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Fonte das Imagens: Própria. 

 

Depois do pôr do sol na Praia do Beliche existe também, a cerca de 4km, um local onde um outro pôr do sol nos confronta com a imensidão do Universo. Um pôr do sol forte e onde nos sentimos aquele pequeno grão de areia perdido entre milhões de galáxias. Onde reconhecemos, independente do nosso poder que somos aquele pequeno átomo.

 

Estamos em Sagres, ou melhor, na fortaleza que tem o mesmo nome. Localizada na Ponta de Sagres, também denominada de Promontório Sagrado (Promunturium Sacrum), este local vale sobretudo pelo seu entorno natural, pelas vistas únicas e pela voz do mar que nos invade por debaixo da rocha, ora uma vez suave ora outra vez mais forte e agressiva. A prova de riqueza natural e patrimonial está patente na classificação como Monumento Nacional, Zona Especial de Protecção (ZEP), Rede Natura 2000 e ainda como fazendo parte do Parque Natural da Costa Vicentina e Sudoeste Alentejano. Acresce ainda, o facto do Promontório ser Marca do Património Europeu (MPE), distição da União Europeia que visa promover sítios que simbolizam a integração, os ideais e a sua história. 

 

Depois de algumas horas na Praia do Tonel, podemos guardar o fim do dia para seguir as passadas do Infante D. Henrique e gritar ao oceano que se prepare para enfrentar as nossas caravelas em busca de novos mundos. Podemos também apreciar a enseada da Mareta e o Cabo de São Vicente que, ali tão perto, rivalizam no protagonismo com o promontório.

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O que fascina neste local é sobretudo a imensidão e, mesmo desconhecendo a história, muito bem resumida no website do Promontório, é impossível ficar indiferente. Uns falam do seu misticismo, outros falam do contacto com a natureza, eu falaria de uma sensação estranha; talvez da sensação de estarmos numa zona de mudança, numa área em que um sem número de forças naturais terrestres confluem e às quais o nosso corpo e alma não ficam indiferentes. Se quiserem uma banda sonora, nada como entrar na "Câmara Sonora Activada pelo Mar - Voz do Mar" do arquitecto, pintor e escultor Pancho Guedes. Ao início parece-nos mais uma daquelas obras de arte contemporânea sem qualquer sentido, mas só entrando podemos apreciar a magia oferecida pelo autor.

 

Não poderemos esquecer as aves, ou não fosse esta uma zona de rota migratória, sobretudo das aves que viajam de e para o continente africano. Como fanático das aves de rapina, não poderia deixar de mencionar o Grifo (Gyps fulvus), o Milhafre-preto (Milvus migrans), a Águia-cobreira (Circaetus gallicus) e o suspeito do costume: o Falcão-peregrino (Falco peregrinus). A par da área circundante ao Cabo de São Vicente é comum ver estes habitantes a dominar os céus. Sobre isso falei também aqui aquando de um artigo dedicado ao Cabo de São Vicente e à Praia e Fortaleza do Beliche. Ao longo do Promontório existe também informação com as diferentes espécies de aves e de flora que se pode observar.

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Em relação à fortaleza propriamente dita, é uma construção abaluartada com um portal neoclássico. Aí, é também possível visitar os vestígios da "Vila do Infante" (Infante D. Henrique, que faleceria aqui em 1460) anteriores às muralhas setecentistas. Uma nota também para a torre-cisterna, a "rosa-dos-ventos", uma muralha corta-ventos, os restos das antigas habitações e quartéis e a antiga paróquia de Nossa Senhora da Graça. Uma nota particular para as várias intervenções mal sucedidas ou que nem chegaram a sair do papel que percorreram todo o século XX e que actualmente se tentam colmatar com novas intervenções que garantam a autenticidade do espaço.

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A já mencionada "rosa-dos-ventos", é uma das grandes atracções da fortaleza, mas também aquela pela qual muitos passam ao lado. De facto, ainda ninguém conseguiu provar verdadeiramente a sua função, há quem aponte para um "relógio solar" e até para uma construção com carácter esotérico. Ao contrário do que se pensou, durante muitos anos, este espaço não existiria na época do Infante D. Henrique, aliás, mesmo a existência de uma Escola (a "Escola de Sagres") é algo que tem vindo a ser afastado. Já Ayres de Sá afastava essa hipótese dizendo que, a existir, um empreendimento de tal envergadura não poderia ter passado ao lado dos historiadores e cronistas da época.

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Com história ou sem história, com mistérios ou sem eles, de facto estamos perante um lugar único, onde diferentes emoções nos afloram e de onde, com toda a certeza, poderemos sair com a ideia de que estivemos num pequeno canto do mundo; onde realidade humana e natural convivem de braço dado com uma aura indecifrável mas contagiante. Quem sabe, sejamos intrusos no encontro do calor do Levante com a frieza do Oceano.

IMG_3499.jpgAlgumas notas:

 

  1. Como continuamos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina não deixem de consultar e levar convosco o Código de Conduta e Boas Práticas.
  2. Sugestões bibliográficas sobre a temática:
  • Almeida, João de (1948), Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses Volume 3, Lisboa, Edição de Autor.
  • Albuquerque, Luís de (1971), Escola de Sagres, Dicionário de História de Portugal. Dir. de Joel Serrão, Vol. III, Lisboa, Iniciativas Editoriais.
  • Coutinho, Valdemar (1997), Castelos, fortalezas e torres da região do Algarve, Faro, Algarve em Foco Editora. 
  • Guedes, Livio da Costa (1988), Aspectos do reino do Algarve nos séculos XVI e XVII: a descrição de Alexandre Massaii (1621), Lisboa, Arquivo Histórico Militar.
  • Magalhães, Natércia (2008), Algarve - Castelos, Cercas e Fortalezas, Faro, Letras Várias.

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Sexta-feira, o dia já conhecido pela actividade que me há-de acompanhar toda a vida: passar-a-ferro.

 

Lamento não ter texto sobre uma cidade onde vivi três meses e que foi alvo de um atentado, mas confesso (do ponto de vista pessoal) que não sigo a loucura dos "bicos de pés", vulgo hashtags... Posto que, quando a poeira assentar e termos percebido um pouco o que se passou, vou voltar ao assunto. Espero que as "Madres-Teresa de Calcutá" aproveitem também para partilhar fotos com os cadáveres dos mais de 50 civis que morreram esta semana na Síria "por engano" e durante um ataque da coligação. Eu sei que dizer que se esteve ou está em Barcelona é mais cool, mas Damasco é logo a seguir a Ankara e além disso tem uma história milenar.

 

Hoje pensava falar de uma zona de praia e de mar, mas a revolta que por aqui vai com os incêndios é maior e não pretendo ser mais um a dizer que está muito preocupado com a temática ao mesmo tempo que tira uma foto a beber uma caipirinha no Algarve ou num outro destino qualquer.

 

Deste modo, esta semana deixo também a música de lado e parto para os livros: "A Farsa" de Raúl Brandão e a personagem de "Candidinha" fazem-nos querer matar tal figura logo de início e, sobretudo no fim da obra, quase que nos sentimos vingados com a morte do filho. Deixo que leiam este livro de desencanto com o mundo, ódio e ambição bem pincelada de tristeza, em suma, um expressionismo e neo-romantismo bastante característicos da obra de Raúl Brandão.

 

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Fonte da Imagem: Própria 

 

E como os temas estão fortes, revisito também Gabriel Garcia Márquez (parece que ando em maratona com o génio) e o seu "Outono do Patriarca". Sem entrar em grandes revelações, é interessante a leitura na medida em que é um retrato fiel de muitos ditadores e marca a literatura de uma época (apesar da obra estar bastante actual) que se debateu também nesta matéria - nomes como Miguel Angel Asturias ou Augusto Roa Bastos são bons exemplos. Garcia Márquez é conhecido pelas suas descrições violentas, mas aqui tem um toque especial, pois no fundo é um relato com espaço para toda a imaginação e espelho do real do autor sobressairem num máximo esplendor. Provavelmente ainda voltarei a este livro para a semana.

 

E um filme? Imaginem que numa só pelicula conseguem ter Sean Connery, Michael Caine (uma vénia), Robert Redford (idem), Gene Hackman (idem), Dirk Bogarde (de "Morte em Veneza"), Antonhy Hopkins (outra vénia), Edward Fox, Ryan O'Neil (gostei dele em "Barry Lindon"), James Caan,  Lawrence Olivier  e um outro sem número de estrelas.

 

Se gostarem do género, somem o facto de ser um filme de guerra, baseado numa conhecida operação militar da 2ª Guerra Mundial, nomeadamente a "Operação Market Garden" (e também no livro de Cornelius Ryan)!

 

Quem já andou pela Holanda e não ficou só por Amesterdão decerto passou pela icónica ponte de Arnhem - é aí que a missão falha redondamente para o lado dos aliados, que animados pela "vitória" na Normandia tentam entrar na Alemanha pela Holanda conquistando várias pontes.

 

O filme realizado por Richard Attenborough tem o nome de "A Bridge too Far". O nome ficou famoso, pois na realidade, o Tenente-General "Boy" Browning (interpretado por Dirk Bogarde no filme) virou-se para um optimista General Montgomery e disse que os aliados tentaram ir longe demais, neste caso, uma ponte longe demais. Se gostaram de Anthropoid, que já teve por aqui um artigo, vão adorar este. Aposto também que, ao fim de 3 horas de filme, vão assobiar durante muitos dias a banda sonora de John Addison. Com estes actores e com mais uma lição de história, não tenho dúvidas que o fim-de-semana ou a semana têm tudo para ser mais animados... Ideal para o pós-ferro e para quem sabe que já não se assiste a um bom filme de guerra desde "O Resgate do Soldado Ryan".

 

E não me acusem de ser saudosista ou velho! Em 1977, penso que ainda nem os meus pais se tinham conhecido.

 

Bom fim-de-semana...

 

P.S: A ponte de Arnhem tem agora o nome de "Ponte John Frost" em homenagem ao Tenente-Coronel John Frost que esteve à frente das tropas aerotransportadas que defenderem a ponte naquele fatídico mês de setembro. Esta personagem é interpretada no filme por Anthony Hopkins (uma vénia).

 

Actualização a 19/08: Se repararam, tive o meu momento à Jorge Jesus no último parágrafo quando escrevi "defenderem" ao invéms de "defenderam".

 

 

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Pela Cordoama, Barriga e Castelejo...

por Robinson Kanes, em 03.08.17

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Apesar de ser Verão e as praias se encherem de cor e festa, a verdade é que existem praias que são mais belas longe desta época... Três delas situam-se lado-a-lado, bem perto de Vila do Bispo: a Praia do Castelejo a leste, a Praia da Cordoama ao centro e a Praia da Barriga a oeste. É interessante como não nos cansamos de percorrer esta costa, como cada praia é uma descoberta, cada penhasco um desafio e o oceano o nosso companheiro mais fiel e que se vai transformado quilómetro a quilómetro.

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Comecemos pela Cordoama, uma praia com extenso areal e ideal para a prática de desportos náuticos (sobreutdo surf) e também para a prática de parapente, mas pouco recomendável para crianças ou pessoas que não queiram arriscar no mar devido à ondulação. À semelhança da Praia da Barriga é ideal para observar as escarpas e contemplar o oceano. No entanto, a Cordoama e o Castelejo têm uma particularidade: são divididas por uma colina e é daí que se consegue ter também uma das melhores vistas da Costa Vicentina. É um local icónico e que permite, por vezes, apreciar de cima verdadeiras acrobacias aquáticas ou então aéreas devido à prática de parapente. A Cordoama não se pode considerar uma praia romântica nem das mais belas da Costa Vicentina, mas é sem dúvida um ponto obrigatório, quanto mais não seja para deixarmos que os ventos que acompanham o atlântico nos purifiquem.

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A Praia da Barriga é ideal para ser o ponto de partida para uma caminhada até à Cordoama e depois ao Castelejo na maré-baixa. É conhecida sobretudo pelos praticantes de surf e bodyboard.

 

Finalmente, a jóia da coroa destas praias, a Praia do Castelejo: além da ondulação forte oferece ainda um contraste singular entre o negro xisto e a areia dourada a que se junta a Pedra da Laje que pela sua semelhança a um castelo é apontada como a responsável pelo nome da praia. Uma das outras mais-valias deste local é o Trilho Ambiental do Castelejo e que ainda integra uma área de Rede Natura 2000! Circular e com apenas 3,5km é obrigatório percorrer o mesmo, seja a pé ou de bicicleta. Apesar de não ir dar à praia, é possível fazer um piquenique junto ao lago antes de se abandonar o trilho, até porque os cheiros do Castelejo não nos deixarão fugir sem pisarmos aquelas areias. Mais informação sobre o trilho aqui.

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E como estamos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina não deixem de consultar e levar convosco o Código de Conduta e Boas Práticas.

 

 

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"Friday I'm In Love"...

por Robinson Kanes, em 28.07.17

 

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 Fonte da Imagem: Própria

 

Aí está o fim de semana e com ele o delírio daqueles que trabalham cinco dias para viverem um e deprimirem a partir das 13 horas do segundo...

 

Por aqui deixo uma pergunta, já foram a Tourém? Então nada como ir até ao artigo de ontem, pode ser uma óptima sugestão para vos encher de boas energias ao invés de lastimarem a infelicidade de terem um trabalho e ainda terem tempo de descanso...

 

O tema dos incêndios também tem sido uma tónica cá por casa, pelo que será necessário descomprimir antes que me sejam colocadas as malas à porta. Na leitura não será,  pois por aqui continua-se a reler Gabriel Garcia Márquez e o seu "Amor Nos Tempos de Cólera". Quem viu o filme e gostou, após ler o livro vai mudar de opinião em relação ao primeiro. Mas... Apesar de arrebatadores e geniais, os livros de Garcia Márquez não são propriamente os que nos colocam mais felizes...

 

Por tudo isto, lembrei-me da banda sonora desta semana: "The Cure" - aquele rock com um sotaque british bem vincado na voz de Roberth Smith, o vocalista da banda nascida nos anos 70 e que sobreviveu aos ricos anos 80 e ainda conseguiu atingir o apogeu nos anos 90! É a banda ideal para ouvir enquanto se conduz na cidade enquanto outros, fechados nos seus automóveis, apresentam a tradicional cara de atum. Destaco três músicas que estão incluídas no "Best Of" mais "recente" da banda - três porque não poderia esquecer "Friday I'm In Love"! As outras duas são "Why Can't Be You" (adoro além de que é das melhores para andar no trânsito - ver no final do artigo ) e "Mint Car" (ideal para filas longas - idem).

 

 

Um filme? Poderia pensar em vários mas talvez opte por uma produção francesa de Yann Samuell com Guillaume Canet e a belle Marion Cotillard. O filme é "Jeux d'enfants" ("Love Me if you Dare", em inglês). Uma história de amor, mais leve e mais animada que decorre em torno de um jogo, ideal para quem gosta de amores difíceis, e com alguns apontamentos mais sérios onde destaco a questão da morte e de levarmos a enganadora vida perfeita ao lado de quem não amamos... No final, uns conseguem corrigir o erro e viver o seu grande amor, outros nem por isso. Abaixo fica o trailler para os apaixonados.

 

 

Bom fim de semana e até terça-feira.

 

Abaixo as outras duas sugestões dos "The Cure".

 

"Why Can't Be You"

 

 "Mint Car"

 

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"Contrapassear" pelo Exclave de Tourém...

por Robinson Kanes, em 27.07.17

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 Fonte das Imagens: Própria

 

Tourém, a par de Mourão no Alentejo é um dos exclaves de Portugal. Atravessado pelo Rio Salas faz fronteira a norte com Espanha, nomeadamente com os Ayuntamientos de Muíños e Calvos.

 

Tourém, com cerca de 151 habitantes, repousa nas costas do Gerês e é aí que olha para Espanha e se deixa banhar pelo rio que serve de local de descanso e alimentação para pessoas e animais. É um local mítico e que serviu de apoio ao Castelo de Piconha que defendia Portugal de Castela. 

 

De Tourém podemos admirar as suas casas ainda bem preservadas, o seu chão em paralelo e toda uma história de aldeia comunitária que a colocam lado-a-lado com aldeias como Pitões das Júnias, ou até com a mais distante, Rio de Onor. O Forno acaba por ser o grande herdeiro desses tempos, como o é nas demais mencionadas.

 

Chegar a Tourém é chegar ao fim de Portugal, não só pelo facto de estarmos perante uma aldeia raiana mas também por deixarmos para trás os encantos únicos do Gerês e penetrarmos num outro mundo que é o da Galiza com todas as suas tradições e especificidades, muitas delas bem semelhantes às da região do Barroso.

 

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Como Aldeia Raiana, Tourém não escapou ao contrabando, uma temática que ainda cultiva algumas questões mas que é também um produto turístico. Aqui, recomendo o trabalho fotográfico de um investigador da Universidade de Trás-os-Montes, Hugo Costa, que retratou em imagens as histórias de alguns contrabandistas de Tourém com a sua câmera fotográfica. Uma volta pelo "google" e não faltarão exemplos. Para quem gosta de caminhar, porque não experimentar um percurso pedestre da "Rota do Contrabando", mais especificamente  o "Trilho de Tourém" - permite que sejamos contrabandistas por um dia e conhecer toda a aldeia e paisagem envolvente, o download do trilho pode ser feito no website da Câmara Municipal de Montalegre. São 11km mas o percurso é circular e permite contemplar o Forno Comunitário, a Capela de S. Lourenço, o Largo do Outeiro e a Albufeira de Salas. Parar, conversar com quem passa, jogar às damas num qualquer café e fazer festas aos cães que deambulam por aquelas ruas também vai ser uma realidade.

 

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Visitar Tourém é recuar a tempos mais distantes onde o sentimento de comunidade era a maior arma contra o isolamento e contra os duros Invernos daquelas terras distantes... Atravessar a ponte e observar a albufeira e as montanhas circundantes, enquanto observamos o gado a saciar a sede naquelas águas, é como sermos transportados para Alberto Caeiro, para a capa bucólica de Fernando Pessoa.

 

Uma nota para os que gostam de "passarada", aqui não faltam atractivos, na foto consegui captar um Gavião, mas também se podem encontrar, entre outros, o Bútio-vespeiro (Pernis apivorus), Águia-calçada (Aquila pennata), Águia-cobreira (Circaetus gallicus), Peneireiro-vulgar (Falco tinnunculus), Ógea (Falco subbuteo) e a  Águia-d'asa-redonda (Buteo buteo)... E estamos só a falar de aves de presa, imaginem o que não poderão ver mais... O website Aves do Barroso pode ajudar.

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Também prometi que esta semana falaria da Cordoama e do Castelejo mas... Com o país em chamas, falar de praia não é a melhor postura!

 

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La Dolce Vita!

por Robinson Kanes, em 21.07.17

 

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 Fonte da Imagem: http://www.hotel-r.net/hu/dolcevita

 

Uma sexta-feira e está na hora de entrar no fim de semana com um ritmo menos acelerado, até porque esta semana os artigos foram bastante sérios... 

 

Poderia sugerir coisas tranquilizadoras mas não me parece que os "Olhos de Água" de Alves Redol ou mais uma leitura de "Crónica de Uma Morte Anunciada" de Gabriel Garcia Marquéz possam acalmar o espírito, apesar de terem sido as minhas leituras desta semana. Provavelmente senti-me na pele de um dos gémeos Vicario ("Crónica de uma Morte Anunciada") quando escrevi o artigo de terça-feira. No entanto, este fim de semana pede algo tranquilo...

 

A minha sugestão (e sim, sei que nasci muitos anos depois para me interessar por estas coisas) é o filme "La Dolce Vita" de Frederico Fellini, com Marcelo Mastroiani, Anita Ekberg e a bela Anouk Aimée. Filme italiano, se possível para ver sem legendas e com tempo, pois tem a duração de quase três horas.

 

É um filme ao estilo de Fellini e que conta a história de uma semana na vida Marcello Rubinni, um jornalista de revistas cor-de-rosa, que procura a felicidade na bela Roma. Aborda sobretudo a questão da vulgaridade, dos valores, da felicidade camuflada das elites artísticas e financeiras, das diferentes personagens (mulheres) na vida de Marcello e como isso, para o mesmo, é uma total demonstração das dificuldades em realizar essa felicidade. Neo-Realista, é um filme que conquistou uma Palma de Ouro em Cannes e deu lugar ao "nascimento" do conceito paparazzo. Foi também um filme censurado em muitos países e pela própria Igreja Católica, aliás, o início do filme deixa logo antever esse sentimento. Quem viu "Cinema Paradiso" vai-se recordar de algumas cenas... Abaixo deixo dois vídeos que marcaram o filme, aliás, a cena na "Fontana di Trevi" tornou-se uma referência! Vide o vídeo abaixo:

Uma curiosidade: consta que Anita Ekberg não teve qualquer problema em passar horas na água a filmar esta cena, por sua vez, Marcello Mastroiani lamentou-se profundamente por diversas vezes e só a Vodka o fez aguentar a água fria.

 

Finalmente a banda sonora, do grande Nino Rota, é também uma referência... Sobretudo para os amantes do estilo e que o colocam ao lado de Morricone e Piovanni como um dos meus preferidos. Deixo-vos também uma sonoridade, é impossível não reconhecer este som...

É a sugestão ideal para reflectir e pensar se "La Dolce Vita" não é algo tão simples, mas que continuamos a ignorar do alto da nossa pseudo-importância e da nossa ânsia de viver numa lógica de egoísmo, influência e até de nos sentirmos perdidos no nosso mundo que julgamos controlar. No que depender de mim, mal ou bem, procurarei sempre "La Dolce Vita".

 

Bom fim de semana...

 

Dois artigos que merecem a leitura dos comentários, aqui e aqui. Obrigado a todos.

 

 Cena Final de "La Dolce Vita" - Quem vir o filme vai perceber o impacte da mesma.

 

 

 

 

 

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Da Bordeira ao Amado...

por Robinson Kanes, em 14.07.17

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 Fonte das Imagens: Própria

 

De volta à Costa Vicentina, imaginem deixar a Praia de Vale Figueiras e fazerem uns meros 16km para sul, pela EN268 e depois pela Estrada da Praia e chegarem à Praia da Bordeira, também conhecida como Praia da Carrapateira pela proximidade com a Carrapateira e por também ser aí a foz da Ribeira com o mesmo nome. Podem sempre fazer o percurso a pé ou de bicicleta que são apenas 11km.

 

Nesta zona, depois de uma visita pelas localidades da Bordeira e da Carrapateira, nada como seguir em direcção à praia e a partir daí fazer o caminho da Estrada da Praia até à Praia do Amado. Deixem o carro e peguem na bicicleta ou vão a pé, pois serão dos 3,5km mais bonitos e pitorescos que algum dia farão! Recomendo vivamente e é não-negociável, além de que têm passadiços com miradouros que vos permitem ir descansando.

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É neste troço que começamos a sentir a Costa Vicentina verdadeiramente, onde rocha e mar tendem a ser mais austeros e a trazerem-nos já um pouco dos cheiros do Cabo de S. Vicente.

 

Após a Praia da Bordeira, surge-nos a Praia da Zimbreirinha, e é aqui que as portas se abrem para um mundo novo, para todo o expoente da Costa Vicentina e para um local encantadoramente inóspito. Ao longe ainda conseguimos observar a Arrifana, como se a paisagem insistisse em manter diante dos nossos olhos tão belo lugar. Infelizmente, já não é possível apreciar o Portinho da Zimbreirinha e o seu ancoradouro pelafita devido a uma derrocada.

 

Como é bom caminhar ou pedalar e observar as diferentes cores da rocha e do mar que alterna entre o verde água e o azul escuro das águas profundas. Como é bom sentir o vento do atlântico, suave mas ao mesmo tempo com força suficiente para nos fazer respeitar aquele mar donde outrora arriscamos sair em pequenas cascas de noz à conquista do Mundo! Lembro-me agora dos "Navegadores" de Sophia:

 

Esses que desenharam os mapas da surpresa

Contornando os cabos e dando nome às ilhas

E por entre brilhos espelhos e distâncias

Por entre aéreas brumas irisadas

Em extáticas manhãs solenes e paradas

No breve instante eterno surpreenderam

O arcaico sorrir do mar recém criado

Andresen, Sophia de Mello Breyner "Navegadores", Poemas Dispersos

 

De regresso a terra, voltar à caminhada ou sentir aquele vento enquanto nos deslocamos de bicicleta, é algo mágico mas também um verdadeiro postal. O difícil vai ser fazer o caminho sem parar de 50m em 50m.

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Um dos pontos altos deste passeio é a Praia do Portinho do Forno que, além de ser um pequeno porto e o mas antigo da Carrapateira, é também um ponto de encontro para os entusiastas do Todo-o-Terreno (TT), motorizado ou não. Não é incomum vermos pequenos grupos de praticantes de BTT, jipes ou motas de TT. Todavia, aqui podemos parar e contemplar a paisagem imaginando tempos passados em que os barcos atracavam e se carregavam os burros que deveriam levar o resultado da faina para a lota da Carrapateira. Também é aqui que o "puzzle" de diferentes tonalidades da água torna este lugar tão especial. Podem sempre aproveitar e beber um refresco ou até almoçar no restaurante que aí se encontra. 

IMG_3385.jpgE como o caminho se faz caminhando, nada como continuar um percurso que já não queremos que acabe, até porque já vemos a Praia do Amado ao fundo e ficamos com aquele misto de encanto e fadiga mas em que percebemos que afinal não estamos assim tão cansados e queremos que o momento não termine. Uma das formas de prolongar o mesmo será trazer um bom piquenique, ou como se utiliza no Brasil, um convescote. A oportunidade de apreciar uma refeição leve num local destes, nem em muitos dos melhores restaurantes do mundo! 

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Levantemo-nos pois e sigamos em direcção à riqueza geológica e faunística da Praia do Amado, sem esquecer a flora que a tornam num dos locais mais importantes ao nível da preservação de habitats! Um outro habitat muito importante é o dos surfistas, pois é considerada uma das melhores praias a nível europeu para a prática desta modalidade. Esta já é uma praia mais movimentada, pois é escolhida por muitos veraneantes e por empresas de animação turística.

 

Cansados? Porque não voltar para trás e voltar a fazer o mesmo caminho? Eu fá-lo-ia, além de que o fim de semana, para quem o goza, está mesmo aí à porta! Não deixem de ir à Carrapateira e à Bordeira, são duas localidades fantásticas, de boas gentes e que vos proporcionam uma experiência singular onde o campo convive pacificamente e numa harmonia singular com o mar.

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Como estão no Parque Natural do Sudoeste Alenteja e Costa Vicentina, não se esqueçam do "Código de Conduta e Boas Práticas"pois estão num Parque Natural. Pode ser descarregado aqui.

 

Bom fim de semana. Voltarei na terça-feira!

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Fonte da Imagem: Própria

 

Amanhã andarei ausente, ou melhor, vou andar noutras paragens deste mundo que é a blogolândia...

 

Também não irei estar agarrado ao ferro! Contudo, nem só o ferro nos inspira, pelo que aponto para algumas sugestões a ter em conta para o fim de semana e para a semana!

 

Terminada a obra "Uma Fenda na Muralha" de Alves Redol,  pergunto: como é que com tanto filme já realizado, ainda não se fez um filme baseado nesta obra? O argumento está praticamente feito e a mestria de Redol é latente. Se este livro chega a Hollywood temos filme para óscares, bem melhor que o "Perfect Storm" de Wolfgang Petersen. Foi esse o motivo que me fez arrancar  para a "Barca dos Sete Lemes", também de Redol. Deixei a Nazaré com o arrais "Zé Diabo" de "Uma Fenda na Muralha" e rumei ao não menos árduo Ribatejo! Ao cabo de 100 páginas, posso dizer que não me arrependo minimamente, ou não fosse o neo-realismo uma das minhas correntes de eleição. O modo como Redol olha para estas gentes é de uma proximidade e carácter etnológico surpreendentes. Num discurso simples mas aritisticamente talhado faz-nos questionar e admirar uma realidade que não tem assim tantos anos e não é diferente de muitas que encontramos nos dias de hoje.

 

Para um passeio, porque não a Praia de Vale Figueiras, a Praia da Arrifana ou até a Praia da Amoreira? Sigam os artigos já publicados clicando nas mesmas.

 

Uma música para o fim de semana? Talvez inspirado pelo filme que vou sugerir, recomendo o albúm "La Sublime Porte - Voix d'Istambul" de Jordi Savall. A música otomana, arménia e judaíca conjugam-se em notas e ritmos que nos vão transportar para a época em que o Palácio de Topkapi (Istambul) era um dos mais movimentados e a sua corte uma das mais poderosas do mundo! É de facto uma obra fascinante e que nos faz crescer, aprender e sonhar! Perfeito seria ficar numa das varandas do palácio a contemplar o Bósforo e a ouvir estas sonoridades...

 

Finalmente, um filme! Cinema turco, "Babam ve Oglum / Meu Pai e Meu Filho": devo dizer-vos que é um filme que me encantou desde o início porque nos leva de Istambul para Izmir e traz-me saudades daqueles 30 dias em que fui turco. No entanto, o filme  de Çagan Irmak começa trágicamente com uma morte no parto e leva-nos à Turquia dos anos 70-80, e dos seus golpes militares. Do filho que regressa a casa do pai e que agora traz também consigo o seu próprio filho! A luta e o reencontro entre pai, filho e neto, bem como algumas pequenas passagens que nos dão algumas lições de vida na relação entre parentes tão próximos. É claríssimo ao longo do filme alma turca, sobretudo daqueles que vivem fora de Istambul, da aspereza (muitas vezes exterior apenas) dos homens e da sensibilidade, carinho e doçura das mulheres daquela região, as gargalhadas de Nuran são um dos melhores exemplos. Mais não conto, vejam por vocês próprios, o filme existe com legendas em inglês se procurarem por aí... Uma nota para a banda sonora que deu o prémio de revelação do ano 2006 nos "World Soundtrack Awards" a Evanthia Reboutsika.

 

Bom fim de semana ou Bom trabalho...

 

Uma nota do disco "La Sublime Porte - Voix d'Istambul"

 (Aguarda Resolução de Problemas por parte do Sapo)

O trailer em inglês de "Babam ve Oglum"

(Aguarda Resolução de Problemas por parte do Sapo) 

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Fonte da Imagem: Própria 

 

É sexta-feira e lá vou ter de regressar ao ferro. Levantar pesos e ser o rei do ginásio? Não! Ser mesmo o rei do ferro de engomar! Três calças, umas 6 camisas, duas t-shirts, duas toalhas de mesa, guardanapos e mais umas coisas. Lamento... Não passo roupa interior e por vezes nem lençóis! Há vida para além do ferro...

 

E, como sempre que passo a ferro, surgem-me sempre algumas ideias. Por exemplo, e sabendo vós que me considero mediterrânico por excelência (excepto no trabalho), vou ter a companhia de um dos meus guilty pleasures, nomeadamente música italiana (eu sei, não se pode ser perfeito)! Tenho um gosto especial por música italiana e espanhola... Decidi assim que, quem me vai acompanhar vai ser a napolitana e giríssima Simona Molinari! Destaco duas músicas, até porque uma delas tem outro dos meus artistas de eleição, o norte-americano Peter Cincotti. A primeira, "Dr Jekyll Mr Hyde" (2013), um dueto super animado e que convida à dança e a muitos sorrisos! A outra, "Egocentrica" (2019), vincadamente actual e com a voz de Molinari  em todo o seu esplendor. Esta senhora é um espanto!

 

Como vem aí o fim de semana, e como o Verão não é só praia, porque não uma leitura? Actualmente encontro-me a ler "Uma Fenda na Muralha" de Alves Redol. Ao fim de 179 páginas, posso dizer que me fez reencontrar o espírito da Nazaré e voltar a sentir uma paixão especial por aquele lugar! A Nazaré, do ponto de vista etnológico teve um grande significado para mim, sobretudo por influência do grande Professor Trindade e da forma espectacular (ou este não fosse nazareno) com que falava daquela sociedade matriarcal! Lançou, aliás, um livro “A Nazaré dos Pescadores – Identidade e Transformação de uma Comunidade Marítima”. Foi o Professor Trindade que me apresentou a obra de Jan Brogger, "Pescadores e pés-calçados", uma viagem a mundo real e duro daquela comunidade! Mas voltemos a Alves Redol que, nesta obra, nos transporta para a luta e vida dos "embarcadiços", do medo, do pânico e dos desafios em terra... O neo-realismo português no seu expoente máximo e de uma intensidade apaixonante, ou não fosse um filho de Vila Franca de Xira! A ler, sem dúvida... Até nos dá lições de liderança, que tanto se fala, mas tanto escasseia:

 

Mais do que os outros, menos no medo para fora, porque para dentro todos os homens são iguais. Quando digo «vamos à vante!» apetece-me dizer «vamos para terra» […] Ser arrais é bom, mas sem esta coisa danada de não poder chamar um camarada para junto de mim e dizer-lhe também o que sinto.

Alves Redol, in   "Uma Fenda na Muralha"

 

Bom fim de semana...

 

Ah! A Simona...

Simona Molinari e Peter Cincotti - Dr. Jekyll Mr. Hyde

 Simona Molinari - Egocentrica

 

 

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O Mundo Que Não Pára mas que nos Pára.

por Robinson Kanes, em 23.06.17

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 Fonte da Imagem: Própria.

 

Uma das coisas acerca da qual mais se tem ouvido falar nos últimos dias é a questão do seguir em frente e de que o mundo não pára. Entendo, até porque se existe pessoa que não fica à espera que as coisas se resolvam e coloca  mãos-à-obra sou eu - mesmo que por vezes não abone a meu favor. 

 

No entanto, será que não podemos parar um pouco? Isto a propósito daqueles que afirmam (e com toda a razão) de que não podemos pensar muito nos que morreram nos incêndios ou até em outras situações e que temos de avançar sem nos fixarmos muito nisso... Levinas dizia que nos  consolamos "como se pudessemos escapar à morte [e que] a vida pública não se quer deixar perturbar pela morte que considera como uma falta de tacto". De facto o mundo não pára, sobretudo se estivermos envolvidos directamente numa situação não existe tempo para grandes lamentações mas sim uma necessidade imediata de agir, mas agir bem! A vida pública não quer perder tempo com a morte e com o fim - com o fim da utilidade de outrem nos destinos do mundo... "A vida continua", diz o povo. 

 

Mas também existe o outro lado. O mundo também pode parar, ou melhor, nós podemos parar, sobretudo aqueles que podem agora fazer um luto e reflectir sobre esta situação já que, infelizmente, outros estão ainda nas operações e não podem fazer esse luto vendo-se obrigados a adiar o mesmo.

 

Três dias de luto! Pelo menos esses três dias deveriam fazer-nos reflectir. Reflectir sem os espalhafatos mediáticos acerca da tragédia que começou no Sábado. Acredito até, que seja demasiado prematuro a declaração imediata de "Luto Nacional" pois, efectivamente no quadro dos desenvolvimentos e da cabeça dos indivíduos, a intenção do mesmo tende a ser completamente desvanecida. Bandeiras a meia-haste, um ou outro acto mais protocolar, mas o luto não é feito. Esse tempo tem de ser fora da agitação dos factos...

 

Por experiência pessoal, profissional e até no quadro de vida de muitos que conheci, encaro o luto como fundamental: o tempo para digerir é fundamental, o tempo para reflectir é fundamental, o tempo de atirar tudo pelo ar é imperial. E nem me foco no luto com cariz mais religioso, porque "mesmo os homens sem evangelho têm o seu Monte das Oliveiras", como defendia Camus no seu Mito de Sísifo. Mesmo aqueles que se encontram a trabalhar no combate precisarão desse tempo mais tarde. Até numa situação de guerra é preciso parar e fazer um luto e a ausência desse luto acaba por ter consequências no longo prazo e aqui exemplos não faltam - o stress pós-traumático de guerra é um exemplo e não é somente o reflexo dos acontecimentos na vida de quem combateu, mas também a ausência de um luto bem feito. 

 

Até no amor o luto é essencial para que todas as portas possam ficar bem fechadas e todas as pontas bem atadas, sob pena de um dia mais tarde isso nos abalar, trazer dissabores ou afectar o nosso estado de alma.

 

Talvez não possamos parar o mundo, todavia, parece-me capital que não deixemos que o mundo nos pare sob pena de termos uma digestão mal feita e cujos resultados só sentem ao fim de algumas horas...

 

Por hábito, à sexta-feira deixo algumas sugestões, mas admito que não é uma semana para grandes euforias, pelo menos por aqui... Todavia, deixo uma sugestão literária:  "Pensar", um livro com 671 pensamentos de Vergílio Ferreira. É aquele livro no qual podemos tirar algumas pequenas lições acerca do mundo e acerca de nós, sobretudo vindo de alguém que era um dos mais atentos observadores desse mesmo mundo e cujas inquietações são hoje tão actuais. E que falta nos faz parar um pouco e... Pensar. 

 

Não há espécie humana. Há cada indivíduo de per si que envolve a espécie e o mundo. Mas num montão de cadáveres, que é que significa cada um dos mortos? Porque então ele é mesmo elemento da espécie e uns tantos a mais ou a menos são uma fracção mínima que se despreza para as contas gerais. E é aí que deverias talvez pensar-te mais para te pensares menos.

 

Vergílio Ferreira, in "Pensar"... 

 Bom fim de semana...

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