Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




O Homem que Via Passar os Aviões...

por Robinson Kanes, em 29.04.18

 

IMG_8940.JPG

Fonte da Imagem: Própria.

 

Ser spotter... O spotter é um apaixonado por aeronáutica que se diverte a apreciar, a fotografar, a filmar e até a saber todos os horários e matrículas de aviões entre tantas outras curiosidades.

 

Foi neste estado de espírito que decidi experimentar um pouco a actividade, até porque em aeroportos não tenho por hábito tirar fotografias aos aviões... É parolo...

Digamos que não é propriamente, e falo de mim, a actividade mais entusiasmante no longo prazo, mas sempre se conseguem captar bons momentos.

IMG_8869.JPG

Vim também a saber que existem aeroportos que criam eventos para spotters e até espaços próprios nas imediações dos mesmos para que estes apaixonados possam tirar algumas fotografias. Fotografias e vídeos pela internet não faltam, pelo que, deixo apenas um pequeno registo da minha manhã nesta actividade que tive oportunidade de experimentar pela primeira vez.

IMG_8884.JPG

O outro lado desta actividade é o facto de convivermos com vários profissionais que aproveitam para apanhar um pouco de ar antes de continuarem com o seu trabalho e ainda com pais que procuram fazer as delícias dos filhos - uma coisa é certa, entre um avião no tablet ou na televisão e outro ao vivo, acredito que a experiência pode ser bastante enriquecedora em todos os aspectos.

IMG_8867.JPG

Este pode ser também um óptimo passatempo para tirar as pessoas de casa, afinal entre estar dentro de quatro paredes a ver informação ou programas inúteis, sempre se apanha um bocadinho de ar e se dá um desgate extra aos ouvidos temperado com um cheiro a gasolina de avião.

IMG_8945.JPG

E havendo pouco mais a dizer, deixo-vos mais uma fotografia tirada enquanto alguns comerciais faziam tempo entre visitas e dois casais deixavam que os filhos, com os braços, pudessem acompanhar as descolagens das aeronaves.

IMG_8892.JPG

 Voltei! Deixo-vos mais uma do velhinho "Falcon 50" da Força Aérea Portuguesa a descolar.

IMG_8923.JPG

Bom Domingo...

Autoria e outros dados (tags, etc)

IMG_2645.jpg

Fonte das Imagens: Própria 

 

 

Antes de saírmos do ponto de encontro combinado no artigo passado, partilho convosco o facto de ter lido alguns maus comentários sobre Barcelona. De facto, nenhuma cidade é perfeita e podemos sempre apontar pontos negativos ou até dizer que não gostamos mas daí a dizer que não se gosta de Barcelona "porque sim" e baseado somente numa experiência de fim-de-semana, devo dizer que é bastante redutor.

IMG_1198.jpg

Deste modo, continuemos pela zona turística, mas também antiga, de Barcelona. Tomamos um café naquela que foi a minha casa, com o "peixeiro" do "Bon Preu" da Ausiàs March que me ensinou a fazer um "rape" (tamboril) com caril e que ainda hoje faz as delícias daqueles que frequentam a nossa casa. Barcelona também é isto, fazer amigos em cada canto, em cada espaço, mesmo que seja um supermercado e, de facto, isto não conseguimos em dois dias.

 

Vamos então? Façamos a Ausiàs March, atravessando a "Plaça Urquinaona" e entremos na Plaça Catalunya. Já conseguimos ouvir a "Rambla" e todo aquele movimento desta praça, um dos principais pontos para apanhar transportes em Barcelona. Se a praça é bela? No contexto de Barcelona é mais uma praça, mas comecem a apreciar as gentes e a ver a vida a acontecer e a vossa opinião muda em segundos!

IMG_2840.JPG

Mas caminhemos, a Catedral aguarda por nós! Para mim, quem tiver de escolher entre a Catedral do século XVI e a Sagrada Família, eu sugiro que escolha a primeira. Dedicada a Santa Eulália - aliás, a cripta com o túmulo desta santa é uma das atracções - esta catedral tem uma fachada algo ao estilo francês porque só no século XIX se reuniram fundos para terminar a mesma. Com 29 capelas, no exterior, apesar da beleza, não a podemos incluír no roteiro das grandes catedrais, sobretudo porque em Espanha tem uma forte concorrência. Mas é também no exterior que encontramos uma das praças mais movimentadas da cidade e não é só com turistas - é aqui que ao fim de semana, os habitantes da cidade, dançam a sardana - a dança de roda catalã que representa a unidade.  Falámos também de Santa Eulália, pois aquela estátua no topo da torre central é desse mesma santa.

IMG_2632.jpg

No entanto, quando temos a impressão de não estarmos perante uma catedral de Burgos ou até mesmo de Colónia, entramos e tudo muda! Visitem o coro e procurem encontrar a multiplicidade de estilos presentes na catedral, que vão desde a construção paleocristã até ao estilo gótico francês passando pelo românico e gótico (catalão). Apesar de tudo, também não é esta a minha igreja preferida em Barcelona... Quiçá passemos lá no próximo artigo.

 

Saímos da catedral e eis que chegamos à Plaça del Rei, ou melhor, aos vestígios de Barcino, uma povoação romana! Se por fora ficamos com essa sensação, esperem para conhecer o subsolo e as relíquias que por lá se encontram - um dos museus que merece a visita é o "Museu d'História de Barcelona". Também é nesta praça que podem namorar um pouco - pode parecer estranho, mas uma das imagens mais românticas que tive da cidade foi aí mesmo... 

IMG_2845.jpg

 

Ainda andamos pelo centro, ainda estamos rodeados de turistas - algo que em Barcelona é assunto delicado - e ainda nos conseguimos apaixonar por esta cidade, todavia, é também aqui que uma estada mais prolongada nos permite conhecer aqueles recantos aos quais "só" os habitantes de tão bela cidade conseguem ter acesso... E no meio disto tudo, vou voltar ao caminho da "Plaça Sant Jaume" e procurar aquela mercearia familiar que vende um presunto "extremeño" de comer e chorar por mais...

 

IMG_2640.jpg

 

 

Memórias de Ausiàs March e da Barcelona Gipsy Balkan Orchestra...

Pelo Passeig Lluís Companys até à Torre Agbar...

Da Cascata da Ciutadella até ao Port Olímpic com Mompou...

Barceloneta, Onde Fica o Coração...

Pelo Port Vell até Drassanes...

De Montjuïc te Contemplo...

Pela Rambla... Contagiado pela Imensidão de Gente!

Pelo Barri Gòtic: Da Plaça Reial até à Plaça Sant Jaume.

Autoria e outros dados (tags, etc)

image64.jpg

 Fonte da Imagem: http://alfarrabio.di.uminho.pt/arqevo/arqetnoevo.html

 

 

Rio de Onor para o Futuro

 

Uma economia mais humana procura outro modo de fazer economia, outro modo de instalar vida nos territórios, surgindo aqui a questão da materialidade que acaba também por ser um meio, Não se desvincula das relações sociais e culturais e vai buscar formas de auto-governação o que lhe dá também uma dimensão política (França Filho, citado por Estivill).

 

É daqui que devem partir as comunidades do futuro. Rio de Onor é hoje uma vila museu, uma vila que habita na memória de alguns interessados pela temática antropológica. No entanto, Rio de Onor pode ser também numa óptica sistémica e policêntrica (Laville, 2013) um exemplo para o futuro - e para desenvolver no futuro - quer no território da própria vila, quer servindo como inspiração para outras, com os devidos ajustes que até a História já se encarregou de fazer (17).

Os Rios de Onor do futuro terão de incorporar a visão macaronésica defendida por Amaro, mas também ser uma alternativa e não um ataque à economia dominante, apresentando-se como uma academia/economia doméstica através do “doar” sem grandes contrapartidas mas mais afectiva. A grande história da humanidade foi sempre neste ramo da economia e não no capitalismo (Polanyi: 2000). À visão da Macaronésia já desenvolvida, importa não somente defender esta, é importante aliar a questão da sua sobrevivência. É neste contexto que Estivill defende sete pontos fundamentais para o sucesso destas iniciativas:

 

  1. Articulação entre a dimensão económica e social;

  2. O nascimento da “organização” tem de ser parte do processo e não um entusiasmo do momento, que se perde ao fim de alguns dias;

  3. A importância dos fundadores, terem alguma experiência em trabalhos colectivos ou em gestão de equipas;

  4. Enraizamento territorial com correspondência às necessidades dos locais e que projectem mais a terra que a organização em si (o exemplo galaico português é um mau exemplo que poderia ser revisto para o bem das terras da raia);

  5. O triunfo do geral face ao particular – numa sociedade cada vez mais individualista este aspecto é fundamental.;

  6. Liderança. Esta é uma das questões-chave. Uma liderança participativa e democrática, é o garante de sucesso para toda e qualquer organização;

  7. Capacidade de adaptação: num mundo que muda a cada segundo, quem não conseguir acompanhar a mudança, está condenado a afogar-se no passado.

 

Com este conjunto de factores a trabalhar entre si, podemos efectivamente olhar para comunidades de sucesso e que poderão ser os "Rios de Onor" do futuro.

 

 

17. Seria hoje impensável que as mulheres fossem afastadas do conselho, somente pela questão de género, num país como Portugal.

 

Continua...

 

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (1)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (2)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (3)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (4)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (5)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Há Ceviche e Flamenco na Tasca do Robinson...

por Robinson Kanes, em 24.04.18

IMG_3162.JPG

Fonte da Imagem: Própria

 

 

 

A vida é feita, bem o sabemos, de pequenos nadas que é o que mais conta para o nada que somos no fácil e correntio.

Vergílio Ferreira, in "Conta Corrente II"

 

 

Aqui nunca se falou de comida, aliás, já se falou muito de comida mas nunca se mostrou a verdadeira iguaria. Desta feita, e posto que o fim-de-semana foi caseiro, também resolvi trazer para aqui um bom pitéu!

 

Por natureza, sou esquisito com o peixe (se fosse só com o peixe...) e depois de uma ida ao mercado, lá veio um peixe-espada preto para casa! Não foi bem um peixe-espada, afinal o peixeiro é um indivíduo daqueles com quem rapidamente se cria uma boa amizade e logo se ofereceu para fazer um trabalho que eu não desejo a ninguém mas que teria de ser feito se não existisse tanta simpatia - transformar o peixe-espada em filetes!

 

Feito o trabalho, e como estamos a falar de cerca de dois quilos e meio, aproveitei os rabos e dediquei-me ao ceviche, um prato da América do Sul. Para os peruanos é até parte do seu património cultural, ou não fosse o Perú o país com o registo mais antigo desta iguaria.

 

Devo falar da receita? Sempre a posso colocar nos comentários, no entanto o resultado final foi este:

 

Eu sei que podia ser melhor e que isto não é um espaço culinário e que pode ser o primeiro passo para assassinar o blog, mas tenho de pelo menos mencionar os ingredientes utilizados:

 

-filetes de peixe-espada preto

-cebola roxa

-malagueta vermelha

-coentros frescos

-sal iodado

-batatas pequenas

-pimenta moída na hora

-limão

-abacate

-manga

-abacaxi

-azeite 

 

Todavia, o Robinson na cozinha precisa de utensílio fundamental e não é a bimby - em casa não existe. É a música... Cozinhar sem música e sem uma boa companhia não é nada agradável, pelo que, a companhia da alemã, um copo de Moscatel de Setúbal, Quinta da Bacalhôa, colheita de 2014 e ritmos andaluzes foram a escolha! Por acaso, é algo que acontece com alguma frequência, mas enfim...

 

Entre os vários escutados, destaco uma das minhas musas musicais: Estrella Morente, a cantora de flamenco granadina e que tem também o seu espaço nas playlists cá de casa.  A música que escolhi, foge um pouco a alguns registos da cantora e até já serviu de banda sonora ao filme "Volver" de Pedro Almodovar, com Penélope Cruz e Carmen Maura - acham que aquela voz a cantar no filme era a Penélope? O filme valeu aliás, o Óscar, o Goya e o Leão de Ouro a Penélope.

 

Esta é uma música que fala de memória, de regressos, de medos do passado e que... Não tem nada que ver com ceviche... Mas fica a nota, nem tudo tem de ser linear.

 

Hoje, até porque não dá muito trabalho, cheguem a casa, não liguem a televisão e coloquem a Estrella Morente a cantar e atirem-se ao ceviche - cuidado é com o peixe que precisa de ser muito fresco. Eu sugeriria a versão de Morente para "La Noche de mi Amor" ou então na voz e a presença da costa-riquenha Chavela Vargas, mas isso já é entrar num mundo que não é o nosso e requer um artigo só para ela. 

 

Boa Semana e apaixonem-se...

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um Sírio em Český Krumlov...

por Robinson Kanes, em 18.04.18

IMG_4345.jpg

Fonte da Imagem: própria

 

Estava uma tarde de frio, de um frio aconchegante, longe daquela intensidade que nos congela os ossos quando a Boémia decide testar os limites do sofrimento humano. A baixa temperatura, associada ao tempo nublado, convidava a uma entrada na "ilha" e a uma das suas praças onde, numa pequena feira de Natal, se poderia comer uma carne assada ou então o tradicional  "trdelník".

 

Não sentimos a simpatia dos vendedores daquela praça, ou talvez esse espírito não estivesse em nós, afinal já eram quase 300 quilómetros desde Bratislava. Procurámos por esse espírito ao longo das ruelas de uma das belas cidades do centro da Europa e foi numa pequena loja que parámos para vencer a fome. Por fora, uma loja simples, sem grande história, colorida mas confundindo-se com todas as outras. Quase que numa espécie de desespero entrámos, afinal já estávamos outra vez perto do rio Moldava, o mesmo que atravessa Praga.

 

Lá dentro, um pequeno espaço onde o "kebab" era rei. Um balcão sujo para comermos de pé, uma mesa com duas cadeiras, bebidas de um supermercado low cost dentro de um frigorifico de self service e as paredes com um sem número de fotografias com monumentos milenares que chamaram a minha atenção. Por momento dei comigo na Turquia e pelo médio-oriente.

 

O empregado era árabe. Numa primeira abordagem apresentou-se mais fechado mas rapidamente abriu o sorriso às nossas perguntas. Disse-nos que nos havia confundido com húngaros e daí a sua reticência em arriscar um comportamento mais expansivo. Falámos muito de Marrocos, da presença dos árabes em Espanha e Portugal e da nossa paixão pela Turquia - isto até ter indagado que duas das fotografias eram de Palmira. Foi aí que percebemos que não estávamos perante um turco mas sim perante um sírio que tinha fugido da guerra.

 

Enquanto comíamos um kebab, e também enquanto o sírio ia brincando, mexendo com as mãos na alface e na cenoura do balcão que albergava as cubas com que ornamentava a iguaria da casa, ficámos a saber mais sobre as suas origens - a família que vivia na Síria, alguns em Aleppo e outros próximos de Palmira - foi neste intervalo que pudemos ver fotografias de Palmira completamente destruída, fotografias reais, daquelas que não surgem nos jornais mas nos olhos trágicos daqueles que sempre viveram naqueles territórios, fotografias actualizadas que, depois comparámos em nada tinham a ver com as últimas que haviam chegado aos media.

 

Apesar de alguma tristeza que os seus olhos não conseguiam disfarçar, o sírio mostrava-se optimista no seu sorriso humilde. Fazia perguntas acerca de Portugal e de como poderia lá montar o seu negócio - respondemos que não era fácil e de como o nosso país também não era tão atraente como se vendia nos postais turísticos. Foi aí que levantou os olhos, sorriu, estendeu as mãos para a alemã e disse: "mas vocês têm paz".

 

Mas nós temos paz, de facto. Dei comigo a pensar no que seria pior, se enfrentar toda uma máfia que prolifera no nosso país ou se, realmente, deitar-me sem saber se no dia seguinte acordaria tal o estrondo das bombas à minha volta. Pensámos ambos em como era morrer sufocado por gases tóxicos, como era ser atingido por uma bala perdida enquanto se vai comprar algo para comer no intervalo em que também as peças de artilharia precisam de respirar antes de debitarem o seu fogo.

 

Para aquele Ser, pessoas como Assad,Obama, Trump e Putin eram todos terroristas, pouco diferentes de um Estado Islâmico. Para aquele Ser, qualquer um deles podia acabar com a guerra num minuto mas não era essa a sua vontade nem o seu interesse. Perguntei como era possível que o Presidente de um país ordenasse um ataque químico como de Ghouta em 2013 e que matou milhares de compatriotas - hoje, quando muitos partidos políticos, facções e pseudo-personalidades falam de mentira em Douma e tentam também influenciar e tirar proveitos dessas declarações, é importante fazer recuar as mesmas uns 5 anos e perceber que nada disto é novo e que esse arsenal químico existe e é utilizado! Perguntei e o sírio baixou ainda mais os olhos, não me respondeu - optei por não desenvolver o assunto.

 

Pedi um copo para despejar o refrigerante que tinha tirado do frigorífico. De entre vários copos, pois consegui apreciar a procura, escolheu o mais limpo. O copo mais limpo que levou a que a "alemã" arregalasse os olhos tal era a gordura que envolvia o mesmo, muito por culpa de uma má lavagem. Não era novo para nós, despejei algum refrigerante e bebi, não seria de bom tom beber pela garrafa. A conversa continuou e ficámos a saber o destino, à data, da irmã e do irmão daquele indivíduo... Dos sobrinhos... Da restante família... Ficámos a conhecer os rostos e aqueles olhares, apesar de tudo... Felizes. Estarão ainda vivos?

 

Entrou um checo, conhecido já do proprietário do estabelecimento. Cumprimentou, assistiu um pocuco à nossa conversa, sorriu... Sorriu bastante e em checo disse algo como "volto mais tarde". Deve ter pensado que eu era árabe, sobretudo porque entrou no momento em que eu dizia também ter esse sangue e orgulhar-me desta mescla de culturas em que nasci e cujos meus genes não me deixam mentir.

 

Como bom árabe, ofereceu-se para nos fazer um café. Café de cafeteira, como tem de ser entre seres que partilham esse "maldito" sangue! O café veio prolongar a conversa e permitir que numa cidade Património da Humanidade, mais que construções e um sem número de património material, o verdadeiro Património da Humanidade, indestrutível e rico estava ali, naquelas pessoas que conversavam. Gostámos da cidade, mas sem dúvida que a grande recordação que de lá temos foram estes momentos onde o frio da Boémia foi vencido pelo calor de uma boa conversa, de uma amizade, do conforto da troca de laços. O aroma de um café que não era brilhante mas carregado de amizade, perseguiu-nos até ao adormecer.

 

Chegada a hora de pagar, indaguei do valor do café, erro crasso e que já não deveria permitir a mim mesmo. Reparei que o sírio quase que ficou ofendido, tendo eu, sido obrigado a dizer que estava demasiado ocidentalizado e ele que me perdoasse o facto de me ter deixado levar por aquela lógica. Quebrámos o gelo, e antes de sair, entre um forte abraço, olhámos mais uma vez aquelas fotografias e o sírio... Queríamos levar aquele momento connosco e sem qualquer suporte digital afinal, dia menos dia iria desaparecer - queríamos registar aquele acontecimento no melhor disco rígido do mundo e assim o fizemos.

 

Não vou falar dos ataques dos últimos dias, mas não posso deixar a revolta que sinto ao, num dos países que mais me apaixona naquela região, a par do Líbano, ver e ouvir o que vejo. Revolta-me que tenha de assistir a uma matança que ninguém percebe muito o porquê, que tenha de assistir a um ditador que não hesita um segundo em matar todo o seu povo, seja de que forma for! Sugiro, aliás, que se matem todos os sírios e que fique Assad e a sua legião a governarem um país vazio e que não alimente as vidas de luxo que este e a sua família não hesitam em ostentar... Tudo isto enquanto cartuxos de gás matam o seu povo e tornam, como dizia Gabriel Garcia Márquez,  invisíveis todos aqueles que morrem, porque é esse uma das faces da fatalidade.

 

Entretanto, em Český  Krumlov, espero que o sírio continue a mostrar as fotografias da família com um sorriso nos lábios e um brilho nos olhos e não com as lágrimas de quem já só pode contemplar aqueles rostos numa fotografia.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ajudar ou Humilhar?

por Robinson Kanes, em 16.04.18

 

3-Genuine-people-fake-people.jpg

 Fonte da Imagem: https://www.curejoy.com

 

 

Alguns acontecimentos recentes trouxeram à luz do dia uma discussão que se impõe, discussão essa que, muito popularmente, defino como o conceito do “mas ela não queria atravessar”.

 

Quantas não são as situações em que alguém vos está a ajudar com algo e levanta a voz e adquire uma expressão corporal e gestos que vocês ficam com a sensação de que essa pessoa não vos está ajudar mas a humilhar ou a tirar proveito da vossa fraqueza? Poderia pegar na célebre foto de Marcelo Rebelo de Sousa a abraçar uma das pessoas afectadas pelos incêndios e descarnar todo aquele quadro até se perceber que ali não estava solidariedade mas uma espécie de humilhação – não irei por aí, até porque deixo essa análise para os profissionais da área.

 

Com efeito, o que eu pergunto é: se levantar o braço e pedir ajuda revela humildade, revelará sempre humanidade alguém ajudar-vos e não vos dar espaço para aprenderem ou adquirirem algum empowerment?

 

É uma questão que importa pensar, até para nos tornamos mais autónomos e agir como indivíduos que podem e devem estar preparados para muitos dos desafios com que lidamos todos os dias e temos receio de enfrentar.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Lagarto! Lagarto! Lagarto!

por Robinson Kanes, em 13.04.18

IMG_4280.JPG

Fonte das Imagens: Própria 

 

Um pouco por todo o país, os nossos amigos verdinhos e simpáticos já começam a sair das tocas... Sempre tive um fascínio por estes animais, não fosse lá por casa ter tido durante uns verões consecutivos um amigo que por ali ficava no muro e "afastava" todos aqueles que tentavam passar perto de casa...

IMG_4267.JPG

Nem os cães o assustavam e lá estava ele, no muro entre um pequeno corredor e as escadas, deitando a sua língua de fora a quem passava - falta de educação? Medo? Poderia ser tudo, mas foi ficando e repetia a estada todos os anos - nem mesmo um jacto de água acidental o afastou.

IMG_4303.JPG

Como ele, existem outros tantos que por aí estão escondidos, sobretudo entre as ervas ou nos buracos do muros ou das pedras. Não é raro, em muitas caminhados ouvirmos aquele movimento nas ervas e ficarmos a olhar sem nada encontrar: de facto, na maioria das vezes serão pequenos roedores, lagartixas e até cobras, mas os lagartos também não são raros.

IMG_4307.JPG

Mal amados por muitos, quando entram em casa dos humanos são rapidamente corridos ou mortos, no entanto, o mal que fazem é muito pouco comparado com os humanos. Como muitos outros animais, sobretudo répteis, também os lagartos sofreram com as susperstições e alguma sabedoria popular e religiosa que os fez inimigos das pessoas. No entanto, mesmo quando espojado num qualquer muro, se não fugirem à nossa passagem, ali ficam olhando-nos preguiçosamente e vendo-nos passar.

IMG_4297.JPG

 Será motivo para dizermos a estes companheiros, mas com um sorriso na cara e sem pânico: Lagarto! Lagarto! Lagarto! Ou então sempre podemos ficar assustados e dizer "cobras e lagartos" dos mesmos.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Múmias nos Corredores das Empresas...

por Robinson Kanes, em 09.04.18

 

598e1300d9a6a0a8268b4b17-750-563.jpg

Fonte da Imagem: http://www.businessinsider.com/recruiter-says-to-speak-up-if-a-hiring-company-ghosts-you-2017-8

 

 

Um destes dias tive oportunidade de visitar uma empresa portuguesa, uma daquelas organizações empresariais de topo, que todos admiram, que é um exemplo nas boas práticas. Estou a falar de uma daquelas organizações empresariais onde não faltam centenas de actividades de team-building, uma daquelas organizações empresariais onde muitas outras organizações e indivíduos fazem questão de dizer que fizeram consultoria mesmo que tenham realizado empreendimentos de... nada...

 

Espantou-me, com efeito, que ao chegar a essa organização e tendo passado por meia dúzia de pessoas, nem uma me tenha dito boa tarde! Aliás, pelo semblante que apresentavam, até tenho dúvidas se, entre colegas, o fariam. Como tive de esperar, porque cheguei cedo, pude assistir a um sem número de indivíduos mudos e “trombudos” - aqueles indivíduos que, pelo look, usam roupa moderna e cara, que apresentam aquele semblante do “yeah estou muito à frente”, que usam o smartphone mas, na realidade, a verdade é que podemos rechear alguém a ouro num minuto mas, trabalhar a mentalidade e a educação já pode demorar um milénio, e mesmo assim, o sucesso não é garantido. Lembrei-me logo de muitos empreendedores e gestores casual que o são no vestuário e na imagem, mas em termos de mentalidade não são diferentes do antigo merceeiro.

 

A verdade, é que estas personagens passavam por mim, umas atrás das outras e nem uma – foram umas 30 – conseguiu esboçar um sorriso ou, pelo menos, soltar aquele “boa tarde” arrancado a ferros e dito entre dentes.

 

Na verdade, se eu fosse alguém com responsabilidade naquela organização e soubesse que era esse o comportamento da minha equipa, podem ter a certeza que muitos dos que lá habitam não estariam lá por muito mais tempo! Uma organização que gasta milhares de euros em formação, programas de engagement e num sem número de actividades paralelas, em meu entender, não pode consentir que estas múmias andem pelos seus corredores – e não, não fui a uma entrevista de emprego, estive lá, mesmo como cliente.

 

Podemos sempre dizer, sobretudo os mais sindicalistas: “mas eles andam assim porque a organização não lhes dá condições!”. Podemos sempre dizer isso, mas porque é que eu tenho de deixar que uma organização empresarial com más profissionais me destrua e me transforme numa múmia? A tendência a que assisto é a de que ninguém se importa de ser esses zombies desde que, no fim do mês, o dinheiro possa cair na conta, mesmo que a felicidade não seja mais importante que uma ostentação balofa. E também friso... Uma organização são as pessoas, e nem sempre são os líderes que provocam este ambiente.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

IMG_2278.JPG

 Fonte das Imagens: Própria.

 

 

Da última vez não resisti ao local das grandes multidões, daquela "Rambla" que nos contagia mas que vai perdendo alguma da sua autenticidade. O "Barri Gòtic" é, talvez, uma das melhores alternativas, embora, também aí, não possamos fugir dos turistas que, apesar de tudo dão um colorido especial à cidade.

IMG_2289.JPG

 

Combinei um ponto de encontro na "Font Canaletes" para descermos até à "Ronda Litoral", mas vamos fugir à fila das massas e penetremos no Barri Gòtic onde, enquanto descemos a "Rambla", sugiro que viremos à esquerda antes de chegarmos à "Plaça del Teatre" - é aí está um dos locais que, para mim, é dos mais belos de Barcelona! Dizia muitas vezes aos meus amigos catalães e não só, que aquela praça sempre cheia de vida me fazia lembrar o sul de Espanha, as praças de Andaluzia - a praça foi inspirada, contudo, nas praças parisienses.

 

Perco as vezes que, com a "alemã", por lá tomávamos uma bebida ou simplesmente nos sentávamos junto à fonte assistindo ao movimento nocturno, às gargalhadas e ao deambular dos empregados de mesa procurando encontrar clientes - admito que é o meu cantinho andaluz em Barcelona e que me custa sempre deixar nas visitas que se seguem à minha permanência na cidade. Finalmente, também nesta praça, Gaudí teve mão ao desenhar os seus candeeiros.

IMG_2273.JPG

Com a "Artiliana" da banda de Barcelona Gipsy Balkan Orchestra nos ouvidos, já estamos perto do "Palau de la Generalitat" e do "Ajuntament", por isso nada como caminhar para uma outra praça, mais administrativa mas igualmente cheia de gente: a "Plaça de Sant Jaume". Pelas vielas até lá, não convém esquecer de comprar presunto ibérico, queijos e outras iguarias espanholas em algumas mercearias antigas que ainda sobrevivem. E porque não parar na "tasca" mais feia, mais pequena e com mais mau aspecto e deixar que os petiscos dispostos em cima do balcão alimentem o nosso desejo de comer após umas boas caminhadas... Daí até ao "Mercat Sta. Caterina" não faltam desses recantos. Confesso que um dos meus favoritos era bem perto da "Plaça de Sant Jaume" numa transversal à "Carrer de Ferran", mas só lá indo convosco, consigo precisar a localização e assim vos deixar saborear um frango bem temperado ou uma "Paella" de rua como não há igual.

IMG_2667.JPG

Aqui fervilham os habitantes e os visitantes que se deixam contagiar pelas compras ou então por um bom gelado que, em qualquer altura do ano, sabe sempre bem por estas paragens. Percorrer todos estes recantos é sem dúvida uma das melhores opções em Barcelona, onde a cidade se fecha entre edifícios antigos e permite que em cada rua e ruela as vozes circulem de um modo e com uma entoação que só encontramos nas cidades espanholas.

IMG_2664.JPG

Parece pouco, mas estar em Barcelona não é ir do "ponto A" ao "ponto B" é viver uma experiência em cada recanto, é apreciar as gentes que se confundem entre o cosmopolita e o periférico, entre o ocidente e África, uma metrópole do sul com características únicas que não se resumem a monumentos, espaços culturais ou restaurantes e cafés.

IMG_2910.JPG

Deste modo, onde combinamos para a próxima? Que tal em frente ao "Museu Miba"? Os rincones mais religiosos esperam por nós...

 

Memórias de Ausiàs March e da Barcelona Gipsy Balkan Orchestra...

Pelo Passeig Lluís Companys até à Torre Agbar...

Da Cascata da Ciutadella até ao Port Olímpic com Mompou...

Barceloneta, Onde Fica o Coração...

Pelo Port Vell até Drassanes...

De Montjuïc te Contemplo...

Pela Rambla... Contagiado pela Imensidão de Gente!

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Artista Louçã...

por Robinson Kanes, em 05.04.18

Francisco-Louçã.jpg

Fonte da Imagem: https://events.economist.com/events-conferences/emea/lisbonsummit2018

 

 

Que Francisco Louçã era um artista já não era uma novidade... Só um artista como este indivíduo poderia integrar instituições que o próprio critica, nomeadamente o Banco de Portugal e até o próprio Parlamento Europeu porque foi o líder de um partido que defende o fim da União Europeia mas aproveita o lugar nas cadeiras de Estrasburgo. Francisco Louçã é também aquele político vestido de professor descontraído que gosta de atacar tudo e todos do alto de uma pseudo-intelectualidade mas, quando confrontando para um debate directo, rapidamente desaparece ou, quando aparece, embrulha-se num sem número de considerações com palavras que poucos entendem até perder a paciência e mostrar aquilo que verdadeiramente é - não faltam episódios destes, sobretudo em célebres debates com membros do Governo de José Sócrates.

 

Francisco Louçã é o típico colaborador com 40 anos de casa que diz mal de tudo e de todos na organização empresarial mas nunca apresenta a carta de demissão - essa é uma patologia imensa que tem afectado muitos que o rodeiam, Fernando Rosas, por exemplo é mais um. Perdoem-me, no entanto, a comparação, até porque Francisco Louçã desconhece um pouco da realidade empresarial, sobretudo por ter vivido sempre à sombra do erário público.

 

Após esta introdução, ontem não deveria ter ficado espantado com os comentários do mesmo na TSF mas... O bom artista é isso mesmo, surpreende-nos mesmo quando não esperamos nada de novo.

 

O critico de todos os impostos surgiu a defender esses mesmos impostos e mais alguns e até uma certa carga fiscal - afinal o Bloco de Esquerda sustenta o Governo actual e Francisco Louçã como qualquer bom activista defende as boas causas... Até chegar ao poder ou sonhar com ele.

 

Quem diria que um dia iríamos ouvir Francisco Louçã a defender a célebre expressão "taxas e taxinhas"! Francisco Louçã até virou as costas aos artistas - que tanto defendeu e lhe serviram para ganhar tempo de antena no Bloco de Esquerda - quando mencionou que o dinheiro também tem de ser veiculado para outras coisas, como a construção de hospitais, vestido assim um dos fatos tradicionais portugueses: o de cata-vento! Até concordo com Francisco Louçã, não posso é concordar com aquele cliente que hoje gosta de bacalhau à brás, mas amanhã já não, até voltar a gostar novamente.

 

Mas, o mais interessante das palavras de Francisco Louçã foi a defesa da taxa sobre as bebidas açucaradas! Segundo o mesmo, esta taxa permite que se baixe o consume das mesmas e se trave uma epidemia da diabetes - deveriam ter ouvido em que tom isto foi dito - até fiquei com a sensação que mais vale contrair ébola do que propriamente beber um sumo de laranja carregado de açúcar!

 

Quero acreditar que Franscico Louçã não lida bem com empresas como a Coca-Cola que vivem das vendas e do investimento, algo que não está muito de acordo com as suas convicções, afinal, investir e obter retorno trabalhando não é o seu forte.

 

É também interessante esta preocupação com as bebidas açucaradas, sobretudo vindo de alguém que defende a despenalização das drogas leves, as salas de chuto, o aborto e até a ausência de impostos em algumas outras áreas! Abaixo o açúcar desde que a marijuana não pague imposto. Isto é ser artista, embora acredite que Louçã, o critico dos ricos (dos ricos que usam gravata e não se sentam à sua mesa a criticar os outros ricos), sofra de excesso de subsídios pagos por todos nós...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/2



Mais sobre mim

foto do autor



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Mensagens

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog



subscrever feeds




Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB