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Sr. Presidente, Não Somos Nada Bons!

por Robinson Kanes, em 18.07.17

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Fonte da Imagem: https://imagens.publicocdn.com/imagens.aspx/598837?tp=KM&db=IMAGENS&w=823

 

É fácil a voz da grandeza, quando a pequenez está calada.

Vergílio Ferreira, in "Rápida a Sombra"

 

 

Por estes dias o Sr. Presidente da República anunciou ao mundo que nós, portugueses, somos mesmo muito bons!

 

Proferir estas palavras com meio país a arder é sem dúvida um momento ideal para reforçar a alma lusitana que se encontra a banhos e pouco interessada com o que se passa no resto do país. A grande "vantagem" de Alijó e Almeida é que não existiram mortos e como não existiram mortos não há problema! Em Portugal, para se "abrir os olhos", é sempre necessário para cima de 50 mortos, no mínimo.  

 

Talvez enquanto estivesse no México, o Sr. Presidente não estivesse em Alijó intoxicado pelo fumo como eu estive ou não tivesse sentido a nuvem de fumo que já se sentia quando se entrava em Espanha por Calvos! Calvos, Sr. Presidente, são 176km! Talvez enquanto estivesse no México a falar de alegrias não se deparasse com o desespero, mais uma vez, das populações. De facto, Portugal é um país de gente maravilhosa mas que continua a não compreeender, por exemplo, como é que somos o único país do sul da Europa que não tem meios-aéreos de combate a incêncios afectos à Força Aérea! Interessante... Pois somos também aquele que tem maior número de área queimada. Também ninguém consegue perceber porque é que tarda a decidir-se acerca da responsabilidade na gestão dos donativos no incêndio de Pedrogão... Há muitos abutres da "solidariedade" interessados em gerir este bolo riquíssimo, afinal são 13 milhões e sempre estas reuniões devem ser mais concorridas do que as pequenas reuniões municipais e nacionais do "choradinho" de fundos para os pobres com a malta do "social"! E denotem... Não sou eu que lhes atribuo este estatuto, são os próprios que gostam de dizer que são do... Social!

 

Interessante é também o discurso dos mais velhos, e aqui perdoem-me os politicamente correctos, que dizem que no "tempo do Salazar e do padrinho do actual Presidente da República não se viam tantos incêndios, mas depois do Verão Quente de 1975 nunca mais pararam"!. Não me venham dizer que são só as alterações climáticas! Eu nem vivi esses tempos...

 

Somos realmente muito bons, só ainda não descobrimos como é que podemos sobreviver sem andar sempre a reboque da máquina do Estado e de como responsabilizar o Estado por falhar nos seus deveres primordiais para com todos nós. Ou talvez perceba, porque a única coisa que faz com que os estudantes (o futuro do país) se revoltem nas Universidades é um aumento de 10 euros nas propinas e que pode significar menos uma noite de cervejas à conta do erário público. E nunca é de bom tom não ter acesso a uma bolsa quando se quer ir de carro novo para a Universidade.

 

Por enquanto o país vai ardendo, mas não se salvam pessoas, animais, árvores, infraestruturas e todo um país com minutos de silêncio, discursos, comentários e homenagens protocolares! O país também não se salva com a hipocrisia partidária que hoje defende uma coisa, amanhã já defende outra porque afinal... Afinal, por muito que nos doa, é a ânsia de poder que domina o actual sistema partidário e os portugueses são somente marionetas que sustentam esse sistema mas pouco obtêm dele. Talvez por isso, quando alguém mete o dedo na ferida e denuncia as tranches de dinheiro que continuam a ser enviadas para muitos indivíduos que poderiam trabalhar e obedecer à lei, mas não o fazem, sejam imediatamente criticadas... Afinal, enquanto o dinheiro chegar também não se revoltarão... Nisto também somos muito bons, Sr. Presidente.

 

Pessoas, animais, árvores, infraestruturas e todo um país, salvam-se sim com acções no terreno, sobretudo preventivas. Pois somos muito bons efectivamente, mas todos temos os nossos limites de paciência! Até porque o fogo não abranda com um beijinho nem com um afecto e muito menos com propaganda a fazer lembrar tempos idos...

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Granada Ofensiva!

por Robinson Kanes, em 03.07.17

 

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Fonte da Imagem: https://www.defense.gov/Photos/Essay-View/CollectionID/13138/

 

Os lugares mais sombrios do inferno são reservados àqueles que se mantêm neutros em tempos de crise moral.

Dante Alghieri in “A Divina Comédia” (Inferno)

 

Dada a delicadeza do assunto e temendo que o mesmo fosse ofuscado por um outro assunto bem mais importante para os cidadãos portugueses, a flatulência, só hoje decidi falar do roubo de material militar de instalações militares de alta segurança.

 

Instalações militares de alta segurança presumem, hoje em dia, a existência de vários meios de segurança: segurança permanente, rondas, outros tipos de vigia apeada ou por intermédio de torres, sensores de calor, videovigilância, vedações (de preferência electrificadas) e outros meios bem mais complexos.

 

Ora... Posto isto, será que é crime o assalto a este tipo de instalações? Para mim, o verdadeiro crime é permitir que não exista segurança permanente! É também permitir que não exista qualquer tipo de videovigilância, sobretudo em vídeo, e permitir que meia-dúzia de larápios assaltem mais facilmente um paiol nacional do que uma mercearia em Vilar Formoso! 

 

Crime é um país como Portugal ter tantos oficiais superiores! Como diz o povo e bem "quanto mais gente a mandar mais desorganização"! Crime é termos Ministros da Defesa que, ou são formados em Jornalismo ou em Direito e com sorte até em Educação de Infância! A defesa é uma área demasiado sensível para estar entregue só a militares mas também é demasiado sensível para estar entregue a indivíduos cuja única experiência militar que tiveram foi a jogar Risco ou então, que os tempos são outros, a jogar Playstation! Estes factos e o alheamento da estrutura militar da vida dos cidadãos tem levado a uma descredibilização total das entidades militares que são encaradas como uma elite sem utilidade...

 

Crime é estarmos mais preocupados com a reputação do que propriamente com os cidadãos! Com alguma experiência em comunicação percebo o trabalho que tem de ser feito nesta área. Todavia, tenho mais experiência com pessoas e aí o meu outro lado diz-me que encomendar estudos de popularidade ao invés de nos focarmos na procura de factos e de apoio às populações é o mesmo que, depois de uma grave tragédia como a de Pedrogão Grande, rirmos todos nas caras daqueles que morreram e até fazer um concerto solidário como forma de camuflar a triste realidade de um povo que é reactivo (se isso permitir  ter os seus 15 minutos de fama) e pouco pro-activo! Penso que, por vezes, nos esquecemos da herança da República de Platão e não atendemos ao alerta deste quando nos disse que "uma natureza medíocre  jamais fará algo de grande, seja a um particular, seja a uma cidade", efectivamente, os resultados do descurar desse alerta estão à vista! Foi preciso a NATO alertar as nossas estruturas políticas, inclusive o principal responsável pelas Forças Armadas - o Presidente da República - para percebermos a diferença entre um assalto a uma caixa multibanco em Torres Vedras e um assalto a um paiol cujas consequências para a segurança nacional e internacional podem ser nefastas!

 

Enquanto governarmos para votos e para um clientelismo que não pára de crescer, bem podemos continuar a pensar que estamos na cauda da Europa! Cauda da Europa em termo de tacanhez e provincianismo, porque geograficamente estamos no centro do Mundo! 

 

Mas... Crime é não passar uma semana em que não exista um escândalo (e pensar que nem um terço é do conhecimento público)! São Ministros e Secretários de Estado que se vendem por um bilhete de futebol, ou é a gestão danosa de um banco público, ou são as falhas na protecção civil, ou é o assalto, perdão... Passeio... A um paiol de alta segurança, ou é a distribuição de favores e atribuição de cargos públicos a indivíduos sem competência e sem mérito, ou é o silenciamento e criação de autênticas ditaduras em câmaras municipais, ou é corrupção no INEM, ou é... Ou é... Ou é... E quando os resultados não aparecem e é mais importante um casamento de um presidente de um clube de futebol, ou a barriga de alguém que não deve ter muito que fazer ou até um estúpido discurso sobre flatuência que prevalecem... Pois permitam-me dizer que todos concordamos com isso e no fundo não somos diferentes de um qualquer corrupto ou de um qualquer criminoso que lesa a sua pátria!

 

Chegado ao fim deste texto só me recordo de um amigo, ofical subalterno, que um dia ousou perguntar a um oficial superior o porquê da vigiância dos monumentos nacionais estar entregue a empresas privadas de segurança e cujo desagrado foi tal por parte da alta patente que por pouco não foi assentar praça para as Selvagens!

 

 

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O Mundo Que Não Pára mas que nos Pára.

por Robinson Kanes, em 23.06.17

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 Fonte da Imagem: Própria.

 

Uma das coisas acerca da qual mais se tem ouvido falar nos últimos dias é a questão do seguir em frente e de que o mundo não pára. Entendo, até porque se existe pessoa que não fica à espera que as coisas se resolvam e coloca  mãos-à-obra sou eu - mesmo que por vezes não abone a meu favor. 

 

No entanto, será que não podemos parar um pouco? Isto a propósito daqueles que afirmam (e com toda a razão) de que não podemos pensar muito nos que morreram nos incêndios ou até em outras situações e que temos de avançar sem nos fixarmos muito nisso... Levinas dizia que nos  consolamos "como se pudessemos escapar à morte [e que] a vida pública não se quer deixar perturbar pela morte que considera como uma falta de tacto". De facto o mundo não pára, sobretudo se estivermos envolvidos directamente numa situação não existe tempo para grandes lamentações mas sim uma necessidade imediata de agir, mas agir bem! A vida pública não quer perder tempo com a morte e com o fim - com o fim da utilidade de outrem nos destinos do mundo... "A vida continua", diz o povo. 

 

Mas também existe o outro lado. O mundo também pode parar, ou melhor, nós podemos parar, sobretudo aqueles que podem agora fazer um luto e reflectir sobre esta situação já que, infelizmente, outros estão ainda nas operações e não podem fazer esse luto vendo-se obrigados a adiar o mesmo.

 

Três dias de luto! Pelo menos esses três dias deveriam fazer-nos reflectir. Reflectir sem os espalhafatos mediáticos acerca da tragédia que começou no Sábado. Acredito até, que seja demasiado prematuro a declaração imediata de "Luto Nacional" pois, efectivamente no quadro dos desenvolvimentos e da cabeça dos indivíduos, a intenção do mesmo tende a ser completamente desvanecida. Bandeiras a meia-haste, um ou outro acto mais protocolar, mas o luto não é feito. Esse tempo tem de ser fora da agitação dos factos...

 

Por experiência pessoal, profissional e até no quadro de vida de muitos que conheci, encaro o luto como fundamental: o tempo para digerir é fundamental, o tempo para reflectir é fundamental, o tempo de atirar tudo pelo ar é imperial. E nem me foco no luto com cariz mais religioso, porque "mesmo os homens sem evangelho têm o seu Monte das Oliveiras", como defendia Camus no seu Mito de Sísifo. Mesmo aqueles que se encontram a trabalhar no combate precisarão desse tempo mais tarde. Até numa situação de guerra é preciso parar e fazer um luto e a ausência desse luto acaba por ter consequências no longo prazo e aqui exemplos não faltam - o stress pós-traumático de guerra é um exemplo e não é somente o reflexo dos acontecimentos na vida de quem combateu, mas também a ausência de um luto bem feito. 

 

Até no amor o luto é essencial para que todas as portas possam ficar bem fechadas e todas as pontas bem atadas, sob pena de um dia mais tarde isso nos abalar, trazer dissabores ou afectar o nosso estado de alma.

 

Talvez não possamos parar o mundo, todavia, parece-me capital que não deixemos que o mundo nos pare sob pena de termos uma digestão mal feita e cujos resultados só sentem ao fim de algumas horas...

 

Por hábito, à sexta-feira deixo algumas sugestões, mas admito que não é uma semana para grandes euforias, pelo menos por aqui... Todavia, deixo uma sugestão literária:  "Pensar", um livro com 671 pensamentos de Vergílio Ferreira. É aquele livro no qual podemos tirar algumas pequenas lições acerca do mundo e acerca de nós, sobretudo vindo de alguém que era um dos mais atentos observadores desse mesmo mundo e cujas inquietações são hoje tão actuais. E que falta nos faz parar um pouco e... Pensar. 

 

Não há espécie humana. Há cada indivíduo de per si que envolve a espécie e o mundo. Mas num montão de cadáveres, que é que significa cada um dos mortos? Porque então ele é mesmo elemento da espécie e uns tantos a mais ou a menos são uma fracção mínima que se despreza para as contas gerais. E é aí que deverias talvez pensar-te mais para te pensares menos.

 

Vergílio Ferreira, in "Pensar"... 

 Bom fim de semana...

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O Ódio Dos Moralistas...

por Robinson Kanes, em 22.06.17

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Artemisia Gentileschi - Judite Decapitando Holofernes (Galeria Uffizi)

 

Fonte da Imagem: Própria

 

O drama dos incêndios (e outras recentes polémicas) criou um facto curioso e que me fez ir à procura de “material” que permitisse dissertar sobre algumas inquietações e ter também o vosso retorno.

 

De facto, torna-se interessante assistir a um comportamento nas redes sociais e até nos blogs que já não é novo mas que, pela proximidade dos acontecimentos, torna as situações mais evidentes.

 

Vejamos... Nas redes sociais, nos media digitais e nos blogs, de um momento para o outro passamos do sentimento mais comovente e de revolta com os factos para as fotografias das “mini-férias” ou do fim de semana espectacular no Algarve. Rápida a transição do “estou em choque” para o “yuppie” (também existe o contrário)... Sim, estou chocado, mas tenho a necessidade de mostrar ao mundo que estou em “altas”. 

 

Mas o que tem sido interessante é a proliferação da mensagem contra o “ódio”. Hoje em dia, discordar de uma situação ou do status quo é odiar (ou populismo), sobretudo se o ódio for contra aqueles que defendemos (ou somos pagos para defender) diariamente em blogs e redes sociais. Interessante também, que muitos dos que criticam o ódio acabam por incitar ao mesmo, especialmente quando recorrem ao vernáculo e ao ataque directo...

 

Eu tenho mais medo dos “amigos” (e dos alpinistas) que defendem alguns do tal “ódio” e que são privilegiados na comunicação do que daqueles que odeiam e soltam os seus desabafos no momento... É que os últimos não procuram manipular ninguém e tendem a ser insentos. Acredito que muitas vezes só querem justiça, mesmo que não expressem essa vontade da melhor forma. Tenho medo daqueles que vivem tranquilos, à sombra de clientelismos, de uma pseudo-fama e de alguma pseudo-importância que nos tenta ser impingida todos os dias no sentido de nos fazer acreditar que são estes os "representantes" da voz do povo - e não falo de políticos como já perceberam. Não tenho medo do povo "revoltado", aliás, nem qualquer bom estadista tem medo do seu povo...

 

A apatia (ou falsa apatia) tende a reinar sobre a justiça... E se um povo pede justiça, ao invés de também descarregarmos um discurso de ódio, devemos inicialmente pensar o porquê de tanta revolta, de tanto ódio, se quisermos considerar uma solução. A apatia que nos faz ser líderes de uma certa sobranceria virtual não nos torna melhores do que aqueles que criticamos, pelo contrário.  Mas talvez seja mais fácil ignorar a interrogação de Steinbeck e deixarmo-nos arrastar ao invés de nos deixarmos guiar pelos nossos principios. Talvez o retorno seja imediato, porque a justiça é mais morosa e nem sempre nos enche a conta bancária ou o ego...

 

Mas talvez seja isso... Talvez, nós que tantas vezes somos tão solidários e "boa onda", sejamos bem piores que um povo que efectivamente se revoltou com a perda estúpida (sem aspas) dos seus compatriotas... Porque nas cidades, os apáticos e falsos moralistas de sofá continuam a apaziguar à calma de metralhadora na mão...  No entanto, se um dia o país precisar verdadeiramente destes indivíduos, fora do digital e das palavras, serão os primeiros a fazer as malas e a partir. Até porque é sempre mais fácil chorar do que assumir as responsabilidades...

 

 

 

(Este espaço esteve parado durante estes dois dias, por uma razão simples: respeito pelas vítimas e pelo luto e também pela necessidade de ouvir, de pensar... Sobretudo quando praticamente todos querem falar, mas poucos querem ouvir...).

 

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Fonte de Imagem: Associated Press

 

De resto, nós não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos.

Albert Camus, in a Queda

 

 

São oito horas da manhã, acabo de chegar ao carro depois de um passeio pela praia com o meu cão, ligo o rádio e escuto: 43 mortos e 59 feridos no incêndio de Pedrógão Grande (última actualização a 21/06: 64 mortos e mais de 179 feridos + 25 em Góis)! Muitos dos mortos morreram ao tentar fugir das chamas dentro das viaturas!

 

Não sei o que dizer! Por muito que tenha um Primeiro Ministro que, perante a ausência de uma equipa de comunicação não consiga ter um discurso à altura; por muito que tenha um presidente de afectos e do povo (mas sem perder o discurso burilado) que, sem informação concreta e sempre na busca de protagonismo, tem como primeira abordagem dizer que a culpa é do tempo; por muito que tenha um presidente da Liga de Bombeiros que ocupa uma “centena” de cargos neste país e salienta que é a natureza revoltada a causa de tantas mortes, só me apraz dizer: VERGONHA!

 

Vergonha de todos os anos ser a mesma coisa! Vergonha de ir constantemente a Espanha e, quando o tema são os incêndios, indagarem como é possível num país como o nosso! Estar em Plasencia, local árido e debaixo de 43 graus e me dizerem que não têm medo dos incêndios mas sim daqueles que podem chegar do outro lado da fronteira! Vergonha de ouvir promessas, de ver o meu povo a entrar em depressão porque não tem lugar para colocar a toalha na praia ao invés de exigir mais àqueles que nos governam! Vergonha de ver um lobby de indústrias e de associações (incluo aqui muitas corporações de bombeiros e outras associações de cariz solidário) a continuar a facturar com a miséria daqueles que vêm os seus bens ou as suas vidas destruídas pelos incêndios! Ver a total displicência dos altos cargos da nação visivelmente comprometidos e numa posição de “sacudir água do capote”, do seu e de outros! Vergonha de ver os mesmos oportunistas de sempre a pedirem donativos para as vítimas dos incêndios (não darei um euro)! Vergonha de não existir uma clara aposta na prevenção! Vergonha pela ausência de meios! Vergonha por ver helicópteros e aviões parados por falta de milhares para a manutenção, quando as frotas de viaturas de luxo do Estado são renovadas constantemente e até se pagam subsídios mensais de €40.00 a motoristas para lavarem as mesmas (e ai de quem ousar retirar tal subsídio). Vergonha de ver alguém (sem formação sequer na área) arrecadar €15.000 para “estudar” a compra de uma viatura táctica de combate a incêndios que custa pouco mais que esse valor! Vergonha de ver reinar uma sensação de impunidade e o compadrio provinciano ao qual também estão sujeitas entidades da protecção civil! Vergonha de ver um povo que se revolta mais se o país vizinho levanta um processo a um jogador de futebol por fuga aos impostos e até aplaude a corrupção em muitas áreas (com a célebre desculpa do “se não for assim”) e não é capaz de pedir mais ou assumir uma posição em relação aos destinos do seu país, sobretudo quando está em chamas! 

 

Onde estão os pais que tanto apregoam amar os filhos mas não se preocupam com as gerações futuras? Onde estão as acções concretas para mudar o rumo das coisas? Onde estão os cidadãos? Partilhar a “porcaria” de lamentos e cruzes nas redes sociais não muda a situação! Torna-vos (na vossa cabeça) mais aceites pelos outros, mas é só isso! Porque é que entre os países do sul da Europa, Portugal é o único a ver a sua área florestal a decrescer (30%!!!)? E a questão do corpo de guardas florestais? Porque é que só se fala de incêndios no Verão? Porque temos sempre a sensação de que a abertura da "Época de Incêncios" é uma espécie de "vamos lá que isto agora é que vai ser"?

 

Já chega! É preciso dizer basta!

 

Onde estão cumpridas as promessas do ano passado, feitas à pressa e com tanta pompa e circunstância (e com o país em chamas) por parte de Primeiro Ministro e Presidente da República? Não chegam sorrisos e afectos! Num mundo onde os sorrisos e as palavras soltas valem mais que acções concretas, temos de começar a pensar nos riscos e nos prejuízos da inoperância prática! Ignorarmos os factos e focarmo-nos na autopromoção e no discurso elaborado, sobretudo nesta temática, está a destruir o país! Onde estão os resultados? As coisas não acontecem com demagogia e afectos, bem como o mundo não avança com selfies! Se tivermos noção que aqueles que devem fazer algo o estão a fazer, passamos bem sem abraços e beijinhos!... Ou talvez a nossa preferência se fique efectivamente pelo folclore digno de filmes satíricos balcânicos.

 

Não digam também, às famílias daqueles que morreram que a culpa é do tempo, quando a ausência de trabalho e prevenção são notórias. Até poderão ter sido as condições meteorológicas, mas todos os anos? Tenham a vergonha de nem sequer aparecer junto dessas famílias! Não são discursos dignos de eucaristia a horas de telejornal que mudam as coisas! A responsabilidade de termos um país mais dia menos dia, transformado em carvão é vossa!

 

Eu tenho vergonha... Porque a culpa também é minha! Porque os culpados somos todos nós! À data, sinto que também sou responsável pela morte deste número de pessoas e isso envergonha-me!

 

 

 

 

Ainda a digerir esta situação, este espaço vai estar parado durante os próximos dias... Até porque o ano passado disse convictamente que uma desgraça muito, mas muito grande um dia iria acontecer a propósito do nosso “desprezo” pela questão dos incêndios... 

 

Últimas notas: a todos os que lutam contra a chamas com sentido patriótico enquanto, muitas vezes, outros sem qualquer preparação os empurram para o inferno, as minhas palavras de profunda ADMIRAÇÃO! Já escrevi sobre isto aqui. Lutemos! Agora, de facto, é o melhor a fazer.

 

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Fonte da Imagem: http://www.movenoticias.com/wp-content/uploads/2016/08/bombeiros.jpg

 

(texto escrito após o Verão de 2016 e que se encontra conforme publicado naquela época - é bom lembrar que andámos esquecidos destes senhores durante praticamente um ano e só nos vamos lembrar novamente porque a nossa casa pode estar a arder, ou porque é cool aparecer a falar disto ou, simplesmente... porque queremos ir para a praia e está uma fumarada que não se pode. Surge o presente no âmbito de "cinco artigos a dizer bem de Portugal".)

 

Some regions in Portugal are dealing with huge fires and our Heros are not just Football Players, Pop Politicians or TV Stars.

 

Summer in Portugal means beach, parties and happy people everywhere. However, in Portugal, it is also the season when some of our true heroes show us their best – they sacrifice their families - and, unfortunately, sometimes even their lives. After celebrating the conquest of EURO 2016 and other achievements mostly overrated by politics and media, we find a nice beach... we rest a while and we tend to forget the true heroes of our forest, our people and our heritage… Portuguese firefighters. This is a tough job, saving a country of burning while more than 50% of our population enjoy their holidays and just get information on the news (mostly when the tragedy is almost out of control). At that moment it is easy to see "famous" people showing their concern… too late, and words… (I started this text 5 days ago, and now that this catastrophe is in all news around the world finally I see more people showing support in social media).

 

I have meet many firefighters, from soldiers to National Operations Commanders and I should say that you need to see the effort of leaving a family and fight for others’ family. You need to see, sometimes even badly trained people, working hard, risking their lives in some cases just for patriotism, not for money or exposure! General Schwarzkopf, a contemporary American General, once said that “the true courage is being afraid and going ahead and doing your job anyhow.” That’s what courage is and that’s what firefighters do. Like others, I have learned a lot with them!

 

When you visit Portugal and you see so many beautiful landscapes, I can assure you that, part of that beauty is “provided” by these fellows - firefighters, soldiers, forest guards and other people involved in this area – they also take part in our tourism, in our lives and in your safety. Those are some of the true heroes, the true Portuguese people; those are the big Portuguese team. And if you think it’s easy, just try to fight a fire alone or spend a week or more working in hell. If you feel sick or feel the pain of an accident, they will be there also for you and will make you feel better only with their words!

 

They do not have a name, agents or social media, but they have the courage and the feel of duty that we should be proud of. I have helped in the field and believe me, they are a true example of how to react to an unknown situation and keep the team spirit and the communication even when there is a lack of formal strategy and good leaders.

 

Those are the Heroes we are proud of! Thank you for taking care of us.

 

And please, dear traveller, ignore some media sensationalism (it’s summer and they need news to survive in the “silly season”) and do not forget to visit our beautiful country, despite everything, we still have the most beautiful country in the world and people that will stay in your heart to the rest of your lives.

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