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A História de Muza e os Tumultos em Granada

por Robinson Kanes, em 02.05.17

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 Fonte das Imagens: Própria

 

Com a irrevogável decisão da rendição, Muza, perante o conselho, assumiu que jamais seria condescendente com tal decisão. Admitiu a severidade dos reis católicos e jamais consentiu entregar a sua fé e o seu reino a tais soberanos. As suas palavras - "não temamos a morte; muito pior serão os saques, a profanação das nossas mesquitas, a ruina dos nossos lares e a violação das nossas mulheres e filhas" - pouco eco fizeram. Abandonou o conselho atravessando o Pátio dos Leões, sem sequer dirigir palavra aos que acompanhavam. Armou-se dos pés à cabeça, escolheu o seu melhor cavalo e a sua melhor armadura e saiu da cidade pela Porta de Elvira sem nunca mais se saber do mesmo. 

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Contudo, esta é a versão dos historiadores árabes, pois, segundo Frei António Agápida, nessa mesma tarde, um grupo de cavaleiros andaluzes, que cavalgava nas margens do Genil, afirmou ter visto um cavaleiro mouro, completamente armado, com a viseira fechada montando um formoso cavalo e com uma lança em riste a correr na direcção destes. De início, e dada a força dos andaluzes, estes nunca pensaram que esse cavaleiro os atacasse, contudo, com o desenvolver da passada, cedo perceberam que o risco aumentava, pelo que se deram a conhecer e lançaram avisos de que não hesitariam em atacar.

 

O cavaleiro, esse, não acatou nenhum dos avisos e com a sua lança matou de imediato um dos cavaleiros. Puxando da sua cimitarra, continuou a espalhar o pânico e a matar outros cavaleiros, ignorando algumas feridas que já lhe atravessavam o corpo. Muza conseguiu matar metade da guarnição de cavaleiros andaluzes até o seu cavalo ter caído por terra ao ser atingido por uma lança. 

 

Já com Muza no chão, e admirados por tal valentia, os cavaleiros tentaram poupar a vida deste. De joelhos, com

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uma adaga de Fez, Muza não desistiu de lutar. Vendo, contudo, que não teria hipóteses nem forças para ir mais além e, não querendo cair prisioneiro dos cristãos, atirou-se ao rio e afundou-se com o peso da sua armadura sendo arrastado pelas águas do Genil. Mais uma vez, Muza vinha mostrar de que sangue era feito e fazer-nos compreender que, se mais cedo tivesse entrado na guerra, talvez o desfecho pudesse ser diferente.

 

Entretanto em Granada, no dia 25 de Novembro de 1491 (aproximadamente um ano depois seria descoberto o continente americano por Cristóvão Colombo), era assinado o tratado de rendição. Todavia, nos primeiros dias de Dezembro, um motim levou a que muitos se armassem e estivessem dispostos a lutar pela defesa do reino, ameaçando Boabdil que se refugiou no Alhambra, qual prisioneiro do seu próprio povo.

 

Só a sua saída, dizendo ao povo que era o máximo responsável pela situação do reino, exprimindo o seu arrependimento face à insurgência contra o pai e assumindo o pesado fardo que Alá lhe dera fez acalmar os seus súbditos. Reconheceu que assinara a rendição para salvar o seu povo da fome e da guerra e que agora iria abandonar a cidade e caminhar em direcção ao seu exílio.

 

Às portas da cidade os Reis Católicos aguardavam o dia para entrarem naquela majestosa cidade. O Alhambra esperava por estes soberanos que teriam de lidar com o temperamento e sagacidade dos habitantes da cidade e sobretudo do Albaícin.

 

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Ainda hoje, as ruas deste bairro albergam uma verdadeira atmosfera árabe, de calor, de vida e de recantos únicos onde conseguimos imaginar as discussões daqueles que desejavam a rendição face aos que queriam dar a vida pela cidade. Podemos voltar atrás e seguir Boabdil pelas ruelas procurando encontrar seguidores para a sua intentona contra o pai e contra o tio. Também podemos entrar pelo Noroeste, pela Plaza del Triunfo, atravessando a Puerta de Elvira, seguindo o Carril de la Lona, recuperando o fôlego no Mirador com o mesmo nome e com uma vista para o centro da cidade. Subindo mais um pouco, quiçá entre umas tapas e uma cerveja Alhambra possamos encontrar, na Plaza San Miguel Bajo, Boabdil a confraternizar com o seu povo após uma visita ao Palácio de Dar-al-Horra.

 

A paragem nessa praça, com gente simpática, vai permitir, não só sentir a força e o espírito de Granada, mas também refrescar o corpo para a subida até S. Nicolás, o miradouro de excelência para o Alhambra e para a Serra Nevada.

 

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Com o acampamento católico a sofrer com as chamas, Boabdil e Muza não perderam tempo e aproveitaram o mesmo para, logo no dia seguinte, atacar os cristãos.

Ao que se sabe combateu-se corpo-a-corpo em cada pedaço da vega de Granada. Não houve um jardim, uma horta, a sombra de uma árvore, um pedaço de chão que não tivesse absorvido o sangue daqueles bravos guerreiros. Segundo Frey António Agápida, até um embaixador francês que se encontrava do lado católico ficou pasmado e teceu um rasgado elogio aos guerreiros mouros que combatiam como ninguém depois de 10 anos a somarem derrotas atrás de derrotas e a perderem soldados e reis.

 

Contudo, do lado de Castela e Aragão a artilharia e o número de homens disponíveis era francamente superior e a batalha acabou com o recuo de Boabdil (que quase fora capturado) e Muza para dentro das muralhas da cidade. Em resposta, o rei católico decidiu erguer uma cidade, mesmo ali em frente a Granada: Santa Fé.

 

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Esta afronta de D. Fernando II, aliada ao corte das vias de abastecimento à cidade (onde o Marquês de Cádiz mais uma vez mostrou a sua valentia) e à ausência de apoio por parte dos reis berberes e do sultão do Egipto (a ausência de um porto onde estes pudessem atracar os seus reforços não permitia tal apoio) levou Boabdil a convocar um conselho. Aí, reuniu os melhores guerreiros, os melhores filósofos e políticos da cidade e, perante as condições de miséria e estado das tropas, todos se decidiram pela rendição! Todos... excepto Muza! Muza, mostrou o guerreiro que era, e tivesse entrado mais cedo na guerra, talvez as coisas tivessem sido diferentes! Exortou ao levantamento, à força, assumiu que todos os seus soldados estariam preparados, levantou o ânimo, admitiu recrutar e distribuir armas por cada habitante da cidade capaz de lutar. Muza colocou-se como sendo o responsável por guiar todos os esquadrões, de lhes indicar todos os caminhos, de levar todos à vitória ou à morte, mas de jamais entregar a cidade e o reino!

 

IMG_6564.jpgSegundo os relatos da época, perante este discurso, que não venceu o desespero dos sábios e dos governantes de Granada, Boabdil comoveu-se e caiu num silêncio que só terminou com a ordem de rendição. 

 

Foi enviado o Governador da cidade, Abulcasim Abdel Melic, que negociou os termos da rendição. Estes termo abrangiam a entrega da cidade, a libertação de presos católicos, os direitos  dos habitantes de Granada, a vassalagem perante a coroa de Castela e Aragão e a concessão de terras para os dois lados. 

 

Aquando do seu regresso e da apresentação das condições ao soberano de Granada, mais uma vez Muza, mostrou de que sangue era feito e, enquanto todos os outros desesperavam em lágrimas, este exclamou:

"deixemo-nos senhores de inúteis lamentações, próprias de mulheres e crianças; somos homens e tenhamos coração, não para verter tristes lágrimas mas sim o nosso sangue. Observo que o ânimo de todos está de rastos, que é impossível salvar o reino. Todavia, resta uma alternativa aos espíritos nobres: uma gloriosa morte! Sucumbamos defendendo a nossa liberdade e vingando os desastres cometidos contra nós! A nossa terra-mãe receberá no seu solo os seus filhos, livres das correntes e humilhações dos conquistadores e se alguém não encontrar sepultura onde enterrar os seus restos mortais, não irá carecer de um céu que os cubra. Alá não permitirá que se diga que os nobres de Granada tiveram medo de morrer na defesa do reino!"

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 Estas palavras não surtiram efeito, pois para Boabdil e para os nobres de Granada o destino do reino estava escrito no livro desde que o primeiro nascera, contudo mostraram a raça de um homem como Muza e de como este era mais fiel ao reino que todos os nobres!

 

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 Fonte das Imagens: Própria

 

É difícil ficar indiferente a Granada e a Rainha Católica não foi excepção. D. Isabel, apaixonada pela cidade, decidiu com a sua corte dirigir-se até Zubia para observar Granada com outros olhos, especialmente El Alhambra.

 

Contudo, ir até Zubia era um enorme risco, aliás, o bravo Marquês de Cádiz preveniu a rainha para esse facto, mas a mesma decidiu não ser demovida do seu capricho.

 

O resultado não poderia ter sido pior, temendo um ataque, a cavalaria moura saiu da cidade e partiu em direcção à guarnição católica. Apesar dos pedidos da rainha para que nenhum cavaleiro respondesse ao ataque, o combate e posterior evacuação do séquito foi inevitável. D. Isabel ainda tentou manter-se junto das tropas, mas foi obrigada a recuar quando à cabeça da cavalaria granadina se encontrava o grande Tarfe, o autor da provocação no acampamento cristão.

 

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Esta escaramuça saldou-se com um sem número de mortos e feridos de ambos os lados e só um reforço de cavalaria católica permitiu que ocorresse o pior. As perdas foram imensas, sobretudo de grandes cavaleiros da coroa de Castela. Perante esta tragédia, e com algum sentimento de culpa, a rainha, após a guerra, ordenou a construção de um Mosteiro na aldeia de Zubia e que ainda hoje aí se encontra.

 

No seguimento deste episódio, também o rei Fernando foi “castigado” pelo seu empreendimento de destruir o que ainda restasse de pastagens ou qualquer verdura nas imediações de Granada, como forma de vingar o ataque mouro. Na verdade, por acidente, a tenda da rainha foi atingida por um incêndio que se espalhou por todo o acampamento e os mouros só não atacaram porque pensaram tratar-se de uma artimanha por parte dos exércitos de Castela e Aragão.

 

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Granada, apesar de toda a destruição continuava bela com as suas ruas repletas de gente, com o bulício típico de uma grande cidade muçulmana. Boabdil, em pleno Alhambra, olhava com atenção todos os desenvolvimentos e finalmente começara a ganhar coragem para a grande batalha. Se há local onde os cobardes deixam de o ser e se tornam fortes guerreiros é no seu próprio lar. Ao apreciar das varandas daquele complexo toda a cidade e as suas gentes, terá encontrado aí a justificação para empreender um acto de valentia.

 

Para Boabdil seria impensável, mais uma vez, abandonar aquele fervilhar de vida, aquele lugar encantado que era o Albaícin e que tantas e tantas vezes o acolheu e defendeu contra as investidas do Zagal.

 

Ainda hoje, o Albaícin é um autêntico bairro mouro, com toda a sua arquitectura e vida a transportarem-nos para aqueles tempos. Boabdil ter-se-á recordado das épocas em que teve de fugir por aquelas apertadas ruas e por becos sem saída em que fora confrontado com as patrulhas do Zagal. Agora, já não era tempo de fugir!

 

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Regressando ao assédio a Granada, encontramos as forças de Castela e Aragão em frente da cidade. De facto, Granada apresentava-se praticamente como uma espaço impenetrável com grandes muralhas e enormes baluartes. Do lado de Castela, D. Fernando sabia que um combate pela força levaria a um número de mortes que o rei não poderia suportar.

 

Novamente, o monarca precisou de recorrer a uma estratégia menos violenta, pelo que voltou a chamar a rainha para que viesse para o acampamento. Esta prática já anteriormente vista, nomeadamente em Málaga, não só mostraria aos mouros que os intentos de Castela e Aragão eram firmes, como também a moral das tropas seria resgatada, como sempre o era com a presença da rainha católica.

 

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Do lado de Granada, Muza continuava a perpetrar, com as suas tropas, assaltos constantes ao acampamento cristão. Muza tentava por todos os meios enfraquecer as forças do inimigo e algumas vezes com bastante sucesso. Os mouros, sob o comando deste guerreiro, não escassas vezes, tentavam também provocar os cavaleiros cristãos para a batalha, mas estes tinham ordens directas do rei para não se envolverem em escaramuças.

 

Um dos episódios mais interessantes, foi o de um cavaleiro mouro, Tarfe. Este cavaleiro penetrou as linhas do inimigo, invadiu o acampamento e enviou uma

lança que ficou espetada bem perto da tenda dos soberanos de Castela. Nessa mesma lança, estava atado um bilhete que trazia anotado o alvo da mesma: a rainha!

 

A indignação foi tal que um dos mais afoitos cavaleiros cristãos, já conhecido pelas suas façanhas algo... fora do normal, reuniu um grupo de 15 homens e encetou uma expedição altamente perigosa e ambiciosa. 

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Hernando Pérez de Pulgar, ao anoitecer, com os seus 15 homens, conseguiu penetrar por uma das portas da cidade, apanhando os guardas desprevenidos a dormir. Daí partiu em direcção à mesquita da cidade e gravou nas portas da mesma uma inscrição: Ave Maria. Já imaginamos Pérez de Pulgar e os seus homens a percorrerem as perigosas ruelas de Granada até chegarem à mesquita e ainda terem sangue frio para, por puro desafio, proceder a tal empreendimento.

 

O conflito, apesar de toda a violência, ainda tinha espaço para estas pequenas habilidades de provocação e desafio, de certa forma recheadas de algum humor.

 

Por sua vez, a estratégia de D. Fernando era agora, com o acampamento a cercar a cidade, vencer como em Málaga, através da fome e da escassez de recursos através do corte de abastecimento.

 

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Após tomarmos um chá na Sala dos Embaixadores, o Zagal convida-me para um passeio pelo complexo. Interessante ouvir este guerreiro que demonstra uma vontade inultrapassável de defender o reino a todo o custo, inclusive encontra-se disposto a matar o sobrinho Boabdil se tal for necessário.

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O Zagal conta-me a história de Boabdil, “El Chico” que à nascença trouxe marcada a queda do reino. Fala-me das indecisões e da aproximação ao reino de Castela a que também fui aludindo ao longo desta aventura. É alguém apaixonado pelo seu povo e isso nota-se pela forma como trata os guardas do palácio, com um respeito e nobreza tais que ficamos sem saber quem é o verdadeiro Governador do Reino.

 

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Saímos da Sala dos Embaixadores e caminhamos um pouco. O Zagal, perante a minha admiração e encanto com aquela infraestrutura, olha-me e esboça um sorriso – estranho vindo de tão nobre e duro guerreiro – penso que aprecia esse meu encantamento.

 

É lado-a-lado que entramos no Pátio dos Leões, o símbolo máximo do apogeu da Dinastia Nasrid a grande herança de Muhammad V, a conclusão e mescla de todos os estilos do Alhambra num local mágico. Este pátio, que fica ao centro do Palácio dos Leões, tem a sua linha de água que alimenta uma fonte mágica suportada por majestosos leões que a guardam dos mais ousados usurpadores.

 

Fico sem palavras e confesso ao Zagal que fiquei a entender o porquê deste lutar com toda a sua força na defesa de Granada.

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Abdicar de tamanho tesouro seria uma tremenda loucura.

 

As salas que ladeiam o pátio são algo que nos transporta para um outro mundo, que nos fazem sonhar e indagar se estaremos mesmo no planeta terra ou na Ásia.

 

Sou levado para a Sala dos Reis, o Zagal percebe que tem de me puxar pelo braço, tal o meu espanto, mas aí... espera-me outra grande surpresa. As pinturas, a planta longitudinal e a imaginação a permitir-me vislumbrar as recepções que ali teriam lugar, os turbantes, a mescla de vestidos e a habitual agitação e simpatia daquele povo. Contudo, sou alertado pelo Zagal... diz-me que nem tudo é tão belo, posto que, foi no Pátio dos Leões que muitos perderam a vida em disputas dinásticas e intrigas palacianas. Alerta-me, aliás, que estamos prestes a entrar numa das mais importantes salas do Palácio dos Leões: a Sala dos Abencerrajes. Conta-me o Zagal que foi aqui que ordenou a ida do irmão, Abén Hacen, para Salobreña e que, também foi aqui que teve grandes disputas com o sobrinho Boabdil.

 

O que o Zagal não me confessou, foi que ele e o irmão haviam sido os responsáveis pela morte da família dos Abencerrajes por serem uma família forte e poderosa do reino e também por serem uma ameaça à governação destes, sobretudo depois da revolta de Málaga em 1469. Todavia, esta é uma discussão que ainda hoje perdura, pois Irving, nos Contos de Alhambra, afirma que o assassinato foi ordenado por Abu Nasr Sad, conhecido como (Ciriza). Diz-se que, à época, o sangue dos mortos foi tanto que tingiu a transparente água do Pátio dos Leões de vermelho...

 

Noto a respiração do Zagal a acelerar e uma certa dureza no rosto, pelo que agora sou eu quem o guia para a Sala das Duas Irmãs.

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Aqui nos sentámos a contemplar o espaço, sobretudo a cúpula moçárabe que se desenvolve com base no conhecido Teorema de Pitágoras.

 

O silêncio passou a reinar, ambos ficamos perdidos nos nossos pensamentos, o Zagal a pensar no futuro do seu reino, ou talvez no triste episódio que não me relatou e eu... eu fiquei a tentar reconstruir esse acontecimento tendo como base a pintura de Marià Fortuny que se encontra no Museu Nacional de Arte da Catalunha e que não é nada mais nada menos que “La Matanza de los Abencerrajes”.

 

 

 

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À Conversa Com o Zagal na Sala dos Embaixadores...

por Robinson Kanes, em 16.03.17

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Fonte das Imagens: Própria 

 

Está a ser difícil sair dos pátios do Alhambra e continuar a história. Desta vez fui empurrado para uma conversa com o Zagal. Lembram-se da luta e do empenho desta personagem na defesa do Reino de Granada?

 

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Numa ausência de Boabdil, fui recebido pelo Zagal na Sala dos Embaixadores do Alhambra, mais propriamente no conjunto que hoje se denomina de Palácios Nasrid. Admito que me senti bastante respeitado, sobretudo porque tinha diante de mim um bravo guerreiro sempre fiel à sua cultura e... ser recebido na Sala dos Embaixadores não era para qualquer um.

 

Mas antes de entrar na sala, onde este respeitável guerreiro me esperava, dei comigo a passar pelo Pátio de Comares ou Patio dos Arrayanes - a água, a mármore, o verde, característica tão muçulmanas – perguntei ao soldado que me acompanhava se podia lavar a cara naquele espelho de água lindíssimo antes de me encontrar com o Zagal. Após um gesto de assentimento por parte daquele fiel guardião de Granada, deixei que a água me lavasse o rosto e me contaminasse com a magia daquele espaço. Cheguei a questionar-me se os meus olhos estariam suficientemente lavados e preparados para o que ainda iria ver... ergui a cabeça e vislumbrei a Torre de Comares (a mais alta do complexo, com 45m, e que alberga a Sala dos Embaixadores), e caminhei em direcção ao Zagal.

 

Após de ter sido recebido por este, confessou-me, enquanto estávamos sentados, que havia sido fundamental para o reino a expulsão de Abén Hacen e da respectiva família para Salobreña. Informou-me de que o reino precisava de sangue novo para combater o poderoso exército de Castela e Abén Hacen já nada podia fazer, inclusive até por culpa da tensão que grassava na cidade.

 

Admito que escutava com atenção o Zagal, mas os meus olhos passavam pela arte e engenho que permitiram que a maior sala

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do Palácio de Comares e de todo o Alhambra fosse tão bela... afinal encontrava-me na sala das grandes recepções, uma espécie de sala do trono. Interessante que nesta sala a luz é reduzida, somente entrando por pequenos orifícios e frestas que lhe dão um certo ar de recato, de sobriedade e até de temor. Aqui desvendamos o interior da Torre de Comares e ficamos apaixonados. Respira-se história, as grandes decisões, pelo menos as mais formais, passaram por aqui. Centenas de anos de reino aqui encerrados e as almas dos diferentes governantes a pairar em cada feixe de luz que ilumina, parcamente a sala. Resolvi não desvendar o futuro ao Zagal e de como a sua alma não tardaria também a pairar sobre aquele espaço.

 

O Zagal, "raposa velha" como era, percebendo a minha admiração e espanto, bem como algum desinteresse pela sua exposição, resolveu brindar-me com uma surpresa, uma surpresa que abordarei em breve...

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 Todavia, já é altura desta aventura ter uma banda sonora, pelo que abaixo encontram talvez, a mais perfeita de todas... Os "Recuerdos de la Alhambra" de Francisco Tárrega e cuja composição, terminada em Granada, data de 1896. Esta versão é interpretada por um Andaluz, como não poderia deixar de ser, o "malagueño Pepe Romero! Não é difícil deixarmo-nos envolver por este espaço, pela história de Granada, pela aventura da reconquista ao som de cada acorde...

 

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 Fonte das Imagens: Própria

 

A história do Alhambra como um todo é simples. O que hoje vemos de tão belo complexo começou a ser construído com base numa pequena fortaleza no século IX. Todavia, como espaço de reis, vida e intrigas só começou a ser utilizado por Muhammad Ibn Al-Ahmar (Muhammad I) em 1237. Até lá era no Albaicin, a colina em frente deste espaço, que se encontrava o comando do Reino de Granada. Esta mudança levou a um afastamento do povo e ao início das já habituais intrigas palacianas, aliás, o neto de Muhammad I, Muhammad III viria a ser traído e morto em 1308 depois de erguer a Mesquita do Alhambra.

 

Esta questão das intrigas e das tomadas de poder não é nova... aliás, já tinha referido que estes conflitos levaram a que Granada pudesse cair mais facilmente nas mãos dos cristãos.

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É fácil imaginar Aben Hácen do alto do Alcazaba na Torre de la Vela (a mais alta do complexo), mesmo no monte de Sabika, a interrogar-se sobre o que haviam sentido os seus antepassados no século IX... um sentimento de construção e defesa do reino, de espalhar a sua fé e de garantir a permanência do califado por terras da Península Ibérica. Terá sido esse um dos motivos que o inspirou a atacar Zahara e que tão graves consequências trouxe para aquele reino? Nunca saberemos. Saberemos apenas, a versão “oficial” de que alguém iria desembainhar primeiro a espada e que, ao invés dos Reis Católicos, foi Aben Hácen quem o fez.

 

Terá Aben Hácen, depois de percorrer o complexo trapezoidal do Alcazaba, procurado inspiração na Torre del Homenaje onde Muhammad I aí estabeleceu os seus aposentos? Terão conversado, através dos séculos, sobre o que seria melhor para o reino enquanto o verde dos campos granadinos os incitava com a esperança de um amplo e pacificado território sobre domínio muçulmano?IMG_6487.JPG

 

O que terá pensado Aben Hácen? Os passos que deu pela barbacã do Alcazaba até à Torre de Vela... que lhe disseram os ares que vagueiam pelas torres daquele complexo? Que mensagens daí advieram? Que pensou ao contemplar também o Albaicin e ao olhar, de longe o seu povo? O seu povo que séculos antes também ali habitou numa comunidade castrense dentro daquelas mesmas muralhas?

 

O resultado de tais pensamentos viria a eclodir com a conquista de Zahara de la Sierra e a provocar as peripécias que tenho vindo a abordar.

 

Os ventos dos campos granadinos ainda hoje se encontram com a aragem fria da Serra Nevada e encetam um diálogo que ecoa pelas diferentes torres do Alcazaba do Alhambra... talvez ao escutar esses diálogos, bem agasalhados, possamos encontrar resposta para as questões que ainda se levantam.

 

Para os recém-chegados a esta aventura:

 

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Granada… Cada Vez Mais Perto...

por Robinson Kanes, em 06.03.17

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Com as hostilidades, novamente abertas, entre Granada e o Reino de Castelo e Aragão, as estratégias de um lado e outro também se foram aprimorando. Do lado cristão, o Rei Fernando II pediu contenção, pois continuar de imediato a guerra traria consequências nefastas para o país em termos económicos e de recursos, além de que, tomar Granada pela força poderia ser uma acção suicida. Já do lado mouro, sob o comando de Muza, ao serviço de Boabdil, preparava-se a cidade para uma grande batalha e faziam-se incursões por terras católicas como forma de mostrar capacidade de resposta e bravura face a eventuais ataques cristãos.

 

Estas incursões mouras levaram a que o Rei de Castela e Aragão incentivasse uma política de pilhagem e destruição de todos os campos, vilas e aldeias em torno de Granada. Salvo algumas escaramuças, as ordens do rei foram respeitadas na íntegra, pois lutar contra o inimigo mouro era demasiado arriscado na medida em que esta era destemido e conhecia aquelas terras como ninguém.

 

Segundo Agápida, Granada chegou a estar envolta num fumo que durou semanas, senão meses, a dissipar-se tal era o inferno ao redor da cidade.

 

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Já Boabdil, procurava no seu povo encontrar mais seguidores e foi nas Alpujarras e na Serra Nevada que encontrou um grande apoio, e que, aliás, lhe permitiu conquistar a fortaleza de Alhandín. Boabdil voltara a entrar vitorioso em Granada e novamente a fazer esquecer o rótulo do derrotado... o rótulo daquele que faria Granada cair. Boabdil chegou, inclusive, a conquistar cidades como Marchena que até então se encontravam nas mãos, do já anteriormente falado e convertido, Cidi Yahye. O ímpeto de Boabdil só viria a ser controlado aquando da tentativa de reconquistar Salobreña, onde o cerco montado por este foi reprimido por mar e terra pelo exército de Castela.

 


Com a vibração dos tambores da guerra a ecoar por Granada, a azáfama na cidade era imensa e mesmo, em momentos de alguma reflexão sobre a necessidade do combate, foi Muza que elevou a moral das tropas e do próprio rei. Diz Agápida, que se Muza tivesse entrado mais cedo na guerra, provavelmente o destino de Granada poderia ser outro. Muza era um guerreiro de actos, de poucas palavras e dispensava todos e quaisquer floreados numa estratégia de combate.

 

Granada era agora uma cidade preparada para a luta. Longe de ser a vistosa e resplandecente Granada de outros tempos... só o Alhambra entre a Serra Nevada e o Albayzín (Albaicin) ainda conservava a imponência e a fortaleza de outros tempos. 

 

Fonte das Imagens: Própria

 

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Depois da conquista de Málaga pelos cristãos, os combates sucederam-se com inúmeras vitórias e derrotas de um lado e de outro. No final, o saldo posítivo do lado cristão foi notório.

 

Um dos momentos mais decisivos deu-se com a conquista de Baza (só aqui morreram cerca de 20 000 mil soldados cristãos), onde a ousadia do Rei Fernando II e o apoio da Rainha Católica aos exércitos foram fundamentais para a conquista desta importante cidade e consequente rendição do Zagal que se encontrava acantonado em Guadix. Daí, o Zagal oferecia resistência quer a Granada (onde reinava Boabdil), quer a Castela e Aragão.

 

Todavia, e perante a queda da imbatível Baza, a rendição do Zagal deu-se sobretudo pela influência de Cidy Yahye que, derrotado em Baza, e mais tarde convertido ao cristianismo, pediu a este que olhasse para o estado do reino e não permitisse o prolongamento de mais mortes e desespero. A capitulação e a entrega dos territórios das Alpujarras até Almeria viria assim a ter lugar, ficando o Zagal com o pequeno (e humilhante) reino de Andarax.

 

Boabdil, ao saber de tão boa nova no Palácio de Alhambra, regozijou-se de tal forma que viria a encetar uma saída triunfal por Granada, contudo, isso não viria a acontecer pois o povo encontrava-se revoltado e entendia estes actos como uma traição. Boabdil foi obrigado a recolher ao Alhambra e a encetar negociações com o rei de Castela e Aragão mas... essas negociações viriam a acabar de modo hostil, e com uma promessa do lado cristão de continuar com a guerra até Granada.IMG_6047.JPG

 

Uma nota para o facto Fernando II, temendo uma revolta em grande escala nas montanhas da Serra Nevada (são famosas as Revoltas das Alpujarras) e em Almeria, praticamente ter forçado o Zagal a exilar-se em África. Tal, viria a acontecer meses mais tarde e, ao ser recebido pelo rei de Fez (seu antigo vassalo), o Zagal foi enviado para as masmorras e condenado à cegueira, pois o primeiro, considerava que as desgraças de Granada a este se deviam. O Zagal viria a encontrar comida e vestes somente em Vélez de la Gomera, onde o rei, seu antigo aliado, o acolheu e lhe permitiu um fim de vida em paz, contudo, não menos humilhante.

 

Não será difícil imaginar o tormento do Zagal, que tudo deu para a defesa da sua religião, da sua cultura e das suas posses. Não será também difícil imaginar o desgosto e a angústia deste, solitário e com o seu parco exército, isolado nas montanhas da Serra Nevada. O branco da neve, contudo, não quis o Zagal, ver manchado de sangue. O branco da neve que cobre as montanhas de Granada até ao Mediterrâneo ficou intacto, no entanto, todo o sangue derramado até então, desde Zahara até Baza, havia sido em vão. O Zagal morreu humilhado, mas cego... uma cegueira que não lhe permitiria ver mais atentados ao seu reino de Granada e, consequentemente, a sua destruição.

 

Fonta das Imagens: Própria.

 

Para quem só agora chegou...

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Málaga: o Desastre e a Capitulação.

por Robinson Kanes, em 21.02.17

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A luta por Málaga continuava e o Castelo de Gibralfaro, apesar dos ataques de artilharia durante dias a fio, resistia sem mostrar fragilidades, tal era a sua imponência e estrutura.

 

Perante tamanhas dificuldades, a estratégia dos cristãos passou por uma conquista torre-a-torre, aproveitando eventuais vulnerabilidades nas estruturas das mesmas. O primeiro a conseguir foi o Conde de Cifuentes, contudo, apesar de ter tomado uma das torres rapidamente, foi alvo de um contra-ataque que matou muitos dos seus soldados e acabou com a demolição da torre pelos mouros. Estas batalhas, apesar dos mouros acabarem fechados nas muralhas da cidade, levaram a algum desânimo nos exércitos de Fernando II e a um sem número de mortos, tal o avanço, quase milimétrico, do exército. Foi necessária a deslocação da rainha e do seu séquito para levantar a moral das tropas e mostrar aos mouros que as hostilidades iriam continuar.

 

A batalha de Málaga, depois do desastre nas montanhas da mesma região, acabaria, talvez, por ser a mais sangrenta de todas. A fome assolava os habitantes da cidade que se viam obrigados a matar os cavalos (fundamentais para a guerra). As batalhas eram diárias, utilizavam-se minas, construíam-se subterrâneos que levavam a encontros bélicos debaixo de terra, cada palmo de terreno era disputado à custa de rios de sangue.

 

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Fica na memória, um assalto das tropas mouras ao acampamento cristão e que, acabou com milhares de mortos de um lado e de outro. Esta ocorrência levou os cristãos a reconhecer que o seu acampamento estava demasiado próximo da cidade e consequentemente mais vulnerável perante futuros ataques. Fica também nos registos, o envio de tropas, por parte do Zagal, em Guadix, para apoiar el Zegri em Málaga, tropas que foram reprimidas por... Boabdil (em Granada) que assim, continuou a atraiçoar o seu povo e poderá ter contribuído para o fim das esperanças dos mouros de Málaga.

 

El Zegri, todavia, continuava impassível, mesmo com o seu povo a passar fome e a morrer envenenado, pois tudo servia para comer - até peles tostadas ou comidas putrefactas os mouros consumiam. Este apenas escutava uma espécie de profeta e ignorava todos os seus conselheiros. No entanto, o fim das hostilidades acabou com o ataque de el Zegri ao acampamento cristão, tendo o mesmo sido reprimido com tal força que, ao chegar derrotado à cidade, ouviu dos seus habitantes, pedidos para que matasse os filhos destes pois os gritos de fome e de dor já se haviam tornado insuportáveis.

 

El Zegri e Málaga viriam a capitular com o apoio de um comerciante, Alí Dordux, que seria o emissário mouro perante os reisIMG_5836.jpg católicos, embora sempre contra a vontade do primeiro, que assumiu ter capitulado apenas por falta de força bélica.

 

No rescaldo - estranhamente exaltado pelo clérigo Frei Agápida - el Zegri foi preso, os seus Gomerez (Gomaras) foram enviados para Roma como prenda para o Papa Inocêncio III, muitos habitantes foram utilizados como moeda de troca e outros ainda foram vendidos como escravos ou libertados.

 

No final, a questão económica estava bem presente, quer para a coroa, quer para o clero que a acompanhava em toda esta obra que não compreendia, somente, o espalhar da fé e transformar a Mesquita de Málaga numa Catedral.

 

Málaga continua herdeira desses tempos, como já havia referido num outro artigo. As palmeiras, as grandes avenidas e jardins, as pessoas, as construções e o vivir malageño disso são exemplo. Cruzar Málaga ainda é sentir aqueles tempos e... parar numa loja de especiarias (especialmente uma pequena loja familiar no encontro da Avenida Comandante Benitez com a Calle Linaje) ou no "Mercado das Atarazanas" (com uma arquitectura árabe). Em Málaga ainda é possível sentir o cheiro do Norte de África que nos é trazido pelos ventos até àquele ponto da Europa... seja nos seus mercados, seja nas suas ruas ou somente entre umas tapas.

 

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