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Paisagens de Portugal: Lisboa

por Robinson Kanes, em 05.12.19

lisboa_portugal.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

Não posso deixar passar a minha cidade, aquela que me viu nascer e também partir e regressar. Lisboa é a mais bela capital do Mundo e apesar da sua tristeza não perde a beleza com a sua luz única no Mundo.

 

Lisboa não sejas francesa, vais perder o teu encanto, vais ser ainda mais infeliz... Bebe da Europa e do Mundo a alegria de muitas grandes cidades, sim bebe, mas não entregues a alma que faz de ti a mais especial de todas. Não te vendas às modas e à política de meia-dúzia, conserva o provincianismo da tua localização e do teu aspecto e luta sim pelo cosmopolitismo daqueles que em ti nasceram e cujas almas provincianas são um empreendimento mais complexo de moldar...

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Recursos Humanos: Os Suspeitos do Costume.

por Robinson Kanes, em 04.12.19

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Créditos: https://www.dicionariopopular.com/facepalm-meme-emoji/

 

 

Existem muitos truques que permitem a ascensão e o reconhecimento profissional de nulidades encartadas. Um pouco como aqueles indivíduos que aparecem do nada em televisão, jornalismo ou cinema e depois de nos serem impingidos e terem sucesso, é que vão ter formação para aquilo que estão a fazer. Ou então aqueles que para venderem o seu produto/pessoa dizem que vão à televisão, como se isso pudesse superar qualquer curriculum vitae.

 

É algo que também acontece na função pública e em muitas organizações privadas: o importante é entrar na organização, ocupar determinado cargo e depois pensa-se na formação e nas competências. Os resultados? Se a equipa for boa, eles acontecem. Desde que estejam a ocupar as suas funções enquanto eu vou ao cabeleireiro, não há como falhar, mesmo que seja fora do horário de trabalho destes, forço-os a ficar e pronto. Portugal, ou grande parte dele, portanto...

 

Mas uma das tácticas mais conhecidas não dispensa um certo estrelato. Quem é que nunca ficou com a sensação de que são sempre os mesmos em determinadas áreas e cargos a aparecerem em conferências, redes sociais e a vencer concursos disto e daquilo? Quem é que nunca ficou com a sensação de que aquele (e isto é um exemplo) director de recursos humanos sem autoridade ou que é uma nulidade hoje, amanhã está a receber o prémio de excelência da área, a dar palestras todos os dias e a escrever sobre tudo e sobre nada. E então quando as políticas que implementa estão debaixo de fogo mediático...

 

Alguns, nomeadamente aqueles que rapidamente vão realçar o seu lambe-botismo com comentários vazios e a aspirar a uma ascenção profissional não darão por isso. Ou darão e só querem apanhar o comboio do personal branding.

 

No entanto, existem outros que já deixaram de acreditar em tudo o que lhes aparece à frente e até já nem frequentam os habituais congressos, feiras, palestras, galas onde se fala de tudo e de nada e cuja aplicabilidade prática não é demonstrada - opto por nem mencionar o dizer-se uma coisa e fazer-se outra totalmente diferente fora dos palcos. Quando muito servem para o networking e aí é uma falha minha... Só gosto de distribuir business cards para gerar negócio e não para colocar o meu interesse pessoal à frente do resto! No dia em que isso acontecer, carta de demissão, e nada como me dedicar à procura exaustiva de emprego.

 

Mas toda esta conversa para dizer que num país de corporativismos e aldrabice (sim, censurem-me, não é uma palavra que saiu) como é Portugal, é fácil ganhar prémios e ser reconhecido, não raras vezes, por aquilo que não se faz. Um exemplo para a ascensão pode ser estar dentro de uma associação ou de uma comissão de honra ou advisory board ou lá o que lhe quiserem chamar - nunca vão a nenhuma reunião, mas o vosso nome aparece no website e na comunicação e está feito, rapidamente são reconhecidos como profissionais de excelência. Uma nota: também existem entidades que usam profissionais de excelência para se catapultarem...

 

Outra são os prémios, se existem prémios que são bem atribuídos, também sabemos que é fácil conhecer este e aquele que faz com que ganhemos aquele prémio tão desejado, sobretudo se quisermos um novo emprego ou reconhecimento. Uma troca de favores e uns contratos aqui e acolá e temos um vencedor na categoria de aldrabice. Então se fizermos parte dos grupos que surgem sempre em determinadas revistas de algumas áreas, é certo que o sucesso está garantido. Não faltam revistas, publicações e até associaçõess que são meros canais de divulgação e exaltação deste e daquele indivíduo cujo culminar acaba com grandes prémios. E tudo isto se paga, quer em favores quer em outras coisas mais... E tudo isto é aplaudido por muitos que nem se dão conta como se movem estes mundos e outros que só querem entrar nos mesmo pelo papalvismo primário.

 

Ainda me lembro de um que ao mesmo tempo que falava de boas práticas e ética numa palestra vazia de conteúdo, tinha acabado de lançar um livro e surgia como um grande exemplo mas nessa mesma manhã as notícias davam conta de um caso vergonhoso para a organização e para o país e onde além de ter pactuado com, ainda tinha sido beneficiado...

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Playlist para a chuva e para o vento...

por Robinson Kanes, em 03.12.19

Tenho andado alheado da realidade nacional. Terei perdido o interesse no país que me viu nascer? Terei perdido a esperança? A aproximação (mais uma) a outras culturas, a outras formas de estar tem-me levado a esse distanciamento e a focar-me naquilo/naqueles que realmente importa/importam? Quiçá... É com esse pensamento que, mais uma vez, recolho uma playlist que também é um pouco de mim e que aconchega nestes dias de chuva e vento no regresso a casa ou enquanto vou pensando o mundo, mesmo que na minha cabeça, nas minhas paredes, na minha pequena particula de existência.

 

Num estilo de Portishead, Zero 7 e claro, de Massive Attack, os Groove Armada sempre mereceram a minha preferência. Para um dia de chuva e vento enquanto contemplo as paisagens da Irlanda do Norte, oscilo entre "Inside My Mind" e "Think Twice". Penso duas vezes e vou pela segunda escolha... Deixo-me levar pela minha zona de conforto da paixão...

Com Londres a pouco mais de uma hora de avião, penso que não posso esquecer a cidade que vive a 100, que nos preenche e que nos abre ao mundo. Acrescento por isso uma das minhas bandas "recentes" mais apetecíveis do panorama musical britânico, os "London Grammar" e como não poderia deixar de ser "Wasting My Young Years" é a minha escolha! Porque será?

Vou buscar um dos velhos para me acompanhar enquanto, ao longe, os prados parecem ficar mais verdes e esta chuva que nem é chuva nem é borriço vai descendo pelos vidros: Tom Waits. Não sou o maior adepto do músico, mas tenho de reconhecer que "All the World is Green" é uma peça daquelas! Para me acompanhar à medida da chuva...

Estou melancólico?... Ou estarei a apreciar autênticos monumentos musicais? Talvez nostálgico por um mundo que não foi o meu mas que, por certo, foi daqueles que amei. Led Zeppelin e "Stairway to Heaven", uma música que nos eleva, de facto, ao céu... Que nos eleva e traz saudades daqueles que partiram. Se existir um céu, se existir um mundo para lá da vida, pois que a minha subida seja feita ao som desta música!

Continuo pelos velhos e não posso deixar também passar esta estada sem olhar a Belfast. Nessa homenagem não vou aos U2, mas uma música bem mais bela e profunda, não tão trágica mas intensa... A primeira vez que a ouvi foi uma sensação incrível, por isso, partilho uma das grandes dos Simple Minds: "Belfast Child".

Desço ao mediterrâneo e vou a Itália onde encontro a senhora Veronica Scopelliti, mais conhecida por Noemi. Deixo a alma vaguear entre palavras escritas, faladas e imaginadas... "Sono solo Parole", porque talvez sejam isso mesmo, só palavras.

Ainda pelo sul, antes de voltar a subir, escuto os Vetusta Morla e "Cuarteles de Invierno". Uma das minhas bandas espanholas preferidas e com grande sucesso no país vizinho. Recordei o título e pensei em como é bom ouvir esta música num dia como este, lamentando-me de ainda não ter partilhado a mesma por aqui. Que o vento de invierno a leve até vós.

Manchester Orchestra é daquelas bandas que nunca me lembro de disparar quando falo das minhas preferência. É daquelas bandas que ouvimos por mero acaso mas que insistem em lá estar e acompanhar-nos ao longo da nossa vida e até em momentos especiais. Talvez por isso, e estando também perto de Manchester (embora a banda seja americana) escute um dos mais recentes hits: "I Know How To Speak".

E para terminar uma tarde onde chuva e vento disputam o palco, despeço-me com dois toques mais clássicos. Um deles é um "contemporâneo clássico" e é por aí que começo: Philip Glass é daqueles compositores que não conseguimos deixar de ouvir, seja com as suas bandas sonoras seja com as composições que só aqueles que o amam na sua especial forma de compor conhecem. Do albúm "Solo Piano", inspirado no livro de "Metamorfose" de Kafka, partilho "Metamorphosis Two", a segunda de 5. Philip Glass é simplesmente brilhante e eclético!

Finalmente, o homem que os espectadores da Gulbenkian, no passado dia 18 de Novembro, não queriam deixar ir embora: Tigran Hamasyan! Um concerto espectacular de  um jovem prodigío arménio que ainda consegue surpreender a cada concerto. Um pianista e compositor que se entrega e vive de tal forma a música que só percebo que é terrestre na sua humildade e partilha com o público. Banda sonora ideal para o dia de hoje, e primeira música do concerto que deu em Portugal, "Fides Tua" é uma das muitas e grandes obras deste músico - em Portugal ou fora do país, se ele estiver por perto, a nossa presença é garantida.

Boa semana,

 

P.S.: "hoje" o cosmos terá mais uma estrela a transmitir-lhe a melhor música: Mariss Jansons.

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Imagem: Robinson Kanes

 

Enquanto formos refractários à verdade e sensíveis apenas a estímulos artificiais, seremos, não tenho dúvida, incapazes de nos governarmos.

Rabindranath Tagore, in "A Casa e o Mundo"

 

Alguém disse "Alcochete Jamais (jamé)" e na verdade não poderia ter dito melhor, embora o sentido da afirmação fosse uma ignorância atroz para um político... Alcochete jamais deverá ser destruído por uma implacável sede de crescimento e até de poder. Alcochete é das poucas vilas verdadeiramente ribatejanas que está tão perto da capital... Alcochete, ao contrário do que circula por aí, não quer ser Cascais da margem sul (Cascais da margem sul jamais. Alcochete quer ser ela mesmo, uma vila única e singular, o Ribatejo às portas de Lisboa e com a especial identidade que a caracteriza. Alcochete que ter na Reserva Natural do Estuário do Tejo uma das suas maiores riquezas e não a sua destruição.

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Paisagens de Portugal: Alcácer do Sal

por Robinson Kanes, em 01.12.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

 

Um dos símbolos de Alcácer, as cegonhas sempre vagueando entre as culturas e os arrozais. Fiéis companheiras das chaminés e das torres das igrejas. Alcácer do Sal é uma das mais belas cidades portuguesas. Admito que para mim é uma vila, mas pelo encanto e pelo grau pitoresco que não deixa ninguém indiferente.

 

Parar na cidade para contactar com aquelas gentes, para sentir o Sado no seu caminho contrário em direcção a norte enquanto bebemos um café na companhia da sua trajectória e para partir por imensos arrozais e conhecer todos os habitantes de um ecossistema singular no mundo!

 

É impossível dizer-se português sem percorrer as ruelas e as paisagens deste concelho.

 

P.S.: obrigado ao SAPO pelo destaque de Palmela/Setúbal que mais para o norte da Europa foi muito apreciado...

 

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Paisagens de Portugal: Fisgas do Ermelo

por Robinson Kanes, em 26.11.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Este senhor já tinha falado nisso aquando da partilha da "Senhora da Graça" e eu não lhe fechei a porta... As Fisgas do Ermelo são das coisas mais bonitas que temos em Portugal, uma queda de água, esculpida com uma perfeição que pensamos se Rodin não havia deambulando pela Terra antes de nos ter surgido como mestre da escultura.

 

As Fisgas do Ermelo dão uma vida especial a um concelho (Mondim de Basto) que congrega algumas das áreas mais bonitas do Baixo-Tâmega. Trazem-me também um misto de deslumbramento e tristeza... Foi das últimas vezes que estive com alguém que já não está presente na minha/nossa vida, sobretudo pelo episódio de pouca esperança face a uma fatalidade que mesmo assim todos acreditávamos ser possível superar... Hoje estaria muito orgulhosa de ti, muito orgulhosa! Eu ainda não te disse, mas é num simpático bar de aeroporto em Belfast, com os Coldplay de fundo (dos tempos em que eram Coldplay), que também tenho de dizer que estou muito orgulhoso de ti, minha deutsche em London.

 

Mas a Natureza é assim, dona de uma força que nunca conseguiremos superar, seja nestes episódios, seja na criação destes monumentos! É um encantamento, como diria Teixeira de Pascoaes, poeta nascido bem perto (Amarante) e que veio a falecer ainda mais perto, em "Gatão".

 

Encantamento

 

Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar
A tua dôce e angelica Figura,
Esquecido, embebido num luar,
Num enlêvo perfeito e graça pura!

E á força de sorrir, de me encantar,
Deante de ti, mimosa Creatura,
Suavemente sentia-me apagar...
E eu era sombra apenas e ternura.

Que inocencia! que aurora! que alegria!
Tua figura de Anjo radiava!
Sob os teus pés a terra florescia,

E até meu proprio espirito cantava!
Nessas horas divinas, quem diria
A sorte que já Deus te destinava!

Teixeira de Pascoaes, in "Elegias"

 

 

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Paisagens de Portugal: Palmela/Setúbal

por Robinson Kanes, em 25.11.19

palmela_setubal.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

Subir ao Castelo de Palmela é sempre um dos pontos altos de qualquer percurso de bicicleta no Parque Natural da Arrábida. Subir o paralelo que nos leva pelas ruelas da pequena vila até ao cimo é entrar dentro dos ritmos daquele lugar que na época das vindimas adquire um aroma especial. É subir... subir... sem nos cansarmos... É subir sabendo da conquista que nos aguarda no topo.

 

Mas chegar ao Castelo é também ser dono do Mundo, é olhar ao longe o encontro entre o Sado e o Atlântico. É apreciar Setúbal e a sua baía, uma das mais belas do Mundo. É vislumbrar a Península de Tróia que procura tocar o outro lado do estuário, é ver quase todo o Alentejo que se está ali tão perto. É comungar com tamanha imensidão e beleza e pensar: como é belo e eclético este distrito! E é com um dos grandes deste distrito, mais precisamente de Azeitão, que recordo agora, tão longe... esta paisagem.

 

Versos ao Mar

Ai!,
o berço da tua voz,...
e esse jeito de mão que tens nas ondas,
Mar!

Quando eu cair exausto
sobre as conchas da praia e fique ali
doente e sem ninguém,
hás-de ser tu quem me trate,
quero que sejas tu a minha Mãe.

Há-de embalar-me a tua voz de berço,
pra que a febre me deixe sossegar,
e hás-de passar, ó Mar!
pelo meu corpo em chaga,
as tuas mãos piedosas comovidas,
pra que sintas por mim as minhas dores
e eu sinta só o bálsamo nas feridas.

Como se fosses tu a minha Mãe…
Como se fosses tu a minha Noiva…

E hás-de contar-me histórias velhas
de Marinheiros…
Histórias de Sereias e de Luas
que se perderam por ti…
E se a Morte vier há-de quedar,
toda encantada, a ouvir-te,
e, sem ânimo já me há-de quedar,
Toda encantada, a ouvir-te,
E, sem ânimo já de me levar,
sorrindo, voltará por seu caminho
(não na sentimos vir, nem ir, tão de mansinho
se passou tudo, Mar!),
voltará de mansinho,
pé ante pé, pra não nos perturbar,

mas saudosa da tua voz de berço…

Sebastião da Gama, in "Serra-Mãe"

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Paisagens de Portugal: Sudoeste Alentejano

por Robinson Kanes, em 24.11.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

O Valor do Vento

 

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento

O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e

só entram nos meus versos as coisas de que gosto

O vento das árvores o vento dos cabelos

o vento do inverno o vento do verão

O vento é o melhor veículo que conheço

Só ele traz perfume das flores só ele traz

a música que jaz à beira-mar em agosto

Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento

O vento actualmente vale oitenta escudos

Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

 

Ruy Belo, in "Homem de Palavras"

 

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Paisagens de Portugal: Salvaterra de Magos

por Robinson Kanes, em 23.11.19

salvaterra_de_magos.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

O concelho mais pobre do distrito de Santarém, paradoxalmente é um dos mais belos. Acompanhando o Tejo, é um território ímpar onde a actividade agrícola, a pecuária e uma população amistosa se confundem em séculos de trabalho árduo. 

Andar de bicicleta por este concelho, é descobrir alguns dos locais mais encantadores de Portugal, sobretudo se dermos um salto à Aldeia Avieira do Escaroupim e seguirmos a Mata Nacional com o mesmo nome até Muge. Mas eu não posso falar do Ribatejo, serei sempre parcial e o cheiro daquela terra molhada ou seca pelo sol, cultivada ou em pousio, transforma-me num dos seus maiores apaixonados.

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Paisagens de Portugal: Senhora da Graça

por Robinson Kanes, em 22.11.19

senhora_da_graca_mondim_de_basto.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

Seja do alto de Leiradas, em Cabeceiras de Basto, seja da Estação de Mondim de Basto ou de qualquer outra localização na região do Baixo-Tâmega, é impossível não ver aquele colosso lá bem erguido na paisagem. E do seu alto... E do seu alto é uma paisagem sem fim, é o que resta de Portugal para Trás-os-Montes e o longo sul que vai até Sagres.

 

Ar Livre

 

Ar livre, que não respiro!

Ou são pela asfixia?

Miséria de cobardia

Que não arromba a janela

Da sala onde a fantasia

Estiola e fica amarela!

 

Ar livre, digo-vos eu!

Ou Estamos nalgum museu

De manequins de cartão?

Abaixo! E ninguém se importe!

Antes o caos que a morte

De par em par, pois então?!

 

Ar livre! Correntes de ar

Por toda a casa empestada

(Vendavais na terra inteira,

A própria dor arejada,

- E nós nesta borralheira

De estufa calafetada!)

 

Ar livre! Que ninguém canta

Com a corda na garganta

Tolhido da inspiração!

Ar livre, como se tem

Fora do ventre da mãe

Desligado do cordão!

 

Ar livre, sem restrições!

Ou há pulmões,

Ou não há!

Fechem as outras riquezas,

Mas tenham fartas as mesas

Do ar que a vida nos dá!

 

Miguel Torga, in "Cântico do Homem"

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