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Nitidamente Nulo à Chuva...

Conformado com Lehár e Bertolucci...

por Robinson Kanes, em 18.10.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

Lá fora a chuva cai... Devia ficar melancólico, tantas frentes. Não o faço, não é saudável e não deixa de ser uma perfeita perda de tempo. Pelo contrário, penso que é importante continuar, nunca baixando a cabeça, mas não dando azo ao que não importa, mesmo que também isso, numa cultura provinciana, nem sempre seja bem visto. É assim, não se pode ter tudo.

 

Talvez por isso, me recorde da fogosa "Giuditta", que na sua alma inquieta não se deixa abalar pelo presente. Alguém que se move e agita e não se perde em devaneios nem em discursos e simplesmente é mulher, dona de si. "Giuditta" de Franz Lehár, uma operetta que contagia desde o princípio mas onde não poderei deixar escapar "Meine Lippen sie kussen so heiss" - aqui com toque da soprano portuguesa, Dora Rodrigues.

Este tempo, esta época, convida também a leituras que podem ser mais introspectivas ou mais densas. Lembro-me particularmente de "Nítido Nulo" de Vergílio Ferreira. Para mim, um dos melhores da obra do autor. Acredito também que uma das melhores formas de descrever este livro cabe a Jorge Costa Lopes e que aqui cito:

 

“[Nítido Nulo] coloca-nos perante um (…) dilema: que mais poderemos admirar? O naturalismo das recoleções do passado, com a recriação das figuras rigorosamente reais de Tia Matilde e Dolores; as memórias da infância e as páginas em que o narrador recorda a partida do pai; o estudo da figura de Lucinho; passado e futuro, infância e morte da infância; o espetralismo de Marta; o convencionalismo de Teófilo; o arcaísmo dos discursos políticos do poder; a saturação de anedotas extraídas do real quotidiano; a rápida descrição de ambientes e paisagens? Ou, pelo contrário, a naturalização do absurdo e do fantástico, a prisão, os banhistas, o ‘filho’, o guarda, os diversos Messias; as frases que nos fazem regressar a momentos fundamentais da história das ideologias mas que surgem num contexto dominado pelo irreal; o cinismo; a miséria moral; a decadência; a velhice; os relâmpagos do passado que irrompem no fluxo das cogitações e lhes insinuam novas descobertas; a interpelação a Vergílio Ferreira, ele próprio, remetendo-nos para a consciência súbita do jogo literário?”

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Para ver, não poderia pensar num outro filme que poderá ser um retrato do que temos hoje, embora o fascismo, este fascismo como aqui é demonstrado por Bernardo Bertolucci num tardio modernismo, seja algo que já "não exista". É a cobardia do homem, é o conformismo perante a necessidade de pertencer a algo. "The Conformist" é isso tudo, e é uma obra dos anos 70 (baseado no romance de Alberto Moravia) que talvez nos ensine como não ser nos dias de hoje - não é a história repetida, mas talvez o declínio da mesma que tende a não se reinventar, mesmo em tempos contemporâneos. Jean-Louis Trintignant, no papel de Marcelo, é um actor que não nos deixará indiferentes.

E para pensarmos em coisas boas durante o fim de semana, algumas palavras de Álvaro Santos Pereira proferidas esta semana na Fundação Serralves - um português que não gosta de ser tratado por Dr. (é raro, por isso digno de apontamento):

 

As corporações são demasiado fortes em Portugal. Não gostam da concorrência e quem paga somos todos nós, os contribuintes.

...

Uma cultura de impunidade como temos em Portugal – de deixarmos os processos arrastar-se anos a fio, de recurso em recurso, sem as pessoas serem condenadas e irem para a prisão – é uma pouca vergonha para a nossa Justiça.

...

Se crescemos 1%, só vamos duplicar o rendimento em 70 anos. Não é aceitável que isso aconteça.

 

E como nada disto se faz a seco, nada como uma bela surpresa chegada do Redondo, um Porta de Santa Catarina Tinto, de 2015. Verdadeira maravilha!

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Bom fim de semana,

 

 

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A Condecoração de Camará

por Robinson Kanes, em 17.10.19

73539720_2306110472970971_3441325000978595840_o.jpCréditos: Regimento de Comandos da Amadora/Exército

 

Quem se expõe à decisão, quem sobrevive realmente e se expõe outra vez, quem acumula os momentos de sobreviviência é que pode conseguir alcançar o sentimento de invulnerabilidade.

Elias Canetti, in "Massa e Poder"

 

 

Foi no dia 14 de Outubro que o Soldado "Comando" Aliu Camará recebeu a "Medalha Cruz de Valor Militar" «com palma» , atribuida pelo Presidente da República Centro-Africana. A história de Camará é conhecida, e agora, longe dos grandes espectáculos mediáticos que se exaltam apenas quando o soldado é visitado por um dos seus ídolos futebolísticos, é a hora de regressar.

 

Como seguidor da história deste soldado, e continuando até a defender a candidatura da fotografia do Expresso ao "World Press Photo", cabe-me não deixar passar esta homenagem a quem ficou sem as pernas para que outros possam ter mãos para erguer um país!

 

Não é motivo para grandes festejos, para grande euforia, uma condecoração não trará as pernas de Camará! Festejos e alegrias será saber que este não será abandonado pelos seus e também por todos nós! Motivo para celebração será perceber que "condecorações" nacionais esperam este soldado, no entanto, convicto de uma coisa acontecerá: este homem não será abandonado, nunca, por aqueles que usam a mesma bóina que ele!

 

Esperemos que, com Camará e outros, não se repita a vergonha dos "ex-combatentes". E fica também uma nota para alguns partidos e para instituições agitadoras da ordem social como a SOS Racismo que, com tanta prosa, não vos ficará mal agraciarem os feitos deste senhor, alguém que, bem longe, já fez mais por Portugal e pelo Mundo do que todos vós farão um dia!

 

Mama Sumae!

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Da Apologia da Escroqueria!

A Visão e o Raríssimo Manuel Delgado...

por Robinson Kanes, em 16.10.19

 

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Créditos: TVI

 

 

Os hábitos são fáceis de criar mas muito difíceis de quebrar.

Paul Dolan, in "Projectar a Felicidade"

 

No país dos compadrios, não é de admirar que uma prática comum seja o facto dos verdadeiros escroques, dos verdadeiros pulhas passarem de bestas a bestiais e os verdadeiros bestiais em segundos se transformarem em bestas, sobretudo se não estiverem inseridos em grupos e grupelhos de cariz partidário, profissional, solidário e mediático. 

 

Devo admitir, embora respeite a liberdade que um meio de comunicação tem de "botar faladura" de todo e qualquer indivíduo, que foi com perplexidade que vejo em destaque um comentário do alto da sua sabedoria do senhor Manuel Delgado. Na Visão e com o respectivo destaque no SAPO, o raríssimo Manuel Delgado, o tal que não acha imoral acumular fortuna com dinheiro destinado ao tratamento de crianças com doenças raras; o tal que viaja, e passo a expressão, "à conta" das crianças com doenças raras e ainda tem o displante de se fotografar em belos e próximos passeios com a presidente de uma associação que já todos percebemos como funcionava, volta a aparecer. O tal que nada sabia, um pouco à semelhança de Vieira da Silva, então Ministro que teve o justo prémio de se manter no cargo e continuar como se nada tivesse acontecido - quem tem a família "toda" no Governo não deve abandonar os seus, de facto.

 

Delgado vem falar de novos modelos, de moralidade e claro, de política. Utiliza até expressões como " ignorância, imaturidade e excesso de ideologia liberal" para criticar aqueles que têm uma opinião diferente da sua. Quanto a isso, não tenho nada contra, é o retrato de um moribundo moral que ainda respira, mas este senhor, mais um dos que sofre da real amnésia nacional quando confrontado com factos que o colocam em maus lençóis, não deveria ter vergonha de aparecer? E o palco que lhe é dado? Sabemos que continua a desempenhar funções em áreas que muitos que até sabem mais nunca poderão sonhar, quando muito poderão emigrar. Estarão a Visão e o Sapo a dar tempo de antena e a trazer para a praça de cara lavada este indivíduo? É assim que procuramos a renovação? É assim que valorizmaos os melhores? Não!

 

Neste país onde prejudicar o erário público e ser um pulha, desde que bem relacionado, se pode aguardar uma demissão e uma ligeira caminhada pelo deserto para voltar em força como salvador da pátria, não é de espantar. Não é de espantar que indivíduos como este continuem por aí a pulular, com altos cargos públicos e partidários, com altos cargos aqui e acolá e com o nome manchado na praça.

 

O público esquece-se, mas um verdadeiro aluno deste senhor da Universidade Nova, por certo, não hesitaria em recusar-se a assistir às aulas de tão "reputado" profissional! No entanto, fica sempre bem dizer que o professor é deste e daquele partido, desta e daquela associação, mesmo que se trate de um verdadeiro pulha! Os valores, o saber e a integridade pouco interessam para o CV... Afinal, e como dizia Paula Brito da Costa, por outras e palavras quando ainda era presidente da Raríssimas, são senhores como este que podem trazer o "guito"... E não só...

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Puerto de Vega, e a Entrada na Galiza

Passando por Frexulfe, Castropol, Figueras e Ribadeo

por Robinson Kanes, em 15.10.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

Custa-nos deixar Luarca. Custa-nos deixar os diálogos com os pescadores e saber que já não estaremos cá para as próximas chegadas. Já não iremos sentir o cheiro do peixe fresco a inundar aquela pequena lota. 

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Mas seguimos em frente, talvez ainda possamos sentir o aroma da maresia e também algumas "sobras" de peixe em Puerto de Vega. Esta pequenina vila piscatória fascina-nos - é pequena, mas tem vida, tem o cheiro do peixe fresco em cada rua, tem o cheiro do mar tão intenso que nos contagia. Queremos ficar mais, queremos beber aqui um café, queremos por aqui almoçar. Descansa o carro, cansam-se as pernas...

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O caminho é para se fazer, Lugo espera por nós com a sua imponente muralha e não sendo a cidade mais bonita de Espanha, ali já na Galiza, é sem dúvida uma das rainhas daqueles vales e montanhas que percorreremos da já conhecida Ribadeo até Orense. Pelo caminho e antes de outros pueblos dignos de uma visita, a obrigatória paragem em Frexulfe! A "Playa de Frexulfe", monumento natural empata-nos pois a acalmia das águas e todo aquele azul contagiante fazem-nos correr ao carro e ir procurar as toalhas de banho - é obrigatório sair daqui com um mergulho e também com a comunhão única com a natureza, num espaço de uma riqueza imensa e onde ainda conseguimos observar algumas aves de presa, com registos únicos entre as árvores!

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É bom, gostamos e o sol seca-nos... Aproveitamos para namorar, o cenário a isso obriga e aquele dia tão especial entre pueblos marineros e praias que rivalizam com o mediterrâneo só poderiam provocar uma vontade enorme de nos envolvermos em beijos e em apertados abraços.

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Ao longe, Figueras já se aproxima, é a despedida das Astúrias, pelo menos de mais uma visita.  Descansamos numa esplanada junto ao rio, visitamos a belas casas apalaçadas e ao longe, alimentamos a vista com a belissíma paisagem de Castropol que é uma das jóias da Ría del Eo também conhecida por Ría de Ribadeo.

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Castropol apaixona-nos, como sempre... Nem o cansaço nos faz adiar a passagem por esta bela terra e assim teimamos em não abandonar as Astúrias. Ficamos pela fronteira entre a Galiza e as Astúrias que tão bem a Ría demarca.

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Voltamos para trás, queremos passar em Ribadeo. Depois da despedida das Astúrias queremos dar um "olá" à Galiza. É isso que fazemos bem regados com uma "Estrella Galicia" como não poderia deixar de ser.

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Agora é fazer o caminho até Lugo, entregarmo-nos ao verde e alguma montanha, é deixar que as muralhas nos envolvam num sono reconfortante antes de voltarmos a entrar por terras portuguesas. 

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Outros Caminhos:

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Das Dívidas Perdoadas...

por Robinson Kanes, em 14.10.19

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Créditos:https://www.thoughtco.com/al-capone-1779788

 

Como tantos outros animais, temos de uma necessidade muitas vezes desesperada de nos adequar, pertencer e obedecer. Tal conformidade pode ser marcadamente prejudicial, pois negligenciamos soluções melhores em nome da loucura da multidão. Quando nos damos conta que estamos fora da sintonia com o resto do grupo, as nossas amígdalas contraem-se de ansiedade, as memórias são revistas e as regiões de processamento sensorial são inclusive pressionadas a experimentar o que não é verdadeiro. Tudo para nos encaixar.

Robert Sapolsky, in "Comportamento"

 

 

Muitos são aqueles que argumentam que somos um país de gente boa, de brandos costumes e perdolários do próximo. Da minha experiência como ser humano e português, uma coisa eu sei: um português nunca se esquece de alguma que lhe fizeram e à mínima oportunidade lá estará ao ataque. O português quando perdoa é porque tem um interesse óbvio nesse perdão.

 

Tudo isto a propósito dos perdões sucessivos dos bancos públicos (Novo Banco e Caixa Geral de Depósitos) a determinados indivíduos e entidades da nossa praça. Que os privados o façam, ainda posso compreender, não é o nosso dinheiro - a não ser que as injecções de capital público (de todos nós) não sejam utilizadas para esse efeito. 

 

Percebo também porque tal é feito, de facto até percebo, mas convenhamos que para o comum cidadão -  aquele que é perseguido pelos bancos públicos por não conseguir pagar os míseros €5000 que deve e que até pagaram os seus estudos - perdoar milhões atrás de milhões a empresas que muitas vezes se gabam na comunicação social e redes sociais de fecharem negócios e até de estarem a crescer é, no mínimo, cruel. Podemos falar das empresas, muitas delas detidas por indivíduos com filiações partidárias que viram muitas das suas dívidas perdoadas e claro, como não poderia deixar de ser, dos grandes clubes de futebol.

 

É vergonhoso, para não dizer criminoso, que os bancos públicos perdoem milhões aos clubes de futebol (o Sporting Clube de Portugal foi o mais recente caso) e ninguém esteja interessado em perceber o porquê! Onde andam os comentadores da praça? Onde andam as entidades que deveriam olhar para estes factos? Onde anda o jornalismo sério? Onde andam os  fanáticos da bola? Ondem andam os partidos da esquerda? Onde andam os pequenos partidos que dizem que é hora de mudar?

 

Que o futebol em Portugal é uma instituição/religião todos sabemos, que corrompe a política e é um jogo de interesses, também todos sabemos, mas perdoar dívidas astronómicas a clubes que pagam milhões em salários a um só jogador, que não abdicam do luxo e da ostentação e que não abdicam de compras e vendas de mais milhões é, no mínimo, gozar com a cara de todos aqueles que todos os dias laboram para que a sua empresa não feche por falta de pagamentos. É criminoso que uma empresa produtiva e com reais impactes na economia feche porque não consegue pagar aos bancos ou ao fisco, mas é perfeitamente aceitável que um ou vários clubes de futebol continuem a receber dinheiro do Estado, a ter perdão de dívidas e mais um sem número de regalias que incluem muitas isenções fiscais!

 

E mais uma vez, censuramos o vizinho caloteiro que deve €10.000 e não paga, censuramos o gestor que até recebe pelos bons resultados, mas aceitamos de bom grado e até aplaudimos nos estádios e no sofá aqueles que todos os dias nos enganam e nos retiram dinheiro do bolso. 

 

Até podem acusar este discurso de ter o seu quê de populista, mas ver as tribunas de honra apetrechadas de políticos e responsáveis públicos desde as mais altas instâncias até aos lambe-botas locais, ver ministros e presidentes a mendigarem bilhetes para a bola é esclarecedor do estado criminoso em que algumas instâncias se movem, mas isso não é populismo, dizem que é dever de Estado.

 

Em Portugal, para se ser imune à lei e agir como um perfeito Al Capone, basta estar ligado ao futebol... Sobretudo aos grandes clubes da praça! E aqui temos uma vantagem, é que nem os "Eliot Ness" têm poder para acabar com o estado das coisas, ao contrário do que acontecia na Chicago da década de 30 do século passado.

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iran_qatar.JPGImagens: Robinson Kanes

 

 

Apenas se descobre uma vez o que é a guerra, porém descobre-se repetidamente o que é a vida.

André Malraux, in "A Esperança"

 

 

Estamos em Outubro... Outubro adivinhou-se como o início de um ano, como um início de uma nova época. Uma espécie de lavagem mental. As coisas, por vezes são assim... 2020 terá chegado mais cedo, quiçá.

 

E como o fim-de-semana se aproxima, nada como uma sugestão para quem também atravessa o deserto, seja ele nas profundezas da alma seja ele na realidade em que os lábios se queimam, a cara escurece e a areia parece criar uma pelicula no nosso rosto! E haverá lá coisa mais maravilhosa que isso? Tinariwen é daqueles sons que sabe bem ouvir - nos momentos mais introspectivos ou naqueles momentos em que um jipe, um tractor ou as sapatilhas fazem levantar os grãos de areia que esvoaçam ao sabor do vento. Fica "Sastanàqqàm" desta banda tuareg que é um sons vivos do Saara. E do Saara para o mundo, em qualquer deserto, é a banda sonara ideal.

Lembro-me agora de um filme... Um filme diferente e que fez grande sucesso há pouco mais de 10 anos! De Ari Folman, "The Watlz of Bashir" não é mais que o drama daqueles que tiveram de assistir impávidos e serenos a um dos episódios mais negros da história do Libano e de Israel, o massacre de Sabra e Chatila!  Já passaram 37 anos e muitos no Libano e Israel ainda deveriam ter vergonha só de pensar no dia 16 de Setembro de 1982! As Nações Unidas chegaram mesmo a declarar este acto como um genocídio contra palestinianos! Alguém se lembra? 

Para ler, talvez um relato (não pessoal) do que foi a Guerra Civil de Espanha, talvez uma lição de história e humanidade. Talvez um dos livros obrigatórios do século XXI, embora tendo sido escrito por um mestre do século XX: "A Esperança" de André Malraux.

 

Todos sofrem, pensou, e cada um sofre porque pensa. No fundo, o espírito só pensa o homem no eterno, e a consciência da vida só pode ser angústia.

André Malraux, in "A Esperança"

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E porque é fim de semana, é sempre bom pensar que o Estado turco (não a Turquia) ataca sem qualquer pudor o curdistão Sírio matando homens, mulheres e crianças, muitos deles que gostavam de saber o que é um fim de semana como nós o gozamos... Isto enquanto os Estados Unidos da América deixaram os seus aliados contra o Estado Islâmico completamente desprotegidos e ao abandono - uma verdadeira traição! Ainda dizem que o Ocidente é exemplo para alguém...

 

Bom fim de semana,

 

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A Floresta: Portugal e a Costa Rica.

por Robinson Kanes, em 10.10.19

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Imagem: Lisa Kessler

 

A Costa Rica é conhecida pela sua flora, nomeadamente as suas florestas tropicais, pela fauna e claro, pelas bananas. No entanto, a sede de lucro e total inexistência de fiscalização devastou grande parte das florestas do país até tempos recentes.

 

Em Portugal, que também se pode orgulhar da pouca floresta que lhe resta e também das bananas da Madeira, o cenário não foi diferente - se por um lado a destruição da floresta se dá para o crescimento do eucalipto e do imobiliário (e muito pouco de fala do imobiliário), por outro, foi mais longe que a Costa Rica e especializou-se na indústria do fogo - na reactiva e não na preventiva.

 

No entanto, o que a Costa Rica nos pode ensinar é o facto de ter encontrado na floresta uma fonte de rendimento, não só em termos ambientais mas também de ecoturismo - o turismo em Portugal continua a ser pensado em massa e para o retorno fácil e rápido, normalmente por parte dos suspeitos do costume - aumentar alojamento, promover os monumentos do costume e encher cidades como Lisboa e Porto, sem esquecer as regiões da Madeira e do Algarve, gentrificação a todo o custo e despreocupação com os exemplso que cidades como Barcelona nos dão. Enquanto isto, os incêndios vão destruindo e desertificando o país sem que alguém se preocupe com isso, até em termos turísticos. Continuamos a não rentabilizar os nossos Parques Naturais e basta atravessarmos a fronteira para aferir das diferenças, quer em termos de controlo e preservação quer em termos de geração de revenue para o próprio Estado e para as populações.

 

Na Costa Rica, por exemplo, foi criada uma Comissão Nacional da Floresta, não só para controlar e reduzir a emissão de licenciamentos que poderiam ser nocivos para a mesma como também para a salvaguarda e "policiamento". Esta comissão geriu também a gestão de um fundo financiado por taxas ambientais que têm em vista a preservação do ambiente, taxas essas que não são desviadas para outras áreas mas sim para a redução da probeza e conservação da natureza em áreas rurais e florestais. A Costa Rica encarou a floresta como um meio de dinamizar o ecoturismo, conservar a fauna e flora, reduzir o CO2, permitir a retenção de água e até utilizar a mesma para o desenvolvimento de fármacos e medicinas naturais, portanto, uma verdadeira indústria com estratégia a longo prazo.


Para se ter uma clara ideia, o fundo ajudou à criação de sensivelmente 18 000 postos de trabalho directos e 30 000 indirectos! Todavia, o grande resultado parece também ser a forma como estas medidas tiveram impacte no aumento do Produto Interno Bruto (PIB) sobretudo devido à actividade turística nestas áreas. O turismo é um dos pesos pesados no PIB da Costa Rica e isso deve-se às políticas entretanto aplicadas.

 

Em Portugal e em tantos outros países, bem podemos aprender com o exemplo da Costa Rica que, não sendo perfeito, nos pode dar uma clara ideia de como podemos voltar a ter um Portugal verde e que tem na floresta uma das suas mais-valias, não só em termos industriais mas também em termos turísticos. Contudo, isso implica apostar em estratégias, envolver outros actores e acima de tudo apostar na preservação e na prevenção - será que estamos dispostos a depenar a indústria reactiva dos incêndios em prol de uma indústria proactiva e geradora de benefícios ambientais, sociais e económicos e onde cada euro aplicado gera retorno ao invés dos euros que são queimados com o combate?

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espana_asturias_luarca (1).jpgImagens: Robinson Kanes & GC

 

 

Cudillero fica para trás e percorremos a estrada de acesso à Autovia del Cantábrico ao som da "Agua Misteriosa" de Javier Limón com a interpretação de Shica - existem coisas de que não abdicamos e em Espanha têm outro sabor numa fusão entre Mediterrâneo e Oriente, mesmo que nas Astúrias.

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Dura pouco, até porque a "Playa Concha de Artedo" recebe-nos para um café. É preciso repor forças antes de chegar a um dos pontos altos deste dia, o "Cabo Vidio" e o seu faro.  Este farol, além da sua localização belíssima, é fundamental para os barcos pesqueiros e de recreio num mar que, de calmo, rapidamente se altera e se transforma em mala mar. O "Cabo Vidio" É um lugar com uma vista inigualável e com uma riqueza em termos de flora e fauna singulares, sobretudo em tão curto espaço.

espana_asturias_cabovidio (1).jpgCalcorreamos toda a área, inclusive a pequena aldeia... Não queremos vir embora e sentamo-nos num dos bancos que permitem vislumbrar o horizonte e é maravilhoso. Uma leve brisa, o tempo quente... Arrependemo-nos de não ter comida a bordo para ali almoçarmos e trocar uma refeição naquele local pelas confortáveis cadeiras de um restaurante. Aproveitamos aquele momento para anotar as praias que já se vislumbram ao longe e que prenderão a nossa atenção: "Playa de Vallina" e "Playa de los Campizales".

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De volta ao caminho, cansados, sentimos que é hora de parar... É hora de nos entregarmos ao silêncio na praia que tem o mesmo nome, "Playa del Silencio". Considerada uma das praias mais bonitas das Astúrias faz jus à fama. O silêncio reinante permite que relaxemos, que pensemos no que está para trás desta caminhada... É bom retemperar forças, respirar a leve brisa marinha... Leve mas retemperadora. Apetece-me abraçar-te e é o que faço e na minha alma escuto novamente Javier Limón com um "Un Trago de tu Vida".

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Continuamos, a manhã está a terminar. Temos tempo para passar em Cadavedo e dar um mergulho na sua praia! É bom, gostamos... Estamos temperados pelo mar e é isso que nos faz parar em quase todas as praias até chegarmos a Luarca. Já não nos interessa o nome das mesmas... Já só nos interessa sentir a areia, as pedras e deixar que o tempo nunca mais se esgote... As Astúrias, seja na montanha ou junto ao mar, permitem que o tempo pare e isso é um dos grandes segredos daquela região.

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É importante alimentar a alma, mas o estômago também se queixa, por isso a vila piscatória de Luarca recebe-nos para um peixe fresco acabado de sair do mar. A verdade é que também não resistimos a uma "Fabada Asturiana" e as coisas complicam-se. Também são necessárias forças para conhecer a vila do nobel, Severo Ochoa

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Percorrer as ruas de Luarca provoca-nos uma sensação estranha: cada canto coloca-nos diante dos olhos a vida de outros tempos e a vida de hoje e mesmo quando o pueblo se anima após a tarde todas essas imagens se confirmam. O farol, as casas e sobretudo a marginal e o porto são as mais-valias deste lugar, sem esquecer as pessoas e a boa comida servida numa esplanada junto ao mar.

espana_asturias_luarca_1.jpgApaixonados por vilas piscatórias ficamos a apreciar a azáfama que já se vai sentindo. Fotogramos, convidam-nos a fotografar como cada registo fosse o relato de uma vida, da vida da faina... Da vida daqueles gentes simpáticas. A verdade é que por esta hora já deveríamos estar em Lugo, mas decidimos ficar junto ao mar, a acompanhar a vida dos lobos do mar... Luarca merece.

 

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Dinheiro para o Atletismo? Não!

por Robinson Kanes, em 08.10.19

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Créditos: https://www.fpatletismo.pt/diário-de-doha’2019-–-nota-positiva-para-portugal

 

 

Não é com palavras que comunicamos o que em nós há de melhor.

Raul Brandão, in "A Farsa"

 

Os mundiais de Doha, no Qatar, terminaram com uma prestação modesta dos atletas portugueses. Não vou cair na tentação de dizer que tudo foi mau e que os nossos atletas pouco ou nada valem - somos um país pequeno e nunca poderemos chegar ao nível das grandes potências, quando muito, podemos potenciar o talento inegável de alguns atletas. Admito até que, para país pequeno, temos atletas fantásticos, embora, ao fim de alguns dias em Doha, o mínimo que dois deles deveriam saber é que estavam no Qatar e não no Dubai!

 

No entanto, uma das queixas mais comuns em relação ao atletismo, e também outros desportos, é de que o dinheiro é pouco, que os atletas vivem de forma muito modesta e que é um milagre conseguir levar os melhores lá fora. Para alguns é verdade, para outros, nem por isso, sobretudo se juntarmos um sem número de regalias entre as quais se enquadra o estatuto de atleta de alta competição e a permanência de alguns dinossauros que só abandonam os cargos quase com a morte, quais monarcas abençoados pela graça divina.

 

Contudo, a questão económica não parece ser preocupação para o Director Técnico da Federação Portuguesa de Atletismo e Seleccionador Nacional, José Santos, que, viajou em 1ª classe (não disse executiva, disse  1ª classe) num voo da Qatar Airways com a sua comitiva aquando do término dos Mundiais de Atletismo em Doha. Se por um lado sou adepto de que um "treinador" está sempre com os seus, também sou adepto do exemplo: na realidade, é que de uma forma ou de outra, também existe dinheiro de todos os portugueses para o Atletismo, e no mínimo, parece-me absurdo que um seleccionador nacional de atletismo viaje em primeira classe numa companhia aérea premium, longe dos seus e em condições das quais já nem as altas figuras do Estado usufruem! Infelizmente, estes tiques de provincianismo ainda vão permanecendo e é também por isso que, dinheiro público para o atletismo, não!

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Aprendam! Eles não duram sempre!

por Robinson Kanes, em 27.09.19

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Imagem: Petr David Josek / AP

 

Não é absolutamente necessário voar e entrar pelo sol adentro, basta rastejar até um lugarzinho limpo nesta terra onde de vez em quando o sol brilha e nós nos podemos aquecer.

Franz Kafka, in "Carta ao Pai".

 

Não resisti, por isso aprendam... Eles não duram sempre e mostram que ainda existem Homens com "H" grande...

 

Agora sim... Até breve!

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