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A Falta de Nível de um Consultor de RH...

por Robinson Kanes, em 13.07.17

 

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 Fonte da Imagem: https://onepeterfive.com/francis-references-the-dubia-some-see-only-black-white/ 

 

Ontem, enquanto celebrava o novo emprego de um amigo, eis que sou confrontado com a seguinte história e que dispensa quaisquer comentários da minha parte a não ser que existem pessoas que deveriam ser proíbidas de trabalhar com pessoas e, para além disso, o perigo que as "cunhas" e a falta de soft skills de um ou mais colaboradores podem ter numa organização e, sobretudo neste caso, nas organizações a quem prestam serviços.

 

Escritório de uma multinacional, o Frederico (nome fictício) recebe uma chamada:

 

-Estou, daqui é o Andrade da Mike & Recruitment (nome fictício, e os Andrades que não me levem a mal por ter escolhido este nome para tal personagem), queria falar consigo porque ainda não me pagou o valor da sua substituição.

 

Vejamos: o Frederico (que trabalha nas compras) foi contactado pelo consultor responsável pela sua contratação há oito meses. Esse mesmo consultor, que agora tem em mãos o recrutamento do novo indivíduo contacta a pessoa que vai ser substituída e solicita-lhe o pagamento de um serviço que ainda não foi concretizado. Começamos bem... 

 

O Frederico responde:

-Ouça lá Andrade, então mas você está-me a pedir o valor de um serviço que só é pago após a realização do mesmo? Além disso, dentro dos candidatos que você tem mandado nenhum se aproveita, alguns nem habiliações nem experiência têm e não foi isso que nós pedimos. Até já coloquei um anúncio num website de empregos e os candidatos são bem melhores.

 

O Andrade, um pouco atrapalhado mas sempre no estilo irritante-gingão muito característico de algumas personagens do corporate nacional, diz:

 

-Pois, tem razão. Pois é eh eh eh.... Olhe lá Frederico então e vai trabalhar para onde?

 

Vou trabalhar para a Carrega Paletes (nome fictício) - Responde o Frederico.

 

E num momento de magia, de toda e qualquer importância e... Ressabiamento, o Andrade atira com esta.

 

-Xiiiiii, epá para a Carrega Paletes? Eu sei que você vai para lá, mas aquilo é muito mau, eles são nossos clientes e não são nada bons pagadores. Xiiiiiiiii para onde você vai.

 

O resto da conversa pouco interessa, no entanto, penso que o Andrade ao invés de dar prioridade aos amigos no recrutamento, deveria ter em conta que NUNCA se diz mal de um cliente, sobretudo quando estamos perante dois clientes que talvez sejam dos que mais recrutam em Portugal (falta de nível, falta de profissionalismo ou falta de sentido de vendas?). Além disso, sendo que o Frederico trabalha e vai trabalhar na área das compras (como chefia), quer-me parecer que Mike & Recruitment vai ter um grande problema em voltar a ter a Carrega Paletes como cliente e, até com sorte, a actual organização do Frederico. Mas do Andrade existem mais histórias... Sobretudo no conluio que tem com um dos seus colegas de trabalho na contratação de uma rede de amigos que tem total prioridade, independentemente das habilitações e experiêcia, face a candidatos bem mais merecedores de uma oportunidade. Mas para isso estará lá o Frederico...

 

Boa sorte "Frederico" e obrigado pela permissão que me deste para partilhar esta história.

 

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A Cidalina Contra-Ataca!

por Robinson Kanes, em 28.06.17

 

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Fonte da Imagem: http://www.starwars.com/news/the-playlist-jabba-the-hutt

 

Quando menos esperávamos, Robinson Kanes trouxe-nos mais uma idílica  aventura de  A Entrevista de Emprego, Os Apoios e os Pretos de Angola.

Glória do Ribatejo Post

 

Cidalina, a imortal musa de Robinson Kanes, uma mulher para se amar.

Cedofeita Tribune

 

Cidalina, Cidalina, não sei se tu me amas, E pra quê tu me seduz

Tiririca, pior que está não fica.

 

 

 

Sugiro que acompanhem este artigo com a banda sonora que se encontra abaixo...

 

Quando pensava que a Cidalina era passado, que a "Death Star" de Oeiras tinha ficado perdida nos confins da galáxia, eis que no meu canto qual Jedi em repouso com o seu Mestre Yoda, sou despertado pela força!

 

Foi ontem! Estava eu na minha caixa de correio electrónico (email - realmente, escrever email é bem melhor que escrever caixa de correio electrónico) e de repente cai uma tremenda bomba. Era o Darth Vader? Era o Imperador? Era o Jabba? Pensando bem, este último... Adiante...

 

Era a Cidalina, a Cidalina no seu charme incontestável! O assunto do email mencionava um recrutamento de 2016! O tal que, em 2017,  a Cidalina insistia nunca ter sido feito - até a referência era a mesma. Desta vez, contudo, apercebi-me de uma novidade: a organização para a qual Cidalina trabalhava tinha recebido um prémio de excelência como a melhor empresa da área para determinado segmento de mercado! Há quem diga que ter amigos e pagar para, pode ter efeitos na atribuição destes prémios. Começo a acreditar que sim, pois leiam os episódios anteriores e verão (ligações abaixo).

 

Dizia o email da sedutora Cidalina (e como eu dava tudo para ter ouvido novamente a voz "Aldeia Velha" da Cidalina):

 

Bom dia 

Temos o seu contacto na nossa base de dados de XXXXX para os nossos clientes. 

Estamos numa fase de arrumação de base de dados, caso queira manter a sua candidatura registe-se na nossa plataforma: xxxxxxx e mantenha a sua candidatura connosco.

Melhores Cumprimentos

Cidalina (nome fictício)

 

"Bom dia, Estimado Robinson Kanes", não teria ficado mal, talvez seja defeito meu. Mas o que apreciei foi o facto de, na organização de Cidalina andarem em arrumações. Podemos estar no topo da tecnologia, mas as nossas cabeças ainda estão na Era da pedra lascada. No entanto, o que eu percebi é que não é a Cidalina e os colegas que andam a fazer as arrumações, mas sim os candidatos. Experimentem enviar aos vossos clientes o seguinte email e esperem uma base de dados vazia: "Quer ser nosso cliente? Até temos os seus dados mas não nos apetece muito inserir os mesmos no novo sistema, pode fazer isso por nós?", mais brilhante não poderia ser!

 

Mas o que eu ainda mais gostei foi o bullying camuflado, algo do género: "é que se não colocares os teus dados na base de dados, não sou eu que o vou fazer, logo... Ficas fora".

 

Há quem chame a isto "excelência" e do melhor, eu nem quero pensar no pior. Para mim, nestas organizações, cada candidato é um cliente e clientes insatisfeitos não voltam, pelo que seguiu, de imediato, um email a solicitar que todos os meus dados fossem apagados.

 

Como no fim de um amor, deveria ter fechado todas as portas da minha relação com Cidalina meses antes aquando de uma das entrevistas mais rocambulescas que tive. Qual Jedi que poupou a vida a Cidalina e mais tarde lá teve de ser confrontado com o seu regresso, voltaram-me à memória os bons tempos que vivi com Cidalina naquele romântico e cinzento edifício dos anos 70 em Oeiras.

 

Episódios Anteriores de "A Entrevista de Emprego, Apoios e os Pretos de Angola":

Capítulo 01: http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-entrevista-de-emprego-apoios-e-os-37761

Capítulo 02: http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-entrevista-de-emprego-apoios-e-os-38350

Capítulo 03: http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-entrevista-de-emprego-apoios-e-os-38437

Capítulo 04: http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-entrevista-de-emprego-apoios-e-os-38827

Último Capítulo: http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-entrevista-de-emprego-apoios-e-os-39116

 

 

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 Fonte da Imagem:https://myfavoritewesterns.files.wordpress.com/2014/06/charles-bronson.jpg 

 

...Esta história de amor tinha de acabar com uma banda sonora romântica. Se está cansado de dançar com o Bonga e já encheu a barriga de fruta, sugiro que desça as escadas até ao final do capítulo e que se deixe levar pela música enquanto lê...

 

 

Look into my Eyes, Robinson... Tell me what you see...

Olha para os meus olhos, Robinson... Diz-me o que vês...

 

Novo compasso de espera que foi interrompido pelas despedidas. Não me peçam para explicar, aconteceu simplesmente. 

 

Contudo, a nossa heroína percebeu que deveria perguntar ao candidato se este tinha questões. Devia estar a consultar aqueles artigos muito "cientificos" com títulos como: "cinco perguntas que deve sempre colocar a um candidato numa entrevista".

 

Respondi que tinha uma  - tinha mais, mas percebi que estava a perder o meu tempo -, estava relacionada com os objectivos da posição e quais os desafios e ambiente que iria encontrar. Deixei claro que talvez fosse melhor questionar o cliente se passasse à segunda fase mas... Eis que irritei a Cidalina que, mexendo-se na cadeira, subiu ao palco e com um olhar à Charles Bronson, proferiu:

 

-Não! Não! Não! Isso também é connosco, nós é que temos essa informação.

 

Percebi a mensagem e olhei a Cidalina como alguém que está à espera da resposta. E atentemos na resposta, passo a citar: "É um novo projecto e os investidores precisam de ajuda de alguém para o lançamento, nestas coisas sabe como é, pode ser bom mas também pode ser um presente envenenado". 

 

Depois de um peculiar toque de cinismo português,  o "eh eh eh", que se seguiu ao "presente envenenado", devo dizer que fiquei esclarecido. Até porque esperei mais retorno, mas sem sucesso. Cidalina Bronson e um olhar de desafio, qual duelo entre dois cowboys a terminar com tiros de pólvora seca!

 

Mas a Cidalina continuava a olhar para o computador. Eu aproveitei para dar mais uma vista de olhos pelos documentos do Ministério Público e pelos os demais currículos.

 

Depois de ter esgotado o meu lado "comadreiro" tossi lentamente, ou seja, a onomatopeia de: “Acabámos ou não? Convidas-me a sair ou é agora que vai sair daí a garrafinha de 1920 e dois copos? Vamos mas é rir disto tudo, inclusive dessa voz de bagaço”.

 

Percebendo isso, a Cidalina lá agradeceu a minha presença e despediu-se com um " obrigado por ter vindo", não sem antes dizer que depois me telefonava. Não! Voltou atrás e disse que enviava email... Assim vai um para todos e está terminado.

 

Levantei-me e esperei que a Cidalina também se levantasse. Cidalina, qual rainha no trono basic da Staples, só o fez quando o meu compasso de espera foi tal que se sentiu obrigada a tal. Apertei-lhe a mão, algo que a mesma não esperava e, também percebi que não seria acompanhado à porta que dava para a rua.

 

Despedi-me dos presentes na sala com um “continuação de um óptimo dia e bom trabalho". A verdade é que todos disseram em uníssono: "obrigado, para si também".

 

...Não disseram nada...

 

Em suma, fiquei com pena dos clientes da empresa da Cidalina, fiquei com pena de mim por ter gasto o meu tempo e gasóleo com a empresa da Cidalina, fiquei também a saber que os “pretos de Angola” andam a correr com os “brancos de Portugal” e que, mais uma vez, no meio de tanto ruído e de tanto folclore, não fui a uma "best place to work" mas sim a uma "best place to die".

 

Regressei e ainda parei para almoçar em Paço de Arcos. Casa da Dízima? Não, lamento, foi mesmo numa tasca já com sardinhas que nem estavam más para o mês de Maio... E mais bem servido que na Casa da Dízima.

 

Porque quem dita o meu destino achou que eu precisava de fechar esta história em grande, ao meu lado estavam “pretos de Angola” a falar de negócios.  Ainda pensei em  abordá-los e sugerir a compra de uma certa empresa, pois davam ares de compradores de sucata.

 

 

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 Fonte da Imagem: http://streetetiquette.com/wp-content/uploads/2012/11/19c0078.jpg

 

Cidalina , a  personagem de Robinson Kanes que abriu as portas para uma interpretação séria da época pós-modernista.

Odeceixe Mirror

 

Depois de ler "A Entrevista de Emprego, Apoios e os Pretos de Angola" comecei a encarar a pessoa de José Eduardo dos Santos com amizade.

Luaty Beirão

 

 Uma clara intromissão de uma cidadã portuguesa nos assuntos internos angolanos.

Jornal de Angola

 

 

(Caro leitor, desça as escadas e vá até ao fim deste artigo, ligue a banda sonora e deixe ficar ao longo deste capítulo).

 

Comeram a fruta e o balaio que é a Cidalina ficou chão...

 

Dê-me o seu NIF e cartão de cidadão? – Nova interpelação de Cidalina.

 

Fiz o olhar de quem não estava a perceber, pelo que a Cidalina tomou a iniciativa disse que era para ver junto da Segurança Social se eu tinha apoios! Eu respondi que obviamente não recebia apoios e que provavelmente não teria direito aos mesmos nem queria porque, enfim... Cidalina, olhe para o meu currículo, acho que é óbvio...

 

A Cidalina, não contente com a minha expressão facial, acabou por dizer que com apoios é mais fácil para levar o cliente a decidir. Segundo Cidalina Krugman, o método processa-se da seguinte forma: apresentam-se candidatos que custem o mínimo ao cliente, ou seja, não importa se são bons ou maus, mas que possam levar este a ter apoios do Estado. Por sua vez a organização da Cidalina Krugman, que também faz consultoria nessa área, encaixa mais uns euros (esta parte sou eu a deduzir). O que a Cidalina se esquece é que estivermos perante um bom candidato podemos sempre tentar sugerir o mesmo ao cliente e, quem sabe, aumentar o nosso revenue! Uma espécie de upsell! Ganham todos, o cliente contrata um bom profissional, a Cidalina brilha sem perceber como se recruta e o profissional é bem remunerado e não destrói o mercado.

 

Foi aqui, exactamente aqui, qual Professor José Hermano Saraíva, que percebi porque é que naquela empresa existiam tantos indivíduos com deficiência! A responsabilidade social estava presente porque existiam benefícios da Segurança Social com a contratação destes indivíduos. Ou seja, mais uma daquelas organizações que vive de apoios e sem eles já era.

 

Após a brilhante exposição de "como sacar mais dinheiro ao Estado", Cidalina olhava para mim e para o computador, como quem me dizia “isso vem ou não?”.

 

Pedi à Cidalina que me falasse da posição e a Cidalina falou-me da mesma dizendo que era um novo projecto e que andavam à procura de uma pessoa que ajudasse os novos investidores que nada sabiam do negócio (Cidalina tem a certeza que quer um estagiário?). 

 

Fantástica descrição, porque se ficou por isto mesmo, ipsis verbis.

 

No entanto, e numa tentativa de me abraçar neste "tango fatal", de me colocar pressão nas pernas, Cidalina foi mais longe e disse-me que recebia muitos currículos. Currículos de muita gente e com mais experiência. Deixei a Cidalina conduzir a dança qual senhora de meia-idade marota nas matinées dançantes do Mercado da Ribeira, até que percebi que o climax da entrevista ainda não tinha chegado, ao contrário do que eu pensava -  senão que Cidalina tem esta brilhante afirmação:

 

-Sabe, antes colocava-mos um anúncio apareciam dois ou três, agora com aqueles que vieram lá dos pretos, temos centenas de gente muito boa. Até tenho vergonha de lhes dar algumas posições quando os recebo aqui. Sabe que os salários em Portugal são uma porcaria, não sabe? Coitadinhos.

 

Posto que o meu interesse já tinha caído há muito pensava não estar a disfarçar o meu espanto, mas estava, porque a Cidalina continuou:

 

-Temos currículos muito bons, então estes que vieram lá dos pretos são mesmo bons. É uma pena, eles estão todos a voltar. Mas desde que os pretos de Angola os mandaram embora...

 

O meu interior ria-se desalmadamente, penso que nem consegui disfarçar um sorriso ou outro, sobretudo quando Cidalina enfatizou o "vieram lá dos pretos, lá dos pretos". Por outro lado, a veia colonialista da senhora estava bem presente no seu discurso acerca dos “Pretos de Angola”. Também estava presente que, para Cidalina, os "pretos" só existem em Angola e que África é constituida somente por Angola, Moçambique e Cabo Verde, onde Cidalina terá ido passar umas férias...

 

-Pois, e outros que nem lhes pagam! Aquilo lá está mau. Coitados! - Atira o Robinson mais umas cavacas de lenha de pinheiro para a fogueira.

 

Cidalina entusiasma-se e continua a sua dissertação sobre os espoliados pelos pretos de Angola, de como deve ser dificil ir para um país daqueles e vir de lá sem dinheiro  - "Maldita Pretalhada"!

 

Techila nizala zalaya frutas de vontade... Ai Curruuuuuumba!

 

Amanhã, o último capítulo...

 

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Giovanni Bellini e Atelier -  A Virgem e o Menino (National Gallery)

Fonte da Imagem: Própria 

 

O estudo da fauna humana recebe o seu mais glorioso "input" na pessoa de Cidalina.

National Geographic 

 

Ter filhos ou não ter, eis a questão.

William Shakespeare, Hamlet

 

Parece que entramos no filme Delicatessen.

Sónia Pereira, in Quimeras e Utopias

 

A paternidade e a maternidade segundo o Evangelho de Santa Cidalina...

 

Chegou a minha vez com um “é o Robinson?”. Percebo a questão, se é para ser tudo ao molho convém sempre certificarmo-nos de quem se trata.

 

Peço para me sentar, pois a Cidalina, já sentada, estava a olhar para o computador que tinha em cima da mesa e não me dizia nada. 

 

Depois de um “sim, sim”, observo a sala. Uma sala de reuniões comum, com um computador em cima da mesa, correspondência do Ministério Público à vista de todos e um sem número de outros papéis.

 

A Cidalina, além da voz de bagaço, tinha uma atitude demasiado pesada e um total desmazelo em relação aos dentes. Contudo, o dinheiro não chega sempre para todas as coisas. O reflexo do desmazelo também era visível no estado em que se encontrava a mesa.

 

Esperei mais uns momentos até que a Cidalina percebeu que eu estava ali. Fazendo aquele suspiro que um GNR do Posto Territorial de Ansião faria depois de almoço, disse:

 

-É o Robinson, deixe ver se tenho aqui o seu currículo.

 

Sou o Robinson. Sou o Robinson e também já percebi que nem olhou para o meu currículo. Mais interessante ainda, passa por eu conseguir apreciar os currículos de todos os outros candidatos enquanto a Cidalina procurava o meu. Confidencialidade no seu melhor, mais uma vez. "É esse! O meu é esse"...

 

Nova pausa, com o computador a tirar-me o protagonismo e eis que no típico ar gingão da fauna lusitana:

 

-Oh Robinson, fale-me de si, mas não me fale do currículo. É uma pessoa feliz, é casado e tem filhos?

 

“Fale-me de si, é uma pessoa feliz, é casado e tem filhos”! Tendo em conta que é sempre difícil fugir às duas últimas (e até concordo que se façam), mesmo que contra a lei, não é propriamente o mote para começarmos uma entrevista. Lá disse que era feliz, que não corria atrás da felicidade e que tinha de saber apreciar cada momento bom que a vida me dava. Mencionei que era importante gerir os maus momentos e também aqueles que a vida não me dá, mesmo quando luto por isso. Sugeri que tinha de criar um balanço entre prazer e propósito.

 

Percebi que não tinha dado a resposta certa! Devia ter mentido e ter dito que adorava festas e passeios, que adorava fazer compras e viajar pelo mundo ou então que sonhava com uma vida no Butão. Que o meu sonho era ser feliz como todos os outros, mesmo que todos os outros (eu incluido) não saibam o que é ser feliz.

 

Nova questão, fundamental para o trabalho em si:

 

-É casado, tem filhos?

 

Respondi que não era casado nem tinha filhos e comecei a criar o clima para iniciar a Terceira Guerra Mundial. Numa sala triste a sem qualquer cor, num edifício soturno e também sem cor dos arredores de Lisboa, as coisas iam começar a aquecer. A Cidalina insiste neste ponto:

 

-Mas vive com alguém? Não tem filhos porque?

 

Foi aí que eu pausei o meu discurso e considerei várias opções:

  1. Dou eu a entrevista por terminada pois perdi toda e qualquer vontade de continuar a conversa?
  2. Dou mais uma oportunidade e pode ser que a entrevista tome outro rumo, afinal não é o cliente final?
  3. Adoro conhecer as pessoas, avaliar o comportamento humano e aprender acerca daquilo que não devo fazer, pelo que fico mais um pouco?
  4. Confirmo a minha expectativa de que hoje em dia é maior o ruído que o profissionalismo?
  5. Tenho um blog, ou seja, fico e estico isto até dar um artigo daqueles?

 

Optei pela situação dois e respondi que vivia com alguém e que não tinha filhos.

 

Nova abordagem e a Cidalina começa a acusar desconforto:

 

-Mas não tem filhos? 

 

Respondi que nunca tinha pensado nisso. Mencionei que um dia poderia ter ou não, que não fazia com que a minha vida fosse controlada sob a expectativa de ter um filho e muito menos acusava pressões sociais. Além disso, mencionei a minha juventude e, consequentemente, o facto de ainda ter uma vida pela frente. Neste momento já estávamos a esgrimir argumentos sobre o ter ou não ter filhos.

 

-Então e a pessoa com quem vive, não quer ter filhos também? Que idade tem? O que é que faz? – Insistia a Cidalina.

 

A opção dois caía por terra e neste momento ficavam apenas as opções 4 e 5. Como a 4 estava confirmada, optei pela 5! Tenho um blog, isto vai dar mais sumo que um pomar com 100 hectares de laranjeiras!

 

Respondi que também não era do interesse da mesma, aumentei a idade e disse o que esta fazia. E pronto, estavam lançados os dados para mais um interpelação:

 

-Mas com essa idade, é que depois começa a ficar difícil! Mas como é que não querem ter filhos? Mas nem falam disso?

 

Ainda pensei em explicar que embora os riscos aumentassem com a idade, hoje, é possível colmatar até bem tarde essa situação. Não percebi que alguém tão preocupado com a maternidade não tenha pensado na adopção ou nem sequer tenha percebido que pode não ser possível a um dos indivíduos ter filhos e que é um tema que pode melindrar alguns casais. Ainda pensei em falar sobre isso, mas já seria ir longe de mais e perder tempo com quem não merece. 

 

Respondi que não estava nos planos e não fazíamos desse tema uma preocupação constate, que quando tivesse que acontecer lá aconteceria. Percebi no olhar da mesma que eu era uma carta fora do baralho. Por sinal, eu não precisei de chegar tão longe para perceber isso. Penso que a questão ficou "arrumada" quando comecei a citar Malthus numa tentativa de quebrar o gelo. Senti-me um "alien", o indivíduo jovem que já devia ter filhos, uma casa, uma station-wagon na garagem e um monte de hipotecas desde os 20 anos! 

 

O sorriso de desdém no rosto da Cidalina era qualquer coisa de genial e de repente o estilo matrafona transformou-se num estilo de habitante de Dogville, o filme de Lars von Trier. Acredito que a Cidalina terá pensado "que grande anormal, como é que não tem filhos!". Também já fiquei com uma carta na manga: quando alguém me vier com a história que foi discriminado porque tinha filhos que se prepare.

 

E ainda não tinhamos falado de trabalho... O meu lado alemão já me deveria ter obrigado a cortar e a ir directo ao assunto mas... Se o fizesse, ia perder o que ainda estava para vir! 

 

Continua...

 

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Fonte da Imagem: http://cdn.yeniakit.com.tr/images/news/625/mr-spark-hayatini-kaybetti-h1425065881.Jpeg

 

A personagem de Cidalina é uma referência para os profissionais de Recursos Humanos, uma verdadeira "best practice".

Fogueteiro Business Review

 

Uma leitura obrigatória para acompanhar um vinho do Dão.

Carregal do Sal Zeitung

 

Robinson Kanes consegue encontrar a personagem que me faltou na tela os Bêbados.

José Malhoa, num jantar nas Caldas da Rainha

 

 

20 minutos para as 12 horas.

 

Eis que chego ao local da entrevista - um prédio antigo, daqueles típicos dos anos 70, com armários e caixas de correio já com a madeira desgastada. Lá dentro, um porteiro, que tinha todo o aspecto de porteiro - um homem dos seus cinquenta anos, forte e sempre com aquele ar de sentinela de depósito de material de guerra. Aquele que nos olha de cima abaixo à espera da nossa acreditação e depois nos solta vagamente o número do piso que procuramos.

 

Subo de elevador e bato à porta para entrar, apesar da mesma estar encostada. Surge um indivíduo que fica a olhar para mim qual "Spock" a tirar-me as medidas com aquele semblante peculiar. Olhei para o mesmo e disse o tradicional “bom dia”. Perante a ausência de retorno senti que tinha de ir mais longe - seria surdo? Seria mesmo um aprendiz do "Spock"? - disse que estava ali para uma entrevista com a Cidalina às 12 horas. O indivíduo, de camisa aos quadrados azuis e vermelhos qual pescador da Nazaré  faz-me um gesto com o braço. Deduzi que fosse um convite para entrar e entrei. Sei que soltou um esgar qualquer, mas confesso que não consegui perceber. Ainda hoje imagino como aquela interessante personagem ficaria se tivesse a farda da "Enterprise" vestida.

 

Era um indivíduo estranho e sem um sorriso num dia de sol daqueles, como era possível? Mas falava, tanto que falou quando entrámos num open space e soltou um quase inaudível “sente-se”, sempre acompanhado pelo gesto com o braço.

 

Olho à minha volta e vejo que estou numa sala onde toda a gente está a trabalhar, ou seja, onde a confidencialidade, a minha e a de quem lá trabalha, estava comprometida, sobretudo porque me dediquei a ver o revenue da organização no computador do senhor sem braço que estava à minha frente. Também me detive a ver o facebook do outro senhor que estava ao lado e que usava o chat do mesmo como se estivesse a telegrafar pedidos de socorro. Até consegui ver que apesar dos muitos smiles, os mesmos não se reflectiam na expressão do mesmo. Aposto que era um daqueles totós que tinha uma vida secreta de sedutor nas redes sociais e era conhecido no Cais do Sodré como o "Viking de Oeiras".

 

Mas... Ao meu lado, o meu rival. Um senhor dos seus quarenta e muitos anos que ignorou a minha saudação de bom dia mesmo tendo levantado os olhos de uma revista que lia: guerra é guerra e não há tempo para grandes cumprimentos entre as diferentes partes.

 

Fiquei a olhar para o meu rival, não que tivesse muito para olhar. Vestia fato cinzento e a armação dos óculos era como todos os senhores daquela idade que usam óculos e vestem fato. Aquele estilo de massa que a personagem Reuben Toshkoff do "Ocean's Eleven" usa. Tinha a perna cruzada enquanto o pesado corpo se afundava no sofá como se o mesmo o fosse engolir e só ficassem à vista os sapatos mal engraxados. Por momentos pensei que fosse necessário alugar um guindaste para retirar o senhor do sofá quando fosse chamado.

 

É sempre bom ter os candidatos, ali frente a frente, dispostos a tudo e até a encetarem uma luta sem quartel pela posição. Confesso que o estudei, no entanto percebi que se aquele indivíduo se atirasse a mim, não me faltaria tempo para fugir, a não ser que me atirasse entretanto com a pesada mala de pele que um administrativo da Lisnave usava nos anos 60.

 

Observo a sala e apercebo-me que a empresa em questão tende a recrutar muitos indivíduos com algum tipo de deficiência. Foi uma coisa que me deixou contente, afinal também é dar uma oportunidade aos demais e promover uma verdadeira Responsabilidade Social. Pensava eu...

 

Tirando o tagarela de um dos colaborados que, ao invés de trabalhar, insistia em interromper os colegas com conversas sem interesse absolutamente nenhum, reinavam as caras de peixe cozido entre os colaboradores. Quero acreditar que estavam assim porque todos tinham perdido um familiar naquele dia.

 

De repente, uma porta abre-se e vejo um possível candidato à posição a sair acompanhado pela senhora com voz de bagaço e que alia a isso o facto de parecer uma autêntica matrafona, algo que eu não tinha visto no photoshop do website da empresa e no LinkedIn da mesma.

-Ai que bom, consegui juntar todos à mesma hora! - Disse, acompanhando com uma gargalhada.

 

"Ai que bom, consegui juntar todos à mesma hora"! Obviamente, nem que seja preciso fazer-vos esperar, porque se vocês estão à procura de emprego, é porque não têm mais nada que fazer! Ai que bom seria ter aqui uma garrafa de aguardente Aldeia Velha para  atirar a essa cabeça com voz de bagaço.

 

Entrou o meu rival, também sem um sorriso, aliás, o ânimo era imenso. Quem é que não quer recrutar uma pessoa assim? Lá fui esperando, lá consegui perceber que o meu rival conhecia alguém que conhecia o Director da empresa (podiam ter fechado a porta nessa parte) e que ali estavam apresentados e que o “Y” era amigo de “X”. Os risos aí foram muitos, aqueles risos cínicos e "very corporate". A entrevista deste não durou 10 minutos. 

 

Continua... 

 

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Porque é Importante Calcular Custos de Turnover...

por Robinson Kanes, em 23.05.17

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Joseph Mallord William Turner, Paz - Funeral no Mar  (Tate Britain)
Fonte da Imagem: Própria

 

O turnover ainda é encarado por muitos gestores como uma espécie de mal necessário ou como um meio de controlar as situações – de uma certa supremacia de quem gere face a quem é gerido. Altas taxas de turnover, contudo, não são somente uma consequência das políticas de má gestão de pessoas, mas também dos próprios colaboradores e das estruturas sindicais que, em muitos casos, ainda nem conhecem o conceito.

 

Todavia, o turnover tem custos e não são só para os departamentos de recursos humanos, que muitas vezes encaram este rácio como uma espécie de garante da qualidade do serviço prestado. Menos turnover continua a ser olhado como uma forma de justificar uma boa política de recrutamento mas também de alguma paz social nas organizações. No entanto, turnover é mais que isso. Segundo o “Center for American Progress”, num estudo realizado em 2012[1], a substituição de um colaborador nos Estados Unidos atinge o custo de um quinto do salário anual do mesmo (cerca de 21% para cargos executivos e 20% para salários acima dos 50.000 dólares anuais).

 

Temos de ter aqui em conta que existem diferentes realidades empresariais, diferentes áreas de actuação e, obviamente, não podemos olvidar os despedimentos que não visam a futura substituição do colaborador.

 

Contudo, como é que podemos inverter os números? Como é que num mercado que não é perfeito - e nem sempre assim é descrito nos livros e nas universidades - podemos melhorar resultados?

 

Se por um lado contratar colaboradores é fácil, contratar os melhores e sobretudo reter os mesmos torna-se mais complexo! Estive recentemente em conversa com um Director de Recursos Humanos que se orgulhava que a organização à qual pertencia havia recrutado mais de 57 colaboradores este ano! Notável, mas alguma impreparação do mesmo não o protegeu da questão fatal: e quantas rescisões existiram? Cerca de 70! Esses são, muitas vezes, os números que não surgem nas revistas.

 

O recrutamento é fundamental e nem sempre temos as melhores pessoas a recrutar, sobretudo em organizações que recrutam para outras! Temos ainda a questão dos prazos! Recrutar rápido e a todo o custo pode levar a erros dramáticos a curto-prazo! Acresce ainda a questão dos recrutamentos cuja escolha se baseia em premissas não profissionais e isso não acontece só em organizações propriamente ditas, também acontece em empresas de recrutamento e com as devidas consequências para o cliente final.

 

Mas que custos são estes? Que custos vão bem para além de uma potencial indemnização, por exemplo?

 

-Substituição temporária de um colaborador e também custos com o overtime (trabalho extra) de outros colaboradores (enquanto não preenchemos uma vaga os custos com o trabalho extra vão aumentar e também a produtividade pode ser afectada, nomeadamente com mais erros e menos produção propriamente dita);

-Custos de substituição: colocação de anúncios, despesas com empresas de recrutamento, screening (aqui do ponto de vista da observação inicial do currículo), despistes/análises, entrevistas e selecção de candidatos, background check (verificação de referências ou outras informações pertinentes), relocation (despesas de deslocalização, por exemplo), bónus de entrada...

-Custos com a formação: orientação, formação em sala, on-boarding (acolhimento do colaborador), certificações, on job training (formação em contexto de trabalho), uniformes, welcome kit (kit de boas-vindas), custos administrativos e legais;

-Baixa produtividade do colaborador que abandona a organização, nomeadamente nos últimos dias;

-Trabalho adicional para os demais colaboradores da equipa;

-Extensão da desmotivação a outros colaboradores;

-Com a entrada do novo colaborador um bom nível de produtividade não é imediato e a exposição ao erro e desperdícios é maior. A integração "perfeita" de um novo colaborador pode ir até aos 365 dias!

-Perda de clientes, sobretudo quando são os colaboradores a cara da organização;

-Má imagem da organização.

 

Contratar e despedir é fácil, o cerne da questão está em reter os colaboradores, mas, ainda mais que reter, é importante que estes estejam motivados (isso já é outro tema de que muito se fala e pouco se analisa). Não são raros os casos em que muitos preferem um salário mais baixo numa organização em detrimento de uma outra que renumera melhor.

 

No final todos ganham, a organização que vê os custos com o trabalho reduzidos e a produtividade pouco afectada, o colaborador que se entrega totalmente à organização e consequentemente os demais colaboradores que se podem dedicar inteiramente às suas funções sem sobrecarga adicional, sobretudo quando em alguns casos já estão bastante sobrecarregados...

 

[1] Boushey, Heather; Jane Glynn, Sarah Jane, “There Are Significant Business Costs to Replacing Employees”, Center for American Progress, November 2012

 

Algumas notas breves:

Turnover (aplicado aos recursos humanos): É a taxa de rotação dos colaboradores numa organização. Dentro desta taxa, existem diversas formas de calcular diferentes formas de turnover.

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Hyacinthe Rigaud, Retrato de Antoine Pâris (National Gallery)

Fonte: Própria

 

Quem pensava que títulos como Duque, Conde, Barão ou até Viscondessa eram coisas do passado pois que se desengane... Portugal sempre foi um país de títulos e mais se tornou quando a plebe, sob a veia republicana da libertação face a uma monarquia quase inexistente, decidiu chamar a si alguma posição social. Mas... de facto, a evolução do ser-humano leva tempo, sobretudo na fauna nacional onde a adaptação do ser ao meio tende a ser mais demorada.

 

Na verdade, muitos destes títulos ainda existem. É estranho, porque não existindo monarquia é o mesmo que sermos acossados por uma tomada de poder de um monarca e, o nosso Presidente da República conservar esse título. No entanto, sobretudo na plebe, muitos destes títulos adoptaram outro nome, nomeadamente os de Doutor, Engenheiro, Arquitecto e até Professor (quando muitas vezes o “detentor” nem sequer entrou numa faculdade). Por norma, este uso abusivo de títulos acontece em países subdesenvolvidos ou então com uma taxa de incompetentes ou inseguros tal, que é necessário ir buscar o status a esse mesmo título.

 

Afinal... tantas palavras para me recordar de uma reunião, há duas semanas, com um indivíduo que teimou em não perceber que a nossa organização ia fechar e insistiu em vender-nos serviços. Como gosto de ter tempo para toda a gente, recebi o mesmo.

 

Iniciada a reunião, virou-se para mim, com um ar um quanto para o boçal, mas até bastante simpático e solícito, expressando um:

 

-Engenheiro?

 

(Questão proferida enquanto fazia um ângulo obtuso com o braço estendo um cartão de visita.)

 

Confesso que existem respostas que deveriam ficar guardadas mas, perante a abordagem, a minha resposta imediata foi um:

 

-Não, hetero!

 

O rosto do senhor, que por acaso era engenheiro, empalideceu e, penso que, ou teve vontade de me atirar com o cartão à cara, ou então de se esconder num qualquer buraco debaixo da mesa.

 

Perante aquela expressão, levantei-me e respondi:

 

-Café, Sr. Paulo (nome fictício)? Este é do Comendador Nabeiro!

 

Também disse ao senhor que me chamava Robinson e no meu bilhete de identidade não constava esse nome. Acho que o Sr. Paulo não ficou foi muito contente que eu o tratasse pelo nome... aposto que lhe feri todos os sentimentos e status adquirido por pertença a uma corporação de milhões de pessoas por todo o mundo onde ele... é só mais um.

 

P.S: No cartão de visita do Sr. Paulo constava algo como:

 

Eng. Paulo X

CEO

 

(CEO de uma empresa com dois outros indivíduos?)

 

 

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No seguimento de um artigo de 21 de Novembro de 2016 (vide aqui) e como não devo ter que fazer num Sábado de Janeiro, volto a abordar um tema que me interessa bastante.

 

As intervenções ao nível da gestão baseadas nas artes podem assumir um sem número de formas que vão desde o teatro organizacional, workshops de teatro passando pela poesia, pintura, escultura, dança e até formações musicais dirigidas por maestros ou agrupamentos.

 

No entanto, ainda não percebemos o porquê desta importância. O que mudou? Porque são efectivamente necessárias as artes? Serão elas a solução? Será que as artes enfrentam também o dilema de se assumirem como um instrumento de desenvolvimento e sustentabilidade nas sociedades pós-modernas? Destaco alguns pontos, e acrescento outros, com base num estudo de Adler (Adler, 2006):

 

  • O modo como estamos interligados actualmente: o mundo gira de forma tão rápida e está de tal modo ligado que as técnicas de planeamento analíticas e pragmáticas não bastam, bem como uma simples oferta de produtos. É preciso inovar porque eventualmente os MBA como os conhecemos actualmente poderão estar obsoletos.

 

  • Domínio das forças de mercado: o sector privado é agora o grande actor internacional, com cerca de metade das 100 grandes economias a serem multinacionais e não países. Além de que os países estão mais limitados na prossecução de um estado providência. Como então garantir o sucesso da economia actual, garantindo a cidadania activa participativa e livre? A sociedade actual está em construção, é o momento dos artistas se afirmarem nessa construção com inputs válidos e benéficos para todos. Além disso, estes já não trabalham, como em épocas anteriores para regimes autoritários ou Estados tendo de voltar-se agora para o mercado.

 

  • Ambiente turbulento, complexo e caótico: o ambiente controlado já não existe, ou seja a melhoria contínua já não é suficiente. O que hoje é o “último grito”, amanhã estará obsoleto. Existe assim a profunda necessidade de ter o processo criativo em constante movimento dentro das empresas. Não basta gerir, é preciso criar e, não é por acaso que é lugar comum dizer que os artistas tendem a estar à frente do seu tempo. Acresce a questão da organização dentro das próprias empresas que já não funcionam em pirâmide (hierarquia) mas em rede. Também o trabalho “isolado” é neste contexto forçado a ser um trabalho em equipa. Aqui, os artistas podem desenvolver um papel preponderante, senão vejamos uma peça de teatro ou uma orquestra e imaginemos as lições de consistência e sucesso que daí podemos tirar no que concerne ao trabalho em equipa. Uma outra nota para o planeamento que não é mais o que era: improvisar e bem, saber reagir, estar atento são cada vez mais as palavras de ordem. Em tempo real é preciso reagir muitas vezes perante o fracasso do planeamento ou até diante da inutilidade do mesmo face a determinada adversidade. Para tal acontecer, é preciso criar relações entre as equipas assentes na confiança e na interacção. O planeamento sequencial está obsoleto. Quem melhor que um actor de teatro, por exemplo, para passar o conhecimento de como improvisar sem vacilar, atingindo o sucesso da peça?

 

  • A tecnologia reduz o custo da experimentação: mais que experimentar, actualmente procura-se criar, aliás os dois conceitos chegam a confundir-se. É fundamental que o espírito criativo esteja presente, posto que a própria tecnologia já é um garante de experimentação low-cost.

 

  • Sucesso: já não chegam os bons salários ou até o status laboral. São cada vez mais os indivíduos que procuram com o seu trabalho mudar as vidas de alguém, perceber que todo e qualquer acto tem a sua marca e muda alguma coisa. Esse tem sido um dos focos dos estudos sobre motivação no trabalho. Humanizar é preciso. O antigo Presidente dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy já dizia que “se os políticos soubessem poesia, e mais poetas soubessem de política, estou convencido que o mundo seria um lugar melhor para se viver” (Palavras proferidas num discurso na Universidade de Harvard a 14 de Junho de 1956 ainda como senador).

Teria Kennedy razão naquilo que dizia?

 

O estudo de Adler: 

Adler N. J. (2006), “The Arts & Leadership: Now that we can do anything, what will we do?” Academy of Management Learning & Education, Vol. 5, No. 4, 486-499.

 

Fonte da Imagem: www.pixbay.com

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Artes nos Modelos de Gestão...

por Robinson Kanes, em 21.11.16

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Segundo Fiske, para as artes terem um poder transformador nos indivíduos e nas organizações é fundamental criar uma experiência que envolva e ligue os indivíduos racional e emocionalmente através de uma participação activa ou passiva. No entanto, activamente estes mesmos indivíduos podem ser actores na construção não só de obras de arte, mas no fomento do desenvolvimento pessoal e organizacional. Por sua vez, esta participação activa tem benefícios mais efectivos não só no comportamento, mas nas capacidades cognitivas e sociais (Fiske, 1999).

 

A relação entre artistas e as organizações é fundamental por diversas razões e desde que a expressão “inovação” surgiu, parece ser de tal forma importante, que os artistas podem ser actualmente as pessoas certas para alavancar a inovação nas empresas.

 

Entre outras capacidades detidas pelos artistas, a capacidade de inovar é necessária: reinventar os próprios produtos, o processo e a performance de forma a que também a própria estrutura organizacional e a sua aproximação à realidade sejam concretizáveis.  Isto significa que as organizações têm de enveredar por uma tremenda mudança de mentalidade de modo a estarem preparadas para os desafios que vão surgindo.

 

Na gestão, por exemplo, as artes podem desempenhar dois papéis fundamentais: um deles passa por apresentar as artes como fonte de aprendizagem, criando uma espécie de ligação emocional e inspiracional para gestores e colaboradores. As mesmas podem ser utilizadas como modelo de transformação do capital organizacional e humano. O segundo papel é de que estas podem, como produto artístico, influenciar a dimensão estética e até comunicacional das organizações. Intervenções ao nível da gestão baseadas nas artes podem assumir um sem número de formas que vão desde o teatro organizacional, workshops de teatro e até de poesia, pintura, escultura, dança e formações musicais dirigidas por maestros ou agrupamentos (Stockil 2004, Nissley 2010).

 

Estaremos aptos a assumir estes compromissos? Artistas e empresas? Estaremos aptos a preparar um conjunto de intervenções que vão para além do mero team-building e permitam uma abordagem mais profunda quer ao nível do planeamento, quer ao nível da execução sem esquecermos a sempre difícil medição de impactes neste tipo de iniciativas?

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