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Na Rota do Trancão...

por Robinson Kanes, em 22.11.17

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Fonte das Imagens: Própria. 

 

O Rio Trancão é um dos rios mais conhecidos de Portugal, sobretudo por causa da poluição. É um rio que nasce na Póvoa da Galega (concelho de Mafra) e desagua em Sacavém (concelho de Loures).

 

O que talvez muitos de nós não saibamos é a importância história deste rio: foi nas margens deste que se deu a Batalha de Sacavém, o primeiro embate entre as tropas de D. Afonso Henriques e os Mouros aquando da conquista de Lisboa. Também foi por este rio que muitas materiais (sobretudo a pedra) foram transportados para as obras de construção do Convento de Mafra. Este foi também, até ao século XIX, a linha de abastecimento de Lisboa que assim recebia os produtos da zona saloia. Ainda hoje o imaginário desta época está presente nos grupos folclóricos saloios. Em qualquer festival de folclore saloio vão reparar que o rio estará sempre presente nas vestes (o pescador), nas danças e na própria música.

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Hoje, a Foz do Trancão, particularmente, é um espaço de lazer e desporto onde podemos praticar desporto ou simplesmente contemplar o Tejo. No entanto, uma das rotas mais interessantes do Trancão é aquela que liga Granja (freguesia de Vialonga, concelho de Vila Franca de Xira) a Sacavém, passando pelo bela lezíria de Loures com os seus campos agricolas muito férteis.

 

A bicicleta é sem dúvida o parceiro ideial, afinal o caminho é longo, todavia também pode ser feito a pé, aliás, uma parte desse caminho é "Caminho de Fátima" e "Caminho de Santiago". Lembro-me da primeira vez que fiz este percurso, ainda à descoberta e com uma bicicleta "amadora", a minha BERG. Talvez tenha sido, aliás, o meu primeiro percurso BTT a doer e onde fiquei a perceber que uma bicicleta cheia de lama é um transtorno.

 

Mas todo este percurso coloca-nos numa Lisboa onde é possível atravessar pequenos montes e vales junto ao curso de um rio observando campos agrícolas, pequenas quintas, e uma riqueza faunística singular, sobretudo dominada por aves de estuário, ou não fosse o Trancão um afluente do Tejo. Podemos também encontrar alguns equinos que deambulam pelas margens do Trancão enquanto dividem o seu espaço com as garças. 

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É difícil imaginar os barcos de mercadores a cruzarem este rio, sobretudo se nos sentarmos na relva junto ao chamado "Parque Tejo". O crescimento urbanístico torna difícil essa memória e a poluição não nos deixa perceber como foi um dia possível por ali tomar um banho. De facto, hoje o rio está mais limpo devido ao forte investimento feito na sua limpeza, sobretudo aquando da "EXPO 98", no entanto, o forte assoreamento também não ajuda.

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E na verdade, muitos de nós já atravessámos este rio, nomeadamente quando entramos em Lisboa pela A1 ou até mesmo pela estrada nacional 10 em Sacavém.

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O Mosteiro de Santa Maria das Júnias...

por Robinson Kanes, em 20.11.17

IMG_6875.JPG Fonte das Imagens: Própria.

 

Como prometido, teria de voltar a Pitões das Júnias. O espaço de um artigo, que pode ser lido aqui, é pequeno para a grandeza desta aldeia, "perdida" no concelho de Montalegre e onde o Gerês termina a sua conquista de vales e montes e abraça o Barroso. 

 

Não podemos falar de Pitões sem mencionar o Mosteiro que aí se encontra perdido e em ruínas. Não defendendo que o mesmo esteja em ruinas, de facto, é um marco e uma imagem inesquecível, um pouco ao nível do que encontramos no Convento do Carmo, que não precisa de obras para ser imponente e apetecível. Todavia, e segundo a Câmara Municipal de Montalegre, já existe um projecto para reabilitar o mesmo... Fantástico, não é?

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O Mosteiro encontra-se, na maioria das publicações, datado no pré-românico, mais precisamente no século IX. Todavia, as investigações mais recentes apontam para o século XII - com alguma precisão para o ano de 1147. Acerca da história deste mosteiro, inicialmente Beneditino, sugiro este artigo do Instituto de Estudos Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.  

 

Com uma planta trapezoidal, é um mosteiro românico mas com um claustro já com alguns apontamentos góticos, pelo que não nos devemos deixar enganar pelos arcos de volta perfeita, mais românicos. À semelhança de muitos destes espaços, a evolução do mesmo esteve sempre lado-a-lado com a História e respectivamente com a arquitectura da época. Desde então as grandes mudanças deram-se sobretudo ao nível social, primeiramente com a absorção dos Beneditinos pela Ordem de Cister e já em 1834 com a extinção do mesmo por arrasto da extinção das ordens religiosas. Passou a ser paróquia e a ter outras utilidades e hoje, no dia 15 de Agosto ainda é alvo da romaria dos habitantes de Pitões e aldeias vizinhas.

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Chegar ao mosteiro é entrar num cenário digno de filme ou, como alguém no artigo sobre Pitões apontou, encontrar uma terra encantada. Atravessar os campos, sempre com uma vista soberba para o rio e para as montanhas a sul, acompanhar o ritmo da fauna e seguir os lameiros é, sem dúvida, a melhor porta de entrada para o vale em que encontramos estas ruinas e percebemos como o homem e a natureza são capazes de viver e criar em harmonia. Para mim, este é sem dúvida um dos melhores locais para a realização de um piquenique ou até para nos deixarmos cair no chão e esperar que o sol nos aqueça o rosto ou a chuva nos lave de todas as inquietações.

 

Com o som da água, pela ribeira que passa mesmo ao lado do mosteiro, em sintonia perfeita com os pássaros e um "barulho silencioso" de todo aquele vale, diria que estamos no mais perfeito dos romances. Disse acima que é um local perfeito para um piquenique, e diria até, que é o local perfeito para acompanhar os amantes que naquele encanto natural podem viver a sua paixão eterna em perfeita simbiose com o meio-envolvente. Um dos locais mais românticos no Gerês, é sem dúvida o Mosteiro de Santa Maria das Júnias.

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 Para os mais curiosos, sugiro algumas publicações acerca do mosteiro, da aldeia e até da própria região:

 

BARROCA, Mário Jorge – “Mosteiro de Santa Maria das Júnias – Notas para o estudo da sua evolução arquitectónica”, in Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, II série, vol. 11, Porto, 1994, pp. 417-443.

BORRALHEIRO, Rogério – Montalegre - Memórias e História – Montalegre: Barrosana, E.M., 2005.

COUCHERIL, Maur - Routier des Abbayes Cisterciennes du Portugal - Paris: Fondation Calouste Gulbenkian,  Centre Cultural Portugais, 1986.

GUERREIRO, Manuel Viegas - Pitões das Júnias. Esboço de monografia etnoigráfica - Lisboa, 1981.

MARTINS, Clara Joana - Mosteiro de Pitões das Júnias. Um caso de obstinação, in Revista Descobrir, nº 0, Lisboa, 1995, pp.110-115.

VASCONCELOS, Joaquim - A Arte Românica em Portugal, Publicações Dom Quixote: Lisboa, 1992.

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Barceloneta, Onde Fica o Coração...

por Robinson Kanes, em 08.11.17

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Do Port Olímpic caminhamos facilmente junto ao mar pelo passeio marítimo. Este é talvez um dos melhores programas entre o bulício de uma moderna metrópole e o azul do mediterrâneo, isto, enquanto observamos as crianças de diferentes origens e nacionalidades no "Parc de la Barceloneta". E é aí, ao chegar a Barceloneta que o ar tem outro cheiro, que uma diferente Barcelona olha para nós e nos apela a deixar o mar apesar do convite dos bares mais turísticos.

 

Barceloneta não é um bairro muito antigo, percebe-se pela arquitectura. Nasceu no século XVIII quando os habitantes da "La Ribera" foram expulsos por Filipe IV que ordenou a construção da "Ciutadella". Foi, e é ainda, um bairro típico de pescadores e operários (uma dos ambientes que gosto de frequentar), todavia, bem diferente daquele que era antes da modernização de que foi alvo aquando dos Jogos Olímpicos em 92.

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Lembro-me de Barceloneta que, segundo alguns, inspirou Cervantes numa passagem de D. Quixote, e sentir inveja de ver muitos dos meus amigos morarem naquele bairro - denote-se que estava a viver em Ausiàs Marc, pelo que não me poderia queixar, pelo contrário. Barceloneta é o expoente máximo da cultura mediterrânica em Barcelona (apesar de ser um bairro recente), dos cheiros, das conversas, da vida e contrastes que nos fazem indagar se estamos no norte de África, ou num qualquer bairro do sul de Itália. Mas não comparemos, Barceloneta é diferente. Foi lá que aprendi a cozinhar alguns petiscos senegaleses, foi lá que descobri uma forma low-cost e eficaz de polir faróis, foi também naqueles recantos que, entre peixe frito e outras tapas únicas me foi possível conhecer grandes indivíduos.

 

É também aqui que fica o "La Bombeta", um pequeno restaurante e sempre apinhado de gente e que acabava por ser o escape aos restaurantes caros e tremendamente turísticos do "Passeig Joan de Borbó". Aliás, como qualquer bairro, para se encontrar boa comida e... bons amigos, o ideal é sempre ir para o centro, neste caso, alguns dos mais especiais encontram-se perto do "Mercat de la Barceloneta", uma óptima alternativa à carérrima e descaracterizada "Boqueria". Basta seguir pela "Carrer de la Maquinista" que é também onde se encontra o "La Bombeta". Nem cinco minutos são a pé e sempre é possível recordar os bombardeamentos da aviação alemã durante a "Guerra Civil" através da inúmeras placas que se encontram espalhadas. Também é aí que temos uma imagem tipicamente mediterrânica, com habitantes locais à conversa e crianças ainda a brincar na rua - uma raridade - bem mesmo em frente na "Plaça de Pompeu Gener". E depois de tantos recantos, perceberemos que o "La Bombeta" nem é o melhor de todos...

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Neste pequeno bairro conquistado ao mar, existe também espaço para apreciar o património que vai para além das construções civis, refiro-me sobretudo à "Església de Sant Miquel del Port", uma igreja barroca que vibra, quando em Setembro, Barceloneta é um palco de festa com cortejos e uma animação no bairro e nas praias. É totalmente impossível não ficar contagiado pelas danças e folia daqueles dias. Penso que só em Andaluzia conseguem isso de mim, até porque não sou de danças, mas este foi um dos locais onde não consegui resistir.

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Uma outra nota de destaque é o edifício e o próprio "Museu de História da Catalunha", já na direcção do "Port Vell". Este museu é interessante, pois além de contar a história da Catalunha desde a época pré-história é bastante interactivo, os miúdos adoram-no e os adultos apaixonam-se pelo restaurante no piso superior com um terraço e umas vistas únicas para o "Port Vell".

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Recordo agora com saudade a praia depois de umas animadas conversas entre vinho e comida em alguns dos pequenos recantos de Barceloneta... Recordo aquele momento que nos fins de tarde outonais tinha para mim um encanto especial, mais do que no Verão onde os turistas e os próprios habitantes da cidade preenchem o espaço até à exaustão. Recordo o dia em que tirei algumas destas fotografias, um dia em que vesti a pele de turista e não senti nem um terço das emoções que se têm como habitante...

Barcelona é especial e se admito que o meu coração ainda hoje está naquela cidade, por certo está bem guardado num qualquer local de Barceloneta, possivelmente numa das varandas à espera que o resto do corpo o encontre um dia.

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Fonte das Imagens: Própria.

 

Mesmo junto ao local do meu nascimento, bem no centro de Lisboa, onde o Saldanha se agiganta enfrentando a rotunda do Marquês, onde o Sheraton oculta a Maternidade Alfredo da Costa, encontra-se uma das jóias do património nacional que é de todos nós: a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves.

 

Também conhecida por "Casa Malhoa", pois deveu-se ao pintor a ordem para a execução do projecto do arquitecto Norte Júnior, bem nos alvores do século XX, mais precisamente em 1904-05! Aliás, o Prémio Valmor, logo após a sua construção, demonstra o carácter arquitectónico de extremo encanto deste espaço que viria também a ser o atelier do artista!

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Estamos perante uma relíquia no centro de Lisboa, sobretudo numa zona cosmopolita, onde os altos edifícios modernos e as "Avenidas Novas" quase a tornam oculta ao olhar dos transeuntes. Todavia, a majestade não se perde e permite que no meio de muitos gigantes e cinzentos prédios, a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves se resguarde do futuro e lance uma aura que a protege do bulício citadino. 

 

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A casa, contudo, é conhecida hoje por este nome, pois em 1932 foi adquirida por Anastácio Gonçalves um coleccionador de arte  que por vontade expressa a deixou, após a sua morte em 1965, ao Estado Português. O espólio é tal que, segundo a Direcção Geral do Património Cultural, conta com 3.000 obras de arte divididas em três núcleos: pintura portuguesa dos séculos XIX e XX, porcelana chinesa e mobiliário português e estrangeiro. Conta também com património de ourivesaria civil e sacra, pintura europeia, escultura portuguesa, cerâmica europeia, têxteis, numismática, medalhística, vidros e relógios de bolso de fabrico suíço e francês, sem esquecer alguns desenhos, aguarelas e pequenos artefactos pertencentes ao espólio do pintor Silva Porto. Genial!

 

Como confesso admirador de pintura, além da arquitectura, esta é para mim um dos pontos fortes do espaço e que nos leva por uma viagem sem igual pela pintura portuguesa do periodo romântico (Tomás da Anunciação, Vieira Portuense, Miguel A. Lupi e Alfredo Keil) e Naturalista (Marques de Oliveira e Silva Porto). O atelier é um gáudio no que à obra do pintor Silva Porto concerne! Mas se pensam que ficamos por aqui, juntem-lhe também nomes como José Malhoa, João Vaz e claro, Columbano Bordalo Pinheiro - três nomes que por si só valem já a visita!

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Estamos perante uma riqueza primorosa e que vai surpreender aqueles que ainda desconhecem um dos mais belos recantos de Lisboa. Diria até que nos sentimos a regressar àquela época e ficamos a sentir e a ouvir uma Lisboa diferente, sem os automóveis e os ruidos modernos, mas sim uma Lisboa antiga e, sobretudo à época e naquele local, de um glamour ímpar.

 

Mas se é de sons que falamos, também aqui se realizam, além de conferências e seminários, alguns recitais! E como é deleitável estar num local destes e poder desfrutar de um concerto de música clássica, por exemplo. Mesmo para quem não gosta, acredito que seja uma experiência única, como a que teve lugar no dia 04 de Outubro e que contou com a "Ludovice Ensemble" a interpretar obras de Sebastien Bach, Handel, Telemann, Vivaldi e outros.

 

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 Túlia Passando Sobre o Cadáver do Pai - Columbano Bordalo Pinheiro (estudo). A tela final encontra-se no Museu Nacional de Arte Contemporânea.

 

Se em Lisboa ainda existem espaços capazes de nos fazer viajar no tempo, sobretudo num tempo não muito distante, a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves é um deles! Acredito que naquele atelier, onde Malhoa se inspirou, não nos faltará vontade de trajar à época e dançar, cantar ou simplesmente contemplar, para lá dos lindissímos vitrais, uma Lisboa de outros tempos...

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 Lugar do Prado (Santa Marta-Minho) - António da Silva Porto

 

E no final, porque não descer pela Avenida Fontes Pereira de Melo e terminar com um piquenique no Parque Eduardo VII ou no Jardim Amália Rodrigues? No entanto, admito... O meu maior desejo é mandar colocar mesas naquele atelier e convidar todos aqueles pintores! Ali, reunidos a degustar um óptimo almoço, a dissecar diferenças e inovações entre o ontem e hoje, seria sem dúvida um dos dias mais perfeitos da vida de qualquer um de nós... Tudo isto, sem esquecer uma pintura final, com todos os comensais à mesa, não como "Os Bêbados" de Malhoa, mas como o "Grupo do Leão" de Columbano ao som de uma das melodias de Keil (que também pintava, como poderemos aferir no espaço da casa).

 

 

Para mais informações, podem sempre consultar o website do espaço.

Bom fim-de-semana...

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

 

Os encontros com a minha miúda perto da Torre Agbar fizeram-me desviar caminho e deixar para trás um outro percurso que não era raro fazer durante aqueles tempos por Barcelona. Tantas e tantas vezes chegou a ser feito a dois ou mesmo com um pequeno grupo de amigos.

 

De facto, quando o desvio pela "Avinguda Meridiana" não se impunha, a entrada pelo "Parc de la Ciutadella" assumia a preferência, sobretudo como uma travessia, em direcção ao "Port Olímpic" ou às "Platjias de la Mar Bella" ou da "Nova Icària". Este parque, mais uma vez abençoado por aquela luz solar que vem do lado do mar tem na sua cascata monumental a grande atracção, obviamente, sem esquecer o "ZOO", e alguns edifícios de interesse como o "Castell dels Tres Dragons", o próprio Parlamento e as "Cavalariças da Guardia Urbana" que faziam delirar a minha miúda mas que infelizmente, nem sempre estão abertas ao público.

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É um local encantador sempre povoado de gente bem disposta e ponto de passagem para muitos praticantes de desporto que por ali deambulam pela manhã ou ao fim da tarde. Nos primeiros dias, admito que a subida à cascata monumental funcionava como uma espécie de ritual que foi desaparecendo com o tempo e com a pressa, muitas vezes, de chegar ao destino. Era lá em cima, depois de subir as escadas, que contemplava aquele espaço e me sentia cidadão de Barcelona.

 

Agradava-me, naquele parque, a mistura de atracções e diferentes funções que o mesmo adquiria - além da componente natural, tinha as componentes cultural, desportiva, política e claro o jardim zoológico. Era uma pequena cidade sustentável... Aliás, o parque encontra-se naquela que foi a antiga cidadela de Barcelona e ainda hoje conserva vários testemunhos da Exposição Mundial de 1888 - a Cascata Monumental tem a mão de Gaudí entre outros, e os próprios Jardins de Fontserè são uma homenagem àquele que os projectou, nomeadamente Josep Fontserè. Com parques tão belos espalhados pelo mundo fora, este não é excepção.

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Mas toda esta magia, era apenas parte do caminho que terminava no "Port Olímpic" e cuja estrela-guia era assegurada pelas torres da MAPFRE e do Hotel Arts.  Não posso esquecer "Platijas de Nova Icaria" e "Somorrostro" e bons momentos vividos naquelas areias. Apreciar todo aquele mar, passear entre os veleiros e beber algo nas noites quentes (e frias) daquela cidade era sem dúvida um júbilo, apesar dos preços praticados. Assumo, no entanto, que sentia sempre a chamada de Barceloneta, que fica um pouco mais adiante.

 

Recordo-me de grandes fins de tarde naquele porto a discutir política, a monarquia espanhola, o porquê dos espanhóis adorarem Portugal e os portugueses nem sempre gostarem dos espanhóis, o porquê de ser mais bem tratado em Espanha do que em Portugal (mas aí não era só eu) e acima de tudo de sentir um convívio verdadeiro onde as cervejas eram acompanhadas por temas que escapavam à tradicional gabarolice e onde a amizade era realmente verdadeira. 

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Considerava aquele porto como o meu espaço "in" na cidade, sobretudo pelo mar e pela companhia. Todavia, onde nós gostávamos mesmo de estar, de rir e conversar, era sem dúvida nos recantos de Barceloneta, mas essa será uma recordação para mais tarde.

 

Na minha memória, sentado num desses bancos de cimento junto à marina, vejo agora os aviões a fazer a aproximação à pista de "El Prat". Gostaria de estar num deles, para ali, onde o mediterrâneo também une culturas, sentir o pulsar daquela cidade e daqueles amigos... Acompanha-me um compositor contemporâneo nascido em Barcelona, Federico Mompou, talvez para me fazer sentir, também eu... "un pájaro triste".

 

 

 

Grácies Barcelona...

 

 

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Pelo Passeig Lluís Companys até à Torre Agbar...

por Robinson Kanes, em 13.10.17

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Fonte das Imagens: Própria.

 

A semana passada falei de Barcelona e dos tempos que fixei residência em Ausiàs March - esta semana não resisti em lá voltar.

 

Uma das minhas caminhadas matinais (sim, e nocturnas) passava por descer o "Passeig de Sant Joan" e atravessar os jardins e o Arco do Triunfo pelo "Passeig de Lluís Companys". Era interessante sentir o pulsar da cidade numa das suas zonas mais nobres e também menos antigas, um pulsar estranhamente calmo, sobretudo em relação ao centro oeste. Na verdade, e deixemo-nos de poesia, era muitas vezes um mero acesso até chegar ao "Parc de la Ciutadella" ou até ao mar, ou quase sempre para voltar atrás e seguir pela "Avigunda Meridional" até chegar à "Avigunda Diagonal", perto da Torre Agbar onde combinava com a minha miúda os encontros ao fim de tarde, bem perto da multinacional onde a mesma trabalhava...

 

A Torre Agbar, que de dia não é mais que um "mamarracho", mas ao cair da noite, com todas as suas cores pintava toda aquela paixão. Gostava disso e reconheço que dava outro encanto àquele momento que, muitas vezes, sem a presença daquela torre, seria num local que parecia um estaleiro - durante muito tempo, a zona envolvente esteve em obras.

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Era bom fazer aquele caminho, mesmo que depois tivesse de voltar atrás, não sei explicar... Talvez fosse uma espécie de Sísifo a punir-me pelo erro futuro de recusar viver naquela cidade, acreditanto mais uma vez que poderia trazer algo de novo ao meu país... Ainda hoje consigo vislumbrar a Torre Agbar ao longe e encarar a mesma como uma estrela-guia para um futuro próximo.

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Voltando ao meu percurso, também era aqui que ficava encandeado pelo sol de fim de tarde que ali projecta uma linha cujos raios se estendem pela cidade até ao final do "Passeig Saint Joan" e me fazia por vezes sentar e ligar o Ipod. Aproveitava para queimar algum tempo, até continuar o meu caminho... De facto, muitas vezes era acompanhado pela "Barcelona Gipsy Balkan Orchestra" (que aqui já falei), e desse tempo recordo-me sobretudo destas duas bandas sonoras daqueles momentos: o "Lule Lule" e  "Cigani Ljubiat Pesnji". Esta última, fundamental para um dia ter conhecido os Mossos d'Esquadra, depois de me ter motivado para jogar futebol com uns indivíduos que monopolizavam a relva junto aos "Jardins Fontserè i Mestre"... Ainda me lembro de ter dito que só estávamos a fazer uma "rabia" e chegar à conclusão que o melhor seria ficar calado e esperar que os locais se entendessem com a autoridade.

 

Se como eu não puderem ir a Barcelona por estes dias, nada como aproveitar as sugestões musicais e encontrar o jardim mais próximo de vós, e porque não, libertarem-se um pouco num jogo de futebol, ou com os sons da natureza, das pessoas e da vida, ou então lerem o Relatório aos Incêndios de Pedrogão Grande e Góis...

 

Bom fim-de-semana...

 

 

As bandas sonoras...

 

Bacelona Gipsy Balkan Orchestra - Lule Lule

 

 

Barcelona Gipsy Balkan Orchestra - Cigani Ljubiat Pesnji (sem dúvida, uma das minhas preferidas)

 

 

 

 

 

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 Fonte da Imagem: Própria.

O tempo que vivi em Barcelona tende a vir ao meu encontro todos os dias... Não me vou debruçar sobre o referendo catalão que interessa apenas a meia-dúzia, mesmo que alimentado por um clima de pós-verdade que nos diz o contrário. Também não vou falar do facto de viverem tantos portugueses em Barcelona, mas os meus grandes amigos terem sido espanhóis, franceses, marroquinos, ingleses e de outras tantas nacionalidades. 

 

Ausiàs March é uma rua (Carrer em catalão) no centro de Barcelona, bem perto da  "Plaça de Tetuan" e de uma breve caminhada pelo Arco do Triunfo até ao "Parc de la Ciutadella". É um saltinho daí ao mar... E claro, até Barceloneta, onde muitos amigos residiam e onde as tapas têm um sabor diferente. Voltarei mais vezes a este tema, com diferentes experiências, mas hoje, e posto que o fim-de-semana está aí tão perto, vou focar-me em algumas sugestões que me chegam desses tempos.

 

Uma delas passa por uma das bandas que mais gosto e que, por sinal, me foi sugerida por um grande amigo inglês que também viveu em Espanha, aliás, já viveu um pouco por todo o mundo e "agora" regressou à terra natal.

 

 

A "Barcelona Gispy Balkan Orchestra", também conhecida por "Barcelona Gipsy Klezmer Orchestra" é uma dádiva para o ouvido tal é a mescla de sonoridades, o encontro de culturas e a voz de Sandra Giao, a vocalista. A banda, nascida em 2012, conta espanhóis, um grego, um italiano, um ucraniano, um sérvio e um francês - facilmente já conseguimos ter uma ideia do que estes senhores são capazes.

 

Imaginem que, numa só banda, podemos viajar pela música "Klezmer", pelo Jazz Manouche/Gipsy Jazz (Jazz Cigano), pela música romena, por diferentes sons da europa de leste e dos balcãs sem esquecer as influências de Espanha, América do Sul e Médio-Oriente! Parece muito para uma jovem banda, mas o modo como conciliam tantas influências numa música belíssima é de facto fascinante - hoje mesmo estarão a actuar em Barcelona! Este artigo tem sido acompanhado com algumas das jóias destes senhores, "Shalom Alechem" e "Djelem Djelem" uma das minhas preferidas e companheira de viagens pelos balcãs...

 

Finalmente, uma leitura: se é de Ausiàs March que falamos, o poeta medieval valenciano, considerado um dos grandes do Século de Ouro Valenciano, nada como dar uma vista de olhos por uma poesia trovadoresca e variar um pouco as leituras. Fica o poema "Busquen las gentes fiestas con alegría":

 

Busquen las gentes fiestas con alegría,
alabando a Dios, entremezclando deportes;
que plazas, calles y deleitosos jardines
se llenen con los relatos de grandes gestas;
y vaya yo los sepulcros buscando,
interrogando a las almas condenadas,
que me responderán, pues no están acompañadas
sino por mí en su perenne lamento.

 

Cada cual busca y quiere a su semejante;
por esto no me agrada el trato con los vivos.
Al imaginar mi estado, se tornan esquivos;
como de hombre muerto, de mí toman espanto.
El rey ciprio, prisionero de un hereje,
no es a mis ojos desventurado,
pues lo que quiero jamás será logrado;
de mi deseo médico alguno podrá curarme.

 

Como Prometeo, a quien el águila come el hígado
y siempre brota de nuevo la carne,
y jamás termina el pájaro de devorar;
más fuerte dolor que éste me tiene asediado,
pues un gusano me roe el pensamiento,
otro el corazón, y de roer no cesan,
y su trabajo no podrá interrumpirse
sino con aquello que es imposible de lograr.

 

Y si la muerte no me infiriese la ofensa
-alejándome de tan placentera visión-,
no le agradecería que vista de tierra
mi desnudo cuerpo, quien no piensa perder
el placer, pues tan sólo imagina
que mis deseos no pueden cumplirse;
y si mi postrera hora ha llegado,
término tendrá también el bien amar.

 

Y si en el cielo me quiere Dios albergar,
amén de verle, para cumplir mi deseo
será preciso que allá me sea dicho
que mi muerte vos tenéis a bien llorar,
arrepintiéndoos de que por vuestra poca merced
muriese un inocente, mártir por amaros:
pues el cuerpo del alma separaría
si en verdad creyese que de ello os doleríais.

 

Lirio entre cardos, vos sabéis y yo sé
que bien puede morirse por amor;
si creéis que en tal dolor me hallo,
no os excederéis, poniendo en ello plena fe.

 

Bom fim-de-semana...

 

 

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Um Retiro no Zavial com "Sem Olhos em Gaza"...

por Robinson Kanes, em 29.09.17

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Fonte das Imagens: Própria 

 

As Liberdades particulares - e não há liberdade que não seja particular - são sempre condicionadas por alguma forma de escravatura geral.

Aldous Huxley, in "Sem Olhos em Gaza"

 

Sempre que ando pelo Barlavento Algarvio, existe um lugar que nunca falha, seja na aurora de um novo dia ou já durante o crespúsculo: a Praia do Zavial.

 

Perto da Praia da Ingrina, é um lugar onde fora da época alta, sobretudo nos meses de Abril, Maio, Setembro e Outubro, podemos afastar-nos do mundo ou do bulício das cidades e encontrar aqui um retiro, quem sabe até mesmo antes de um almoço ou de um jantar no restaurante que serve a praia. Um livro, a companhia de crianças que aproveitam a última luz para jogar futebol na praia quase vazia, os surfistas a conquistar as ondas e a areia em comununhão com o mar são o cenário ideal que não é raro por ali encontrar.

 

É uma praia tranquila, sobretudo para quem não a frequenta no Verão, e além disso é o local perfeito para relaxar depois de um dia a percorrer Sagres e as Praias de Vila do Bispo. Falei de livros e recordo-me que durante a minha última passagem por aquelas areias, acabei a tarde com dois capítulos do "Sem Olhos em Gaza" de Aldous Huxley.

 

Quem estiver a pensar que é um livro sobre a Faixa de Gaza, pode colocar o mesmo de parte - o título é inspirado num poema de John Milton ("Samson Agonistes"), mais precisamento no verso "sem olhos em Gaza, no moinho com os escravos". A escolha deste autor não é casual e basta conhecer um pouco da biografia de Milton para o perceber.

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Mais uma vez, é um Huxley desiludido com o mundo (as peripécias desenrolam-se entre finais do século XIX e primeiros 35 anos do século XX), olhando à volta e vendo, sobretudo na média e alta sociedade, uma total ausência de valores e uma crise apática com o meio envolvente. É um desalento já notado em "Regresso ao Admirável Mundo Novo", é um Antonhy (personagem principal) preocupado, mas contudo perdido no meio da futilidade da época, de um pai mais preocupado com detalhes linguísticos do que com a tristeza do mundo; são amigos intelectuais, mas com essa mesma intelectualidade virada para o superflúo ou para vidas vazias de conteúdo - "há que distinguir entre conhecer e experimentar. Verdade conhecida não é a mesma que verdade experimentada. Devia haver duas palavras distintas".

 

É uma cegueira colectiva, conceito que os comentários ao livro, muitas vezes e bem, colocam como pano de fundo da obra. Uma nota para a mãe de Antonhy, que no livro tem um papel especial, embora a sua presença seja já sempre com base num passado, posto que esta já se encontra morta. Talvez seja essa ausência uma mais-valia para o livro...

 

Como em quase toda a obra de Huxley, pelo menos dentro daquilo que já me foi permitido ler ("Admirável Mundo Novo", "Regresso ao Admirável Mundo Novo", "A Ilha", "Férias em Crome", "Céu e Inferno", "Os Demónios de Loudon", "Sem Olhos em Gaza) encontro a actualidade assustadoramente bem descrita e decomposta. Termino com mais uma passagem: "Apenas os bárbaros entre nós,  sabem o que são. Os civilizados têm consciência  do que podem ser e são por isso incapazes de saber, o que,  para fins práticos e sociais, realmente são - esqueceram-se de como extrair da sua experiência atómica total, uma personalidade".

 

São as minhas sugestões para estes dias... Bom fim-se-semana...

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Fonte das Imagens: Própria. 

 

Depois do pôr do sol na Praia do Beliche existe também, a cerca de 4km, um local onde um outro pôr do sol nos confronta com a imensidão do Universo. Um pôr do sol forte e onde nos sentimos aquele pequeno grão de areia perdido entre milhões de galáxias. Onde reconhecemos, independente do nosso poder que somos aquele pequeno átomo.

 

Estamos em Sagres, ou melhor, na fortaleza que tem o mesmo nome. Localizada na Ponta de Sagres, também denominada de Promontório Sagrado (Promunturium Sacrum), este local vale sobretudo pelo seu entorno natural, pelas vistas únicas e pela voz do mar que nos invade por debaixo da rocha, ora uma vez suave ora outra vez mais forte e agressiva. A prova de riqueza natural e patrimonial está patente na classificação como Monumento Nacional, Zona Especial de Protecção (ZEP), Rede Natura 2000 e ainda como fazendo parte do Parque Natural da Costa Vicentina e Sudoeste Alentejano. Acresce ainda, o facto do Promontório ser Marca do Património Europeu (MPE), distição da União Europeia que visa promover sítios que simbolizam a integração, os ideais e a sua história. 

 

Depois de algumas horas na Praia do Tonel, podemos guardar o fim do dia para seguir as passadas do Infante D. Henrique e gritar ao oceano que se prepare para enfrentar as nossas caravelas em busca de novos mundos. Podemos também apreciar a enseada da Mareta e o Cabo de São Vicente que, ali tão perto, rivalizam no protagonismo com o promontório.

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O que fascina neste local é sobretudo a imensidão e, mesmo desconhecendo a história, muito bem resumida no website do Promontório, é impossível ficar indiferente. Uns falam do seu misticismo, outros falam do contacto com a natureza, eu falaria de uma sensação estranha; talvez da sensação de estarmos numa zona de mudança, numa área em que um sem número de forças naturais terrestres confluem e às quais o nosso corpo e alma não ficam indiferentes. Se quiserem uma banda sonora, nada como entrar na "Câmara Sonora Activada pelo Mar - Voz do Mar" do arquitecto, pintor e escultor Pancho Guedes. Ao início parece-nos mais uma daquelas obras de arte contemporânea sem qualquer sentido, mas só entrando podemos apreciar a magia oferecida pelo autor.

 

Não poderemos esquecer as aves, ou não fosse esta uma zona de rota migratória, sobretudo das aves que viajam de e para o continente africano. Como fanático das aves de rapina, não poderia deixar de mencionar o Grifo (Gyps fulvus), o Milhafre-preto (Milvus migrans), a Águia-cobreira (Circaetus gallicus) e o suspeito do costume: o Falcão-peregrino (Falco peregrinus). A par da área circundante ao Cabo de São Vicente é comum ver estes habitantes a dominar os céus. Sobre isso falei também aqui aquando de um artigo dedicado ao Cabo de São Vicente e à Praia e Fortaleza do Beliche. Ao longo do Promontório existe também informação com as diferentes espécies de aves e de flora que se pode observar.

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Em relação à fortaleza propriamente dita, é uma construção abaluartada com um portal neoclássico. Aí, é também possível visitar os vestígios da "Vila do Infante" (Infante D. Henrique, que faleceria aqui em 1460) anteriores às muralhas setecentistas. Uma nota também para a torre-cisterna, a "rosa-dos-ventos", uma muralha corta-ventos, os restos das antigas habitações e quartéis e a antiga paróquia de Nossa Senhora da Graça. Uma nota particular para as várias intervenções mal sucedidas ou que nem chegaram a sair do papel que percorreram todo o século XX e que actualmente se tentam colmatar com novas intervenções que garantam a autenticidade do espaço.

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A já mencionada "rosa-dos-ventos", é uma das grandes atracções da fortaleza, mas também aquela pela qual muitos passam ao lado. De facto, ainda ninguém conseguiu provar verdadeiramente a sua função, há quem aponte para um "relógio solar" e até para uma construção com carácter esotérico. Ao contrário do que se pensou, durante muitos anos, este espaço não existiria na época do Infante D. Henrique, aliás, mesmo a existência de uma Escola (a "Escola de Sagres") é algo que tem vindo a ser afastado. Já Ayres de Sá afastava essa hipótese dizendo que, a existir, um empreendimento de tal envergadura não poderia ter passado ao lado dos historiadores e cronistas da época.

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Com história ou sem história, com mistérios ou sem eles, de facto estamos perante um lugar único, onde diferentes emoções nos afloram e de onde, com toda a certeza, poderemos sair com a ideia de que estivemos num pequeno canto do mundo; onde realidade humana e natural convivem de braço dado com uma aura indecifrável mas contagiante. Quem sabe, sejamos intrusos no encontro do calor do Levante com a frieza do Oceano.

IMG_3499.jpgAlgumas notas:

 

  1. Como continuamos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina não deixem de consultar e levar convosco o Código de Conduta e Boas Práticas.
  2. Sugestões bibliográficas sobre a temática:
  • Almeida, João de (1948), Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses Volume 3, Lisboa, Edição de Autor.
  • Albuquerque, Luís de (1971), Escola de Sagres, Dicionário de História de Portugal. Dir. de Joel Serrão, Vol. III, Lisboa, Iniciativas Editoriais.
  • Coutinho, Valdemar (1997), Castelos, fortalezas e torres da região do Algarve, Faro, Algarve em Foco Editora. 
  • Guedes, Livio da Costa (1988), Aspectos do reino do Algarve nos séculos XVI e XVII: a descrição de Alexandre Massaii (1621), Lisboa, Arquivo Histórico Militar.
  • Magalhães, Natércia (2008), Algarve - Castelos, Cercas e Fortalezas, Faro, Letras Várias.

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Não é novo que um mês em Istambul me deixou agarrado àquela cidade e ao próprio país. Também por aqui já abordei um sentir da cidade de todas as culturas...

 

Se podemos falar de sugestões, nada como uma leitura por Orhan Pamuk, sobretudo do seu penúltimo livro "Uma Estranheza em Mim". Pamuk é o cronista de Istambul na primeira pessoa e foi também graças a escritor que me foi possível compreender a dinâmica desta cidade, fora dos livros de história e sociologia, bem para lá de Sultanahamet ou Galata... O que parece um livro sem fim e que lentamente vai contar a história do vendedor de boza (Mevlut Karatas) sem grande entusiasmo, transporta-nos para as ruas dos "novos" bairros pobres que contribuiram para que entre 1969 e anos mais recentes a cidade aumentasse de 3 para 13 milhões de habitantes. Mas a história começa numa aldeia Anatólia Central e é aí que vamos sendo levados pontualmente numa espécie de contraste com a própria Istambul, ou entre a Turquia profunda e a Turquia mais cosmopolita.

 

Não é de todo um livro inacessível, aliás, é uma lição de história, cultura, antropologia, urbanismo e até felicidade... Com especial interesse nessa última área, encontrei aí um bom exemplo de estudo, embora seja pouco ou nada mencionado nas criticas que vi à obra, por norma sempre pesadas e que tendem a afastar leitores mais cépticos - aliás, em música, literatura, pintura e outras artes nunca entendi esta forma europeia de complexificar tanto as coisas que a dita democratização das artes parece uma miragem. Não se assustem, assim que começarem a ler não vão querer parar e o discurso é simples, é mais fácil compreender o livro que as análises ao mesmo. 

 

IMG_20170904_091802.jpgPode também parecer "tolo", mas a par das peripécias que envolvem o casamento de Mevlut, não consegui deixar de pensar na prática do "casamento e fuga" também alvo da etnologia no contexto da comunidade piscatória da Nazaré. É Istambul no seu dia-a-dia, da pressão do Estado, das máfias "bondosas" que acabam por comandar os submundos e os destinos de muitos, é a felicidade com pouco, mas com fortes alicerces na família (primos), nos amigos (Ferhat) e naqueles que encontramos dia-a-dia - interessante a relação que Mevlut acabará por ter com o " Santo Guia". É um relato realista, sem qualquer fantasia mas também sem qualquer necessidade de adensar a tristeza. Discordo quando a obra é tida como uma "novela trágica"... Só de um sofá numa confortável cidade europeia podemos tecer tal afirmação...

 

 É a realidade aqui tão bem escrita e que me transporta para aquele mês em que vi muito do que nestas páginas é apresentado. Como eu, chego à conclusão que no misto de tristeza e encanto com Istambul, também Mevlut é um apaixonado pela mesma.

 

 

É envolvente como, com o livro a meio, e ainda antes de fecharmos os olhos, nos deitamos na nossa cama e temos a sensação de ouvir lá fora a personagem de Mevlut a apregoar "Boooooooo-zaaaaaaaa". Experimentem e deixem a noite alta chegar e ouçam o som da vossa cidade, vila ou aldeia...

 

Finalmente, uma nota musical para me lembrar esta cidade: os "Light in Babylon", uma banda turca de Istambul com várias influências, ou não fosse Istambul uma mescla de povos e culturas. Não sou confesso adepto da voz da vocalista, contudo, não deixa de ser um banda que me atrai pelos temas explorados, pelas letras e sobretudo pelos ritmos árabes, turcos e judaicos. Uma das minhas composições preferidas tem o nome da cidade: "Istambul".

 

 

É uma das companhias para alguns crespúsculos e sobretudo para recordar terras distantes ou, como Mevlut, percorrer os diferentes bairros de Istambul. A encontrar o vendedor de boza - coisa rara - e a descobrir naqueles olhos as inquietações do seu dia-a-dia que só era, apesar do cansaço e árduo trabalho, enriquecido com a venda desta iguaria. Talvez as ruas de Istambul sejam perfeitas para isso, talvez sejam um misto de inquietação e paz que nos transporta para outra dimensão enquanto um simit nos alimenta o estômago e a alma.

 

Deixo mais uma das músicas que aprecio desta banda, 

  

 

 Boa Semana...

 

Boza: bebida tradicional asiática à base de trigo fermentado, de consistência grossa, cor amarelo-torrado e de baixa graduação.

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