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Fonte: http://citizensjournal.us/blatant-blue-state-hypocrisy/

 

Como se avalia um país segundo o espaço noticioso de uma das rádios mais ouvidas do país e que se gaba de ser um exemplo a seguir no que concerne à informação? Eu explico... Aliás, é um exemplo que encaixa que nem uma luva na televisão e outras rádios, mas vejamos...

 

Depois do separador... Surge algo como isto:

 

- Associações ambientalistas contestam mina de urânio em Espanha. Segundo "y" da plataforma "x" Portugal tem de agir para evitar um novo Almaraz.

 

- Combates na Síria continuam, 70 mortos nos últimos dois dias.

 

- O Sporting joga hoje com o Tondela, Jorge Jesus já disse que a equipa está motivada e empenhada em ganhar. O Tondela está classificado na posição "x" da tabela a "y" pontos do sporting. Os onzes das equipas já são conhecidos, o Sporting vai entrar com... (30 segundos a ouvir) e o Tondela com (30 segundos a ouvir). A equipa do Sporting precisa de ganhar para não perder o comboio dos primeiros e sobre isso falou Jorge Jesus na conferência de imprensa... (mais 1 minuto e qualquer coisa). O jogador do Tondela "X" também falou aos microfones da "nossa rádio" e disse que... (mais 1 minuto e qualquer coisa). "Jorge Jesus usa cuecas azuis, foi ao balneário, disse olá aos jogadores, sorriu, coçou o pescoço, mascou pastilha, sentou-se, levantou-se, gritou, riu, deu um pontapé no banco, respirou (não, e nem estou a falar da cobertura dos media a Marcelo Rebelo de Sousa), voltou para trás, arrependeu-se, voltou para a frente" e por aí adiante... Ainda houve tempo para dizer que caiu um "azulejo" do estádio de Alvalade mas que foi prontamente reposto por um funcionário do Lidl. Também houve tempo para dizer que Bruno de Carvalho vestiu uma gravata azul e se prepara para falar ao país, porque é algo que vai afectar a vida de todos os portugueses.  Também se ía falar de outros clubes, mas como metia senhores do Norte de Portugal, ministros de finanças e outros políticos não houve grande tempo de antena.

 

Mas o melhor estava para vir, pois logo a seguir um suplemento informativo deveras importante: a análise ao jogo com um sem número de personagens que irão falar de futebol como se estivessem a discutir um orçamento de estado e a transformar um simples passe numa espécie de ofensiva Russa sobre Berlim! 

 

Falei da cobertura dos media a Marcelo Rebelo de Sousa? Já soube que está em S. Tomé, que comeu uma fruta tropical desconhecida, que adormeceu no avião e até fez uma bolhinha de baba enquanto dormia (correcção, não dorme), que o Comandante do Avião se chamava Alfredo e que tirou uma selfie com o presidente, e que lhe disse que o clima de crispação com o co-piloto tinha de acabar e que era ele que ía resolver a situação. Soubemos também que Marcelo esteve num hotel em Príncipe, que voltou a comer, promulgou umas leis enquanto comia um pedaço de jaca e que coçou o olho direito e depois o esquerdo. Soubemos também que Marcelo Rebelo de Sousa está em S. Tomé e que vai ser o grande dinamizador do país, ou seja, S. Tomé nunca mais será o mesmo depois desta visita - amontoa-se gente nas ruas e o que não falta são gritos de "Ti Celito" que alguns dizem ser vaias mas não são. Aliás, assobiar em S. Tomé é também reconhecer as pessoas e além disso existe uma tradição muito são-tomense que é o "vai-te embora daqui malandro" que se diz sempre quando se elogia alguém!

 

Entretanto caiu um telhado na Avenida Marginal 4 de Julho, mas Marcelo foi o primeiro a chegar e disse que tudo estava a ser feito, embora tenha garantido que o facto de não estar lá ninguém, não significa que todos os meios operacionais não estejam 

 

Também soubemos que Marcelo vai estar numa cerimónia alusiva ao massacre de Batepá onde centenas de forros foram massacrados pela administração colonial portuguesa por se manifestarem contra os abusos desta e dos proprietários brancos - administração colonial essa... Que Marcelo defendeu com unhas e dentes, ou melhor, com palavras, pois com unhas e dentes defenderam aqueles que não fugiram à guerra... Imaginem Estaline, em 2018, a descerrar uma placa num qualquer gulag e a mostrar a sua tristeza por esses tempos... Ou Hitler em Treblinka a chorar as vítimas do terror nazi.

 

 

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É Carnaval... Ninguém Leva a Mal...

por Robinson Kanes, em 12.02.18

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Fonte da Imagem: https://www.vice.com/da/article/av9za8/why-i-hate-notting-hill-carnival-876

 

 

É Carnaval, ninguém leva a mal... Até já coloquei uma música lá em baixo para acompanhar este artigo... "Hey, hey Amigo Charlie Brown, dir kann keiner trau'n"... Cantem todos!

 

É Carnaval...

 

Ninguém leva a mal que Mário Centeno siga as pisadas de Rocha Andrade, João Vasconcelos e Costa Oliveira e prejudique o erário público a troco de uns bilhetes para a bola...

 

Ninguém leva a mal que exista corrupção desde que a mesma tenha sempre um clube de futebol por trás... Queime-se um ex-Primeiro Ministro, mas nunca o presidente de um clube!

 

Ninguém leva a mal que a segurança do Estado seja posta em causa como foi em Tancos e venha um Chefe de Estado Maior dizer que o assunto está encerrado após meia-dúzia de "desgraçados" terem sido proibidos de sair dos quartéis durante meia dúzia de dias...

 

Ninguém leva a mal que se diga mal do Banco Alimentar Contra a Fome (e eu sou um dos que diz) mas se for "ReFood" já é mais porreiro e sempre abre portas para dinamizar o networking e passar a imagem do solidário... Além disso, o nome é mais pomposo...

 

Ninguém leva a mal que os sindicatos com ligações a partidos, ditos de tabalhadores, estejam a destruir a Autoeuropa...

 

Ninguém leva a mal que em Portugal as concessionários de pontes e auto-estradas façam o que bem entendam e ainda tenhamos de pagar um extra se os lucros não forem os esperados... Mesmo que as estradas e respectivas manutenções estejam mais que pagas...

 

Ninguém leva a mal que Ricardo Araújo Pereira (outro Papa nacional) receba cerca de €15 000 por uma hora em que debita uma mão cheia de nada - inclusive com o público a nem alinhar muito na coisa - mas critique (inclusive Araújo Pereira) o desgraçado do empresário que consegue tirar €2000 por mês, ou então aquele que até ganha milhões mas suporta toda uma economia...

 

Ninguém leva a mal que um povo hospitaleiro e amigo se junte todo e aplauda quando se faz uma critica a alguém, mas quando se faz um elogio ou um reconhecimento sincero desapareça ou faça de conta que nem ouviu...

 

E porque afinal é Carnaval, neste país tropical do sul da Europa, também não se leva a mal que em temas estruturais para o desenvolvimento do país, os partídos não cheguem a acordo, mas quando o tema é o Financiamento dos mesmos, já o consenso é quase total... Sobretudo entre aqueles que criticam o próprio regime...

 

E porque é Carnaval, nunca percebi porque é que um furto de duas laranjas dá prisão e um roubo/desvio/favorecimento de milhões dá termo de identidade e residência, quando dá...

 

E porque é Carnaval, porque é que ninguém sabe explicar bem o perdão fiscal de 125 milhões à Brisa? Isso é que seria um baile carnavalesco...

 

Ninguém leva a mal que o presidente que vai a todas... Afinal... Só vai a quase todas... Existem algumas que foge como o diabo da cruz... Por falar em "diabo", foi preciso Passos Coelho abandonar a presidência do PSD para Marcelo elogiar a obra deste? Sempre é menos arriscado para a propaganda presidencial... Isto é para onde vão os ventos e sempre existe mais uma vitória no futebol para acalmar os ânimos e passar entre os pingos da chuva.

 

Ninguém leva a mal que seja Carnaval e este artigo só sirva para dizer mal... Mesmo que a falar verdade...

 

Bom Carnaval...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O Tejo, Esmond Bradley Martin e a Cidade do Cabo...

por Robinson Kanes, em 06.02.18

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Fonte da Imagem: https://www.thetimes.co.uk/article/ivory-trade-investigator-esmond-bradley-martin-murdered-in-kenya-k65bltr0r

 

 

Hoje este espaço está de luto... Está de luto porque existe um rio chamado Tejo mas ninguém quer saber... Pelo menos até secar. Quando isso acontecer lá vamos ter os do costume a posar para a fotografia e a dizerem-se muito preocupados com os portugueses, com o discurso do "tudo está a ser feito"! Enquanto assim não for, vamos continuar calados, mesmo que passemos a vida a falar de tudo e de nada quais cataventos que seleccionam as brisas e se escondem de outras que podem retirar votos e "amizades" com interesses óbvios. É mais fácil andar sempre perto dos sem-abrigo, mesmo que sejam só um ou dois, passando a ideia de que em Portugal são aos milhões, do que propriamente falar e agir contra a poluição no Tejo... Não é Sr. Presidente?

 

Mas o "Não É Que Não Houvesse" também está de luto porque foi encontrado esfaqueado, na sua casa de Nairobi, o activista/conservacionista, Esmond Bradley Martin, um dos maiores nomes quando se fala em combate ao tráfico de marfim! Em Portugal, em alguns meios, também acredito que foi uma morte aplaudida.  

 

É a este homem que devemos algum conhecimento acerca das rotas de tráfico de marfim e a protecção em larga escala de elefantes e rinocerontes! A notícia, encontrei-a na National Geographic e na Time e partilho convosco os links. Dou também os parabéns ao SAPO por ter partilhado também esta notícia e ter dado a conhecer a morte deste senhor nos canais de comunicação nacionais - parabéns.

 

Além da chacina destes mamíferos, o tráfico de marfim alimenta dezenas de guerras civis em África, Médio-Oriente e no Sudoeste Asiático, sem esquecer redes terroristas que encontram neste comércio uma forma de financiar os seus ataques e propaganda. Bradley Martin foi ainda responsável pelo facto de muitos países proibirem este comércio e lançarem verdadeiras intervenções no terreno contra esta prática... A juntar a tudo isto, Bradley Martin foi só mais um a ser assassinado, pois estas redes não olham a meios e todos os anos morrem milhares de heróis desconhecidos nesta verdadeira guerra, desde investigadores a guardas dos parques nacionais! 

 

Finalmente, o luto fecha-se com o drama que vive a cidade do Cabo e o primeiro grande alerta em termos de escassez de água em grandes metrópoles! Antes de desenvolver o assunto, sugiro este artigo brilhante publicado no "The Guardian" e que é da autoria de Anne Van Loon, professora e investigadora em "Ciências da Água" na Universidade de Birmingham. É um artigo a propósito desta temática e das consequências que poderá ter para o nosso futuro! Tive oportunidade também, de ler uma notícia no "New York Times" e cuja preocupação passava pelos turistas, nomeadamente, como estes podiam ser afectados! "Que se danem os habitantes, cuidado é com as viagens para o Cabo".

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Fonte da imagem: Associated Press - Bram Janssen 

 

Neste momento, as restrições e as campanhas estão a dar resultados e o "dia zero" está neste momento em 11 de Maio, ou seja, o dia em que a água vai mesmo faltar. Mais interessante ainda, é o facto de muita desta água ter sido utilizada na agricultura, mas também em usos mais luxuosos, como em piscinas, lavagem de automóveis e outros comportamentos que deixam muito a desejar... Não culpem os pobres, a maioria dos habitantes da cidade, pelo desperdício, pois muitos destes abastecem-se em fontes públicas e o consumo não é assim tão elevado. Segundo fontes da Associated Press, os mais pobres consomem apenas 4% a 5% da água!

 

Hoje estamos de luto também porque estes temas não enchem de revolta as redes sociais e a ruas que andam mais preocupadas com programas de televisão, mini-saias, peripécias de clubes de futebol e com o aniversário do Cristiano Ronaldo.

 

 

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Fonte da Imagem: https://ultimaker.com/en/stories/43969-volkswagen-autoeuropa-maximizing-production-efficiency-with-3d-printed-tools-jigs-and-fixtures

 

Trabalhar na Autoeuropa passou a significar que estamos perante uma elite de desgraçados que trabalham numa das empresas com um salário médio acima, e passo a redundância, da média nacional - também tenho noção que, como empresa que é, tem os seus problemas e não é um local perfeito.

 

Trabalhar aos Sábados, aliás, alguns Sábados, e receber várias compensações por isso já é mau... Afinal, nem todos têm uma vida regalada como outros indivíduos que não sabem durantes meses o que é um fim-de-semana e se desdobram em tentar encontrar quem lhes tome conta dos filhos porque simplesmente não podem pagar a creche dos mesmos - porque o salário mal dá para viver e porque não existem benefícios quaisquer associados ao trabalho ao fim de semana e, em alguns casos, até por turnos - não estou com isto a defender que pelo facto de alguns serem altamente explorados os outros também tenham de ser.

 

Esses e outros regalados trabalhadores, que aturam, sobretudo na margem sul e não só, a estupidez daqueles que não querem abdicar do fim de semana e descarregam nestes as frustrações da semana, deverão agora, através dos seus impostos, apoiar os pobres trabalhadores da Autoeuropa. Eu acho bem, que isto de trabalhar fins de semana sem compensação não é para todos, só para privilegiados! Não vou culpar a administração da Autoeuropa - fosse eu o CEO da mesma e concordava imediatamente com a decisão, além de que a meta desta passa por atingir os objectivos de produção e manter a sobrevivência de milhares de pessoas ... No entanto, porque é que os portugueses têm de pagar mais um luxo (pois já pagam muitos, sobretudo no sector público) a trabalhadores do sector privado que decidiram que trabalhar ao Sábado é crime! É crime e uma falta de respeito pela vida familiar... Pelo menos até os Sábados serem pagos a dobrar e a triplicar e trazerem também outras regalias... Aí deixa de ser penoso...

 

Porquê esta cedência do Governo, mesmo que nos digam que é uma prática normal - que afinal não é assim tão comum? E porquê mais uma temática em que o comentador do reino, vulgo Presidente da República, procurou fugir... Há assuntos que incomodam Marcelo... E cada vez são mais, já não é só o Grupo Espírito Santo e Angola.

 

Sempre me ensinaram que o papel dos Estados é fomentar o investimento, não é garantir a sobrevivência eterna das empresas, ou de sindicatos com interesses que não passam pela manutenção do tecido empresarial nacional - Será que deveria ter tirado um curso na Universidade Pyongyang? Deste modo também podemos falar de captação de investimento, todavia, fazer as reformas estruturais é um assunto que teima em não ver a luz do dia, até lá, vão-se esbanjando os impostos dos contribuintes a troco de votos e interesses partidários. Depois da Azambuja, vislumbro o fecho de Palmela, e honestamente, é talvez algo que a administração da AutoEuropa deva começar a pensar, talvez após isso e com níveis de desemprego assustadores na região de Setúbal, já por si fragilizada, muitos possam perceber que o mundo está a mudar e 10 milhões não têm de se sacrificar só para que alguns mantenham privilégios que não lembram a ninguém!

 

Em relação à classe política... Pense-se mais no país e menos em votos... Em relação a este povo... Pense-se mais nos problemas estruturais e menos nos decotes das meninas da Fórmula 1.

 

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 Le Pâturage à la Gardeuse d'Oies,  Constant Troyon, Musée d'Orsay

Fonte da Imagem: Própria.

 

 

Da Perfeição do Comunitarismo à Realidade.

 

Rio de Onor é actualmente um “museu”, algo que ficou do passado e com o qual hoje podemos aprender, sobretudo em duros tempos de crise que têm um impacte tremendo nas culturas serranas transmontanas. Importa assim descobrir se o exemplo de Rio de Onor será hoje um mecanismo ou até um case study para ultrapassar tamanhas dificuldades.

 

Rio de Onor não pode viver num isolamento como o de outrora, o Mundo mudou de uma forma avassaladora nos últimos 50 anos, pelo que o contexto de Rio de Onor está efectivamente desligado da realidade actual e jamais se poderia adaptar a uma nova prática de economia comunal ou de solidariedade.

 

Comecemos pelo próprio erro de interpretação apresentado por O’Neill ao deitar por terra a defesa de que em termos de igualdade, esta aldeia seria um exemplo à semelhança de Fontelas onde fez trabalho de campo. O’Neill chegou mesmo a dividir a aldeia em três extractos sociais distintos: proprietários, lavradores e jornaleiros. Começaria na distribuição da terra que era atribuída de forma desigual, pois as permutas iguais de trabalho cooperativo somente existiam entre casas do mesmo nível, O’Neill dá um exemplo categórico nomeadamente de um jornaleiro que possui uma vaca e um lavrador que possui duas, afirmando que “o primeiro está condenado a vender o seu trabalho ou a pedir emprestada a vaca de outro vizinho, de modo a poder lavrar enquanto o último é de facto um camponês médio, produtor de cereal situado num nível equitativamente diferente(15). O’Neill apontou também os  casamentos que raramente eram celebrados fora do seio do mesmo grupo, e ainda o trabalho na terra através do facto de que aqueles que produzissem menos teriam de trabalhar mais na terra dos que produziam mais.

 

Retomando o tema anterior, esta espécie de reciprocidade, tão importante nesta aldeia, não era elevada ao verdadeiro sentido da palavra. Em Fontelas, por exemplo, O’Neill deparou-se com a seguinte questão: se eu colher 75 alqueires na minha terra ajudado por outrem que tem detém 750 alqueires e que também vou ter de ajudar acabo por sair mais prejudicado. Ou seja, não existe aqui igualdade, embora possamos afirmar que o contributo para o bem comum de outrem é maior. Finalmente acrescentemos que em Rio de Onor a participação das mulheres era nula no conselho e nas decisões, ou seja quando usufruíam das mesmas regalias, não se poderia chamar uma economia de solidariedade ou até de reciprocidade, mas sim de dádiva ou rompendo estes conceitos e dando lugar à caridade. Poderíamos ir mais longe e até falar numa certa ostracização.

 

Todavia entremos numa questão mais técnica e utilizando a grelha de análise de Amaro com base no exemplo da Macaronésia e tentemos perceber em que medida Rio de Onor pode tentar ser visto como um exemplo e ao qual acrescentámos mais 3 valias:

 


Projecto Económico

Em Rio de Onor a prática agrícola e o gado forneciam e podem actualmente fornecer um vasto conjunto de produtos que podem ser comercializados nos mercados ou até a um nível mais local.

 

Projecto Social

Em Rio de Onor, a participação das mulheres e dos desfavorecidos no conselho era nula e embora cada um pudesse cultivar a terra (aliás este mecanismo foi garante da instituição durante largos anos) não podia participar nas decisões.

 

Projecto Cultural

Rio de Onor, é actualmente uma aldeia “museu”, no entanto a história e a identidade estão lá e sem dúvida toda e qualquer futura intervenção pode e deve preservar a cultura local. À época Rio de Onor defendia a sua cultura fortemente levando inclusive a que os Rionorenses alimentassem ódios das aldeias vizinhas e fossem alvo de chacota nomeadamente em Bragança.

 

Projecto Ambiental

Passou-se em Rio de Onor, de uma agricultura de estrume e pousio, para uma cultura com adubos e fertilizantes. Efectivamente os novos tempos, práticas agrícolas e desejos dos consumidores, voltados cada vez mais para uma agricultura biológica podem criar aqui um nicho de mercado amigo do ambiente e altamente rentável.

 

Projecto Territorial

Muitos dos dividendos da vendas em mercado era reinvestidos na aldeia com a criação de infraestruturas. 

 

Projecto de Gestão

Em Rio de Onor assistíamos a uma espécie de cooperativa e aliás até um pouco mais que isso, pois o dia-a-dia era gerido também pelo conselho. Este funcionava sobretudo com um cariz distributivo ao invés da tão defendida reciprocidade. Do ponto de vista da economia social e solidária o segura mútuo era um dos seus maiores exemplos.

 
Projecto de Conhecimento

Embora não aplicado intrafronteiras da aldeia, Rio de Onor foi alvo de vários estudos. Um deles aliás levou a que a própria população optasse por começar a agir como ”erradamente” havia sido retratada na monografia de Jorge Dias.

 

Projecto Político

Embora a rotatividade e o sufrágio universal fossem de facto levados a sério em Rio de Onor, o poder de decisão estava longe de ser algo ao alcance de todos.

 

Projecto Artístico

Em Rio de Onor o trabalho era máxima que imperava. artístico

 

Projecto de Felicidade

Sem dados.

 

Projecto Transfronteiriço

Rio de Onor era no fundo um projecto transfronteiriço e cuja retoma na actualidade podia ser sem dúvida uma mais valia na cooperação entre duas regiões irmãs. 

 

Continua...

 

(15) O’Neill dá também o seguinte exemplo “ durante os primeiros meses do trabalho de campo, a minha ligação com as famílias mais pobres foi vista com desconfiança por alguns dos proprietários mais abastados, enquanto um certo número de mulheres pobres me dizia que eu era o primeiro Senhor Doutor a vir a Fontelas e a falar tanto com os ricos como com os pobres” (O’Neill)

 

Artigos anteriores:

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (1)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (2)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (3)

 

 

 

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Respigadoras,  Jean-François Millet - Musée d'Orsay

Fonte da Imagem: Própria.

 

 

Finalmente, a questão das mulheres, que jamais poderiam ser nomeadas mordomos e não existindo homens numa casa, quando muito a casa da mulher poderia ser admitida (mediante pagamento) no conselho, mas nunca nomeada para os cargos de administração, não tendo participação nas reuniões, mas embora beneficiando das regalias do conselho. Apesar de tudo isto, todos os membros eram obrigados a participar no conselho, caso contrário seriam obrigados a pagar uma multa (jeiras). Também a exigência para com os líderes era tal que a qualquer momento poderia ser convocada uma reunião extraordinária com vista à expulsão destes - seria então eleito o responsável da contestação de modo a colocar à prova as suas capacidades de chefia - interessante(11). Aliás, uma das mais-valias deste tipo de organização era que as pessoas jamais seriam confundidas com os cargos.

 

Uma outra instituição, se assim lhe quisermos chamar, eram os Homens de Rodra, designados pelos mordomos e que eram os responsáveis por fazerem quase todos os serviços fora da aldeia (compras, representações...).

 

Uma palavra para a justiça . No caso de Rio de Onor só muito raramente se recorria à justiça fora de portas (Bragança era o tribunal mais próximo). A justiça era feita pelos mordomos e quando incapazes de decidir somente por si, convocavam o conselho. Quando existiam queixas, o próprio conselho nomeava peritos internos para aferir das diferentes partes. Sempre que era impossível acusar alguém, pois desconheciam-se os responsáveis do dolo, o próprio conselho agia como força policial de investigação. Associada a esta tarefa, o conselho, fiscalizava as áreas da aldeia, como o polícia de giro.

 

Existia também em Rio de Onor um seguro mútuo gerido pelo conselho. Sempre que tinha lugar qualquer desastre grave , a comunidade poderia ser obrigada a suportar os prejuízos (12).

 

A economia rionoresa era praticamente de subsistência, vivia-se do gado, da agricultura, e os mais pobres do carvão vegetal. Nos mercados, só o gado, o trigo e o carvão tinham saída. O dinheiro advindo destas vendas era reinvestido para pagar décimas, comprar adubos, cimento, ferro, tecidos e utensílios domésticos, bem como alguma mercearia. A subsistência assentava à data também na existência de algumas casas que não fazendo parte do conselho tinham de pagar o facto de pertencerem à aldeia com outros serviços, aliás, alguns vizinhos ganhavam também algo extra com serviços que normalmente não conseguiriam ser realizados pelos habitantes de Rio de Onor.

 

A igualdade é aparentemente visível, até porque o baixo nível económico era transversal. Havia também alguma economia local: arrendamento de terras (tendo como base um sistema quase feudal), trabalhos à jeira em terras mais abastadas, além de que o conselho não negava terras a quem as quisesse cultivar, obrigando à existência de uma junta de bois que não estava ao alcance de todos (denotam-se já aqui ligeiras oscilações no conceito de igualdade). Notar contudo, que os rionoreses eram também um povo dionisíaco (Dias; 1953) pelo que as dívidas aos bancos eram grandes, sobretudo do lado português, mais gastador e mais aberto à natalidade. Nota final, para o facto do pastoreio ser colectivo e composto pelo gado dos diferentes vizinhos (boiada, Cabrada e Al Ganau-ovelhas) (13) - tudo era aproveitado, até a bosta, para estrumar as culturas.

 

Muitos destes aspectos, tiveram uma análise funcionalista , ou seja uma tendência para olhar os organismos como casos perfeitos em que tudo funciona bem, o que se veio a revelar desastroso (14).

 

Continua...

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(11) Uma outra prova de que os poderes dos mordomos não eram absolutos, prende-se com o facto de que aquando da discordância do conselho face a estes, os casos eram alvo de uma votação (bamus a deitar piedras) da qual sairia a decisão por maioria absoluta.

(12) Se uma vaca quebrasse uma perna e existindo necessidade de ser abatida, os vizinhos eram obrigados a comprar uma quantidade de carne proporcional ao número de pessoas que têm em casa e aos bens que possuem em solidariedade com o vizinho que tivera o prejuízo.

(13) O gado era recolhido todas as manhãs e levado pelos pastores para o monte, regressando ao fim da tarde. Quando existia a necessidade de passarem mais tempo fora, os pastores eram revezados por outros todas as manhãs.

(14) Além desta análise sujeita a grandes falhas, em Rio de Onor, assistiu-se, como em muitas outras aldeias a uma espécie de representação. Ou seja após a monografia de Dias, os rionorenses alteraram o seu comportamento de modo a que este ficasse intimamente ligado à escrita e análise deste. O investigador acabou por interferir nos rituais locais e com isso moldar uma cultura. Um dos principais críticos desta situação foi o já referido O’Neill.

 

Os artigos anteriores podem ser consultados aqui e aqui.

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Balde de Helicóptero com Água Fria...

por Robinson Kanes, em 24.01.18

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 Fonte da imagem: http://www.concordmonitor.com/getattachment/25ec3997-1bcd-43dc-8c6f-b50e490549ec/RayFire-cm-100717-ph1

 

Vivemos num país caricato... Um país onde, por muito espírito positivo que se tenha (e eu tenho), é difícil conseguir manter o mesmo ao longo do dia... 

 

Os mesmos responsáveis políticos que deixam helicópteros apodrecer por falta de manutenção ou por não fiscalizarem a mesma... Os mesmos responsáveis políticos que dizem que o uso de helicópteros tem de ser limitado para não aumentar despesas e custos de manutenção... Os mesmos responsáveis políticos que preferem deixar hectares de floresta arder e pessoas e animais morrerem até fazer levantar um helicóptero... São os mesmos que agora defendem o uso destes aparelhos para andar na caça à multa! Nunca fui apologista do termo, até porque só é multado quem não cumpre as regras de trânsito, no entanto, é de estranhar como as prioridades são assustadoramente desenhadas por estes indivíduos.

 

Estes políticos são os mesmos que recusam projectos que contemplam drones na vigilância de florestas mas depois dizem que não falta investimento e vontade para a utilização de drones na vigilância das estradas, subentenda-se vigilância como forma de detectar contra-ordenações. Estes políticos são os mesmos que deixam quartéis à mercê de larápios e ainda se dão ao luxo de contratar empresas de segurança privada para assegurarem a defesa de instalações militares... Instalações militares... Estranho... Estes políticos são também os mesmos que compraram helicópteros para a Força Aérea mas onde praticamente metade não voa por falta de dinheiro para a manutenção... São os mesmos que têm helicópteros Puma parados e desactivados sob a justificação de que não podem ser utilizados em incêndios, mas depois, vemos helicópteros exactamente iguais a operar em França, Espanha, Itália e outros tantos países...

 

A prioridade de um Governo deixou de ser a defesa directa dos seus cidadãos e passou a ser a punição por meio de coimas daqueles que ousam prevaricar na estrada. Nada tenho contra a fiscalização das estradas, volto a reforçar, mas é de estranhar que um país arda por falta de meios mas estes cresçam como cogumelos quando se fala de multas de trânsito. Será que o valor das multas que daí possam advir vai ser investido em equipamentos de Protecção Civil? Será que a Protecção Civil deve ser utilizada na fiscalização de contra-ordenações de trânsito?

 

Ainda esta semana alguém voltou a chamar Mário Centeno de "Cristiano Ronaldo das Finanças"... Mas ao que sei... Cristiano Ronaldo não chegou a melhor jogador de futebol do mundo à custa do sofrimento e morte de muitos (existe quem lhe prefira chamar cativações) e sempre faz uso da cabeça, mais que não seja para marcar golos... 

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Programas de Televisão, Tragédias e o Presidente!

por Robinson Kanes, em 22.01.18

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 Fonte da Imagem: https://www.reddit.com/r/startrek/comments/1cry2q/finally_an_hd_picard_facepalm_image_from_the_tng/

 

 

Pois é... Chego sempre atrasado a tudo, e aqui só me posso basear no que fui ouvindo aqui e acolá e durante escassas olhadelas para os monitores do ginásio.

 

Marcelo Rebelo de Sousa não deve estar nada contente com a SIC, depois da tragédia de um certo Sábado em Tondela, onde mais uma vez, o mais importante não foram a tragédia nem as vítimas, mas sim o Presidente da República - os momentos de glória de Marcelo junto dos media sofreram um revés. Marcelo a acordar para ir a Tondela... Marcelo a tomar o pequeno-almoço antes de ir a Tondela... Marcelo decerto já sabe o que provocou o incêndio em Tondela... Marcelo a abastecer o carro da presidência na área de serviço de Aveiras... Marcelo dentro do carro presidencial a sorrir... Marcelo dentro do carro presidencial a escabichar os dentes, depois de ter comido um pão com carne assada, e enquanto pensa nas vítimas de Tondela. Marcelo no WC a aproveitar para ler mesmo quando se desloca a cenários de catástrofe... Tinhamos tema para uma semana, no entanto...

 

Quando este, no seu lado de "pseudo-papi da nação" já julgava ser tema para mais umas semanas a explorar uma tragédia, eis que a SIC decide lançar um programa importado dos Estados Unidos e que nos remete uma coisa para a qual os portugueses não perdoam: os filhos! Quantos não conhecemos que são capazes de dizimar a população inteira do planeta só para que o filho realize o desejo de ir à Eurodisney? Ou então, quantos não conhecemos que são capazes de manter um prédio anos a fio em guerra só para que o filho grite, corra e seja mal educado? Quantos não conhecemos que utilizam os filhos, com o discurso do "ai são as crianças" para camuflarem outras vontades mais egoístas?

 

A grande revolta dos portugueses a seguir à interrupção do jogo entre o Estoril e o Futebol Clube do Porto e às guerras futebolísticas, focou-se agora num programa de televisão, altamente montado para as audiências e com muito que se lhe diga em termos de fidedignidade. Incêndios? Quedas de árvores que matam às dúzias? Corrupção? Financiamento dos partidos? Tancos? Mais corrupção? Reformas estruturais da administração pública? Não! Um programa de televisão! Voltando a Marcelo, começo a chegar à conclusão que, a televisão que o criou um presidente é a mesma que ainda vai apagar um presidente - ainda vamos ver um concorrente de algum reality show chegar a presidente... Não é difícil, basta achar que tem opinião de tudo, não se comprometer com nada, dizer que lê muito e que aos Domingos até vai à Igreja.

 

Com tantos maus-tratos a crianças, com tantos crimes de sangue contra crianças, contra tantas crianças com fome, com tantos pais que não hesitam em destruir e desrepeitar quem os rodeia e tanto silêncio nesta matéria, acabo por estranhar como é que de repente a ira nacional se voltou para estas bandas... 

 

Soubesse o que sabe hoje, aquando dos incêndios, por certo António Costa tinha tratado de garantir que ainda teríamos um programa cuja temática seria a educação de árbitros e presidentes de clubes futebol em termos de português e economia paralela - era sucesso garantido e ninguém tinha falado no caos que se abateu em Portugal.

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IMG_7160.jpgExemplares de "Talas", o registo administrativo e buriocrático da aldeia (um pequeno e simpres resumo do que eram, encontra-se aqui) - Museu Nacional de Etnologia.

Fonte da Imagem: Própria

 

 

Rio de Onor foi outrora uma aldeia transmontana que, pela sua sociedade comunal, apaixonou um sem número de investigadores, nomeadamente, com o intuito de perceber e contribuir para o esclarecimento do seu modelo de organização comunitária (4) e do conceito de closed corporate community (Wolf, 1955). Estes conceitos e estudos encaixaram em comunidades de montanha, com um enorme património colectivo, na altura somente tendo como base a agricultura e o pastoreio e os seus respectivos constrangimentos, nomeadamente a organização do território (5) , as culturas, a assembleia de vizinhos (órgão de gestão e controlo), os direitos e obrigações e homogeneidade ocupacional, promovendo uma democracia participativa e igualitária assente no isolamento e no arcaísmo, aliás, conceitos muitos explorados pelos estudiosos deste tipo de comunidades, não só na Península Ibérica, mas também por toda a Europa.

 

Deste modo, Rio de Onor formava duas comunidades semelhantes entre si, e cada uma bastante homogénea. A Portuguesa com raízes mais intactas e a espanhola mais “modernizada” também por culpa das convulsões políticas em Espanha (Dias, 1953: 79).

 

Tendo em conta o lado português, a organização comunitária era assente em famílias  sendo o conjunto das diversas famílias, os vizinhos. A família tinha como base estrutural a casa - terá sido do conceito de domesticidade que se terá chegado à organização de vizinhos, ou seja, a casa abriu e deu lugar a uma lógica de reciprocidade. No entanto, e tendo em conta o conceito de família e casa, encontramos aqui uma situação que agradaria aos clássicos da Economia, sobretudo para Mill e Malthus: em Rio de Onor os casamentos eram tardios de modo a evitar famílias numerosas cujo apetite seria superior à capacidade de produção das agricola e pecuária (idem) (6). Esta situação, contudo, viria a ser invertida com o progresso  técnico que permitiu um melhor aproveitamento das terras. Todavia, nem todas as “novas” famílias poderiam participar no conselho, embora com margem para serem ajudadas por este. Não participando na definição dos destinos da terra, estas famílias quase com toda a certeza ficariam em situações de grande dependência, para além da simples marginalização que foi defendida por muitos autores.

 

Um outro pilar da organização era o conselho, ou seja, a organização de todos os participantes na propriedade colectiva integral: “até princípios do séc. XX, o conselho era a organização social que permitia a todos os habitantes comunitários de Rio de Onor fazer face aos múltiplos problemas da sua economia de povos [criadores de gado]” (Dias, 1953: 81). A propriedade colectiva era de todos, no entanto, foi alvo de uma organização rígida com regras e leis, direitos e deveres, onde não foram esquecidas as medidas coercivas através de um sistema de penas.

 

Estamos aqui perante uma alternativa política de democracia participativa. O conselho tinha também intervenção na propriedade privada, aliás muitos dos trabalhos nestas propriedades também estavam sujeitos à regulamentação do conselho. A propriedade colectiva encontrava-se dividida em terras de pastagem (monte); terras de sementeira (rocadas) e os coutos (lameiros e prados de erva).

 

Uma nota, somente para um exemplo de coesão social e solidariedade, que era o facto dos coutos, apesar de se encontrarem matricialmente em nome de alguns vizinhos cujos encargos eram por estes suportados, estavam à mercê da comunidade/conselho (7). O conselho era liderado com base num diuunvirato anual, não existindo eleições, que foram substituídas por um sistema de rotação cíclica (8). Existe ainda uma espécie de solidariedade entre mordomos, pois a cada  mudança de mandato, os mordomos antigos passavam as talas (9) aos novos detentores do cargo, procurando resolver no dia da passagem do testemunho, todos os assuntos pendentes, para que os novos pudessem começar o novo ano livre de encargos (10).

 

Continua...

 

_________________________________________________ 

(4) Um dos maiores exemplos foi a monografia de Jorge Dias, que em 1948 já havia feito o mesmo para a aldeia de Vilarinho da Furna.
(5) Daqui sobressai o conceito de open field (Hoffman, 1975) e a sua origem medieval assente ainda numa espécie de sociedade feudal.

(6) Esta questão era tão levada a sério que os filhos mais novos não casavam de modo a garantir o controlo da natalidade familiar, o que em muitos casos levava a que três gerações partilhassem a mesma casa (extended family) (Dias, 1953). Jorge Dias dá-nos também um exemplo em que a economia familiar foi garantida após uma sucessão de mortes repentinas, que levaram a que somente ficassem dois irmãos. Estes de modo a garantirem uma linhagem e aqui Dias não aborda, mas também uma economia familiar e comunal sustentável, acordaram que somente um se casaria, garantido essa mesma estabilidade económica. Um deles casou e viveram todos no mesmo lar, pois era necessário ter uma mulher em casa. Mais tarde com a saída de muitos jovens, nomeadamente para o serviço militar esta situação foi sendo menos frequente.

(7) Dias, reforçando a questão da coesão aqui descrita, alertava já em 1953, que mediante o facto dos proprietários dos coutos exigirem os seus direitos sobre os mesmos, a organização sucumbiria.

(8) Nesta prática, todos os vizinhos eram obrigados a desempenhar o cargo de mordomo. A alteração deu-se segundo Dias, pelo facto de anteriormente existirem reclamações de alguns dos vizinhos que contestavam outros que eram eleitos várias vezes, em detrimento de outros que não eram nunca.

(9) Varas de madeira, onde se gravavam (de acordo com os fins a que se destinavam) a navalha, secções de intervalos iguais, correspondendo cada uma à casa de um vizinho. Cada tala correspondia a diferentes assuntos, nomeadamente rebanhos; fenos; eleições; multas; etc.

(10) A título de curiosidade, as multas eram pagas em vinho, pelo que antes de cada sessão do conselho se perguntava quem queria vinho. Em caso de resposta afirmativa, eram consultadas as talas dos devedores que deveriam pagar a sua dívida.

 

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IMG_3343.jpg 

O Martírio de Santo Estevão,  José Clemente Orozco - Musei Vaticani

Fonte da Imagem: Própria

 

 

 

Em tempos normais, nenhum indivíduo são pode concordar com a ideia de que os homens são iguais.

Aldous Huxley

 

São muitas as obras, em alguns casos conotadas com uma certa utopia (1), que têm minado o imaginário de muitos de nós e até daqueles que acreditam num Mundo mais igualitário e numa economia que não exclui qualquer cidadão e incorpora todos estes na mesma campanha. Um dos maiores exemplos em Portugal deste tipo de cultura é o caso da Aldeia de Rio de Onor, explorado pelo ensaio de Joaquim Pais de Brito (2) e a monografia de António Jorge Dias (3) que foram ao encontro do conceito “maravilhoso” de Eric Wolf de “comunidade corporativa fechada”.

 

Procurarei assim, apresentar uma relação entre aldeia comunitária com uma certa economia solidária e perceber até que ponto podemos afirmar um total igualitarismo, que durante décadas apaixonou antropólogos, sociólogos, economistas e meros curiosos, e ainda em que medida, a economia praticada se pode dizer solidária e dotada do exotismo e perfeição rural que Jorge Dias tão bem desenvolveu na sua monografia.

 

Procurei conhecer a aldeia de Rio de Onor e o seu dia-a-dia de cariz comunitário, entrando seguidamente nas experiências diárias e com estas fazendo a ponte para a aferição de Rio de Onor como um exemplo a aplicar como case study para outras iniciativas de cariz comunitário ou até solidário. Não querendo transformar este meu passatempo numa tese, procurarei perceber alguns pontos:

 

  1. O Comunitarismo de Rio de Onor nasce de uma necessidade de sobrevivência das populações ou de uma cultura de oposição?

  2. Será o Comunitarismo de Rio de Onor um verdadeiro exemplo de sociedade igualitária?

  3. Rio de Onor, um exemplo de economia solidária com cariz rural para o futuro?

  4. Podem as mulheres ser uma garantia de sucesso para o futuro de vilas como Rio de Onor?

 

Ao entender estas quatro questões, procurarei mostrar se a tese antropológica que defendeu as comunidades isoladas das montanhas do Norte de Portugal como sendo igualitárias, quer na questão social (abordada por muitos antropólogos, entre eles Brian O’Neill) quer na questão económica, com consequências na primeira e a ser alvo de maior desenvolvimento neste ensaio, foram efectivamente precisas - pode também parecer um tema obsoleto (sobretudo numa Europa desenvolvida), mas nunca me pareceu tão actual se os nossos olhos conseguirem sair da nossa bolha de conforto.

 

Continua (mesmo que não interesse a ninguém)...

 ____________________________________________

(1) Dois bons exemplos são a "Ilha", de Aldous Huxley, ou um dos expoentes máximos desta literatura a "Utopia" de Thomas More.

(2) Ensaio sobre Rio de Onor.

(3) Rio de Onor: Comunitarismo Agro-Pastoril.

 

Alguma bibliografia para os mais interessados:

  • Dias, Jorge, Rio de Onor, Comunitarismo Agro-Pastoril, Editorial Presença, Lisboa;

  • O’Neil, Brian Juan, Proprietários, Lavradores e Jornaleiras, Publicações Dom Quixote, Lisboa;

  • Pais de Brito, Joaquim, Retrato de Aldeia com Espelho, Ensaio sobre Rio de Onor, Publicações Dom Quixote, Lisboa;

  • Wolf, Eric, Peasants, Prentice Hall, New Jersey, 1966;

     

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