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Do Jogo da Ética e da Corrupção...

por Robinson Kanes, em 11.07.17

 

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 Varvara Stepanova - Jogadores de Bilhar (Museu Thyssen-Bornemisza)

Fonte da Imagem: Própria

 

 

A “recente” polémica em torno da demissão de três Secretários de Estado tem levado a uma discussão que ainda tende a ser rara em Portugal, sobretudo porque vivemos num país onde aceitar prendas, almoços, “luvas” e favorecimentos tende a ser entendido como uma espécie de “todos o fazem porque é que não hei-de eu fazer?” ou, como tenho ouvido, “se não for assim nunca mais!”. Esta abordagem é, por muitos, apontada como um dos cancros da nossa sociedade.

 

Ao nível dos negócios é estranho como é que a tão banalizada expressão “não existem almoços grátis” tende a não querer entrar na mente de gestores, políticos ou até meros colaboradores da base da pirâmide. É óbvio que podemos ter uma grande simpatia por alguém e querermos com isso fortalecer a mesma juntando o útil ao agradável mas isto não é coisa que aconteça por sistema. Existe sempre um objectivo concreto, real e palpável! Recordo-me de quantas vezes estive com clientes e paguei o almoço/jantar do meu bolso! Penso que muitos deles ainda hoje não o sabem, mas aquele momento era um momento de verdadeira confraternização! Também existiram outros que não, mas aí estava explícito um objectivo claro: aumentar vendas e criar uma relação de benefício mútuo entre fornecedor e cliente! Além do mais, por muito bons que sejamos a avaliar as coisas, não nos podemos esquecer que “em nada o homem está, ainda hoje tão perto do macaco como no que diz respeito aos negócios” e não sou eu que o digo mas Elias Canetti. Cair na tentação académica e de muitos pseudo-gurus da liderança e do comportamento, de que o mundo é perfeito, é enterrar a cabeça na areia.

 

Para mim, a ética é algo que deve ser discutido para lá da Academia! Se por um lado temos organizações que têm regulamentos de trust & compliance, também é um facto que muitos de nós não estamos a assimilar esse comportamento. Se a ética advém de directivas morais – que variam inclusive de cultura para cultura - a sua quebra é a abertura para uma consequente quebra de confiança e, sem confiança, as sociedades não se desenvolvem, os negócios não ocorrem e todo o desenvolvimento e consequente retorno se tornam mais complicados, ou seja, sem ética não há confiança!

 

Pegando na temática recente, e nestes exemplos em concreto, algumas questões suscitaram-me curiosidade:

 

  1. O valor em causa: de facto podemos estabelecer patamares de “prendas”, mas... Estando a aceitar uma “prenda” pessoal não estamos a abrir portas para um certo comprometimento? Independentemente do valor, corrupção é corrupção! A lei é cega quando julga alguém que rouba 1 milhão ou apenas mil euros. É um roubo. Porque é que com a temática da corrupção tendemos a desvalorizar pequenos valores/favores? À mulher de César não basta ser é preciso parecer e neste campo mais que nunca é preciso parecer adquirindo uma postura inquebrável. Além de que a corrupção nem sempre envolve valores monetários ou patrimoniais. O valor não desvaloriza a nocividade do acto!

 

  1. A devolução: ultimamente temos assistido a uma caminhada perigosa e que, no longo prazo, pode simplesmente abrir portas para a "legalização" de determinados crimes. Refiro-me à restituição de um valor, por exemplo. O facto de restituirmos um valor não impede que não se tenha cometido um crime ou uma afronta ética! O facto da minha pessoa devolver algo que não deveria ter sido aceite, sobretudo se fui descoberto, não me deve tornar inocente!

 

  1. A aceitação por parte de muitos cidadãos deste tipo de práticas: de facto, são muitos os cidadãos que não se incomodam com este tipo de práticas. Muitos porque não veem mal nisso e outros que, com toda a certeza, já praticaram fraudes. Como já muitos fazem em algumas áreas, vamos assumir que em Portugal corromper deve ser uma prática aceite? Vamos lutar contra isso? Ou vamos cair no desleixo e ir ao encontro de Stuart Mill quando nos diz que “uma pessoa pode causar mal a outros não apenas pelas suas acções, mas também pela sua inacção, e em qualquer dos casos ela é justamente responsável perante eles pelo agravo”.

Vamos continuar a assobiar para o lado e a fazer de conta que nada acontece?

 

Em relação aos seus governantes, em Portugal, os cidadãos continuam muito focados nas questões financeiras e o impacte que as mesmas têm no dia-a-dia dos portugueses (mais poder de compra, melhores salários, menos impostos...), todavia, mais que uma boa notícia na taxa de IRS é o comportamento dos outros cidadãos e dos políticos, pois efectivamente uma falha em valores básicos da democracia e atropelos éticos podem ter custos bem mais elevados para o erário público (todos nós) do que um simples aumento na taxa de IRS! Estranho que alguns dos partidos que mais apregoam a estas questões bebam agora desta cartilha e estejam em profundo silêncio.

 

Não entremos no círculo do “mas não fiz nada de ilegal”, pois essa tende a ser a capa para que se cometam as maiores atrocidades...

 

Finalmente, e para não tornar tudo tão pesado fica a questão que Steinbeck, através da personagem Ethan Hawley coloca em O Inverno do Nosso Descontentamento: “Um homem deve viver guiado pelos seus princípios ou deixar-se arrastar?”.

 

 

 

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