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O Mundo Envia-nos Lixo e Nós Damos-lhe Música!

por Robinson Kanes, em 15.03.17

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Fonte das Imagens: Orquesta de Reciclados de Cateura

 

No seguimento de um artigo muito interessante que tive oportunidade de ler (http://quimeraseutopias.blogs.sapo.pt/do-lixo-para-a-boca-38578) e que me chocou profundamente, aproveito esta minha exposição, não só para divulgar o mesmo – posto que a comunicação social em Portugal prefere virar o foco para o futebol e para o fútil – mas também para abordar uma iniciativa que é um verdadeiro exemplo de como se pode sair do lixo... ainda tive esperança de ver aquele artigo em destaque...

 

Cateura, no Paraguai, é a maior lixeira daquele país, aliás, é considerada uma zona inabitável face à degradação que aí se encontra e ao elevadíssimo risco de cheia. Inabitável... mas local de residência para 2500 famílias!

 

0c2f2c_e5e7546a109849b6bc0b23b206f01add.jpgFoi entre esta degradação que um indivíduo encontrou uma forma de criar valor acrescentado... valor acrescentado numa lixeira. Começou por fazer instrumentos com o próprio lixo e o resultado foi que um grupo de crianças completamente esquecidas pela sociedade se transformaram em artistas e deram origem à “Landfil Harmonic” ou, menos sonante mas mais genuíno, a “Orquesta de Reciclados de Cateura”.

 

O lema da orquestra é algo extraordinário e ao mesmo tempo provocador: “O Mundo envia-nos lixo e nós damos-lhe música”. Num só projecto temos uma lição ambiental, uma lição educacional e uma lição social. Do atelier, porque existe um atelier, saem todos os instrumentos feitos à base de... lixo... são esses instrumentos que vão acompanhando um grupo de crianças na sua educação e viagens pelo mundo, crianças perdidas e entregues a uma sorte que... de sorte tem pouco.

 

Lembro-me de ter partilhado esta temática com muita gente (sobretudo da área social e ambiental em Portugal) que, simplesmente, olhou para mim com um desprezo tal que me fez pensar onde estaria a lixeira... se em Cateura, se numa mentalidade triste e tacanha que habita na cabeça de muitos portugueses que se orgulham de ter dado mundos ao Mundo, mas cuja cabeça e visão não vai além do seu pequeno quintal.

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Todo este projecto começou sem apoios do Estado, afinal falamos de pobreza em Portugal, mas não sabemos realmente o que é ser pobre. Hoje, além de vários prémios (inclusive para um documentário) e apoios de vários mecenas esta orquestra é um verdadeiro sucesso. Mas há países onde alguns indivíduos, que se dizem homens e mulheres de terreno, ou os apóstolos da felicidade, cujo suícidio é iminente se ficam sem o relógio de marca, se riem e exclamam: “instrumentos de lixo, que estupidez!”.

 

Talvez a música que nos chegue desta orquestra possa inspirar muitos que andam por aí, numa lixeira diária... e se esquecem que... mesmo com talas nos olhos, cavalos e burros caminham em frente... talvez a inspiração possa vir do texto de Agustina em “Fanny Owen” porque muito provavelmente “ as grandes obras nascem assim: dum sujo porto, entre fezes e urina”.

 

Um pequeno vídeo, resumo da "Orquesta de Reciclados de Cateura"

 

 

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33 comentários

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De Chic'Ana a 15.03.2017 às 10:43

Também o li e fiquei igualmente chocada! Gostei muito deste post, fiquei com a sensação de que há sempre uma luz no fundo do túnel, por mais escuro que este seja..
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 15.03.2017 às 14:56

Há sempre, ou pelo menos quase sempre… fica a esperança e um resultado positivo.

Beijinhos
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De Melhor Amiga Procura-se a 15.03.2017 às 11:01

Não imaginava e fiquei em choque...
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De Robinson Kanes a 15.03.2017 às 14:56

Um entre muitos...
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De Sónia Pereira a 15.03.2017 às 11:06

Já me puseste a chorar. O ser humano tem tamanhas capacidades que não deixa de ser doloroso como as sociedades modernas, ao invés de promoverem essas capacidades de reinvenção, transformação, humanismo, as preferem aniquilar, criando um fosso entre aqueles que vivem da maneira «que deve ser» e aqueles que tiveram a infelicidade de nascer e crescer de diferente forma.
É impressionante como a arte, a música, consegue ter um tal poder regenerador, transformador nas pessoas (sejam pessoas que vivem numa lixeira ou numa cidade «evoluída»).
A grande maioria dos projetos sociais inspiradores não nasceu de uma ideia exterior, de alguém exterior àquela vivência. Foram as pessoas que vivem na pele aquela realidade que, apesar de todas as adversidades, investiram numa ideia inovadora que integrasse, motivasse, inspirasse os seus cocidadãos. No fim, fica a frase daquela menina que dizia que sentiu borboletas no estômago na primeira vez que tocou música. Que coisa bonita... Se formos a resumir à essência a importância da nossa vivência enquanto seres humanos, ficam essas emoções puras, esses momentos não materiais.

Gostava de ver a totalidade do documentário. Tenho de procurar a ver se encontro.
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De Robinson Kanes a 15.03.2017 às 15:18

Então, era para animar :-)

As artes aqui conseguiram um fenómeno extraordinário, e não foram necessários intermediários, como referes. Uma ideia, de uma pessoa que "simplesmente" era catadora de lixo. Como outras deu uma lição àqueles que perdem anos focados num só caminho e que desprezam aqueles com quem trabalham.

Uma das grandes discussões, ainda tabu em alguns sectores, é o facto de deixarmos as pessoas fazerem as coisas, e mesmo quando com intermediários, que o espaço seja dado. Em países mais pobres, mas com uma mentalidade diferente da nossa isso é possível e o que não falta são bons exemplos em África, na América do Sul e na Ásia e claro… também na Europa.
Ontem falava o Francisco Freima de que se fala muito em "empoderamento", eu prefiro chamar-lhe "empowerment" até porque gostamos tanto de colocar o que é português em inglês e quando as palavras até fazem sentido em inglês gostamos, paradoxalmente, de as transformar para um português que deixa muito a desejar. Dizia eu que o Francisco falava em "empowerment" aqui está bem patente e espero que o conceito (que já não é novo) não seja desvirtuado pelos alpinistas sociais… da área social… até porque o conceito vai para além dessa área.

Las "mariposas" :-) é sem dúvida mágico… claro que, desde que do lado dos norte-americanos começou a existir interesse as coisas passaram a ter o seu quê de "show biz" no entanto penso que a organização se tem portado muito bem, até porque ainda preserva o nome original, inclusive no seu próprio "website".
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De Rita PN a 15.03.2017 às 12:41

"Lembro-me de ter partilhado esta temática com muita gente (sobretudo da área social e ambiental em Portugal) que, simplesmente, olhou para mim com um desprezo tal que me fez pensar onde estaria a lixeira... se em Cateura, se numa mentalidade triste e tacanha que habita na cabeça de muitos portugueses que se orgulham de ter dado mundos ao Mundo, mas cuja cabeça e visão não vai além do seu pequeno quintal."

O desprezo com que te olharam, é o mesmo desprezo com que olham para para as lixeiras, para a pobreza que vive do outro lado da rua, para os sem abrigos a dormir na rua, para a criança que passa por elas descalça e com fome... O desprezo com que te olharam tem por base o desconhecimento e a não experiência pessoal, no que a determinadas realidades e vivências diz respeito. Representar áreas sociais e ambientais e falar sobre é bonito, fica e parece bem... mas e agir?

[ Confortavelmente sentado no sofá de uma sala acolhedora, depois de um dia cheio e apressado, sem tempo para uma refeição mais completa, liga a televisão. No ecrã, os pequenos figurantes apresentam-se em grupo, descalços e sem roupa, tristeza no olhar e o branco, de uma paz que não é a sua, a querer ser mais do que apenas o contraste de cor entre os dentes e a sua pele escura.
Brincam com bocados de madeira, latas e restos do lixo que encontram nas tendas de campanha.
São magros, extremamente magros, condição física que não visa a aprovação social nem é requisito para aparecer no ecrã. O seu nome é fome no filme pobreza.
Edgar demora-se no documentário não mais do que 15 minutos, trocando de canal assim que sente uma ligeira alteração no seu estado anímico. É mais fácil ignorar, até porque está na hora da análise aos jogos da última jornada. À mesma hora, morrem crianças, de fome, em África e um idoso no outro lado da rua. ]

Por não ver outra forma de expressar o que me vai na alma, criei este episódio apenas para mostrar o quanto a indiferença pode ser fatal.
Ter conhecimento da realidade e ser-se sabedor da existência das mais diversas necessidades humanas, assim como das consequências nefastas quer dos excessos, quer da escassez (de resíduos, de alimentos, de medicamentos, de cuidados, de atenção, de carinho, de humanismo...) não faz qualquer diferença, se os mesmos não forem acompanhados de acções.
Tão drástico é ignorar aquela triste realidade a centenas de quilómetros, que não sendo por nós presenteada, apenas é vista como se de um filme se tratasse (e para alguns, não passará mesmo de pura ficção), como é desumano permitir que o vizinho da frente, que até é pai e avô de alguém, morra. se não for por fome e falta de cuidados, será por solidão.

Quanto ao fantástico projecto que aqui nos apresentas - eu já conhecia - tiro-lhe o chapéu. E não só é inspirador o conceito, como a origem dos materias, o seu processo de construção e a grandiosidade da arte com que nos brindam. Afinal, eles são fruto da arte desde a primeira hora, em que ainda designados "lixo", já eram uma ideia de transformação.

"A arte existe, porque a vida não basta." (F. Gullar).


Obrigada, Robinson.


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De Robinson Kanes a 15.03.2017 às 15:22

Penso que não agimos porque temos excesso de fartura…

A televisão, e indo ao encontro do teu pensamento (genial, por sinal) criou o espectáculo… e aqui nem sou critico ao ponto de dizer que foi uma coisa má. Simplesmente, o excesso e a forma como nos surge diante dos olhos, provoca essa indiferença… sentimo-nos mais perto, mas temos a segurança de estar longe…

Não são muitos os que o conhecem, por isso fico mesmo contente que o conheças! Já não me sinto tão sozinho :-)

Obrigado eu, por passares e pela reflexão.
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De Rita PN a 15.03.2017 às 18:08

Talvez seja exactamente esse o problema... "excesso de fartura".

"e aqui nem sou critico ao ponto de dizer que foi uma coisa má. Simplesmente, o excesso e a forma como nos surge diante dos olhos, provoca essa indiferença… sentimo-nos mais perto, mas temos a segurança de estar longe…" - Partilho inteiramente desta tua visão. Não sou crítica no que ao aparecimento da TV diz respeito, considero-a até uma mais valia nas suas mais diversas vertentes. Sendo que, falando por mim, apenas "consumo" programas informativos, alguns debates, filmes/séries e documentários.
Mas vejo na TV uma forma de aproximação, uma companhia para os idosos e para quem está sozinho, uma fonte de informação diversificada e propícia à aquisição de conhecimentos (quando se sabe usar o filtro), de distracção, de facilidade e possibilidade de estar presente, em tempo real, nos 4 cantos do mundo ...
Mas lá está... "sentimo-nos mais perto, mas temos a segurança de estar longe…" de determinadas realidades.

Conheci porque depois de ver uma exposição de fotografia, em que o foco era exactamente "lixo" (ou amontoado em lixeiras, ou sendo parte integrante de esculturas), fui pesquisar um pouco mais sobre a arte de fazer arte com o "lixo". E entre muitas outras coisas fantásticas, descobri essa orquestra! Não te sintas sozinho, há mais "estranhos" por aqui :-)


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De Robinson Kanes a 16.03.2017 às 08:47

Eu não vejo televisão, a não ser por "acidente" em cafés, casas de amigos ou familiares… lá vejo um programa informativo de vez em quando na casa da minha mãe :-)

A televisão na sua vertente educativa e de valor acrescentado já perdeu muito do seu valor. Escapam alguns canais temáticos e mesmo assim são poucos.

Uff, existem mais "aliens" :-)
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De Anónimo a 15.03.2017 às 13:13

É ao ler estes dois blogers e outros que não percebo como e que se da tanta importância ao lixo que se ve na tv na rádio e nos jornais
Obrigado
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De Robinson Kanes a 15.03.2017 às 14:57

Tem de se assumir para partilhar um elogio desses :-)

Agradeço, mas penso que, e aqui falo por mim, não tenho estatuto para tal.
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De Ana a 15.03.2017 às 13:31

Espetacular. Um belo exemplo de que se quisermos temos mesmo capacidade de dar a volta e embelezar a vida, sejam qual forem as condições.
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De Robinson Kanes a 15.03.2017 às 14:57

Nem mais… e aqui não foram necessários intermediários… :-)
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De Maria a 15.03.2017 às 14:02

Fantástico.
Eles podem ter vindo da pobreza. O que temos cá nalgumas mentes (e não só cá) é miséria, mesmo!
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De Robinson Kanes a 15.03.2017 às 14:58

Obrigado!

Ainda vamos criar a Orquestra de Lixo Encontrado no Tejo… Tagus Trash Orchestra...
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De Maria a 15.03.2017 às 15:55

PERFEITO!!!!!
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De Robinson Kanes a 16.03.2017 às 08:42

ahahahaha
Lixo não vai faltar.
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De Kalila a 15.03.2017 às 14:49

Post extraordinário, amigo!
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De Robinson Kanes a 15.03.2017 às 14:58

Obrigado Kalila :-)
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De Mamã Silvestre a 15.03.2017 às 14:58

Desconhecia completamente.
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De Robinson Kanes a 15.03.2017 às 14:59

Já valeu a pena cá ter vindo :-)

E eu agradeço.
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De Mamã Silvestre a 15.03.2017 às 15:45

Vale sempre a pena... aprendo muita coisa e recordo outras :)
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De Robinson Kanes a 15.03.2017 às 15:47

É para isso que cá estamos todos…
Muito Obrigado.
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De HD a 15.03.2017 às 20:49

Sabe bem ler textos assim e acreditar!
E sempre com a inevitável musicalidade característica: gratificante :)
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De Robinson Kanes a 16.03.2017 às 08:43

Acreditar sempre, mesmo que tudo nos faça perder a esperança!

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