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O Pai...

por Robinson Kanes, em 23.01.17

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Em finais de Dezembro, tive oportunidade de ir ao Teatro Aberto assistir à peça “O Pai” - foi uma das prendas que dei à “velha” – e se por um lado João Perry dispensa apresentações, confesso que, o facto deste contracenar com Ana Guiomar me deixou a pensar no fiasco que se avizinhava.

 

O facto não se consumou e Ana Guiomar esteve à altura dos acontecimentos. Fiquei surpreendido pela positiva, e muito. João Perry, com aquele seu ar de “acabado” e, uma experiência de anos no teatro, mostrou que era a pessoa certa para o papel. Mas, não me vou alongar com uma espécie de texto pseudointelectual e enfadonho sobre as interpretações deste ou daquele actor. Não me cabe a mim vender a peça...

 

"O Pai" é uma peça que apresenta, de uma forma clara e sem qualquer pudor, a demência de alguém que, chegado a determinada idade, é apanhado de tal forma numa teia de cenários que se torna impossível distinguir a própria realidade, ou melhor, várias realidades cujo afunilamento na realidade do mundo, na realidade dos outros... se torna impossível.

 

De facto, e no meio de alguns momentos de humor, dou comigo a pensar no primeiro dia (ainda puto) em que talvez tenha sido levado pela primeira grande avalancha da minha vida... o dia em que o meu pai não me conheceu, o dia em que a realidade deixou de ser perfeita.

 

“As coisas não estão como eram”... foram as palavras que, confesso, me deixaram pensativo enquanto o autocarro me levava para Lisboa logo após uma época de frequências... imaturidade minha, medo... cobardia... fizeram-me ignorar o lado negro daquele aviso. O Pai sempre me havia ido buscar ao terminal, mesmo quando um dos braços (devido à doença) já o atraiçoava. Naquele dia, foi a mana - “as coisas não estão como eram, o que vais ver não é o pai como o conheceste...”. Tais palavras, ditas com uma frieza clínica, mesmo assim, não me haviam demovido de ver aquele homem forte, aquele exemplo de luta ao longo de uma vida e sempre bem-disposto perante a adversidade. O homem tal como sempre o idolatrara.

 

O cheiro a sardinhas (prato tão acarinhado lá em casa) antevia mais um jantar em família com a alegria que, apesar de dois anos de derrotas, não havia esmorecido... não havia esmorecido até entrar pelo portão e vê-lo ali, distante... sem alegria no olhar, sem um sorriso no rosto e olhando para mim como se questionando quem era estranha personagem que lhe estendia a cara para um beijo.

 

“É o Robinson, pai”. É o Robinson pai... e o eco dessas palavras e as lágrimas contidas que deveriam ter corrido como cataratas mas ficaram presas numa angústia que me faria mais tarde fugir de tudo aquilo. Deveria ter chorado, deveria ter-me lembrado da lição de Faulkner e de que um cavalheiro também chora, mas com a diferença que, face aos demais, depois lava a cara.

 

“As coisas não estão como eram”... não estavam mesmo. As boas notícias, de três semanas de bom trabalho no primeiro ano de faculdade ficaram guardadas para mais tarde... a doença atacara agora a sua alma, mas mais que isso... a sua alegria de viver, a sua capacidade de sorrir, de contar piadas, em suma... de rir da morte.

 

O Pai, deixara de ser o Pai... e no fundo de mim, por mais que tentasse fugir (e fugi) saberia que nunca mais o teria de volta e a realidade não mais voltaria a ser o que havia sido até então.

 

Fonte da Imagem: Própria.

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32 comentários

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De Chic'Ana a 23.01.2017 às 08:56

Fiquei muito emocionada! É uma das coisas de que tenho mais medo.. Uma pessoa perde a sua alma, a sua essência, vai definhando lentamente e nada podemos fazer para inverter todo este percurso... Somos meros espectadores e esse é um papel muito, muito doloroso..
Um beijinho grande
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De Robinson Kanes a 23.01.2017 às 10:08

Faz parte da vida, ou da ausência dela...

A demência não adveio de uma doença degenerativa, foi apenas uma consequência de uma doença "não degenerativa" que a partir desse momento aumentou em muito a debilidade que acabou com o desfecho "normal"...

O papel de espectador é doloroso, como o é, sobretudo numa fase inicial, o de quem padece. De facto, é como se perante nós estivesse um desconhecido... porque na realidade, não é só o outro lado que não vislumbra a nossa proximidade... também nós estamos perante alguém que nos é estranho... alguém que se apresenta em matéria mas que na realidade já não está lá. Confesso que, mais maturidade seria necessária, não estava preparado e também não sabia lidar com a situação. Nestas coisas não há heróis, por muito que hoje em dia se tente vender essa receita.

Um beijinho e uma boa semana!
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De Chic'Ana a 23.01.2017 às 10:12

"Confesso que, mais maturidade seria necessária, não estava preparado e também não sabia lidar com a situação. Nestas coisas não há heróis, por muito que hoje em dia se tente vender essa receita."

Não há mesmo heróis, não existe uma receita, um guia a seguir de como nos comportar.. E por mais maturidade que se tenha, nunca, nunca estamos preparados para esta realidade que teimamos sempre em ignorar...
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De Robinson Kanes a 23.01.2017 às 11:36

Em ignorar até ao dia em que nos é apresentada... e aí encontramo-nos como se o mundo tivesse desabado, quando... no fundo... é a realidade.
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De m-M a 23.01.2017 às 11:34

A Ana tem sido uma boa surpresa! De trabalho.

As tuas palavras fazem-me lembrar as últimas semanas do meu avô materno, que me era tão próximo! ***
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De Robinson Kanes a 23.01.2017 às 11:42

Nesta peça foi, confesso que no resto... embora eu já não saiba o que é ver televisão há uns bons tempos...
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De Sónia Pereira a 23.01.2017 às 11:37

Compreendo a tentativa de fuga ao confronto com a realidade, com a evidência. Nada nos preparara para assistirmos ao definhar de uma vida, a transformação de alguém intrinsecamente familiar num estranho. E quanto mais essa pessoa nos é próxima, pilar da nossa existência, mais difícil deverá ser. É como se uma parte de nós se transformasse, definhasse e morresse juntamente com aquela pessoa.

Quanto à peça, fiquei com vontade de ir ver. Sinto falta de ir ao teatro (entre muitas outras cosias). A vida no campo, a vida familiar, afastou-me disso. A arte interpreta a realidade confrontando-nos com certas evidências que julgávamos arquivadas, resolvidas.
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De Robinson Kanes a 23.01.2017 às 11:50

Penso que resumes essa situação da melhor forma... muitos são aqueles que morrem antes sequer de ter morrido, no entanto essa máxima aplica-se a situações diferentes... nestas situações, e são muitos os que passam por elas, penso que se morre um pouco, como dizes e bem, morre um pouco daquela parte que nos faz querer viver. Morre, eventualmente, um pouco da nossa alegria.

Sim, neste aspecto o texto de Zeller é simples e não entra em divagações intelectuais para aqui e para acolá... é uma peça para todos e acima de tudo, bastante forte. Pode, e deve, ser incluída numa visita à cidade...
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De Maria a 23.01.2017 às 12:02

Oh meu Oráculo... Lamento imenso
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De Robinson Kanes a 23.01.2017 às 12:08

Não há que lamentar, é assim mesmo... um dia as coisas acontecem. Esquecemos a velha máxima... nascer, viver, morrer. Fácil não é... e "volta e meia" lá nos chegam as memórias...

Lembrei-me ontem que podia falar da peça depois de ler o teu artigo ;-)
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De Maria a 23.01.2017 às 12:34

Não se poderá eventualmente chamar artigo "àquilo" :)
Fizeste bem em escrever, mas sim, lamento que a ter de acontecer, tenha sido dessa forma .

beijoca boa p'ra ti
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De Robinson Kanes a 23.01.2017 às 12:44

Claro que é! Já te disse que admiro a forma genuína como te expressas e como consegues passar, de forma simples e sem trabalhados de comunicação, as emoções para este lado... logo, é um artigo :-)

Obrigado pelas palavras... um beijinho.
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De HD a 23.01.2017 às 18:33

Este testemunho é realmente profundo, não estava nada a contar com a contextualização que deste ao texto!
Gostei muito da sobriedade da partilha.
Um abraço
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De Robinson Kanes a 23.01.2017 às 22:09

Há dias em que começamos a pensar muito e... acabamos assim. Obrigado.
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De HD a 23.01.2017 às 22:11

De nada, é sempre um prazer ler os teus textos :)
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De Kikas a 23.01.2017 às 22:14

Robinson como se costuma dizer "Quem não se sente não é filho de boa gente" e admito que o teu post me fez lacrimejar. Apesar de ser um facto inerente é o que mais temos de certo na vida o "Nascer, viver, morrer" nunca ninguém está realmente preparado para tal quando acontece. Acho que as tuas palavras "O Pai, deixara de ser o Pai... e no fundo de mim, por mais que tentasse fugir (e fugi) saberia que nunca mais o teria de volta e a realidade não mais voltaria a ser o que havia sido até então." demonstram bem, ainda que um pouco escondido (se me permites a expressão) o que sentias pelo teu pai e a falta que o mesmo te faz.
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De Robinson Kanes a 24.01.2017 às 08:50

De facto :-)

Faz sempre falta, sobretudo quando ainda havia tanto para dizer :-)

Obrigado!
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De Carlos a 23.01.2017 às 23:20

Imagino a dor que deves ter sentido!
Faço o exercício, penso para mim se fosse a minha mãe! Não, é melhor não pensar nisso...
Quanto à Ana Guiomar, tem sido uma agradável surpresa. Apesar de não ter visto a peça, nem sequer as novelas que faz! Saiu-se muito bem no programa de pastelaria que a Sic passou recentemente!
Abraço caro Robinson.
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De Robinson Kanes a 24.01.2017 às 08:52

É melhor nem pensar e aproveitar as pessoas enquanto ainda cá estão, até porque da dor, que um dia chegará, não podemos fugir.

Confesso que me recordo somente da Ana Guiomar dos Morangos com Açúcar e mais uma coisa ou outra que acabava por "ver" em casa da minha mãe. Até à data, não me tinha surpreendido.

Um Abraço Caro Carlos.
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De Ana a 26.01.2017 às 11:29

É daqueles momentos que ficamos sem palavras, nem sabemos como podemos comentar tal dor.
O meu pai continua como sempre mas sei o que é ter visto o meu avô 6 anos numa cama a deixar aos poucos de ser quem era.
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De Robinson Kanes a 26.01.2017 às 11:51

Já tens a tua conta também... os acamados são outra tortura...

Obrigado!

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