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Um Fim de Semana no "Cinema Paradiso"

por Robinson Kanes, em 13.02.17

3new.jpg

 

 

Precisava de me comover um pouco, mas não tenho importância que chegue. Comover-nos é estarmos cheios de nós e eu estou vazio.

Vergílio Ferreira, in “Para Sempre”

 

Este fim de semana, precisei de me comover. Talvez porque a chuva a isso convidava, talvez porque a noite sinistra e escura exercesse em mim, aliás, em nós, uma necessidade de extrapolar os limites da vedação civilizacional e regressar a um certo lugar onde tudo é possível.

 

Foi assim que, no Sábado à noite, fui buscar o “Cinema Paradiso”. Se existe obra completa, esta é sem dúvida um grande exemplo... uma realização soberba, e claro, com Philippe Noiret (Alfredo) entre as personagens não seria difícil assim o ser. A tamanha obra acresce uma banda sonora genial, quase perfeita, criada pelo grande Mestre de quem já falei aqui, Ennio Morricone. Não é difícil deixar o CD a rolar e cair no sofá, ficando absorto em pensamentos e memórias, tal como Salvatore (ou Toto) na cena final do filme. Somos imediatamente agarrados para uma espécie de mundo paralelo, mas ao mesmo tempo tão... real... tão nosso...

 

Mais uma vez, assistindo a este filme, foi-me possível assistir a uma certa decadência do cinema (algo tão actual), mas também, questionar se, por mais que possamos fugir, não estaremos somente a criar um muro que nos afasta das memórias. Um muro que é tão ténue quanto a parede que separa um apartamento de má construção do outro. Se mesmo com esse muro, tudo não está presente, nem que por intermédio de fantasmas... Toto questionou-se e... na verdade terá chegado à mesmo conclusão que eu.

 

Sartre, dizia na sua “Náusea”, e a propósito da irreversibilidade do tempo, que “o passado é um luxo de proprietário [...] possuo apenas o meu corpo, um homem sozinho, só com o seu corpo, não pode reter as recordações, elas passam através dele.”. Pois bem, mas Sarte esquecia-se, muito provavelmente de emoção e de que todos talvez sejamos proprietários das nossas emoções. De como, mesmo com a transformação de Giancaldo (embora a praça que surge no filme, na realidade, corresponde Palazzo Adriano, perto de Palermo) e com a demolição do Cinema Paradiso e a importância de não regressar, as memórias ficam, o apego fica e, mesmo que rodeados de fantasmas, uma certa marca de nós e dos outros não se apaga... porque dessas emoções e marcas somos nós proprietários vitalícios. 

 

Deixo-vos uma cena, uma das mais interessantes e que foi eliminada do filme (quem visualizar o filme ou até voltar a vê-lo vai perceber o porquê da minha escolha e questionar-se se... não foi melhor ter sido eliminada)... porque não... uma fantástica interpretação do tema principal do filme (e logo naquela Praça que me diz tanto em Veneza) para que, aqueles que o desejem, sejam proprietários das mesmas. Penso que será uma boa forma de começar uma semana... aguardo pelos sentimentos suscitados.

 

E... talvez a vida nem sempre tenha de ser recheada de finais felizes... mesmo no cinema... ou... o que é um final feliz?

 

Fonte da Imagem: http://www.dvdbeaver.com/film/dvdcompare/cinema-paradiso/3new.jpg

 

Cena Eliminada

 

 

 

 

 

Tema Principal do Filme

 

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43 comentários

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De a mãe dos PP's a 13.02.2017 às 10:00

Precisavas de te comover... mas estás bem?
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De Robinson Kanes a 13.02.2017 às 10:05

Claro... penso que faz parte da vida termos alguns momentos de comoção. Ajuda-nos a crescer, a recordar, a parar e a pensar... e quem disser o contrário é tolo :-)
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De a mãe dos PP's a 13.02.2017 às 10:07

Tens razão. Eu também funciono assim. Temos que nos encontrar connosco mesmos para continuar
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De Robinson Kanes a 13.02.2017 às 10:12

Sempre... podemos sempre criar esse encontro, ou até, acabar com o mesmo.

Parece-me que, a eliminação da cena que coloco, do filme original diz também algo e acaba por ser um apêndice de apoio para a compreensão do mesmo... e do dilema que o encerra. Faz-nos, inicialmente, pensar que gostaríamos de ver a mesma lá, no entanto... quando desligamos...
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De a mãe dos PP's a 13.02.2017 às 10:16

é o retomar da nossa realidade
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De Chic'Ana a 13.02.2017 às 10:27

Todos precisamos de ter esses momentos: momentos de sorrisos, de choro, de emoção. Nunca vi esta obra em questão, mas fiquei bastante curiosa. Já ouvi falar muito da mesma.
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 13.02.2017 às 12:38

De facto...
A obra é genial e teve o seu lugar nos "Oscars"... tens aí um bom programa para o serão.
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De Casal Irrequieto a 13.02.2017 às 11:05

Não conheço o filme....Mas hei-de averiguar!
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De Robinson Kanes a 13.02.2017 às 12:39

Recomendo vivamente, deve constar em qualquer "Top 10" de um bom amante de cinema e não só.
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De Casal Irrequieto a 13.02.2017 às 12:45

Então é mesmo para nós!
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De Robinson Kanes a 13.02.2017 às 12:53

Fico a aguardar o "feedback" :-)
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De Mamã Silvestre a 13.02.2017 às 12:10

Já ouvi falar do filme mas nunca o vi... acho que todos nós ficamos mais completos sempre que nos comovemos...
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De Robinson Kanes a 13.02.2017 às 12:39

Sempre completos, depois é uma questão de lidarmos com as emoções...
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De Cecília a 13.02.2017 às 12:18

um final feliz, dia a dia, é o sentir que não nos traímos a nós próprios.


como é bom o colo do alfredo.
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De Robinson Kanes a 13.02.2017 às 12:40

Correcto e afirmativo :-)

Sobretudo, este cena "off the record" só vem provar a importância daquele colo.
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De Rita PN a 13.02.2017 às 14:03

"... a importância de não regressar, as memórias ficam, o apego fica e, mesmo que rodeados de fantasmas, uma certa marca de nós e dos outros não se apaga... porque dessas emoções e marcas somos nós proprietários vitalícios." ...
Resumiste o meu post "O regresso de um estranho". Perfeito!

Quanto às palavras de Verigilo Ferreira "Comover-nos é estarmos cheios de nós e eu estou vazio.", o que posso dizer é que a vida precisa de um certo vazio para poder ser.

"A lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta.
A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. É no vazio da jarra que se colocam flores.
E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas são as pessoas que se acham cheias de verdades e sabedoria e falam sem parar. São umas chatas!
Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas é fácil amar. Elas estão cheias de vazio.
E é no vazio da distância que vive a saudade." - Rubem Alves.

PS: eu gosto de me comover. É sinal que sou humana! ;)
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De Robinson Kanes a 13.02.2017 às 15:30

Eu denotei logo que havia uma ligação, daí a minha interrogação.

É do vazio que se cria matéria... por vezes é preciso estar "vazio" para que consigamos começar de novo. Não é isso que faz a vida ter encanto?

Sim, quem não se comove não é humano, nem sei como consegue viver, mas isso é outra conversa. Já foste alvo de elogios no artigo da "Pancadaria Portuguesa".
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De Rita PN a 13.02.2017 às 16:19

Foi uma coincidência bastante engraçada! Entre tanto tema possível, fomos ambos, sem conhecimento prévio, abordar o mesmo...! Isto realmente... cabecinhas pensadoras!

Sem dúvida Rob. O vazio é-nos mesmo necessário. Sem ele não recomeços, e sem recomeços não há novos encantos. ( :

Não sei se vivem, ou apenas passam pela vida sem lhe encontrarem o sentido.

Uau... Eu? Pelos comentários? Reparei que o artigo foi destacado pela SAPO e venho felicitar-te por isso. Mas eu? Eu só tenho 27 anos, tenho lá idade para ser elogiada. Sou apenas uma às vezes menina, outras vezes mulher com muito para aprender! E aprendo umas coisas valentes aqui nos debates tidos! Obrigada Rob.
(vou espreitar a pancadaria )
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De Robinson Kanes a 13.02.2017 às 21:51

Hoje em dia pensa-se pouco… com sorte, somos nós que estamos mal.

A idade nunca é desculpa para se elogiar ou não… não é ela que dita se estamos perante um bom ou mau profissional. E para aprender nunca se é bom demais… creio até que são esses que procuram aprender mais.

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De Rita PN a 13.02.2017 às 23:58

Ou não se pensa, ou pensa-se no que não se deve ou pouca diferença faz...
Nós apenas não pertencemos aqui. Viemos só cá em missão! Qual? Ainda não sei.
Olha para o mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo! - Rita

Só te posso estar grata por tudo! Mesmo muito grata!
E sim, toda a razão nas palavras escritas.
De qualquer forma, eu sou apenas e tão somente eu. (Em modo filosófico: sou tudo aquilo que ainda não fiz. E tudo o que de mim ainda não se escreveu, leu ou falou. Ainda sou só um rascunho!)

Um grande beijinho!
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De Robinson Kanes a 14.02.2017 às 10:21

Palavras inspiradoras, verdadeiramente… muito obrigado!

Beijinhos
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De HD a 13.02.2017 às 18:55

Tremenda memória... *_*
Nem sei o que comentar assim a quente!
Sei apreciar de novo, pelo menos o nosso Ennio :D
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De Robinson Kanes a 13.02.2017 às 21:49

Tremenda mesmo, está no meu "Top Ten"… eu estou sempre a dizer isso, mas enfim.

O Ennio… o Ennio…

Para mim também foi uma descoberta esta gravação em Veneza, na Praça de S. Marcos. Já lá aprontei uma daquelas...
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De HD a 13.02.2017 às 21:59

O cenário: com aquela iluminação blue e uma enchente grandiosa...
Magnifico clip, majestoso compositor *_*
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De Robinson Kanes a 13.02.2017 às 22:08

Eu não consigo deixar de gostar, mesmo daqueles temas mais "western"… é um Senhor. Já o tinha dito, penso eu, mas o que me irrita solenemente é ainda não ter assistido a um concerto… enfim...
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De HD a 13.02.2017 às 22:16

Também não grande fã de spaghetti mas ele é incomparável!
Ir a um concerto dele: dream of a life time :)
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De Robinson Kanes a 13.02.2017 às 22:34

"oh yes indeed…".
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De HD a 13.02.2017 às 22:36

Allow me to agree with you, once again :)
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De Maria a 13.02.2017 às 20:53

E um grande shame on me... que nunca o vi...
Não faço comentários sobre finais felizes. No fim digo-te ;)
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De Robinson Kanes a 13.02.2017 às 21:47

Então tens de ir ver! E já! :-)

Ok, muito bem, fico a aguardar.

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De Maria a 14.02.2017 às 09:00

Bolas... OK, fica prometido!
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De O ultimo fecha a porta a 13.02.2017 às 22:38

Eh pah, este fim de semana tb foi de cinema pelos meus lados :)
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De m-M a 14.02.2017 às 11:58

Já te tinha confessado que este filme para mim é muito, é vida, é amor, é memória!
Agradeço-te por procurares sentimento na beleza da vida.
Agradeço-te este bocadinho perdido do filme - acreditas que perdi o DVD director's cut, com todas estas cenas, numa das minhas mudanças de casa? Corro tudo e nunca mais o encontrei :(

Obrigado, não tenho mais palavras...

Beijinho grande,
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De Robinson Kanes a 14.02.2017 às 13:35

Sim, recordo-me perfeitamente.

Eu é que agradeço e ainda bem que te fez sorrir e apelou ao teu sentimento. Sim, esta cena, quando a vemos dá-nos uma certa acalmia ao pensar-se que o filme poderia ter acabado assim… mas, com alguma "meditação", acho que provavelmente a não colocação da mesma foi uma escolha acertada.

Eu é que agradeço as tuas palavras.

Beijinhos

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