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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Já por aqui confessei que ninguém é perfeito e o meu gosto por música italiana é a prova cabal... Também já admiti que custa gostar da miríade de músicas que todos os dias são despejadas nas rádios e nos tops (confesso que já nem sigo), no entanto, vão existindo excepções...

 

Uma delas é a Giorgia (estranhamente pouco conhecida em Portugal), mas que canta com uma intensidade e uma entrega pouco comuns em cantoras mainstream. Não é apenas uma senhora bonita, é uma voz forte e perfeita que atrai a nossa atenção assim que a escutamos ao longe, ou numa viagem a Itália quando a ouvimos na rádio.

 

 

O último sucesso e que ecoa por pela sua terra-natal é a música "Scelgo ancora te", uma música para nos fazer sonhar e claro... Amar... Amar enquanto percorremos Itália e ao nosso lado temos a companhia de quem nos faz pensar que no meio de tantos acontecimentos maus, a sorte do destino também nos dá autênticos bónus e numa probabilidade infíma de oportunidades, eis que... Haverá momento melhor que escutar esta música enquanto do outro lado, os olhos e o sorriso de outrem se perdem na imensidão do Tirreno? Talvez o título da música - "E mesmo assim te escolho" - seja sem dúvida um resumo do que poderia pensar nesses momentos.

 

A Giorgia... A Giorgia tem sido uma companhia não muito recente, mas que tem melhorado na voz ano após ano, desde que a ouvi pela primeira vez com "Ora Basta". Recomendo, sobretudo para ouvirem com quem gostam enquanto preparam um jantar romântico à segunda-feira, quando quase toda a gente se afoga num sentimento de "Blue Monday". Resulta, vão por mim... Iniciem esse momento com "Per Fare A Meno Di Te".

Pensar...  Cada vez mais um privilégio de poucos num relógio que teima em ter mais de 24 horas! "Pensar" é talvez algo que comece a fazer falta e nada melhor que um livro com o mesmo nome, o "Pensar" de Vergílio Ferreira que não é mais que uma colectânea de pequenos e grandes pensamentos que, de tão actuais que são, levam-nos a pensar que as inquietações só mudaram de nome... Um livro que não é para ser lido de uma vez, posto que os 676 pensamentos devem ser efectivamente pensados e digeridos. É um bom desafio, ler um ou dois por dia... Destaco apenas três, que de um certo modo chamaram a minha atenção:

 

IMG_20171020_102834.jpg91 Este é o tempo do insólito, do vigário, do capricho, da mentira, da falsificação, do cheque sem cobertura, da banha-da-cobra. Não temos um estalão para nada (...) Hoje tudo é possível porque nada é possível. Hoje a verdade não se demora até ser mentira mas uma e outra se convertem mutuamente e são ambas válidas na sua mútua referência , sendo a mentira a verdade e ao contrário. Hoje é o tempo dos aventureiros, do medíocre, do sagaz da esperteza, que é a inteligência da astúcia. Hoje é o tempo do curandeiro, do endireita, do bruxo, do vidente,do profeta, do prestidigitador. Hoje é o tempo de se ser estúpido porque o inteligente não há razão para não ser mais estúpido do que ele. Hoje é o tempo de todos os caminhos estarem desimpedidos porque não é possível um sistema alfandegário. Hoje é o tempo de todos os contrabandos porque não há razão para um sistema fiscal. Hoje é o tempo da noite para todos os gatos terem a mesma identidade. Hoje é o tempo de tudo ser o tempo de. Hoje é o tempo de tudo, portanto de nada. Hoje é o tempo de se não ser. Levanta em ti, se puderes, o que te resta de homem, para seres alguma coisa.

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381 Fala baixo. Não te esfalfes a falar alto. Deixa que os outros se esfalfem até ficarem calados. Falar alto é compensar o que em ideias é baixo. E essa é a compensação dos que escutam. Não te esforçes a falar alto. Serás ouvido quando os outros se esfalfarem e já não tiverem voz. Como o que se ouve num recinto depois que o comício acabou.

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466 Rápidos correm os dias, os anos. Não deixes. Nem isso é verdade. Vive intensamente cada dia, cada hora, repara no seu escoar e verás como são lentos. É por isso que quando guardamos um "minuto de silêncio" pela morte de alguém, aquilo nunca mais acaba...

 

 

 

 

Pensar, sobretudo depois de mais uma semana trágica, é algo que se impõe... Talvez neste momento vagueie naquele rosto que contempla o Tirreno e por aí me fique, será isso que me traz força energia para digerir muito do que vou vendo...

 

Bom fim-de-semana...

 

P.S: Esta semana não poderia deixar de agradecer à Maria Araújo, à C.S., à Mami e a todos os outros que no seu espaço correram o risco de perder todos os leitores ao mencionarem este espaço. Agradeço-vos muito, a vocês e a todos os outros que já o fizeram, a Maria por exemplo, é outro caso... Espero não me estar a esquecer de ninguém, mas mesmo que me esqueça é com uma profunda alegria que vos acolho aqui (mesmo aqueles que por aqui passarem com opinião diferente). São vocês a força motriz deste espaço e isso... Bem, isso vale mais que qualquer comunicação... Vale mais que qualquer favor ou qualquer "empurrão"...  Obrigado por existirem e por fazerem com que este espaço ainda exista, são vocês os grandes pilares.

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Incêndios: Espanha nas Ruas, Portugal no Sofá.

por Robinson Kanes, em 17.10.17

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Fonte da Imagem: http://www.antena3.com/noticias/sociedad/en-galicia-permanecen-sin-control-siete-incendios-en-situacion-2_2017101759e5ab300cf2e892aa27b566.html

 

Em dia de luto nacional, tenho a sensação que metade ou mais dos cidadãos portugueses não sabe o que significa uma bandeira a meia-haste. Seria interessante que todos percebessem o real significado do luto nacional, quanto mais não fosse para pararem e pensarem... Guardar 10 minutos ou mais do nosso dia para pararmos, desligarmos e reflectirmos é cada vez mais um luxo ou, segundo muitos, uma parvoíce... Tenho todo o gosto em ser parvo (parvus-parvi: pequeno) se isso for ter consciência que sou um ser humano não diferente dos outros todos. Na Era "me" entendo que muitos não compreendam o que acabei de escrever...

 

Em Portugal, país onde somos todos o máximo, continuamos com a cabeça enterrada na areia e não existe a humildade governantiva de assumir um erro e pedir desculpas. Alguém falhou os módulos de "liderança inspiradora", por certo, e também alguém sabe que os estudos de popularidade "martelados" serão capazes de influenciar um povo que continuará a perpetuar a sensação de impunidade de quem tudo acha que pode fazer. Enganem-se os portugueses que pensam que ao votarem estão a eleger alguém que vos represente, pelo contrário, estão a dar poder a outrem para que faça o que bem entender... Basta passar os olhos pelas leis que definem a governação - isto para aferir da importância de sermos cidadãos e principal supervisor de toda e qualquer actividade pública.

 

Por cá, já estamos no momento do espectáculo com as pseudo-celebridades a publicarem mensagens e a gravarem vídeos nas redes sociais perante tamanho choque. É que isto de ser solidário ou estar chocado com qualquer coisa é bom, desde que tenha projecção nos media, caso contrário não merece a pena - a propósito, ainda ontem num velório, tive oportunidade de ver uma das pseudo-celebridades (ligada à música e que anda sempre em campanhas para ajudar as criancinhas e os pobrezinhos com o irmão) completamente fria e tentando espectacularizar, perante o espanto dos presentes, a morte daquele que nos tinha ali trazido. Mas em Portugal luta-se, ou faz que se luta, no conforto do sofá, a partilhar fotografias, ou a arriscar morrer queimado dentro de um carro enquanto se filma a tragédia a troco de uns momentos de fama... E obviamente, também a escrever textos como este. Desliguem a televisão e a internet e procurem aqueles que combateram os fogos por estes dias, aqueles cidadãos, bombeiros e não bombeiros, que fizeram tudo para acabar com esta calamidade e deem um abraço a essas gentes, sem partilhas e selfies, mas apenas com as emoções verdadeiras que nos tornam melhores humanos! Os heróis são esses e não os heróis covardes que depois da tempestade, espreitam, saem do seu canto e se juntam às celebrações...

 

Todavia, em Espanha, as coisas têm sido diferentes - o povo saiu à rua, exigiu responsabilidades e obrigou a um esforço das autoridades na justificação das suas acções e a estarem próximas das populações. Em Espanha não se anda à procura de raios nem de tempestades e claramente já se assumiu que existe mão-humana nos incêndios. Em Espanha existe uma preocupação extrema com a questão natural/ambiental e com a situação económica das populações e empresas, as pessoas assim o exigem, porque esperam resultados concretos e não um abraço ou uma fotografia com Rajoy ou com Filipe VI. Em Espanha, até os media estão sob o jugo da população e de entidades reguladoras que já pediram demissões pelo facto de muitas coberturas aos incêndios serem tendenciosas ou desprovidas de tudo aquilo que deve ser o jornalismo! Em Espanha já se pensam em alterações ao Código Penal. Em Espanha até pelo "fim dos fogos" em Portugal se manifestaram, isso deveria envergonhar-nos!

 

... Em Portugal, apenas se pede que se saia à rua e se faça alguma coisa acerca do referendo da Catalunha, ou para pedir progressões automáticas de carreira (mesmo que não se faça nada para o merecer), ou para ir para a praia, porque isto de exigir um país digno desse nome, dá muito trabalho não traz "likes" e carros topo de gama na garagem. Que venha a febre do Natal bem depressa, para não nos dar tempo de pensar no essencial...

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Portugal em Guerra!

por Robinson Kanes, em 16.10.17

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 Fonte da Imagem:https://media4.s-nbcnews.com/j/newscms/2017_41/2190226/ss-171015-portugal-wildfires-2_0ef31990e760314bd502a730570f4ded.nbcnews-ux-1024-900.jpg

 

Portugal ostenta orgulhosamente (sem aspas) o título de ser o país mais seguro do mundo. Um país onde o terrorismo não ataca, enaltecendo isso como uma forma de captar mais visitantes que fogem de outros destinos mais ameaçados... No entanto, o que Portugal está a esquecer, é que foi provavelmente o país do mundo que mais ataques terroristas sofreu este ano! Poderá ser porque para muitos portugueses o turismo português continua a ser Lisboa, Porto e Algarve e enquanto esses territórios não forem atacados... Se pensarmos bem, só nesta época de incêndios já morreram mais pessoas que em muitos ataques terroristas!

 

Um país que está quase seis meses em chamas, com a maioria das ignições a ocorrerem ao fim do dia, à noite e de madrugada, só pode estar a ser alvo de terrorismo! Um país que arde diariamente e com autoridades incapazes sequer de prestar socorro às populações é um país que já não existe, aliás, é um país sem Governo e completamente abandonado apenas seguro por pequenas bolsas de resistência. São populações e operacionais que parecem soldados abandonados em combate, a desesperar até à última gota de água antes de serem derrotados sem piedade por um inimigo que, ao contrário do que possamos pensar, pouco tem de invisível. É um país onde entregamos a vida de milhares de homens a um sem número de incompetentes que os comandam (e conheço alguns que não foi por mérito que chegaram a posições de comando), é um país onde preferimos um abraço e uma selfie alicerçados num discurso folclórico a verdadeiras acções no terreno, é um triste orgulho patriótico que é incapaz de criar sinergias com o país vizinho no que a esta matéria diz respeito é, finalmente, um país onde o dizer que vamos fazer e esboçar cinicos sorrisos é mais importante que o fazer.

 

Estamos perante um país, onde os nossos votos vão para aqueles que nos fazem sonhar que daqui a um mês já nos podemos endividar e gastar mais dinheiro num dia que um alemão em 10 anos! É um país onde o conceito de "empowerment" não pode ser accionado e, de facto, muitos também não o querem conhecer. Estamos perante um país que arde, onde o colapso existiu e não é capaz de assegurar a protecção do seu território e dos seus cidadãos. Continuaremos a enterrar a cabeça na areia, uns porque já não acreditam (e quando um cidadão não acredita, deixa de ser um cidadão e passa a ser um vassalo, um escravo) e outros porque só poderão despertar quando o fogo lhes invadir o apartamento e os consumir, a eles e aos filhos e sobretudo, para um bom português, aos bens!

 

Estes incêndios demonstraram, mais uma vez, a incompetência reinante, o compadrio e o desinteresse de um povo que, apesar de puxar pela sua génese no futebol, pouco tem de tempos idos e prefere enterrar-se no seu umbigo até sufocar. Um povo que se une pela selecção mas logo a seguir é capaz de atropelar tudo e todos por uns miseráveis cêntimos!

 

O jardim à beira-mar plantado tornou-se num campo de morte e destruição, deixou de ser verde e passou a ser negro... Negro no chão, negro no céu e negro na mentalidade. Em tempos escrevi um texto e fiz um apelo para que muitos nos visitassem e vissem os nossos verdadeiros heróis, que não são aqueles que a nacional tacanhez apregoa mas sim aqueles que encontramos em muitas ruas, todavia, hoje diria que já tenho vergonha que baste pelo que não venham àquele que um dia foi o mais belo país do mundo, até porque neste momento, mais parece um país em guerra!

 

Se hoje me perguntarem, independentemente dos moralistas do costume, se tenho vergonha de ser português... Tenho muita vergonha de ser português! Quem não a tiver não é português, um português de uma estirpe capaz de se levantar e lutar em solidariedade com o seu concidadão! Sim, hoje tenho vergonha de ter um país alicerçado em partidos/autoridades/instituições/boys  cujo interesse é o poder pelo poder e um povo que assobia para o lado, talvez porque prefere o servilismo de ser alimentado por estes aparelhos a lutar e a exigir efectivamente um país melhor. 

 

Nota: Em Vigo, Espanha, as chamas invadiram a cidade... Até quando é que os incêndios continuarão a não ser tratados como terrorismo? A propósito dos fogos na Galiza alguém por lá, com responsabilidades governativas disse que os mesmos têm “atividade incendiária homicida” e que “fogos que vêm de Portugal”! Em tempos relatei por aqui uma conversa que tive com um espanhol em Plasência, acerca do medo que os espanhóis tinham dos fogos em Portugal...

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Pelo Passeig Lluís Companys até à Torre Agbar...

por Robinson Kanes, em 13.10.17

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Fonte das Imagens: Própria.

 

A semana passada falei de Barcelona e dos tempos que fixei residência em Ausiàs March - esta semana não resisti em lá voltar.

 

Uma das minhas caminhadas matinais (sim, e nocturnas) passava por descer o "Passeig de Sant Joan" e atravessar os jardins e o Arco do Triunfo pelo "Passeig de Lluís Companys". Era interessante sentir o pulsar da cidade numa das suas zonas mais nobres e também menos antigas, um pulsar estranhamente calmo, sobretudo em relação ao centro oeste. Na verdade, e deixemo-nos de poesia, era muitas vezes um mero acesso até chegar ao "Parc de la Ciutadella" ou até ao mar, ou quase sempre para voltar atrás e seguir pela "Avigunda Meridional" até chegar à "Avigunda Diagonal", perto da Torre Agbar onde combinava com a minha miúda os encontros ao fim de tarde, bem perto da multinacional onde a mesma trabalhava...

 

A Torre Agbar, que de dia não é mais que um "mamarracho", mas ao cair da noite, com todas as suas cores pintava toda aquela paixão. Gostava disso e reconheço que dava outro encanto àquele momento que, muitas vezes, sem a presença daquela torre, seria num local que parecia um estaleiro - durante muito tempo, a zona envolvente esteve em obras.

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Era bom fazer aquele caminho, mesmo que depois tivesse de voltar atrás, não sei explicar... Talvez fosse uma espécie de Sísifo a punir-me pelo erro futuro de recusar viver naquela cidade, acreditanto mais uma vez que poderia trazer algo de novo ao meu país... Ainda hoje consigo vislumbrar a Torre Agbar ao longe e encarar a mesma como uma estrela-guia para um futuro próximo.

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Voltando ao meu percurso, também era aqui que ficava encandeado pelo sol de fim de tarde que ali projecta uma linha cujos raios se estendem pela cidade até ao final do "Passeig Saint Joan" e me fazia por vezes sentar e ligar o Ipod. Aproveitava para queimar algum tempo, até continuar o meu caminho... De facto, muitas vezes era acompanhado pela "Barcelona Gipsy Balkan Orchestra" (que aqui já falei), e desse tempo recordo-me sobretudo destas duas bandas sonoras daqueles momentos: o "Lule Lule" e  "Cigani Ljubiat Pesnji". Esta última, fundamental para um dia ter conhecido os Mossos d'Esquadra, depois de me ter motivado para jogar futebol com uns indivíduos que monopolizavam a relva junto aos "Jardins Fontserè i Mestre"... Ainda me lembro de ter dito que só estávamos a fazer uma "rabia" e chegar à conclusão que o melhor seria ficar calado e esperar que os locais se entendessem com a autoridade.

 

Se como eu não puderem ir a Barcelona por estes dias, nada como aproveitar as sugestões musicais e encontrar o jardim mais próximo de vós, e porque não, libertarem-se um pouco num jogo de futebol, ou com os sons da natureza, das pessoas e da vida, ou então lerem o Relatório aos Incêndios de Pedrogão Grande e Góis...

 

Bom fim-de-semana...

 

 

As bandas sonoras...

 

Bacelona Gipsy Balkan Orchestra - Lule Lule

 

 

Barcelona Gipsy Balkan Orchestra - Cigani Ljubiat Pesnji (sem dúvida, uma das minhas preferidas)

 

 

 

 

 

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Um Elogio ao Dr. Vasco e à D. Lídia...

por Robinson Kanes, em 28.09.17

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 Eva Gonzalès, Une loge aux Italiens (Museu d'Orsay)

Fonte da Imagem: Própria

 

Felizmente, mais que os heróis das redes sociais, mais do que os sentimentalistas de blogs, mais que os solidários da televisão e das artes, existem anónimos que fazem a diferença, aliás, são eles que fazem a diferença, os outros só aparecem.

 

É também por serem anónimos que não vou revelar mais da identidade destas duas pessoas que vou elogiar (elogiar, em Portugal? Não, não perdi a cabeça, não lhes pedi nenhum favor e não quero ganhar nada com isto), até porque os mesmos não iriam querer essa exposição. Estamos perante uma história verídica.

 

O Dr. Vasco, eu sei que não sou pessoa de tratar outros por títulos e o Dr. Vasco nunca fez questão que eu o fizesse - no entanto, existem pessoas que fazem questão de ser tratadas pelo título e outras cuja educação, respeito, ética, profissionalismo e postura nos fazem automaticamente assumir o título, mesmo que, academicamente nem fossem dignos de tal, o que não é o caso. O Dr. Vasco e a D. Lídia são um casal anónimo que não fala, não escreve e muito menos procura protagonismo com causas solidárias, contudo, o Dr. Vasco e a D. Lídia tiveram num Verão, uma viagem na ordem dos 3000-3500 euros agendada para fora das nossas fronteiras.

 

Ao verem o país a arder, sobretudo a sua região, o Dr. Vasco e a D. Lídia decidiram negociar com a agência e doar todo o dinheiro para a causa dos incêndios! Obviamente que não foi através de associações. Segundo o Dr. Vasco e a D. Lídia não se sentiam bem consigo próprios pelo facto de andarem a passear por aqui e por acolá deixando para trás um país em chamas, por sinal o seu. Não se sentiam bem por verem indivíduos conhecidos com o coração nas mãos enquanto bebiam um refresco em algumas das praças mais belas do mundo.

 

Uma história simples que não precisa de mais floreados e cujo testemunho o tive na primeira pessoa... Um exemplo de cidadania, demonstrativa de que, para além do folclore mediático os verdadeiros heróis são anónimos e andam espalhados por esse país fora. Cabe-nos a nós, demais anónimos, encontrá-los, valorizá-los e exaltá-los ao invés de perdermos muito do nosso tempo a bater palmas a indivíduos ocos e patrocinados pelo compadrio político e/ou mediático. No vosso dia-a-dia, inclusive, não faltam esses anónimos, hoje elogiem-nos, dêem-lhes um abraço e convidem-nos para tomar um café.

 

P.S: e praticamente em Outubro, ainda estamos à espera das responsabilidades ou de desenvolvimentos visíveis acerca dos incêndios do Verão... "Doa a quem doer"... Mais importante que passar um Natal mediático em Pedrogão é a justiça!

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 Fonte da Imagem:https://arquivo.imgix.net/https%3A%2F%2Farquivos.rtp.pt%2Fwp-content%2Fuploads%2F2016%2F12%2Fmeio-seculo-de-televisao_1481647219.png?fit=crop&h=461&ixlib=php-1.1.0&w=860&s=b8898264b144e6b636ca5322df42dc78

 

Consultei, após ter visto uma notícia pouco clara sobre a matéria, o "Relatório para a Igualdade de Género, Cidadania e Não Discriminação" encomendado pela Rádio Televisão Portuguesa (RTP) - importa notar, para este artigo, que a RTP é uma das fundadoras do Fórum Empresas para a Igualdade.

 

Após uma introdução e um enquadramento legal com um carácter teórico louvável, onde se discorre sobre valores e ética, conclui-se "no que se refere à eliminação de eventuais discriminações, ressalva-se que a RTP apesar de não mostrar evidencias, tem realizado um esforço e consciência no incremento progressivo do género feminino ao topo das carreiras e a posições de chefia e cargos de responsabilidade estratégica" - ou seja, não há evidências mas tem sido feito um esforço, não há provas suficientes desse esforço mas ele está lá, neste tipo de relatórios este tipo de subjectividade não pode nem deve constar.

 

Outras questões que se colocam estão relacionadas com a antiguidade dos colaboradores pois "a maioria dos trabalhadores se encontra nos escalões etários entre os 45 e 54 anos, sendo que 68,6% dos trabalhadores têm idade igual ou superior a 45 anos". Sou dos primeiros a defender que os mais velhos têm um lugar importante nas organizações, mas 68,6% de headcount  com 45 ou mais anos de idade não é sinal de uma organização dinâmica. 

 

Uma outra variável - e aqui assumo que sou de uma geração que não sonha com o emprego para a vida no mesmo local - prende-se com o facto de praticamente 60% dos colaboradores ter mais de 20 anos de casa! Aqui as interpretações podem ser várias, na medida em que pode ser um recrutador atractivo, mas também uma organização que pode não estar a acompanhar os tempos em termos de inovação, dinâmica e até recursos humanos. 

 

A resposta à questão anterior poderá estar na média salarial que se situa entre €2.219,99 para as mulheres e os €2.344,33 para os homens o que cria um certo comodismo (ambos são os números de um salário-base). A diferença, segundo o relatório, deve-se sobretudo ao facto de serem mais homens a ocupar cargos de responsabilidade. Já tinhamos aqui alguma matéria para análise, não só na questão de género (tão em voga) mas também na discussão de que em Portugal se trabalha só para o salário.

 

Contudo, chegamos à conclusão que a RTP, empresa pública paga por todos nós (mesmo por quem nem sequer tem aparelho de televisão ou rádio) remunera muito bem os seus colaboradores, isto à escala portuguesa. Tal não me assustaria se fosse uma organização privada mas... Fará sentido que uma empresa que dá prejuízo veja ser injectados milhões e mais milhões dos contribuintes e pague salários acima da média nacional, premiando, desse modo, os constantes e já mencionados prejuízos? Será que a RTP presta, efectivamente, um serviço público? Porque é que os contribuintes são obrigados a garantir a sobrevivência desta estação que nem sempre é conhecida pela sua transparência que, muitas das vezes, começa ao nível do recrutamento?

 

Porque é que na RTP, tal como a TAP, sempre que se fala em privatização, surge um coro de protestos com movimentos criados para o efeito - sempre pelos mesmos, sendo o mais famoso o realizador António Pedro Vasconcelos sempre patriota com a RTP e com a TAP mas muito pouco com o resto do país e demais instituições e valores. Que terá a RTP de tão especial que "não pode" ser privatizada mas pode continuar a dar um prejuízo gigante a todos nós, quando se privatizaram empresas estatais lucrativas e reconhecidas pela qualidade do serviço? Que interesses serve a RTP não só na política mas em algumas áreas da nossa sociedade? Todos sabemos que a um Governo, seja ele qual for, importa ter o seu canal televisivo e radiofónico, mas os tempos mudam e a cidadania deveria exigir mais da RTP.

 

Finalmente, e retomando a questão salarial, poderemos alegar que estamos perante profissionais, muitos deles, com qualificações superiores, mas aí também temos de fazer a ponte para a realidade nacional e as surpresas estarão à vista. Pegando no slogan de um movimento criado pelo indivíduo acima citado, é razão para dizer "não tap os olhos", ou neste caso, "não nos tapem é os olhos".

 

O estudo pode ser consultado aqui.

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Portugal: O País da Fartura!

por Robinson Kanes, em 05.09.17

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Fonte das Imagens: Própria 

 

A  Terra, disse ele, tem uma pele, e esta pele tem doenças. Uma destas doenças, por exemplo, chama-se homem.

Friedrich Nietzsche, in "Assim Falava Zaratustra"  

 

Este país é um local mágico. O meu pai costumava dizer que não havia melhor país que este, pois bastava percorrer as estradas e as ruas para se encontrar mobiliário para a casa - são os colchões, as cadeiras, os móveis de sala, as camas e um sem número de coisas atiradas para a berma ou largadas no meio da floresta. Quem quiser um animal de estimação facilmente encontra um, sobretudo nos meses de verão.

 

É um país de fartura, onde estudos encomendados dizem que andamos todos muito entusiasmados e confiantes com a nossa situação económica, mas onde a dívida não pára de subir, esperemos que a situação se inverta. No meio de tudo isto, sempre é bom para dinamizar a economia, embora ainda não tenhamos percebido que os anos dourados não voltam, ou voltam, mas daqui a meia dúzia de anos voltam também os anos negros... E cada crise económica, tende a ser pior que a outra... Mas por aqui a comida vai parar ao lixo ou não fôssemos um país onde a alimentação até é barata (infelizmente).

 

Mas a fartura é tanta que até despejamos comida em condições de consumo para o lixo. Digam lá que não somos um país rico? Depois de ter fotografado aquilo que vos é apresentado no topo da página ainda remexi o lixo e encontrei pacotes de leite dentro da data de validade e iogurtes em iguais condições. Somos gente fina que não se limita a colocar o lixo no local próprio (quando coloca) mas ainda dá um bónus às gaivotas e às ratazanas que deambulam pelos aterros. Um dos bolos, que é visível, estava totalmente selado.

 

Um destes dias teremos o Banco Alimentar Contra a Fome a fazer recolhas junto aos caixotes do lixo com os senhores mais adultos em amena cavaqueira enquanto as crianças à civil ou vestidas com a farda dos escoteiros entregam sacos e pedem donativos. Chama-se a isto ser solidário.

 

P.S: o bolo acabou comido pelos corvos, cortesia do Robinson...

 

 

 

 

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Não é novo que um mês em Istambul me deixou agarrado àquela cidade e ao próprio país. Também por aqui já abordei um sentir da cidade de todas as culturas...

 

Se podemos falar de sugestões, nada como uma leitura por Orhan Pamuk, sobretudo do seu penúltimo livro "Uma Estranheza em Mim". Pamuk é o cronista de Istambul na primeira pessoa e foi também graças a escritor que me foi possível compreender a dinâmica desta cidade, fora dos livros de história e sociologia, bem para lá de Sultanahamet ou Galata... O que parece um livro sem fim e que lentamente vai contar a história do vendedor de boza (Mevlut Karatas) sem grande entusiasmo, transporta-nos para as ruas dos "novos" bairros pobres que contribuiram para que entre 1969 e anos mais recentes a cidade aumentasse de 3 para 13 milhões de habitantes. Mas a história começa numa aldeia Anatólia Central e é aí que vamos sendo levados pontualmente numa espécie de contraste com a própria Istambul, ou entre a Turquia profunda e a Turquia mais cosmopolita.

 

Não é de todo um livro inacessível, aliás, é uma lição de história, cultura, antropologia, urbanismo e até felicidade... Com especial interesse nessa última área, encontrei aí um bom exemplo de estudo, embora seja pouco ou nada mencionado nas criticas que vi à obra, por norma sempre pesadas e que tendem a afastar leitores mais cépticos - aliás, em música, literatura, pintura e outras artes nunca entendi esta forma europeia de complexificar tanto as coisas que a dita democratização das artes parece uma miragem. Não se assustem, assim que começarem a ler não vão querer parar e o discurso é simples, é mais fácil compreender o livro que as análises ao mesmo. 

 

IMG_20170904_091802.jpgPode também parecer "tolo", mas a par das peripécias que envolvem o casamento de Mevlut, não consegui deixar de pensar na prática do "casamento e fuga" também alvo da etnologia no contexto da comunidade piscatória da Nazaré. É Istambul no seu dia-a-dia, da pressão do Estado, das máfias "bondosas" que acabam por comandar os submundos e os destinos de muitos, é a felicidade com pouco, mas com fortes alicerces na família (primos), nos amigos (Ferhat) e naqueles que encontramos dia-a-dia - interessante a relação que Mevlut acabará por ter com o " Santo Guia". É um relato realista, sem qualquer fantasia mas também sem qualquer necessidade de adensar a tristeza. Discordo quando a obra é tida como uma "novela trágica"... Só de um sofá numa confortável cidade europeia podemos tecer tal afirmação...

 

 É a realidade aqui tão bem escrita e que me transporta para aquele mês em que vi muito do que nestas páginas é apresentado. Como eu, chego à conclusão que no misto de tristeza e encanto com Istambul, também Mevlut é um apaixonado pela mesma.

 

 

É envolvente como, com o livro a meio, e ainda antes de fecharmos os olhos, nos deitamos na nossa cama e temos a sensação de ouvir lá fora a personagem de Mevlut a apregoar "Boooooooo-zaaaaaaaa". Experimentem e deixem a noite alta chegar e ouçam o som da vossa cidade, vila ou aldeia...

 

Finalmente, uma nota musical para me lembrar esta cidade: os "Light in Babylon", uma banda turca de Istambul com várias influências, ou não fosse Istambul uma mescla de povos e culturas. Não sou confesso adepto da voz da vocalista, contudo, não deixa de ser um banda que me atrai pelos temas explorados, pelas letras e sobretudo pelos ritmos árabes, turcos e judaicos. Uma das minhas composições preferidas tem o nome da cidade: "Istambul".

 

 

É uma das companhias para alguns crespúsculos e sobretudo para recordar terras distantes ou, como Mevlut, percorrer os diferentes bairros de Istambul. A encontrar o vendedor de boza - coisa rara - e a descobrir naqueles olhos as inquietações do seu dia-a-dia que só era, apesar do cansaço e árduo trabalho, enriquecido com a venda desta iguaria. Talvez as ruas de Istambul sejam perfeitas para isso, talvez sejam um misto de inquietação e paz que nos transporta para outra dimensão enquanto um simit nos alimenta o estômago e a alma.

 

Deixo mais uma das músicas que aprecio desta banda, 

  

 

 Boa Semana...

 

Boza: bebida tradicional asiática à base de trigo fermentado, de consistência grossa, cor amarelo-torrado e de baixa graduação.

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Fonte das Imagens: Própria. 

 

Desde a passagem pela Cordoama que esta temática andava adormecida, pelo que, nada como 15km a caminhar ou a pedalar até ao Cabo de São Vicente (desde a Cordoama), sem esquecer a praia da Ponta Ruiva. Também é possível seguir por estrada, via Vila do Bispo (EM1265 e EN268).

 

O Cabo de São Vicente, além de uma viagem ao nosso passado de navegadores e conquistadores, é também o local onde podemos apreciar um dos melhores crepúsculos da Europa ou despedirmo-nos do farol guardião em direcção ao atlântico profundo. Em tempos, no século IV, foi também um local de peregrinação dos cristãos que visitavam aqui o túmulo de São Vicente (até ser destruído pelos muçulmanos no século XII), daí o nome Cabo de São Vicente. Aliás, S. Vicente e a sua lenda terão grande impacte também na história de Lisboa e justificam o porquê dos Corvos no brasão da cidade, mas isso será outra matéria.

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Convido a que nos abriguemos na fortaleza, não a original mandada erguer por D. João III e terminada por D. Sebastião, mas sim naquela de planta poligonal que foi erguida por D. Filipe III de Espanha, após a anterior ter sido arrasada pelo célebre Francis Drake, um dos mais famosos corsários ingleses que espalhou o terror também no Algarve. Com poucos turistas ao fim do dia, é algo único, sobretudo para aqueles que já trazem o cansaço e o encanto de um passeio pela Costa Vicentina ou pelo Barlavento Algarvio.

 

Uma das atracções deste local, além do sem número de visitantes que aqui acorre em épocas mais turísticas, é sem dúvida a presença de várias aves. Destaco algumas, nomeadamente a Cagarra (calonectris diomedea), o Ganso-Patola (Morus Bassanus) que infelizmente ainda não consegui apreciar,  e a minha paixão, nomeadamente algumas aves de rapina como o Bútio-Vespeiro (pernis apivorus), a Águia-Calçada (aquila pennata), a Águia Cobreira (circaetus gallicus) e os Grifos (gyps fulvus). Devido a número de pessoas que por ali deambulam, nem sempre é fácil observar estes reis dos céus pelo que é necessária alguma cautela a quem ousar procurar locais mais recônditos e potencialmente mais perigosos.

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Mas não é só no Cabo de São Vicente que podemos ter um óptimo final de tarde. Nada como continuar a caminhar e seguir em direcção à Praia do Beliche (ou Belixe) e apreciar daí também o espectáculo crepuscular e com os pés na água, na areia ou então abrigados na sua gruta que atrai imensos visitantes. Em época baixa, ou já com a noite a aproximar-se, é um espectáculo singular! Aproveitem com conta peso e medida e cedam à tentação da massificação... O segredo deste pôr do sol está na paz que se sente e no sentimento de isolamento.

 

Do Cabo de São Vicente a esta praia são somente 3,5km a caminhar, praticamente o mesmo que por estrada, pelo que poderão fazer uma pausa a meio e recuperar forças na Fortaleza do Beliche (ou Belixe) e olhar o promontório que já se começa a perder de braço dado com o oceano. Esta fortaleza, de origem ainda desconhecida, tem um percurso semelhante à Fortaleza de São Vicente, ou seja, também foi atacada por Francis Drake e posteriormente reconstruída por Filipe III de Espanha. Para quem aprecia arquitectura militar de defesa de costa vai apreciar este local e tentar imaginar as "batarias" a disparar rajadas de projectéis acompanhadas pelo fogo da Fortaleza de São Vicente contra as frotas de piratas e corsários. Em dias de sol parece impossível que em águas daquelas, tão duros combates se tenham travado, um pouco à semelhança do que sentimos em Barbate, Cádiz.  Neste monumento existe também uma pequena capela, a Capela de Santa Catarina, embora seja dedicada a Santo António.

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E chegados aqui, sigamos então para a praia, estendamos a toalha, tiremos uns refrescos e umas sandes da mochila e esperemos que o sol se despeça e o cheiro do mar nos traga uma das melhores experiências do mundo... E tudo isto, todo este glamour, a um preço fantástico de zero euros. E sendo que o mesmo é grátis, colaborem reduzindo a vossa pegada ecológica ao máximo.

 

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 Algumas notas:

 

 

  • Sugestões bibliográficas sobre a temática, porque aqui citamos as fontes:

Coutinho, Valdemar (1997), Castelos, fortalezas e torres da região do Algarve, Faro, Algarve em Foco Editora.

Almeida, João de (1948), Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses Volume 3, Lisboa, Edição de Autor.

 

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Fonte da Imagem: Própria 

Muito se tem falado do Turismo, mas pouco se sabe sobre a dinâmica do mesmo. Uma classe que se julga urbana vê diferentes nacionalidades a deambularem pela rua e já se considera especialista em Turismo e, como qualquer português (estou aqui neste rol) opina sobre aquilo que não sabe e porque toda a gente fala nisso ao ponto da discussão sobre turismo se centrar em Lisboa ou Porto ou numa tendência que gera likes e visualizações.

 

Quando temos um jornal generalista de grande tiragem a fazer a distinção entre turista e "viajante", colocando ambos lado-a-lado e apenas baseado na questão se um tira fotos e se o outro planeia, já temos uma falácia de monta. Quando temos "especialistas" em viagens a olhar para o turismo como um conjunto de selfies ou uma lista de locais a visitar temos também um problema, sobretudo quando a mensagem dos mesmos tem eco. Turismo não é andar à boa-vida e será um conceito ao qual voltarei.

 

Mas vejamos:

 

Turista, de um modo breve, é um conceito definido teoricamente e com mais expressão em 1937, nomeadamente no âmbito da Sociedade das Nações, e que definia o turista como o indivíduo que passa no mínimo 24 horas fora do seu país. De facto, ao longo dos anos, esta definição foi sofrendo várias alterações até ser enquandrada num conceito mais abrangente, nomeadamente o de visitante, mas já lá iremos. Deste modo, o turista é um visitante que pernoita pelo menos uma noite num alojamento colectivo ou privado no local visitado. Uma nota para o facto de já não ser colocada a questão se é ou não fora do país de origem e para a dificuldade em definir o que é propriamente "pernoitar" e alguns tipos de alojamento.

 

Deste modo, o conceito de turista é uma ramificação de um conceito mais amplo, como já referi, nomeadamente o de Visitante e cuja definição é a de um indivíduo que viaja para um local fora do seu ambiente habitual por menos de 12 meses e que não exerce uma actividade remunerada no local que visita. Ou seja, o foco aqui é temporal, nomeadamente a deslocação que não pode ser superior a 12 meses e ainda a questão remuneratória. Podemos também questionar as motivações e o conceito de "ambiente habitual", mas isso é um tema mais extenso e a ser debatido de futuro.

 

O conceito de visitante, engloba ainda um outro conceito, nomeadamente o de Visitante do Dia, até há bem pouco tempo denominado de Excursionista. O Visitante do Dia não é mais que todo e qualquer visitante que não passa uma noite num alojamento colectivo ou privado do local visitado.

 

Finalmente, para chegarmos à conclusão que um Viajante não é propriamente um turista e nem se relacionam no estudo do turismo. Neste caso, o visitante (englobando aqui os conceitos de turista e visitante do dia) faz parte de um sistema bem maior e que começa, aí sim no viajante. Contudo, um viajante pode ser alguém que se desloca por um qualquer motivo, por exemplo, um refugiado é um viajante, ou até um estudante. Licínio Cunha, considerado um dos grandes estudiosos portugueses nesta área, define viajante como “(...) toda a pessoa que viaja entre dois ou mais locais, qualquer que seja o modo ou o meio da sua deslocação” (Cunha, 2009:17). 

 

Deste modo, temos aqui um conjunto de definições que nos ajudam a entender alguns dos diferentes actores e a compreender um pouco esta realidade que já não é nova mas que actualmente (no caso português) é um tema em extenso debate.

 

 Alguma bibliografia para ajudar à compreensão do tema:

 

  • Cunha, Licínio (2009[2001]) Introdução ao Turismo. Lisboa: Editorial Verbo.
  • Cunha, Licínio (2010) A Definição e o Âmbito do Turismo: um aprofundamento necessário. ReCiL - Repositório Científico Lusófona. Acedido a 28/08/2017 no endereço: http://recil.grupolusofona.pt/bitstream/handle/10437/665/A%20Defini%C3%83%C2%A7%C3%83%C2%A3o%20e%20o%20%C3%83%E2%80%9Ambito%20do%20Turismo.pdf?sequence=1
  • http://www2.unwto.org 

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