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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Não é novo que um mês em Istambul me deixou agarrado àquela cidade e ao próprio país. Também por aqui já abordei um sentir da cidade de todas as culturas...

 

Se podemos falar de sugestões, nada como uma leitura por Orhan Pamuk, sobretudo do seu penúltimo livro "Uma Estranheza em Mim". Pamuk é o cronista de Istambul na primeira pessoa e foi também graças a escritor que me foi possível compreender a dinâmica desta cidade, fora dos livros de história e sociologia, bem para lá de Sultanahamet ou Galata... O que parece um livro sem fim e que lentamente vai contar a história do vendedor de boza (Mevlut Karatas) sem grande entusiasmo, transporta-nos para as ruas dos "novos" bairros pobres que contribuiram para que entre 1969 e anos mais recentes a cidade aumentasse de 3 para 13 milhões de habitantes. Mas a história começa numa aldeia Anatólia Central e é aí que vamos sendo levados pontualmente numa espécie de contraste com a própria Istambul, ou entre a Turquia profunda e a Turquia mais cosmopolita.

 

Não é de todo um livro inacessível, aliás, é uma lição de história, cultura, antropologia, urbanismo e até felicidade... Com especial interesse nessa última área, encontrei aí um bom exemplo de estudo, embora seja pouco ou nada mencionado nas criticas que vi à obra, por norma sempre pesadas e que tendem a afastar leitores mais cépticos - aliás, em música, literatura, pintura e outras artes nunca entendi esta forma europeia de complexificar tanto as coisas que a dita democratização das artes parece uma miragem. Não se assustem, assim que começarem a ler não vão querer parar e o discurso é simples, é mais fácil compreender o livro que as análises ao mesmo. 

 

IMG_20170904_091802.jpgPode também parecer "tolo", mas a par das peripécias que envolvem o casamento de Mevlut, não consegui deixar de pensar na prática do "casamento e fuga" também alvo da etnologia no contexto da comunidade piscatória da Nazaré. É Istambul no seu dia-a-dia, da pressão do Estado, das máfias "bondosas" que acabam por comandar os submundos e os destinos de muitos, é a felicidade com pouco, mas com fortes alicerces na família (primos), nos amigos (Ferhat) e naqueles que encontramos dia-a-dia - interessante a relação que Mevlut acabará por ter com o " Santo Guia". É um relato realista, sem qualquer fantasia mas também sem qualquer necessidade de adensar a tristeza. Discordo quando a obra é tida como uma "novela trágica"... Só de um sofá numa confortável cidade europeia podemos tecer tal afirmação...

 

 É a realidade aqui tão bem escrita e que me transporta para aquele mês em que vi muito do que nestas páginas é apresentado. Como eu, chego à conclusão que no misto de tristeza e encanto com Istambul, também Mevlut é um apaixonado pela mesma.

 

 

É envolvente como, com o livro a meio, e ainda antes de fecharmos os olhos, nos deitamos na nossa cama e temos a sensação de ouvir lá fora a personagem de Mevlut a apregoar "Boooooooo-zaaaaaaaa". Experimentem e deixem a noite alta chegar e ouçam o som da vossa cidade, vila ou aldeia...

 

Finalmente, uma nota musical para me lembrar esta cidade: os "Light in Babylon", uma banda turca de Istambul com várias influências, ou não fosse Istambul uma mescla de povos e culturas. Não sou confesso adepto da voz da vocalista, contudo, não deixa de ser um banda que me atrai pelos temas explorados, pelas letras e sobretudo pelos ritmos árabes, turcos e judaicos. Uma das minhas composições preferidas tem o nome da cidade: "Istambul".

 

 

É uma das companhias para alguns crespúsculos e sobretudo para recordar terras distantes ou, como Mevlut, percorrer os diferentes bairros de Istambul. A encontrar o vendedor de boza - coisa rara - e a descobrir naqueles olhos as inquietações do seu dia-a-dia que só era, apesar do cansaço e árduo trabalho, enriquecido com a venda desta iguaria. Talvez as ruas de Istambul sejam perfeitas para isso, talvez sejam um misto de inquietação e paz que nos transporta para outra dimensão enquanto um simit nos alimenta o estômago e a alma.

 

Deixo mais uma das músicas que aprecio desta banda, 

  

 

 Boa Semana...

 

Boza: bebida tradicional asiática à base de trigo fermentado, de consistência grossa, cor amarelo-torrado e de baixa graduação.

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Sexta-feira, o dia já conhecido pela actividade que me há-de acompanhar toda a vida: passar-a-ferro.

 

Lamento não ter texto sobre uma cidade onde vivi três meses e que foi alvo de um atentado, mas confesso (do ponto de vista pessoal) que não sigo a loucura dos "bicos de pés", vulgo hashtags... Posto que, quando a poeira assentar e termos percebido um pouco o que se passou, vou voltar ao assunto. Espero que as "Madres-Teresa de Calcutá" aproveitem também para partilhar fotos com os cadáveres dos mais de 50 civis que morreram esta semana na Síria "por engano" e durante um ataque da coligação. Eu sei que dizer que se esteve ou está em Barcelona é mais cool, mas Damasco é logo a seguir a Ankara e além disso tem uma história milenar.

 

Hoje pensava falar de uma zona de praia e de mar, mas a revolta que por aqui vai com os incêndios é maior e não pretendo ser mais um a dizer que está muito preocupado com a temática ao mesmo tempo que tira uma foto a beber uma caipirinha no Algarve ou num outro destino qualquer.

 

Deste modo, esta semana deixo também a música de lado e parto para os livros: "A Farsa" de Raúl Brandão e a personagem de "Candidinha" fazem-nos querer matar tal figura logo de início e, sobretudo no fim da obra, quase que nos sentimos vingados com a morte do filho. Deixo que leiam este livro de desencanto com o mundo, ódio e ambição bem pincelada de tristeza, em suma, um expressionismo e neo-romantismo bastante característicos da obra de Raúl Brandão.

 

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Fonte da Imagem: Própria 

 

E como os temas estão fortes, revisito também Gabriel Garcia Márquez (parece que ando em maratona com o génio) e o seu "Outono do Patriarca". Sem entrar em grandes revelações, é interessante a leitura na medida em que é um retrato fiel de muitos ditadores e marca a literatura de uma época (apesar da obra estar bastante actual) que se debateu também nesta matéria - nomes como Miguel Angel Asturias ou Augusto Roa Bastos são bons exemplos. Garcia Márquez é conhecido pelas suas descrições violentas, mas aqui tem um toque especial, pois no fundo é um relato com espaço para toda a imaginação e espelho do real do autor sobressairem num máximo esplendor. Provavelmente ainda voltarei a este livro para a semana.

 

E um filme? Imaginem que numa só pelicula conseguem ter Sean Connery, Michael Caine (uma vénia), Robert Redford (idem), Gene Hackman (idem), Dirk Bogarde (de "Morte em Veneza"), Antonhy Hopkins (outra vénia), Edward Fox, Ryan O'Neil (gostei dele em "Barry Lindon"), James Caan,  Lawrence Olivier  e um outro sem número de estrelas.

 

Se gostarem do género, somem o facto de ser um filme de guerra, baseado numa conhecida operação militar da 2ª Guerra Mundial, nomeadamente a "Operação Market Garden" (e também no livro de Cornelius Ryan)!

 

Quem já andou pela Holanda e não ficou só por Amesterdão decerto passou pela icónica ponte de Arnhem - é aí que a missão falha redondamente para o lado dos aliados, que animados pela "vitória" na Normandia tentam entrar na Alemanha pela Holanda conquistando várias pontes.

 

O filme realizado por Richard Attenborough tem o nome de "A Bridge too Far". O nome ficou famoso, pois na realidade, o Tenente-General "Boy" Browning (interpretado por Dirk Bogarde no filme) virou-se para um optimista General Montgomery e disse que os aliados tentaram ir longe demais, neste caso, uma ponte longe demais. Se gostaram de Anthropoid, que já teve por aqui um artigo, vão adorar este. Aposto também que, ao fim de 3 horas de filme, vão assobiar durante muitos dias a banda sonora de John Addison. Com estes actores e com mais uma lição de história, não tenho dúvidas que o fim-de-semana ou a semana têm tudo para ser mais animados... Ideal para o pós-ferro e para quem sabe que já não se assiste a um bom filme de guerra desde "O Resgate do Soldado Ryan".

 

E não me acusem de ser saudosista ou velho! Em 1977, penso que ainda nem os meus pais se tinham conhecido.

 

Bom fim-de-semana...

 

P.S: A ponte de Arnhem tem agora o nome de "Ponte John Frost" em homenagem ao Tenente-Coronel John Frost que esteve à frente das tropas aerotransportadas que defenderem a ponte naquele fatídico mês de setembro. Esta personagem é interpretada no filme por Anthony Hopkins (uma vénia).

 

Actualização a 19/08: Se repararam, tive o meu momento à Jorge Jesus no último parágrafo quando escrevi "defenderem" ao invéms de "defenderam".

 

 

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Na Flor da Rosa com "La Traviata"...

por Robinson Kanes, em 04.08.17

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Fonte das Imagens: Própria. 

 

Dizem que este espaço andou à boa vida por estes dias... É possível, desde que não seja atacado pela silly season ainda se vai tolerando...

 

Esta semana, e posto que ainda se vai relendo o Sr. Garcia Márquez e o seu "Amor em Tempos de Cólera" - Fermina Daza volta a pensar em Florentino Ariza, mas lá acaba por se aproximar mais uma vez de Juvenal Urbino - deixo apenas uma sugestão que combina música e representação: a ópera "La Traviata" de Verdi... Por aqui até costumamos dizer, "Não é que não houvesse, haver havia, mas eram verdis".

 

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E porquê "La Traviata"? Primeiro porque tivemos a experiência de assistir a esta ópera em exterior, mais propriamente no jardim da Pousada do Convento da Flor da Rosa (localidade no concelho do Crato), numa noite quente e onde a companhia "Ópera del Mediterráneo" deu um espectáculo daqueles, sobretudo a Soprano Gema Scabal (Violetta) e o Barítono Carlos Andrade (Giorgio Germont). Falta "Alfredo", mas Vicenç Esteve Madrid poderia ter estado melhor. O facto de se ter realizado no Convento da Flor da Rosa e de ser "La Traviata" não nos fez hesitar um minuto, sobretudo quando já tinhamos visto Rolando Villazón e Anna Netrebko nos papéis de Alfredo e Violetta. O cenário é fascinante, não se nota tanto pseudo-elitismo e o convento fica situado dentro da aldeia - enquanto a ópera se desenrolava sob a luz das estrelas conseguíamos ouvir pontualmente os cães a ladrar e os sinos a tocar - ao invés de prejudicarem a peça, só lhe deram mais força!

 

Mas a "La Traviata"... Adoro esta ópera, apesar de algum dramatismo exagerado, talvez pela inspiração que a mesma tem na obra de Alexandre Dumas Filho, "A Dama das Camélias" (o libretto é de Francesco Maria Piave). No entanto, é também apaixonante na medida em que estreou em 1853 numa das mais belas salas de ópera que conheço, a "La Fenice" (em Veneza) e depois porque tem árias como "Libiamo ne' lieti calici", "Sempre Libera" e "Addio del passato"... Verdadeiramente brilhantes e das quais partilho convosco alguns vídeos. 

 

A história? Tudo começa com um baile em casa de Violetta, uma cortesã mundana, e a quem é apresentado Alfredo, um nobre que se apaixona por esta, mesmo sabendo que existe um amante: o Barão Douphol. Perante a abordagem de Alfredo, Violetta admite sempre ser incapaz de amar pois mais uma vez é uma imoral mundana! A ária "Sempre Libera" vem daí e perante a insistência de Alfredo à qual Violetta acaba por ceder. Acabam ir viver juntos para a casa de campo da cortesã.

 

Será também na casa de campo que Alfredo descobre as dificuldades financeiras de Violetta e secretamente se oferece para as colmatar. Contudo, O Sr. Germont, pai de Alfredo e regressado da Provença, receando ver o seu filho enamorado por uma cortesã de má fama, pede a esta que se afaste do seu amado sob pena da irmã de Alfredo não ser desposada e do nome da família ficar manchado. Violetta acaba por ceder, contra todos os seus desejos, e abandona Alfredo. Já vi isto em qualquer lado...

 

O reencontro dá-se quando Violetta aceita o convite para uma festa em casa da amiga Flora e se faz acompanhar pelo Barão... Nessa festa está também Alfredo que entra em vários desafios com o Barão, quer no jogo (onde o vence) quer depois quando o desafia para um duelo! Este desafio surge porque, a sós com Violetta, Alfredo tenta reaver a sua amada mas esta, satisfazendo o pai de Alfredo, diz amar só e só o Barão! Alfredo humilha e trata Violetta como uma prostituta, chama todos os convidados e atira o dinheiro ganho no jogo para cima desta e sente o repúdio de todos, inclusive do pai que entra em cena já no fim do segundo acto.

 

Violetta abre mais um acto numa Paris que celebra o Carnaval, tísica e esquecida pelos amigos, excepto Grenvil, médico e amigo (mais um toque de Verdi à sociedade da época). É aqui que recebe uma carta do pai de Alfredo e onde este confessa ter falado ao filho do sacrifício de Violetta. Giorgio Germont diz também na carta que Alfredo se encontra a caminho para pedir o seu perdão. Violetta, contudo, teme que Alfredo não chegue a tempo e é aqui que canta "Addio del passato bei sogni ridenti"... Maravilhoso!!! A gravação da albanesa Ermonela Jaho (último vídeo) é um hino!

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Alfredo chega entretanto, acreditando que o amor vencerá a doença mas... Logo após a chegada deste, de Grenvil e de Giorgio Germont, Violetta cai sob os seus braços e morre, não sem antes ter conseguido forças e esperança para acreditar num amor tão poderoso capaz de desafiar o destino cruel.

 

Como muitos lhe chamaram, uma ópera imoral... Eu iria mais longe e diria que é uma ópera romântica e real que aos morais de capote provoca o asco de se reverem em alguns comportamentos. Uma ópera cujo amor vence tudo, mas só não vence a doença. Um amor que não pode escapar ao destino mortal mas tem de escapar ao, muitas vezes, desejo de morte e à moral.   Sobre isso, dizia Ferreira de Castro (in "A Experiência") que "uma moral, qualquer que seja, se, por um lado, se renova, por outro envelhece, e há normas de moralidade colectiva que, com o tempo, revelam toda a sua desumanidade e tornam-se, portanto, imorais".

 

Apesar da morte de Violetta, talvez seja a lição de que o amor por nada deve ser trocado e contra tudo e contra todos deve ser defendido, porque só a morte tem o direito natural de pôr fim a tudo.

 

Bom fim de semana...

 

As três árias para vos contagiar:

 

"Libiamo ne'lieti calici"

 

 

"Sempre Libera"

 

 

 

"Addio del passato"

 

 

 

 

 

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"Friday I'm In Love"...

por Robinson Kanes, em 28.07.17

 

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 Fonte da Imagem: Própria

 

Aí está o fim de semana e com ele o delírio daqueles que trabalham cinco dias para viverem um e deprimirem a partir das 13 horas do segundo...

 

Por aqui deixo uma pergunta, já foram a Tourém? Então nada como ir até ao artigo de ontem, pode ser uma óptima sugestão para vos encher de boas energias ao invés de lastimarem a infelicidade de terem um trabalho e ainda terem tempo de descanso...

 

O tema dos incêndios também tem sido uma tónica cá por casa, pelo que será necessário descomprimir antes que me sejam colocadas as malas à porta. Na leitura não será,  pois por aqui continua-se a reler Gabriel Garcia Márquez e o seu "Amor Nos Tempos de Cólera". Quem viu o filme e gostou, após ler o livro vai mudar de opinião em relação ao primeiro. Mas... Apesar de arrebatadores e geniais, os livros de Garcia Márquez não são propriamente os que nos colocam mais felizes...

 

Por tudo isto, lembrei-me da banda sonora desta semana: "The Cure" - aquele rock com um sotaque british bem vincado na voz de Roberth Smith, o vocalista da banda nascida nos anos 70 e que sobreviveu aos ricos anos 80 e ainda conseguiu atingir o apogeu nos anos 90! É a banda ideal para ouvir enquanto se conduz na cidade enquanto outros, fechados nos seus automóveis, apresentam a tradicional cara de atum. Destaco três músicas que estão incluídas no "Best Of" mais "recente" da banda - três porque não poderia esquecer "Friday I'm In Love"! As outras duas são "Why Can't Be You" (adoro além de que é das melhores para andar no trânsito - ver no final do artigo ) e "Mint Car" (ideal para filas longas - idem).

 

 

Um filme? Poderia pensar em vários mas talvez opte por uma produção francesa de Yann Samuell com Guillaume Canet e a belle Marion Cotillard. O filme é "Jeux d'enfants" ("Love Me if you Dare", em inglês). Uma história de amor, mais leve e mais animada que decorre em torno de um jogo, ideal para quem gosta de amores difíceis, e com alguns apontamentos mais sérios onde destaco a questão da morte e de levarmos a enganadora vida perfeita ao lado de quem não amamos... No final, uns conseguem corrigir o erro e viver o seu grande amor, outros nem por isso. Abaixo fica o trailler para os apaixonados.

 

 

Bom fim de semana e até terça-feira.

 

Abaixo as outras duas sugestões dos "The Cure".

 

"Why Can't Be You"

 

 "Mint Car"

 

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Fonte da Imagem: Própria

 

Amanhã andarei ausente, ou melhor, vou andar noutras paragens deste mundo que é a blogolândia...

 

Também não irei estar agarrado ao ferro! Contudo, nem só o ferro nos inspira, pelo que aponto para algumas sugestões a ter em conta para o fim de semana e para a semana!

 

Terminada a obra "Uma Fenda na Muralha" de Alves Redol,  pergunto: como é que com tanto filme já realizado, ainda não se fez um filme baseado nesta obra? O argumento está praticamente feito e a mestria de Redol é latente. Se este livro chega a Hollywood temos filme para óscares, bem melhor que o "Perfect Storm" de Wolfgang Petersen. Foi esse o motivo que me fez arrancar  para a "Barca dos Sete Lemes", também de Redol. Deixei a Nazaré com o arrais "Zé Diabo" de "Uma Fenda na Muralha" e rumei ao não menos árduo Ribatejo! Ao cabo de 100 páginas, posso dizer que não me arrependo minimamente, ou não fosse o neo-realismo uma das minhas correntes de eleição. O modo como Redol olha para estas gentes é de uma proximidade e carácter etnológico surpreendentes. Num discurso simples mas aritisticamente talhado faz-nos questionar e admirar uma realidade que não tem assim tantos anos e não é diferente de muitas que encontramos nos dias de hoje.

 

Para um passeio, porque não a Praia de Vale Figueiras, a Praia da Arrifana ou até a Praia da Amoreira? Sigam os artigos já publicados clicando nas mesmas.

 

Uma música para o fim de semana? Talvez inspirado pelo filme que vou sugerir, recomendo o albúm "La Sublime Porte - Voix d'Istambul" de Jordi Savall. A música otomana, arménia e judaíca conjugam-se em notas e ritmos que nos vão transportar para a época em que o Palácio de Topkapi (Istambul) era um dos mais movimentados e a sua corte uma das mais poderosas do mundo! É de facto uma obra fascinante e que nos faz crescer, aprender e sonhar! Perfeito seria ficar numa das varandas do palácio a contemplar o Bósforo e a ouvir estas sonoridades...

 

Finalmente, um filme! Cinema turco, "Babam ve Oglum / Meu Pai e Meu Filho": devo dizer-vos que é um filme que me encantou desde o início porque nos leva de Istambul para Izmir e traz-me saudades daqueles 30 dias em que fui turco. No entanto, o filme  de Çagan Irmak começa trágicamente com uma morte no parto e leva-nos à Turquia dos anos 70-80, e dos seus golpes militares. Do filho que regressa a casa do pai e que agora traz também consigo o seu próprio filho! A luta e o reencontro entre pai, filho e neto, bem como algumas pequenas passagens que nos dão algumas lições de vida na relação entre parentes tão próximos. É claríssimo ao longo do filme alma turca, sobretudo daqueles que vivem fora de Istambul, da aspereza (muitas vezes exterior apenas) dos homens e da sensibilidade, carinho e doçura das mulheres daquela região, as gargalhadas de Nuran são um dos melhores exemplos. Mais não conto, vejam por vocês próprios, o filme existe com legendas em inglês se procurarem por aí... Uma nota para a banda sonora que deu o prémio de revelação do ano 2006 nos "World Soundtrack Awards" a Evanthia Reboutsika.

 

Bom fim de semana ou Bom trabalho...

 

Uma nota do disco "La Sublime Porte - Voix d'Istambul"

 (Aguarda Resolução de Problemas por parte do Sapo)

O trailer em inglês de "Babam ve Oglum"

(Aguarda Resolução de Problemas por parte do Sapo) 

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Fonte da Imagem: Própria 

 

É sexta-feira e lá vou ter de regressar ao ferro. Levantar pesos e ser o rei do ginásio? Não! Ser mesmo o rei do ferro de engomar! Três calças, umas 6 camisas, duas t-shirts, duas toalhas de mesa, guardanapos e mais umas coisas. Lamento... Não passo roupa interior e por vezes nem lençóis! Há vida para além do ferro...

 

E, como sempre que passo a ferro, surgem-me sempre algumas ideias. Por exemplo, e sabendo vós que me considero mediterrânico por excelência (excepto no trabalho), vou ter a companhia de um dos meus guilty pleasures, nomeadamente música italiana (eu sei, não se pode ser perfeito)! Tenho um gosto especial por música italiana e espanhola... Decidi assim que, quem me vai acompanhar vai ser a napolitana e giríssima Simona Molinari! Destaco duas músicas, até porque uma delas tem outro dos meus artistas de eleição, o norte-americano Peter Cincotti. A primeira, "Dr Jekyll Mr Hyde" (2013), um dueto super animado e que convida à dança e a muitos sorrisos! A outra, "Egocentrica" (2019), vincadamente actual e com a voz de Molinari  em todo o seu esplendor. Esta senhora é um espanto!

 

Como vem aí o fim de semana, e como o Verão não é só praia, porque não uma leitura? Actualmente encontro-me a ler "Uma Fenda na Muralha" de Alves Redol. Ao fim de 179 páginas, posso dizer que me fez reencontrar o espírito da Nazaré e voltar a sentir uma paixão especial por aquele lugar! A Nazaré, do ponto de vista etnológico teve um grande significado para mim, sobretudo por influência do grande Professor Trindade e da forma espectacular (ou este não fosse nazareno) com que falava daquela sociedade matriarcal! Lançou, aliás, um livro “A Nazaré dos Pescadores – Identidade e Transformação de uma Comunidade Marítima”. Foi o Professor Trindade que me apresentou a obra de Jan Brogger, "Pescadores e pés-calçados", uma viagem a mundo real e duro daquela comunidade! Mas voltemos a Alves Redol que, nesta obra, nos transporta para a luta e vida dos "embarcadiços", do medo, do pânico e dos desafios em terra... O neo-realismo português no seu expoente máximo e de uma intensidade apaixonante, ou não fosse um filho de Vila Franca de Xira! A ler, sem dúvida... Até nos dá lições de liderança, que tanto se fala, mas tanto escasseia:

 

Mais do que os outros, menos no medo para fora, porque para dentro todos os homens são iguais. Quando digo «vamos à vante!» apetece-me dizer «vamos para terra» […] Ser arrais é bom, mas sem esta coisa danada de não poder chamar um camarada para junto de mim e dizer-lhe também o que sinto.

Alves Redol, in   "Uma Fenda na Muralha"

 

Bom fim de semana...

 

Ah! A Simona...

Simona Molinari e Peter Cincotti - Dr. Jekyll Mr. Hyde

 Simona Molinari - Egocentrica

 

 

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Um Fim de Semana La Bohéme

por Robinson Kanes, em 28.04.17

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Fonte das Imagens: Própria

 

 

Não é bem a vida que faz falta - só aquilo que a  faz viver.

Vergílio Ferreira  in  "Para Sempre"

 

Já há algum tempo que não falo de sugestões para o fim de semana. Talvez por tédio, talvez porque outros temas se descobrem, talvez por... apatia.

 

Lembrei-me de recomendar uma ópera, uma das minhas grandes paixões, uma ópera verdadeira, simples e até contestada, sobretudo o seu compositor (Giacomo Puccini), por ter escolhido como personagens principais figuras do povo.

 

Sou seguidor confesso de Puccini e, La Bohéme é talvez uma daquelas óperas mágicas. Pode não agradar a muitos pseudo-intelectuais que a acusam de ser uma ópera de povo, uma ópera básica no seu argumento... talvez por ser uma Ópera verdadeira que fala do verdadeiro amor e da realidade como ela é... talvez, por isso, não seja do agrado dessa pseudo-elite.

 

Tive oportunidade, e a honra, de assistir a esta ópera ao vivo, em Praga, mais precisamente no Národiní Divadlo (Teatro Nacional). Mais honra tive de, ao sair, encontrar a neve a cobrir de branco aquela noite escura de Novembro e a most Legií. A neve é uma constante nesta peça... aliás, é ela que acompanha a chegada de Mimi e apadrinha também o seu desespero quando se sente perdida sem Rodolfo. É a queda de neve e o frio que lá foram embalam Mimi quando se despede de Rodolfo e dos seus amigos: Marcello, Colline, Schaunard e a bela Musetta. Devo dizer-vos que beijar apaixonadamente a minha miúda depois daquela ópera, ali mesmo em cima da ponte, naquela noite fria de Praga, é um momento que ainda não esqueci... sobretudo porque eu me encontrava vestido como um praticante de trail e ela como uma princesa, qual Turandot...

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Esta é uma ópera na Paris de 1830, dominada pela pobreza, pela fome e pelo frio... é uma ópera da vida como ela é, do amor real, de vidas perdidas e deambulantes nas grandes cidades, da pobreza, do quotidiano... sem magia, sem a beleza dos grandes palácios. Não encanta os pedantes, muito menos encanta quem almeja um dia ser uma elite. Mas acredito, que encanta todos os outros, desde os mais pobres às verdadeiras elites.

 

O amor e a simplicidade de Mimi, admito, comovem-me ao longo de toda a obra... e destaco Mirella Freni como a minha intérprete preferida neste papel. Confesso que uma das minhas grandes surpresas foi o papel de Musetta, brilhantemente interpretado em Praga por Marie Fajtová e com especial destaque para a interpretação de "Quando m'en vo". A forma como Mimi se apresenta com "Se mi chiamano Mimi" é algo de único... bem como Rodolfo com o seu "Che gelida manina" e "Oh soave fanciulla".

 

Deixo-vos a ópera completa, aliás, até é a versão em DVD que tenho em casa com a Mirella Freni e uma das minhas preferidas (existem outras mais recentes e com tradução, ou então podem ouvir apenas). Aos que estão sozinhos, deixem-se envolver e quem sabe a Mimi vos entre pela porta, ou o Rodolfo... aos que estão acompanhados, pois que se deixem contagiar pelo carisma de Rodolfo e pela pureza de Mimi, talvez porque como dizia Delhomme, "a eternidade do instante é a sua profundeza, não a sua extensão".

 

Bom fim de Semana

 

 

 

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Boa Páscoa e Esqueçam as Cruzes!

por Robinson Kanes, em 13.04.17

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Michelangelo Merisi da Caravaggio, A Deposição de Cristo (Museus do Vaticano)
Fonte da Imagem: Própria

 

Pois é, católicos e não católicos e... católicos não praticantes que é a mesma coisa que não católicos mas com o lado bom de ser católico quando dá jeito, especialmente nos feriados.

 

Vem aí a Páscoa e, embora não vá muito à Igreja, confesso que esta época vale sobretudo pelo facto de podermos reflectir e estar com a família ou com aqueles de quem gostamos. Também tendo a pensar no crucificado que nasceu há 2017 anos e nos insistem em dizer que morreu por nós. Se morreu por nós não deve ter servido de muito, até porque o que não falta são cruzes por ocupar e outras tantas que foram sendo ocupadas. 

 

Mas a Páscoa é sobretudo isso e, embora não esteja por terras portuguesas, devo dizer que pode ser um tempo para telefornarmos àquelas pessoas de quem gostamos ou que já nem telefonamos há séculos... eu sei que isso se faz no Natal, mas... porque não na Páscoa? Será porque nesta época não se dão presentes ou porque aquela mensagem não tem impacte:

 

 

 A família Martins deseja a todos os seus amigos uma santa e feliz Páscoa, pois estamos sempre a pensar em vocês, mas só conseguimos comunicar convosco quando aproveitamos a mensagem de felicidades da mãe do Carlos e direccionamos para todos os contactos. Que continuem a ter um bom ano, no Natal, como vossos amigos que somos voltaremos ao contacto.

 

Aproveitem a Páscoa como qualquer outra época, aproveitem-na e vivam-na intensamente. Não pensem tanto na cruz e pensem no modo como o crucificado se pôs a andar e ninguém deu por ele, aliás, até hoje não lhe encontraram o rasto... acredito que terá pensado, certamente, que tinha carregado a sua cruz e que cada qual agora que carregasse a sua - "já me tramasteis muito, mas a mim não me tramais mais".

 

Feliz Páscoa... e até segunda...

 

E a melhor banda sonora para a Páscoa não podia deixar de ser a obra-prima de J. S. Bach: "A Paixão Segundo S. Mateus", bem a propósito. Vale cada minuto das quase 3 horas de duração... mesmo para quem não gosta.

 

 

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Fim de Semana o Cão e o Ribatejo!

por Robinson Kanes, em 07.04.17

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Fonte das Imagens: Própria 

 

Com o fim de semana à porta, vem também a limpeza e o engomar. A isto, alia-se o limpar o carro, escovar o cão e...

 

Contudo, ultimamente denotei um pormenor. Tenho o hábito, sempre que estou a passar a ferro, de ouvir música. Isso não é novo. No entanto, tenho-me deparado que existem músicas que confortam mais o meu cão que outras. Por exemplo, reparei que Mozart não é o estilo do canídeo (excepto o Requiem). Todavia, se ouvir Rachmaninoff ou até Tchaikovsky o senhor da casa fica mais sereno e até parece apreciar as composições. Mas não é só música clássica! Uma das paixões do príncipe, e também minha, é Diana Krall... Acredito que esta noite, entre ferro e limpezas, vou ser acompanhado pelas "Quiet Nights" - não é inédito, é um clássico de Bossa Nova de 1963 e com o título original de "Corcovado" - com a autoria do Mestre Jobim. Contudo, na voz desta senhora, tudo é tão... mágico... (sugiro a compra do CD a quem o possa fazer, pois o leque de composições merece bem a pena).

 

Uma sugestão para o fim de semana? Quem não for em romaria à praia pode sempre ir até ao Ribatejo - e este a dar-lhe com o Ribatejo - parece-me ser uma escolha óptima. Se acham que não, vejam as imagens e estas nem são nada distantes de Lisboa.

 

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Talvez tenha uma relação especial com este território, sobretudo com as suas gentes e com a proximidade que nos é trazida com a terra, com os animais, com o trabalho árduo mas apaixonado, com algum marialvismo e garra bem ribatejanos... é bom olhar a corrente do Tejo, o ar do Sorraia e ao longe apreciar o desfile de cabeças de gado ou então das cegonhas com o seu "tac tac tac tac"...

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(ao fundo, uma Garça Real)

 

Numa semana onde a Humanidade perdeu mais um pouco daquilo que lhe dá nome, parece ser uma oportunidade para relaxar e aproveitar as "Quiet Nights" do Ribatejo, agradecendo o barulho das aves nocturnas ao invés do som da morte...

 

Bom fim de semana...

 

As "Quiet Nights"...

 

 

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Um Fim de Semana Com o Felix!

por Robinson Kanes, em 31.03.17

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Almada Negreiros, Sem Título (Colecção Privada)
Fonte da Imagem: Própria

 

 

No momento em que escrevo este texto encontro-me numa turbulência (não é metáfora) daquelas em que até os “palradores” do costume se calaram. Mas senti que devia escrever, será que começo a sentir o peso da responsabilidade para com quem ainda perde algum tempo a ler-me?

 

Como é sexta-feira, (ou vai ser porque estou a escrever isto numa quinta-feira) é o dia em que falo de algumas coisas que me agradam, que me deixam contente e de bem com a vida - para trás Satanás, hoje nada me farás pois o Senhor é o meu Pastor!

 

Esta quinta-feira, pela manhã, que afinal é sexta-feira, dei comigo a percorrer a ponte Vasco da Gama e a usufruir de uma sonoridade que, quem fosse ao meu lado, julgaria que na minha humilde viatura se ouvia AC/DC ou Rolling Stones, mas não... estava a “curtir uma bela de uma malha” de Mendelssohn, mais propriamente “Die Hebriden” também conhecida como "Fingal's Cave". Se acrescentar Opus 26 acham que soará muito a pedante da Antena 2?

 

Surgiu por acaso... num CD de clássicos que tenho no carro. E não é que soube mesmo bem atravessar o Tejo qual falua em busca de amêijoa ilegal! O Pastor Alemão que ia atrás adorou, aliás, contemplou o Tejo, como é seu hábito, naquele ar nobre e distinto que tal figura arrogante teima em não perder. Não lhe conhecia a faceta de Mendelssohn, devo confessar... talvez seja por partilharem a nacionalidade.

 

O poema sinfónico, embora dedicado ao Principe da Prússia e apresentado em Londres durante o ano de 1832, não é mais que uma abertura de homenagem à Gruta de Fingal, em Staffa, uma das ilhas Hébridas Interiores na costa da Escócia. 

 

Uma leitura para o fim de semana? O “Inverno do Nosso Descontentamento” de Steinbeck, bastante actual quando muita gente parece nem sequer questionar os valores que regem a vida em sociedade, em família e até do ponto de vista do indivíduo... onde vale tudo por um salário, pelo pagamento de um empréstimo ou simplesmente por um show off bacoco. Ler este livro é viver muito do que se encontra no nosso quotidiano.

 

 

Na pobreza é invejosa. Na riqueza pode ser arrogante. O Dinheiro não altera a doença, apenas os sintomas. John Steinbeck, in "O Inverno do Nosso Descontentamento".

 

Bom fim de semana e vão ver o Almada Negreiros à Gulbenkian!

 

Ah! O Felix, e logo com a London Symphony e o Mestre Sir John Eliot Gardiner:

 

 

 

 

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