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Os Empregados de Mesa não são Sacos de Boxe!

por Robinson Kanes, em 13.10.16

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Em Portugal existem algumas elites que, em meu entender, merecem um forte agradecimento - que vai para além do reconhecimento institucional das organizações empresariais e também de falsas manobras publicitárias.

 

Refiro-me aos políticos, aos directores de grandes empresas, aquele amigo que nos arranjou um bom trabalho mesmo sem termos competências para o mesmo, e os futebolistas. Não! As personagens desta peça são outras.

 

Prefiro mencionar os empregados de mesa, os empregados de limpeza (inclui aqueles senhores que nos limpam os vidros e aquelas senhoras que aguentam a nossa falta de higiene e cuidado quando almoçamos no shopping...), as pessoas que nos limpam as ruas e os operacionais de super e hipermercados, entre outros e que dão o melhor de si para que a nossa vida seja mais agradável e sem percalços.

 

Dirão: “e? Isso qualquer um faz!”. É um facto, “então porque não faz você?”. Direi eu... eu que ainda sou do tempo (estou mesmo a envelhecer) em que cozinhar era uma tarefa pouco nobre, agora é algo só ao nível de grandes mestres.

 

Já tive oportunidade de viajar , de conhecer diferentes abordagens e perceber que, se não temos os melhores empregados de mesa do mundo e talvez o melhor atendimento ao cliente nas grandes superfícies não andamos muito longe da perfeição. Não vou nomear cidades europeias nem fora da Europa sob pena de ser injusto com muito boa gente que também dá o seu melhor além fronteiras.

 

Mas o paradoxo atinge o seu expoente máximo de... estupidez (perdoem-me o termo) quando “desancamos” aquele simpático senhor que nos serviu um saboroso café, mas por lapso lá se esqueceu da colher. No entanto, elogiamos (porque aí já é no estrangeiro) aquele antipático senhor que nos atirou um prato para cima da mesa, não se esforçou em compreender a nossa língua, não nos cumprimentou, ficou de mão estendida à espera de gratificação e ainda nos tratou com algum desprezo . Não fica bem dizer que as coisas correm mal quando estamos fora do nosso país, isso dá a impressão que a culpa até foi nossa ou que não temos uma história fascinante para contar.

 

Este reconhecimento necessita de ter a sua origem no cliente, que insiste em não reconhecer muitos destes trabalhadores. Isso pode ser até um grande passo para o reconhecimento por parte dos líderes das organizações empresariais. E não basta espalhar que temos admiração pela pessoa que trabalha muito e só aufere €530.00 por mês. Vamos lá, até a Miss Universo consegue melhor.

 

A grande maioria não é a mais bem remunerada, mas mesmo assim têm uma capacidade de sorrir e de nos envolver emocionalmente no processo de compra . E, sejamos honestos, sorrisos e um total envolvimento não é muito comum.

 

Atentemos nos indivíduos que, por vezes até auferem um vencimento superior e ocupam posições com maior destaque mas que, ao invés do título de assistente de loja ou vendedor, têm o de Account Manager, Sales Manager ou Chief Operations Officer - neste campo existem centenas de exemplos que poderia mencionar, sobretudo de supervisores e directores incapazes de resolver situações perante o cliente e que só são devidamente soluccionadas pelo colaborador da linha da frente - o soldado raso que dá o corpo às balas, utilizando aqui um termo militar.

 

Todavia, importa não esquecer que em combate ninguém dá o corpo às balas só porque se pode cometer um acto heróico. É necessária uma estratégia e, acima de tudo, estar preparado. Não entendamos os peões como mera “carne para canhão” pois estão ali, muitas vezes, verdadeiros estrategas.

 

Importa não ver estes indivíduos como sacos de boxe como muitas vezes tenho presenciado – discussões inúteis, desprezo, sobranceria e até um assustador sentimento de superioridade em relação a estes (esquecemos que são pessoas e cujo trabalho muitas vezes até é bem mais honroso que o nosso e não podemos descurar que operacionalmente fazem um esforço que muitos de nós não faríamos... ou não conseguiríamos).

 

E sim, eles estão a fazer o trabalho que lhes compete, mas também elogiamos um médico quando ele nos avalia e nos receita uns comprimidos para a nossa doença - afinal também é pago para isso a não ser que se trate de um espécie de João Semana.

 

Da próxima vez que a nossa postura seja a de estar mal com a vida, estar mal connosco próprios ou questionarmos o porquê de termos sido castigados pelos deuses tal qual Sísifo, vamos agradecer e elogiar aqueles que nos servem com um sorriso no rosto e, mesmo perante o nosso estado depressivo ou agressivo, vão servir-nos aquele fantástico Bacalhau com Natas. Aquele bacalhau que nos vai fazer tão bem depois de uma manhã em que a vontade de enfrentar um processo judicial por ter eliminado alguém da face da terra nunca esteve tão presente.

 

Os mais casmurros dirão, como o fez Ehrenreich numa visão mais individualista, que agradecer, por exemplo, pode ser algo egoísta em prol do nosso próprio bem-estar. A resposta, nesse âmbito, é simples: se o nosso bem-estar gerar o bem-estar de outrem, porque não? A força maior está naquilo que Robert Emmons defende, ou seja, que a gratidão assenta no facto de reconhecermos a nossa ligação ou até mesmo dependência em relação a alguém ou ao trabalho desse alguém.

 

Mas a senhora da limpeza hoje estava de mau humor! Soa a cliché, mas a resposta óbvia é: comportamento gera comportamento e sempre somos humanos... temos emoções. No dia em que todos esquecermos isso então já não podemos falar em Humanidade e será absolutamente necessário partir no encalço de um novo conceito.

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4 comentários

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De Sr. Solitário a 13.10.2016 às 11:56

Concordo totalmente contigo. Por vezes temos que levar com cada um!
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De Robinson Kanes a 13.10.2016 às 15:07

Obrigado pelo comentário. Efectivamente, vejo pessoas a descarregarem completamente as suas frustrações e a falta de auto-estima nestes profissionais.
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De O ultimo fecha a porta a 13.10.2016 às 21:17

É verdade o que escreves. Por vezes, algumas pessoas sentem a necessidade de "descarregar" o mau humor e frustrações nestes profissionais.
Lembrei-me que alguns emigrantes portugueses sofrem desse estigma em França: muitos franceses vêm os portugueses como os trabalhadores das obras e os que limpam os WC - fazendo o trabalho que ng quer fazer para ganhar uns trocos.
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De Robinson Kanes a 14.10.2016 às 10:21

Sim, esse estigma existe, mas infelizmente no nosso país também. Tendemos a esquecer que é a "Arte de Servir".

Efectivamente como arte perdeu um pouco do seu glamour, muitos profissionais não estão sequer habilitados para servir como manda a dita arte.

Infelizmente, também penso que padecemos um pouco daquela máxima popular: "não peças a quem pediu, não sirvas a quem serviu". Isto porque me debato com algumas circunstâncias em que vejo mesmo nos olhos das pessoas o desejo de mostrarem uma "pseudo-superioridade" sobre estes profissionais.

Ainda bem que também vai existindo quem respeito, pois para mim é uma profissão nobre e respeito-a bastante.

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