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Um Feijão Frade no Deserto...

por Robinson Kanes, em 31.10.16

Feijão-frade-1.jpg

 

 

No âmbito do desafio lançado pela colega Mami, eis-me aqui a falar sobre um Feijão Frade no Deserto. Sim... eu também pensei algo como: "que coisa mais parva!".

 

Já imaginaram a vida de um feijão frade? Acredito que já todos pensámos em tal manifestação de existência. A vida do feijão frade é antiga e digna de uma verdadeira diáspora, ou não fosse este oriundo de África e tenha agora uma comunidade por todo o globo. Por pouco não se chamava rabi ao invés de frade...

 

Colhido seco, ou vai para uma embalagem para posterior venda ou é imediatamente cozido e fechado numa lata com outros tantos amigos e familiares da mesma colheita... estão a ver um autocarro da Carris em hora de ponta? Algo como isso, mas menos doloroso.

 

No entanto, o que vos vou contar é uma história que tem sido passada de geração em geração em muitas famílias da mais alta elite - a história do feijão frade que acabou no deserto. Poderia ter acabado numa salada de atum com cebola e salsa, mas aqui tudo foi diferente...

 

Este feijão frade cresceu num pé de feijão em Morogoro, na Tanzânia. No primeiro dia em que teve oportunidade de ver o sol, foi imediatamente colhido e metido num enorme cesto de palha. Na viagem para o barco, os feijões mais velhos contavam histórias de arrepiar - feijões que eram comidos em restaurantes de má fama, feijões que passaram da validade e acabaram com falta de ar, feijões até, que foram atirados pela pia da cozinha e acabaram por morrer moles e afogados numa ETAR - histórias terríveis.

 

Contudo, numa escala em Casablanca, o nosso feijão e outros tantos foram colocados em camiões para serem transportados por essa via para a Europa, mas na verdade o destino do nosso feijão seria outro.

 

Quando, num percurso esburacado e sob uma tempestade de areia, o saco que transportava o nosso feijão, já de si mal fechado, caiu e espalhou milhões de feijões pelo chão, este nunca esperou que acabaria de aterrar em pleno Saara.

 

Tinha sido transportado durante centenas de quilómetros até ficar sozinho no deserto. E também no deserto a vida não foi fácil. No primeiro dia, não fosse o vento e seria comido por uma cobra e no segundo quase que fora sugado por areias movediças.

 

Procurou água, contudo cedo percebeu que água e feijão são uma combinação letal e que provoca uma moleza extrema nesta espécie de semente. O deserto, apesar de monótono, era cheio de perigos e nem uma lata de marca branca para servir de abrigo surgia no horizonte.

 

Triste e aborrecido, este nosso feijão procurou uma saída. Desejava que o seu destino fosse a Europa onde seria consumido num glamoroso restaurante de Paris ou Londres. No entanto, ali naquele local seco e sem fim, via a sua vida desperdiçada e elevada ao nível daqueles feijões que são comidos com atum de lata num qualquer café central, sem qualquer requinte e reconhecimento.

 

Desiludido por vaguear solitariamente por bancos de areia, por dunas infindáveis, cansado daquela vida errante eis que se abandonou ao absurdo. Acabaria engolido por areias movediças.

 

Mas a história não acaba aqui.

 

Ao contrário do que esperava, não sufocou. Lá em baixo uma pequena corrente de água passava e, contra todos os medos aí se encostou e adormeceu. Dormiu dias a fio e eis que um dia deu consigo a acordar cheio de raízes a sair do seu pequeno corpo. Fechou os olhos novamente, sorriu... e adormeceu para sempre.

 

Foi o primeiro pé de feijão do deserto, um pé de feijão que fez nascer outros tantos feijões e que transformou aquela zona inóspita, para sempre num jardim. Um jardim, que se transformou num enorme oásis e alimentou um sem número de povos do deserto que até aí lutavam por comida.

 

Fonte da fotografia: Jornal de Oleiros, 2016

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15 comentários

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De Chic'Ana a 31.10.2016 às 11:48

A história de um simples feijão que alimentou uma nação. Brilhante! =)
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 31.10.2016 às 14:09

Muito Obrigado!
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De mami a 31.10.2016 às 14:00

amei este trocadilho: "rabi ao invés de frade"

"Poderia ter acabado numa salada de atum com cebola e salsa, mas aqui tudo foi diferente.."

Quando a história começa fiquei "agarrada". uma bela história, uma bela analogia das expectativas que temos da vida e quando achamos que perdemos o melhor heis que surge algo que nem tínhamos sido capazes de imaginar!
adorei!
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De Robinson Kanes a 31.10.2016 às 14:12

Por acaso ri-me um pouco com isso também... e afinal a grande maioria das pessoas conhece o pobre do "feijão rabi" dessa famosa salada.

Obrigado pelo comentário, sim tentei dar vida a um entre milhões e como é possível sair da multidão sem andar propriamente aos saltos...

Obrigado e espero que aqueles que aqui cheguem também visitem o seu em http://mami.blogs.sapo.pt
Já imaginei mil e uma formas de ver portugueses em Marte depois de ter lido aquele seu desafio.
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De mami a 31.10.2016 às 18:20

:) acho que com a equipa certa ...seria uma animação...
para a próxima levámos o feijão frade ou rabi para marte ;)
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De Robinson Kanes a 31.10.2016 às 20:58

Desde que não traga com ele feijões parasitas.
Em relação aos portugueses em Marte, seria importante delinear um rigoroso processo de recrutamento... muito rigoroso. :-)
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De mami a 02.11.2016 às 07:49

os processos de recrutamento rigorosos assustam-me.
quando não há flexibilidade podemos optar por candidatos inflexíveis...que certamente não resistiam a uma missão em marte!
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De Melhor Amiga Procura-se a 31.10.2016 às 17:50

O feijão milagroso, pois permitiu alimentar muita gente...
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De Robinson Kanes a 31.10.2016 às 20:57

Um feijão com sorte e pessoas com sorte...
Obrigado pelo comentário.
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De R & P a 31.10.2016 às 18:25

uma verdadeira saga!
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De Robinson Kanes a 31.10.2016 às 20:58

Obrigado pelo comentário.
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De O ultimo fecha a porta a 31.10.2016 às 21:12

Muito bom! No meio do azar, teve um final feliza para ele e para quem pode disfrutar dele :)
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De Robinson Kanes a 31.10.2016 às 21:16

Muito Obrigado!
Sim, foi um feijão verdadeiramente útil e claro está... não acabou na salada de atum...
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De erreguê a 31.10.2016 às 22:06

Gostei muito e agora sempre que olhar para um simples feijão frade nunca mais será da mesma forma. Um abraço.
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De Robinson Kanes a 01.11.2016 às 12:21

Muito obrigado. É só um pequeno grão mas que faz a diferença...

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