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O Mosteiro de Santa Maria das Júnias...

por Robinson Kanes, em 20.11.17

IMG_6875.JPG Fonte das Imagens: Própria.

 

Como prometido, teria de voltar a Pitões das Júnias. O espaço de um artigo, que pode ser lido aqui, é pequeno para a grandeza desta aldeia, "perdida" no concelho de Montalegre e onde o Gerês termina a sua conquista de vales e montes e abraça o Barroso. 

 

Não podemos falar de Pitões sem mencionar o Mosteiro que aí se encontra perdido e em ruínas. Não defendendo que o mesmo esteja em ruinas, de facto, é um marco e uma imagem inesquecível, um pouco ao nível do que encontramos no Convento do Carmo, que não precisa de obras para ser imponente e apetecível. Todavia, e segundo a Câmara Municipal de Montalegre, já existe um projecto para reabilitar o mesmo... Fantástico, não é?

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O Mosteiro encontra-se, na maioria das publicações, datado no pré-românico, mais precisamente no século IX. Todavia, as investigações mais recentes apontam para o século XII - com alguma precisão para o ano de 1147. Acerca da história deste mosteiro, inicialmente Beneditino, sugiro este artigo do Instituto de Estudos Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.  

 

Com uma planta trapezoidal, é um mosteiro românico mas com um claustro já com alguns apontamentos góticos, pelo que não nos devemos deixar enganar pelos arcos de volta perfeita, mais românicos. À semelhança de muitos destes espaços, a evolução do mesmo esteve sempre lado-a-lado com a História e respectivamente com a arquitectura da época. Desde então as grandes mudanças deram-se sobretudo ao nível social, primeiramente com a absorção dos Beneditinos pela Ordem de Cister e já em 1834 com a extinção do mesmo por arrasto da extinção das ordens religiosas. Passou a ser paróquia e a ter outras utilidades e hoje, no dia 15 de Agosto ainda é alvo da romaria dos habitantes de Pitões e aldeias vizinhas.

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Chegar ao mosteiro é entrar num cenário digno de filme ou, como alguém no artigo sobre Pitões apontou, encontrar uma terra encantada. Atravessar os campos, sempre com uma vista soberba para o rio e para as montanhas a sul, acompanhar o ritmo da fauna e seguir os lameiros é, sem dúvida, a melhor porta de entrada para o vale em que encontramos estas ruinas e percebemos como o homem e a natureza são capazes de viver e criar em harmonia. Para mim, este é sem dúvida um dos melhores locais para a realização de um piquenique ou até para nos deixarmos cair no chão e esperar que o sol nos aqueça o rosto ou a chuva nos lave de todas as inquietações.

 

Com o som da água, pela ribeira que passa mesmo ao lado do mosteiro, em sintonia perfeita com os pássaros e um "barulho silencioso" de todo aquele vale, diria que estamos no mais perfeito dos romances. Disse acima que é um local perfeito para um piquenique, e diria até, que é o local perfeito para acompanhar os amantes que naquele encanto natural podem viver a sua paixão eterna em perfeita simbiose com o meio-envolvente. Um dos locais mais românticos no Gerês, é sem dúvida o Mosteiro de Santa Maria das Júnias.

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 Para os mais curiosos, sugiro algumas publicações acerca do mosteiro, da aldeia e até da própria região:

 

BARROCA, Mário Jorge – “Mosteiro de Santa Maria das Júnias – Notas para o estudo da sua evolução arquitectónica”, in Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, II série, vol. 11, Porto, 1994, pp. 417-443.

BORRALHEIRO, Rogério – Montalegre - Memórias e História – Montalegre: Barrosana, E.M., 2005.

COUCHERIL, Maur - Routier des Abbayes Cisterciennes du Portugal - Paris: Fondation Calouste Gulbenkian,  Centre Cultural Portugais, 1986.

GUERREIRO, Manuel Viegas - Pitões das Júnias. Esboço de monografia etnoigráfica - Lisboa, 1981.

MARTINS, Clara Joana - Mosteiro de Pitões das Júnias. Um caso de obstinação, in Revista Descobrir, nº 0, Lisboa, 1995, pp.110-115.

VASCONCELOS, Joaquim - A Arte Românica em Portugal, Publicações Dom Quixote: Lisboa, 1992.

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O Outono... O Pointer... E as Memórias...

por Robinson Kanes, em 16.11.17

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Fonte das Imagens: Própria. 

 

Já deixei aqui bem patente a minha paixão pelo Outono. Por lá disse que "o Outono dá cor às nossas telas, inspiração à nossa música, faz-nos dançar com as folhas e gentilmente sentir o chão ao pousarmos e a esvoaçarmos novamente, como as aves que partem para destinos mais quentes. O Outono é arte e não é por acaso que existem lugares neste Portugal e não só, onde o Outono é a época mais bonita do ano: pensem no Douro, no Alentejo ou então vamos até à Toscânia ou deixemo-nos prender pela paisagem de Santorini enquanto bebemos um café grego (aquilo para mim é café turco, mas pronto) e admiramos os telhados azuis. O Outono é talvez a mais poderosa e artística estação nos países do mediterrâneo".

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O Outono lembra-me sempre um dos meus grandes amigos, o Nilo. O Nilo é Pointer Inglês "cá de casa", um caçador nato  que não faz mal a uma mosca mas que por isso não perde todos os instintos. A propósito disso, o Outono lembra-me também a época de caça (embora não seja caçador) e todo o movimento que em tempos a mesma provocava, sobretudo em zonas mais rurais. Lembro-me da azáfama junto de tabernas e largos de vilas e aldeias... Dos restaurantes típicos cheios de caçadores e de todo aquele convívio em torno de uma actividade que, independentemente do que possamos pensar da mesma, animava, e de que maneira, aqueles locais.

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Retomando ao Nilo, só posso recordar esta força da Natureza que é capaz de sair às sete da manhã de casa, começar a correr e só parar às sete da tarde e continuar como se nada tivesse acontecido. Costumamos brincar e dizer que esta raça e outras similares têm uma baixa esperança de vida porque vivem tão intensamente essa mesma vida que é impossível um coração aguentar tantos anos de energia ao máximo. Encontrar o Nilo parado é um verdadeiro desafio, pelo que é necessário possuir características de fotógrafo da "National Geographic" e esperar pacientemente que o dono dos campos pare, nem que seja para respirar...

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Um outro aspecto do Outono que me encata é o musgo nos muros, sobretudo nos muros de pedra. Regressar depois do Verão e ver o musgo seco a ganhar cor no granito é dos espectáculos mais bonitos que a natureza nos proporciona. Muitos de nós desconhecemos a quantidade de vidas que este fenómeno permite que existam e, de facto. é algo único. Existe quem o queira arrancar, nós deixamo-lo estar, afinal, nos muros de pedra, a melhor tinta é a própria natureza e na Primavera, os lagartos aplaudem este ecossistema quando deixam a hibernação e procuram os primeiros raios de sol.

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Atenção... Acho que consegui encontrar o Nilo parado...

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 Bom Outono... E tanto que se fala no Natal quando ainda falta tanto para o mesmo, talvez o melhor presente seja um copo de sol outonal...

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Com Lenine, Estaline e Tchaikovsky...

por Robinson Kanes, em 10.11.17

IMG_20171110_090509.jpgFonte da Imagem: Própria.

 

Por estes dias "celebrou-se" o aniversário da revolução soviética pelo que, embora tenha muitas questões em relação à mesma, não podemos negar que nos ficou comouma marca histórica que não pode ser apagada, mesmo que esse fosse o modus operandi, aliás, continua a ser, de uma esquerda mais radical. Foi isto que me deu a ideia para criar este artigo que já vai sendo de sugestões para o fim-de-semana e para a semana...

 

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 A primeira prende-se com Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido por Lenine. Mas não vos vou falar do estadista mas sim de um filme que é um dos relatos ficcionais mais brilhantes da história do cinema: o filme alemão "Good bye Lenin!" ou como é conhecido em Portugal, "Adeus Lenine!". Para muitos é uma comédia, para mim é um drama, sobretudo se escutarmos atentamente a banda sonora (Yann Tiersen) e nos deixarmos envolver na história. É o relato de uma mulher, comunista fervorosa que após um coma de 8 meses em 1989, desperta já em 1990 numa Alemanha unificada, onde já não existe divisão. Para evitar futuros ataques cardíacos, o filho, um anti-comunista, tudo fará para proporcionar no apartamento de Berlim uma encenação de como a Alemanha de Leste continua activa e o comunismo não caiu. O grande desafio vai ser, num país que abre os braços ao capitalismo, tudo fazer para parar a história. Um filme alemão dos mais brilhantes do século XXI e um dos meus preferidos onde política e família desempenham um papel ímpar e digno de apreciação. Este filme foi galardoado com um Goya, um César e tantos outros prémios. 

(Fonte da Imagem:http://www.wartburg.edu/2017/01/24/wartburgs-german-film-series-continues-with-good-bye-lenin/)

 

 

 

 

De Lenine, vamos até Estaline onde "A Vida Privada de Estaline", de Lilly Marcou merece o meu destaque. Uma daquelas biografias que não nos cansam, mesmo que descritas com minúcia. Mostra-nos sobretudo o homem com um carácter mais humano e familiar contra o homem que vive na obcessão da traição e que o fazia eliminar todos aqueles que julgava serem potenciais traidores, inclusive alguns dos que lhe eram mais queridos. Fala da eliminação de Trotsky e de como se aproximava daqueles que, pelos quais, não nutria grande simpatia e afastava quem já não lhe pudesse acrescentar nada de novo aos seus planos como foi o caso de Kamenev, após o assassintato de Trótski.

É um livro nada tendencioso e que não teme em elogiar, quando assim tem de ser, o monstro que, segundo muitos, exterminou mais seres-humanos que o próprio Hitler. Interessante será observar a relação deste com a mãe.

 

Finalmente, temos de abrir espaço para um génio e para um dos mais belos concertos para violino: Pyotr Ilyich Tchaikovsky e o "Concerto para Violino em Ré Maior Op. 35". Para mim é uma obra-prima e talvez um dos mais belos concertos alguma vez compostos! É daqueles registos clássicos que ouvimos vezes sem fim e que para os intérpretes é um desafio e tanto na medida em que é conhecido pela sua dificil execução. Cá por casa é presença habitual e já me tem valido alguns comentários do género "não ouves mais nada?". Estreado em Viena tem a particularidade de ter sido dedicado a Leopold Auer que se recusou a interpretar o mesmo, recaindo uma segunda dedicatória em Adolf Brodsky. Composto em 1878 na Suiça é talvez a expressão da depressão que o afectou então a propósito do divórcio com Antonina Miliukova! Para os que não apreciam música clássica, não tenho a mínima dúvida que serão os 35 minutos musicais mais preciosos que poderão escutar, o primeiro andamento (Allegro Moderato) será o suficiente para vos conquistar. Não faltam intérpretes a percorrer a obra do autor, por cá, Valeriy Sokolov é um deles, no entanto rapidamente encontramos vários em registo de disco ou nos canais online.

 

É um concerto inspirador e uma presença constante em momentos mais tenebrosos mas também naqueles momentos em que são necessários decisões com impacte em larga escala. Não gosto de entrar neste tipo de rótulos mas é sem dúvida uma das 10 músicas para ouvir antes de morrer. Deixo-vos numa interpretação feminina de Julia Fischer com a Orquestra da Radio France.

 

Bom fim-de-semana e... Sonhem...

 

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Barceloneta, Onde Fica o Coração...

por Robinson Kanes, em 08.11.17

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Do Port Olímpic caminhamos facilmente junto ao mar pelo passeio marítimo. Este é talvez um dos melhores programas entre o bulício de uma moderna metrópole e o azul do mediterrâneo, isto, enquanto observamos as crianças de diferentes origens e nacionalidades no "Parc de la Barceloneta". E é aí, ao chegar a Barceloneta que o ar tem outro cheiro, que uma diferente Barcelona olha para nós e nos apela a deixar o mar apesar do convite dos bares mais turísticos.

 

Barceloneta não é um bairro muito antigo, percebe-se pela arquitectura. Nasceu no século XVIII quando os habitantes da "La Ribera" foram expulsos por Filipe IV que ordenou a construção da "Ciutadella". Foi, e é ainda, um bairro típico de pescadores e operários (uma dos ambientes que gosto de frequentar), todavia, bem diferente daquele que era antes da modernização de que foi alvo aquando dos Jogos Olímpicos em 92.

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Lembro-me de Barceloneta que, segundo alguns, inspirou Cervantes numa passagem de D. Quixote, e sentir inveja de ver muitos dos meus amigos morarem naquele bairro - denote-se que estava a viver em Ausiàs Marc, pelo que não me poderia queixar, pelo contrário. Barceloneta é o expoente máximo da cultura mediterrânica em Barcelona (apesar de ser um bairro recente), dos cheiros, das conversas, da vida e contrastes que nos fazem indagar se estamos no norte de África, ou num qualquer bairro do sul de Itália. Mas não comparemos, Barceloneta é diferente. Foi lá que aprendi a cozinhar alguns petiscos senegaleses, foi lá que descobri uma forma low-cost e eficaz de polir faróis, foi também naqueles recantos que, entre peixe frito e outras tapas únicas me foi possível conhecer grandes indivíduos.

 

É também aqui que fica o "La Bombeta", um pequeno restaurante e sempre apinhado de gente e que acabava por ser o escape aos restaurantes caros e tremendamente turísticos do "Passeig Joan de Borbó". Aliás, como qualquer bairro, para se encontrar boa comida e... bons amigos, o ideal é sempre ir para o centro, neste caso, alguns dos mais especiais encontram-se perto do "Mercat de la Barceloneta", uma óptima alternativa à carérrima e descaracterizada "Boqueria". Basta seguir pela "Carrer de la Maquinista" que é também onde se encontra o "La Bombeta". Nem cinco minutos são a pé e sempre é possível recordar os bombardeamentos da aviação alemã durante a "Guerra Civil" através da inúmeras placas que se encontram espalhadas. Também é aí que temos uma imagem tipicamente mediterrânica, com habitantes locais à conversa e crianças ainda a brincar na rua - uma raridade - bem mesmo em frente na "Plaça de Pompeu Gener". E depois de tantos recantos, perceberemos que o "La Bombeta" nem é o melhor de todos...

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Neste pequeno bairro conquistado ao mar, existe também espaço para apreciar o património que vai para além das construções civis, refiro-me sobretudo à "Església de Sant Miquel del Port", uma igreja barroca que vibra, quando em Setembro, Barceloneta é um palco de festa com cortejos e uma animação no bairro e nas praias. É totalmente impossível não ficar contagiado pelas danças e folia daqueles dias. Penso que só em Andaluzia conseguem isso de mim, até porque não sou de danças, mas este foi um dos locais onde não consegui resistir.

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Uma outra nota de destaque é o edifício e o próprio "Museu de História da Catalunha", já na direcção do "Port Vell". Este museu é interessante, pois além de contar a história da Catalunha desde a época pré-história é bastante interactivo, os miúdos adoram-no e os adultos apaixonam-se pelo restaurante no piso superior com um terraço e umas vistas únicas para o "Port Vell".

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Recordo agora com saudade a praia depois de umas animadas conversas entre vinho e comida em alguns dos pequenos recantos de Barceloneta... Recordo aquele momento que nos fins de tarde outonais tinha para mim um encanto especial, mais do que no Verão onde os turistas e os próprios habitantes da cidade preenchem o espaço até à exaustão. Recordo o dia em que tirei algumas destas fotografias, um dia em que vesti a pele de turista e não senti nem um terço das emoções que se têm como habitante...

Barcelona é especial e se admito que o meu coração ainda hoje está naquela cidade, por certo está bem guardado num qualquer local de Barceloneta, possivelmente numa das varandas à espera que o resto do corpo o encontre um dia.

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Fonte das Imagens: Própria.

 

Mesmo junto ao local do meu nascimento, bem no centro de Lisboa, onde o Saldanha se agiganta enfrentando a rotunda do Marquês, onde o Sheraton oculta a Maternidade Alfredo da Costa, encontra-se uma das jóias do património nacional que é de todos nós: a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves.

 

Também conhecida por "Casa Malhoa", pois deveu-se ao pintor a ordem para a execução do projecto do arquitecto Norte Júnior, bem nos alvores do século XX, mais precisamente em 1904-05! Aliás, o Prémio Valmor, logo após a sua construção, demonstra o carácter arquitectónico de extremo encanto deste espaço que viria também a ser o atelier do artista!

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Estamos perante uma relíquia no centro de Lisboa, sobretudo numa zona cosmopolita, onde os altos edifícios modernos e as "Avenidas Novas" quase a tornam oculta ao olhar dos transeuntes. Todavia, a majestade não se perde e permite que no meio de muitos gigantes e cinzentos prédios, a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves se resguarde do futuro e lance uma aura que a protege do bulício citadino. 

 

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A casa, contudo, é conhecida hoje por este nome, pois em 1932 foi adquirida por Anastácio Gonçalves um coleccionador de arte  que por vontade expressa a deixou, após a sua morte em 1965, ao Estado Português. O espólio é tal que, segundo a Direcção Geral do Património Cultural, conta com 3.000 obras de arte divididas em três núcleos: pintura portuguesa dos séculos XIX e XX, porcelana chinesa e mobiliário português e estrangeiro. Conta também com património de ourivesaria civil e sacra, pintura europeia, escultura portuguesa, cerâmica europeia, têxteis, numismática, medalhística, vidros e relógios de bolso de fabrico suíço e francês, sem esquecer alguns desenhos, aguarelas e pequenos artefactos pertencentes ao espólio do pintor Silva Porto. Genial!

 

Como confesso admirador de pintura, além da arquitectura, esta é para mim um dos pontos fortes do espaço e que nos leva por uma viagem sem igual pela pintura portuguesa do periodo romântico (Tomás da Anunciação, Vieira Portuense, Miguel A. Lupi e Alfredo Keil) e Naturalista (Marques de Oliveira e Silva Porto). O atelier é um gáudio no que à obra do pintor Silva Porto concerne! Mas se pensam que ficamos por aqui, juntem-lhe também nomes como José Malhoa, João Vaz e claro, Columbano Bordalo Pinheiro - três nomes que por si só valem já a visita!

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Estamos perante uma riqueza primorosa e que vai surpreender aqueles que ainda desconhecem um dos mais belos recantos de Lisboa. Diria até que nos sentimos a regressar àquela época e ficamos a sentir e a ouvir uma Lisboa diferente, sem os automóveis e os ruidos modernos, mas sim uma Lisboa antiga e, sobretudo à época e naquele local, de um glamour ímpar.

 

Mas se é de sons que falamos, também aqui se realizam, além de conferências e seminários, alguns recitais! E como é deleitável estar num local destes e poder desfrutar de um concerto de música clássica, por exemplo. Mesmo para quem não gosta, acredito que seja uma experiência única, como a que teve lugar no dia 04 de Outubro e que contou com a "Ludovice Ensemble" a interpretar obras de Sebastien Bach, Handel, Telemann, Vivaldi e outros.

 

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 Túlia Passando Sobre o Cadáver do Pai - Columbano Bordalo Pinheiro (estudo). A tela final encontra-se no Museu Nacional de Arte Contemporânea.

 

Se em Lisboa ainda existem espaços capazes de nos fazer viajar no tempo, sobretudo num tempo não muito distante, a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves é um deles! Acredito que naquele atelier, onde Malhoa se inspirou, não nos faltará vontade de trajar à época e dançar, cantar ou simplesmente contemplar, para lá dos lindissímos vitrais, uma Lisboa de outros tempos...

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 Lugar do Prado (Santa Marta-Minho) - António da Silva Porto

 

E no final, porque não descer pela Avenida Fontes Pereira de Melo e terminar com um piquenique no Parque Eduardo VII ou no Jardim Amália Rodrigues? No entanto, admito... O meu maior desejo é mandar colocar mesas naquele atelier e convidar todos aqueles pintores! Ali, reunidos a degustar um óptimo almoço, a dissecar diferenças e inovações entre o ontem e hoje, seria sem dúvida um dos dias mais perfeitos da vida de qualquer um de nós... Tudo isto, sem esquecer uma pintura final, com todos os comensais à mesa, não como "Os Bêbados" de Malhoa, mas como o "Grupo do Leão" de Columbano ao som de uma das melodias de Keil (que também pintava, como poderemos aferir no espaço da casa).

 

 

Para mais informações, podem sempre consultar o website do espaço.

Bom fim-de-semana...

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Já por aqui confessei que ninguém é perfeito e o meu gosto por música italiana é a prova cabal... Também já admiti que custa gostar da miríade de músicas que todos os dias são despejadas nas rádios e nos tops (confesso que já nem sigo), no entanto, vão existindo excepções...

 

Uma delas é a Giorgia (estranhamente pouco conhecida em Portugal), mas que canta com uma intensidade e uma entrega pouco comuns em cantoras mainstream. Não é apenas uma senhora bonita, é uma voz forte e perfeita que atrai a nossa atenção assim que a escutamos ao longe, ou numa viagem a Itália quando a ouvimos na rádio.

 

 

O último sucesso e que ecoa pela sua terra-natal é a música "Scelgo ancora te", uma música para nos fazer sonhar e claro... Amar... Amar enquanto percorremos Itália e ao nosso lado temos a companhia de quem nos faz pensar que no meio de tantos acontecimentos maus, a sorte do destino também nos dá autênticos bónus e numa probabilidade infíma de oportunidades, eis que... Haverá momento melhor que escutar esta música enquanto do outro lado, os olhos e o sorriso de outrem se perdem na imensidão do Tirreno? Talvez o título da música - "E mesmo assim te escolho" - seja sem dúvida um resumo do que poderia pensar nesses momentos.

 

A Giorgia... A Giorgia tem sido uma companhia não muito recente, mas que tem melhorado na voz ano após ano, desde que a ouvi pela primeira vez com "Ora Basta". Recomendo, sobretudo para ouvirem com quem gostam enquanto preparam um jantar romântico à segunda-feira, quando quase toda a gente se afoga num sentimento de "Blue Monday". Resulta, vão por mim... Iniciem esse momento com "Per Fare A Meno Di Te".

Pensar...  Cada vez mais um privilégio de poucos num relógio que teima em ter mais de 24 horas! "Pensar" é talvez algo que comece a fazer falta e nada melhor que um livro com o mesmo nome, o "Pensar" de Vergílio Ferreira que não é mais que uma colectânea de pequenos e grandes pensamentos que, de tão actuais que são, levam-nos a pensar que as inquietações só mudaram de nome... Um livro que não é para ser lido de uma vez, posto que os 676 pensamentos devem ser efectivamente pensados e digeridos. É um bom desafio, ler um ou dois por dia... Destaco apenas três, que de um certo modo chamaram a minha atenção:

 

IMG_20171020_102834.jpg91 Este é o tempo do insólito, do vigário, do capricho, da mentira, da falsificação, do cheque sem cobertura, da banha-da-cobra. Não temos um estalão para nada (...) Hoje tudo é possível porque nada é possível. Hoje a verdade não se demora até ser mentira mas uma e outra se convertem mutuamente e são ambas válidas na sua mútua referência , sendo a mentira a verdade e ao contrário. Hoje é o tempo dos aventureiros, do medíocre, do sagaz da esperteza, que é a inteligência da astúcia. Hoje é o tempo do curandeiro, do endireita, do bruxo, do vidente,do profeta, do prestidigitador. Hoje é o tempo de se ser estúpido porque o inteligente não há razão para não ser mais estúpido do que ele. Hoje é o tempo de todos os caminhos estarem desimpedidos porque não é possível um sistema alfandegário. Hoje é o tempo de todos os contrabandos porque não há razão para um sistema fiscal. Hoje é o tempo da noite para todos os gatos terem a mesma identidade. Hoje é o tempo de tudo ser o tempo de. Hoje é o tempo de tudo, portanto de nada. Hoje é o tempo de se não ser. Levanta em ti, se puderes, o que te resta de homem, para seres alguma coisa.

-//-

381 Fala baixo. Não te esfalfes a falar alto. Deixa que os outros se esfalfem até ficarem calados. Falar alto é compensar o que em ideias é baixo. E essa é a compensação dos que escutam. Não te esforçes a falar alto. Serás ouvido quando os outros se esfalfarem e já não tiverem voz. Como o que se ouve num recinto depois que o comício acabou.

-//-

466 Rápidos correm os dias, os anos. Não deixes. Nem isso é verdade. Vive intensamente cada dia, cada hora, repara no seu escoar e verás como são lentos. É por isso que quando guardamos um "minuto de silêncio" pela morte de alguém, aquilo nunca mais acaba...

 

 

 

 

Pensar, sobretudo depois de mais uma semana trágica, é algo que se impõe... Talvez neste momento vagueie naquele rosto que contempla o Tirreno e por aí me fique, será isso que me traz força energia para digerir muito do que vou vendo...

 

Bom fim-de-semana...

 

P.S: Esta semana não poderia deixar de agradecer à Maria Araújo, à C.S., à Mami e a todos os outros que no seu espaço correram o risco de perder todos os leitores ao mencionarem este espaço. Agradeço-vos muito, a vocês e a todos os outros que já o fizeram, a Maria por exemplo, é outro caso... Espero não me estar a esquecer de ninguém, mas mesmo que me esqueça é com uma profunda alegria que vos acolho aqui (mesmo aqueles que por aqui passarem com opinião diferente). São vocês a força motriz deste espaço e isso... Bem, isso vale mais que qualquer comunicação... Vale mais que qualquer favor ou qualquer "empurrão"...  Obrigado por existirem e por fazerem com que este espaço ainda exista, são vocês os grandes pilares.

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Um Retiro no Zavial com "Sem Olhos em Gaza"...

por Robinson Kanes, em 29.09.17

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Fonte das Imagens: Própria 

 

As Liberdades particulares - e não há liberdade que não seja particular - são sempre condicionadas por alguma forma de escravatura geral.

Aldous Huxley, in "Sem Olhos em Gaza"

 

Sempre que ando pelo Barlavento Algarvio, existe um lugar que nunca falha, seja na aurora de um novo dia ou já durante o crespúsculo: a Praia do Zavial.

 

Perto da Praia da Ingrina, é um lugar onde fora da época alta, sobretudo nos meses de Abril, Maio, Setembro e Outubro, podemos afastar-nos do mundo ou do bulício das cidades e encontrar aqui um retiro, quem sabe até mesmo antes de um almoço ou de um jantar no restaurante que serve a praia. Um livro, a companhia de crianças que aproveitam a última luz para jogar futebol na praia quase vazia, os surfistas a conquistar as ondas e a areia em comununhão com o mar são o cenário ideal que não é raro por ali encontrar.

 

É uma praia tranquila, sobretudo para quem não a frequenta no Verão, e além disso é o local perfeito para relaxar depois de um dia a percorrer Sagres e as Praias de Vila do Bispo. Falei de livros e recordo-me que durante a minha última passagem por aquelas areias, acabei a tarde com dois capítulos do "Sem Olhos em Gaza" de Aldous Huxley.

 

Quem estiver a pensar que é um livro sobre a Faixa de Gaza, pode colocar o mesmo de parte - o título é inspirado num poema de John Milton ("Samson Agonistes"), mais precisamento no verso "sem olhos em Gaza, no moinho com os escravos". A escolha deste autor não é casual e basta conhecer um pouco da biografia de Milton para o perceber.

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Mais uma vez, é um Huxley desiludido com o mundo (as peripécias desenrolam-se entre finais do século XIX e primeiros 35 anos do século XX), olhando à volta e vendo, sobretudo na média e alta sociedade, uma total ausência de valores e uma crise apática com o meio envolvente. É um desalento já notado em "Regresso ao Admirável Mundo Novo", é um Antonhy (personagem principal) preocupado, mas contudo perdido no meio da futilidade da época, de um pai mais preocupado com detalhes linguísticos do que com a tristeza do mundo; são amigos intelectuais, mas com essa mesma intelectualidade virada para o superflúo ou para vidas vazias de conteúdo - "há que distinguir entre conhecer e experimentar. Verdade conhecida não é a mesma que verdade experimentada. Devia haver duas palavras distintas".

 

É uma cegueira colectiva, conceito que os comentários ao livro, muitas vezes e bem, colocam como pano de fundo da obra. Uma nota para a mãe de Antonhy, que no livro tem um papel especial, embora a sua presença seja já sempre com base num passado, posto que esta já se encontra morta. Talvez seja essa ausência uma mais-valia para o livro...

 

Como em quase toda a obra de Huxley, pelo menos dentro daquilo que já me foi permitido ler ("Admirável Mundo Novo", "Regresso ao Admirável Mundo Novo", "A Ilha", "Férias em Crome", "Céu e Inferno", "Os Demónios de Loudon", "Sem Olhos em Gaza) encontro a actualidade assustadoramente bem descrita e decomposta. Termino com mais uma passagem: "Apenas os bárbaros entre nós,  sabem o que são. Os civilizados têm consciência  do que podem ser e são por isso incapazes de saber, o que,  para fins práticos e sociais, realmente são - esqueceram-se de como extrair da sua experiência atómica total, uma personalidade".

 

São as minhas sugestões para estes dias... Bom fim-se-semana...

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Fonte das Imagens: Própria. 

 

Depois do pôr do sol na Praia do Beliche existe também, a cerca de 4km, um local onde um outro pôr do sol nos confronta com a imensidão do Universo. Um pôr do sol forte e onde nos sentimos aquele pequeno grão de areia perdido entre milhões de galáxias. Onde reconhecemos, independente do nosso poder que somos aquele pequeno átomo.

 

Estamos em Sagres, ou melhor, na fortaleza que tem o mesmo nome. Localizada na Ponta de Sagres, também denominada de Promontório Sagrado (Promunturium Sacrum), este local vale sobretudo pelo seu entorno natural, pelas vistas únicas e pela voz do mar que nos invade por debaixo da rocha, ora uma vez suave ora outra vez mais forte e agressiva. A prova de riqueza natural e patrimonial está patente na classificação como Monumento Nacional, Zona Especial de Protecção (ZEP), Rede Natura 2000 e ainda como fazendo parte do Parque Natural da Costa Vicentina e Sudoeste Alentejano. Acresce ainda, o facto do Promontório ser Marca do Património Europeu (MPE), distição da União Europeia que visa promover sítios que simbolizam a integração, os ideais e a sua história. 

 

Depois de algumas horas na Praia do Tonel, podemos guardar o fim do dia para seguir as passadas do Infante D. Henrique e gritar ao oceano que se prepare para enfrentar as nossas caravelas em busca de novos mundos. Podemos também apreciar a enseada da Mareta e o Cabo de São Vicente que, ali tão perto, rivalizam no protagonismo com o promontório.

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O que fascina neste local é sobretudo a imensidão e, mesmo desconhecendo a história, muito bem resumida no website do Promontório, é impossível ficar indiferente. Uns falam do seu misticismo, outros falam do contacto com a natureza, eu falaria de uma sensação estranha; talvez da sensação de estarmos numa zona de mudança, numa área em que um sem número de forças naturais terrestres confluem e às quais o nosso corpo e alma não ficam indiferentes. Se quiserem uma banda sonora, nada como entrar na "Câmara Sonora Activada pelo Mar - Voz do Mar" do arquitecto, pintor e escultor Pancho Guedes. Ao início parece-nos mais uma daquelas obras de arte contemporânea sem qualquer sentido, mas só entrando podemos apreciar a magia oferecida pelo autor.

 

Não poderemos esquecer as aves, ou não fosse esta uma zona de rota migratória, sobretudo das aves que viajam de e para o continente africano. Como fanático das aves de rapina, não poderia deixar de mencionar o Grifo (Gyps fulvus), o Milhafre-preto (Milvus migrans), a Águia-cobreira (Circaetus gallicus) e o suspeito do costume: o Falcão-peregrino (Falco peregrinus). A par da área circundante ao Cabo de São Vicente é comum ver estes habitantes a dominar os céus. Sobre isso falei também aqui aquando de um artigo dedicado ao Cabo de São Vicente e à Praia e Fortaleza do Beliche. Ao longo do Promontório existe também informação com as diferentes espécies de aves e de flora que se pode observar.

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Em relação à fortaleza propriamente dita, é uma construção abaluartada com um portal neoclássico. Aí, é também possível visitar os vestígios da "Vila do Infante" (Infante D. Henrique, que faleceria aqui em 1460) anteriores às muralhas setecentistas. Uma nota também para a torre-cisterna, a "rosa-dos-ventos", uma muralha corta-ventos, os restos das antigas habitações e quartéis e a antiga paróquia de Nossa Senhora da Graça. Uma nota particular para as várias intervenções mal sucedidas ou que nem chegaram a sair do papel que percorreram todo o século XX e que actualmente se tentam colmatar com novas intervenções que garantam a autenticidade do espaço.

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A já mencionada "rosa-dos-ventos", é uma das grandes atracções da fortaleza, mas também aquela pela qual muitos passam ao lado. De facto, ainda ninguém conseguiu provar verdadeiramente a sua função, há quem aponte para um "relógio solar" e até para uma construção com carácter esotérico. Ao contrário do que se pensou, durante muitos anos, este espaço não existiria na época do Infante D. Henrique, aliás, mesmo a existência de uma Escola (a "Escola de Sagres") é algo que tem vindo a ser afastado. Já Ayres de Sá afastava essa hipótese dizendo que, a existir, um empreendimento de tal envergadura não poderia ter passado ao lado dos historiadores e cronistas da época.

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Com história ou sem história, com mistérios ou sem eles, de facto estamos perante um lugar único, onde diferentes emoções nos afloram e de onde, com toda a certeza, poderemos sair com a ideia de que estivemos num pequeno canto do mundo; onde realidade humana e natural convivem de braço dado com uma aura indecifrável mas contagiante. Quem sabe, sejamos intrusos no encontro do calor do Levante com a frieza do Oceano.

IMG_3499.jpgAlgumas notas:

 

  1. Como continuamos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina não deixem de consultar e levar convosco o Código de Conduta e Boas Práticas.
  2. Sugestões bibliográficas sobre a temática:
  • Almeida, João de (1948), Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses Volume 3, Lisboa, Edição de Autor.
  • Albuquerque, Luís de (1971), Escola de Sagres, Dicionário de História de Portugal. Dir. de Joel Serrão, Vol. III, Lisboa, Iniciativas Editoriais.
  • Coutinho, Valdemar (1997), Castelos, fortalezas e torres da região do Algarve, Faro, Algarve em Foco Editora. 
  • Guedes, Livio da Costa (1988), Aspectos do reino do Algarve nos séculos XVI e XVII: a descrição de Alexandre Massaii (1621), Lisboa, Arquivo Histórico Militar.
  • Magalhães, Natércia (2008), Algarve - Castelos, Cercas e Fortalezas, Faro, Letras Várias.

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 Fonte da Imagem: 

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Sexta-feira, o dia já conhecido pela actividade que me há-de acompanhar toda a vida: passar-a-ferro.

 

Lamento não ter texto sobre uma cidade onde vivi três meses e que foi alvo de um atentado, mas confesso (do ponto de vista pessoal) que não sigo a loucura dos "bicos de pés", vulgo hashtags... Posto que, quando a poeira assentar e termos percebido um pouco o que se passou, vou voltar ao assunto. Espero que as "Madres-Teresa de Calcutá" aproveitem também para partilhar fotos com os cadáveres dos mais de 50 civis que morreram esta semana na Síria "por engano" e durante um ataque da coligação. Eu sei que dizer que se esteve ou está em Barcelona é mais cool, mas Damasco é logo a seguir a Ankara e além disso tem uma história milenar.

 

Hoje pensava falar de uma zona de praia e de mar, mas a revolta que por aqui vai com os incêndios é maior e não pretendo ser mais um a dizer que está muito preocupado com a temática ao mesmo tempo que tira uma foto a beber uma caipirinha no Algarve ou num outro destino qualquer.

 

Deste modo, esta semana deixo também a música de lado e parto para os livros: "A Farsa" de Raúl Brandão e a personagem de "Candidinha" fazem-nos querer matar tal figura logo de início e, sobretudo no fim da obra, quase que nos sentimos vingados com a morte do filho. Deixo que leiam este livro de desencanto com o mundo, ódio e ambição bem pincelada de tristeza, em suma, um expressionismo e neo-romantismo bastante característicos da obra de Raúl Brandão.

 

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Fonte da Imagem: Própria 

 

E como os temas estão fortes, revisito também Gabriel Garcia Márquez (parece que ando em maratona com o génio) e o seu "Outono do Patriarca". Sem entrar em grandes revelações, é interessante a leitura na medida em que é um retrato fiel de muitos ditadores e marca a literatura de uma época (apesar da obra estar bastante actual) que se debateu também nesta matéria - nomes como Miguel Angel Asturias ou Augusto Roa Bastos são bons exemplos. Garcia Márquez é conhecido pelas suas descrições violentas, mas aqui tem um toque especial, pois no fundo é um relato com espaço para toda a imaginação e espelho do real do autor sobressairem num máximo esplendor. Provavelmente ainda voltarei a este livro para a semana.

 

E um filme? Imaginem que numa só pelicula conseguem ter Sean Connery, Michael Caine (uma vénia), Robert Redford (idem), Gene Hackman (idem), Dirk Bogarde (de "Morte em Veneza"), Antonhy Hopkins (outra vénia), Edward Fox, Ryan O'Neil (gostei dele em "Barry Lindon"), James Caan,  Lawrence Olivier  e um outro sem número de estrelas.

 

Se gostarem do género, somem o facto de ser um filme de guerra, baseado numa conhecida operação militar da 2ª Guerra Mundial, nomeadamente a "Operação Market Garden" (e também no livro de Cornelius Ryan)!

 

Quem já andou pela Holanda e não ficou só por Amesterdão decerto passou pela icónica ponte de Arnhem - é aí que a missão falha redondamente para o lado dos aliados, que animados pela "vitória" na Normandia tentam entrar na Alemanha pela Holanda conquistando várias pontes.

 

O filme realizado por Richard Attenborough tem o nome de "A Bridge too Far". O nome ficou famoso, pois na realidade, o Tenente-General "Boy" Browning (interpretado por Dirk Bogarde no filme) virou-se para um optimista General Montgomery e disse que os aliados tentaram ir longe demais, neste caso, uma ponte longe demais. Se gostaram de Anthropoid, que já teve por aqui um artigo, vão adorar este. Aposto também que, ao fim de 3 horas de filme, vão assobiar durante muitos dias a banda sonora de John Addison. Com estes actores e com mais uma lição de história, não tenho dúvidas que o fim-de-semana ou a semana têm tudo para ser mais animados... Ideal para o pós-ferro e para quem sabe que já não se assiste a um bom filme de guerra desde "O Resgate do Soldado Ryan".

 

E não me acusem de ser saudosista ou velho! Em 1977, penso que ainda nem os meus pais se tinham conhecido.

 

Bom fim-de-semana...

 

P.S: A ponte de Arnhem tem agora o nome de "Ponte John Frost" em homenagem ao Tenente-Coronel John Frost que esteve à frente das tropas aerotransportadas que defenderem a ponte naquele fatídico mês de setembro. Esta personagem é interpretada no filme por Anthony Hopkins (uma vénia).

 

Actualização a 19/08: Se repararam, tive o meu momento à Jorge Jesus no último parágrafo quando escrevi "defenderem" ao invéms de "defenderam".

 

 

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Pela Cordoama, Barriga e Castelejo...

por Robinson Kanes, em 03.08.17

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Apesar de ser Verão e as praias se encherem de cor e festa, a verdade é que existem praias que são mais belas longe desta época... Três delas situam-se lado-a-lado, bem perto de Vila do Bispo: a Praia do Castelejo a leste, a Praia da Cordoama ao centro e a Praia da Barriga a oeste. É interessante como não nos cansamos de percorrer esta costa, como cada praia é uma descoberta, cada penhasco um desafio e o oceano o nosso companheiro mais fiel e que se vai transformado quilómetro a quilómetro.

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Comecemos pela Cordoama, uma praia com extenso areal e ideal para a prática de desportos náuticos (sobreutdo surf) e também para a prática de parapente, mas pouco recomendável para crianças ou pessoas que não queiram arriscar no mar devido à ondulação. À semelhança da Praia da Barriga é ideal para observar as escarpas e contemplar o oceano. No entanto, a Cordoama e o Castelejo têm uma particularidade: são divididas por uma colina e é daí que se consegue ter também uma das melhores vistas da Costa Vicentina. É um local icónico e que permite, por vezes, apreciar de cima verdadeiras acrobacias aquáticas ou então aéreas devido à prática de parapente. A Cordoama não se pode considerar uma praia romântica nem das mais belas da Costa Vicentina, mas é sem dúvida um ponto obrigatório, quanto mais não seja para deixarmos que os ventos que acompanham o atlântico nos purifiquem.

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A Praia da Barriga é ideal para ser o ponto de partida para uma caminhada até à Cordoama e depois ao Castelejo na maré-baixa. É conhecida sobretudo pelos praticantes de surf e bodyboard.

 

Finalmente, a jóia da coroa destas praias, a Praia do Castelejo: além da ondulação forte oferece ainda um contraste singular entre o negro xisto e a areia dourada a que se junta a Pedra da Laje que pela sua semelhança a um castelo é apontada como a responsável pelo nome da praia. Uma das outras mais-valias deste local é o Trilho Ambiental do Castelejo e que ainda integra uma área de Rede Natura 2000! Circular e com apenas 3,5km é obrigatório percorrer o mesmo, seja a pé ou de bicicleta. Apesar de não ir dar à praia, é possível fazer um piquenique junto ao lago antes de se abandonar o trilho, até porque os cheiros do Castelejo não nos deixarão fugir sem pisarmos aquelas areias. Mais informação sobre o trilho aqui.

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E como estamos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina não deixem de consultar e levar convosco o Código de Conduta e Boas Práticas.

 

 

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