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Hugues Merle, Uma Mendiga  - Musée d'Orsay

Fonte da Imagem: Própria

 

 

O contrário da justiça é a caridade.

Vergílio Ferreira, in "Conta Corrente V"

 

Muitos portugueses começam a perceber que um dos grandes colossos deste país, a área social, apresenta paradoxos tremendos. São muitas as instituições de solidariedade, e podemos incluir associações, Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), outras Organizações Não-Governamentais (ONG), Misericórdias e outras tantas ligadas a sectores como a Igreja, mas não só. Muitos portugueses começam também a perceber que o conceito de "sem fins lucrativos" pode ser facilmente camuflado nos relatórios que muitas destas instituições apresentam.

 

A área social é uma verdadeira indústria e utilizando o ditado popular "só não vê quem não quer". Se de facto existem indivíduos e instituições que vão fazendo um excelente trabalho, uma larga maioria não o faz e, na verdade, se exercermos a nossa cidadania, mais de metade destas organizações torna-se inútil. 

 

Os recentes casos dos donativos para os incêndios e de instituições que direccionam os mesmos para outras origens que não a solidariedade repetem-se... Repetem-se e já são de longa data. Todavia, quando falamos de tratar estas instituições como empresas, nomeadamente "empresas sociais" este conceito e configuração legal provoca autênticos ataques de pânico na área. Contudo, muito do que se passa nestas organizações, não é diferente de uma organização empresarial, ou melhor não é diferente de uma organização empresarial na remuneração e acumulação de dividendos, o que não é mau se... Não utilizarmos a figura do social para camuflar um outro negócio.

 

A área social em Portugal é um colosso porque ao longo de tantos anos não procurou criar empowerment naqueles que apoia. É uma coisa muita portuguesa, devemos assumir, pois dar poder às pessoas para viverem sem o nosso apoio é o mesmo que assinar por baixo a nossa extinção e a queda do nosso poder sobre as mesmas e os portugueses adoram exercer o seu poder sobre outrem... Há quem defenda que ser solidário e ver os outros mal é uma forma de mostrar que estamos por cima -  eu não iria tão longe, mas...

 

A verdade é que assistimos ao engalanar de que são doados muitos milhões daqui e dali, mas depois não assistimos a uma clara demonstração dos resultados. Não há um controlo efectivo destes donativos (monetários e não monetários), a própria ex-Ministra da Admninistração Interna assumiu claramente essa situação com um semblante de quem se encontrava desarmada... E eu até entendo, porque ao explorarmos bem - no nosso concelho, na nossa região, no nosso país - facilmente percebemos quem é que está sempre à frente destas instituições e quais são os interesses que se movem... Além disso, experimentem também criar um projecto social sem envolver o vosso municipio ou as associações do concelho. Eu próprio já vi um projecto cair por terra porque um Técnico Superior do "social" (e como estes senhores adoram dizer que são do "social") que ficou muito zangado por não terem falado com ele primeiro para colocar também o nome, boicotou o mesmo - o conteúdo desse email foi lido à minha frente (pois era eu o promotor) pelo Vereador que tinha essa pasta, mas que não teria "poder" sobre o técnico... 

 

Acabar com esta situação não é difícil, passa por exercermos a nossa cidadania, sermos nós os produtores e os intermediários, seja individualmente, seja em pequenos grupos que nascem, fazem o seu papel e morrem assim que o objectivo está atingido, podendo até renascer caso se justifiquem necessidades futuras. Não podemos é contratar um outsourcing que não nos dá garantias nenhumas de como são aplicados os nossos donativos. Ainda esta semana, uma associação bastante conhecida, foi colocada em causa por uma pessoa que conheço e me lê, pois ao participar numa corrida, esta entregou o donativo e qualquer pessoa recolhia o mesmo, e sem direito a recibo. Quem nos pode garantir que este dinheiro vai ser bem aplicado? Quem controla esse dinheiro logo na fonte? E as desculpas da falta de meios, aqui não se aplicam! Encontramos muitas iniciativas, espectáculos, figuras públicas que até fazem espectáculos solidários (mesmo quando já não são precisos mais donativos), mas ninguém faz espectáculo com relatórios estruturados com a correcta aplicação dos fundos!

 

Também podemos defender muitas destas organizações salientando que fizeram isto e aquilo, contudo, mal seria se não tivessem feito algo, mas... E o que poderiam fazer? Temos de ser também mais exigentes com estas organizações, até porque muitas são apoiadas com dinheiro dos nossos impostos e até concorrem a fundos europeus, constituidos pelos impostos de todos os cidadãos da União!

 

Neste contexto, são também muitas as organizações empresariais que deixam de trabalhar com estas instituições. Cada vez mais a Responsabilidade Social Corporativa tem de passar por acções internas e na sociedade mas com uma intervenção directa das próprias empresas - salvo algumas excepções, o delegar desse dever em outrem, pode não só constituir um prejuízo para as mesmas mas também, no longo prazo, criar um sentimento de desconfiança e que prejudicará sempre aqueles que efectivamente necessitam e a própria imagem das marcas no mercado.

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34 comentários

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De Maria a 24.10.2017 às 09:59

"autênticos ataques de pânico na área"... pudera.
alguém deixaria de encher os bolsos...
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De Robinson Kanes a 24.10.2017 às 10:06

A empresa social obriga a um maior controlo, além disso obriga também a uma abertura de mentalidades, a um cálculo de sustentabilidade que ainda não é algo tido em conta nestas instituições...

Na verdade, muitas destas instituições já agem sob esse pressuposto, só que com base em leis antigas e carregadas de lacunas face aos tempos actuais.

Todavia, assumir que podemos ter uma empresa lucrativa mas que investe em projectos sociais continua a ser um terror para muitos... Além do controlo, sempre que lucros existissem, muitas dessas instituições perderiam a sua principal bandeira, que é sempre o discurso de que não existe dinheiro...

Uma outra questão, seria a criação de um mercado, e todos sabemos que o "mercado social" não gosta de concorrência.
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De Maria a 24.10.2017 às 14:00

Certo
Certo,
Certo
Certissimo!
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De Robinson Kanes a 24.10.2017 às 14:05

Existem outras visões para esta área, esta é apenas a minha :-)

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De Maria a 24.10.2017 às 14:06

E neste caso concordo em absoluto contigo!
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De Luis Costa a 24.10.2017 às 12:57

Ai se estes posts chegam a algumas pessoas eheheh
Abraço
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De Robinson Kanes a 24.10.2017 às 13:47

Fico com a cabeça a prémio... ahahahahah

Um Abraço
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De Bruxa Mimi a 24.10.2017 às 15:26

Faz falta transparência!
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De Robinson Kanes a 24.10.2017 às 15:27

Fazem falta cidadãos competentes e com um pingo de ética e valores... Com isso, tudo se torna transparente... Também faz falta supervisão... Nossa e das entidades oficiais.
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De Ladys a 24.10.2017 às 15:33

"Fazem falta cidadãos competentes e com um pingo de ética e valores", com isto, está tudo dito. Marina
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De Bruxa Mimi a 24.10.2017 às 15:39

Sim, também me parece.
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De Corvo a 24.10.2017 às 19:34

O conceito de sem fins lucrativos, pode-se entender da seguinte maneira.
O maior enriquecimento de um na proporção de mil que mais empobrecem.
Ou não fôssemos nós o país da caridadezinha.
:)
Resto de uma excelente noite.
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De Robinson Kanes a 24.10.2017 às 19:45

Não resumiria melhor... Fantástico!

Abraço e uma boa noite...
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De HD a 24.10.2017 às 20:37

Nós costumamos brincar com o facto de teres a cabeça a prémio...
Não tenho a mínima dúvida, depois deste post, que é fulcral pensares em contratar segurança pessoal... just in case ;)
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De Robinson Kanes a 24.10.2017 às 20:41

Penso que será melhor... Já pedi ao Macron alguns legionários, a coisa é séria.

É um daqueles mundos em que ninguém quer mexer... Para a semana falo de um caso em que até funcionam bem...

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De HD a 24.10.2017 às 20:45

Não se deve levantar muita poeira... os interesses estão bem instalados!
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De Robinson Kanes a 25.10.2017 às 08:47

Esse é o sentimento que não pode perdurar... O outro também foi apanhado, através da contabilidade, mas foi :-)
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De Anónimo a 24.10.2017 às 20:39

Eu queria acreditar na boa fé desta gente, mas perco-a à medida que leio e escuto algumas pessoas fidedignas.

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De Robinson Kanes a 24.10.2017 às 20:42

Das minhas situações, respondo por mim...

Mas basta andar atento, levantar a cabeça e avaliar... Com tantos milhões recolhidos todos os anos, será que?

Além disso, e sejamos honestos, existe assim tanta fome (ou sequer fome no verdadeiro sentido da palavra) em Portugal que justifique uma área social tão mas tão povoada?
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De Maria Araújo a 24.10.2017 às 22:18

O anónimo era eu.
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De Robinson Kanes a 25.10.2017 às 08:47

"It is I, Maria"...
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De O ultimo fecha a porta a 24.10.2017 às 22:28

Gostei bastante do teu post. Parabéns.
Penso que já tinhas falado deste tema há uns tempos.

Recordo-me de há uns tempos um candidato à presidência da república ser presidente de uma "instituição de solidariedade social" (fica tão bem escrever este nome comprido) e ter vindo a público a agência de emprega que aquela instituição constituía para a sua família, não se sabendo se as remunerações eram a "preços de mercado".
Recentemente veio a público uma noticia que dava conta de um donativo de uma marca de roupa, que em vez de ir para a solidariedade, estava a ser vendida à socapa por uma das promotoras da doação.
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De Robinson Kanes a 25.10.2017 às 08:49

Falas da AMI? A AMI é uma espécie de Oligarquia e com balanços e demonstrações públicas... Dá uma vista de olhos por lá... Foi um "case study" em num curso que fiz, por essa mesma situação...

Foram duas notícias, duas instituições diferentes... O problema também não está só aí, também está a quem se dá, que muitas vezes, não tem necessidade absolutamente nenhuma...

Obrigado ;-)
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De O ultimo fecha a porta a 25.10.2017 às 23:07

estará no site?
Se estiver, no fim de semana, passo por lá.
Será que vou ficar chocado com o que vou ler?
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De Robinson Kanes a 26.10.2017 às 09:03

Está, os relatórios de contas estão lá...

Analisa com atenção, não vás imediatamente aos "ganhos"... Infelizmente os relatórios que analisei tinham mais detalhe e eram efectivamente os balanços e as demonstrações de resultados. Agora aparecem apontados somente no relatório, mas dá uma vista de olhos em investimentos financeiros, mobiliário e afins...
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De O ultimo fecha a porta a 26.10.2017 às 23:01

Eu trabalho na área e já fiz e auditei vários anexos. As rubricas de "outros" é o maior guarda chuva que há e os relatórios de gestão, dependendo de quem os faz, mencionam o que convém.
O último que consultei foi o anual do FC Porto, por curiosidade. Lia-se no RG que os custos com pessoal tinham diminuído "demonstrando a politica de rigor e contenção de custos". Quando vais ao anexo, à nota dos custos com pessoal, vês que a massa salarial é a mesma da época anterior e a diminuição foi na rubrica de indemnizações decorrente de gastos não recorrentes na época anterior.

Enfim, vou lá espreitar este FDS
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De Robinson Kanes a 26.10.2017 às 23:03

Esse é o problema dos relatórios. Nada como balanços e demonstrações de resultados.

Sim, a contabilidade permite tudo... Outrora disse-me um CFO que tudo era permitido desde que não existissem grandes abusos...
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De MJ a 25.10.2017 às 00:42

Sobre este problema gravíssimo muito havia a dizer, se bem que já tenhas focado alguns pontos chave. Uma análise mais exaustiva? Tinhamos aqui paninho, não era para mangas, era para o fato completo.

Vou focar-me apenas nos donativos.
1) Quem gere esse dinheiro?
2) Quem faz o levantamento, isento e sem compadrios, das pessoas que realmente necessitam?
3) Que critérios no valor a atribuir, isto não esquecendo o fim a que se destina: da reconstrução da casa, e/ou da fábrica à aquisição de alfaias agrícolas, passando pelas sementes tendo em vista as proximas sementeiras, sem esquecer o alimento para os animais que sobreviveram, etc.?
4) Qual o tempo de espera de cada uma destas pessoas, individuais ou industrias/empresas?
5) Não esquecer que estes desastres fizeram com que muitas pessoas ficassem no desemprego, logo a entrega do valor que possibilite o recomeçar, para muitos do zero, não pode ser para amanhã, devia ter sido para "ontem".
Nada disto é fácil, temos todos consciência disso, mas por favor, juntem-se todos, autarquias, juntas de freguesia, serviços sociais, Misericórdias, etc. analisem e, por favorzinho, façam a entrega daquilo a que cada um tem direito, mas URGENTEMENTE.
Desculpa o "testamento", mas estas situações tiram uma alminha do sério.
Abraço.
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De Robinson Kanes a 25.10.2017 às 08:53

É um tema ao qual voltarei, inclusive com soluções que isto de criticar é sempre mais fácil...

1) Há instituições que ninguém sabe muito bem;
2) Por vezes existe um levantamento, mas não são raras (nada raras) situações em que basta apareceres e recebes, sem qualquer controlo da tua condição sócio-económica;
3) Neste momento, não sei responder a essa questão - mas era importante que os portugueses soubessem, até porque muito desse dinheiro é deles;
4) Não sei;
5) Nem mais...

Se existisse cidadania e menos instituições seria mais fácil... Temos instituições sociais e demasiadas associações e todos disputam o seu espaço, gerir isso é demasiado complicado... E pelo caminho, perde-se tempo, dinheiro e eficácia.

Um Abraço ;-)

P.S: testamentos também são bem-vindos :-)
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De José da Xã a 26.10.2017 às 23:24

O Henrique Pereira dos Santos do blogue "Corta-Fitas" apresentou uma reclamação contra a CGD por esta ter financiado um hospital com dinheiro que deveria ir para Pedrógão.
Estou ansioso para saber o que lhe irá dizer a CGD. Quiçá que foi um engano... Queres apostar?
E mais não digo!
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De Robinson Kanes a 27.10.2017 às 00:02

Mantenha-me a par... Quero saber o resultado...

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