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O Som de Stelar e a Fúria de Faulkner...

por Robinson Kanes, em 15.02.18

 

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Fonte da Imagem: Própria.

 

 

Vem aí mais uma fim de semana, quase prolongado para este espaço, pelo que, só voltaremos lá para segunda ou terça-feira, depende se há paciência para escrever algo durante a viagem...

 

Por aqui, de vez em quando, lá se vão deixando umas sugestões, e esta semana, ouso em deixar uma que nem me apaixonou: o "Som e a Fúria" de William Faulkner. Faulkner já passou por este espaço em Outubro de 2017, aqui mesmo! Falou-se de "Os Ratoneiros" - um livro com uma leitura algo simples mas incontestavelmente mais apaixonante, sobretudo quando acompanhamos Boon num sem número de peripécias que nos divertem até um feliz desenlace.

 

Quem espera uma exploração profunda da época, nomeadamente do contexto sulista pós-revolução americana, do incesto, do amor e da decadência das famílias do sul, pode preparar-se para não encontrar aquilo que procura... Os quatro narradores, três deles personagens, acabam por nos levar para um exercício de fluxo de consciência que nem todos apreciam. Apesar de ser colocado como um livro de dificil leitura não me alongo mais na apreciação do mesmo, até porque muitas das abordagens que existem, e como acontece em tantas obras, são por vezes tão forçadas que ficamos com a sensação de que, ou somos ignorantes ou efectivamente alguém quer colocar as coisas num patamar em que não estão! No entanto, isso não nos impede de olhar para o choro de Benjy de uma forma diferente e que no fundo descreve um pouco de todo o colapso da família e das diferentes personagens, como Caddy, a inocente e pura; Quentin, o irmão incestuoso; e finalmente Jason a personagem dura e patriarca da família após a morte de Mr. Compson.

 

Finalmente, uma nota para Dilsey que só aquele narrador (Faulkner?) poderia chamar a atenção... Dilsey, talvez a grande "patriarca" activa e moral da família, a criada em nada reconhecida e valorizada, mas que é sinónimo de estabilidade emocional, moral, valores e paz!

 

E... Para que não me acusem de estar desfazado meu tempo, faço a minha primeira abordagem à música electrónica, e neste campo, não poderia deixar passar Parov Stelar, o austríaco criador do "Electro Swing"... O que me apaixona é a combinação entre a música electrónica e o jazz que conseguem criar obras, algumas delas em estilo mais underground e que naquelas noites mais ousadas nos proporcionam um misto de paz combinado com uma eterna vontade de movimento. Outras, talvez sejam a banda sonora ideal para uma Primavera em Maiorca ou no sul de França... Longe do bulício das grandes discotecas, naquela praia mais recatada e onde as mesas de bar são de madeira desgastada...

 

 

Não é dos meus compositores mais apreciados, mas é sem dúvida a confirmação de que nos anos 90 já existia alguém a adivinhar os ritmos que hoje são autênticos sucessos internacionais! Talvez por isso, a minha escolha... E talvez porque não há nada melhor (pronto, ou talvez haja) que esta banda sonora (vide abaixo) para ir de Sanremo, atravessando a Ligúria até Savona e chegando a Turim onde deixamos que as montanhas nos engulam em cada curva até à fronteira com a Suiça, já em Zermatt... 

 

 

Bom fim de semana e tomem lá mais uma... Até porque ainda é Carnaval! Gozem mais as épocas e menos o "show off" consumista ou gabarolado em torno das mesmas...

 

 Bom fim de semana...

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Retratos de Inverno - Neve

por Robinson Kanes, em 09.02.18

 

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Fonte das Imagens: Própria 

 

Numa semana em que o negro da morte e da poluição andou um pouco por aí, é importante regressar ao branco... Ao branco, à palidez de algo vazio, algo puro, e onde tudo pode renascer.

 

Admito que a neve em excesso não me fascina, nunca fui adepto de destinos de neve e só consigo apreciar a mesma quando ainda conseguimos ver um pouco da folhagem das árvores ou então quando bem lá de cima, vimos as montanhas cobertas por um manto branco com um pico aqui e acolá. O contraste entre o verde ou o castanho com a neve, esse sim, é deveras encantador.

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Além de que existe algo que se aproxima da magia e do som único que é o pisar de folhas... O som do pisar da neve, aquele "rac rac rac" que nos anuncia a chegada de alguém, por norma bem encasacado e encolhido, mas também com um sorriso no rosto ou então desejoso de partilhar o aquecimento numa conversa entre uma bebida quente e um bolo... Quiçá um chocolate quente e um pastel de nata, ou então um "Glühwein" acompanhado de um Trdelník ou da sua versão húngara, o "Kürtőskalács".

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A neve lembra o Natal, sobretudo no pólo norte, mas lembra também dificuldades, sobretudo quando em excesso. Lembra também bons momentos passados na rua, com um frio que não lembra a ninguém, mas onde a brincadeira impera. A neve recorda-me sempre a imagem do Alhambra com a Serra Nevada ao fundo, com os seus cumes com neve e com aquelas nuvens que vão escurecendo a pouco e pouco até se tornarem ameaçadoras e descarregarem a sua força na cidade.

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Recorda-me o contraste dos campos de alfazema e de como de um enorme manto branco surge toda aquela cor que nos apaixona quando percorremos a Provença e nos socorremos de um Calisson "Le Roy René" para retemperar forças.

Aquando da neblina, falei de Alberto Caeiro e dos "Poemas Inconjuntos"... Pois também na sua falta de conjunto, surgiu "A Neve Pôs Uma Toalha Calada Sobre Tudo":

 

 

A neve pôs uma toalha calada sobre tudo.
Não se sente senão o que se passa dentro de casa.
Embrulho-me num cobertor e não penso sequer em pensar.
Sinto um gozo de animal e vagamente penso,
E adormeço sem menos utilidade que todas as ações do mundo.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

 

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Talvez, ao contrário do que nos dizia Caeiro, a neve coloque em nós um pano branco que nos faça também descolorar todo um pensamento e do zero criar novas raízes, novos caminhos desobstruídos, novos desafios e deixar que o cobertor apodreça entre o gelo do Inverno, e depois, o calor do Verão.

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Como muitas aves que percorrem e perfuram a neve em busca de alimento, pois que, também possamos sair à rua e encontrar na neve algum alimento para o sorriso, para a brincadeira e para as memórias, até porque esta época não precisa de calor para ser perfeita, quando podemos fazer um enorme Carnaval a brincar na neve...

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 Bom fim-de-semana,

 

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Retratos de Inverno - Neblina Matinal

por Robinson Kanes, em 02.02.18

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

 

Entre as palavras que mais ouvimos estão estas duas: neblina matinal. Raros são os boletins meteorológicos que deixam a neblina matinal para trás... No entanto, se para uns é uma forma de tornar o despertar mais difícil, para outros é uma daquelas coisas que nos faz saltar da cama e percorrer os campos a pé ou em duas rodas! Equipamento térmico de ciclismo vestido, sapatilhas de encaixe calçadas, travões afinados e aí vamos nós! Ou então sempre podemos calçar as botas, vestir uma camisola quente, umas calças confortáveis e admirar a natureza ainda mais perto.

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Quem é que não se recordará de, ao fazer estes percursos singulares, dos poemas de Fernando Pessoa sob o heterónimo de Alberto Caeiro? Quem não será um "guardador de rebanhos" ou aquele que Pessoa tenta descrever em "Hoje de Manhã Saí muito Cedo?"

 

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia por caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
assim quero que possa ser sempre —
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

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A neblina matinal é inspiradora... Não tem de ser triste... Não tem de ser o início de uma constipação, mesmo que as nossas narinas sintam o aroma e o frio que rapidamente se dissipa se deixarmos que o nosso pensamento se funda na manhã e na paisagem. Deixemos que aquela humidade que nos gela os ossos seja o ar condicionado de um corpo quente em fusão com a natureza. Poderei estar lírico, mas talvez as palavras de Vergílio Ferreira, no seu Conta-Corrente façam sentido quando diz que "a vida é feita, bem o sabemos, de pequenos nadas que é o que mais conta para o nada que somos no fácil e correntio".

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Nestas manhãs, os cheiros são sempre diferentes, são sempre mais puros e mais intensos, é comum pela manhã ou ao final da tarde, mas esta humidade faz levantar da terra todo o seu aroma, todo o seu sabor até. O solo fica macio, por vezes os pés ou as rodas da bicicleta enterram-se na areia e como é bom ter de limpar toda aquela lama depois de um percurso por entre caruma, folhas, lama e tudo aquilo que encontramos nestas pequeninas mas tão inspiradoras viagens. 

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Bom fim de semana... De preferência, com muita neblina...

 

 

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"Hold On"...

por Robinson Kanes, em 01.02.18

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Fonte da Imagem: Própria.

 

Estava agora a ouvir umas músicas no laptop (computador, mas laptop é fancy assim para o cool style, vintage a apelar ao fashion) enquanto terminava um projecto, e dou comigo a ouvir e a recordar uma música... Ainda por cima daquelas que tenho guardadas na pasta onde se encontram alguns dos meus maiores segredos (maus).

 

Esta era uma daquelas músicas que imperativamente constavam na pasta do nosso grupo de amigos lá de casa, aquando do meu primeiro curso... E sim, tenho de confessar que esta se encontrava numa pasta partilhada em rede que era o "Best of ir ao... frango ainda jovem".

 

Sim, já estou a dar cabo da reputação ao dizer que sei de cor o refrão...

 

"Hold on to me.
Yeah, and I said, hold on.
Ev'rything's gonna be alright,
Just hold on to me tonight."

 

De facto, era daquelas músicas que lá passavam por casa e punham o João a pensar na namorada que estava longe, ou então que me davam uma certa vontade de sair e conhecer a mulher dos meus sonhos numa noite estudantil recheada de copos, cheia de podridão e pouca vergonha... A mulher dos meus sonhos que iria aparecer com uma valente carraspana e desejar-me para sempre...  Não...

 

De facto, como tantas outras músicas, eram estas que ouvíamos quando já não queríamos saber se tinhamos aquele ar de reguilas ou nos orgulhávamos do Honda do João me ter ultrapassado a 220km/h quando eu já ía no 206 a 160km/h e a fazer voar os plásticos do pára-choques, os faróis e tudo o resto - mas sempre com uma sinfonia de Beethoven como fundo - há que ser mauzão mas com classe. Naquele momento éramos românticos... Apaixonados até... Era o momento em que o João até falava em casar... E casou! Sim, casou... Agora fiquei com vontade de ouvir John Williams e a banda sonora da Lista de Schindler.

 

E é com o Jamie Walters que me preparo para desligar o computador (laptop tem qualquer coisa, não tem?)...

 

 

 

P.S: se alguém descobrir a minha identidade, aviso já que negarei a autoria deste artigo e ainda irei alegar que me piratearam a conta no SAPO.

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De Montjuïc te Contemplo...

por Robinson Kanes, em 31.01.18

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Fonte das Imagens: Própria.

 

 

Saimos do bulício da cidade, da multiculturalidade do Raval e da multidão do Port Vell e subimos a Montjuïc ou "Monte de Jove"... Barcelona tem daqui uma das mais belas vistas - não terá sido por acaso que, desde os momentos pré-históricos, muitos povos se foram aqui estabelecendo. Por este monte, por exemplo, passaram os romanos que aqui ergueram o monumento a "Jove", daí o outro nome desta elevação.

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Quando subimos via "Passeig Josep Carner" - zona de "Drassanes" - a primeira imagem com que ficamos é arrebatadora: os "Jardins Mirador", onde se encontra o "Mirador de L'Alcaide", dão-nos uma vista única do Porto, da zona central e litoral da cidade. Mas não nos fiquemos por aqui, ganhemos forças e subamos até ao "Castell de Montjuïc", uma fortaleza do século XVII, um autêntico mirador de 360º da cidade e onde até os entusiastas da aviação podem observar o movimento no "El Prat". Podem dar uma vista de olhos pela interessante história deste espaço no website cultural do "Ajuntament" de Barcelona. Os que gostam de estudar a Guerra Civil têm aqui uma óptima fonte de conhecimento que inclui fotografias singulares dos bombardeamentos da aviação italiana e das peripécias (menos felizes) que tiveram lugar naquela fortaleza - recomendo vivamente. Admito que subir toda aquela colina de bicicleta e acabar no "Castell" era uma das coisas que mais satisfação me dava durante aqueles tempos em Barcelona.

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E se é de desporto que falamos, não poderemos deixar de falar do "Anella Olímpico", ou "Anel Olimpico", nascido aquando dos Jogos Olímpicos de Barcelona e que hoje inclui o "Estádio Olímpico Lluís Companys", o "Palau Sant Jordi" as fantásticas piscinas "Bernat Picornell" e a "Torre Calatrava", uma torre de telecomunicações projectada pelo mesmo arquitecto que projectou também a Gare do Oriente, Santiago Calatrava. Não é o mais fascinante que vamos encontrar, mas é algo que encontramos no caminho.

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Mas Montjuïc não é apenas um espaço com belas vistas ou com um cariz histórico-cultural, é também um lugar onde a Natureza por si só conquista todos aqueles que por aí passeiam ou fazem desporto - com intervenção humana, o Jardim Botânico é o mais emblemático, até porque as suas origens remontam a uma antiga lixeira.

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Depois de deixar a Carrer Ausiàs March de bicicleta, Montjuïc era o local ideal para preencher um dia de actividades onde não poderia faltar uma refeição ao ar-livre. Um local singular onde se conjugava a natureza, a história, a cultura e o desporto, sem esquecer todo um entorno paisagístico único! E se é de cultura que falamos, também é aí que encontramos a "Fundação Joan Miró" - não sou entusiasta do artista, mas as referências daqueles com quem privei eram óptimas. A par do "Poble Espanyol", foram dois espaços que nunca visitei - o último sempre o encarei como uma espécie de "Portugal dos Pequenitos" pois é o espaço onde podemos encontrar, em miniatura, alguns dos lugares mais belos de Espanha. Esta construção ainda é parte do que restou da Exposição Mundial de 1929 e que teve lugar naquela cidade. Mas já estamos a descer com uma vista espectacular sobre a zona de Llobregat. É por aí que encontramos o  "Museu Nacional de Arte da Catalunha".

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Este Museu, mesmo para quem não aprecia, merece no mínimo uma caminhada pelo seu exterior. Situado no "Palau de Montjuïc", é edificio classicicista (erguido para a Exposição Mundial de 1929) e que apresenta uma das mais belas colecções de românico do mundo - em termos de dimensão, é considerada a mais completa. Além da parte arquitectónica, nomeadamente o Salão do Trono e a Cúpula, sem dúvida que a visita às secções de arte românica e gótica são fundamentais, vejam as "Carpideiras". Claro que não poderia deixar passar um dos meus pintores de eleição como El Greco ("São João Baptista e S. Francisco de Assis", Tintoretto, Zurbarán,. Caliari, Tiepolo ou Tiziano que estão incluídos na colecção "Cambó" (uma nobre família Catalã) - por pouco me esquecia, mas tenho de me ajoelhar, também podemos encontrar nesta colecção pinturas de Rubens e Goya! E se pensarmos que estes e muitos outros também se encontram na colecção "Thyssen-Bornemisza"? Uma verdadeira "barrigada" de pintura que tornará qualquer dia mais especial e onde nem falta Canaletto.

 

Sei que já estou a ir longe, mas não poderia deixar de falar no acervo de pintura moderna que nos faz querer regressar, na eventualidade do nosso cérebro já não conseguir processar correctamente, perante tantas obras-primas. Não deixem passar o "Auto-Retrato" de Esquível, o espectauclar "Auto-Retrato" de Sorolla, as esculturas de Meunier e Rodin, a "Santa Madalena" e as paisagens de Jubany entre um sem número de obras que apaixonam até os menos entusiastas.

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Anoitece, regresso agora, na minha imaginação, depois de descer pela escadaria do museu com a bicicleta na mão, passo pela "Fonte Mágica" que emana as suas luzes mágicas (à noite e pontualmente) enquanto me preparo para fazer à estrada em direcção à "Plaça Espanya", não sem antes passar pelos pavilhões da "FIRA"... Decido se vou pela "Gran Via de les Corts Catalanes" ou desço a "Avinguda del Mistral" até ao "Raval" onde me posso encontrar com a Helena e o Felip e passar o resto da noite em boa companhia, entre uma ou outra cerveja e uma boa "escalivada".

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Semana de Um Condenado...

por Robinson Kanes, em 27.01.18

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 Fonte da Imagem: Própria.

 

Foi na segunda ou terceira exibição que tive oportunidade de utilizar um "voucher sapo" e fui ver, ao Teatro Armando Cortez, a peça "O Último Dia de um Condenado" de Victor Hugo, encenada por Paulo Sousa Costa e representada por Virgílio Castelo. O que me chamou à atenção, além do preço do voucher, foi o facto de se tratar de uma obra magnifica que já havia lido há tempos.

 

A sala não estava ainda muito composta, talvez por ainda estarmos no início e a divulgação a ter lugar. "Não conhecia" Vergílio Castelo e devo dizer que esteve magnífico. Como vem aí mais uma boa semana (e o fim de semana também não acabou), nada como ir ao Teatro Armando Cortez ver bom teatro - e os preços não são desculpa para não ir. Aqui, lanço o meu primeiro agradecimento ao "SAPO".

 

Em relação ao livro... É um romance de 1829 e que, segundo alguns relatos da época, se deveu ao triste espectáculo a que Victor Hugo muitas vezes teve de assistir: a morte pela guilhotina. É a angústia de um condenado à morte, da vontade de viver, das recordações, do homem que preso já não é ninguém, do homem que já é esquecido pela sociedade, inclusive pela própria filha (e aqui, na peça, a interpretação de Virgílio Castelo é genial), é o homem esquecido por todos. É uma angústia latente e a interrogação se, de facto, a morte de alguém resolve ou atenua verdadeiramente o crime cometido anteriormente - aliás, a mesma celebra os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal e que, naquele tempo, também mereceu um grandioso elogio de Victor Hugo.

 

Uma vez cravado a esta cadeia, não se é mais que uma fracção deste todo hediondo a que se chama o cordão, e que se move como um só homem. A inteligência  deve abdicar, a golilha de prisioneiro condena-o à morte: e o próprio animal  nunca mais deve ter apetites nem necessidades sem ser a horas fixas. In "O Último Dia de Um Condenado", Edição Verbo de 1972, vide pág. 43.

 

Na verdade, e a peça (e bem) não vai por aí, o final do livro conta a história de um prisioneiro real, Claude Gueux que, devido a um evento na prisão onde se encontrava condenado a 5 anos de prisão, acaba por ser condenado à morte... A interrogação que vão encontrar neste texto é notável e fazer-nos-á pensar bastante em crime e inocência, em justiça e injustiça... Mas para isso, nada como ler este pequeno livro, uma obra-prima deste grande génio.

 

Todo esse povo rirá, baterá palmas, aplaudirá. E entre todos esses homens, livres e desconhecidos dos carcereiros, que acorrem cheios de alegria a uma execução, nessa multidão de cabeças que cobrirá a praça, haverá mais de uma cabeça predestinada que seguirá a minha mais cedo ou mais tarde no tapete vermelho. Mais de um dos que aí vier para mim aí voltará para si mesmo.

Para estes seres fatais há um certo ponto da Praça de Gréve, um lugar fatal, um centro de atracção, uma armadilha.Vão andando à volta até cair nele. In "O Último Dia de Um Condenado", Edição Verbo de 1972, vide pág. 107.

 

Bom fim de semana... Boa semana...

 

P.S: Obrigado ao "SAPO" por me ter permitido tomar conhecimento desta peça e obrigado também pelo destaque do artigo "Retratos de Inverno - Cogumelos".

 

 

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Retratos de Inverno - Cogumelos.

por Robinson Kanes, em 19.01.18

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Uma das imagens mais pitorescas que podemos ter do Inverno são os cogumelos...

 

Caminhar por entre vales e montes é uma das minhas temáticas preferidas e, uma vez por outra, lá acabo por descobrir autênticas riquezas naturais... Riquezas naturais que me entusiasmam mais que toda e qualquer peça vazia de sentido, de essência e só avolumada na sua importância porque alguém com interesses óbvios lhe decidiu atribuir valor.

IMG_1635.JPGOs cogumelos são das coisas mais fantásticas que podemos encontrar pelos campos, preferencialmente os comestíveis, mas também os não comestíveis nos encantam com a sua beleza singular. Tão singular que já dei um verdadeiro "trambolhão" só para me desviar de uma destas preciosidades... Até é normal, tendo em conta que as quedas de bicicleta têm já um extenso espaço na minha história de vida.

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Penso que seja impossível ficar indiferente a um cogumelo colorido, perdido pelos campos e ainda refrescado pela neblina que atravessa muitas das serras e campos deste país.

 

Finalmente, o momento didáctico do dia, cuidado com os cogumelos. A grande maioria não são comestíveis e muito menos se deixem levar pelos mitos ou sabedoria popular em relação a muitos deles. Uma grande fonte de envenenamente advém dessas ideias de que, por exemplo, todos os cogumelos brancos são comestíveis ou que os animais não consomem cogumelos venenosos... Nada mais errado, até porque muitos são os que têm imunidade às toxinas destes. Mortes por evenenamento, voluntário e involuntário, não faltam, até entre algumas figuras históricas - aliás, nas civilizações grega e romana eram uma das armas preferidas.

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Este fim-de-semana, aproveitem para umas boas caminhadas por esses campos, sempre respeitando a natureza e acima de tudo com os olhos bem abertos... Nunca se sabe quando estarão diante de nós estas autênticas obras de arte pintadas e esculpidas pelo planeta Terra.

 

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Bom fim-de-semana, 

 

 

 

 

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A Tunísia de Brahem...

por Robinson Kanes, em 12.01.18

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 Fonte da Imagem: Própria

 

A Tunísia, um país lindíssimo, está de novo num turbilhão interno de contestação. Podemos invocar muitas razões de um lado e de outro. Num país como este, nem sempre é fácil trazer algumas das linhas orientadoras do ocidente no que toca à gestão económica e política. Esta estabilização nunca foi fácil, até porque o aumento de preços e outras medidas que exigem sacrifícios a uma população, já por si pobre, tem consequências... Consequências maiores, sobretudo quando a corrupção volta a ser um dos actores principais – é interessante ver os tunisinos na rua a pedirem o fim da corrupção e nós por cá a acolher a mesma de braços abertos...

 

Aguardemos pelo futuro, até porque ainda temos bem presentes os reflexos da “Revolução de Jasmim” e dos ecos que a mesma teve, mais tarde, em países como Egipto ou Síria.

 

 

Mas é sexta-feira, vésperas de fim-de-semana. Da Tunísia - além das belas paisagens, património e da Medina de Tunes - recordo Anouar Brahem e os sons do seu “oud” que não deixam ninguém indiferente a uma cultura poderosa, antiga e forte.

 

Mais uma vez, este ano, talvez tenha oportunidade de voltar a ouvir tão envolventes sons, quiçá em em Abril, na Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Por isso vos sugiro... Atravessem o Mediterrâneo, lentamente... Sem pressa... Para que os sons vos cheguem embalados pelas ondas que chegam e balançam num, nem sempre amigável, choque de culturas.

 

O “oud” de Brahem é mágico, e entre muitos que poderia recomendar, escolho o álbum de 2006, “Le Voyage de Sahar” que ainda esta semana voltei a colocar na leitor e a ouvir, deixando-me navegar, calmamente, entre os gritos da contestação de um povo, mas também da sua força e da sua cultura, tal como Sahar...

 

 

Façam esta viagem... E se tiverem que escolher... “Sur le Fleuve”, “L'Aube”, ou porque não, “Les “Jardins de Ziryab”.

 

Bom fim-de-semana,

 

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Fim-de-Semana com "Il Postino"...

por Robinson Kanes, em 15.12.17

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Existem filmes que nos marcam para sempre... Existem bandas sonoras que nos marcam para sempre... E existem livros que nos marcam para sempre... E porquê? Porque também existem pessoas que nos marcam para sempre!

 

Este artigo não é uma sugestão, é a força de várias emoções que fervilham sempre que vejo e escuto "Il Postino". De facto, ser em Itália, ter como realizador Michael Radford (relizador do "Mercador de Veneza"), ter Philippe Noiret (Pablo Neruda) e Massimo Troisi (Mario Ruoppolo) como actores, já vale muito.Confesso que o livro de Antonio Skármeta é uma daquelas situações em que o livro se deixa superar pelo filme.

 

Foi a minha miúda que me deu a descobrir este filme tardiamente... De facto, nos anos 90, era uma criança mas... Não é possível que só anos mais tarde lá tenha chegado.

 

"Il Postino" ou "O Carteiro de Pablo Neruda", é um filme que retrata sobretudo a amizade entre o poeta Pablo Neruda durante o seu exílio em Itália e um jovem (quase analfabeto) que decide aprender poesia e acaba por se emancipar por intermédio desta. É pela poesia e pelo uso das metáforas que conquista Beatrice (Maria Grazia Cucinotta) e começa a questionar um certo status quo que reina na ilha. 

 

Os diálogos e a relação que se estabelecem entre Mario e Neruda, são o grande ponto forte deste filme. Michael Radford conseguiu ir bem mais longe que Skármeta e trouxe-nos um filme envolvente e que está ao nível das melhores produções cinematográficas.

 

Um acontecimento paralelo ao filme, contudo, acabou por ser uma das imagens de marca do mesmo: o actor Massimo Troisi, que havia adiado uma cirurgia ao coração para poder gravar o filme, morreu no dia seguinte ao encerramento das filmagens. A personagem de Massimo, morre também no filme, depois de, influenciado por Neruda, ser convidado a declamar poesia numa manifestação comunista, violentamente reprimida pela polícia. Partilho a cena que apaixona todos aqueles que têm oportunidade de ver o filme... Em italiano, sem legendas... Foi sempre assim que vi este filme...

 

 

São filmes diferentes, mas coloco este num patamar muito semelhante a "Cinema Paradiso"... São filmes que nos marcam para a vida e que nos constroem como seres-humanos.

 

Finalmente, a banda sonora. Apesar de nomeado para os óscares nas categorias de "Melhor Filme" e "Melhor Realizador", foi com a "Melhor Banda Sonora Dramática" que "Il Postino" arrecadou uma estaueta. A música é brilhante, composta por mais um compositor da época "spaghetti western", o argentino Luis Bacalov, falecido em Novembro deste ano...

 

Para mim, uma das mais bem conseguidas bandas sonoras de sempre e que me trazem à memória um pouco de Buenos Aires e sobretudo de Itália e daquelas duas ilhas onde o filme foi filmado: a inesquecível Salina, uma das ilhas Eólias que ainda hoje recordo e a ilha de Procida, na Baía de Nápoles. Recomendo uma das versões que mais gosto e que se encontra no albúm "In Cerca di Cibo" de Gianluigi Trovesi e Gianni Coscia... Um acordeão e um clarinete de sonho.

 

É impossível que o tema principal não nos marque, é uma pérola e que já deu origem a diferentes versões e a qual partilho convosco...

 

 

Bom fim-de-semana...

 

P.S: Ao contrário do que foi noticiado, o agente da GNR atropelado ontem no Pinhal Novo não estava numa operação STOP mas sim numa zona onde se realizavam obras de conservação da estrada. Passei numa direcção e ainda o vi a controlar o trânsito. Quando voltava, já vi o equipamento do mesmo espalhado pela estrada e o corpo deitado no chão... Ainda não estava sequer em posição de segurança, o que nos fez pensar se não seria boa ideia verificar o que se passava... Espero que esteja tudo bem com este agente, que minutos antes da minha segunda passagem ali estava a comandar o trânsito.

 

 

 

 

 

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Pelo Port Vell até Drassanes...

por Robinson Kanes, em 14.12.17

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Fonte das Imagens: Própria 

Já lá vão uns tempos sem recordar a "minha" Barcelona. Recordo-me de Barceloneta, da minha morada em Ausiàs March, do percurso do Passeig Lluís Company até à Torre Agbar sem esquecer a Ciutadella e os momentos bem regados no Port Olímpic. Hoje, e posto que deixei Barceloneta no último artigo, continuo a caminhar junto ao mar percorrendo o Port Vell (Porto Velho)...

 

O Port Vell, para mim, é mais que um espaço comercial, alvo de algumas obras de modernização que levaram à construção do Oceanário e do Maremágnum (centro comercial). Daqui, e enquanto caminhamos junto ao mar, assistimos ao movimento do porto de Barcelona enquanto vislumbramos Montjuic cada vez mais perto. É um óptimo passeio para o fim de tarde e se possível nada como fugir do movimento frenético da Rambla de Mar e seguir até ao fim do molhe.

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Todavia, as grandes atracções, para mim, além da paisagem natural, são o antigo edifício neoclássico da alfândega e o Museu Marítimo de Barcelona que ocupa o local onde se encontravam as "Reales Atarazanas" o grande arsenal da coroa de Aragão! Quem aprecia o mar e arquitectura tem aqui um espaço de visita obrigatória e que, no fundo, nos transporta para outras épocas num local calmo e pacíficio longe do sempre espectacular bulício de Barcelona, sobretudo no "Passeig de Colom". É também aqui que Cristovão Colombo, do alto do seu pedestal de 60 metros (construído para a Exposição Universal de 1888 e que celebrava a descoberta da América) contempla a cidade e o mar. Além das figuras históricas, são os leões, na base, que me fascinam...

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Deixando uma azáfama mais turística, entramos na zona de "Drassanes". Drassanes não é mais que o sinónimo das "Reales Atarazanas" e era o nome catalão para as mesmas: "Drassanes Reials de Barcelona".

 

É por detrás do Museu, num bairro extremamente interessante e onde me aconselhavam a não ir à noite que encontrei mais um dos meus recantos preferidos da cidade. Encontramos por aqui todas as culturas num pequeno bairro nas traseiras do Museu Marítimo... Já estamos no "Raval".

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Ao percorrermos as ruas percebemos que as influências africanas e do médio-oriente estão presentes, não só nos IMG_1428.jpgrostos mas também no vestuário e, especialmente no aromas e nos mercados... É impossível não nos deixarmos contagiar pelo cheiro a boa comida e seguir o mesmo até encontrarmos um lugar, que nem sempre é o mais atraente, mas que nos faz sentar e apreciar aquele recanto multicultural da cidade... Não foram poucas as vezes que por lá deambulei também durante a noite, e nunca senti receio ou fui alvo de qualquer abordagem mais hostil. 

 

É também caminhando por estas ruas, presas entre a Avinguda del Paral·lel e a Avinguda de les Drassanes, que, em pleno "Raval" iremos encontrar um pequeno, mas peculiar, mosteiro românico beneditino de finais do século IX - o Mosteiro de "Sant Pau del Camp". É um espaço singular, com uma igreja em cruz grega de apenas uma nave. O movimento de culturas nas ruas que ladeiam o mosteiro é apreciável e encantador. 

 

Será pois, aquecendo o meu corpo, pois para lá de Montjuic o sol já se despede, que ficarei por aqui a saborear uma "shorba baidha" (sopa branca) e a apreciar a companhia de um argelino e de um catalão que me vai contando a história do Raval e do seu passado de má fama...

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