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Uma Moca(ada) no João Quadros.

por Robinson Kanes, em 25.07.17

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Fonte da Imagem: https://static6.businessinsider.com/image/595bc1afd084cc817f8b6ac5-1454/snapshot20170704112537.jpg

Moca:

1. Cacete com uma maça na extremidade, clava, cacheira

2. Zombaria, mentirola, peta, coloquial tolice (Brasil)

3. Coloquia entorpecimento ou euforia induzida por drogas ou álcool, pedrada, ganza

4. Variedade arábica de café oriunda de Moca

5.Regionalismo estúpido, bruto (gosto desta)

6. De origem obscura.

moca in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-07-24 17:41:28]. Disponível na Internet:

 

Confesso que escrevi este artigo sugestionado por um indivíduo que comentou o artigo de ontem e... Também porque me encontrava sem ideias, admito.

 

Um artigo recente de João Quadros fez um ataque cerrado ao ciclismo. Como não conheço o indivíduo em questão nem nunca li nada do mesmo, procurei saber algumas informações, pelo que os meus comentários cingir-se-ão ao artigo em si e não à pessoa, embora o mesmo o tenha feito em relação aos ciclistas. Também não vou fazer o discurso do "racismo", da "discriminação" e da "xenofobia" dizendo que toda uma classe se sente ofendida e repudia tais palavras.

 

Após ler o artigo, cheguei a pensar que o mesmo era humorístico, tendo em conta o passado do indivíduo que o escreveu. Contudo, comecei a perceber que de humorístico e sarcástico até tinha pouco e que exprimia um sentimento real. A ser humorístico, também é interessante perceber que até já no humor a ditadura do politicamente correcto impera e na incapacidade/medo para atacar desportos como o futebol, por exemplo,optou-se por atacar o ciclismo, que sempre é uma modalidade menos seguida e com adeptos mais contidos. Interessante para um ferrenho adepto de um clube de futebol (que até fez parte da comissão de honra de uma candidatura à presidência de um clube) e que um dia disse: " Prefiro destruir os poderosos do que pôr as pessoas a rirem-se da profunda tragédia dos outros". Falar dos podres futebolísticos em Portugal pode granjear-nos ódios que não queremos...

 

Também me quer parecer que um grande adepto do ciclismo não se cinge, nem procura cingir o escândalo do doping - que é passado - a Lance Armstrong. Armstrong foi sem dúvida um dos mais importantes, até pelos títulos que conquistou, mas admito que fiquei mais chocado com os testes positivos de Ivan Basso, Jan Ullrich, Vinokourov, Manuel Beltrán, Floyd Landis e de Alberto Contador! A par de José Azevedo eram as minhas estrelas! Lamento que alguém que se declarou um fervoroso adepto não tenha nomeado qualquer um destes. Até porque Armstrong sempre foi acusado de doping desde que ganhou o seu primeiro Tour, ou seja, já nem deveria ser novidade... Quem gosta de ciclismo e sempre foi adepto de Armstrong deveria saber...

 

Dizer que o doping trouxe um total descrédito ao ciclismo e que os ciclistas são um bando de drogados é no mínimo o ressentimento de alguém que nunca deve ter conseguido andar de bicicleta sem "rodinhas" (aqui sou eu a fazer humor). E os outros desportos, aqueles que o mesmo senhor tanto defende e tanto aprecia? Será até que João Quadros gosta de desporto? Pela imagem descontraída, demasiado descontraída (também podíamos fazer piadinhas de mau gosto), que apresenta no seu artigo de opinião acredito que goste, tem é um problema mal resolvido com o ciclismo. Sugiro a João Quadros que tome umas "drogas" como o mesmo lhe gosta de chamar e tente subir a Sra. da Graça, em Mondim de Basto ou o Alpe D'Huez - estranhei não ter mencionado esta subida quando tentou fazer a piada do triciclo para ursos. Será que João Quadros também sabe o ridículo que é utilizar animais num circo e que também são utilizadas "drogas"? Talvez não queira saber sob pena de se perderem alguns convites no Natal para ir ao circo no Parque das Nações.

 

Além disso, não sei que tipo de drogas conhece João Quadros, mas a utilização de drogas não passa somente pelo momento de pura explosão e loucura - a Eritropoietina (EPO) visa estimular o processo de Eritropoiese que não é mais que provocar o aumento de glóbulos vermelhos e com isso o rendimento do atleta. Não há "loucura"! Seria bom informar-se e perceber que também se pode apreciar a natureza sem estar drogado, sim é possível.

 

Uma outra nota, mas acerca de ciclismo:  esta modalidade vai para além das corridas de estrada, nem todos os ciclistas bebem muita água e não são só as farmacêuticas que produzem substâncias dopantes - que preconceito vindo de alguém tão esclarecido.

 

Também é interessante o foco do Sr. João Quadros no "Boom Festival" e o passar ao lado de outros festivais com "um festival de música", quando falou de consumo de drogas. Será que se referisse alguns festivais poderia ofender os patrocinadores, aqueles que lhe permitem trabalhar em media com dimensão nacional? Será que também o humor está "agarrado", entrando na linguagem cool do comentador, ao politicamente correcto, ao lobby e ao medo pouco rebelde de ser colocado na rua? Cada vez mais vejo que não é só a independência dos media que está em causa, mas também a do humor.

 

E porque ainda falamos de "drogas", porque foi interessante o modo como João Quadros ligou o doping ao estar "agarrado" à cocaina, que dizer de alguns mundos em que João Quadros se movimenta? Aliás, é o próprio que assume ter feito grandes negócios enquanto esteve na "tropa". Cinema, artes, cultura, televisão, futebol... São mundos isentos de drogas, eu vos garanto!

 

É interessante como hoje em dia somos politicamente correctos mas nos tentamos mostrar tão isentos e politicamente incorrectos que a maioria das pessoas até acredita que é verdade (uma das piores formas de manipulação)... Não podemos é cair no erro de procurar imediatamente a desonestidade que gerou um acto honesto, como diria Steinbeck. Por falar em desonestidade, esperava um artigo sobre a atitude de Peter Sagan para com Mark Cavendish - para alguém, como João Quadros, que passou pela área da gestão, mesmo que a correr, teria muito a dizer. Ainda por cima Cavendish de _ _ _ _ _ _ _ _ _ é a minha alcunha velocipédica...

 

Não é que João Quadros, tal como eu, tenha grande importância, mas quando as palavras fazem eco, temos de estar preparados para as consequências...

 

Este texto foi humorístico e politicamente correcto... Ou não... 

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Girolamo de Santa Croce - A Adoração do Menino (Gemäldegalerie Alte Meister)

Fonte da Imagem: Própria.

 

No seguimento do artigo de ontem, ao qual podem aceder aqui, e onde os contributos de muitos comentadores foram valiosíssimos, procurarei hoje ver as coisas de um outro ponto de vista, até porque a temática é complexa.

 

Foquemo-nos numa questão: porque é que não trabalhamos a questão da maternidade/paternidade, ou aliás, a impossibilidade da mesma no sentido de mentalização dos indivíduos para esse facto? Com isto não estou a dizer que não se desenvolvam demais abordagens. Porque é que o foco não passa por uma mentalização das pessoas para as suas limitações? Porque é que noutros campos vamos por aí e no caso da geração de um filho fugimos mais à questão?

 

É assim tão grave que um indivíduo conviva com o facto de não poder ter um filho? Dou um exemplo: são muitos os casos que conheci de pessoas que passaram pelos maiores martírios fisícos e psicológicos só para conseguirem ter um filho e muitas vezes por pura pressão social! Parece que nos tempos actuais é proibido dizer "não tenho filhos porque biologicamente não sou capaz e vivo bem com isso" e nem menciono aqueles que não os têm por opção. Porque é que não existe um trabalho desse lado e continua a impor-se uma lógica do "ter filhos a todo o custo". Será que se a abordagem fosse mais por aí teriamos tanta gente a investir dinheiro, anos de vida e um sem número de emoções para conseguir ter um filho? Alguém, aos comentários do artigo de ontem focou o egoísmo... Será um egoísmo da sociedade e de cada indivíduo? O artigo presente, pretende sobretudo ir pela questão do "é assim tão complicado aceitarmo-nos como somos?".

 

É uma questão complexa, sobretudo quando leio e vejo argumentos de indivíduos que na praça pública defendem (quase obrigando) que devemos ter filhos, pois estes serão o garante da sustentabilidade da Segurança Social e que é egoísmo não os ter! Um deles até é o proprietário de uma empresa de brinquedos com nome na mesma praça. São esses mesmos indivíduos que não falam de adopção, por exemplo.

 

Estamos a fazer de tudo para promover um mercado de venda ou negociação de bebés mas continuamos a não exigir leis mais facilitadoras da adopção. É aqui que pecam aqueles (auto-intituados vanguardistas) que acusam os "anti-barrigas de aluguer" de estarem presos a rituais ancestrais e de serem egoístas. Eu, sem me colocar de um lado e de outro, digo sempre... Cuidado, sobretudo quando a pretexto do que é novo, colocamos todo um passado no caixote do lixo. Até porque uma das marcas maiores de ancestralidade é a geração de um filho - quantas mulheres não eram ostracizadas ou até mortas por não conseguirem gerar uma criança?

 

Além de que, se queremos falar de egoísmo importa referir, mais uma vez, que o mundo já tem gente a mais e sempre podemos encontrar muitas crianças sem pai nem mão à espera de uma oportunidade para serem crianças... Mas talvez seja mais interessante ver as mesmas subnutridas, feridas ou mortas na televisão enquanto a todo o custo tentamos ter aquele filho que tem de ser "nosso"! Mas aí já estamos a ser vanguardistas... 

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A Nova "Trend": Barrigas de Aluguer.

por Robinson Kanes, em 19.07.17

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 Adoração do Menino - Filippino Lippi (Galleria degli Uffizi)

Fonte da Imagem: Própria

 

Falar de incêndios já não é cool. E quando o tema já não vende revistas, jornais ou visualizações nada como ir buscar temas que vendem muito, nomeadamente a homossexualidade e agora as trendy "barrigas de aluguer". Homossexualidade, para mim, é um tema gasto, perdoem-me mas qualquer dia até me sinto mal por ser heterossexual. Ou sou eu, ou então algo se passa, dos muitos amigos(as) que tenho com uma orientação sexual diferente da minha não me recordo de perdermos muito tempo a falar do tema.

 

Mas as "barrigas de aluguer"... Primeiro, é triste perceber que foi preciso um jogador de futebol "comprar filhos na Amazon" para de repente toda a gente se lembrar que esta prática existe. Caríssimos, é uma prática com séculos e ninguém descobriu a pólvora, aliás, um dos empreendimentos mais bem sucedidos da História, o Cristianismo, começou com uma "barriga de aluguer".

 

Mas tanto se fala de "barrigas de aluguer"... Pelo que, voltemos aos moralistas do politicamente correcto, sempre a defender a liberdade e ao que diriam se encararmos essa prática como a venda de seres-humanos? A verdade é simples e crua: estamos a mercantilizar seres-humanos! Podemos concordar ou não, mas aí temos de ter muito cuidado quando apregoamos leis morais, éticas e humanas, mas depois defendemos esta prática. 

 

Vejamos também outra questão e que alguém por aí (alguém a quem nem dou grande importância, mais foi exímio na análise) falou, que é a questão dos impostos? Ora, se existe uma compra, como é que são calculados os impostos? Como é que eu, que tenho um estabelecimento onde vendo bifanas e Sumol de Ananás, fico quando tenho de pagar dezenas de taxas e quem vende crianças não está sujeita a impostos? Mas é uma criança, um bebé, como é que se pode falar de impostos, questionarão! Todavia, não temos pejo em defender o comércio de seres-humanos que só não é tráfico porque, em alguns casos, já se encontra legislado. Não é diferente da criação de leis que regulem o tráfico de droga, e aí passamos a ter um mercado legal... Mas é "trendy". Até nos damos ao luxo de atacar as pessoas que vão buscar filhos a África, no entanto, já achamos bem se forem por encomenda e full extras. Ficamos chocados com a mulher que vende o corpo por sexo, mas não ficamos tão chocados se vender o feto...

 

Hoje é "trendy" mercantilizar seres-humanos e sob a capa do "trendy" têm sido cometidas algumas atrocidades que nos fazem estar a atravessar uma crise de valores e de comportamentos, mas mais que isso a sofrer de uma espécie de arregimentação pela incapacidade de aliar o bem da liberdade à virtude da tolerância. E aí, Huxley rapidamente nos demonstrou que o resultado desse arregimentação só poderia ser uma grande infelicidade! Eu só espero que comece a ser "trendy" criticar a corrupção e a injustiça, aí sim, deixarei de ser um indivíduo fora de moda.  

 

Finalmente, algumas questões que irei abordar amanhã: nesta sociedade do ter, doa a quem doer e custe o que custar, não estaremos demasiado focados na importância do ter ao invés de nos focarmos na mentalização do não ter? Do saber viver sem ter? Poderão também dizer que é egoísmo da minha parte, mas quem é o egoísta? Não faltam crianças em dificuldades no mundo inteiro e se formos por aí, há muito que superámos a capacidade de carga do planeta, pelo que se dispensam mais seres-humanos, já em 1798 Malthus o dizia no seu "Ensaio Sobre o Princípio da População". Passaram mais de 200 anos e ainda nos custa pensar nisto... Além de que, por muito que não queiramos ver, cientificamente, a sobrepopulação é uma das grandes ameaças ao futuro da Humanidade.

 

 

 "Trendy": algo que está na moda. Algo que é forçoso que esteja na moda...

 

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Do Jogo da Ética e da Corrupção...

por Robinson Kanes, em 11.07.17

 

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 Varvara Stepanova - Jogadores de Bilhar (Museu Thyssen-Bornemisza)

Fonte da Imagem: Própria

 

 

A “recente” polémica em torno da demissão de três Secretários de Estado tem levado a uma discussão que ainda tende a ser rara em Portugal, sobretudo porque vivemos num país onde aceitar prendas, almoços, “luvas” e favorecimentos tende a ser entendido como uma espécie de “todos o fazem porque é que não hei-de eu fazer?” ou, como tenho ouvido, “se não for assim nunca mais!”. Esta abordagem é, por muitos, apontada como um dos cancros da nossa sociedade.

 

Ao nível dos negócios é estranho como é que a tão banalizada expressão “não existem almoços grátis” tende a não querer entrar na mente de gestores, políticos ou até meros colaboradores da base da pirâmide. É óbvio que podemos ter uma grande simpatia por alguém e querermos com isso fortalecer a mesma juntando o útil ao agradável mas isto não é coisa que aconteça por sistema. Existe sempre um objectivo concreto, real e palpável! Recordo-me de quantas vezes estive com clientes e paguei o almoço/jantar do meu bolso! Penso que muitos deles ainda hoje não o sabem, mas aquele momento era um momento de verdadeira confraternização! Também existiram outros que não, mas aí estava explícito um objectivo claro: aumentar vendas e criar uma relação de benefício mútuo entre fornecedor e cliente! Além do mais, por muito bons que sejamos a avaliar as coisas, não nos podemos esquecer que “em nada o homem está, ainda hoje tão perto do macaco como no que diz respeito aos negócios” e não sou eu que o digo mas Elias Canetti. Cair na tentação académica e de muitos pseudo-gurus da liderança e do comportamento, de que o mundo é perfeito, é enterrar a cabeça na areia.

 

Para mim, a ética é algo que deve ser discutido para lá da Academia! Se por um lado temos organizações que têm regulamentos de trust & compliance, também é um facto que muitos de nós não estamos a assimilar esse comportamento. Se a ética advém de directivas morais – que variam inclusive de cultura para cultura - a sua quebra é a abertura para uma consequente quebra de confiança e, sem confiança, as sociedades não se desenvolvem, os negócios não ocorrem e todo o desenvolvimento e consequente retorno se tornam mais complicados, ou seja, sem ética não há confiança!

 

Pegando na temática recente, e nestes exemplos em concreto, algumas questões suscitaram-me curiosidade:

 

  1. O valor em causa: de facto podemos estabelecer patamares de “prendas”, mas... Estando a aceitar uma “prenda” pessoal não estamos a abrir portas para um certo comprometimento? Independentemente do valor, corrupção é corrupção! A lei é cega quando julga alguém que rouba 1 milhão ou apenas mil euros. É um roubo. Porque é que com a temática da corrupção tendemos a desvalorizar pequenos valores/favores? À mulher de César não basta ser é preciso parecer e neste campo mais que nunca é preciso parecer adquirindo uma postura inquebrável. Além de que a corrupção nem sempre envolve valores monetários ou patrimoniais. O valor não desvaloriza a nocividade do acto!

 

  1. A devolução: ultimamente temos assistido a uma caminhada perigosa e que, no longo prazo, pode simplesmente abrir portas para a "legalização" de determinados crimes. Refiro-me à restituição de um valor, por exemplo. O facto de restituirmos um valor não impede que não se tenha cometido um crime ou uma afronta ética! O facto da minha pessoa devolver algo que não deveria ter sido aceite, sobretudo se fui descoberto, não me deve tornar inocente!

 

  1. A aceitação por parte de muitos cidadãos deste tipo de práticas: de facto, são muitos os cidadãos que não se incomodam com este tipo de práticas. Muitos porque não veem mal nisso e outros que, com toda a certeza, já praticaram fraudes. Como já muitos fazem em algumas áreas, vamos assumir que em Portugal corromper deve ser uma prática aceite? Vamos lutar contra isso? Ou vamos cair no desleixo e ir ao encontro de Stuart Mill quando nos diz que “uma pessoa pode causar mal a outros não apenas pelas suas acções, mas também pela sua inacção, e em qualquer dos casos ela é justamente responsável perante eles pelo agravo”.

Vamos continuar a assobiar para o lado e a fazer de conta que nada acontece?

 

Em relação aos seus governantes, em Portugal, os cidadãos continuam muito focados nas questões financeiras e o impacte que as mesmas têm no dia-a-dia dos portugueses (mais poder de compra, melhores salários, menos impostos...), todavia, mais que uma boa notícia na taxa de IRS é o comportamento dos outros cidadãos e dos políticos, pois efectivamente uma falha em valores básicos da democracia e atropelos éticos podem ter custos bem mais elevados para o erário público (todos nós) do que um simples aumento na taxa de IRS! Estranho que alguns dos partidos que mais apregoam a estas questões bebam agora desta cartilha e estejam em profundo silêncio.

 

Não entremos no círculo do “mas não fiz nada de ilegal”, pois essa tende a ser a capa para que se cometam as maiores atrocidades...

 

Finalmente, e para não tornar tudo tão pesado fica a questão que Steinbeck, através da personagem Ethan Hawley coloca em O Inverno do Nosso Descontentamento: “Um homem deve viver guiado pelos seus princípios ou deixar-se arrastar?”.

 

 

 

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Granada Ofensiva!

por Robinson Kanes, em 03.07.17

 

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Fonte da Imagem: https://www.defense.gov/Photos/Essay-View/CollectionID/13138/

 

Os lugares mais sombrios do inferno são reservados àqueles que se mantêm neutros em tempos de crise moral.

Dante Alghieri in “A Divina Comédia” (Inferno)

 

Dada a delicadeza do assunto e temendo que o mesmo fosse ofuscado por um outro assunto bem mais importante para os cidadãos portugueses, a flatulência, só hoje decidi falar do roubo de material militar de instalações militares de alta segurança.

 

Instalações militares de alta segurança presumem, hoje em dia, a existência de vários meios de segurança: segurança permanente, rondas, outros tipos de vigia apeada ou por intermédio de torres, sensores de calor, videovigilância, vedações (de preferência electrificadas) e outros meios bem mais complexos.

 

Ora... Posto isto, será que é crime o assalto a este tipo de instalações? Para mim, o verdadeiro crime é permitir que não exista segurança permanente! É também permitir que não exista qualquer tipo de videovigilância, sobretudo em vídeo, e permitir que meia-dúzia de larápios assaltem mais facilmente um paiol nacional do que uma mercearia em Vilar Formoso! 

 

Crime é um país como Portugal ter tantos oficiais superiores! Como diz o povo e bem "quanto mais gente a mandar mais desorganização"! Crime é termos Ministros da Defesa que, ou são formados em Jornalismo ou em Direito e com sorte até em Educação de Infância! A defesa é uma área demasiado sensível para estar entregue só a militares mas também é demasiado sensível para estar entregue a indivíduos cuja única experiência militar que tiveram foi a jogar Risco ou então, que os tempos são outros, a jogar Playstation! Estes factos e o alheamento da estrutura militar da vida dos cidadãos tem levado a uma descredibilização total das entidades militares que são encaradas como uma elite sem utilidade...

 

Crime é estarmos mais preocupados com a reputação do que propriamente com os cidadãos! Com alguma experiência em comunicação percebo o trabalho que tem de ser feito nesta área. Todavia, tenho mais experiência com pessoas e aí o meu outro lado diz-me que encomendar estudos de popularidade ao invés de nos focarmos na procura de factos e de apoio às populações é o mesmo que, depois de uma grave tragédia como a de Pedrogão Grande, rirmos todos nas caras daqueles que morreram e até fazer um concerto solidário como forma de camuflar a triste realidade de um povo que é reactivo (se isso permitir  ter os seus 15 minutos de fama) e pouco pro-activo! Penso que, por vezes, nos esquecemos da herança da República de Platão e não atendemos ao alerta deste quando nos disse que "uma natureza medíocre  jamais fará algo de grande, seja a um particular, seja a uma cidade", efectivamente, os resultados do descurar desse alerta estão à vista! Foi preciso a NATO alertar as nossas estruturas políticas, inclusive o principal responsável pelas Forças Armadas - o Presidente da República - para percebermos a diferença entre um assalto a uma caixa multibanco em Torres Vedras e um assalto a um paiol cujas consequências para a segurança nacional e internacional podem ser nefastas!

 

Enquanto governarmos para votos e para um clientelismo que não pára de crescer, bem podemos continuar a pensar que estamos na cauda da Europa! Cauda da Europa em termo de tacanhez e provincianismo, porque geograficamente estamos no centro do Mundo! 

 

Mas... Crime é não passar uma semana em que não exista um escândalo (e pensar que nem um terço é do conhecimento público)! São Ministros e Secretários de Estado que se vendem por um bilhete de futebol, ou é a gestão danosa de um banco público, ou são as falhas na protecção civil, ou é o assalto, perdão... Passeio... A um paiol de alta segurança, ou é a distribuição de favores e atribuição de cargos públicos a indivíduos sem competência e sem mérito, ou é o silenciamento e criação de autênticas ditaduras em câmaras municipais, ou é corrupção no INEM, ou é... Ou é... Ou é... E quando os resultados não aparecem e é mais importante um casamento de um presidente de um clube de futebol, ou a barriga de alguém que não deve ter muito que fazer ou até um estúpido discurso sobre flatuência que prevalecem... Pois permitam-me dizer que todos concordamos com isso e no fundo não somos diferentes de um qualquer corrupto ou de um qualquer criminoso que lesa a sua pátria!

 

Chegado ao fim deste texto só me recordo de um amigo, ofical subalterno, que um dia ousou perguntar a um oficial superior o porquê da vigiância dos monumentos nacionais estar entregue a empresas privadas de segurança e cujo desagrado foi tal por parte da alta patente que por pouco não foi assentar praça para as Selvagens!

 

 

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 Fonte da Imagem: Própria.

 

Como vê a malta do bairro, iletrada e sem visão, a vida pública e o status quo? Permitam-nos, mas temos de sair cedo de casa e chegar tarde para auferir os 557 euros que conseguimos naquele trabalho onde fomos escolhidos pelo nosso mérito, pelo que, perdoem-nos algumas falhas. Nós não temos voz porque preferimos ficar agarrados aos nossos valores e não pretendemos ser “boa onda”.

 

O Exame Nacional de português não vai ser repetido. Dizem que serão encontrados os culpados. Digamos que é o mesmo que colocar um vídeo com conteúdo sexual da Kim Kardashian na internet e ao fim de um mês procurar encontrar todos aqueles que fizeram o download! Ao fazer isto, o Ministério da Educação, sim... O Ministério da Educação está a dizer aos futuros trabalhadores e líderes deste país que tudo é permitido desde que não se seja descoberto ou que o aparato seja tanto que não justifique uma intervenção radical. Liderar pelo exemplo diz-se muito por aí... Diz-se...

A malta do bairro dá os parabéns por estarmos a ensinar aos nossos jovens que o crime compensa! Depois admirem-se de se candidatarem a um concurso público e o selecionado ser da família de Carlos César e nem ter passado pelas provas que vocês passaram.

 

O Governo (este e muitos outros) tem sido um grande defensor da protecção civil... Não! Tem sido um grande defensor do SIRESP. Adquirir um sistema ao dobro do preço do espanhol, altamente falível e envolver alguns amigos que trabalham pro bono (sempre pro bono, como se existissem almoços grátis...) é o que está a dar... E o Tribunal de Contas até discordou, mas afinal quem é o Tribunal de Contas neste país? Uma espécie de Presidente da República que fala pouco, mas quando fala toca realmente na ferida, a diferença é que ninguém o ouve - dizem que não é afectuoso na abordagem - além disso, o debate sobre quem teve culpa nos fogos passou a assentar no SIRESP... Enquanto for o SIRESP não se pensam nos verdadeiros culpados. Mais uma vez, compram-se umas antenas e diz-se que as coisas estão a funcionar bem e problema resolvido...

 

Ainda a propósito de amigos e festa, parabéns pela mediocridade de um povo que vibra mais com flatulência do que com situações realmente sérias. E como é bom vê-los pelas ruas, pelo digital, pela rádio e pela televisão a usarem um termo como se sentissem alemães de Lubeck que acabaram de chegar às Canárias! Não foi só o Direito, os Esgotos, a corrupção e a Fábrica da Louça de Sacavém que herdámos do tempo dos Romanos, também foi o “Pão e o Circo”. Desde que nos sejam impingidas certas figuras a toda a hora e se passe a imagem de que é cool, estamos no caminho certo para gozar com a nossa própria cara, mas sem darmos por isso... Numa coisa um certo indivíduo tinha razão quando por outras palavras disse isto: "meus grandes palermas, vocês comem tudo o que vos dão, desde que meia-dúzia de pseudo-celebridades e jornalistas a soldo digam que eu sou cool".

 

 A conversa e imagens estupidificantes sobre flatulência revelam a inteligência de muito boa gente. A malta do bairro é iletrada, deve ser por isso que não compreende este aparato... Perdoem-nos, não andámos nas melhores escolas nem tivemos a melhor educação para alcançar tal patamar de inteligência!

 

Finalmente... Sempre gostámos dos concertos solidários. Faz-se um espectáculo que ajuda sempre à imagem dos artistas e todos pagamos a factura dos estragos mas não exigimos que os responsáveis pelos estragos se sentem numa sala de audiências. É uma espécie de juntar o útil ao agradável, senão veja-se: vamos cantar e dançar a um preço simpático, colocamos umas fotos para mostrar que lá estivemos e, além de sermos muito solidários, mostramos que somos malta muito vanguardista.... Além disso, o donativo é uma espécie de penitência pela nossa cegueira colectiva face aos principais assuntos da nação. É como queimar uma vela em Fátima ou deixar uns trocos na caixa das esmolas e nem procurarmos saber para onde vai o dinheiro. A intenção está lá e é o que importa! Estou redimido!

 

Agora a malta do bairro vai trabalhar, esta noite houve uma rusga e ninguém dormiu, o “Beto Mãozinhas” voltou a roubar duas laranjas da mercearia do “Inácio” e arrisca-se a ser condenado a uns bons anos na prisão. Bem lhe disse a mãe um dia: “vai à escola, não estudes muito, escolhe os amigos certos e depois aprende a estar na sociedade”. Soubesse o Beto quão sábias tinham sido aquelas palavras e nada disto teria acontecido... E logo o “Beto”, que não é capaz de dizer um palavrão sobre flatulência e sentir-se importante com isso... Coisa pouco inteligente...

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Lisboa: O Museu Nacional de Arqueologia.

por Robinson Kanes, em 14.06.17

 

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Fonte das Imagens: Própria. 

 

Por aqui continua-se a falar de Lisboa...

 

Depois da azáfama da festa e das peripécias com taxistas, parece-me interessante focar um espaço que, apesar de se encontrar numa localização singular, é ainda ignorado por muitos: o Museu Nacional de Arqueologia.

 

O Museu Nacional de Arqueologia fica localizado no Mosteiro dos Jerónimos, uma pequena porta entre a Igreja dos Jerónimos e o Museu de Marinha. Não é um museu grande, sobretudo para quem já esteve em museus do género por esse mundo fora, no entanto, é o nosso Museu Nacional de Arqueologia e que conta já com mais de um século de existência. Este museu, fundado em 1893 por José Leite de Vasconcelos, se não é maior, é pela dificuldade do espaço, mas também pela dispersão dos artefactos arqueológicos e, não negarei, por um lento reconhecimento dos achados arqueológicos em Portugal. 

 

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Imaginem que podem começar a vossa viagem pelo Paleolítico, passando pelo Mesolítico (destaque para o “Esqueleto Humano de S. Romão”), Neolítico (destaque para o “Enterramento Colectivo do Escoural”), Calcolítico, Idade do Bronze, Idade do Ferro (destaque para a “Necrópole do Olival do Senhor dos Mártires”), Civilização Romana, Período Visigótico, Período Islâmico e terminar na Idade Média (destaque para a “Cabeceira de Sepultura”)... Imaginem como podem percorrer milhares de anos num pequeno espaço mas com uma riqueza sem igual! Mesmo os menos entusiastas vão gostar porque não obriga a grandes horas encerrados num museu. 

 

Finalmente, uma nota particular para as "Antiguidades Egípcias"! Regressem aos séculos daquela civilização e apreciem o “Barco Votivo”, as “Máscaras Funerárias” e, como não poderia deixar de ser, os dois Sarcófagos (“Sarcógafo de Irtieru” e “Sarcófago Pabasa”). Sinto que ainda são muitos os que se fascinam com a arte inerente aos sarcófagos mas se sentem tristes por nunca ter visto nenhum, pensando que só nos grandes museus da Europa ou no Egipto se encontram estas peças! Pois aqui, podem matar a vossa curiosidade, merece bem a pena!

 

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Além do serviço educativo, este museu conta também com uma forte componente de investigação que o torna um dos mais importantes no contexto internacional.

 

Este é dos museus que mais surpreende, não só pelo desconhecimento de alguns, pois ao estar entre a Igreja dos Jerónimos e o Museu de Marinha não é fácil sobressair, mas também pela riqueza e lição de história que ali se encontra. No entanto, estar localizado no Mosteiro dos Jerónimos também tem uma sua mais-valia, na medida em que tem a honra de ter a sua casa numa espaço único no mundo!

 

É a ideia perfeita para uma manhã! Podem começar com um pequeno almoço em Belém - e há mais pastelarias para além dos tradicionais “Pastéis de Belém” – caminhar um pouco junto ao rio e ao Padrão dos Descobrimentos, aproveitar a feira de antiguidades nos jardins de Belém (1º Domingo de cada mês e com algumas relíquias interessantes, sobretudo literárias) e terminar com a visita ao museu.

 

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Aproveitem, até porque dia 21 de Junho inaugura  a exposição “LOULÉ. Territórios, Memórias, Identidades”. Estão ainda a decorrer as exposições “Religiões da Lusitânia. Loquuntur saxa”, “Lusitânia dos Flávios. A propósito de Estácio e das Silvas” e “Um Museu, tantas coleções ! Testemunhos da Escravatura. Memória Africana”. Genial, não?

 

Podem saber mais sobre estas exposições, sobre a colecção permanente, contactos, preços, horários e dias de entrada livre no website do museu em   http://www.museuarqueologia.pt

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De Volta ao Cemitério dos Olivais!

por Robinson Kanes, em 13.06.17

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 Fonte da Imagem: Própria

 

Lembram-se de ter falado do Cemitério dos Olivais, da Ilda e do Taxista? Não? Eu ajudo, vejam aqui.

 

Lisboa é uma cidade encantadora, uma cidade de boas gentes, dos Santos Populares – as sardinhas além de congeladas ou serem de Sábado não estavam más – mas é também uma cidade dos taxistas. Quem vier a Lisboa e não acabar numa discussão de trânsito com um “fogareiro” nunca saberá o que é sentir o pulsar da cidade. Ou então, pode sempre entrar num táxi e solicitar uma ida do Parque das Nações a Chelas. É uma experiência muito interessante, pois vão conhecer Paço de Arcos e a sua zona ribeirinha, o Restelo e com sorte ainda dão um pulinho a Belém para passar junto ao MAAT. Eu ainda não tenho uma “selfie” junto ao MAAT pelo que, segundo o parâmetros sociais actuais, não sou um indivíduo culto e com estilo vanguardista.

 

Mas eis que dei comigo, mais uma vez, junto ao Cemitério dos Olivais. Não! Não voltei a encontrar o taxista citado em artigo anterior. Contudo, deparei-me com mais dois indivíduos que me fizeram crer que um dos hot spots da “mijadela” destes profissionais do volante se encontra nos muros do cemitério.

 

Desta feita... Foram dois. O primeiro, com um ar até bastante normal, senhor dos seus 50 anos, vinha numa velocidade considerável. Parou o táxi e, saindo já com a mão na braguilha, subiu ao palco e lá teve o seu momento de alívio. Também tinha aquela camisa típica, aos quadrados e de manga curta. Os taxistas adoram camisas aos quadrados, aqueles bem grandes...

 

Não tardaram uns cinco minutos e... Novamente outro indivíduo. Este um pouco mais forte, mas também pelos seus 50 anos. Disse para mim que não poderia deixar passar mais esta e fotografei. Não o senhor, mas o táxi! Até porque este aferiu da minha presença e a privacidade do mesmo também tem de ser respeitada.

O lado positivo desta segunda “urinadela” foi que o senhor (além da camisa aos quadrados) é daqueles que baixa as calças. Estão a ver aquela imagem da densa pilosidade do pernil e das cuecas brancas de cor estilo ceroula? Ainda bem que os muros são altos, caso contrário, teríamos um motim pelos jazigos.

 

Automobilistas, motoristas de táxi e de outra qualquer viatura... Lisboa também tem o seu hot spot na zona oriental para a tradicional “mijadela à portuguesa”! Fica mesmo nas traseiras do Cemitério dos Olivais, mesmo junto ao Crematório, afinal sempre ajuda a disfarçar os odores mais quentes.

 

Já estou a pensar em fazer reconhecimento perto de outros cemitérios: Alto de S. João, Prazeres, Carnide, Ajuda e Benfica, no sentido de perceber se existe potencial turístico! Quem sabe até possa criar uma “Rota Mictológica” para a observação de taxistas a urinar em cemitérios, um pouco como as cegonhas que fazem os ninhos nos penhascos da Costa Vicentina, coisa única no mundo.

 

Mictologistas, andem atentos...

 

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É Santo António e Lisboa é Portuguesa!

por Robinson Kanes, em 12.06.17

 

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 Fonte da Imagem: Própria

 

Aí está a noite de Santo António (quem quiser até tem banda sonora lá em baixo)! Um pouco por todo o país já se festeja este santo casamenteiro e folião! No entanto, vou focar a minha atenção em Lisboa, perdoem-me aqueles que vão estar em Pádua ou em Setúbal - em Setúbal, o Santo António também é um gáudio e sem padrinhos “famosos” que não fazem mais que figura de parvos de um lado para o outro, mas sim com madrinhas que cantam e dão vida ao desfile na Avenida Luísa Todi.

 

As festas de Lisboa têm a duração de um mês, no entanto, é a noite de Santo António o ponto alto das festividades. Pessoalmente, também é a noite em que não vou aos “santos”.

 

Mas como eu adoro esta época, a capital mais bonita do mundo fica toda engalanada, é devolvida aos seus e deixa de ser, por um mês, aquela metrópole do sul para ser mais uma cidade com um toque popular e mediterrânico. As marchas vão percorrer a avenida, bela herança de Leitão de Barros e António Ferro, porque as marchas são obra dos tempos da ditadura, uma forma de valorizar a nação portuguesa, mas sobretudo a cidade de Lisboa. Espanta-me até, como muitos críticos de tudo o que é anterior a 1974 se deixem contagiar por esta vida e por todo espírito que se estende por cada bairro e abracem esta causa com fervor.

 

O Santo António por aqui é festejado com vinho e sangria, deixam-se as boas garrafas e compra-se vinho barato ou daquele que está no fundo do barril... Comem-se as sardinhas no pão, como manda a tradição, assa-se o “chóriço” e o “córato” e as bifanas tendem a cheirar e a saber a sardinha. Caldo verde não é tradição, pelo menos por estas bandas, ao contrário das festas em Lisboa, mas são-no os peixinhos do rio e até os ovos mexidos com tudo o que houver no mercado.

 

Chego a comparar esta época ao Natal, só que com aquela alegria única e verdadeira - sem presentes, sem fretes com familiares que nem nos dizem muito e com o sol a despedir-se só lá para perto das dez da noite. As noites quentes e a lua reflectida nas águas do Tejo fazem o resto. Depois é a música! De preferência música marialva ou popular. É nestas alturas que fico a conhecer os novos talentos da música pimba e consigo ouvir uma música do Toy até ao fim. Cante-se o fado alegre e deixe-se o triste para o Natal. Ai Cristo, que celebramos com tanto formalismo o teu nascimento, mas é o Santo António que nos faz perder a cabeça e entrar na verdadeira festa. Ou então é o profano que se mascarou de religioso... E o profano sempre é mais genuíno e próximo do homem do que o religioso.

 

Nestes dias não entram por aqui as tradições gourmet, os pães com todas as sementes e mais algumas ficam à porta! Também à porta ficam as bifanas sem gordura e fininhas com molho de mel e mostarda de Provence em cama de pão pita de Mikonos. Quem quiser molho ponha mostarda do Aldi! A sardinha? A sardinha é com cabeça e come-se toda! Tenho conhecimento de algumas tendências (tendências!!!) que até tiram a pele à sardinha. Faz-me impressão como é que com tanta formação em paladar, nutrição, chique food, nouvelle cuisine e "cozinha armante"  se tirem as peles à sardinha!

 

As festas de Lisboa ainda são uma herança do antigo regime, de facto, e é desse modo que também são um reforço de uma identidade que se tende a perder na cidade, pois não sou daqueles que coloca tudo o que foi feito anteriormente num caixão, o solda a chumbo e o tapa com betão armado. Lisboa é lisboeta... É alfacinha!

 

Deixemos, para o mal e para o bem, que seja a nossa tradição a vingar, pelo menos nestes dias. Não sejas francesa minha Lisboa, tu és Portuguesa e é assim que tens de continuar... É disso que o teu verdadeiro povo gosta e os turistas também! Carne no pão com molhos estranhos há em todo o lado, mas o sabor da tua bifana só em Marvila e o cheiro da tua sardinha só em Alfama. E até mesmo em Xabregas ou na Graça, em Sapadores ou em Chelas o teu cheiro e o teu sabor não se podem encontrar em mais algum lado. Acho que nem no Parque das Nações, é o que me dizem... Até o cheiro a urina em Santos é diferente do cheiro a urina em Sevilha ou em Roma!

 

É Santo António e o acordeão já entoa as marchas para mais logo!

 

Nota: Não é grande coisa, mas haver festa há! É por isso que os artigos desta semana serão dedicados inteiramente à capital mais bonita do Mundo: Lisboa!

 

 

 

 

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As Criancinhas que Morrem e Não Têm Sonhos...

por Robinson Kanes, em 24.05.17

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Bartolomé Estéban Murillo - Crianças Comendo Uvas e Melão, (Alte Pinakothek)

Fonte da Imagem: Própria

 

Deve, portanto,  cada um por sua vez descer à habitação comum dos outros e habituar-se a observar as trevas. Com efeito, uma vez habituados, sereis mil vezes melhores do que os que lá estão e reconhecereis  cada imagem.

Platão, in "República"

 

 

As criancinhas que morreram em Manchester colocaram o mundo a pensar em como é possível que se matem crianças num concerto, onde algumas até estão a realizar o sonho de uma vida. Como é possível? É a questão que todos colocam...

 

Lamento essas mortes como lamento quaisquer outras, mas o ódio e tristeza de muitos coloca o foco nas crianças que morreram. Por serem crianças, por serem jovens, por terem tantos sonhos e por estarem a realizar um deles que não era mais que ver um concerto. É legítimo, é um sonho...

 

Contudo...

 

E as criancinhas dos países do Sudoeste Asiático, da América do Sul, de África e até de países como na Turquia, qual imagem com que a personagem Mevlut de "Estranheza em Mim" (Orhan Pamuk) se deparou aquando da venda de Booza. A imagem de assistir a crianças que vivem fechadas em apartamentos a fabricar brinquedos, peças de roupa e calçado para muitas marcas que muitos de nós compramos... Às nossas criancinhas?

 

E as criancinhas que ficaram sem pai e/ou sem mãe porque foram mortos pela guerra? Criancinhas que nunca souberam o que era paz.

 

E as criancinhas que mal conseguem andar e começam a trabalhar para ajudar a família ou que então são escravizadas? 

 

E as criancinhas que não querem ficar fechadas em casa a viver no medo e arriscam brincar entre as crateras das bombas?

 

E as criancinhas que dão à costa ou andam a boiar? Quantos sonhos se perderam nas ondas que as arrastaram às areias do mediterrâneo e não só? São as mesmas areias onde muitos de nós vamos passar férias, com as nossas... Criancinhas...

 

E as criancinhas vitimas da guerra que aos 10-14 anos falam como adultos? Que demonstram uma frieza de adultos e guardam uma tristeza profunda por viverem como vivem? Criancinhas que nos fazem envergonhar e pensar como é que um discurso tão evoluído daqueles cabe em tão poucos anos de vida!

 

E as criancinhas que aos 12 anos sabem o que é disparar uma AK 47 e armar uma granada?

 

E as criancinhas que sufocam com gases tóxicos ou são contaminadas com urânio empobrecido?

 

E as criancinhas que são feitas em pedaços porque estavam a brincar na rua e a última coisa que ouviram foi o “click” da mina anti-pessoal que as enviou pelo ar e desfez as mesmas em pedaços?

 

E as criancinhas que sobrevivem a tudo isso e são transportadas para um hospital até o céu lhes cair em cima, porque lá de cima alguém o fez cair sob a forma de uma bomba?

 

E as criancinhas que, apesar de tudo isso, ainda conseguem ter um sorriso e não pedir nada?

 

E as criancinhas que, ao contrário das nossas, provavelmente nunca saberão o significado da palavra sonhar?...

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