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Um Lanche com o Zagal no Generalife.

por Robinson Kanes, em 27.03.17

 

IMG_6541.JPG

 Fonte das Imagens: Própria

 

A tarde caminha para o fim e tanto eu como o Zagal já nos encontramos cansandos, sobretudo o segundo - o peso da idade e as preocupações com o reino proporcionam tamanho estado de cansaço físico e mental.

 

Saímos da área do Pátio dos Leões passando pelos banhos e por salas que anos mais tarde virão a ser ocupadas pelos reis católicos – isso não disse àquele soberano – e pela sua corte.

IMG_6429.JPGChegamos a uma área com vistas fantástica para o Albaicín e para o Sacromonte. Escusado será dizer que por muito que estejamos impressionados, o Alhambra oferece-nos sempre mais uma emoção e desta feita dou comigo na área do Palácio do Partal, ou simplesmente Partal, como é conhecido. Um conjunto de jardins projecta-se diante deste pequeno palácio, transportando-nos, mais uma vez, para um cenário do médio oriente, para um cenário difícil de igualar na Europa! Um pórtico com cinco arcos acolhe as fragrâncias que chegam dos majestosos jardins e é ultimado pela Torre de Las Damas. Aqui está a essência do Alhambra, pois atribui-se a sua construção a Muhammad III, ou seja, o mais antigo palácio do complexo. Sento-me junto ao enorme tanque que antecede a entrada pelo pórtico e lavo o rosto, à boa maneira árabe.

 

O Zagal, orgulhoso do seu reino e da sua cidade, convida-me para me aproximar da varanda e aí ouvir o fervilhar do Albaicín, escutar pregões, chamadas para orações e o vai e vem de mercadores e clientes que ecoa por aquelas ruas e se estende até ao Sacromonte. Quem diria que o Partal só recentemente (há cerca de um século) foi considerado como parte do complexo... aliás, o tecto em madeira da Torre de Las Damas é um dos ex-libris do Museum für Islamische Kunst del Staatliche Museen Preussischer Kulturbesitz em Berlim.

 IMG_6542.JPG

Na varanda deste palácio sou convidado para um lanche no Generalife. Aceitei de imediato... até porque é de mau tom recusar estas ofertas, eu que o diga desde que coloquei os meus pés pela primeira vez num país muçulmano. Passamos pelo que é agora a Capela do Partal, - que de capela tem pouco ou nada – e percebo que sou levado pelos majestosos pátios e jardins na direcção do Generalife. Atribui-se este nome ao termo “jardin”. Contudo, existe quem lhe dê outras origens como “Huerta del Zambrero”, “el más elevado delos jardines”, “casa de artifício y recreo” e muitos outros, sendo o mais consensual “Jardin o Jardines del Alarife”, ou seja o Jardim dos Arquitectos ou Jardim dos Construtores.

 

Tão perto, mas tão longe do complexo principal, este jardim era o local perfeito para o descanso da família real muçulmana, com uma vegetação singular. Não faltam as tradicionais árvores de fruto - ainda hoje é possível roubar um dióspiro - e com enormes pátios. Estamos numa Villa que permite esquecer todas as dificuldades da administração de um reino e consequentemente repousar, nem que por breves horas, no paraíso.

 

Observo o caminho dos ciprestes e o caminho das nogueiras, ambos ladeados pelas árvores que lhe dão o nome, até entrar num edifício com um enorme tanque central onde, num dos cantos, se encontra uma mesa com tudo o que um rei merece: sumos naturais (laranja sempre), infusões várias, doces e compotas de todas as origens, pão e alguma carne, sem esquecer uma pastelaria singular, ao nível das melhores de Istambul e Ankara!

 

Sentamo-nos, o Zagal mostra um sorriso e diz-me para transmitir um recado a Castela, nomeadamente que o reino não cairá nas mãos destes e só após a morte do último soldado isso poderá eventualmente acontecer. Convida-me para visitar o mundo muçulmano: conhecer Orão, ir ao Egipto, deambular por Marrocos, IMG_6568.JPGentrar no médio-oriente, passar em Samarra e por lá me deixar contagiar vagueado por diferentes países e reinos até encontrar o descanso em Samarcanda! Prometo-lhe que tudo isso farei, como também lhe prometo o respeito pela sua cultura e pela neutralidade na batalha que se desenrola. Também ao Zagal, sobretudo ao seu povo, agradeço a herança que me deixou: o sangue árabe que também em mim corre e que no fundo se mistura também com o sangue judeu, romano, fenício e IMG_6566.JPGoutros tantos que me percorrem as entranhas.

 

Após o lanche despedi-me e abandonei o Generalife pelo Pátio da Sultana, um jardim mágico com fontes que outrora alimentaram os banhos de todos aqueles que tiveram a honra de habitar dentro do complexo.

 

Saio pela maior e mais impressionante porta do complexo, a Porta da Justiça (existem mais quatro, a Porta dos Sete Pisos, a Porta do Arrabal, a Porta d’Armas e a Porta do Vinho) desejando que essa mesma Justiça presida aos combates que aí virão.

 

Levo comigo também a mágoa, de conhecer o destino do Zagal e saber que não mais o verei.

IMG_6576.JPG

 

Para os recém-chegados a esta aventura:

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/aben-hacen-e-zahara-17518

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/salobrena-e-a-morte-de-aben-hacen-19240

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/cordoba-o-quartel-general-cristao-19524

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/malaga-o-inicio-das-hostilidades-20973

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/malaga-o-desastre-e-a-capitulacao-21257

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/da-serra-nevada-e-das-alpujarras-se-22619

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/granada-cada-vez-mais-perto-23369

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/o-alcazaba-do-alhambra-e-a-inspiracao-24720

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-conversa-com-o-zagal-na-sala-dos-25527

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/ainda-com-o-zagal-o-palacio-e-o-26537

 

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47 comentários

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De Chic'Ana a 27.03.2017 às 10:31

Uma aventura que vale muito a pena..ler e reler! =)
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 27.03.2017 às 10:39

Obrigado! E obrigado por ires acompanhando.
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De Francisco Freima a 27.03.2017 às 10:51

Gosto da paz que costuma anteceder o fim de uma era. O reino do Zagal está prestes a desaparecer, mas a vida segue o seu curso natural. Há algo de consolador nisso
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De Robinson Kanes a 27.03.2017 às 11:11

De facto… a próxima incursão por esta aventura, será encontrar novamente o relato da crónica que lhe deu origem. A parte final...

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De Marta Elle a 27.03.2017 às 11:03

Uau ! Que fotos fantásticas.
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De Robinson Kanes a 27.03.2017 às 11:11

Muito obrigado. Confesso que não tenho muito jeito nem as trabalho minimamente.
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De a mãe dos PP's a 27.03.2017 às 11:12

É bom vaguear por "aí"
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De Robinson Kanes a 27.03.2017 às 11:15

Obrigado… :-)
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De Maria a 27.03.2017 às 12:04

:(
está a acabar não é?
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De Robinson Kanes a 27.03.2017 às 15:55

Não tem de acabar, aventuras não faltam… :-)
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De Maria a 28.03.2017 às 08:21

No teu blog?... só se não escreveres ;)
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De Robinson Kanes a 28.03.2017 às 11:30

ahahah
Obrigado!
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De Rita PN a 27.03.2017 às 12:15


Olha que boa forma de iniciar o meu fim de semana! Acordei num palácio e com um pequeno almoço de rei à varanda! Ahahaha
Obrigada Rob, por estes passeios entre letras e sonhos.

"...agradeço a herança que me deixou: o sangue árabe que também em mim corre e que no fundo se mistura também com o sangue judeu, romano, fenício e outros tantos que me percorrem as entranhas." - Em suma, a junção de todos os sanguessugas, fazem do teu sangue, sangue humano!

"Saio pela maior e mais impressionante porta do complexo, a Porta da Justiça." - Pudesse ser ela a entrada para o Mundo...
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De Robinson Kanes a 27.03.2017 às 15:57

Disfruta-o bem, o rei não é assim tão carrancudo…

Sangue humano que, no fundo, é todo igual. Ainda pensei que o advento das análises clínicas viesse mudar algumas mentalidades, mas pelos vistos não…

E o mundo quererá entrar? E no dia-a-dia, também nós praticamos a justiça, mesmo nas coisas mais simples? (ignora, que isto daria outro tema daqueles).
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De Rita PN a 27.03.2017 às 17:18

A propósito do sangue e do DNA, convido-te a fazer a viagem por este vídeo: https://youtu.be/IpldLd_XCm4

A proposito de justiça, nem ela é universal em si mesma...
O que é justo para uns, não é para outros.
Basta olhar para os diferentes países do mundo e ver como são diferentes e opostas as formas de a aplicar.

Não existe A Justiça. Existem ideologias que dela derivam e se moldam, ou são moldadas de acordo com os fins a que se destinam, ou se pretendem alcançar.

Senão explica-me, o que são leis, para que servem e porque é que existem? Se são, elas próprias, o caminho para a justiça, porque é que tantas vezes a impedem?
E não são universais porquê?
(Agora digo eu, esquece. Daria um livro).

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De Robinson Kanes a 27.03.2017 às 19:10

A justiça está dependente de épocas, culturas, movimentos, pessoas e por aí adiante… por exemplo, há uns anos uma execução sumária em qualquer pelourinho era justiça…
A lapidação é, em alguns países consagrada na lei como forma de executar uma pena! E tantos mas tantos exemplos que poderíamos encontrar por aí. Mas de facto, mesmo nas coisas mais simples nem sempre somos justos, no nosso quotidiano falhamos muitos vezes nisso, um dos exemplos mais simples é pensarmos a justiça do nosso ponto de vista, do nosso direito de ver feita justiça. O "costume" era e é perigoso por isso…

Agora fazes lembrar-me Tácito com a seu célebre afirmação "corruptissima re publica plurimae leges", ou seja, quanto mais corrupto o Estado maior o número de leis e que provavelmente acabou no "quanto mais leis, menos justiça" atribuído aos alemães. Quanto às leis, não são universais pelo que referiste nas tuas palavras, pode haver consenso em algumas, mas mesmo assim...

Daria um livro… :-)
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De Rita PN a 27.03.2017 às 21:13

Era exatamente aí que eu queria chegar quando referi que não existe A Justiça, mas sim ideologias que dela derivam e se moldam: "A justiça está dependente de épocas, culturas, movimentos, pessoas e por aí adiante…"

Da mesma forma, no dia a dia, usamos essas mesmas ideologias que moldamos de acordo com os fins a que se destinam, ou se pretendem alcançar. Ou como disseste "pensarmos a justiça do nosso ponto de vista, do nosso direito de ver feita justiça".

Ehehe lá fui eu por-te a pensar! Esse tema das leis... E sim, talvez o número de leis seja diretamente proporcional ao nível de corrupção de um estado.
(Já nem vou falar daquelas leis que vigoram apenas o tempo necessário para que alguém faça o que tem a fazer e depois...)
Vá Rita, menos... Tu sabes que nenhuma das prisões atualmente existentes comportaria o número de corruptos deste país tão pequeno... Mas e a justiça?
Vá lá, não faças perguntas difíceis.
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De Robinson Kanes a 27.03.2017 às 21:28

Sim, a justiça é um tema abrangente que oscila entre o pensar social, filosófico e legal. No fundo, cada país, cada nação, ou cada cultura cria os mecanismos que lhe permitem sustentar e afirmar o conceito e as práticas inerentes ao mesmo. Claro que a justiça como valor vai chamar a si outros valores… não é somente a justiça dos tribunais, para isso já teríamos de pedir auxílio a alguém na área do Direito :-)

Sim, a existência de muitas leis pode ser necessária porque existem tantas práticas dolosas que se torna praticamente impossível o controlo dessas mesmas práticas… por outro lado, o excesso de leis pode provocar entropia nos processos e permitir que potenciais perpetradores deste ou daquele acto saiam impunes. Um terceiro ponto em que não tinha pensado e que fizeste bem em trazer é esse mesmo… leis feitas à medida e que em Portugal e por esse mundo fora não faltam exemplos.

As prisões poderiam não comportar, mas a prisão não é o fim último. Depois ainda existe uma outra situação - em Portugal a censura social face a muitos crimes de corrupção é baixa, talvez por ser uma prática que não é vista com a gravidade devida. A intensidade da vergonha (por exemplo num crime de tráfico de droga) não é a mesma num crime de colarinho branco e aí já entramos no campo da sociologia e da antropologia.
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De Rita PN a 27.03.2017 às 21:36

Não foste tu que escreveste um artigo sobre um pedido de desculpa público por parte de uma certa entidade bancária?!
Recordo-me de termos debatido algo inerente a esse campo, censura social, e os porquês de ela não ter a devida intensidade face à gravidade dos crimes de corrupção. Afinal já é uma prática tão entranhada na sociedade que... chega a ser vista como banal.
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De Robinson Kanes a 27.03.2017 às 21:39

Sim, mas foi na Alemanha… e aí essas práticas não são muito bem vistas…

Foi este: http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-licao-do-deutsche-bank-19902
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De Rita PN a 27.03.2017 às 22:09

Exatamente.
Algures por aí num comentário fez-se referência a Portugal.
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De fashion a 27.03.2017 às 12:47

um avez mais excelentes imagens e texto!!
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De Robinson Kanes a 27.03.2017 às 15:57

Muito Obrigado!
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De Anónimo a 27.03.2017 às 13:26

Lindo
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De Robinson Kanes a 27.03.2017 às 15:58

Muito Obrigado!
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De Mamã Silvestre a 27.03.2017 às 13:43

e que bela aventura tem sido :)
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De Robinson Kanes a 27.03.2017 às 15:58

Ainda bem que tens gostado :-)
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De Rita a 27.03.2017 às 17:58

Bom anfitrião, o Zagal Outro bom capítulo nesta história
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De Robinson Kanes a 27.03.2017 às 18:44

Óptimo mesmo. Obrigado.

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