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Fonte das Imagens: Própria. 

 

Depois do pôr do sol na Praia do Beliche existe também, a cerca de 4km, um local onde um outro pôr do sol nos confronta com a imensidão do Universo. Um pôr do sol forte e onde nos sentimos aquele pequeno grão de areia perdido entre milhões de galáxias. Onde reconhecemos, independente do nosso poder que somos aquele pequeno átomo.

 

Estamos em Sagres, ou melhor, na fortaleza que tem o mesmo nome. Localizada na Ponta de Sagres, também denominada de Promontório Sagrado (Promunturium Sacrum), este local vale sobretudo pelo seu entorno natural, pelas vistas únicas e pela voz do mar que nos invade por debaixo da rocha, ora uma vez suave ora outra vez mais forte e agressiva. A prova de riqueza natural e patrimonial está patente na classificação como Monumento Nacional, Zona Especial de Protecção (ZEP), Rede Natura 2000 e ainda como fazendo parte do Parque Natural da Costa Vicentina e Sudoeste Alentejano. Acresce ainda, o facto do Promontório ser Marca do Património Europeu (MPE), distição da União Europeia que visa promover sítios que simbolizam a integração, os ideais e a sua história. 

 

Depois de algumas horas na Praia do Tonel, podemos guardar o fim do dia para seguir as passadas do Infante D. Henrique e gritar ao oceano que se prepare para enfrentar as nossas caravelas em busca de novos mundos. Podemos também apreciar a enseada da Mareta e o Cabo de São Vicente que, ali tão perto, rivalizam no protagonismo com o promontório.

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O que fascina neste local é sobretudo a imensidão e, mesmo desconhecendo a história, muito bem resumida no website do Promontório, é impossível ficar indiferente. Uns falam do seu misticismo, outros falam do contacto com a natureza, eu falaria de uma sensação estranha; talvez da sensação de estarmos numa zona de mudança, numa área em que um sem número de forças naturais terrestres confluem e às quais o nosso corpo e alma não ficam indiferentes. Se quiserem uma banda sonora, nada como entrar na "Câmara Sonora Activada pelo Mar - Voz do Mar" do arquitecto, pintor e escultor Pancho Guedes. Ao início parece-nos mais uma daquelas obras de arte contemporânea sem qualquer sentido, mas só entrando podemos apreciar a magia oferecida pelo autor.

 

Não poderemos esquecer as aves, ou não fosse esta uma zona de rota migratória, sobretudo das aves que viajam de e para o continente africano. Como fanático das aves de rapina, não poderia deixar de mencionar o Grifo (Gyps fulvus), o Milhafre-preto (Milvus migrans), a Águia-cobreira (Circaetus gallicus) e o suspeito do costume: o Falcão-peregrino (Falco peregrinus). A par da área circundante ao Cabo de São Vicente é comum ver estes habitantes a dominar os céus. Sobre isso falei também aqui aquando de um artigo dedicado ao Cabo de São Vicente e à Praia e Fortaleza do Beliche. Ao longo do Promontório existe também informação com as diferentes espécies de aves e de flora que se pode observar.

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Em relação à fortaleza propriamente dita, é uma construção abaluartada com um portal neoclássico. Aí, é também possível visitar os vestígios da "Vila do Infante" (Infante D. Henrique, que faleceria aqui em 1460) anteriores às muralhas setecentistas. Uma nota também para a torre-cisterna, a "rosa-dos-ventos", uma muralha corta-ventos, os restos das antigas habitações e quartéis e a antiga paróquia de Nossa Senhora da Graça. Uma nota particular para as várias intervenções mal sucedidas ou que nem chegaram a sair do papel que percorreram todo o século XX e que actualmente se tentam colmatar com novas intervenções que garantam a autenticidade do espaço.

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A já mencionada "rosa-dos-ventos", é uma das grandes atracções da fortaleza, mas também aquela pela qual muitos passam ao lado. De facto, ainda ninguém conseguiu provar verdadeiramente a sua função, há quem aponte para um "relógio solar" e até para uma construção com carácter esotérico. Ao contrário do que se pensou, durante muitos anos, este espaço não existiria na época do Infante D. Henrique, aliás, mesmo a existência de uma Escola (a "Escola de Sagres") é algo que tem vindo a ser afastado. Já Ayres de Sá afastava essa hipótese dizendo que, a existir, um empreendimento de tal envergadura não poderia ter passado ao lado dos historiadores e cronistas da época.

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Com história ou sem história, com mistérios ou sem eles, de facto estamos perante um lugar único, onde diferentes emoções nos afloram e de onde, com toda a certeza, poderemos sair com a ideia de que estivemos num pequeno canto do mundo; onde realidade humana e natural convivem de braço dado com uma aura indecifrável mas contagiante. Quem sabe, sejamos intrusos no encontro do calor do Levante com a frieza do Oceano.

IMG_3499.jpgAlgumas notas:

 

  1. Como continuamos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina não deixem de consultar e levar convosco o Código de Conduta e Boas Práticas.
  2. Sugestões bibliográficas sobre a temática:
  • Almeida, João de (1948), Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses Volume 3, Lisboa, Edição de Autor.
  • Albuquerque, Luís de (1971), Escola de Sagres, Dicionário de História de Portugal. Dir. de Joel Serrão, Vol. III, Lisboa, Iniciativas Editoriais.
  • Coutinho, Valdemar (1997), Castelos, fortalezas e torres da região do Algarve, Faro, Algarve em Foco Editora. 
  • Guedes, Livio da Costa (1988), Aspectos do reino do Algarve nos séculos XVI e XVII: a descrição de Alexandre Massaii (1621), Lisboa, Arquivo Histórico Militar.
  • Magalhães, Natércia (2008), Algarve - Castelos, Cercas e Fortalezas, Faro, Letras Várias.

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24 comentários

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De Maria a 08.09.2017 às 13:55

olha... agora ia até lá :)
mas diz que tenho de trabalhar :(
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De Robinson Kanes a 08.09.2017 às 14:23

Vais amanhã... Ou então ficas por mais perto e vais ao Cabo Espichel que não é menos interessante :-)
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De Maria a 08.09.2017 às 15:15

Ao Cabo Espichel vou muitas vezes. Vantagem de ser "marroquina" :)
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De Robinson Kanes a 08.09.2017 às 15:45

Adoro aquela zona... Além disso, tu adoras motas e aquela zona é "hot spot" motard... Deduzi logo :-)
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De Maria a 10.09.2017 às 20:34

Por acaso nem é pelas motos. Vou desde pequena àquela zona, muito antes de ser lugar da moda para motards. Mas é claramente "win, win"
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De Marta Elle a 08.09.2017 às 16:24

Sagres é lindíssimo e as tuas fotos ilustram-no muito bem.
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De Robinson Kanes a 08.09.2017 às 16:29

Muito obrigado!

Olhão também :-)
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De Maria Araújo a 08.09.2017 às 17:12

Estive em Sagres há anos.
Talvez o Robinson nem fosse nascido, mas teria de nascer para nos falar destas zonas e mostrar as fotos lindíssimas.
Lembro-me de admirar a beleza deste canto ao mesmo tempo que sentira algum medo perante o gigantesco local onde o mar e o vento são senhores, que na minha opinião, e de um modo sublime, destaco nas suas palavras: " talvez da sensação de estarmos numa zona de mudança, numa área em que um sem número de forças naturais terrestres confluem e às quais o nosso corpo e alma não ficam indiferentes".
Bom fim-de-semana.


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De Robinson Kanes a 08.09.2017 às 17:46

Obrigado :-)

Sabe que é daqueles sítios onde tenho essa sensação. Se pararmos um pouco e entregarmos o nosso pensamento e corpo à natureza sentimos mesmo isso :-)

Bom fim-de-semana e, mais uma vez, muito obrigado.

P.S: Espero que hoje o tempo tenha estado bom nas margens do Cávado :-)
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De Maria Araújo a 08.09.2017 às 18:58

Hoje o tempo está bom, mas não fui à praia.
Bom fim-de-semana.
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De HD a 08.09.2017 às 19:06

Este post, por si só, dava direito a um estudo aprofundado :)
Um gajo até pensa que conhece algumas zonas... mas depois de ler isto, nem por isso :s
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De Robinson Kanes a 08.09.2017 às 20:54

Que grande elogio :-)

Conhece, claro que conhece, terá é uma interpretação diferente... Depende muito do tempo que lá ficamos, das vezes que lá passamos...
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De HD a 08.09.2017 às 22:40

Muitos conseguem expressar essas vivências, mas dificilmente saberão documentá-las como tu! :)
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De Robinson Kanes a 09.09.2017 às 11:10

Outro?

Isso hoje está... Muito Obrigado, MESMO!
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De Chic'Ana a 08.09.2017 às 19:37

Sagres é muito bonito... só me recordo de lá ter ido uma vez e em criança, tenho de lá voltar! =)
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 08.09.2017 às 20:55

Agora está mudado, estão a terminar as obras como se pode ver pela fotografia da Rosa dos Ventos. Deduzo até que já estejam terminadas pois a fotografia não é assim tão recente.

Beijinhos e bom fim-de-semana, de preferência com noites bem dormidas :-)
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De P.P. a 08.09.2017 às 23:39

Muito bom post, como é hábito.
Gosto muito das fotografias.
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De Robinson Kanes a 09.09.2017 às 11:11

Muito Obrigado! :-)
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De MJ a 09.09.2017 às 23:17

Tão lindo! O post, claro!
Tens um poder descritivo muito pouco comum. Falas/descreves com palavras, mas muito, muito com o coração, com uma sensibilidade digna de nota.
Só tens um "senão" - inevitabilidades! - quase nos obrigas a ir visitar esses locais maravilhosos.
Obrigada, muito e muito.

Beijinhos.

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De Robinson Kanes a 10.09.2017 às 10:33

:-) Claro, nem pensaria noutra coisa...

Obrigado, muito obrigado..

Bem, se é inevitável, não há como fugir :-)

Beijinhos
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De MJ a 11.09.2017 às 18:46

Eh, eh, eh! Não tens que agradecer, por quem sois!😁

Só após ter comentado é que me ocorreu um pré-acidente - sim, também existem! - que tive num dos passeios que dei a Sagres. Não me recordo exactamente da zona, só sei que iamos numa Diane, aquele "bólide" super valente, e quando abri a porta ouço o grito da minha amiga: "ai a minha rica porta!" A dita, com a força do vento, só não voou por milagre.😉
A minha conversão vem daí. É que aquilo foi um verdadeiro "milagre".😊

Beijinho.
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De Robinson Kanes a 11.09.2017 às 19:41

Sempre!

Quando o vento sopra naquela zona fujam... Zonas de mar, por norma, não há como escapar. A porta sobreviveu e vocês também, pelo menos é um final feliz :-)

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