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Granada. O Fim da Conquista...

por Robinson Kanes, em 07.06.17

 

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Fonte das Imagens: Própria 

 

Recebendo as chaves de Granada, os Reis Católicos avançaram para a cidade - embora tenham esperado que esta fosse pacificada – encontrado pelo caminho uma recepção de prisioneiros cristãos visivelmente abatidos pelo cativeiro e que acolheram os reis de Castela e Aragão em sorrisos e lágrimas. Os reis eram acompanhados por Cidi Yahye (lembram-se dele?), já com o nome cristão de Don Pedro de Granada Vanegas e com a missão de ser o responsável pelos mouros da cidade e do reino.

 

Interessante é o relato de Agápida aquando do desfile dos reis católicos, chegando mesmo a apelidar os monarcas de seres sobrenaturais. Também interessante é o mesmo relato que aponta para a ostentação do clero que quase ofuscava a dos monarcas tal o brilho dos diamantes e riquezas transportadas pelos seus membros.

 

Após D. Fernando ter agradecido a Deus na Mesquita Central, entretanto consagrada como Catedral, o cortejo seguiu até ao Alhambra entrando pela Porta da Justiça. Segundo os cronistas, Boabdil solicitou que jamais alguém entrasse pela porta (Puerta de La Alhambra) por onde este havia deixado ocomplexo pela última vez. Esta sua vontade foi respeitada. Ainda hoje esta porta não é acessível, sendo apenas um monumento comemorativo.

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Terminava assim a Conquista de Granada que, segundo Frei António Agápida, teve a mesma duração do cerco de Tróia. Terminava também o domínio dos Mouros em Espanha, 778 anos após a derrota do rei Visigodo Rodrigo nas margens do Guadalete.

 

Termina também esta aventura, pelo que subo novamente ao Alhambra e contemplo mais uma vez a “vega” de Granada, o Albaicín e toda a cidade no seu fervor, esse fervor que não se perdeu com a passagem dos séculos. Contemplo a Serra Nevada e aprecio o belíssimo complexo que é o Alhambra. Recordo os meus encontros com o Zagal, com Boabdil e com todos aqueles que me acolheram dentro daquelas muralhas. Passeio pelas salas onde o Zagal me tratou como um rei, onde partilhamos as nossas semelhanças culturais e de sangue onde, fosse hoje, talvez encontrasse alguém que pudesse ser um bom conselheiro para uma escalada de tensão entre o mundo árabe e o mundo ocidental. Talvez com a maturidade dos séculos fosse possível encontrar uma solução.

 

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Sinto agora os cheiros do Alhambra e vou descer à cidade para também prestar a minha homenagem na Catedral e na Capela Real aos Reis Católicos. Com a noite a cair passo a Calle Navas, conhecida pelos restaurantes e tabernas, mas demasiado turística, isso faz-me recuar e entrar no "La Cueva", em plena Calle Reyes Católicos. Sento-me junto aos presuntos que decoram aquele espaço e aí aprecio umas fatias desse diamante fumado acompanhado de uma Alhambra enquanto espero pela Paella. Entre o barulho infernal (tão típico e tão bom de Espanha) fico a olhar aquelas gentes e o convívio que envolve todo aquele espaço... Penso em como o sangue de dois povos corre nas veias daquele povo e daquela cidade, de como isso, ao contrário do que se apregoa, é que torna tudo mais perfeito, mais genuíno e sem dúvida mais belo.

 

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Fonte das Imagens: Própria 

 

Com os estandartes de Castela a destacarem-se no Alhambra, os reis católicos iniciaram a sua procissão em direcção a Granada. Pelo caminho encontraram Boabdil que, num acto de submissão, desceu do seu cavalo e tentou beijar as maõs aos Reis Católicos. Contudo, em sinal de respeito estes recusaram. Como sinal de reconhecimento, Isabel de Castela entregou a Boabdil o seu filho, Ahmed que estava refém das tropas castelhanas até então.

 

Boabdil era um derrotado, toda uma cultura e um povo eram derrotados, pelo que, amargamente, se virou para os soberanos de Castela entregando-lhes as chaves, tendo proferido as seguintes palavras: " estas chaves são as últimas relíquias do império árabe em Espanha. Tuas são, oh rei! As nossas conquistas, o nosso reino, a nossa pessoa! Tal é a vontade de Deus. Recebe-nos com a clemência que nos prometeste  e que de ti esperamos". 

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Recebendo a garantia por parte de Fernando de Castela, que até abriu portas para uma amizade entre ambos, Boabdil seguiu o seu caminho em direcção às Alpujarras. Na última colina, que permitia ver a cidade de Granada, as tropas de Boabdil detiveram-se e olharam pela última vez a cidade que havia sido a capital daquele extenso império. Segundo Agápida, nunca a mesma lhes tinha parecido tão bela e grandiosa. Mesmo Boabdil, após contemplar aquela imagem pela última vez, desatou num choro que fez a sua mãe,a sultana Aixa la Horra, surpreendida com a debilidade deste, interpelá-lo dizendo-lhe que "bem fazes em chorar como uma mulher, o que não soubeste defender como homem".

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 Este local, onde Boabdil chorou, ainda hoje é conhecido pelos espanhóis como "o último suspiro do morto".

 

Entretanto em Granada, como apreciador de Kafka, convido a que assistam ao contraste entre a alegria dos conquistadores espanhóis e a tristeza dos conquistados árabes. Na "La Taberna de Kafka", no Realejo,somos brindados com um carinho especial pelo anfitrião e ficamos a conhecer os vinhos espanhóis acompanhados pelas tapas granadinas que são uma autêntica referência em toda a Espanha. As de bacalhau, são uma surpresa interessante. Penso em Boabdil, mais uma vez, como sofreu e como a sua inconstância levou à queda do reino. Penso nos heróis de Castela e nos de Granada...

 

 

... Retempero forças para subir novamente ao Alhambra e assistir à entrada triunfante dos Reis Católicos naquele complexo. Provavelmente irei pela Gran Via de Colón e aproveitarei para apreciar a beleza dos edifícios enquanto chegado ao fim desta, contemplo a estátua à Rainha Isabel.

 

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O Dia da Rendição de Granada...

por Robinson Kanes, em 11.05.17

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Fonte das Imagens: Própria

 

Com a morte do lendário Muza, esta aventura começa a aproximar-se dos seus momentos finais. (Sugiro que vão ao fim do texto e "liguem" a Banda Sonora).

 

No Pátio dos Leões, em pleno Alhambra, a azáfama aumenta, sobretudo porque, temendo mais tumultos, Boabdil acelerou a entrega da cidade aos Reis Católicos.

 

A última noite da família real naquele Palácio sem igual foi de dolorosas lamentações, lamentações que se estenderam a toda a cidade enquanto dentro das muralhas se despiam as salas do complexo, se embalavam os tesouros e, no fundo, se embalavam também séculos de história, de cultura e de momentos sem igual. Era o fim do Reino de Granada.

 

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A família real abandonou a cidade antes de Boabdil, por um dos bairros menos movimentados de Granada, pois não se queria colocar esta à mercê do regozijo do inimigo e dos mercadores. Relatos da época sugerem que as esposas de Boabdil choravam e lamentavam aquela sorte e que só a mãe deste, a sultana Ayxa la Horra, não exteriorizou qualquer mágoa e se manteve firme, apesar do semblante carregado. As crónicas da época relatam o momento da saída, com as sentinelas da cidade a abrirem portas, enquanto derramavam lágrimas pela sorte que havia calhado a estas e à família real que agora se dirijia em direcção à nova morada nas Alpujarras.

 

No dia da rendição da cidade, Boabdil encarregou Yusuf Aben Comixa do protocolo da entrega do Alhambra. Segundo Irving, baseado no relato de Agápida, Boabdil ainda se dirigiu ao Comandante do Destacamento de Castela e Leão e proferiu as seguintes palavras: "ide senhor e tomai posse daquelas fortalezas que Alá outorgou aos vossos poderosos Soberanos, como castigo pelos nossos pecados". Após estas palavras abandonou a cidade.

 

Do lado de Castela, o regozijo aumentou aquando do desfraldar das bandeiras na Torre da Vela, em pleno Alhambra. O estandarte daquela cruzada e também o estandarte com a cruz de Santiago tomavam agora conta do Alhambra e consequentemente de toda a cidade, de todo o reino.

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Deixando a nossa cerveja Alhambra e umas tapas de pão com presunto ibérico na Plaza San Miguel Bajo, podemos continuar a nossa caminhada pela Calle Santa Isabel la Real. Aí paramos para olhar Mosteiro com o mesmo nome, seguindo depois para a Plaza de S.Nicolás. É aí que encontramos o Miradouro com o mesmo nome... O miradouro que poderá relembrar-nos a agonia, a tristeza, a impotência e a dor que terão sentido os habitantes do Albaicín ao verem ser retirados os seus estandartes do Palácio de Alhambra. Nas nossas costas, a Igreja de S. Salvador em plena Plaza de la Santíssima Trinidad e do nosso lado esquerdo, ladeando o Alhambra o Sacromonte.

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Sentamo-nos a admirar a paisagem e a relembrar esses tempos... Sentamo-nos com os Palácios Nazaríes e a Serra Nevada em frente e ouvimos uma guitarra espanhola a percorrer os acordes dos Concertos de Aranjuez, dos Recuerdos de Alhambra ou, com sorte, a acompanhar um Andaluz a beber as letras de Agustin Lara e do seu Granada... Granada, tierra soñada por mi, mi cantar se vuelve gitano cuando es para ti, mi cantar hecho de fantasia, mi cantar, flor de melancolia que you te vengo a dar...

 

 

 

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A História de Muza e os Tumultos em Granada

por Robinson Kanes, em 02.05.17

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 Fonte das Imagens: Própria

 

Com a irrevogável decisão da rendição, Muza, perante o conselho, assumiu que jamais seria condescendente com tal decisão. Admitiu a severidade dos reis católicos e jamais consentiu entregar a sua fé e o seu reino a tais soberanos. As suas palavras - "não temamos a morte; muito pior serão os saques, a profanação das nossas mesquitas, a ruina dos nossos lares e a violação das nossas mulheres e filhas" - pouco eco fizeram. Abandonou o conselho atravessando o Pátio dos Leões, sem sequer dirigir palavra aos que acompanhavam. Armou-se dos pés à cabeça, escolheu o seu melhor cavalo e a sua melhor armadura e saiu da cidade pela Porta de Elvira sem nunca mais se saber do mesmo. 

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Contudo, esta é a versão dos historiadores árabes, pois, segundo Frei António Agápida, nessa mesma tarde, um grupo de cavaleiros andaluzes, que cavalgava nas margens do Genil, afirmou ter visto um cavaleiro mouro, completamente armado, com a viseira fechada montando um formoso cavalo e com uma lança em riste a correr na direcção destes. De início, e dada a força dos andaluzes, estes nunca pensaram que esse cavaleiro os atacasse, contudo, com o desenvolver da passada, cedo perceberam que o risco aumentava, pelo que se deram a conhecer e lançaram avisos de que não hesitariam em atacar.

 

O cavaleiro, esse, não acatou nenhum dos avisos e com a sua lança matou de imediato um dos cavaleiros. Puxando da sua cimitarra, continuou a espalhar o pânico e a matar outros cavaleiros, ignorando algumas feridas que já lhe atravessavam o corpo. Muza conseguiu matar metade da guarnição de cavaleiros andaluzes até o seu cavalo ter caído por terra ao ser atingido por uma lança. 

 

Já com Muza no chão, e admirados por tal valentia, os cavaleiros tentaram poupar a vida deste. De joelhos, com

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uma adaga de Fez, Muza não desistiu de lutar. Vendo, contudo, que não teria hipóteses nem forças para ir mais além e, não querendo cair prisioneiro dos cristãos, atirou-se ao rio e afundou-se com o peso da sua armadura sendo arrastado pelas águas do Genil. Mais uma vez, Muza vinha mostrar de que sangue era feito e fazer-nos compreender que, se mais cedo tivesse entrado na guerra, talvez o desfecho pudesse ser diferente.

 

Entretanto em Granada, no dia 25 de Novembro de 1491 (aproximadamente um ano depois seria descoberto o continente americano por Cristóvão Colombo), era assinado o tratado de rendição. Todavia, nos primeiros dias de Dezembro, um motim levou a que muitos se armassem e estivessem dispostos a lutar pela defesa do reino, ameaçando Boabdil que se refugiou no Alhambra, qual prisioneiro do seu próprio povo.

 

Só a sua saída, dizendo ao povo que era o máximo responsável pela situação do reino, exprimindo o seu arrependimento face à insurgência contra o pai e assumindo o pesado fardo que Alá lhe dera fez acalmar os seus súbditos. Reconheceu que assinara a rendição para salvar o seu povo da fome e da guerra e que agora iria abandonar a cidade e caminhar em direcção ao seu exílio.

 

Às portas da cidade os Reis Católicos aguardavam o dia para entrarem naquela majestosa cidade. O Alhambra esperava por estes soberanos que teriam de lidar com o temperamento e sagacidade dos habitantes da cidade e sobretudo do Albaícin.

 

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Ainda hoje, as ruas deste bairro albergam uma verdadeira atmosfera árabe, de calor, de vida e de recantos únicos onde conseguimos imaginar as discussões daqueles que desejavam a rendição face aos que queriam dar a vida pela cidade. Podemos voltar atrás e seguir Boabdil pelas ruelas procurando encontrar seguidores para a sua intentona contra o pai e contra o tio. Também podemos entrar pelo Noroeste, pela Plaza del Triunfo, atravessando a Puerta de Elvira, seguindo o Carril de la Lona, recuperando o fôlego no Mirador com o mesmo nome e com uma vista para o centro da cidade. Subindo mais um pouco, quiçá entre umas tapas e uma cerveja Alhambra possamos encontrar, na Plaza San Miguel Bajo, Boabdil a confraternizar com o seu povo após uma visita ao Palácio de Dar-al-Horra.

 

A paragem nessa praça, com gente simpática, vai permitir, não só sentir a força e o espírito de Granada, mas também refrescar o corpo para a subida até S. Nicolás, o miradouro de excelência para o Alhambra e para a Serra Nevada.

 

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Com o acampamento católico a sofrer com as chamas, Boabdil e Muza não perderam tempo e aproveitaram o mesmo para, logo no dia seguinte, atacar os cristãos.

Ao que se sabe combateu-se corpo-a-corpo em cada pedaço da vega de Granada. Não houve um jardim, uma horta, a sombra de uma árvore, um pedaço de chão que não tivesse absorvido o sangue daqueles bravos guerreiros. Segundo Frey António Agápida, até um embaixador francês que se encontrava do lado católico ficou pasmado e teceu um rasgado elogio aos guerreiros mouros que combatiam como ninguém depois de 10 anos a somarem derrotas atrás de derrotas e a perderem soldados e reis.

 

Contudo, do lado de Castela e Aragão a artilharia e o número de homens disponíveis era francamente superior e a batalha acabou com o recuo de Boabdil (que quase fora capturado) e Muza para dentro das muralhas da cidade. Em resposta, o rei católico decidiu erguer uma cidade, mesmo ali em frente a Granada: Santa Fé.

 

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Esta afronta de D. Fernando II, aliada ao corte das vias de abastecimento à cidade (onde o Marquês de Cádiz mais uma vez mostrou a sua valentia) e à ausência de apoio por parte dos reis berberes e do sultão do Egipto (a ausência de um porto onde estes pudessem atracar os seus reforços não permitia tal apoio) levou Boabdil a convocar um conselho. Aí, reuniu os melhores guerreiros, os melhores filósofos e políticos da cidade e, perante as condições de miséria e estado das tropas, todos se decidiram pela rendição! Todos... excepto Muza! Muza, mostrou o guerreiro que era, e tivesse entrado mais cedo na guerra, talvez as coisas tivessem sido diferentes! Exortou ao levantamento, à força, assumiu que todos os seus soldados estariam preparados, levantou o ânimo, admitiu recrutar e distribuir armas por cada habitante da cidade capaz de lutar. Muza colocou-se como sendo o responsável por guiar todos os esquadrões, de lhes indicar todos os caminhos, de levar todos à vitória ou à morte, mas de jamais entregar a cidade e o reino!

 

IMG_6564.jpgSegundo os relatos da época, perante este discurso, que não venceu o desespero dos sábios e dos governantes de Granada, Boabdil comoveu-se e caiu num silêncio que só terminou com a ordem de rendição. 

 

Foi enviado o Governador da cidade, Abulcasim Abdel Melic, que negociou os termos da rendição. Estes termo abrangiam a entrega da cidade, a libertação de presos católicos, os direitos  dos habitantes de Granada, a vassalagem perante a coroa de Castela e Aragão e a concessão de terras para os dois lados. 

 

Aquando do seu regresso e da apresentação das condições ao soberano de Granada, mais uma vez Muza, mostrou de que sangue era feito e, enquanto todos os outros desesperavam em lágrimas, este exclamou:

"deixemo-nos senhores de inúteis lamentações, próprias de mulheres e crianças; somos homens e tenhamos coração, não para verter tristes lágrimas mas sim o nosso sangue. Observo que o ânimo de todos está de rastos, que é impossível salvar o reino. Todavia, resta uma alternativa aos espíritos nobres: uma gloriosa morte! Sucumbamos defendendo a nossa liberdade e vingando os desastres cometidos contra nós! A nossa terra-mãe receberá no seu solo os seus filhos, livres das correntes e humilhações dos conquistadores e se alguém não encontrar sepultura onde enterrar os seus restos mortais, não irá carecer de um céu que os cubra. Alá não permitirá que se diga que os nobres de Granada tiveram medo de morrer na defesa do reino!"

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 Estas palavras não surtiram efeito, pois para Boabdil e para os nobres de Granada o destino do reino estava escrito no livro desde que o primeiro nascera, contudo mostraram a raça de um homem como Muza e de como este era mais fiel ao reino que todos os nobres!

 

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 Fonte das Imagens: Própria

 

É difícil ficar indiferente a Granada e a Rainha Católica não foi excepção. D. Isabel, apaixonada pela cidade, decidiu com a sua corte dirigir-se até Zubia para observar Granada com outros olhos, especialmente El Alhambra.

 

Contudo, ir até Zubia era um enorme risco, aliás, o bravo Marquês de Cádiz preveniu a rainha para esse facto, mas a mesma decidiu não ser demovida do seu capricho.

 

O resultado não poderia ter sido pior, temendo um ataque, a cavalaria moura saiu da cidade e partiu em direcção à guarnição católica. Apesar dos pedidos da rainha para que nenhum cavaleiro respondesse ao ataque, o combate e posterior evacuação do séquito foi inevitável. D. Isabel ainda tentou manter-se junto das tropas, mas foi obrigada a recuar quando à cabeça da cavalaria granadina se encontrava o grande Tarfe, o autor da provocação no acampamento cristão.

 

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Esta escaramuça saldou-se com um sem número de mortos e feridos de ambos os lados e só um reforço de cavalaria católica permitiu que ocorresse o pior. As perdas foram imensas, sobretudo de grandes cavaleiros da coroa de Castela. Perante esta tragédia, e com algum sentimento de culpa, a rainha, após a guerra, ordenou a construção de um Mosteiro na aldeia de Zubia e que ainda hoje aí se encontra.

 

No seguimento deste episódio, também o rei Fernando foi “castigado” pelo seu empreendimento de destruir o que ainda restasse de pastagens ou qualquer verdura nas imediações de Granada, como forma de vingar o ataque mouro. Na verdade, por acidente, a tenda da rainha foi atingida por um incêndio que se espalhou por todo o acampamento e os mouros só não atacaram porque pensaram tratar-se de uma artimanha por parte dos exércitos de Castela e Aragão.

 

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Granada, apesar de toda a destruição continuava bela com as suas ruas repletas de gente, com o bulício típico de uma grande cidade muçulmana. Boabdil, em pleno Alhambra, olhava com atenção todos os desenvolvimentos e finalmente começara a ganhar coragem para a grande batalha. Se há local onde os cobardes deixam de o ser e se tornam fortes guerreiros é no seu próprio lar. Ao apreciar das varandas daquele complexo toda a cidade e as suas gentes, terá encontrado aí a justificação para empreender um acto de valentia.

 

Para Boabdil seria impensável, mais uma vez, abandonar aquele fervilhar de vida, aquele lugar encantado que era o Albaícin e que tantas e tantas vezes o acolheu e defendeu contra as investidas do Zagal.

 

Ainda hoje, o Albaícin é um autêntico bairro mouro, com toda a sua arquitectura e vida a transportarem-nos para aqueles tempos. Boabdil ter-se-á recordado das épocas em que teve de fugir por aquelas apertadas ruas e por becos sem saída em que fora confrontado com as patrulhas do Zagal. Agora, já não era tempo de fugir!

 

Para os recém-chegados a esta aventura:

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Málaga: o Desastre e a Capitulação.

por Robinson Kanes, em 21.02.17

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A luta por Málaga continuava e o Castelo de Gibralfaro, apesar dos ataques de artilharia durante dias a fio, resistia sem mostrar fragilidades, tal era a sua imponência e estrutura.

 

Perante tamanhas dificuldades, a estratégia dos cristãos passou por uma conquista torre-a-torre, aproveitando eventuais vulnerabilidades nas estruturas das mesmas. O primeiro a conseguir foi o Conde de Cifuentes, contudo, apesar de ter tomado uma das torres rapidamente, foi alvo de um contra-ataque que matou muitos dos seus soldados e acabou com a demolição da torre pelos mouros. Estas batalhas, apesar dos mouros acabarem fechados nas muralhas da cidade, levaram a algum desânimo nos exércitos de Fernando II e a um sem número de mortos, tal o avanço, quase milimétrico, do exército. Foi necessária a deslocação da rainha e do seu séquito para levantar a moral das tropas e mostrar aos mouros que as hostilidades iriam continuar.

 

A batalha de Málaga, depois do desastre nas montanhas da mesma região, acabaria, talvez, por ser a mais sangrenta de todas. A fome assolava os habitantes da cidade que se viam obrigados a matar os cavalos (fundamentais para a guerra). As batalhas eram diárias, utilizavam-se minas, construíam-se subterrâneos que levavam a encontros bélicos debaixo de terra, cada palmo de terreno era disputado à custa de rios de sangue.

 

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Fica na memória, um assalto das tropas mouras ao acampamento cristão e que, acabou com milhares de mortos de um lado e de outro. Esta ocorrência levou os cristãos a reconhecer que o seu acampamento estava demasiado próximo da cidade e consequentemente mais vulnerável perante futuros ataques. Fica também nos registos, o envio de tropas, por parte do Zagal, em Guadix, para apoiar el Zegri em Málaga, tropas que foram reprimidas por... Boabdil (em Granada) que assim, continuou a atraiçoar o seu povo e poderá ter contribuído para o fim das esperanças dos mouros de Málaga.

 

El Zegri, todavia, continuava impassível, mesmo com o seu povo a passar fome e a morrer envenenado, pois tudo servia para comer - até peles tostadas ou comidas putrefactas os mouros consumiam. Este apenas escutava uma espécie de profeta e ignorava todos os seus conselheiros. No entanto, o fim das hostilidades acabou com o ataque de el Zegri ao acampamento cristão, tendo o mesmo sido reprimido com tal força que, ao chegar derrotado à cidade, ouviu dos seus habitantes, pedidos para que matasse os filhos destes pois os gritos de fome e de dor já se haviam tornado insuportáveis.

 

El Zegri e Málaga viriam a capitular com o apoio de um comerciante, Alí Dordux, que seria o emissário mouro perante os reisIMG_5836.jpg católicos, embora sempre contra a vontade do primeiro, que assumiu ter capitulado apenas por falta de força bélica.

 

No rescaldo - estranhamente exaltado pelo clérigo Frei Agápida - el Zegri foi preso, os seus Gomerez (Gomaras) foram enviados para Roma como prenda para o Papa Inocêncio III, muitos habitantes foram utilizados como moeda de troca e outros ainda foram vendidos como escravos ou libertados.

 

No final, a questão económica estava bem presente, quer para a coroa, quer para o clero que a acompanhava em toda esta obra que não compreendia, somente, o espalhar da fé e transformar a Mesquita de Málaga numa Catedral.

 

Málaga continua herdeira desses tempos, como já havia referido num outro artigo. As palmeiras, as grandes avenidas e jardins, as pessoas, as construções e o vivir malageño disso são exemplo. Cruzar Málaga ainda é sentir aqueles tempos e... parar numa loja de especiarias (especialmente uma pequena loja familiar no encontro da Avenida Comandante Benitez com a Calle Linaje) ou no "Mercado das Atarazanas" (com uma arquitectura árabe). Em Málaga ainda é possível sentir o cheiro do Norte de África que nos é trazido pelos ventos até àquele ponto da Europa... seja nos seus mercados, seja nas suas ruas ou somente entre umas tapas.

 

Fonte das Imagens: Própria

 

Para quem só agora chegou...

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Málaga: O Inicio das Hostilidades.

por Robinson Kanes, em 14.02.17

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A Guerra continuava... enquanto os cristãos continuavam a aumentar o seu território com as conquistas de Moclín, Illora, Cambil, Albahar e a forte Veléz-Málaga - onde o Zagal, por pouco, não surpreendeu o Rei Fernando - e outras tantas praças, os mouros debatiam-se internamente pela luta de poder entre o Zagal e Boabdil. Boabdil era o filho de Muley Hacén e que, tinha sobre si, a sina de vir a ser o último rei de Granada. Aliás, foi em Almeria, que o Zagal, quase surpreendeu este último, ainda fiel à coroa de castela.

 

No entanto, um dos episódios mais marcantes da Reconquista deu-se em Málaga. Depois do desastre das montanhas, esta estratégica e riquíssima cidade tornou-se o alvo do assédio cristão. Málaga era um cidade fortemente comercial e quem tinha como alcaíde? Hamet el Zegrí, que contava com a sua tropa de elite, os Gomerez (Gomaras em português). Lembram-se de Ronda?

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 Hamet el Zegri governava a cidade deste o Castelo de Gibralfaro, o pouco que ainda resta na cidade como testemunho desses tempos. Foi daí que viria a perceber que o Zagal não iria sair de Granada com receio de perder o trono e, foi daí também, que resistiu aos vários assédios dos emissários dos reis católicos para que entregasse a cidade. Neste episódio, o Marquês de Cádiz foi o grande impulsionador das negociações por parte de Castela.

 

Na verdade, el Zegri era um lutador fiel à sua cultura e religião e não cedeu um único passo, ou não fosse Málaga uma das cidades mais bem apetrechadas militarmente. El Zegri era verdadeiramente leal ao seu reino, como poucos, sobretudo em épocas de disputa de poder.

 

Perante as recusas do alcaíde mouro, Fernando II saiu de Antequera e percorreu os vales e montanhas que o separavam de Málaga. Além da forte Artilharia pesada, o rei católico contava agora com apoio por mar, com vários navios que iriam garantir o abastecimento e cercar a cidade, além de, inibirem qualquer apoio muçulmano vindo do Norte de África. Por terra, o acesso a Málaga também não se avizinhava fácil e, atravessar todos aqueles vales e montanhas de Antequera até Málaga foi um dos maiores desafios do exército real.

 

A primeira escaramuça viria a ter lugar quando, el Zegri ao vislumbrar a proximidade do inimigo, fez sair três batalhões que destruíram tudo o que encontraram ao redor da cidade e se envolveram em combate directo com as forças de Castela... as mesmas que viriam a conquistar posições estratégicas no cume das montanhas. Notabilizaram-se os reforços galegos nesta conquista inicial, pois enfrentaram os mouros - com o apoio de Don Hurtado de Mendonza e Garcilazo de la Vega - num terreno extremamente declivoso e difícil. As baixas foram muitas, mas a proeza e coragem do porta estandarte católico, Luis Macedo, foi determinante para a vitória, na medida em que, atravessou sozinho as linhas do inimigo e colocou as armas de castela no topo da montanha.IMG_5830.JPG

 

Málaga era uma cidade airosa, limpa e bela. O relato dos jardins, das suas elegantes palmeiras e até das suas gentes ainda hoje é actual. De facto, os testemunhos são poucos, mas os caminhos até Málaga, sobretudo desde Comares ou Antequera, ainda fazem a delícia dos apaixonados por Andaluzia qu,e procuram chegar à cidade e respirar o ar marítimo numa qualquer sombra com vista privilegiada para o Mediterrâneo.

 

Málaga é, ainda hoje, uma das cidades mais airosas e mais luminosas de Espanha, uma cidade que ainda transmite os cheiros que chegam do Norte de África, mesmo ali à frente. A cultura, tão amada por mouros e católicos é hoje uma das mais-valias da cidade, com um sem número de museus interessantíssimos, ou não contasse com delegações do Hermitage, do Pompidou e do Carmen Thyssen. Mas, a conquista de Málaga, que viria mais tarde a assistir ao nascimento de Picasso, seria dura e sangrenta. Lá voltaremos, pois temos de estar bem protegidos na nossa armadura para podermos ter uma vista privilegiada do Gibralfaro e das duras batalhas que aí se disputaram.

 

Voltarei na próxima segunda-feira... pelo que vos deixo a apreciar o encontro do ar marítimo com o ar da montanha...

 

Fonte das Imagens: Própria.

 

Para os que só agoram chegaram com os seus exércitos:

 

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Córdoba: O Quartel General Cristão.

por Robinson Kanes, em 09.02.17

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Com o centro das operações em Antequera e também em Córdoba, os cristão, sob o comando dos Reis Católicos e com o auxílio de tantos outros cavaleiros, especialmente o Marquês de Cádiz, continuavam a semear o pânico em território Mouro.

 

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Foi de Antequera que, em 1484 (já os portugueses andavam por África há muito), saiu uma enorme força com vista à conquista de territórios mouros. A curiosidade assenta no facto de que , nesta campanha de 40 dias, a rainha Católica ordenou a criação de uma espécie de hospital de campanha que ficou conhecido como “Hospital de la Reina”. Esta fora a primeira vez que se levara “camas” para a frente de batalha para ajudar os feridos... uma tremenda inovação. No final, esta incursão acabaria por ser um preparativo para a tomada de Ronda, à qual já fiz uma pequena descrição.

 

Mas se Antequera era uma espécie de posto de comando avançado, Córdoba era o quartel-general. Em Córdoba, desfilavam os cavaleiros faustosamente ornamentados, era o local onde se encontravam os reis católicos (embora Fernando II sempre estivesse presente nas operações) e no fundo, onde a mais alta elite da cavalaria, corte e Igreja  se pavoneava. Foi em Córdoba, também, que se vieram juntar os cavaleiros ingleses que ajudariam na tomada de Málaga, comandados por Lord Scales, Conde de Rivers e irmão da rainha de Inglaterra, mulher de Henrique VII.

 

Se nos lembrarmos que Córdoba já fora entregue pelos mouros em 1236, será interessante assistir a esta como palco dos planos para a conquista de Granada. Será interessante esperar pela passagem dos cavaleiros cristãos pela fabulosa ponte romana através da Puerta del Puente (Puerta de Algeciras durante a Reconquista), em direcção a terras mouras, e contemplar os rostos que celebram garra mas também escondem temor pelo que se avizinha.

 

Córdoba conserva tudo o que é Árabe e é um verdadeiro fascínio para os olhos... as muralhas, o Alcazár (ainda descendente da ocupação romana), as estreitas ruas e os próprios habitantes da cidade que, apesar de espanhóis, ainda hoje, conservam o sorriso e muito do comportamento que podemos encontrar nos povos árabes.

 

IMG_4277.jpgConfesso que gosto de cidades, vilas ou aldeias, onde o “mix” de culturas é grande. À cultura árabe, visigoda, múdejar e romana, em Córdoba, junta-se também a judaica (a sinagoga é a única de Andaluzia e a terceira mais bem conservada de Espanha).

 

Gente boa a de Córdoba... foi lá que fiquei “a conhecer” Ronda e tive uma verdadeira lição de História de Andaluzia. Foi com aquele cordovês, de quem já falei num artigo anterior sobre Ronda, que tive oportunidade de muito aprender. De ser estimulado a decorar todas as províncias de Espanha e, sobretudo, de admirar a Catedral (permitam-me os católicos, mas será sempre uma Mesquita). Usufruir de mais de uma hora de partilha e conversa no pátio com laranjeiras que se encontra em frente à fachada é aglo que nunca esquecerei.

 

A paixão dos mouros por extensos jardins e árvores de fruto, remete-nos para a época em que naquele pátio desfilavam belas mouriscas e os turbantes se amontoavam para as orações. Aliás, Córdoba é conhecida pelos seus pátios e pelo festival que aí tem lugar. Córdoba, capital do Califado Muçulmano que governou uma grande parte da Península Ibérica e que, até ao século X, foi a maior cidade do Mundo... quem diria, também, que ainda sob domínio de Roma, aqui havia nascido Séneca! Também foi aqui que nasceu Averroes (grande filósofo muçulmano ou não estivesse ele também representado na Escola de Atenas de Rafael).

 

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Em Córdoba é fácil ser um membro da plebe que tenta escapar ao desfile dos cavaleiros e infantes que preparam as suas armas para uma nova etapa da guerra. Facilmente vemos a Rainha Católica a chegar com a sua guarda e com os seus conselheiros para a celebração da eucarística naquela Catedral, que por mais que tente esconder, será sempre uma Mesquita e onde os seus arcos – em contraste com o altar e o coro - são uma verdadeira demonstração de que todas as culturas podem conviver, independentemente das diferenças culturais, religiosas, sociais e até políticas.

 

Comamos um torrão acabado de fazer num pote de ferro e, entre os cavalos arreados e luxuosamente ornamentados, esperemos o cortejo real... que toquem os sinos que ecoarão pelos vales de Marchena, passando por Carmona até se encontrarem com os seus semelhantes da Giralda em Sevilha, ou então, em sentido contrário... com os sinos da Catedral de Jaén. 

 

Outras peripécias da Crónica da "Conquista de Granada":

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