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Istambul... Minha Princesa...

por Robinson Kanes, em 02.01.17

IMG_5379.jpg

Atravessando o Bósforo até ao Mar de Marmara

 

 As notícias de Istambul, aliás, da própria Turquia não param de chegar. São os Golpes de Estado, são os atentados, é o ódio contra tudo o que é turco. Não se faz um Je suis Istambul, afinal quem é que quer saber da Turquia para alguma coisa? Acham que os meus amigos vão ficar mais meus amigos por isso? Só resulta se for em Cannes, aí sim, Je suis Cannes, é bem mais pomposo.

 

No caso de Istambul (Ankara e Bursa também), só quem nunca lá colocou um pé, ou viveu lá, pode olhar para os turcos como gente "sem rei nem roque", como gente louca e sem qualquer lugar numa sociedade actual.

 

Lembro-me da minha primeira chegada àquela metrópole de 13 milhões de habitantes e de ter perguntado ao motorista que me trazia do aeroporto de Atatürk e ao "assistente" que o acompanhava: "vocês aqui não têm receio dos constantes ataques, por exemplo, do Daesh ou do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão)?". Com um sorriso nos lábios, desdenhoso até, numa primeira abordagem, e em tom de risada me responderam tranquilamente que "nunca! nós aqui trabalhamos, temos de alimentar as nossas famílias e não tememos os terroristas, não temos tempo para isso.". 

 

Presumi, pura e simplesmente, que se riam de mim e do meu hipotético medo de tudo e de todos e da paralisia perante a realidade do Mundo - o engomadinho ocidental protegido na sua concha, que se julga muito forte, mas assim que coloca o pé em solo turco se agacha ao primeiro barulho que ouve na rua (sobretudo após uma onda de atentados que havia varrido a cidade dias antes).

 

A conversa prolongou-se - experimentem conduzir em Istambul, todos os locais podem ficar distantes em segundos e a viagem de Atatürk a Sultanahmet pode ser uma aventura de horas - e percebi, mais uma vez, a realidade de um povo que vive para o trabalho, que se organiza e se apoia mutuamente, que acorda cedo e se deita tarde e que não sabe a diferença entre semana e fim-de-semana. Um povo que trabalha arduamente, nem sempre nas melhores condições e que, mesmo assim, consegue, após uns minutos de conversa, ter um sorriso bem rasgado nos lábios... 

 

É esse sentimento de luta diária, de coragem e garra, que me fez, dias após a minha primeira partida, e depois de um atentando à bomba, cujo rebentamento foi exactamente no mesmo sítio onde tinha estado sentado a comer um Kebab (obrigado BBC pelas imagens), engolir em seco e pensar - "aposto que, ao cabo de 2 horas, a cidade já levava a sua vida normal, como se não baixasse os braços perante essa luta que enceta ao longo de anos.".

 

É o dia-a-dia de uma cidade que sempre foi um ponto de encontro de culturas, de convulsões e de uma história, que a tornam hoje, no rosto dos seus habitantes, capaz de enfrentar qualquer desafio. Não há tempo para chorar os mortos e sufocar as redes sociais com lamúrias egoístas... é preciso enterrá-los, homenageá-los e voltar a viver.

 

Fonte da Imagem: Própria (o indivíduo da imagem não sou eu, é bom esclarecer)

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