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Sexta-feira, o dia já conhecido pela actividade que me há-de acompanhar toda a vida: passar-a-ferro.

 

Lamento não ter texto sobre uma cidade onde vivi três meses e que foi alvo de um atentado, mas confesso (do ponto de vista pessoal) que não sigo a loucura dos "bicos de pés", vulgo hashtags... Posto que, quando a poeira assentar e termos percebido um pouco o que se passou, vou voltar ao assunto. Espero que as "Madres-Teresa de Calcutá" aproveitem também para partilhar fotos com os cadáveres dos mais de 50 civis que morreram esta semana na Síria "por engano" e durante um ataque da coligação. Eu sei que dizer que se esteve ou está em Barcelona é mais cool, mas Damasco é logo a seguir a Ankara e além disso tem uma história milenar.

 

Hoje pensava falar de uma zona de praia e de mar, mas a revolta que por aqui vai com os incêndios é maior e não pretendo ser mais um a dizer que está muito preocupado com a temática ao mesmo tempo que tira uma foto a beber uma caipirinha no Algarve ou num outro destino qualquer.

 

Deste modo, esta semana deixo também a música de lado e parto para os livros: "A Farsa" de Raúl Brandão e a personagem de "Candidinha" fazem-nos querer matar tal figura logo de início e, sobretudo no fim da obra, quase que nos sentimos vingados com a morte do filho. Deixo que leiam este livro de desencanto com o mundo, ódio e ambição bem pincelada de tristeza, em suma, um expressionismo e neo-romantismo bastante característicos da obra de Raúl Brandão.

 

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Fonte da Imagem: Própria 

 

E como os temas estão fortes, revisito também Gabriel Garcia Márquez (parece que ando em maratona com o génio) e o seu "Outono do Patriarca". Sem entrar em grandes revelações, é interessante a leitura na medida em que é um retrato fiel de muitos ditadores e marca a literatura de uma época (apesar da obra estar bastante actual) que se debateu também nesta matéria - nomes como Miguel Angel Asturias ou Augusto Roa Bastos são bons exemplos. Garcia Márquez é conhecido pelas suas descrições violentas, mas aqui tem um toque especial, pois no fundo é um relato com espaço para toda a imaginação e espelho do real do autor sobressairem num máximo esplendor. Provavelmente ainda voltarei a este livro para a semana.

 

E um filme? Imaginem que numa só pelicula conseguem ter Sean Connery, Michael Caine (uma vénia), Robert Redford (idem), Gene Hackman (idem), Dirk Bogarde (de "Morte em Veneza"), Antonhy Hopkins (outra vénia), Edward Fox, Ryan O'Neil (gostei dele em "Barry Lindon"), James Caan,  Lawrence Olivier  e um outro sem número de estrelas.

 

Se gostarem do género, somem o facto de ser um filme de guerra, baseado numa conhecida operação militar da 2ª Guerra Mundial, nomeadamente a "Operação Market Garden" (e também no livro de Cornelius Ryan)!

 

Quem já andou pela Holanda e não ficou só por Amesterdão decerto passou pela icónica ponte de Arnhem - é aí que a missão falha redondamente para o lado dos aliados, que animados pela "vitória" na Normandia tentam entrar na Alemanha pela Holanda conquistando várias pontes.

 

O filme realizado por Richard Attenborough tem o nome de "A Bridge too Far". O nome ficou famoso, pois na realidade, o Tenente-General "Boy" Browning (interpretado por Dirk Bogarde no filme) virou-se para um optimista General Montgomery e disse que os aliados tentaram ir longe demais, neste caso, uma ponte longe demais. Se gostaram de Anthropoid, que já teve por aqui um artigo, vão adorar este. Aposto também que, ao fim de 3 horas de filme, vão assobiar durante muitos dias a banda sonora de John Addison. Com estes actores e com mais uma lição de história, não tenho dúvidas que o fim-de-semana ou a semana têm tudo para ser mais animados... Ideal para o pós-ferro e para quem sabe que já não se assiste a um bom filme de guerra desde "O Resgate do Soldado Ryan".

 

E não me acusem de ser saudosista ou velho! Em 1977, penso que ainda nem os meus pais se tinham conhecido.

 

Bom fim-de-semana...

 

P.S: A ponte de Arnhem tem agora o nome de "Ponte John Frost" em homenagem ao Tenente-Coronel John Frost que esteve à frente das tropas aerotransportadas que defenderem a ponte naquele fatídico mês de setembro. Esta personagem é interpretada no filme por Anthony Hopkins (uma vénia).

 

Actualização a 19/08: Se repararam, tive o meu momento à Jorge Jesus no último parágrafo quando escrevi "defenderem" ao invéms de "defenderam".

 

 

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Granada. O Fim da Conquista...

por Robinson Kanes, em 07.06.17

 

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Fonte das Imagens: Própria 

 

Recebendo as chaves de Granada, os Reis Católicos avançaram para a cidade - embora tenham esperado que esta fosse pacificada – encontrado pelo caminho uma recepção de prisioneiros cristãos visivelmente abatidos pelo cativeiro e que acolheram os reis de Castela e Aragão em sorrisos e lágrimas. Os reis eram acompanhados por Cidi Yahye (lembram-se dele?), já com o nome cristão de Don Pedro de Granada Vanegas e com a missão de ser o responsável pelos mouros da cidade e do reino.

 

Interessante é o relato de Agápida aquando do desfile dos reis católicos, chegando mesmo a apelidar os monarcas de seres sobrenaturais. Também interessante é o mesmo relato que aponta para a ostentação do clero que quase ofuscava a dos monarcas tal o brilho dos diamantes e riquezas transportadas pelos seus membros.

 

Após D. Fernando ter agradecido a Deus na Mesquita Central, entretanto consagrada como Catedral, o cortejo seguiu até ao Alhambra entrando pela Porta da Justiça. Segundo os cronistas, Boabdil solicitou que jamais alguém entrasse pela porta (Puerta de La Alhambra) por onde este havia deixado ocomplexo pela última vez. Esta sua vontade foi respeitada. Ainda hoje esta porta não é acessível, sendo apenas um monumento comemorativo.

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Terminava assim a Conquista de Granada que, segundo Frei António Agápida, teve a mesma duração do cerco de Tróia. Terminava também o domínio dos Mouros em Espanha, 778 anos após a derrota do rei Visigodo Rodrigo nas margens do Guadalete.

 

Termina também esta aventura, pelo que subo novamente ao Alhambra e contemplo mais uma vez a “vega” de Granada, o Albaicín e toda a cidade no seu fervor, esse fervor que não se perdeu com a passagem dos séculos. Contemplo a Serra Nevada e aprecio o belíssimo complexo que é o Alhambra. Recordo os meus encontros com o Zagal, com Boabdil e com todos aqueles que me acolheram dentro daquelas muralhas. Passeio pelas salas onde o Zagal me tratou como um rei, onde partilhamos as nossas semelhanças culturais e de sangue onde, fosse hoje, talvez encontrasse alguém que pudesse ser um bom conselheiro para uma escalada de tensão entre o mundo árabe e o mundo ocidental. Talvez com a maturidade dos séculos fosse possível encontrar uma solução.

 

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Sinto agora os cheiros do Alhambra e vou descer à cidade para também prestar a minha homenagem na Catedral e na Capela Real aos Reis Católicos. Com a noite a cair passo a Calle Navas, conhecida pelos restaurantes e tabernas, mas demasiado turística, isso faz-me recuar e entrar no "La Cueva", em plena Calle Reyes Católicos. Sento-me junto aos presuntos que decoram aquele espaço e aí aprecio umas fatias desse diamante fumado acompanhado de uma Alhambra enquanto espero pela Paella. Entre o barulho infernal (tão típico e tão bom de Espanha) fico a olhar aquelas gentes e o convívio que envolve todo aquele espaço... Penso em como o sangue de dois povos corre nas veias daquele povo e daquela cidade, de como isso, ao contrário do que se apregoa, é que torna tudo mais perfeito, mais genuíno e sem dúvida mais belo.

 

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Fonte das Imagens: Própria 

 

Com os estandartes de Castela a destacarem-se no Alhambra, os reis católicos iniciaram a sua procissão em direcção a Granada. Pelo caminho encontraram Boabdil que, num acto de submissão, desceu do seu cavalo e tentou beijar as maõs aos Reis Católicos. Contudo, em sinal de respeito estes recusaram. Como sinal de reconhecimento, Isabel de Castela entregou a Boabdil o seu filho, Ahmed que estava refém das tropas castelhanas até então.

 

Boabdil era um derrotado, toda uma cultura e um povo eram derrotados, pelo que, amargamente, se virou para os soberanos de Castela entregando-lhes as chaves, tendo proferido as seguintes palavras: " estas chaves são as últimas relíquias do império árabe em Espanha. Tuas são, oh rei! As nossas conquistas, o nosso reino, a nossa pessoa! Tal é a vontade de Deus. Recebe-nos com a clemência que nos prometeste  e que de ti esperamos". 

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Recebendo a garantia por parte de Fernando de Castela, que até abriu portas para uma amizade entre ambos, Boabdil seguiu o seu caminho em direcção às Alpujarras. Na última colina, que permitia ver a cidade de Granada, as tropas de Boabdil detiveram-se e olharam pela última vez a cidade que havia sido a capital daquele extenso império. Segundo Agápida, nunca a mesma lhes tinha parecido tão bela e grandiosa. Mesmo Boabdil, após contemplar aquela imagem pela última vez, desatou num choro que fez a sua mãe,a sultana Aixa la Horra, surpreendida com a debilidade deste, interpelá-lo dizendo-lhe que "bem fazes em chorar como uma mulher, o que não soubeste defender como homem".

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 Este local, onde Boabdil chorou, ainda hoje é conhecido pelos espanhóis como "o último suspiro do morto".

 

Entretanto em Granada, como apreciador de Kafka, convido a que assistam ao contraste entre a alegria dos conquistadores espanhóis e a tristeza dos conquistados árabes. Na "La Taberna de Kafka", no Realejo,somos brindados com um carinho especial pelo anfitrião e ficamos a conhecer os vinhos espanhóis acompanhados pelas tapas granadinas que são uma autêntica referência em toda a Espanha. As de bacalhau, são uma surpresa interessante. Penso em Boabdil, mais uma vez, como sofreu e como a sua inconstância levou à queda do reino. Penso nos heróis de Castela e nos de Granada...

 

 

... Retempero forças para subir novamente ao Alhambra e assistir à entrada triunfante dos Reis Católicos naquele complexo. Provavelmente irei pela Gran Via de Colón e aproveitarei para apreciar a beleza dos edifícios enquanto chegado ao fim desta, contemplo a estátua à Rainha Isabel.

 

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As Criancinhas que Morrem e Não Têm Sonhos...

por Robinson Kanes, em 24.05.17

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Bartolomé Estéban Murillo - Crianças Comendo Uvas e Melão, (Alte Pinakothek)

Fonte da Imagem: Própria

 

Deve, portanto,  cada um por sua vez descer à habitação comum dos outros e habituar-se a observar as trevas. Com efeito, uma vez habituados, sereis mil vezes melhores do que os que lá estão e reconhecereis  cada imagem.

Platão, in "República"

 

 

As criancinhas que morreram em Manchester colocaram o mundo a pensar em como é possível que se matem crianças num concerto, onde algumas até estão a realizar o sonho de uma vida. Como é possível? É a questão que todos colocam...

 

Lamento essas mortes como lamento quaisquer outras, mas o ódio e tristeza de muitos coloca o foco nas crianças que morreram. Por serem crianças, por serem jovens, por terem tantos sonhos e por estarem a realizar um deles que não era mais que ver um concerto. É legítimo, é um sonho...

 

Contudo...

 

E as criancinhas dos países do Sudoeste Asiático, da América do Sul, de África e até de países como na Turquia, qual imagem com que a personagem Mevlut de "Estranheza em Mim" (Orhan Pamuk) se deparou aquando da venda de Booza. A imagem de assistir a crianças que vivem fechadas em apartamentos a fabricar brinquedos, peças de roupa e calçado para muitas marcas que muitos de nós compramos... Às nossas criancinhas?

 

E as criancinhas que ficaram sem pai e/ou sem mãe porque foram mortos pela guerra? Criancinhas que nunca souberam o que era paz.

 

E as criancinhas que mal conseguem andar e começam a trabalhar para ajudar a família ou que então são escravizadas? 

 

E as criancinhas que não querem ficar fechadas em casa a viver no medo e arriscam brincar entre as crateras das bombas?

 

E as criancinhas que dão à costa ou andam a boiar? Quantos sonhos se perderam nas ondas que as arrastaram às areias do mediterrâneo e não só? São as mesmas areias onde muitos de nós vamos passar férias, com as nossas... Criancinhas...

 

E as criancinhas vitimas da guerra que aos 10-14 anos falam como adultos? Que demonstram uma frieza de adultos e guardam uma tristeza profunda por viverem como vivem? Criancinhas que nos fazem envergonhar e pensar como é que um discurso tão evoluído daqueles cabe em tão poucos anos de vida!

 

E as criancinhas que aos 12 anos sabem o que é disparar uma AK 47 e armar uma granada?

 

E as criancinhas que sufocam com gases tóxicos ou são contaminadas com urânio empobrecido?

 

E as criancinhas que são feitas em pedaços porque estavam a brincar na rua e a última coisa que ouviram foi o “click” da mina anti-pessoal que as enviou pelo ar e desfez as mesmas em pedaços?

 

E as criancinhas que sobrevivem a tudo isso e são transportadas para um hospital até o céu lhes cair em cima, porque lá de cima alguém o fez cair sob a forma de uma bomba?

 

E as criancinhas que, apesar de tudo isso, ainda conseguem ter um sorriso e não pedir nada?

 

E as criancinhas que, ao contrário das nossas, provavelmente nunca saberão o significado da palavra sonhar?...

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O Dia da Rendição de Granada...

por Robinson Kanes, em 11.05.17

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Fonte das Imagens: Própria

 

Com a morte do lendário Muza, esta aventura começa a aproximar-se dos seus momentos finais. (Sugiro que vão ao fim do texto e "liguem" a Banda Sonora).

 

No Pátio dos Leões, em pleno Alhambra, a azáfama aumenta, sobretudo porque, temendo mais tumultos, Boabdil acelerou a entrega da cidade aos Reis Católicos.

 

A última noite da família real naquele Palácio sem igual foi de dolorosas lamentações, lamentações que se estenderam a toda a cidade enquanto dentro das muralhas se despiam as salas do complexo, se embalavam os tesouros e, no fundo, se embalavam também séculos de história, de cultura e de momentos sem igual. Era o fim do Reino de Granada.

 

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A família real abandonou a cidade antes de Boabdil, por um dos bairros menos movimentados de Granada, pois não se queria colocar esta à mercê do regozijo do inimigo e dos mercadores. Relatos da época sugerem que as esposas de Boabdil choravam e lamentavam aquela sorte e que só a mãe deste, a sultana Ayxa la Horra, não exteriorizou qualquer mágoa e se manteve firme, apesar do semblante carregado. As crónicas da época relatam o momento da saída, com as sentinelas da cidade a abrirem portas, enquanto derramavam lágrimas pela sorte que havia calhado a estas e à família real que agora se dirijia em direcção à nova morada nas Alpujarras.

 

No dia da rendição da cidade, Boabdil encarregou Yusuf Aben Comixa do protocolo da entrega do Alhambra. Segundo Irving, baseado no relato de Agápida, Boabdil ainda se dirigiu ao Comandante do Destacamento de Castela e Leão e proferiu as seguintes palavras: "ide senhor e tomai posse daquelas fortalezas que Alá outorgou aos vossos poderosos Soberanos, como castigo pelos nossos pecados". Após estas palavras abandonou a cidade.

 

Do lado de Castela, o regozijo aumentou aquando do desfraldar das bandeiras na Torre da Vela, em pleno Alhambra. O estandarte daquela cruzada e também o estandarte com a cruz de Santiago tomavam agora conta do Alhambra e consequentemente de toda a cidade, de todo o reino.

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Deixando a nossa cerveja Alhambra e umas tapas de pão com presunto ibérico na Plaza San Miguel Bajo, podemos continuar a nossa caminhada pela Calle Santa Isabel la Real. Aí paramos para olhar Mosteiro com o mesmo nome, seguindo depois para a Plaza de S.Nicolás. É aí que encontramos o Miradouro com o mesmo nome... O miradouro que poderá relembrar-nos a agonia, a tristeza, a impotência e a dor que terão sentido os habitantes do Albaicín ao verem ser retirados os seus estandartes do Palácio de Alhambra. Nas nossas costas, a Igreja de S. Salvador em plena Plaza de la Santíssima Trinidad e do nosso lado esquerdo, ladeando o Alhambra o Sacromonte.

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Sentamo-nos a admirar a paisagem e a relembrar esses tempos... Sentamo-nos com os Palácios Nazaríes e a Serra Nevada em frente e ouvimos uma guitarra espanhola a percorrer os acordes dos Concertos de Aranjuez, dos Recuerdos de Alhambra ou, com sorte, a acompanhar um Andaluz a beber as letras de Agustin Lara e do seu Granada... Granada, tierra soñada por mi, mi cantar se vuelve gitano cuando es para ti, mi cantar hecho de fantasia, mi cantar, flor de melancolia que you te vengo a dar...

 

 

 

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A História de Muza e os Tumultos em Granada

por Robinson Kanes, em 02.05.17

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 Fonte das Imagens: Própria

 

Com a irrevogável decisão da rendição, Muza, perante o conselho, assumiu que jamais seria condescendente com tal decisão. Admitiu a severidade dos reis católicos e jamais consentiu entregar a sua fé e o seu reino a tais soberanos. As suas palavras - "não temamos a morte; muito pior serão os saques, a profanação das nossas mesquitas, a ruina dos nossos lares e a violação das nossas mulheres e filhas" - pouco eco fizeram. Abandonou o conselho atravessando o Pátio dos Leões, sem sequer dirigir palavra aos que acompanhavam. Armou-se dos pés à cabeça, escolheu o seu melhor cavalo e a sua melhor armadura e saiu da cidade pela Porta de Elvira sem nunca mais se saber do mesmo. 

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Contudo, esta é a versão dos historiadores árabes, pois, segundo Frei António Agápida, nessa mesma tarde, um grupo de cavaleiros andaluzes, que cavalgava nas margens do Genil, afirmou ter visto um cavaleiro mouro, completamente armado, com a viseira fechada montando um formoso cavalo e com uma lança em riste a correr na direcção destes. De início, e dada a força dos andaluzes, estes nunca pensaram que esse cavaleiro os atacasse, contudo, com o desenvolver da passada, cedo perceberam que o risco aumentava, pelo que se deram a conhecer e lançaram avisos de que não hesitariam em atacar.

 

O cavaleiro, esse, não acatou nenhum dos avisos e com a sua lança matou de imediato um dos cavaleiros. Puxando da sua cimitarra, continuou a espalhar o pânico e a matar outros cavaleiros, ignorando algumas feridas que já lhe atravessavam o corpo. Muza conseguiu matar metade da guarnição de cavaleiros andaluzes até o seu cavalo ter caído por terra ao ser atingido por uma lança. 

 

Já com Muza no chão, e admirados por tal valentia, os cavaleiros tentaram poupar a vida deste. De joelhos, com

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uma adaga de Fez, Muza não desistiu de lutar. Vendo, contudo, que não teria hipóteses nem forças para ir mais além e, não querendo cair prisioneiro dos cristãos, atirou-se ao rio e afundou-se com o peso da sua armadura sendo arrastado pelas águas do Genil. Mais uma vez, Muza vinha mostrar de que sangue era feito e fazer-nos compreender que, se mais cedo tivesse entrado na guerra, talvez o desfecho pudesse ser diferente.

 

Entretanto em Granada, no dia 25 de Novembro de 1491 (aproximadamente um ano depois seria descoberto o continente americano por Cristóvão Colombo), era assinado o tratado de rendição. Todavia, nos primeiros dias de Dezembro, um motim levou a que muitos se armassem e estivessem dispostos a lutar pela defesa do reino, ameaçando Boabdil que se refugiou no Alhambra, qual prisioneiro do seu próprio povo.

 

Só a sua saída, dizendo ao povo que era o máximo responsável pela situação do reino, exprimindo o seu arrependimento face à insurgência contra o pai e assumindo o pesado fardo que Alá lhe dera fez acalmar os seus súbditos. Reconheceu que assinara a rendição para salvar o seu povo da fome e da guerra e que agora iria abandonar a cidade e caminhar em direcção ao seu exílio.

 

Às portas da cidade os Reis Católicos aguardavam o dia para entrarem naquela majestosa cidade. O Alhambra esperava por estes soberanos que teriam de lidar com o temperamento e sagacidade dos habitantes da cidade e sobretudo do Albaícin.

 

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Ainda hoje, as ruas deste bairro albergam uma verdadeira atmosfera árabe, de calor, de vida e de recantos únicos onde conseguimos imaginar as discussões daqueles que desejavam a rendição face aos que queriam dar a vida pela cidade. Podemos voltar atrás e seguir Boabdil pelas ruelas procurando encontrar seguidores para a sua intentona contra o pai e contra o tio. Também podemos entrar pelo Noroeste, pela Plaza del Triunfo, atravessando a Puerta de Elvira, seguindo o Carril de la Lona, recuperando o fôlego no Mirador com o mesmo nome e com uma vista para o centro da cidade. Subindo mais um pouco, quiçá entre umas tapas e uma cerveja Alhambra possamos encontrar, na Plaza San Miguel Bajo, Boabdil a confraternizar com o seu povo após uma visita ao Palácio de Dar-al-Horra.

 

A paragem nessa praça, com gente simpática, vai permitir, não só sentir a força e o espírito de Granada, mas também refrescar o corpo para a subida até S. Nicolás, o miradouro de excelência para o Alhambra e para a Serra Nevada.

 

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IMG_6645.JPG Fonte das Imagens: Própria

 

Com o acampamento católico a sofrer com as chamas, Boabdil e Muza não perderam tempo e aproveitaram o mesmo para, logo no dia seguinte, atacar os cristãos.

Ao que se sabe combateu-se corpo-a-corpo em cada pedaço da vega de Granada. Não houve um jardim, uma horta, a sombra de uma árvore, um pedaço de chão que não tivesse absorvido o sangue daqueles bravos guerreiros. Segundo Frey António Agápida, até um embaixador francês que se encontrava do lado católico ficou pasmado e teceu um rasgado elogio aos guerreiros mouros que combatiam como ninguém depois de 10 anos a somarem derrotas atrás de derrotas e a perderem soldados e reis.

 

Contudo, do lado de Castela e Aragão a artilharia e o número de homens disponíveis era francamente superior e a batalha acabou com o recuo de Boabdil (que quase fora capturado) e Muza para dentro das muralhas da cidade. Em resposta, o rei católico decidiu erguer uma cidade, mesmo ali em frente a Granada: Santa Fé.

 

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Esta afronta de D. Fernando II, aliada ao corte das vias de abastecimento à cidade (onde o Marquês de Cádiz mais uma vez mostrou a sua valentia) e à ausência de apoio por parte dos reis berberes e do sultão do Egipto (a ausência de um porto onde estes pudessem atracar os seus reforços não permitia tal apoio) levou Boabdil a convocar um conselho. Aí, reuniu os melhores guerreiros, os melhores filósofos e políticos da cidade e, perante as condições de miséria e estado das tropas, todos se decidiram pela rendição! Todos... excepto Muza! Muza, mostrou o guerreiro que era, e tivesse entrado mais cedo na guerra, talvez as coisas tivessem sido diferentes! Exortou ao levantamento, à força, assumiu que todos os seus soldados estariam preparados, levantou o ânimo, admitiu recrutar e distribuir armas por cada habitante da cidade capaz de lutar. Muza colocou-se como sendo o responsável por guiar todos os esquadrões, de lhes indicar todos os caminhos, de levar todos à vitória ou à morte, mas de jamais entregar a cidade e o reino!

 

IMG_6564.jpgSegundo os relatos da época, perante este discurso, que não venceu o desespero dos sábios e dos governantes de Granada, Boabdil comoveu-se e caiu num silêncio que só terminou com a ordem de rendição. 

 

Foi enviado o Governador da cidade, Abulcasim Abdel Melic, que negociou os termos da rendição. Estes termo abrangiam a entrega da cidade, a libertação de presos católicos, os direitos  dos habitantes de Granada, a vassalagem perante a coroa de Castela e Aragão e a concessão de terras para os dois lados. 

 

Aquando do seu regresso e da apresentação das condições ao soberano de Granada, mais uma vez Muza, mostrou de que sangue era feito e, enquanto todos os outros desesperavam em lágrimas, este exclamou:

"deixemo-nos senhores de inúteis lamentações, próprias de mulheres e crianças; somos homens e tenhamos coração, não para verter tristes lágrimas mas sim o nosso sangue. Observo que o ânimo de todos está de rastos, que é impossível salvar o reino. Todavia, resta uma alternativa aos espíritos nobres: uma gloriosa morte! Sucumbamos defendendo a nossa liberdade e vingando os desastres cometidos contra nós! A nossa terra-mãe receberá no seu solo os seus filhos, livres das correntes e humilhações dos conquistadores e se alguém não encontrar sepultura onde enterrar os seus restos mortais, não irá carecer de um céu que os cubra. Alá não permitirá que se diga que os nobres de Granada tiveram medo de morrer na defesa do reino!"

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 Estas palavras não surtiram efeito, pois para Boabdil e para os nobres de Granada o destino do reino estava escrito no livro desde que o primeiro nascera, contudo mostraram a raça de um homem como Muza e de como este era mais fiel ao reino que todos os nobres!

 

Para os recém-chegados a esta aventura:

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http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

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Tudo Normal...

por Robinson Kanes, em 10.04.17

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Vincent Van Gogh, O Salão de Baile em Arles (Museu D'Orsay)
Fonte da Imagem: Própria

 

Vivemos numa época em que tudo parece ser normal...

 

É normal que um sem número de indivíduos menores tenha 500 euros disponíveis (mínimo) para ir para Espanha consumir alcóol e drogas, praticar sexo desenfreadamente e não contentes com isso ainda possam destruir um hotel. É ainda mais normal que adultos reconheçam que pintar paredes, disparar extintores, partir vidros e simplesmente fazer barulho como se todos os outros indivíduos normais se tivessem de sujeitar à delinquência de meia-dúzia de filhos de outros pais é... normal. Pais que estão mais preocupados em alimentar a sua e a neofilia dos filhos do que propriamente lhes dar educação. 

 

É normal andarmos apoquentados com a luta pelo título de futebol e termos o fim de semana estragado porque meia dúzia de pessoas insistem em falar de guerra e agora se lembraram de falar mal dos delinquentes que envergonham Portugal. Afinal é normal dizermos que comportamentos (nem sempre educados) como os de Ronaldo e Mourinho são exemplos a seguir, os verdadeiros portugueses... a imagem de Portugal, é normal. Batemos palmas à falta de educação destes mas depois censuramos as crianças a quem dizemos que estes são o exemplo... é normal.

 

É normal querermos que os Admninistradores Executivos do Pingo Doce não ganhem milhões, mas não é normal questionar os movimentos salariais e outros que ocorrem no futebol... aliás, ainda batemos palmas.

 

É normal e vai passar a ser ainda mais normal que estejamos a tomar um café tranquilamente e nos entre um camião pela porta. É normal ouvir muitos portugueses dizerem que ficam assustados com este tipo de ataques porque assim já têm de mudar os planos de férias - eu quero lá saber de egipcios, suecos, franceses, alemães, israelitas, indonésios e outros, eu quero é ir passar férias sem ter de pensar em terrorismo. 

 

É normal que maior parte das pessoas com quem falo se diga não católica ou católica não praticante mas não abdique de um feriado religioso (que muitas vezes nem sabe a origem) para poder estoirar todo o salário de um mês - Retirar o feriado? É que nem pensar!

 

É normal que Estados Unidos ataquem a Síria, que Russos e Iranianos ameacem com retaliações e também é normal que uma frota de vasos de guerra norte-americanos se esteja a deslocar para águas do Mar do Japão.  É normal, até já "vi" este cenário em Espanha quando eclodiu uma Guerra Civil... com as consequências que veio a ter mais tarde.

 

É normal lamentarem-se tantas mortes, sermos tão solidários, mas no fundo não passarmos de egoístas que desejamos é ter distância desses cenários.

 

É normal continuarmos a alimentar guerras entre religiões (que nunca deram provas de nada - e aqui não questiono a fé) e não atentarmos em nós como homens (com prova cabal de existência) capazes de dirimir tantos e tantos conflitos. É como se a religião possa permitr que deixemos de ser homens e nos comportemos como autênticas bestas porque delegámos o controlo da nossa estupidez em alguém ou em algo que nunca vimos mas acreditamos que exista.

 

Mas, como já pensava outrora Vergilio Ferreira (in "O Existencialismo é um Humanismo"), talvez seja normal que me equivoque do que julgo que vejo...

 

 

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É Tudo Uma Questão de Nervos...

por Robinson Kanes, em 06.04.17

 

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Fonte da Imagem: http://www.cbsnews.com/news/chemical-nerve-agents-a-very-toxic-and-horrible-way-to-die/

 

Um serão em família bem planeado... pai e mãe chegam dos empregos, ele prepara o jantar, ela dá banho aos miúdos. Brinca-se, pensa-se em como pagar o empréstimo da casa, diz-se mal dos amigos e chega a hora do jantar.

 

Entre chamadas de “João anda para a mesa” ou “Matilde, deixa a internet”, todos se sentam à mesa e começam a jantar. Cheira a comida oriental, uma receita que o pai retirou de um blogue. Uma ideia dos amigos e que, segundo ele, é uma receita de um país atrasado e de Terceiro Mundo.

 

A cidade está alegre, é Verão, ouvem-se crianças a brincar na rua, o vizinho do lado a chegar e aquela família a jantar com os últimos raios de sol a inundarem a cozinha daquele T3 nos arredores de Lisboa.

 

Pelo meio fala-se de futebol e do Ronaldo, fala-se do carro novo que já está decidido, dos detalhes do empréstimo e da escola dos miúdos. João exige umas sapatilhas novas, todos os amigos têm.

 

De repente, um estrondo... a mãe levanta-se, vai ver. Só os cães ladram, as crianças na rua continuam a brincar. O sol em Lisboa é mágico e inunda a praceta de uma cor de fim de tarde que contrasta com o cinzento esverdeado dos prédios.

 

A televisão ligada corta o diálogo, deixou-se de falar do melhor penteado e da figura pública mais bem vestida e chegam as notícias do mundo. O Pai diz - Não há paciência, merda para esses árabes! – e desliga a televisão.

 

É nesse momento que o som das crianças na praceta também se desliga, é também nesse momento que João começa a tossir. Os músculos do rosto contraem de tal modo que o João fica desfigurado num rosto digno de uma tela de Goya no seu período mais negro. Cai ao chão e apresenta convulsões que o fazem babar o ladrilho e urinar as calças que a avó com tanto carinho lhe deu. Agarra o pescoço, luta com os seus braços ainda pequenos, mas em vão...

 

Os pais acorrem em pânico, não conseguem perceber o que se passa, a linha de emergência está ocupada... Matilde, até então em choque, contorce-se na cadeira, agarra-se ao peito, o coração deixa de bater e os pulmões contraem-se de tal modo que nenhum oxigénio circula. Asfixia, cai perto de João que jaz já cadáver perante a falência respiratória. O seu rosto de menino transformou-se num retrato dantesco, as suas pupilas transformadas em mínimas esferas e o rosto com um olhar de horror, transformaram-no num pedaço de tragédia humana. A mãe vem gritar para a janela e vê os corpos das crianças que brincavam na rua no chão e amortalhados entre saliva e urina. Os pais, em pânico na praceta, choram e agridem os tripulantes das primeiras ambulâncias a chegar ao local.

 

No apartamento, de joelhos e em lágrimas, os pais sentem-se perdidos no mundo, João de 10 anos e Matilde de 8, foram vítimas de um ataque com agente nervoso. O cheiro da urina dá lugar a um cheiro pesado a insecticida... a um cheiro a morte.

 

Um dia pode ser na sua casa... com os seus filhos... os ataques com armas químicas são crimes de guerra, são verdadeiros crimes contra a Humanidade! Humanidade, significa que são contra si. Já foi ver se os seus filhos estão bem?

 

 

(Os ataques com armas químicas não são recentes. Sobretudo na Síria não é nada de novo, em 2013 não morreram 100 pessoas como no último ataque conhecido... morreram 1300 pessoas e o mundo virou a cara. Ao longo destes últimos anos o cenário tem-se repetido e penso... não aprendemos nada com a memória plástica que nos deixou Pablo Picasso com o seu Guernica.)

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el Zegri e Ronda...

por Robinson Kanes, em 30.01.17

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No seguimento da minha leitura da Crónica da Conquista de Granada (podem acompanhar aqui), dou comigo a ser transportado para mais um Pueblo que me deixa sempre boquiaberto, isto por mais vezes que lá acorra – Ronda.

 

Conheci Ronda pela primeira vez em... Córdoba. Lembro-me de estar à espera para visitar a Catedral/Mesquita, ou seja, esperava pela celebração da eucaristia, pois assim conseguiria visitar a Catedral gratuitamente – um bom negócio, em

meu entender.

 

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Enquanto esperava, esta incansável vontade de falar com todos, acabou com uma conversa de mais de uma hora  com um cordovês e com a esposa a prestarem-nos uma autêntica lição de história e etnologia sobre Andaluzia. Estaria tudo bem, até eu dizer que Andaluzia para mim não tinha segredos... mas eis que Ronda saltou para a discussão e afirmei não conhecer aquela localização.. “hombre, si no conoces Ronda, no puedes conocer Andalucia!”.

 

E pronto, dei comigo a ter uma aula de história sobre Ronda, aliás, terra que já não me era estranha da leitura do “Último Cabalista de Lisboa”, de Richard Zimler - s menções ao importante Judeu de Ronda. Fiquei com uma vontade enorme de me aventurar, mais uma vez, por aquelas montanhas andaluzas e conhecer o seu Carnaval peculiar que inclui desfiles a cavalo e a “obrigação” de comer migas na Plaza de los Descalzos. Infelizmente, nesse dia, o destino seguinte era Jaén e só mais tarde viria a perceber que realmente não conhecia Andaluzia.

 

Ronda surge, na “Crónica da Conquista de Granada”, como uma praça fortíssima e de grande importância para os Mouros! Ouso até dizer, que foi o primeiro rude golpe contra o reino de Granada.

 

Entretanto, depois da conquista de Zahara por Aben Hácen, já os cristãos haviam conquistado praças como Medina Sidonia, Alhama (mesmo às portas de Granada), Zahara (reconquistada) e Loja. Também em Granada, a governação, era agora disputada por Aben Hácen e pelo seu filho Boabdil (o infortunado) e em Málaga, nas montanhas, os cristãos tinham sofrido uma pesada derrota. Contudo, os mesmos cristãos, haviam conseguido capturar Boabdil em Lucena (uma das mais importantes batalhas da reconquista) e vencido os mouros em Lopera. Boabdil seria mais tarde libertado sob promessa de prestar vassalagem à coroa espanhola... imagino que não tenha caído bem aos mouros.

 

Ronda era agora a conquista fundamental para animar as tropas e... vingar Málaga! Para isso, os de Castela, teriam de vencer um dos mais temidos alcaides mouros - Hamet el Zegri – que já havia retirado em Coín e Lopera. Contudo, nem foi preciso ir tão longe, pois temendo a conquista de Málaga pelos cristãos, el Zegri saiu com uma guarnição para essa cidade. Quando regressou, viu Ronda ser sitiada e destruída por uma recém-chegada a esta guerra: a artilharia pesada. Sem conseguir dominar os cristãos pelo exterior, teve de abandonar os arredores de Ronda, sendo a cidade obrigada a capitular. A rendição permitiu a libertação de muitos daqueles que foram capturados na batalha de Málaga.

 

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Hoje, Ronda ainda espanta todos os visitantes - gloriosa e altiva naquele morro singular e unida pela puente nuevo (construída muito depois da derrota moura, nomeadamente entre 1751 e 1793) que é hoje, uma das suas maiores atracções. Do coreto, é possível imaginar o cerco cristão e os exércitos conquistadores reunidos nas várias montanhas que rodeiam a cidade, as baterias de artilharia, bem posicionadas, tendo em vista a destruição das torres e das muralhas que defendiam o “morro”. Imagino a angústia daquelas gentes e dos “governadores” de Ronda no Palácio do Rei Mouro. A expectativa e o desespero naquelas varandas que enfrentam a dura rocha e que permitem uma vista sobre os vales e montanhas a sudeste da cidade.

 

Ainda é possível ver muito da Izn-Rand Onda muçulmana e facilmente se percebe porque é que Orson Wells e Hemingway ficaram tão fascinados com esta terra que não é só famosa pela sua Praça de Touros, para muitos a mais antiga do Mundo. Eu também fiquei fascinado e... não vou esquecer uma espécie de flash mob involuntária que seu deu perto da Calle Manuel Montero aquando do término desta e numa lateral da Igreja de Santa Maria Maior: assobiei, inocentemente, o Concerto de Aranjuez e tive a companhia de mais de metade dos indivíduos que se encontravam na praça... eram só uns 15, mas já foi qualquer coisa.

 

O Reino de Granada, esse, estava a ficar cada vez mais pequeno e, na verdade, a deixar-nos uma lição para o nosso dia-a-dia pessoal e profissional: se andamos muito ocupados com guerras de poder internas, provavelmente não vamos conseguir enfrentar as dificuldades externas, mesmo que tenhamos os melhores guerreiros e conheçamos o terreno como ninguém.

 

Fonte das Imagens: Prórpia

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