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Eu Defendo a PSP!

por Robinson Kanes, em 12.07.17

pspanimais.png Fonte da Imagem: http://p3.publico.pt/sites/default/files/4_2013/pspanimais.png

 

É necessário saber reservar-se: esta é a prova mais forte de independência.

Friedrich Nietzsche, in "Para Além de Bem e Mal"

 

 

Uma das formas mais interessantes que tenho de dar seguimento a este título é o facto de que sempre que alguém na PSP (Polícia de Segurança Pública) prevarica contra a lei, isso ser uma notícia que mexe com o país e com determinados sectores que não se tranquilizam enquanto não assistem a um julgamento público no pelourinho! Um pouco como o "homem que morde o cão", ou seja, que casos destes são isolados. E isso deixa-me contente e com confiança nas forças policiais...

 

Aqueles que esperam ler também um comentário ao processo que está a decorrer no âmbito das agressões no Bairro da Cova da Moura, devem procurar outro espaço, não conheço os detalhes do processo para começar a emitir juízos de valor. Apenas uma nota: a terem sido cometidos excessos, os mesmo devem ser punidos.

 

No entanto, o que me espanta é o facto de termos instituições que rejuvenescem e mostram todo o seu "poder" quando algum agente da autoridade comete um erro. Um dos maiores exemplos é a Amnistia Internacional, que tem a sua agenda própria (veja-se a tomada de posição em relação à Venezuela) e por certo encontra sempre nestas situações uma forma de "aparecer". Nunca vejo a Amnistia Internacional exaltar o trabalho das polícias quando encontram vítimas alvo de trabalho escravo ou de vítimas de tráfico de humanos, isto a título de exemplo.

 

Mas existem também outras instituições que surgem no espaço público a degradar a imagem de uma outra instituição como se de repente tomassem conhecimento deste tipo de situações pelos media mas apontando um sem número de factos passados. E até chegarmos aqui, porque não se procurou um diálogo? Se Polícia e moradores de bairros problemáticos não se entendem e se existe um sem número de instituições/associações mediadoras - muitas deles financiadas por programas nacionais e europeus, ou seja, por nós - porque é que ficamos com a impressão de que ainda há muito por fazer? Tanto dinheiro investido para tão parcos resultados, não deveria ser alvo da nossa interrogação? Tomara a muitas esquadras da PSP terem o orçamento de algumas associações de solidariedade...

 

E é interessante perceber, sempre que ocorre um crime, aqueles que dizem que os "pretos", os "ciganos", os "amarelos" e os "azuis" não são todos iguais e não devem ser metidos todos no mesmo saco, são os primeiros a medir uma instituição inteira pela mesma bitola quando têm interesse directo nesse espectáculo de achincalhamento público. Estranho paradoxo este!

 

Devemos é procurar saber o dia-a-dia de um agente da autoridade que sabe que vai sair da esquadra mas não sabe se vai voltar! As limitações, os desafios, os perigos... Devemos é procurar saber porque é que se somos todos tão amigos das pessoas destes bairros mas não fomentamos a economia destes mesmos locais! Porque é que não recrutamos aí colaboradores e nem fazemos lá as nossas compras? Porque é que não identificamos os problemas directamente e procuramos soluções? Não chega perder horas a pensar que indumentária devemos utilizar quando visitamos esses bairros, não chega ir distribuir beijinhos e dançar o funaná com um cinismo latente passar a mensagem de que somos todos os iguais.

 

Conheço as duas realidades, e de uma bancada parlamentar, de um sofá ou do alto de um título é fácil opinar e ser politicamente correcto, mas no quotidiano desses territórios, a realidade é outra... Mais uma vez, estamos focados no efeito e não na causa, porque falar de efeitos é fácil, identificar causas requer trabalho.

 

Nota de Rodapé: afinal o material furtado em Tancos valia pouco dinheiro. Não há preocupação! Deve ser porque as granadas baratas não matam tanto como as mais caras.

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 Fonte da Imagem: Própria.

 

Como vê a malta do bairro, iletrada e sem visão, a vida pública e o status quo? Permitam-nos, mas temos de sair cedo de casa e chegar tarde para auferir os 557 euros que conseguimos naquele trabalho onde fomos escolhidos pelo nosso mérito, pelo que, perdoem-nos algumas falhas. Nós não temos voz porque preferimos ficar agarrados aos nossos valores e não pretendemos ser “boa onda”.

 

O Exame Nacional de português não vai ser repetido. Dizem que serão encontrados os culpados. Digamos que é o mesmo que colocar um vídeo com conteúdo sexual da Kim Kardashian na internet e ao fim de um mês procurar encontrar todos aqueles que fizeram o download! Ao fazer isto, o Ministério da Educação, sim... O Ministério da Educação está a dizer aos futuros trabalhadores e líderes deste país que tudo é permitido desde que não se seja descoberto ou que o aparato seja tanto que não justifique uma intervenção radical. Liderar pelo exemplo diz-se muito por aí... Diz-se...

A malta do bairro dá os parabéns por estarmos a ensinar aos nossos jovens que o crime compensa! Depois admirem-se de se candidatarem a um concurso público e o selecionado ser da família de Carlos César e nem ter passado pelas provas que vocês passaram.

 

O Governo (este e muitos outros) tem sido um grande defensor da protecção civil... Não! Tem sido um grande defensor do SIRESP. Adquirir um sistema ao dobro do preço do espanhol, altamente falível e envolver alguns amigos que trabalham pro bono (sempre pro bono, como se existissem almoços grátis...) é o que está a dar... E o Tribunal de Contas até discordou, mas afinal quem é o Tribunal de Contas neste país? Uma espécie de Presidente da República que fala pouco, mas quando fala toca realmente na ferida, a diferença é que ninguém o ouve - dizem que não é afectuoso na abordagem - além disso, o debate sobre quem teve culpa nos fogos passou a assentar no SIRESP... Enquanto for o SIRESP não se pensam nos verdadeiros culpados. Mais uma vez, compram-se umas antenas e diz-se que as coisas estão a funcionar bem e problema resolvido...

 

Ainda a propósito de amigos e festa, parabéns pela mediocridade de um povo que vibra mais com flatulência do que com situações realmente sérias. E como é bom vê-los pelas ruas, pelo digital, pela rádio e pela televisão a usarem um termo como se sentissem alemães de Lubeck que acabaram de chegar às Canárias! Não foi só o Direito, os Esgotos, a corrupção e a Fábrica da Louça de Sacavém que herdámos do tempo dos Romanos, também foi o “Pão e o Circo”. Desde que nos sejam impingidas certas figuras a toda a hora e se passe a imagem de que é cool, estamos no caminho certo para gozar com a nossa própria cara, mas sem darmos por isso... Numa coisa um certo indivíduo tinha razão quando por outras palavras disse isto: "meus grandes palermas, vocês comem tudo o que vos dão, desde que meia-dúzia de pseudo-celebridades e jornalistas a soldo digam que eu sou cool".

 

 A conversa e imagens estupidificantes sobre flatulência revelam a inteligência de muito boa gente. A malta do bairro é iletrada, deve ser por isso que não compreende este aparato... Perdoem-nos, não andámos nas melhores escolas nem tivemos a melhor educação para alcançar tal patamar de inteligência!

 

Finalmente... Sempre gostámos dos concertos solidários. Faz-se um espectáculo que ajuda sempre à imagem dos artistas e todos pagamos a factura dos estragos mas não exigimos que os responsáveis pelos estragos se sentem numa sala de audiências. É uma espécie de juntar o útil ao agradável, senão veja-se: vamos cantar e dançar a um preço simpático, colocamos umas fotos para mostrar que lá estivemos e, além de sermos muito solidários, mostramos que somos malta muito vanguardista.... Além disso, o donativo é uma espécie de penitência pela nossa cegueira colectiva face aos principais assuntos da nação. É como queimar uma vela em Fátima ou deixar uns trocos na caixa das esmolas e nem procurarmos saber para onde vai o dinheiro. A intenção está lá e é o que importa! Estou redimido!

 

Agora a malta do bairro vai trabalhar, esta noite houve uma rusga e ninguém dormiu, o “Beto Mãozinhas” voltou a roubar duas laranjas da mercearia do “Inácio” e arrisca-se a ser condenado a uns bons anos na prisão. Bem lhe disse a mãe um dia: “vai à escola, não estudes muito, escolhe os amigos certos e depois aprende a estar na sociedade”. Soubesse o Beto quão sábias tinham sido aquelas palavras e nada disto teria acontecido... E logo o “Beto”, que não é capaz de dizer um palavrão sobre flatulência e sentir-se importante com isso... Coisa pouco inteligente...

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O Mundo Envia-nos Lixo e Nós Damos-lhe Música!

por Robinson Kanes, em 15.03.17

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Fonte das Imagens: Orquesta de Reciclados de Cateura

 

No seguimento de um artigo muito interessante que tive oportunidade de ler (http://quimeraseutopias.blogs.sapo.pt/do-lixo-para-a-boca-38578) e que me chocou profundamente, aproveito esta minha exposição, não só para divulgar o mesmo – posto que a comunicação social em Portugal prefere virar o foco para o futebol e para o fútil – mas também para abordar uma iniciativa que é um verdadeiro exemplo de como se pode sair do lixo... ainda tive esperança de ver aquele artigo em destaque...

 

Cateura, no Paraguai, é a maior lixeira daquele país, aliás, é considerada uma zona inabitável face à degradação que aí se encontra e ao elevadíssimo risco de cheia. Inabitável... mas local de residência para 2500 famílias!

 

0c2f2c_e5e7546a109849b6bc0b23b206f01add.jpgFoi entre esta degradação que um indivíduo encontrou uma forma de criar valor acrescentado... valor acrescentado numa lixeira. Começou por fazer instrumentos com o próprio lixo e o resultado foi que um grupo de crianças completamente esquecidas pela sociedade se transformaram em artistas e deram origem à “Landfil Harmonic” ou, menos sonante mas mais genuíno, a “Orquesta de Reciclados de Cateura”.

 

O lema da orquestra é algo extraordinário e ao mesmo tempo provocador: “O Mundo envia-nos lixo e nós damos-lhe música”. Num só projecto temos uma lição ambiental, uma lição educacional e uma lição social. Do atelier, porque existe um atelier, saem todos os instrumentos feitos à base de... lixo... são esses instrumentos que vão acompanhando um grupo de crianças na sua educação e viagens pelo mundo, crianças perdidas e entregues a uma sorte que... de sorte tem pouco.

 

Lembro-me de ter partilhado esta temática com muita gente (sobretudo da área social e ambiental em Portugal) que, simplesmente, olhou para mim com um desprezo tal que me fez pensar onde estaria a lixeira... se em Cateura, se numa mentalidade triste e tacanha que habita na cabeça de muitos portugueses que se orgulham de ter dado mundos ao Mundo, mas cuja cabeça e visão não vai além do seu pequeno quintal.

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Todo este projecto começou sem apoios do Estado, afinal falamos de pobreza em Portugal, mas não sabemos realmente o que é ser pobre. Hoje, além de vários prémios (inclusive para um documentário) e apoios de vários mecenas esta orquestra é um verdadeiro sucesso. Mas há países onde alguns indivíduos, que se dizem homens e mulheres de terreno, ou os apóstolos da felicidade, cujo suícidio é iminente se ficam sem o relógio de marca, se riem e exclamam: “instrumentos de lixo, que estupidez!”.

 

Talvez a música que nos chegue desta orquestra possa inspirar muitos que andam por aí, numa lixeira diária... e se esquecem que... mesmo com talas nos olhos, cavalos e burros caminham em frente... talvez a inspiração possa vir do texto de Agustina em “Fanny Owen” porque muito provavelmente “ as grandes obras nascem assim: dum sujo porto, entre fezes e urina”.

 

Um pequeno vídeo, resumo da "Orquesta de Reciclados de Cateura"

 

 

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Caritas et Lucrum.

por Robinson Kanes, em 14.03.17

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Hieronymus Bosch, Cristo Coroado com Espinhos (National Gallery)

Fonte da Imagem: Própria

 

Recentemente chegou-me aos ouvidos que a Cáritas Diocesana de Lisboa se encontrava sob investigação do Ministério Público por práticas de corrupção. E eu pergunto, na área social é só a Cáritas? É um começo. Contudo, até a acusação estar formalizada vamos partir do principio que não existe dolo. Procurei algumas notícias mais, mas confesso que não encontrei muitas...

 

No entanto, é admissível que uma instituição solidária (seja ela qual for, pois existem outras bem mais “lucrativas”) tenha lucros na ordem dos 110 000 euros? Que eu me recorde, sempre que menciono o contexto de empresa social geradora de lucros sou linchado em praça pública - mas afinal elas estão aí - não se pode é falar em empresa social que isso é legalizar e dar regras a uma prática totalmente desregulada e repleta de contrariedades. Não se deve também confundir lucros, com dividendos e muito menos com excedentes, pois aí a questão é outra. Lucros numa instituição não lucrativa é, no mínimo, paradoxal. Quero acreditar que foi gralha jornalística.

 

Todavia, como é que uma instituição com um património imobiliário de milhões, altos donativos e dependente de uma instituição cuja riqueza é das maiores do planeta ainda recebe subsídios estatais?

 

A Cáritas Lisboa apresenta mais lucros que um sem número de organizações empresariais em Portugal, organizações essas que além de gerarem riqueza ainda pagam um maior número de impostos e outras tantas taxas. Aproveitando este exemplo, não é altura do Governo Português através dos Ministérios competentes, olhar para estas instituições de outra forma? Como é possível que a Autoridade Tributária aplique multas de milhares de euros por uma empresa se atrasar um minuto a efectuar um pagamento e depois o Ministério da Solidariedade e Segurança Social distribua muitos outros milhares por estas instituições? E onde estão os estudos em Social Return on Investment (SROI)? Existem instituições que fogem desta temática e, recorrendo a um dito bem oportunista, como o Diabo da Cruz.

 

E se o Governo Português promovesse a Responsabilidade Social Corporativa nas organizações empresarias, criando, aí sim, incentivos para que muitas vezes não estivéssemos somente com manobras de “marketing” e a verdadeira génese do conceito fosse eficientemente implementada... sem espinhos?

 

Começo a pensar que a máxima de Robin dos Bosques começa a ficar desactualizada e que afinal andamos a tirar aos pobres para dar aos ricos que tendem a não promover a venda de canas de pesca aos pobres, porque é mais rentável dar-lhes o peixe.

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Quando a Cunha Solidária é Cega...

por Robinson Kanes, em 22.02.17

 

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El Greco, A Cura do Homem Cego (Gemäldegalerie Alte Meister) 

 

 

 

Vi, recentemente, na rede profUntitled.pngissional LinkedIn a pérola que se encontra na imagem ao lado: um grito de desespero de um profissional de recursos humanos, daqueles que até gosta de aparecer, em prol da solidariedade! Confirma-se a minha tese em relação a muitas conversas que se vão tendo em seminários balofos e sem conteúdo, e que têm em vista tornar socialmente aceite um comportamento desprezível.

 

Solidariedade, afecto e carinho por todos aqueles cuja última coisa que querem fazer é abrir o “net-empregos”, o “Indeed” ou o “Reed” e procurar um trabalho. Solidariedade para com aqueles que ao invés de se dedicarem de alma e coração a um projecto colocam o ónus total dos resultados nas equipas e passam o dia em redes sociais, contactos e “encontros” de profissionais para se autopromoverem! Solidariedade para quem precisa de um favor e não tem tempo para trabalhar! Lá do sítio de onde eu venho isso tem um nome e... não é solidariedade.

 

Devemos ser solidários uns com os outros e censurar aqueles que, quando nós já não somos importantes para os mesmos, não nos dão aquela mãozinha para subir na carreira ou nos tirarem do buraco. Malditos “amigos” que agora não me meteram aquela “cunha”! Cambada de interesseiros que são fiéis aos seus valores! Como é possível alguém ser tão tacanho.

 

Como é possível vivermos num mundo onde ainda existem pessoas que valorizam mais um bom profissional pelas suas qualificações e capacidade de ir à luta do que pela sua capacidade em mover influências e alimentar amizades e esquemas baseados num networking que mais parece um monte de silvas... um monte de silvas que, no meio, bem entre os ramos, encerra o conceito de favorecimento.

 

Perante isto, sugiro que se criem leis que limitem estas práticas, que excluam aqueles que ainda olham para um curriculum vitae e procurem saber mais sobre o candidato! Isto tem de acabar e a solidariedade de todos é importante! Sugiro uma manifestação em frente ao Palácio de S. Bento contra estes canastrões. Quem os manda ser honestos...

 

Mas numa coisa este desabafo teve razão... um dia, o presente do outro pode ser o futuro desse alguém e, quando esse dia chegar, ao invés de um telefonema para aquele “amigo”, eu sugiro uma revisão do curriculum e a preparação para tempos difíceis de procura de um emprego!

 

Na verdade, a pessoa em questão apreciou a frase de  Kafka, mas... se tivesse lido os Aforismos de Zurau, do mesmo autor, depressa perceberia que “não se deve prejudicar ninguém, nem mesmo o mundo, para alcançares uma vitória”. Esta afirmação, não reflecte mais, que o pensamento daqueles que são prejudicados quando os amigos, no seu networking, são tão solidários e bondosos, que não hesitam em prejudicar centenas ou milhares em prol de um favorecimento solidário... sempre solidário...

 

Fonte da Imagem 01: Própria.

Fonta da Imagem 02: LinkedIn.

 

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Mas Ela não Queria Atravessar...

por Robinson Kanes, em 07.11.16

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Num destes dias, em mais uma reunião de executivos na Taberna dos Cabrões (ela existe mesmo e fica no Montijo) dei comigo a discutir uma matéria interessante ligada ao personal branding.

 

Não fui o palestrante (quem me dera colocar aqui uma foto em cima do balcão com um headset e um led screen por detrás com a minha imagem e umas garrafas de vinho tinto ribatejano vazias) até porque naquele contexto não tinha curriculum para tal e já vão perceber porquê.

 

À mesa, algumas personagens que decidem os destinos de algumas vidas num raio de 50 metros da dita Taberna: eu, o Sr. António (reformado da indústria transformadora), o Sr. Fernando (idem), o David (o anfitrião e um Chief Happiness Officer nato), o Sr. Lucas (comunista convicto), o Sr. Lima (agricultor) e o Zé dos Canivetes (ninguém sabe muito bem o que ele faz, mas consta que se dedica a uns trabalhos de construção civil), o Sr. Matos (um antigo funcionário das finanças), o Sr. Vasco (trabalhador numa herdade ribatejana) e o Sr. Zé (forcado). Denotem que nenhum deles gosta que os trate por “Senhor”.

 

Na verdade, todos eles, inclusive eu, temos inquietações sobre a arte do personal branding. No entanto, a temática foi mais longe e nisto o Sr. Fernando começa a explanar sobre a “mania das importâncias” e os impactes nessa prática. Chegados à conclusão que naquela cidade ribatejana não faltavam exemplos, a tertúlia chegou às redes sociais e... imagine-se ao LinkedIn!

 

Só eu tinha LinkedIn, aliás não estranho, sendo aquele grupo tão especial, só veio mostrar mais uma vez que as pessoas que mais admiro e que mais se pautam pela competência e capacidade de trabalho não têm LinkedIn.

 

Posto que as conversas são como as cerejas, chegámos à “solidariedade”, tão em voga nas redes sociais. É bom ser “solidário” e além disso esse rótulo ajuda a desbloquear alguns entraves no mercado de trabalho e até nas influências, não sejamos ingénuos.

 

Recordo-me agora das várias partilhas a que tenho assistido nesta rede com actos de perfeita “solidariedade”: é aquele sem-abrigo que convidamos para almoçar, aquele indivíduo bagageiro com ar de pobrezinho ao qual pagamos um bilhete de avião como gorjeta de hotel para ir visitar a família ou então, uma fotografia junto de umas crianças sorridentes que não fazem a mínima ideia do que estão ali a fazer. Parece-me bem e louvável, mas não há tip sem selfie, senão depois como é que eu me promovo nas redes sociais?

 

Até que ponto muitas destas histórias são realidade? Ou sendo, até que ponto são forçadas? Não há limites para o personal branding? É um reflexo do nosso tempo, aliás é por isso que em breve vou iniciar um curso na área da antropologia que procura explicar o porquê da necessidade de fazer posts. De tudo o que leio e já tive oportunidade de observar e estudar, penso já ter algumas respostas.

 

Todavia, dirão os mais críticos: “ouça lá Robinson, se não falar disso, ninguém irá saber, certo?”. Errado talvez, na medida em que nem sempre o apoio/ajuda/intervenção junto de outrem justifica uma imediata “mediatização” da minha pessoa. Alguns dos actos mais nobres que já vi serem realizados não tiveram publicidade e se no fundo queremos mudar o mundo, já deveríamos ficar contentes com o sorriso que daí pode advir. Aliás, o Marketing Social também aí tem uma palavra a dizer em relação a tais limites.

 

Não estaremos a cair no erro daquela história popular em que, a uma turma do ensino primário, é solicitado que façam uma boa acção e aquando da avaliação, três dos alunos dizem ter ajudado a mesma “velhinha” a atravessar a rua. Perante o espanto da professora (três pessoas!) estes respondem que a dita senhora não queria atravessar, daí tal necessidade de reforços.

 

Confesso que penso nisso de um modo que visa a ideia em como corremos o risco, até nestas áreas mais sensíveis de criar um efeito perverso e camuflado de intenção e denote-se que não critico o meio mas sim o fim. É cada vez mais ténue a linha que separa o egoísmo da reciprocidade e da benevolência e isso pode ser perigoso. O mesmo seria extensível a outras áreas, inclusive os recursos humanos, que a meu ver nunca tiveram um lote de candidatos tão solidários, competentes e capazes como hoje... ou um lote tão vasto de profissionais de marketing pessoal e outro talvez ainda mais vasto de propagandistas.

 

“Mas há gente boa”, dirão uma vez mais aqueles cépticos. Claro que há! E ainda bem! Por exemplo o Sr. Fernando que, praticamente sem reforma, todos os dias alimenta o cão abandonado que lhe apareceu à porta, ou o Zé dos Canivetes que teve vergonha de dizer que gastou 30 euros numa campanha do Banco Alimentar (podia ter escolhido melhor, eu sei) ou finalmente do David, que além de oferecer requintadas “ginjinhas” aos visitantes, oferece tamanha boa disposição que transforma um momento de tristeza num fim de tarde de riso e boa disposição (e a culpa não é da ginja).

 

Algumas curiosidades:

Personal Branding: espécie de "eu é que sou bom" ou "olhem para o que eu digo que faço e coloco nas redes sociais, mas não falem com quem trabalha comigo,  a não ser que seja um amigo";

Chief Happiness Officer: uma moda para mostrar que somos muito amigos das pessoas, nada mais;

Tip: gorgeta, mas reparem lá se tip não é muito mais in?

Post: hoje ninguém escreve "comentário", é só por isso.

Selfie: sou eu, estão a ver que sou eu? Sou mesmo eu! Eu estive lá...O que é que lá fiz? Não sei, mas estive lá, vejam!

 

Fonte da Fotografia:http://www.murderati.com/storage/old-lady-crossing-the-street.jpg?__SQUARESPACE_CACHEVERSION=1342081521301

 

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O conceito está na "moda" e tudo é Empreendedorismo Social... erradamente. Além de que é necessário sair à rua e observar...

 

Entrando nesta matéria, importa perceber como podemos trazer ao Empreendedorismo  uma componente social. A diferença entre os dois conceitos é praticamente nula, ou seja acresce a componente de que o Empreendedorismo Social assenta sobretudo na missão social, ou se quisermos, um campo de actuação social.

 

Drayton, considerado o “pai” do Empreendedorismo Social e fundador da Fundação Ashoka, organização que junta e premeia empreendedores sociais por todo o mundo, defende estes como sendo indivíduos com ideias inovadoras e que permitem a solução dos problemas mais prementes da sociedade. Os empreendedores sociais são ambiciosos e persistentes, procuram não deixar as questões sociais para o Estado ou para o sector privado. É deste modo, encontram formas de trabalhar e resolver os problemas - mudando o sistema, espalhando a solução e abrindo os horizontes da sociedade (Ashoka, 2015).

 

 

Drayton aponta também uma questão essencial nos dias de hoje, afirmando que o Empreendedorismo Social é um excelente exemplo de gestão e adaptação aos actuais tempos de mudança:

 

Uma organização que trabalhe segundo as convenções hierárquicas do passado não estará habilitada para funcionar num mundo em constante mutação. É um modelo obsoleto. Não importa se actua no sector empresarial ou social, a questão da mudança está sempre presente e não importa o tamanho da organização (Drayton, 2015).

 

A visão da Schwab Foundation for Social Entepreneurship não difere muito da Ashoka na medida em que vê o Empreendedorismo Social como a aplicação de abordagens sustentáveis e práticas inovadoras que beneficiam a sociedade em geral, com especial ênfase nos mais desfavorecidos (Schwab Foundation, 2015). Aliás, a definição da Schwab vai mais longe e define o Empreendedorismo Social como um

 

termo que captura uma abordagem única aos problemas económicos e sociais, uma abordagem que é transversal a diversos sectores e disciplinas e que assenta em determinados valores e processos comuns (...) independentemente da área deste ou daquele (empreendedor social) e de se tratarem de organizações cuja base é lucrativa ou não lucrativa (idem).

 

Se por um lado o Empreendedorismo Social pode ser visto como algo semelhante ao empreendedorismo por outro só é possível com a operação centrada na comunidade e voltada para o suporte e ajuda desta mesma comunidade, estando menos focado na obtenção de lucros (Thompson, 2002:431).

 

Todavia, continuamos com a questão prática por definir. A mesma parece incidir mais uma vez sobre as motivações, ignorando a questão operacional. Este alerta é dado, sobretudo quando o indivíduo é o grande visado e, no fundo, o detentor da visão de mudar o mundo. Muitas são as organizações de Empreendedorismo Social que assentam na figura dos indivíduos, confundindo-se muitas vezes com os próprios e, em alguns casos, são estes mesmos indivíduos que pela sua persistência não só de liderança, mas até de visão levam ao fim destes empreendimentos.

 

São quatro os pontos críticos no que concerne a esta matéria e indubitavelmente levam a consequências nefastas no seio das organizações :

  1. o culto da personalidade;
  2. o foco no indivíduo e nas suas competências esquecendo outros que o podem completar no seu processo de gestão;
  3. o foco na ideia e não o trabalho da própria ou mesmo de outras (aparentemente não é preciso “inventar a pólvora”);
  4. o foco nos sobreviventes, ou seja a ausência de estudos sobre os projectos falhados e que permitiriam melhorar o acompanhamento e a gestão destas empresas (Light; 2006).

 

O Empreendedorismo Social nasce por intermédio de uma necessidade da comunidade ou indo mais longe até da própria sociedade. É, apesar de tudo, primordial  ter em conta que a sua actuação é colectiva e é neste sentido que não pode cair na tentação de ser um caminho de egos ou até de grupos de indivíduos cujo interesse está aquém do objectivo fundamental do projecto.

 

 

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ONG, bom ou mau?

por Robinson Kanes, em 19.10.16

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Como é que se fala com uma ONG (Organização não Governamental)? Costumo colocar esta questão múltiplas vezes e chego à conclusão que existem ONG’s que fazem um papel extraordinário e com impactes directos e indirectos na vida dos cidadãos ou animais... mas...

 

... existe uma grande massa de ONG’s que provavelmente existe porque... simplesmente existe... ou é uma óptima forma de promoção dos seus “associados” ou, em último caso, piscam o olho ao tão desejado subsídio.

 

Falo de algumas experiências que me chegaram de colegas e amigos que sempre que tentam o contacto com algumas destas instituições obtêm um silêncio que se arrasta por emails e emails, sem esquecer os telefonemas e um “simpático desprezo”... também já passei por tal.

 

Experimentem, muitos de vós conseguir um emprego, mesmo quando é raramente publicitado, em algumas destas organizações e... vejam o resultado.

 

Eu quero acreditar que estão todos na rua a ajudar o próximo e não dispõe de tempo para responder àquele que lhes remeteu um email à procura de emprego, ou simplesmente quer apresentar um projecto. Em alguns casos, até para se ser voluntário é uma aventura e... em muitas delas é importante estar-se bem relacionado. Ainda me recordo de um episódio ocorrido durante um jantar em que falando de voluntariado fui abordado por um amigo que imediatamente se prontificou a arranjar aquela cunha na instituição “y”... segundo ele era uma óptima forma de entrar na política e fazer o tão aclamado... personal branding.

 

Pergunto-me, para que servem? Porque existem? Se têm um fundo de apoio social cultural ou cívico, porque não prestam retorno perante a abordagem de terceiros? Falta de meios poderá ser a resposta... sim, mas a falta de meios servirá de desculpa para não olhar, ou ignorar potenciais projectos que podem mudar a vida de muitas pessoas ou até de regiões inteiras? Não é esse o trabalho destas instituições?

 

Mas alguns poderão afirmar: “algumas delas até fazem alguma coisa”. Sim, fazem. Mas em tempos de escassez de recursos, sobretudo económicos, não seria interessante aplicar os fundos em projectos cujo impacte justificasse a intervenção? Schindler dizia que “quem salva uma pessoa, salva o mundo”... de facto, mas o contributo de 10 milhões ao invés de ser aplicado para a salvação de 1000, deve continuar a ser aplicado na salvação de 1? São questões com as quais vamos ter de nos debater mais cedo ou mais tarde.

 

Os recursos são escassos e a solidariedade dos cidadãos começa a ser cada vez menor devido à ausência de resultados visíveis que vão além de campanhas que promovem o “ajudamos X pessoas” mas por aí se perdem.

 

Não deverá também o cidadão exigir mais destas instituições, nomeadamente em termos de apresentação de resultados e que vão para além de balanços e demonstrações (o que já é algo), muitas vezes revestidos de manobras contabilísticas?

 

Não deverá, em muitas situações, o cidadão exigir um trabalho com mais empowerment ao invés do perpetuar de situações de pobreza, decadência ou deterioração com medidas paliativas que só prolongam a situação até ao colapso final?

 

E os cidadãos? Em que medida podem trabalhar bairro a bairro, comunidade a comunidade, para eles próprios serem agentes geradores de mudança?

 

(imagem: Steps of Justice, 2016)

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Estamos quase no Natal (é verdade, já vi aqueles tradicionais bolos em alguns hipers), época de excelência para a solidariedade. Mas será que conhecemos bem o conceito de solidariedade? A solidariedade passa somente por... dar? Aí falaríamos de Dádiva (para uma abordagem inicial a este tema recomendo vivamente o clássico Ensaio Sobre a Dádiva de Mauss) e Reciprocidade mas penso que o sapo não conseguiria aguentar tanta matéria nos seus servidores e com toda a certeza ainda iríamos acabar por perceber que dar e dádiva são duas coisas que nem sempre caminham na mesma linha de actuação.

 

O Natal (em Outubro a falar do Natal, enfim...) é uma época de explosão consumista e à qual a solidariedade não é alheia. Mas a "solidariedade" que praticamos no Natal passa pelas boas acções de dar e com isso ficar perfeitamente tranquilo enquanto abrimos aquele presente... aquela mala caríssima, na noite de consoada, que daria para alimentar 100 pessoas no Sudão durante 2 anos. Não sou a miss mundo, logo também não vou explorar esta temática, pelo menos desta forma.

 

A solidariedade é algo que tem de viver connosco e não ser somente uma apropriação das instituições sociais ou até de indivíduos que no fundo procuram fazer algo pelos outros ou que encontram esse conceito uma vez por ano, sobretudo durante esta época. Pensem no trânsito (aqueles que conduzem)... e depois digam-me se são pessoas solidárias... excepto aquela senhora com ar simpático e um look atraente que me deu passagem à saída do IC2 para o Parque das Nações: se estiver a ler estas palavras, sim é para si. Até porque aquele indivíduo de SUV insistia em não me deixar entrar.

 

A solidariedade como instrumento, não de dar... por dar, mas de fazer algo. De criar um caminho. Falo sobretudo de iniciativas que visam não só capacitar mas dotar aqueles que mais precisam, não só de conhecimento teórico, mas acima de tudo de instrumentos, meios e acesso a financiamento (fora das instituições sociais, sempre que possível) que permitam o desenvolvimento de negócios e a promoção da sua inclusão. Meios que promovam a sobrevivência destes projectos com a autonomia dos próprios e sem a presença de estruturas de apoio (que por vezes são também causadoras de entropia).

 

Aí somos transportados para uma verdadeira prática solidária, sobretudo de nível económico, em que organizações empresariais colaboram numa lógica de parceria e partilha, fazem trocas comerciais e alteram o conceito de financiamento para o conceito de geração de negócio, de estar no mercado de igual para igual, com uma vocação mais humana, mais social e comunitária mas, mesmo assim competitivas. Organizações em que os seus gestores ou colaboradores são remunerados pelos dividendos gerados pelos seus negócios. E nesse campo, também é o desenvolvimento de uma prática solidária, que faz sentido, que tem impacte nas pessoas e na comunidade, que gera retorno e sobretudo que fomenta a autonomia dos envolvidos no processo de decisão do seu futuro e da sua vida. Organizações que podem dizer: o fruto do nosso trabalho gera X de retorno sem o receio de falar de valores monetários.

 

Muitos dirão que pode ser um discurso sem nexo e contra tudo o que é a solidariedade. Diria que também pode ser verdade, mas importa lembrar que é mais fácil enterrar a cabeça na areia e defender que a causa social não é um negócio (que o é, e em alguns casos, altamente lucrativo) e bloquear iniciativas de mercado cujo impacte na comunidade é de tal modo positivo que a geração de dividendos é somente o lado menos visível da actuação de muitas organizações empresariais.

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