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O Fogo Que Fala...

por Robinson Kanes, em 17.08.17

 

 

IMG_7686.JPG

 

 Fonte das Imagens: Própria

 

Foi logo depois dos incêndios de Sertã e de Nisa que andei por aquela zona e tive oportunidade de ouvir vários relatos, sobretudo na primeira pessoa, mais fidedignos mas sempre com margem para exageros... Se por um lado consegui verificar no terreno que alguns correspondiam à verdade, outros nunca saberei...

 

A impressão com que fiquei é que existe um conjunto de indivíduos que combate incêndios dando o seu melhor (bombeiros, polícia, militares e outros cidadãos, sobretudo com postos subalternos) e um outro conjunto que percebe muito de incêndios mas... Eu admito, tirando alguns em que já me vi envolvido a ajudar, nada percebo. Mas vejamos:

  

Sabes, quando o fogo de Nisa começou a chegar perto da fronteira de Espanha, os gajos entraram no nosso país com aviões, máquinas de rasto, bombeiros e apagaram o fogo. Quem apagou o fogo de Nisa em horas foram os espanhóis e nós andámos cá uma semana e não conseguimos controlar o fogo. Aqui ainda nem vi nenhuma máquina de rasto.

Disse-me um conhecido. Se é verdade ou mentira não sei, mas já não é a primeira vez que escuto isto! Algo se passa e levo a crer que são falhas no comando e na forma como são geridos os operacionais no terreno. Mas os cargos perpetuam-se.

  

Então o comandante que estava aqui e é daqui (Vila Velha de Ródão) chamaram-no para o incêndio de Proença (Proença-a-Nova), mas isto ainda estava muito mau. Deixaram isto aqui com outro gajo que não conhecia o terreno como o outro.

 Motivos operacionais?

 

E os gajos da Protecção Civil? Então os gajos trazem o gerador de Lisboa e quando chegam aqui parecem baratas tontas porque precisam de gasóleo porque o gerador não tinha? Lá tive de ir às oito da noite correr à bomba do ------- buscar gasóleo! Os gajos trazem aquela m---------- sem gasóleo?

 Organização?

  

Se não fosse o gajo do helicóptero a vê-los e a largar-lhes um balde de água em cima tinham lá ficado todos, estes gajos não conhecem o terreno e ainda levavam um dos nossos. Então ninguém viu que por ali não dava, o ------ bem lhes disse que por ali não dava? Por falar em helicópteros, vão lá ver quem é que manda naquilo.

Não comento.

 

Qual força-aérea, qual combate, os pilotos deles é que andam aí a encher os bolsos a apagar os fogos nos helicópteros e nos aviões do outro que também... (não digo mais por causa das acusações que foram feitas).

 (À minha afirmação "está bem, mas os pilotos da força aérea são pilotos de combate e não estão preparados para combate a incêndios?")

Idem

 

Gente dessa não precisamos cá, eles não querem meter os carros nem dar cabo deles no meio do fogo. Eles querem lá saber isto não é deles e os carros são, eles não querem perder nem estragar os carros. Andam a deixar arder.

 Idem

 

Eles estavam à rasca lá em baixo, e eu como tinha o barco disse logo para arranjarem uma bomba que nós íamos para lá e do rio conseguíamos dominar daquele lado, uns gajos que deviam ser de Lisboa ainda nos mandaram estar quietos que não percebíamos nada de fogos. Eu já conheço esta zona há mais de 40 anos e sei como chegar a sítios onde eles nem sonham.

IMG_7716.JPG

(não é a fotografia que está mal tirada, são pequenos "tornados" que se formam das cinzas no alto da serra criando um ambiente ainda mais dantesco) 

 

 

Quem sabe é que manda. Ouvi muitos relatos em que muitos indivíduos do alto da sua "sabedoria" ignoram todo e qualquer conselho que venha de quem conhece o terreno.

 

Esses querem é encher o rabo com o mal dos outros olha que dinheiro a eles não lhes falta, é só encherem-se de casas e carros novos desde que lá andam. 

A propósito de uma entidade de que se dedica à acção social.

 

 

Os jornalistas querem é ver miséria mas não ouvem o que nós lhes dizemos. Na televisão não dizem aquilo que a gente lhes diz e só querem filmar-nos em pânico. Dão é conversa aos políticos que não sabem nada disto.

Não comento, mas penso que não perco muito por não ver televisão ou outros media.

 

 

E pagarem-se 15000 euros à esposa de um responsável da Protecção Civil para esta elaborar um estudo tendo em vista a aquisição de uma viatura ligeira que custa pouco mais que o próprio estudo? A esposa do responsável é geógrafa e trabalha numa câmara municipal. 

Esta fui eu mesmo que disse e está no website onde são divulgados alguns contratos e adjudicações públicas. Estudos do estudo com vista à elaboração do estudo para estudar o estudo que vai servir de apoio ao estudo que vai estudar a aquisição de uma viatura.

 

Foram algumas das coisas que ouvi. Se são verdade, algumas presenciei, outras nem por isso... Ainda há muito a fazer e ao invés de andarmos a pensar em listas e em discursos bonitos, temos de começar a pensar no fogo como um todo, na prevenção, mas mais que tudo, na máquina que está por detrás...

 

Mais uma vez, obrigado pelo esforço daqueles que presenciei visivelmente cansados (bombeiros e soldados) às portas de quartéis como o de Vila Velha de Ródão, Sertã, Abrantes, Nisa, Idanha-a-Nova e outros... 

  

Só me consigo lembrar de alguém que um dia, abandonando a Assembleia da República por não se identificar com o cargo de deputado disse que "se o povo soubesse o que por ali se passava invadia o edifício e matava todos os que lá estão".

 

E o fogo continua à espera de mortos para alguém interromper as férias e colher mais uns votos de popularidade... Os feridos não trazem ou tiram votos, já os mortos sim...

 

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27 comentários

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De Maria a 17.08.2017 às 09:14

Grande, Grande post Robinson!
Estou sem palavras
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De Robinson Kanes a 17.08.2017 às 09:21

É grande, mas infelizmente expressa uma fraqueza enorme... Costumo dizer que o "povo" exagera muito, mas só desligando a televisão e indo aos locais é que somos confrontados com a realidade.

Infelizmente, e aqui não foquei, uma das coisas que mais me tem "chocado" é o fraco "empowerment" das nossas populações, altamente dependentes da vontade de entidades externas... os tais que querem ajudar, mas ai daquele que se queira ajudar por si...
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De Maria a 17.08.2017 às 17:21

Tens toda a razão.

E nestas tragédias se vê a impotencia das gentes. De quem vê uma vida inteira a desaparecer e não pouco ou nada pode fazer para o evitar. Para além da falta de "consolo" em ver que o(s) responsável(is) por estas situações saem impunes (válido quer seja para um incendiário, como - por exemplo - para um responsável por determinadas entidades)
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De Robinson Kanes a 17.08.2017 às 20:50

Sim. Em Portugal, e sobretudo em países onde o Estado Social é forte, é estranho ver a impotência e a dependência das pessoas. Uma espécie de garantia que depois nos tira as armas para reagir... E isso, em meu entender, é grave. A inércia destas gentes é enorme e quando confrontadas com esta tragédia, ainda pior a situação ficou... A dependência sempre dos mesmos (Estado, ONG, Misericórdias...) é uma coisa assustadora...
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De Luis Costa a 17.08.2017 às 09:33

Você agora foi a voz dos silenciados e falou do que viu e que sabe sem censura.Parabéns pelo post que nao passe despercebido ao sapinho.
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De Robinson Kanes a 17.08.2017 às 09:42

São meros relatos que se vão ouvindo, sobretudo de pessoas que sentem presas por nada poder fazer. A iniciativa própria é uma coisa que neste país ainda tem muito que se lhe diga... Sinto isso também aqui.
Obrigado pelas palavras, mas para mim este tema por mais gasto que seja não deve ser esquecido, este ano deve ser o ano do "basta"!
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De Chic'Ana a 17.08.2017 às 09:48

São relatos que se vão ouvindo aqui e ali! Só espero sinceramente que o que tem acontecido nos últimos tempos seja um abrir de olhos de que algo está errado e tem de ser corrigido...
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 17.08.2017 às 10:02

Cerca de meio século demonstra que nada será feito. Cabe aos cidadãos dizer basta e exigir uma tomada de posição dos seus governantes e da própria sociedade. Sinto os portugueses, ou muito centrados no seu umbigo e portanto tudo o resto não importa, ou então de mãos-atadas sem forças para lutar contra algo que é bem maior que os próprios e... quando assim é, não podemos falar de democracia.
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De Marta Elle a 17.08.2017 às 09:54

Faz-me confusão ninguém por um fim aos fogos.
Não deve ser assim tão difícil.
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De Robinson Kanes a 17.08.2017 às 10:01

Nunca conseguiremos eliminar os fogos para sempre, mas podemos minimizar e muito a situação. Todos os anos esta vergonha é que é lamentável, sobretudo quando continuamos a ignorar a situação logo após o Verão...
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De Loulou a 17.08.2017 às 11:21

Parabéns pelo post.
Infelizmente parece que é uso e costumo cá pelos nosso burgo (país) a história repetir-se e nada aprendermos com a "lição". Nem mesmo quando se perdem vidas. Perde-se tempo a atirar as culpas uns para os outros e nada se faz. Daqui a pouco tempo o verão passa, os incêndios já não são tema de um qualquer telejornal... E passamos para as eleições autárquicas e como uma eleição que se prese (seja de que natureza for) lá vêm as eternas promessas...
Muito se diz, pouco se faz...
Já nem o velho ditado popular de casa assaltada, trancas à porta parece ser posto em pratica .
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De Robinson Kanes a 17.08.2017 às 12:08

Obrigado pela visita.

A casa parece estar completamente "escancarada" e a saque. É um sentimento que se alastra a muitas pessoas com quem vou falando. Espero que a pressão das eleições autárquicas não abafe as tragédias destes Verão, pois todos os dias nos é dado o exemplo que andamos a festejar muito e embrenhados num "show-off" colectivo e a varrer os problemas reais e estruturais para debaixo do tapete.

Mais uma vez, muito obrigado pela visita...
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De João Jesus e Luís Jesus a 17.08.2017 às 11:44

Enfim...
Mas muito sinceramente, no dia em que houve um incêndio perto de algumas propriedades da minha família, o meu pai e o meu avô foram tentar salvar o que era deles. No entanto, estavam lá 2 ou três bombeiros literalmente sentados. Eles disseram para os bombeiros os irem ajudar e sabes qual foi a resposta deles? "Não apagamos fogo nenhum. Não fomos nós que o 'chegamos'".
(Não sei se ouviste na televisão o incêndio com 3 frentes em Ribeira de Pena; é esse.)
Confesso que a partir desse dia fiquei com uma opinião diferente ao tema. Mas existem bombeiros e bombeiros...
Um abraço!
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De Robinson Kanes a 17.08.2017 às 12:21

Tomei conhecimento via telefone, o fumo e o cheiro já se faziam sentir em Cabeceiras e em Vila Pouca.

Conheço essa zona relativamente bem (um dos meus "guias" nos últimos anos foi um caçador de perdizes e pescador de trutas). O Alvão, aí bem perto, todos os anos arde, é uma das zonas "verdes" que mais gosto neste país e sempre que por lá passo é um nó no estômago.

O ano passado ao vir de Astorga e já perto de Vila Pouca de Aguiar tive de ligar os "4 piscas" tal era o fumo de incêndio de grandes dimensões perto da A24. Já sem falar no outro que chegou quase a Vila Real.

Espero que esse incêndio não tenha feito grande estrago na paisagem porque todo o concelho é muito bonito. E uma queixa contra esses senhores também não seria má ideia.
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De João Jesus e Luís Jesus a 17.08.2017 às 12:43

Oh não sabia que conhecias. És de perto?
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De Robinson Kanes a 17.08.2017 às 15:09

Não... Mas temos aí algumas raízes com um dos vossos concelhos vizinhos, Cabeceiras de Basto.
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De Anónimo a 17.08.2017 às 16:28

BASTA!!!!!!!Disse bem.
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De Papagaio Giló a 17.08.2017 às 22:47

Tenho andado no lirismo de julgar que não seria necessário admitir este estado de coisas....
Eu já penso nos "negócios que estão por detrás" há muito tempo. É arrepiante!
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De Robinson Kanes a 17.08.2017 às 23:02

Esse é um facto, o fogo não dá só dinheiro à empresa de fósforos :-)
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De O ultimo fecha a porta a 17.08.2017 às 23:40

Discursos de quem conhece bem a situação ...
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De Triptofano! a 18.08.2017 às 01:18

De que lado está a verdade?
Existirá na realidade uma verdade sequer?
No fim o que se lamenta é aqueles que deixaram a vida cedo demais, esses é que não deveriam ser esquecidos....
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De Robinson Kanes a 18.08.2017 às 09:07

A verdade está "supostamente" do lado da justiça. Mas a verdade, seja ela qual for, existe sempre... Nada é por acaso, nem na Natureza...

Ultimamente os que deixaram a vida mais cedo não são esquecidos por dois motivos: trazem votos ou fazem com que os mesmos se percam, é uma questão de gestão...
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De Triptofano! a 18.08.2017 às 09:12

A simbologia da Justiça é uma mulher cega, no entanto também deveria ser surda porque o corrompimento cada vez encontra formas mais eficazes de entrar no âmago de quem decide!

Só me pergunto como dormem as pessoas que têm as mãos sujas de cinza? Eu qualquer pena coisa que acho que procedi mal já me tira o sono....
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De Robinson Kanes a 18.08.2017 às 09:41

E é, surda e muda... O problema é quando a mesma fica paralítica...

Quem tem as mãos sujas de cinza, por norma, são pessoas com problemas cognitivos, ou com grandes dificuldades na vida, gente desesperada... Tenho mais medo de quem tem as mãos limpas.

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