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Uma Real Instituição Portuguesa: O "Kleenex"!

por Robinson Kanes, em 10.07.17

 

IMG_20170508_131511.jpgFonte das Imagens: Própria

 

Kleenex é uma marca de lenços de papel e toalhitas refrescantes, no entanto, tal como o "Kispo" ou o "Pronto" ficou associada a uma prática ou a um produto.

 

Contudo, ao contrário dos anteriores, o "Kleenex" foi mais longe e passou a uma Real Instituição deste nosso Portugal. Se por um lado o avanço na tecnologia automóvel atirou o "Kleenex" para fora dos tabliers e das chapeleiras dos automóveis, por outro não permitiu que este desaparecesse do nosso território. E que saudades tenho eu de me assoar ou limpar a um "Kleenex" empoeirado e amarelado do sol.

 

Mas onde anda o "Kleenex"? Anda por todo o lado, não só nos Hotspots das necessidades de última hora de qualquer português mas também na beira de qualquer estrada nacional ou até nos locais onde a cópula dentro de automóveis é a atracção principal. Quem é que nunca, num qualquer passeio pelo campo ou pela praia, não deu de caras com um "Kleenex"? Ou pelo menos com o cheiro que exala de algum? Como é bom ver o nosso ambiente povoado por estes seres, é de facto um demonstração de cidadania ao mais alto nível.

 

O "Kleenex" surge, por norma, já usado e apresenta-se num jeito amarrotado! Por vezes apresenta uma mescla de cores que varia entre o acastanhado, o amarelado e até o negro (localidades onde os chocos com tinta grelhados são uma iguaria, preparem-se...). Os nossos espaços públicos estão cheios destes lenços e não difícil perceber o local onde podemos baixar as calças e defecar sem que isso tenha consequências de maior. Ou então perceber que estamos no local perfeito para estacionar o carro e proceder a um sem número de marotices dentro do automóvel. Sempre indaguei do romantismo do sexo dentro de um automóvel... Talvez porque não dê a importância devida a automóveis, não consiga experimentar a sensação mágica de fazer amor e ver as estrelas a brilhar num encatamento de anjos e pedais, de gemidos apaixonados de prazer e uma alavanca de travão de mão ou até de uma "árvore mágica". Honestamente, acredito que despersonaliza um pouco as coisas mas... Como existem portugueses que passam mais tempo dentro do automóvel a olhar para o mesmo e para a reacção dos demais do que propriamente com a família em convívio prefiro não esmioçar a questão...

 

WP_20170321_11_54_19_Pro.jpg

Neste sentido, quero fazer neste espaço a justa homenagem ao "Kleenex"! Não sendo nenhuma espécie em vias de extinção é facilmente observável e além disso, sempre que vislumbrarem um casal apeado ou de carro a sair por entre as árvores ou até aqueles indivíduos que saem detrás de uma moita a olhar para todo o lado e a tentar disfarçar um falso à vontade, não hesitem em pegar nos binóculos, pois o "Kleenex" estará lá com toda a certeza à espera da vossa selfie. Contudo, tenham cuidado, na onda de egocentrismo que por aí vai ainda vos pedem pelos direitos de autor pois ninguém tem um "Kleenex" usado mais perfeito que aquele indivíduo. Ainda vou ver debates nas redes sociais acerca de quem tem o melhor "Kleenex" usado! Até estou a ver os gabarolas divididos por modalidades: muco, fezes, sangue, esperma e outros fluidos identificáveis e homologados durante o acto sexual.

 

O lado positivo de tudo isto? Talvez, ao nível da evolução humana e tecnológica, estejamos mais perto de descobrir a função do caixote do lixo.

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A Desumanização de Mortos e Vivos.

por Robinson Kanes, em 06.06.17

IMG_2855.JPG

 Fonte da Imagem: Própria

 

Inegável... O facto de que quanto mais mortes ocorrem mais insensíveis nos tornamos às mesmas. Procuramos criar mecanismos de defesa de modo a que possamos afastar essa morte de nós, até porque é fugindo dela com elementos distractores, como o quotidiano, que podemos conceber uma vida normal.

 

Será que recusamos essa responsabilidade e queremos afastar-nos desse fardo, do peso desse caixão? Será que Aristóteles teria razão quando dizia que “a morte é morte de alguém e tê-lo sido de alguém não é levada pelo moribundo mas sim pelo sobrevivente”?. Será por isso que fugimos dessa e da nossa própria morte que será herança que outrem nos deposita? O alguém que só existe porque nós existimos?

 

Costumo afirmar que morro sempre um pouco quando perco as pessoas que realmente interferiram na construção do meu ser - as pessoas que, para o bem e para o mal, fizeram aquilo que eu sou. As pessoas que me acompanharam na criação da minha essência, que por elas foi influenciada e não por um qualquer Deus, seja através de uma predestinação, seja pela bondade do mesmo em relação a um livre-arbítrio. Vejo-me um pouco na imagem de Vergílio Ferreira quando nos diz no seu Conta-Corrente (Volume II) que “o homem viveu até hoje pelo que acumulou da humanidade – e viverá amanhã pelo que acumulou de desumanização”.

 

Por vezes sinto que carrego um pouco desses mortos comigo e que provavelmente vivo essa desumanização. Que os sustento a combater a desumanização, ou seja, de não encontrar a minha morte e, no fundo, também a dos outros mesmo antes de morrer. Mas o peso é grande demais e paradoxalmente tendo a perder a guerra...

 

Talvez não seja mais que isso mesmo: a dificuldade, não em encontrar uma nova Humanidade, mas em encontrar uma forma de ser novo perante uma velha Humanidade e, com isso, percorrer o caminho que um dia acabará na desumanidade de uma boca cheia de terra ou um corpo transformado em cinzas.

 

 

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