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O Ódio Dos Moralistas...

por Robinson Kanes, em 22.06.17

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Artemisia Gentileschi - Judite Decapitando Holofernes (Galeria Uffizi)

 

Fonte da Imagem: Própria

 

O drama dos incêndios (e outras recentes polémicas) criou um facto curioso e que me fez ir à procura de “material” que permitisse dissertar sobre algumas inquietações e ter também o vosso retorno.

 

De facto, torna-se interessante assistir a um comportamento nas redes sociais e até nos blogs que já não é novo mas que, pela proximidade dos acontecimentos, torna as situações mais evidentes.

 

Vejamos... Nas redes sociais, nos media digitais e nos blogs, de um momento para o outro passamos do sentimento mais comovente e de revolta com os factos para as fotografias das “mini-férias” ou do fim de semana espectacular no Algarve. Rápida a transição do “estou em choque” para o “yuppie” (também existe o contrário)... Sim, estou chocado, mas tenho a necessidade de mostrar ao mundo que estou em “altas”. 

 

Mas o que tem sido interessante é a proliferação da mensagem contra o “ódio”. Hoje em dia, discordar de uma situação ou do status quo é odiar (ou populismo), sobretudo se o ódio for contra aqueles que defendemos (ou somos pagos para defender) diariamente em blogs e redes sociais. Interessante também, que muitos dos que criticam o ódio acabam por incitar ao mesmo, especialmente quando recorrem ao vernáculo e ao ataque directo...

 

Eu tenho mais medo dos “amigos” (e dos alpinistas) que defendem alguns do tal “ódio” e que são privilegiados na comunicação do que daqueles que odeiam e soltam os seus desabafos no momento... É que os últimos não procuram manipular ninguém e tendem a ser insentos. Acredito que muitas vezes só querem justiça, mesmo que não expressem essa vontade da melhor forma. Tenho medo daqueles que vivem tranquilos, à sombra de clientelismos, de uma pseudo-fama e de alguma pseudo-importância que nos tenta ser impingida todos os dias no sentido de nos fazer acreditar que são estes os "representantes" da voz do povo - e não falo de políticos como já perceberam. Não tenho medo do povo "revoltado", aliás, nem qualquer bom estadista tem medo do seu povo...

 

A apatia (ou falsa apatia) tende a reinar sobre a justiça... E se um povo pede justiça, ao invés de também descarregarmos um discurso de ódio, devemos inicialmente pensar o porquê de tanta revolta, de tanto ódio, se quisermos considerar uma solução. A apatia que nos faz ser líderes de uma certa sobranceria virtual não nos torna melhores do que aqueles que criticamos, pelo contrário.  Mas talvez seja mais fácil ignorar a interrogação de Steinbeck e deixarmo-nos arrastar ao invés de nos deixarmos guiar pelos nossos principios. Talvez o retorno seja imediato, porque a justiça é mais morosa e nem sempre nos enche a conta bancária ou o ego...

 

Mas talvez seja isso... Talvez, nós que tantas vezes somos tão solidários e "boa onda", sejamos bem piores que um povo que efectivamente se revoltou com a perda estúpida (sem aspas) dos seus compatriotas... Porque nas cidades, os apáticos e falsos moralistas de sofá continuam a apaziguar à calma de metralhadora na mão...  No entanto, se um dia o país precisar verdadeiramente destes indivíduos, fora do digital e das palavras, serão os primeiros a fazer as malas e a partir. Até porque é sempre mais fácil chorar do que assumir as responsabilidades...

 

 

 

(Este espaço esteve parado durante estes dois dias, por uma razão simples: respeito pelas vítimas e pelo luto e também pela necessidade de ouvir, de pensar... Sobretudo quando praticamente todos querem falar, mas poucos querem ouvir...).

 

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47 comentários

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De Maria a 22.06.2017 às 09:28

Olá Robinson. Eu fui uma das pessoa que na 2ª tentei expressar o meu pesar, na 3ª não consegui publicar nada e na 4ª voltei a parvejar.
Esta parvoice constante funciona (para mim) como escape, como barreira de defesa. Não passei verdadeiramente para um momento Yuppie, mas percebo perfeitamente o que queres dizer...
beijoca boa
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De Robinson Kanes a 22.06.2017 às 09:31

Não tens que te justificar, ora!

E acredita que nem por um momento me passou pela cabeça a tua pessoa. És demasiado genuína para seres visada neste texto :-)

Beijinho
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De Maria a 22.06.2017 às 10:42

Eu sei, mas senti essa necessidade.

Obrigada ;)
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De Robinson Kanes a 22.06.2017 às 13:05

Obrigado eu :-)
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De Anónimo a 22.06.2017 às 10:14

Que grande bujarda.
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De Robinson Kanes a 22.06.2017 às 13:04

Não pretende ser...
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De Francisco Freima a 22.06.2017 às 10:45

As pessoas estão a perder a capacidade de mostrarem o que verdadeiramente sentem. No Facebook isso é mais visível, de repente entramos num mundo onde todos são relações públicas da sua própria vida. Claro que depois o género passa para os blogues e para outras redes sociais, pese o Twitter ainda estar relativamente a salvo dessas coisas.

As tragédias são sempre bastante choradas, ou não fosse a solidariedade o mais próximo que algumas pessoas alguma vez estarão de terem alguma ideia política ou filosófica. O Zizek escreveu sobre isso, notando que o Solidariedade na Polónia foi também um movimento muito forte graças a essa palavra mágica, onde cabe tudo e nada.
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De Robinson Kanes a 22.06.2017 às 13:07

Onde cabe tudo e nada e tão adulterada ao longo dos anos…

Interessante, e contra mim falo, tanto se disse e se escreveu, até livros com esse nome, de se falar menos e comunicar mais… Acho que estamos a ter as consequências negativas desse facto e dessas atitudes. Mais vale um erro com palavras genuínas do que um tremendo falhanço com palavras fabricadas.
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De Chic'Ana a 22.06.2017 às 10:56

No meu caso, ontem não consegui conter as palavras, contudo nos outros dias, hoje inclusivé, e para mim, serve quase como distração, quase como uma mensagem de que o mundo continua.. E que temos de nos erguer e seguir em frente..
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 22.06.2017 às 13:09

Cada qual tende a lidar com as coisas de forma diferente, é normal… Eu foquei-me em situações específicas, mas na verdade cada indivíduo é diferente. No entanto, existem situações em que podemos ter algum controlo, ou até fazer um aproveitamento da situação, mesmo que inconscientemente… Era por aí que pretendia ir.

Do "mundo continuar", acho que vou falar amanhã sobre isso :-)

Beijinhos
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De Rita PN a 22.06.2017 às 11:46

Sabes, às vezes gostava de conseguir ter essa facilidade de passar do choque ao "yupiie".. mas não... ainda não foi hoje e já lá vai quase uma semana... Talvez porque sinta o mesmo que sinto em acontecimentos pessoais, o impedimento de continuar perante situações mal resolvidas e por finalizar/explicar. Enquanto não há respostas, as perguntas imperam e não deixam esquecer o sucedido. Arrastam-se as interrogações, assim como as vidas de quem viu partir, em cinzas, os seus. Arrasta-se, em nós, um sentimento de culpa que luta contra o de impotência, mostrando-nos o quão inábeis somos, perante um tribunal de Natureza superior, que nos senta como réus aos seus pés e a todos condena... por constantes assassinatos à espécie humana.
Cumprimos a pena e depressa a esquecemos... não aprendendo com ela.
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De Robinson Kanes a 22.06.2017 às 13:11

Não é de fácil gestão. Mesmo aqueles que não podem pensar de imediato no luto, porque têm de agir, vão ter de fazer o mesmo mais tarde. Defendo, aliás, que decretar de imediato dias de luto nem sempre funciona da melhor forma e esquece aqueles que muitas vezes se encontram directamente relacionados com a situação. Ninguém faz um luto com o país em chamas por exemplo… É preciso estar "operacional", não há "tempo" para isso…


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De Luis costa a 22.06.2017 às 14:37

Muita gente deve estar a engolir em seco,depois diga que não destacam alguns blogues.
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De Robinson Kanes a 22.06.2017 às 15:03

Eu não digo que você é tramado? Ainda o vou ver com um blog todo jeitoso por aqui :-)

Não me puxe para essa discussão, ainda não é tempo para tal :-)))
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De a mãe dos PP's a 22.06.2017 às 14:53

não piar
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De Robinson Kanes a 22.06.2017 às 15:03

De facto..

É bom ver-te por aqui. Obrigado pelo regresso :-)
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De O ultimo fecha a porta a 22.06.2017 às 17:07

Tb tenho visto ultimamente discursos sobre o "ódio" a propósito dos incêndios. Hoje em dia, abrir um twitter ou ler comentários nas páginas dos jornais é das piores coisas para um espírito critico e informado. Só se lê parvoíces, baseado em perfis falsos, em que clicas e não se dá a cara. Pior, são os caça-cliques que escrevem as coisas mais horrendas para obter mais likes.

P.S. No domingo seguinte de manhã, portanto poucas horas depois do inicio do fogo, um subdiretor do Expresso já estava a escrever uma crónica a pedir a demissão da ministra. Quando ainda estávamos a receber a notícia, a interiorizar, já andava a "política" e os "cronistas" a fazer o seu trabalho e pessoal meu "amigo" no facebook ligado ao PSD a partilhar. Haja vergonha na cara para tanto oportunismo.
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De Robinson Kanes a 22.06.2017 às 18:29

O "click" e o "like", essas duas grandes instituições… E ainda com muito para dizer em relação ao "engagement" dos consumidores.

Efectivamente as minhas palavras criticavam um pouco os que criticavam o "ódio" com "ódio". Quem não sabe defender uma posição e se torna agressivo ou mal educado perde efectivamente toda a razão para argumentar.
No entanto, focava-me naqueles que taxativamente aplicam o conceito de "ódio" a quem discorda dos mesmos ou tem uma visão diferente.

Oportunismo, essa é outra longa história...
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De Kalila a 22.06.2017 às 17:40

Eu tinha algo para publicar ontem que chocou com o que estava a acontecer. Não tinha mesmo qualquer jeito publicar aquilo e então improvisei a correr. Espero não fazer parte dos moralistas de que falas, acho que não sou, não prego moral, o meu pelouro é o amor, no caso foi a falta dele.
Eu sou pela paz, inclusivé a de espírito, e choca-me o abespinhar em que vivemos. Sempre me chocou, agora mais do que nunca porque a essência do que o desencadeou é terrível. Muita da revolta nasce da impotência e tenta-se fazer algo como seja matar o mensageiro, mas isso já é filosofia em que não me meto. Só quero reiterar que não pretendi ser moralista e sim apelar ao bom senso e à concórdia.
Fenómenos mediáticos como Entre-os-Rios, o 11 de Setembro e este fim de semana têm poderes diversos na mente das pessoas e muitas e diferentes formas de se manifestarem na sociedade. Está em estudo algo importante sobre isto. Eu como leiga só veiculei no blog o que me ia no coração.
Beijinhos, amigo.
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De Robinson Kanes a 22.06.2017 às 18:35

Ofendes-me se pensares que eras uma das visadas :-)
O teu texto distanciou-se bem daqueles que procuro agora compreender com a vossa ajuda.

Foquei, levemente, a questão das Relações Públicas como já um comentador aqui frisou e sobretudo aqueles que procuram criticar o "ódio" (para alguns ódio é uma posição diferente da nossa, é pedir responsabilidades e justiça) caindo também no respectivo "ódio".

Tenho notado que, sempre que alguém tende a exigir justiça (e mesmo que não o faça da melhor forma) leva com os rótulos de populista, reaccionário ou de "hatter" como se gosta de dizer. Mecanismos sociais que "tapem a boca" a quem pede um esclarecimento ou demonstra alguma raiva (que é admissível e respeitável) leva-nos a ficar apáticos e a perpetuar um sem número de situações que nem sempre são as mais aceitáveis.

A questão do ódio pelo ódio, é já uma outra questão que não abordei aqui por ser igualmente complexa.

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De Rooibos a 22.06.2017 às 18:17

Saltar de extremo a extremo é normal nas redes sociais (pelo menos a avaliar por alguns "amigos" que tenho nelas).
Ora estão a lamentar-se porque têm saudades de um familiar que partiu, ora estão a publicar fotos de jantaradas e noitadas. E vão alternando entre os dois.
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De Robinson Kanes a 22.06.2017 às 18:36

Obrigado pela visita…

E é aí que é importante perceber as emoções e as motivações das pessoas… Não sei se é muito saudável ou até genuíno...
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De Rooibos a 23.06.2017 às 10:21

Se é saudável, não sei. Se é genuíno, parece-me bem que não.
Talvez o façam porque os sentimentos extremos sejam os que trazem mais retorno dos outros (gostos, comentários...). E o objectivo das redes sociais é esse, obter interacção.
De resto, como também disse no meu blog, hesitei em abordar o assunto, acabei por fazê-lo por desabafo, mas depois de ler tanta coisa que por aí ali, cheguei à conclusão que também devia ter estado no silêncio.
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De Robinson Kanes a 23.06.2017 às 12:08

Para ficar perfeito só acrescentaria ao conceito de "interacção" a "aceitação".

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