Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]


"Ter de Ser é Ter de Morrer".

por Robinson Kanes, em 10.10.17

IMG_0647.jpg

Fonte da Imagem: Própria.

 

Ontem escrevi sobre a morte, aliás, penso que escrevi sobre a vida... Tentei rondar algumas das minhas inquietações, colocando o "nós" perante a morte como um não "nós", como um nada, pelo menos enquanto humanos. Procurei, com base numa abordagem mais literária e cientifica, trazer a importância do Homem no quadro do seu destino e de como este ainda não percebeu a enorme responsabilidade que lhe foi atribuida, mesmo tendo chegado à conclusão que não é possível delegar a mesma num ser superior para lá de toda e qualquer possível interpretação.

 

Ao reler o texto de ontem fui novamente à procura Levinas (que também serviu de base), mais precisamente ao seu "Deus, a Morte e o Tempo". Voltei a Levinas, talvez depois de reler nos meus apontamentos a sua interpretação do "ter de ser é ter de morrer", frase que resume a primeira parte do meu texto de ontem. Mas Levinas vai mais longe e coloca-nos perante a realidade de que "a fuga diante  da morte é que atesta a própria morte". Será que ao não fugirmos da morte viveremos mais? Será essa uma forma de protelar a nossa morte e viver um dia-a-dia mais tranquilo? Mas será também esse o caminho mais correcto, o de fechar numa gaveta essa realidade que pode ser o próximo instante?

 

Os antigos, e algumas sociedades ainda hoje convivem bem com a morte, mas a esse contexto está agarrado um outro factor que é uma profunda fé (maior parte das vezes) em algo sobrenatural. O homem medieval do ocidente lidava muito bem com a morte, recebia-a tranquilamente e tudo se cumpria num ritual minuciosamente preparado. No entanto, este não tinha dúvidas de que seria recebido nos céus... Aliás, todo o trabalho de fuga ao "inferno" era realizado muito antes de forma a evitar o castigo divino - hoje, no entanto, percebemos que também foi enganado por uma estrutura religiosa.

 

Fui relendo mais umas páginas, cruzando anteriores leituras com a actual e no fundo a conclusão foi óbvia: "a morte não é, então, o acabar de uma duração feita de dias e de noites, mas uma possibilidade sempre aberta". É uma fuga constante, de facto, mesmo que não demos conta dela, é o facto dessa possibilidade existir, mesmo que não pensemos nela, daí o nosso choque com a morte fora da "idade para a mesma", talvez influenciados por aquilo que, mais uma vez, Levinas diz e que se resume no seguinte: "fugimos à morte mantendo-nos ao pé das coisas e interpretando-nos a partir das coisas da vida quotidiana". É talvez essa fuga com motivos distractores que nos fecha neste círculo - fugimos sem ter sequer consciência disso, mas estamos nessa fuga constante. Será também essa fuga e permanência perto das coisas da vida que permitem a própria vida como a conhecemos.

 

Mais uma vez, penso que esta reflexão faz-nos pensar no tipo de vida que queremos, naquilo que ambicionamos e nos guia no quotidiano. Talvez isso, apesar de ser uma covarde fuga, nos permite encetar caminhos mais claros, justos e com uma enorme responsabilidade perante nós, perante os outros e a sociedade em geral... Podemos pensar nisto e, no fundo, conservar alguma esperança, pois "não podemos ignorar o nada da morte, mas também não o podemos conhecer". Por estas palavras, Levinas tentará criar aqui uma atenuante ao estado "negro" dessa condição humana e abrir caminho para uma certa fé/esperança, cabendo a cada um interpretá-la de diferentes formas e com isso estabelecer um caminho de vida que lhe permita ser feliz e permitir que os outros também o sejam... Mesmo que sem fé em algo para lá da morte...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


27 comentários

Imagem de perfil

De Sofia a 10.10.2017 às 10:41

Kanes, a verdade por muito que as pessoas queiram não podem fugir á morte é a coisa mais certa da vida!

Agora que a morte assusta a maioria das pessoas, mas acho que o medo de sofrer é pior que achas?
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 12:12

É um "cliché" que faz sempre todo o sentido e é inquestionável :-)

O medo de sofrer perder-se-á perante a ameaça da morte. Ou estamos debaixo de um sofrimento ou serenidade tal que só desejamos a morte ou então, perante a sombra desta, o medo de morrer toma o lugar do medo de sofrer. Depende muito do indivíduo.
Imagem de perfil

De Sofia a 10.10.2017 às 12:21

Assusta-me mais a morte das pessoas que gosto do que a minha!
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 12:34

...depois de mortos, a morte será levada, não pelo morto, mas por aqueles que ficam e aí... Aí não teremos um "nós" mas teremos "eles" e isso faz toda a diferença.

Fui buscar ao texto de ontem...
Imagem de perfil

De Sofia a 10.10.2017 às 12:37

A morte será levada, mas nunca os sentimentos...
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 13:40

Será levada por quem vai? Achas que não fica connosco?
Imagem de perfil

De Sofia a 10.10.2017 às 14:41

Sim, mas a perda e os sentimentos ficam connosco!
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 14:45

Pronto, é isso. Vai um pouco ao encontro da frase. Ou seja, a morte acaba com o "nós" e cria o "eles"...
Imagem de perfil

De Rita PN a 10.10.2017 às 13:11

Meu caro Robinson :) Não tendo tido oportunidade de passar por cá ontem, debrucei-me hoje sobre estes dois artigos.
Poderia debater contigo, neste espaço fantático, linha e linhas de teorias diversas. Mas o tempo é escasso. Contudo, não quero deixar de contribuir, de alguma forma. Aqui te deixo um link a meu ver interessante, cujo conteúdo pode ser extrapulado para diversas questões da vida humana. A morte é uma delas.
http://www.revistaprogredir.com/paulo-gama---motivaccedilatildeo-a-chave-mestra-da-mudanccedila.html
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 13:45

Obrigado pela presença... Isso já é bastante :-)

É uma opinião, aquela que é encetada por Paulo Gama. Eu, não sendo psicólogo, creio que o texto está a cair num lugar comum... (o meu provavelmente também está). Não é mais do que um aquilo que queremos ouvir. Falta-lhe talvez um sumo que nos coloque a pensar. Mas volto a dizer, é a minha modesta opinião, longe de mim querer dizer que o senhor não sabe nada. Não é esse o objectivo, é mais um contributo. Tenho um "feeling" que o teu contributo e o de outros que aqui já deram o seu, vai mais ao encontro daquilo que procurei com estes dois últimos artigos. Eu bem digo, vocês são os maiores :-)
Perfil Facebook

De Rita Palma Nascimento a 10.10.2017 às 14:16

Obrigada eu, pelas sempre simpáticas palavras! :)

Eu compreendo o teu ponto de vista e o "lugar comum" a que te referes. E obviamente que não interpretei o teu comentário como uma crítica ao conhecimento do senhor em questão.
O que me levou a partilhar o link, foi a teoria que defende que o ser humano ou age por aproximação ou por afastamento, a determinadas situações. Lembro-me de o ter lido num artigo sobre recrutamento é achei bastante interessante a amplitude da questão. Ao ler o teu artigo, automaticamente recordei a abordagem.
Fiz a pesquisa rápida sobre o tema, mas o melhor artigo que encontrei foi esse. Passa o geral da ideia, abrindo postar para outras abordagens mais profundas.

Ora, somos os maiores a comentar, porque alguém é o maior a puxar por nós ehehe :-)
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 14:44

O recrutamento, cada vez mais uma área em risco de desaparecer :-)))

Olhe que não... Olhe que não...
Imagem de perfil

De PP a 10.10.2017 às 14:57

Uma passagem, uma miragem, a passagem de uma ponte rumo a uma nova vida até que consigamos tornarmo-nos luz?...
Somos e não deixamos de ser matéria.
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 15:00

Citando o meu artigo de ontem:


"Não seremos nós, não seremos mais nada a não ser um punhado de matéria que deambula pelo ar e permitirá que outros sistemas se desenvolvam... Não passaremos do sujo porto onde as fezes e a urina fazem nascer as grandes obras, como defendia Agustina em "Fanny Owen"."
Imagem de perfil

De PP a 10.10.2017 às 15:03

Não entendo o "deambula pelo ar". Exceto em casos de cremação, claro. Só depois de muitos, muitos anos poderemos "passear" como partículas" do ar ou fazer parte de alguns elementos.
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 15:18

Deambula pelo ar, como uma espécie de "estar espalhado por todo o lado". Os gases que libertamos (perdoa-me esta visão tão macabra) já são partes de "nós"... Ou melhor da ausência de "nós" como seres humanos. É também colocado num sentido metafórico.
Imagem de perfil

De PP a 10.10.2017 às 15:21

Ah, refere-se aos gases resultantes da nossa decomposição. Já entendi o ponto de vista do autor.
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 15:26

Também... Mas era sobretudo num sentido metafórico para atingir a conclusão de que estamos por todo o lado.
Imagem de perfil

De HD a 10.10.2017 às 21:10

O ter de ser... é o que eu gosto de chamar... tenho de o fazer! ;)
Agora, (porque) tem de ser... não me contem essa história de embalar... e ficar irremediavelmente adormecido! :-)
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 21:14

Hoje mais filosófico e acutilante :-)
Aposto que, como eu, não estás a ver futebol :-)))
Imagem de perfil

De HD a 10.10.2017 às 21:21

Nota-se perfeitamente! ahahha
Senão chutava a bola para a frente... à espera que ela não voltasse à minha defesa :-)
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 11.10.2017 às 08:19

ahahahhahhah
Não estás a acompanhar os assuntos fundamentais do país "shame on you" :-)))))
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 10.10.2017 às 23:20

Cada dia que passa sabemos que é menos um que vivemos.
Eu questiono-me, há uns valentes anos e todos as noites antes de dormir, se chegarei a amanhã.
E de manhã acordo e estou pronta para mais um dia, corra ele bem ou mal.
Por vezes pergunto-me se quando morrer "verei" as pessoas que mais quero, se posso evitar o sofrimento e olhar por elas: os meus sobrinhos netos.
Não sei falar da morte.Mas aceito-a.



Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 11.10.2017 às 08:22

Cada dia é e será sempre uma conquista... Utilizando o velho ditado popular, "para morrer basta estar vivo".

Não sei se verá, mas o ideal será sempre garantir que têm os instrumentos para viver quando a Maria João não estiver.



"Não sei falar da morte.Mas aceito-a."

:-)
Imagem de perfil

De naomedeemouvidos a 11.10.2017 às 13:34

Uma boa reflexão. Gostei muito do texto.

Um bom dia para ti.
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 11.10.2017 às 13:36

Grato.

Um bom dia para ti também :-)

Comentar



Mais sobre mim

foto do autor



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Mensagens

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB