam a assistir à gula dos porcos!

 

De facto, dá que pensar... Se ambos os extremos são maus, talvez o pior ainda consiga ser aquele que vai absorvendo os impostos de todos nós com um discurso camuflado ao invés daquele que claramente marca a sua posição...

 

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Uma Cidade Portuária: Honfleur...

por Robinson Kanes, em 17.08.18

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Imagens: Próprias e GC

 

A minha paixão por cidades portuárias é mais que evidente... Durante toda a minha infância e adolescência (e ... idade adulta) o mar foi uma presença. Tendo uma parte da família ligada ao mar é natural que os genes cá estejam a desempenhar o seu papel.

 

Honfleur, embora não sendo um colosso, é aquela cidade onde o Sena encontra o Canal da Mancha e, segundo alguns (ou seja, eu), esse rio perde todo aquele romantismo, que alguns (ou seja, eu), não lhe reconhecem. Gosto, apesar de tudo, de Honfleur... Uma cidade pacata do Departamento de Calvados, em plena Normandia. Cidade tranquila, com uma pequena baía onde encontramos algumas embarcações de lazer que contrastam com aquelas que laboram e procuram as riquezas marinhas do Canal da Mancha. Ainda continuo a preferir que fosse ao contrário, mas o turismo, as cidades e o próprio funcionalismo a essa mudança obrigam.

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Gosto, sobretudo, do interior da cidade... Estar em Honfleur e não usufruir dos bares e restaurantes junto aos veleiros não é ir a Honfleur - essa área tem o nome de "Vieux Bassin". Todavia, e conhecendo relativamente bem (para um visitante) a Normandia, nunca tinha estado em Honfleur. Gosto dos cafés dentro da cidade, sobretudo, das ruas calmas, de uma forma diferente de estar numa cidade portuária que acabar por ser invadida por turistas ou não fosse uma das primeiras atracções turísticas para quem atravessa o Canal da Mancha vindo de Inglaterra ou até entrado pelo norte de França.

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Cidade comercial ao logo da História e uma das mais disputadas durante a Guerra dos Cem Anos (mais uma vez a proximidade com a vizinha Inglaterra), agrada-me também por ser a cidade onde nasceu Erik Satie - quem sabe, algumas das suas "Gymnopédies", não terão tido alguma inspiração por estas bandas... Não creio, todavia fica essa nota que reforça uma necessidade de visitar esta cidade. Com uma história ligada ao Impressionismo, é também uma cidade onde as artes plásticas têm o seu lugar, destaco apenas o "Museu Eugène Boudin" que alberga pinturas do artista e inclusive de Monet.

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Uma das grandes atracções, contudo, é a "Igreja de Santa Catarina"! Totalmente de madeira, muito por culpa da tradição naval, é deveras um encanto para quem gosta de arquitectura! Uma igreja de madeira, com o cheiro intenso da madeira velha e toda aquela austeridade particular, é uma supresa daquelas que marca!

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Cansados do cheiro da madeira e de tão grande riqueza, nada como parar na boutique de café junto ao restaurante "Entre Terre & Mer". Sendo os mesmos proprietários, tenho a agradecer a simpatia das duas colaboradoras que, servindo apenas dois cafés, nos trataram como se tivessemos jantar lavagante ou outras iguarias daquele mar ali tão perto - sem publicidade porque paguei os respectivos dois euros por cada um.

 

Finalmente, e falar deste aspecto num país com tão belas pontes como Portugal não é propriamente fascinante, todavia, nada como aproveitar as vistas (caras) da "Ponte de Normandie" para o Estuário do Sena ou até do mesmo rio ainda confinado num espaço mais curto pela "Ponte de Tancarville" - vindos do lado de Le Havre, não há como fugir.

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Monchique: Estão a Levar os Linces!

por Robinson Kanes, em 10.08.18

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Imagens: A minha GC 

 

 

Anteontem foi o dia do gato e foi também o dia em que, e bem, o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) deu ordens para a transferência de um grande património nacional para a Espanha: os Linces Ibéricos! 

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Felinos de uma beleza única, o Lince Ibérico é mais que um mero "gato" que anda por aí, é algo nosso e faz parte da nossa identidade como portugueses ou, se assim quisermos, como povo ibérico. Tenho nos linces uma paixão similar ao Lobo Ibérico, e devo reconhecer que foram mais uns que sofreram e têm vindo a sofrer com a acção do homem na natureza! Continuamos a destruir tudo e não nos parecemos preocupar muito com isso mesmo que os sinais estejam à vista!

 

Aproveito talvez esta temática para fazer uma pergunta: tantas vezes que escuto os "paizinhos" a falarem da perpetuação dos genes, das gerações vindouras, do bem-estar dos filhos, será que, quando não fazem nada para mudar um pouco o mundo em que vivem também têm esse pensamento? De facto, o "real-umbiguismo", mesmo no tema dos filhos, é uma realidade mas... Se isto correr mal, não esperem que os vossos filhos sejam especiais e sobrevivam!

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A forma como estamos desligados da natureza, a forma como olhamos para muitas espécies, como se fossem peixes em aquário ou animais que devem estar enjaulados para gáudio de muitos, deixa-me perplexo... 

 

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Por aqui, espera-se que os Linces regressem em breve, e vão regressar. São cidadãos nacionais, são o nosso património, fazem parte da nossa cultura e temos uma grande dívida para com eles... E já tenho saudades de, lá bem longe, de binóculos em punho, tentar vislumbrar um dos maiores tesouros do nosso país!

 

Bom fim de semana....

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Nascido nos anos 80, não tive oportunidade de sentir aquilo que muitos dizem ter sentido e outros que efectivamente sentiram, sobretudo em relação à música. Todavia, quando temos uma irmã que poderia ser nossa mãe, aliás, duas irmãs que o poderiam ser - tenho uma sobrinha bem mais velha que eu - não é descabido que nos fique algo de ambas - e na música não foi excepção com claras influências no bom e no mau gosto musical que daí adveio.

 

Falo sobretudo da minha irmã mais nova (sendo que é mais velha que eu) e que acabou por ser também um pouco minha mãe. Na verdade, os gostos musicais desta acabaram também por me acompanhar, e nesse campo fiquei completamente marcado com os anos 80 pois cresci a ouvir muitas das músicas que foram um autêntico sucesso. Hoje, acabo por ter em mim um pouco desses sons e que também escuto não raras vezes.

 

Existe a capa de um vinyl (com Laura Braningan encostada a uma rocha) que ainda hoje tenho na cabeça e já nem falo da música. Estava sempre na linha da frente do gira-discos lá de casa, pelo menos no gira-discos da minha irmã, qual teenager rebelde. Hoje, quando passa "Self Control" de Laura Braningan, não resisto a dançar aquele estilo slow 80's. Esta música levou a que desde a infância lá solte um "oh-oh-oh oh-oh-ho" de vez em quando e sem perceber muito bem a que propósito.

Outra das músicas que me persegue e por culpa da minha irmã já vem dos anos 70 - época onde eu ainda não era sequer pensado. "Goodbye Yellow Brick Road" é um clássico de Elton John que não me é indiferente. Porquê? Pela melodia, pela entrega à música e também pela letra, foi uma das que preservei e me recorda um estilo que já não se ouve por aí... Sim, a minha irmã chegou a ter o disco do Elton com a música "Nikita" (não contem a ninguém).

Se gosto de Bruce Springsteen e venero o senhor no meio musical e não só, devo-o à paixão que também a minha irmã tinha por este senhor e que dava direito a um poster na parte interior da porta do guarda-fatos. "Dancing in the Dark" foi das que mais ouvi e é das que mais gosto... No entanto, para quem como eu adora o Bruce, não faltam bons exemplos de grandes malhas... Mais um daqueles que, cada vez que abre a boca para cantar arrasta multidões!

Outro indivíduo que não parava de tocar lá por casa era o incontornável David Bowie. "Heroes" foi uma das músicas que me acompanha desde então e que é indespensável que me apetece ouvir este senhor. Com "Ashes to Ashes" ou até "This is not America" é o complemente perfeito para um óptimo momento em que um sofá e uma boa música fazem toda a diferença na vida de cada um de nós.

Outra das boas heranças musicais que tenho da minha irmã é outro senhor que já não está entre nós: George Michael. Penso que a adolescente que foi não dispensaria algumas das suas melhores músicas. Desses tempos, pois muitas fui descobrindo, guardo sobretudo uma que ecoava bastante lá por casa, e mais tarde, acabou por dar azo a grandes conversas e dissertações: "One More Try". Nessa altura a minha irmã era uma romântica, enfim, que fazer... Hoje não é e... Não sei se isso é bom ou mau... De bom, pelo menos ficou este senhor!

Uma banda pura dos anos 80 e com letras adequadas ainda a uma época de inquietação mas de alguma esperança. Os Tears for Fears são outra daquelas bandas que muito estimo, algo ao nível dos Spandau Ballet, Duran Duran, The Clash e tantas outras que poderia enumerar. Ainda me lembrei dos Roxy Music e especialmente de Bryan Ferry, mas isso já é outro planeta. Lembro-me de ouvir sem perceber uma palavra de inglês "Sowing the Seeds of Love". Poderiam ser tantas outras, como "Everybody Wants to Rule the World", "Watch me Bleed", "Pale Shelters" ou até "Swords and Knives".

Outro mestre que não faltava lá por casa era o tio Phil. Falo de Phil Collins, não tanto na sua era Genesis, que aprendi a gostar mais tarde, mas já num Phil a solo. Lembro-me de "I Don't Care Anymore"... Não porque fosse uma música ouvida pela minha irmã, mas porque foi o mote para gostar tanto do baterista genial que também é um cantor fantástico... 

E não poderia faltar Sting... Muitas das músicas que aprecio e que fazem parte da carreira deste senhor encontram-se nos anos 90, no entanto, "Englishman in New York" ficou nos anos 80 como uma das grandes músicas do século. Foi com esta música que conheci Sting e contribuí para preservar mais um vynil da minha minha irmã na colecção lá de casa. Mais uma daquelas vozes cujo paralelo teima em aparecer. Uma música para verdadeiros cavalheiros...

Mas nem só de coisas boas foram feitos esses tempos - cresci traumatizado pela paixão parola que a minha irmã tinha por um dos vocalistas dos "Modern Talking" - o senhor moreno de cabelos compridos. Com direito a poster, um pouco contra a vontade do meu pai, lá tive de olhar para aqueles discos todos e crescer ao som de "You're my Heart, You're my Soul". Pior não poderia ser e, além do hit anterior, sei de cor músicas como "Brother Louie", "Cheri Cheri Lady" e até algumas partes de "Lady Lai"... Sim... A minha irmã é parola e contagiou-me com os Modern Talking, fantástico não é? Não...

Esquecendo um pouco a vergonha que já passei, termino com algum bastante melhor: INXS. É claro que a minha irmã só aparolou a sério a partir dos 28, ou seja, até lá teve muitas coisas mais... Cool? "Mistify" foi uma delas. Mais uma daquelas músicas para se ouvir enquanto se conduz, quando apetece bater em alguém ou então simplesmente quando nos apetece ser rebeldes lá por casa...

Poderia falar de mais, e talvez volte a falar, mas para já estas dez músicas já mostram um pouco do que ía, e de certo modo, ainda lá vai por casa.

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Encontrei Philippe Noiret...

por Robinson Kanes, em 08.08.18

 

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 Fonte: Própria

 

Já muitas vezes falei de um dos meus actores preferidos - é ele Philippe Noiret. Abordei este grande actor aquando do meu artigo sobre "Il Postino" e também aquando do artigo sobre "Cinema Paradiso". Todavia, este actor mereceria tantos outros destaques, nomeadamente com um dos filmes que lhe deu mais prémios, falo de "La Vie en Rien d'Autre", datado de 1989 e obra do realizador Bertrand Tavernier. Já em 1984 havia, também com a presença de Noiret, realizado "Coup de Torchon".

 

Mas o que hoje me faz recordar Noiret é ter descoberto o mesmo em Montparnase, mais precisamento no cemitério onde está sepultado e onde, apesar das minhas pesquisas, nunca encontrei menção à sua presença. Se Sartre e Beavouir, ou até Beckett e Duras já estavam na minha lista, ter encontrado Noiret por mero acaso enquanto vagueava entre campas foi uma grande surpresa (até porque nem está nos destaques que o cemitério tem para personalidades reconhecidas), uma surpresa boa nesta visita ao cemitério de Paris que me faltava.

 

De facto, sabendo que ali está apenas terra, foi como se tivesse encontrado o velho Alfredo com aquele sorriso tão próximo, tão franco e tão puro. Sim, estava ali Alfredo, estava ali Philippe Noiret que me encheu ainda mais de alegria quando me pude aperceber da sua paixão por cães e por cavalos - desconhecia a primeira. Simples como as personagens de Noiret, devo dizer que foi um dos pontos altos em mais um regresso a Paris.

 

Enquanto procurava o grande mestre Becket, encontrei Noiret... A minha tristeza? Não me poder ter sentado entre os dois e ter falado um pouco de dramaturgia, literatura e cinema... Acredito que entre mortos, saíria mais vivo e mais rico que nunca.

 

 

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