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A Falta de Nível de um Consultor de RH...

por Robinson Kanes, em 13.07.17

 

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 Fonte da Imagem: https://onepeterfive.com/francis-references-the-dubia-some-see-only-black-white/ 

 

Ontem, enquanto celebrava o novo emprego de um amigo, eis que sou confrontado com a seguinte história e que dispensa quaisquer comentários da minha parte a não ser que existem pessoas que deveriam ser proíbidas de trabalhar com pessoas e, para além disso, o perigo que as "cunhas" e a falta de soft skills de um ou mais colaboradores podem ter numa organização e, sobretudo neste caso, nas organizações a quem prestam serviços.

 

Escritório de uma multinacional, o Frederico (nome fictício) recebe uma chamada:

 

-Estou, daqui é o Andrade da Mike & Recruitment (nome fictício, e os Andrades que não me levem a mal por ter escolhido este nome para tal personagem), queria falar consigo porque ainda não me pagou o valor da sua substituição.

 

Vejamos: o Frederico (que trabalha nas compras) foi contactado pelo consultor responsável pela sua contratação há oito meses. Esse mesmo consultor, que agora tem em mãos o recrutamento do novo indivíduo contacta a pessoa que vai ser substituída e solicita-lhe o pagamento de um serviço que ainda não foi concretizado. Começamos bem... 

 

O Frederico responde:

-Ouça lá Andrade, então mas você está-me a pedir o valor de um serviço que só é pago após a realização do mesmo? Além disso, dentro dos candidatos que você tem mandado nenhum se aproveita, alguns nem habiliações nem experiência têm e não foi isso que nós pedimos. Até já coloquei um anúncio num website de empregos e os candidatos são bem melhores.

 

O Andrade, um pouco atrapalhado mas sempre no estilo irritante-gingão muito característico de algumas personagens do corporate nacional, diz:

 

-Pois, tem razão. Pois é eh eh eh.... Olhe lá Frederico então e vai trabalhar para onde?

 

Vou trabalhar para a Carrega Paletes (nome fictício) - Responde o Frederico.

 

E num momento de magia, de toda e qualquer importância e... Ressabiamento, o Andrade atira com esta.

 

-Xiiiiii, epá para a Carrega Paletes? Eu sei que você vai para lá, mas aquilo é muito mau, eles são nossos clientes e não são nada bons pagadores. Xiiiiiiiii para onde você vai.

 

O resto da conversa pouco interessa, no entanto, penso que o Andrade ao invés de dar prioridade aos amigos no recrutamento, deveria ter em conta que NUNCA se diz mal de um cliente, sobretudo quando estamos perante dois clientes que talvez sejam dos que mais recrutam em Portugal (falta de nível, falta de profissionalismo ou falta de sentido de vendas?). Além disso, sendo que o Frederico trabalha e vai trabalhar na área das compras (como chefia), quer-me parecer que Mike & Recruitment vai ter um grande problema em voltar a ter a Carrega Paletes como cliente e, até com sorte, a actual organização do Frederico. Mas do Andrade existem mais histórias... Sobretudo no conluio que tem com um dos seus colegas de trabalho na contratação de uma rede de amigos que tem total prioridade, independentemente das habilitações e experiêcia, face a candidatos bem mais merecedores de uma oportunidade. Mas para isso estará lá o Frederico...

 

Boa sorte "Frederico" e obrigado pela permissão que me deste para partilhar esta história.

 

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As Férias de um Condenado….

por Robinson Kanes, em 05.07.17

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Andrea Mantegna - São Sebastião (Museu do Louvre)

Fonte da Imagem: Própria

 

Quem nunca reparou que na fauna lusitana, em certos territórios, sempre que alguém vai de férias é como se tivesse cometido um crime de lesa-pátria? Experimentem ir de férias fora dos meses de Julho e Agosto e preparem-se para sentirem na pele a dor e a ostracização laboral e agora social!

 

Independentemente da opinião que tenha do Primeiro Ministro de Portugal, esta abordagem não visa tecer juízos do mesmo, mas nomeadamente de uma situação em particular: as férias. Não vou também tecer comentários em relação ao timming em que as mesmas ocorreram mas sim à quase impossibilidade de muitos hoje tirarem férias sob pena de serem destruídos pelos colegas... Pelo menos até os colegas irem de férias... Será interessante perceber se, em Julho e Agosto, quando estivermos de papo para o ar a fritar e a tirar fotos aos pés com o mar em fundo( que é uma coisa sempre digna de ser ver) nos vamos lembrar que o Primeiro-Ministro vai estar a trabalhar...

 

Isto leva-me a muitas conversas que fui tendo com vários indivíduos, porque de facto, para muitos começa a tornar-se um pesadelo tirar férias! Para os outros, quando vamos de férias nunca é uma boa altura! Para alguns ir de férias é deixar o caminho aberto para que venha daí uma a duas semanas em que os colegas vão apontar as culpas de tudo o que possa correr mal ao ausente! Chegar das férias é outra tortura, pois temos que criar um processo defensivo de todos os ataques feitos naqueles dias. Confesso que nunca me deixei abalar por essa situação, no entanto, são cada vez mais os casos em que as pessoas se sentem culpadas por irem de férias!

 

Poderão existir várias explicações:

  • o nosso egoísmo e uma espécie de umbiguismo - "ai aquele malandro que foi de férias e agora tenho de levar com o trabalho dele" - no entanto, esquecemo-nos que também nós teremos de gozar férias e ao malandro calhará esse ónus.
  • a nossa herança de sermos "mulheres de soalheiro" - "aquele está sempre de férias, não faz nada todo o ano e nós ficamos aqui a trabalhar, mas deixa que eu digo-lhe, quando chegar que se amanhe".
  • a inveja - "olha agora, aquele vai de férias e eu aqui a trabalhar, não sei de onde é que vem o dinheiro".
  • maldade - "vai de férias e deixou tudo por fazer, deixa que quando o patrão souber. Olha diz ao X que ninguém sabe disso, liguem-lhe, está de férias que atenda".

Existem pessoas que entram em depressão por irem de férias! Honestamente, isso para mim de férias tem pouco. As férias fazem bem, ajudam-nos a desligar do trabalho de outras coisas que é necessário desligar! As férias promovem o convívio familiar, o tempo com amigos e além disso são (ou devem ser) uma fonte de bem estar e aprendizagem! A paragem faz falta e o retorno no bem-estar e na motivação é latente e consequentemente com impactes positivos no trabalho, sobretudo no trabalho em equipa... Em equipa...

 

E quem nunca foi de férias em Setembro e teve de ouvir o típico "outra vez", como se toda a gente fosse de férias em Julho e Agosto e aquele preguiçoso metesse mais uns dias em Setembro! Quem assim pensar, sugiro que procure um novo emprego, ou abra os olhos para o mundo. Tudo isto recorda-me aqueles indivíduos que não conseguem conceber que uma larga camada da população trabalha ao fim de semana e que o empregado de mesa (que lhes atura o mau feitio) ou o senhor do posto de combustível não estão ali por passatempo.

 

Bom trabalho, e se for caso disso, boas férias.

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A Cidalina Contra-Ataca!

por Robinson Kanes, em 28.06.17

 

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Fonte da Imagem: http://www.starwars.com/news/the-playlist-jabba-the-hutt

 

Quando menos esperávamos, Robinson Kanes trouxe-nos mais uma idílica  aventura de  A Entrevista de Emprego, Os Apoios e os Pretos de Angola.

Glória do Ribatejo Post

 

Cidalina, a imortal musa de Robinson Kanes, uma mulher para se amar.

Cedofeita Tribune

 

Cidalina, Cidalina, não sei se tu me amas, E pra quê tu me seduz

Tiririca, pior que está não fica.

 

 

 

Sugiro que acompanhem este artigo com a banda sonora que se encontra abaixo...

 

Quando pensava que a Cidalina era passado, que a "Death Star" de Oeiras tinha ficado perdida nos confins da galáxia, eis que no meu canto qual Jedi em repouso com o seu Mestre Yoda, sou despertado pela força!

 

Foi ontem! Estava eu na minha caixa de correio electrónico (email - realmente, escrever email é bem melhor que escrever caixa de correio electrónico) e de repente cai uma tremenda bomba. Era o Darth Vader? Era o Imperador? Era o Jabba? Pensando bem, este último... Adiante...

 

Era a Cidalina, a Cidalina no seu charme incontestável! O assunto do email mencionava um recrutamento de 2016! O tal que, em 2017,  a Cidalina insistia nunca ter sido feito - até a referência era a mesma. Desta vez, contudo, apercebi-me de uma novidade: a organização para a qual Cidalina trabalhava tinha recebido um prémio de excelência como a melhor empresa da área para determinado segmento de mercado! Há quem diga que ter amigos e pagar para, pode ter efeitos na atribuição destes prémios. Começo a acreditar que sim, pois leiam os episódios anteriores e verão (ligações abaixo).

 

Dizia o email da sedutora Cidalina (e como eu dava tudo para ter ouvido novamente a voz "Aldeia Velha" da Cidalina):

 

Bom dia 

Temos o seu contacto na nossa base de dados de XXXXX para os nossos clientes. 

Estamos numa fase de arrumação de base de dados, caso queira manter a sua candidatura registe-se na nossa plataforma: xxxxxxx e mantenha a sua candidatura connosco.

Melhores Cumprimentos

Cidalina (nome fictício)

 

"Bom dia, Estimado Robinson Kanes", não teria ficado mal, talvez seja defeito meu. Mas o que apreciei foi o facto de, na organização de Cidalina andarem em arrumações. Podemos estar no topo da tecnologia, mas as nossas cabeças ainda estão na Era da pedra lascada. No entanto, o que eu percebi é que não é a Cidalina e os colegas que andam a fazer as arrumações, mas sim os candidatos. Experimentem enviar aos vossos clientes o seguinte email e esperem uma base de dados vazia: "Quer ser nosso cliente? Até temos os seus dados mas não nos apetece muito inserir os mesmos no novo sistema, pode fazer isso por nós?", mais brilhante não poderia ser!

 

Mas o que eu ainda mais gostei foi o bullying camuflado, algo do género: "é que se não colocares os teus dados na base de dados, não sou eu que o vou fazer, logo... Ficas fora".

 

Há quem chame a isto "excelência" e do melhor, eu nem quero pensar no pior. Para mim, nestas organizações, cada candidato é um cliente e clientes insatisfeitos não voltam, pelo que seguiu, de imediato, um email a solicitar que todos os meus dados fossem apagados.

 

Como no fim de um amor, deveria ter fechado todas as portas da minha relação com Cidalina meses antes aquando de uma das entrevistas mais rocambulescas que tive. Qual Jedi que poupou a vida a Cidalina e mais tarde lá teve de ser confrontado com o seu regresso, voltaram-me à memória os bons tempos que vivi com Cidalina naquele romântico e cinzento edifício dos anos 70 em Oeiras.

 

Episódios Anteriores de "A Entrevista de Emprego, Apoios e os Pretos de Angola":

Capítulo 01: http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-entrevista-de-emprego-apoios-e-os-37761

Capítulo 02: http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-entrevista-de-emprego-apoios-e-os-38350

Capítulo 03: http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-entrevista-de-emprego-apoios-e-os-38437

Capítulo 04: http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-entrevista-de-emprego-apoios-e-os-38827

Último Capítulo: http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-entrevista-de-emprego-apoios-e-os-39116

 

 

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 Fonte da Imagem:https://myfavoritewesterns.files.wordpress.com/2014/06/charles-bronson.jpg 

 

...Esta história de amor tinha de acabar com uma banda sonora romântica. Se está cansado de dançar com o Bonga e já encheu a barriga de fruta, sugiro que desça as escadas até ao final do capítulo e que se deixe levar pela música enquanto lê...

 

 

Look into my Eyes, Robinson... Tell me what you see...

Olha para os meus olhos, Robinson... Diz-me o que vês...

 

Novo compasso de espera que foi interrompido pelas despedidas. Não me peçam para explicar, aconteceu simplesmente. 

 

Contudo, a nossa heroína percebeu que deveria perguntar ao candidato se este tinha questões. Devia estar a consultar aqueles artigos muito "cientificos" com títulos como: "cinco perguntas que deve sempre colocar a um candidato numa entrevista".

 

Respondi que tinha uma  - tinha mais, mas percebi que estava a perder o meu tempo -, estava relacionada com os objectivos da posição e quais os desafios e ambiente que iria encontrar. Deixei claro que talvez fosse melhor questionar o cliente se passasse à segunda fase mas... Eis que irritei a Cidalina que, mexendo-se na cadeira, subiu ao palco e com um olhar à Charles Bronson, proferiu:

 

-Não! Não! Não! Isso também é connosco, nós é que temos essa informação.

 

Percebi a mensagem e olhei a Cidalina como alguém que está à espera da resposta. E atentemos na resposta, passo a citar: "É um novo projecto e os investidores precisam de ajuda de alguém para o lançamento, nestas coisas sabe como é, pode ser bom mas também pode ser um presente envenenado". 

 

Depois de um peculiar toque de cinismo português,  o "eh eh eh", que se seguiu ao "presente envenenado", devo dizer que fiquei esclarecido. Até porque esperei mais retorno, mas sem sucesso. Cidalina Bronson e um olhar de desafio, qual duelo entre dois cowboys a terminar com tiros de pólvora seca!

 

Mas a Cidalina continuava a olhar para o computador. Eu aproveitei para dar mais uma vista de olhos pelos documentos do Ministério Público e pelos os demais currículos.

 

Depois de ter esgotado o meu lado "comadreiro" tossi lentamente, ou seja, a onomatopeia de: “Acabámos ou não? Convidas-me a sair ou é agora que vai sair daí a garrafinha de 1920 e dois copos? Vamos mas é rir disto tudo, inclusive dessa voz de bagaço”.

 

Percebendo isso, a Cidalina lá agradeceu a minha presença e despediu-se com um " obrigado por ter vindo", não sem antes dizer que depois me telefonava. Não! Voltou atrás e disse que enviava email... Assim vai um para todos e está terminado.

 

Levantei-me e esperei que a Cidalina também se levantasse. Cidalina, qual rainha no trono basic da Staples, só o fez quando o meu compasso de espera foi tal que se sentiu obrigada a tal. Apertei-lhe a mão, algo que a mesma não esperava e, também percebi que não seria acompanhado à porta que dava para a rua.

 

Despedi-me dos presentes na sala com um “continuação de um óptimo dia e bom trabalho". A verdade é que todos disseram em uníssono: "obrigado, para si também".

 

...Não disseram nada...

 

Em suma, fiquei com pena dos clientes da empresa da Cidalina, fiquei com pena de mim por ter gasto o meu tempo e gasóleo com a empresa da Cidalina, fiquei também a saber que os “pretos de Angola” andam a correr com os “brancos de Portugal” e que, mais uma vez, no meio de tanto ruído e de tanto folclore, não fui a uma "best place to work" mas sim a uma "best place to die".

 

Regressei e ainda parei para almoçar em Paço de Arcos. Casa da Dízima? Não, lamento, foi mesmo numa tasca já com sardinhas que nem estavam más para o mês de Maio... E mais bem servido que na Casa da Dízima.

 

Porque quem dita o meu destino achou que eu precisava de fechar esta história em grande, ao meu lado estavam “pretos de Angola” a falar de negócios.  Ainda pensei em  abordá-los e sugerir a compra de uma certa empresa, pois davam ares de compradores de sucata.

 

 

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 Fonte da Imagem: http://streetetiquette.com/wp-content/uploads/2012/11/19c0078.jpg

 

Cidalina , a  personagem de Robinson Kanes que abriu as portas para uma interpretação séria da época pós-modernista.

Odeceixe Mirror

 

Depois de ler "A Entrevista de Emprego, Apoios e os Pretos de Angola" comecei a encarar a pessoa de José Eduardo dos Santos com amizade.

Luaty Beirão

 

 Uma clara intromissão de uma cidadã portuguesa nos assuntos internos angolanos.

Jornal de Angola

 

 

(Caro leitor, desça as escadas e vá até ao fim deste artigo, ligue a banda sonora e deixe ficar ao longo deste capítulo).

 

Comeram a fruta e o balaio que é a Cidalina ficou chão...

 

Dê-me o seu NIF e cartão de cidadão? – Nova interpelação de Cidalina.

 

Fiz o olhar de quem não estava a perceber, pelo que a Cidalina tomou a iniciativa disse que era para ver junto da Segurança Social se eu tinha apoios! Eu respondi que obviamente não recebia apoios e que provavelmente não teria direito aos mesmos nem queria porque, enfim... Cidalina, olhe para o meu currículo, acho que é óbvio...

 

A Cidalina, não contente com a minha expressão facial, acabou por dizer que com apoios é mais fácil para levar o cliente a decidir. Segundo Cidalina Krugman, o método processa-se da seguinte forma: apresentam-se candidatos que custem o mínimo ao cliente, ou seja, não importa se são bons ou maus, mas que possam levar este a ter apoios do Estado. Por sua vez a organização da Cidalina Krugman, que também faz consultoria nessa área, encaixa mais uns euros (esta parte sou eu a deduzir). O que a Cidalina se esquece é que estivermos perante um bom candidato podemos sempre tentar sugerir o mesmo ao cliente e, quem sabe, aumentar o nosso revenue! Uma espécie de upsell! Ganham todos, o cliente contrata um bom profissional, a Cidalina brilha sem perceber como se recruta e o profissional é bem remunerado e não destrói o mercado.

 

Foi aqui, exactamente aqui, qual Professor José Hermano Saraíva, que percebi porque é que naquela empresa existiam tantos indivíduos com deficiência! A responsabilidade social estava presente porque existiam benefícios da Segurança Social com a contratação destes indivíduos. Ou seja, mais uma daquelas organizações que vive de apoios e sem eles já era.

 

Após a brilhante exposição de "como sacar mais dinheiro ao Estado", Cidalina olhava para mim e para o computador, como quem me dizia “isso vem ou não?”.

 

Pedi à Cidalina que me falasse da posição e a Cidalina falou-me da mesma dizendo que era um novo projecto e que andavam à procura de uma pessoa que ajudasse os novos investidores que nada sabiam do negócio (Cidalina tem a certeza que quer um estagiário?). 

 

Fantástica descrição, porque se ficou por isto mesmo, ipsis verbis.

 

No entanto, e numa tentativa de me abraçar neste "tango fatal", de me colocar pressão nas pernas, Cidalina foi mais longe e disse-me que recebia muitos currículos. Currículos de muita gente e com mais experiência. Deixei a Cidalina conduzir a dança qual senhora de meia-idade marota nas matinées dançantes do Mercado da Ribeira, até que percebi que o climax da entrevista ainda não tinha chegado, ao contrário do que eu pensava -  senão que Cidalina tem esta brilhante afirmação:

 

-Sabe, antes colocava-mos um anúncio apareciam dois ou três, agora com aqueles que vieram lá dos pretos, temos centenas de gente muito boa. Até tenho vergonha de lhes dar algumas posições quando os recebo aqui. Sabe que os salários em Portugal são uma porcaria, não sabe? Coitadinhos.

 

Posto que o meu interesse já tinha caído há muito pensava não estar a disfarçar o meu espanto, mas estava, porque a Cidalina continuou:

 

-Temos currículos muito bons, então estes que vieram lá dos pretos são mesmo bons. É uma pena, eles estão todos a voltar. Mas desde que os pretos de Angola os mandaram embora...

 

O meu interior ria-se desalmadamente, penso que nem consegui disfarçar um sorriso ou outro, sobretudo quando Cidalina enfatizou o "vieram lá dos pretos, lá dos pretos". Por outro lado, a veia colonialista da senhora estava bem presente no seu discurso acerca dos “Pretos de Angola”. Também estava presente que, para Cidalina, os "pretos" só existem em Angola e que África é constituida somente por Angola, Moçambique e Cabo Verde, onde Cidalina terá ido passar umas férias...

 

-Pois, e outros que nem lhes pagam! Aquilo lá está mau. Coitados! - Atira o Robinson mais umas cavacas de lenha de pinheiro para a fogueira.

 

Cidalina entusiasma-se e continua a sua dissertação sobre os espoliados pelos pretos de Angola, de como deve ser dificil ir para um país daqueles e vir de lá sem dinheiro  - "Maldita Pretalhada"!

 

Techila nizala zalaya frutas de vontade... Ai Curruuuuuumba!

 

Amanhã, o último capítulo...

 

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Giovanni Bellini e Atelier -  A Virgem e o Menino (National Gallery)

Fonte da Imagem: Própria 

 

O estudo da fauna humana recebe o seu mais glorioso "input" na pessoa de Cidalina.

National Geographic 

 

Ter filhos ou não ter, eis a questão.

William Shakespeare, Hamlet

 

Parece que entramos no filme Delicatessen.

Sónia Pereira, in Quimeras e Utopias

 

A paternidade e a maternidade segundo o Evangelho de Santa Cidalina...

 

Chegou a minha vez com um “é o Robinson?”. Percebo a questão, se é para ser tudo ao molho convém sempre certificarmo-nos de quem se trata.

 

Peço para me sentar, pois a Cidalina, já sentada, estava a olhar para o computador que tinha em cima da mesa e não me dizia nada. 

 

Depois de um “sim, sim”, observo a sala. Uma sala de reuniões comum, com um computador em cima da mesa, correspondência do Ministério Público à vista de todos e um sem número de outros papéis.

 

A Cidalina, além da voz de bagaço, tinha uma atitude demasiado pesada e um total desmazelo em relação aos dentes. Contudo, o dinheiro não chega sempre para todas as coisas. O reflexo do desmazelo também era visível no estado em que se encontrava a mesa.

 

Esperei mais uns momentos até que a Cidalina percebeu que eu estava ali. Fazendo aquele suspiro que um GNR do Posto Territorial de Ansião faria depois de almoço, disse:

 

-É o Robinson, deixe ver se tenho aqui o seu currículo.

 

Sou o Robinson. Sou o Robinson e também já percebi que nem olhou para o meu currículo. Mais interessante ainda, passa por eu conseguir apreciar os currículos de todos os outros candidatos enquanto a Cidalina procurava o meu. Confidencialidade no seu melhor, mais uma vez. "É esse! O meu é esse"...

 

Nova pausa, com o computador a tirar-me o protagonismo e eis que no típico ar gingão da fauna lusitana:

 

-Oh Robinson, fale-me de si, mas não me fale do currículo. É uma pessoa feliz, é casado e tem filhos?

 

“Fale-me de si, é uma pessoa feliz, é casado e tem filhos”! Tendo em conta que é sempre difícil fugir às duas últimas (e até concordo que se façam), mesmo que contra a lei, não é propriamente o mote para começarmos uma entrevista. Lá disse que era feliz, que não corria atrás da felicidade e que tinha de saber apreciar cada momento bom que a vida me dava. Mencionei que era importante gerir os maus momentos e também aqueles que a vida não me dá, mesmo quando luto por isso. Sugeri que tinha de criar um balanço entre prazer e propósito.

 

Percebi que não tinha dado a resposta certa! Devia ter mentido e ter dito que adorava festas e passeios, que adorava fazer compras e viajar pelo mundo ou então que sonhava com uma vida no Butão. Que o meu sonho era ser feliz como todos os outros, mesmo que todos os outros (eu incluido) não saibam o que é ser feliz.

 

Nova questão, fundamental para o trabalho em si:

 

-É casado, tem filhos?

 

Respondi que não era casado nem tinha filhos e comecei a criar o clima para iniciar a Terceira Guerra Mundial. Numa sala triste a sem qualquer cor, num edifício soturno e também sem cor dos arredores de Lisboa, as coisas iam começar a aquecer. A Cidalina insiste neste ponto:

 

-Mas vive com alguém? Não tem filhos porque?

 

Foi aí que eu pausei o meu discurso e considerei várias opções:

  1. Dou eu a entrevista por terminada pois perdi toda e qualquer vontade de continuar a conversa?
  2. Dou mais uma oportunidade e pode ser que a entrevista tome outro rumo, afinal não é o cliente final?
  3. Adoro conhecer as pessoas, avaliar o comportamento humano e aprender acerca daquilo que não devo fazer, pelo que fico mais um pouco?
  4. Confirmo a minha expectativa de que hoje em dia é maior o ruído que o profissionalismo?
  5. Tenho um blog, ou seja, fico e estico isto até dar um artigo daqueles?

 

Optei pela situação dois e respondi que vivia com alguém e que não tinha filhos.

 

Nova abordagem e a Cidalina começa a acusar desconforto:

 

-Mas não tem filhos? 

 

Respondi que nunca tinha pensado nisso. Mencionei que um dia poderia ter ou não, que não fazia com que a minha vida fosse controlada sob a expectativa de ter um filho e muito menos acusava pressões sociais. Além disso, mencionei a minha juventude e, consequentemente, o facto de ainda ter uma vida pela frente. Neste momento já estávamos a esgrimir argumentos sobre o ter ou não ter filhos.

 

-Então e a pessoa com quem vive, não quer ter filhos também? Que idade tem? O que é que faz? – Insistia a Cidalina.

 

A opção dois caía por terra e neste momento ficavam apenas as opções 4 e 5. Como a 4 estava confirmada, optei pela 5! Tenho um blog, isto vai dar mais sumo que um pomar com 100 hectares de laranjeiras!

 

Respondi que também não era do interesse da mesma, aumentei a idade e disse o que esta fazia. E pronto, estavam lançados os dados para mais um interpelação:

 

-Mas com essa idade, é que depois começa a ficar difícil! Mas como é que não querem ter filhos? Mas nem falam disso?

 

Ainda pensei em explicar que embora os riscos aumentassem com a idade, hoje, é possível colmatar até bem tarde essa situação. Não percebi que alguém tão preocupado com a maternidade não tenha pensado na adopção ou nem sequer tenha percebido que pode não ser possível a um dos indivíduos ter filhos e que é um tema que pode melindrar alguns casais. Ainda pensei em falar sobre isso, mas já seria ir longe de mais e perder tempo com quem não merece. 

 

Respondi que não estava nos planos e não fazíamos desse tema uma preocupação constate, que quando tivesse que acontecer lá aconteceria. Percebi no olhar da mesma que eu era uma carta fora do baralho. Por sinal, eu não precisei de chegar tão longe para perceber isso. Penso que a questão ficou "arrumada" quando comecei a citar Malthus numa tentativa de quebrar o gelo. Senti-me um "alien", o indivíduo jovem que já devia ter filhos, uma casa, uma station-wagon na garagem e um monte de hipotecas desde os 20 anos! 

 

O sorriso de desdém no rosto da Cidalina era qualquer coisa de genial e de repente o estilo matrafona transformou-se num estilo de habitante de Dogville, o filme de Lars von Trier. Acredito que a Cidalina terá pensado "que grande anormal, como é que não tem filhos!". Também já fiquei com uma carta na manga: quando alguém me vier com a história que foi discriminado porque tinha filhos que se prepare.

 

E ainda não tinhamos falado de trabalho... O meu lado alemão já me deveria ter obrigado a cortar e a ir directo ao assunto mas... Se o fizesse, ia perder o que ainda estava para vir! 

 

Continua...

 

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Fonte da Imagem: http://cdn.yeniakit.com.tr/images/news/625/mr-spark-hayatini-kaybetti-h1425065881.Jpeg

 

A personagem de Cidalina é uma referência para os profissionais de Recursos Humanos, uma verdadeira "best practice".

Fogueteiro Business Review

 

Uma leitura obrigatória para acompanhar um vinho do Dão.

Carregal do Sal Zeitung

 

Robinson Kanes consegue encontrar a personagem que me faltou na tela os Bêbados.

José Malhoa, num jantar nas Caldas da Rainha

 

 

20 minutos para as 12 horas.

 

Eis que chego ao local da entrevista - um prédio antigo, daqueles típicos dos anos 70, com armários e caixas de correio já com a madeira desgastada. Lá dentro, um porteiro, que tinha todo o aspecto de porteiro - um homem dos seus cinquenta anos, forte e sempre com aquele ar de sentinela de depósito de material de guerra. Aquele que nos olha de cima abaixo à espera da nossa acreditação e depois nos solta vagamente o número do piso que procuramos.

 

Subo de elevador e bato à porta para entrar, apesar da mesma estar encostada. Surge um indivíduo que fica a olhar para mim qual "Spock" a tirar-me as medidas com aquele semblante peculiar. Olhei para o mesmo e disse o tradicional “bom dia”. Perante a ausência de retorno senti que tinha de ir mais longe - seria surdo? Seria mesmo um aprendiz do "Spock"? - disse que estava ali para uma entrevista com a Cidalina às 12 horas. O indivíduo, de camisa aos quadrados azuis e vermelhos qual pescador da Nazaré  faz-me um gesto com o braço. Deduzi que fosse um convite para entrar e entrei. Sei que soltou um esgar qualquer, mas confesso que não consegui perceber. Ainda hoje imagino como aquela interessante personagem ficaria se tivesse a farda da "Enterprise" vestida.

 

Era um indivíduo estranho e sem um sorriso num dia de sol daqueles, como era possível? Mas falava, tanto que falou quando entrámos num open space e soltou um quase inaudível “sente-se”, sempre acompanhado pelo gesto com o braço.

 

Olho à minha volta e vejo que estou numa sala onde toda a gente está a trabalhar, ou seja, onde a confidencialidade, a minha e a de quem lá trabalha, estava comprometida, sobretudo porque me dediquei a ver o revenue da organização no computador do senhor sem braço que estava à minha frente. Também me detive a ver o facebook do outro senhor que estava ao lado e que usava o chat do mesmo como se estivesse a telegrafar pedidos de socorro. Até consegui ver que apesar dos muitos smiles, os mesmos não se reflectiam na expressão do mesmo. Aposto que era um daqueles totós que tinha uma vida secreta de sedutor nas redes sociais e era conhecido no Cais do Sodré como o "Viking de Oeiras".

 

Mas... Ao meu lado, o meu rival. Um senhor dos seus quarenta e muitos anos que ignorou a minha saudação de bom dia mesmo tendo levantado os olhos de uma revista que lia: guerra é guerra e não há tempo para grandes cumprimentos entre as diferentes partes.

 

Fiquei a olhar para o meu rival, não que tivesse muito para olhar. Vestia fato cinzento e a armação dos óculos era como todos os senhores daquela idade que usam óculos e vestem fato. Aquele estilo de massa que a personagem Reuben Toshkoff do "Ocean's Eleven" usa. Tinha a perna cruzada enquanto o pesado corpo se afundava no sofá como se o mesmo o fosse engolir e só ficassem à vista os sapatos mal engraxados. Por momentos pensei que fosse necessário alugar um guindaste para retirar o senhor do sofá quando fosse chamado.

 

É sempre bom ter os candidatos, ali frente a frente, dispostos a tudo e até a encetarem uma luta sem quartel pela posição. Confesso que o estudei, no entanto percebi que se aquele indivíduo se atirasse a mim, não me faltaria tempo para fugir, a não ser que me atirasse entretanto com a pesada mala de pele que um administrativo da Lisnave usava nos anos 60.

 

Observo a sala e apercebo-me que a empresa em questão tende a recrutar muitos indivíduos com algum tipo de deficiência. Foi uma coisa que me deixou contente, afinal também é dar uma oportunidade aos demais e promover uma verdadeira Responsabilidade Social. Pensava eu...

 

Tirando o tagarela de um dos colaborados que, ao invés de trabalhar, insistia em interromper os colegas com conversas sem interesse absolutamente nenhum, reinavam as caras de peixe cozido entre os colaboradores. Quero acreditar que estavam assim porque todos tinham perdido um familiar naquele dia.

 

De repente, uma porta abre-se e vejo um possível candidato à posição a sair acompanhado pela senhora com voz de bagaço e que alia a isso o facto de parecer uma autêntica matrafona, algo que eu não tinha visto no photoshop do website da empresa e no LinkedIn da mesma.

-Ai que bom, consegui juntar todos à mesma hora! - Disse, acompanhando com uma gargalhada.

 

"Ai que bom, consegui juntar todos à mesma hora"! Obviamente, nem que seja preciso fazer-vos esperar, porque se vocês estão à procura de emprego, é porque não têm mais nada que fazer! Ai que bom seria ter aqui uma garrafa de aguardente Aldeia Velha para  atirar a essa cabeça com voz de bagaço.

 

Entrou o meu rival, também sem um sorriso, aliás, o ânimo era imenso. Quem é que não quer recrutar uma pessoa assim? Lá fui esperando, lá consegui perceber que o meu rival conhecia alguém que conhecia o Director da empresa (podiam ter fechado a porta nessa parte) e que ali estavam apresentados e que o “Y” era amigo de “X”. Os risos aí foram muitos, aqueles risos cínicos e "very corporate". A entrevista deste não durou 10 minutos. 

 

Continua... 

 

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Contas ao Salário e Amnésia Selectiva...

por Robinson Kanes, em 03.05.17

 

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 Fonte da Imagem: https://ak3.picdn.net/shutterstock/videos/10361234/thumb/12.jpg 

 

Já vem sendo recorrente a discussão em torno dos salários de alguns gestores de grandes empresas em Portugal (ou seja, pouco mais que meia dúzia). Ficamos chocados com os números numa espécie de misto de inveja e revolta - inveja na medida em que criticamos o facto de muitos destes senhores levarem uma vida de reis (esquecendo o essencial da questão) e de revolta pelo facto dos números serem, por vezes, autênticas provocações.

 

Comecemos por aqui: por muito que nos queira ser vendido e por muito que eu possa desejar e tenha objectivos traçados para ser o CEO de uma organização, tenho perfeita consciência de que não nascemos todos para auferir milhões! Nem todos podemos ser CEO como nos vendem nas revistas, nos seminários e nas universidades! Todos podemos ser óptimos, os melhores, mas nem 1% vai chegar a esse cargo! Convençamo-nos disso e já é uma forma de sermos mais felizes! Até porque muitos estão aptos para a posição de CEO em termos de salário mas não em termos de competências. E não! Não há lugar para todos!

 

Também vivemos num mercado livre e o Estado não pode nem deve intervir nas tabelas salariais de organizações empresariais privadas. O Estado tem de estar preocupado com a corrupção, desigualdade, má gestão e outros problemas que existem nas empresas públicas ou outros órgãos estatais. E já tem muito por onde se preocupar. Se eu estiver descontente posso sempre recursar-me a trabalhar numa organização assim. É fácil...

 

Não podemos censurar o CEO ou até o “gerente” de uma organização por auferir mais de um milhão de euros sem perceber os lucros que a organização gera e a responsabilidade deste na mesma! Haverá sempre quem ganhe mais! Moralmente podemos questionar algumas situações mas... caberá sempre aos accionistas, à administração da organização ter a palavra final. Mais uma vez, penso que é o facto do outro é rico e eu não que entra em jogo. Eu estou mais preocupado se a máquina do Estado garante que todos os impostos são pagos, se todas as regras de concorrência são cumpridas e se a organização paga o salário devido aos colaboradores e, mais que isso, lhes garante condições de bem-estar dentro e fora do local de trabalho. Finalmente, as organizações são muitas vezes "pertença" destes senhores! Gostariam que alguém vos entrasse em casa e vos limitasse os gastos e vos desse ordens de como gerir a vossa própria casa? Se andamos a celebrar o fim de ditaduras, mais uma vez, temos de ter cuidado para não cair noutras.

 

Contudo, à semelhança do que sucedeu com o episódio da Padaria Portuguesa, os críticos destas práticas, que têm na família Soares dos Santos e na família Azevedo grandes inimigos, por exemplo, são aqueles que não perdem uma promoção nos hipermercados destas organizações! Se temos de apontar a culpa a alguém que apontemos a nós próprios! Existem serviços ou produtos que simplesmente não compro por não concordar com as políticas das organizações!

 

Também vamos criticar algumas tecnológicas, marcas de desporto, marcas automóveis, imobiliárias e outras tantas organizações por explorarem populações, inclusive mão-de-obra infantil, e por poluírem o ambiente? Porque é que não criticamos os salários dos jogadores de futebol e outras indivíduos remunerados associados a este sector (comentadores, quadros desportivos, empresários...), ou os media? Tocar no futebol, num país como Portugal, torna as pessoas impopulares, talvez por isso nem o nosso Presidente da República, quando falou sobre este tema após recuperar da amnésia selectiva, tenha mencionado este desporto... ou os media que lhe permitiram que por menos de 4 horas mensais de trabalho auferisse €10.000 por mês! Uma grande maioria dos portugueses não aufere esse valor num ano por mais afectos que tenha! E o nosso Presidente da República não chegou recentemente a Portugal e sempre se moveu em muitos destes círculos, não entendo o choque...

 

Eu estou mais preocupado com a produtividade, com a competitividade, com as condições de trabalho, com a competência e qualidade das chefias e acima de tudo com o populismo à volta da tolerância de ponto com a vinda de um Papa. Do ponto de vista económico, qual será o prejuízo? Se bem calculado será bem superior ao salário anual de muitos destes gestores! E o impacte em termos sociais? Vivemos num Estado laico e estamos a ter uma situação de tratamento desigual entre indivíduos de religiões diferentes... Afinal estamos a favorecer uma confissão religiosa em detrimento de outras e... pior que isso, estamos, mais uma vez, a criar um fosso constitucional em termos de direitos entre funcionários do privado e funcionários públicos.

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Uma Estranha Dificuldade em Dizer Obrigado!

por Robinson Kanes, em 30.03.17

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 Joaquín Torres-García, Dos figuras misteriosas (The Museum of Modern Art "MOMA" - Colecção Privada)

Fonte da Imagem: Própria

 

Estamos na semana em que ocorre aquele que se auto-denomina o evento máximo dos Recursos Humanos em Portugal.

 

A sensação que este género de eventos me provoca é de que estamos sempre perante um discurso que não vai ao encontro da realidade - até porque o evento não é propriamente aberto a todos. Fala-se muito, faz-se muito networking, passeia-se muito o ego... mas depois...

 

Se existem alguns painéis ou palestrantes que até trazem algo de novo, fica sempre aquela sensação, sobretudo para quem quer aprender e partilhar ao invés de aparecer, de que se poderia ter ido mais longe - acredito até que esse é o fim último da organização. Neste âmbito, foco os Recursos Humanos ou Pessoas, como lhe queiram chamar, porque o meu artigo é por aí que entra.

 

Em Portugal, e misturo aqui a minha experiência com muitas outras com que tenho tido contacto, existe uma palavra que tem alguma dificuldade em sair, ou melhor uma atitude... o reconhecimento, o obrigado. Ou agradecemos quando temos um milhar de pessoas a aplaudir ou então quando, e socorrendo-me de uma expressão popular, "traz água no bico” que é igual ao “deixa-me cá agradecer àquele que preciso do gajo para me abrir aqui umas portas”...

 

A dificuldade que muitos indivíduos têm em agradecer, nem que seja com um obrigado é algo que daria um estudo de caso daqueles. Uma das razões que poderia apontar, agitando todos os testemunhos que já tive e a minha própria experiência, está na insegurança. Está na insegurança de que agradecer a outrem é colocar-me a mim numa posição vulnerável do... “não sou assim tão bom”. É a insegurança de não estar talhado tecnicamente e humanamente para a posição que ocupo e qualquer agradecimento a outrem coloca o meu lugar em risco. Dizer bem do outro é dizer mal de mim que sou o melhor.

 

Fazendo a ponte da questão humana, coloco também a ausência de soft skills e até de carácter. E o povo é sábio quando diz “não sirvas a quem serviu, não peças a quem pediu”. Se por um lado o sentimento de “negreiro” ainda vigora, por outro é o daquele que não serviu nem pediu mas assume a sua posição sem ter feito um caminho de... trabalho. Pode parecer elitista, mas na verdade... as coisas correm melhor quando se serve a quem não serviu...

 

Também, sempre que alguém emigra, o argumento comum (pelo menos daqueles com que contacto) em relação ao trabalho é que no exterior o “reconhecimento” é a mais-valia e algo que não existe dentro da pátria. O reconhecimento por outros povos em detrimento do reconhecimento do seu próprio povo. Diria que é dos piores sentimentos que um profissional, aliás, um indivíduo pode sentir.

 

Não podemos falar de engagement, employer branding, communication (comunicação), teamwork (trabalho de equipa), trust (confiança) e outros tantos jargões que nos fazem parecer importantes mesmo que sejamos uma nulidade. Se não formos capazes de dizer O-B-R-I-G-A-D-O ou até M-U-I-T-O-S P-A-R-A-B-É-N-S passar a níveis superiores é pura perda de tempo e de recursos! E mais que isso temos de ser capazes de encorajar as nossas equipas, dar-lhes espaço para trabalhar, guiá-las e não abandoná-las à sorte e só nos lembrarmos das mesmas quando falamos de Key Performance Indicators (KPI) e auditorias. Não podemos falar de motivation (digam lá que não soa melhor que motivação e me faz parecer importante) se não formos capazes de reconhecer, dar instrumentos e trabalharmos, mas trabalharmos à séria para recrutar e promover os melhores. Se eu confiar em mim, farei tudo para que sejam melhores que eu.

 

No entanto, também existe uma espécie não tão rara quanto isso na fauna laboral que são os indivíduos que, ao verem o seu trabalho reconhecido, parece que receberam uma carta de despedimento, mas desses falarei mais tarde.

 

Agradeçam e digam obrigado, estimulem e impulsionem o sucesso dos outros e não o façam apenas quando os standards (padrões, normas...) exigem ou só porque já todos disseram e fica mal na fotografia aquele que não o fizer.

 

Do ponto de vista do Return on Investment (ROI) - digam lá que também não me fica nada mal dizer esta sigla assim como quem sabe disto tudo e mais alguma coisa? - vão também deparar-se com ganhos superiores, até porque a despesa é zero e o retorno é mais que muito.

 

Hoje que voltou a estar na moda a Felicidade – voltou, para tristeza de alguns, é algo mais que estudado e ainda bem, não descobriram a pólvora, lamento – pode ser que alguém se lembre de trazer algo que é igualmente importante e também já deveria estar na moda, a Gratidão!

 

Definição muito breve de alguns conceitos para quem não está familiarizado:

 

Soft Skills: atributos pessoais que permitem a alguém interagir eficientemente e harmoniosamente com outras pessoas. Envolve conceitos como a comunicação, competências sociais, inteligência social e emocional, liderança e outros.

Engagement: esforço aplicado pelo trabalhado na execução das tarefas estando este integrado e comprometido psicologicamente com o seu trabalho. Tem como resultado um efeito positivo ao nível da satisfação dos clientes, da produtividade, lucros, retenção de colaboradores e sucesso organizacional. Um trabalhador envolvido coloca muito mais de si e do seu esforço no trabalho.

Employer Branding: promoção do bem-estar dos colaboradores no local de trabalho. Os colaboradores são encarados como embaixadores da organização e consequentemente transmitem essa postura positiva para clientes, colegas e potenciais candidatos. É também uma forma de marketing na medida em que visa que a organização se torne um local aprazível para se trabalhar.

Key Performance Indicators: métrica utilizado sobretudo em ambiente empresarial (mas não só) que permite avaliar factores que são fundamentais para o sucesso de uma organização. Diferem de organização para organização e têm em vista determinados alvos e objectivos que são definidos pela gestão. 

Return on Investment: a definição pode variar consoante a área, mas não é mais que a relação entre o que se ganhou e o que se perdeu face a determinado investimento. 

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Mulheres…Mas Pouco...

por Robinson Kanes, em 09.03.17

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José Clemente Orozco,  O Martírio de Santo Estevão (Museus do Vaticano)

 

 

A maior parte dos reis que a História celebra nunca foram educados para reinar.

Jean-Jacques Rousseau, in o Contrato Social

 

Estive ontem, como convidado, numa actividade de recursos humanos centrada no "Dia da Mulher".

 

Estaria tudo bem, até aproximar-se de nós uma senhora que reclamava pelo simples facto dos responsáveis da respectiva organização estarem a sortear algumas prendas e não oferecerem um presente a cada uma das colaboradoras. Nada transcendente, no entanto, e confesso que até tenho uma grande simpatia pela organização (uma multinacional) em causa, entendo que as organizações têm as suas limitações pelo que, mais vale pouco que nada. E reforço, continuo a ter uma grande simpatia pela mesma organização, inclusive pelo CEO, mas não em Portugal.

 

O problema surge quando a “queixa” avançou, até porque se estava num clima que se pode apelidar de “boa onda” e a pobre da senhora afirmou: “somos mulheres, somos iguais”. Do ponto de vista da retórica e da afirmação de um direito a mesma passou com distinção... todavia, do ponto de vista da humanidade, alguém iria a cometer um verdadeiro genocídio... e já vão perceber o porquê do uso deste conceito.

 

Considero-me uma pessoa pragmática e com uma frieza germânica quando toca a tomar decisões difíceis... tive uma fase da vida em que cheguei a questionar alguma dessa frieza, mas nada me preparou para o que ainda vou vendo e ouvindo por parte de indivíduos que se dizem civilizados, que são portugueses, que são ilustrados e em modo Sociedade 9.0 e afins... o típico somos todos muito para a frente no Facebook e nas publicações que escrevem por nós, mas...

 

Face ao argumento da senhora em causa, a resposta da “Responsável” de Recursos Humanos (com um cargo de manager, portanto nem estamos a falar de directores) foi um “calma lá, não somos iguais que eu sou directora e você trabalha nas operações, não somos nada iguais, se alguém merece alguma coisa mais até sou eu”.

 

Pior? Só estamos em Dachau, já vamos a Treblinka. Na mesma celebração, fui abordado por uma pessoa com um cargo na mesma organização que me informou que alguém (manager) se havia recusado a integrar uma acção de formação como formanda porque não tinha nada que aprender com ninguém e muito menos com uma pessoa que acabou de chegar à organização. Nessa acção de formação, o Director para Portugal e dois membros do Conselho Executivo (fora do país) foram os primeiros a aceitar. Em jeito formal, acrescento: "mais se informa que as duas senhoras não têm sequer know-how na área em que desenvolvem trabalho".

 

Foram duas situações a mais para um só dia... lamentavelmente, pessoas jovens, mas com mais de 20 anos de casa, que sempre trabalharam no mesmo local e sem quaisquer qualificações para a tarefa... assumirem esta atitude narcisista e totalmente desumana com outros colaboradores (não sirvas a quem serviu, não peças a quem pediu, já diz o Povo) é deplorável e seria motivo de despedimento em todas as organizações por onde já passei. Para mim a resposta é simples: insegurança. Todavia, a insegurança não pode, nem deve, ser o bode expiatório para as maiores atrocidades e para o perpetuar de um sentimento de impunidade.

 

Nestas alturas, é-me fácil perceber como é que crianças judias (não só na Alemanha) de um dia para o outro viram os seus amigos de sempre a arremessarem pedras na sua direcção. É-me muito fácil perceber como é que Hutus foram capazes de matar familiares e amigos Tutsis de uma hora para a outra. É-me fácil perceber como é que Sérvios, Croatas e Bósnios deixaram de se abraçar num dia e se começaram a matar no outro.

 

 

Optei por sair, há situações com as quais recuso pactuar, mesmo como convidado. Chegado a casa, escutando uma Cantata de Bach, respondi a uma SMS recebida entretanto e afirmei que não era o ambiente no qual queria estar, pedindo as minhas desculpas e sugerindo passeios ao ar-livre, formações e psicólogos para que os envolvidos pudessem tomar consciência daquilo que tinham dito, mas pior que isso, daquilo que pensavam e pensam. Daqui aos exemplos que dei atrás, é um pequeníssimo passo, pois a diferença entre um indivíduo destes e um Rudolf Hess ou um Radovan Karadzic é que estes últimos tinham autoridade “legal” para o fazer.

 

Prometo que amanhã falo de coisas boas, mas não poderia deixar passar esta em claro, porque é falando dos erros que também aprendemos e não a construir frondosos palácios sob bases de papel, além de que, é estudando a fundo o problema que encontramos a solução. E afinal... era o "Dia da Mulher"...

 

Fonta da Imagem: Própria.

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