Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]


wire-799415-1497804966-379_634x398.jpg

Fonte de Imagem: Associated Press

 

De resto, nós não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos.

Albert Camus, in a Queda

 

 

São oito horas da manhã, acabo de chegar ao carro depois de um passeio pela praia com o meu cão, ligo o rádio e escuto: 43 mortos e 59 feridos no incêndio de Pedrógão Grande (última actualização a 21/06: 64 mortos e mais de 179 feridos + 25 em Góis)! Muitos dos mortos morreram ao tentar fugir das chamas dentro das viaturas!

 

Não sei o que dizer! Por muito que tenha um Primeiro Ministro que, perante a ausência de uma equipa de comunicação não consiga ter um discurso à altura; por muito que tenha um presidente de afectos e do povo (mas sem perder o discurso burilado) que, sem informação concreta e sempre na busca de protagonismo, tem como primeira abordagem dizer que a culpa é do tempo; por muito que tenha um presidente da Liga de Bombeiros que ocupa uma “centena” de cargos neste país e salienta que é a natureza revoltada a causa de tantas mortes, só me apraz dizer: VERGONHA!

 

Vergonha de todos os anos ser a mesma coisa! Vergonha de ir constantemente a Espanha e, quando o tema são os incêndios, indagarem como é possível num país como o nosso! Estar em Plasencia, local árido e debaixo de 43 graus e me dizerem que não têm medo dos incêndios mas sim daqueles que podem chegar do outro lado da fronteira! Vergonha de ouvir promessas, de ver o meu povo a entrar em depressão porque não tem lugar para colocar a toalha na praia ao invés de exigir mais àqueles que nos governam! Vergonha de ver um lobby de indústrias e de associações (incluo aqui muitas corporações de bombeiros e outras associações de cariz solidário) a continuar a facturar com a miséria daqueles que vêm os seus bens ou as suas vidas destruídas pelos incêndios! Ver a total displicência dos altos cargos da nação visivelmente comprometidos e numa posição de “sacudir água do capote”, do seu e de outros! Vergonha de ver os mesmos oportunistas de sempre a pedirem donativos para as vítimas dos incêndios (não darei um euro)! Vergonha de não existir uma clara aposta na prevenção! Vergonha pela ausência de meios! Vergonha por ver helicópteros e aviões parados por falta de milhares para a manutenção, quando as frotas de viaturas de luxo do Estado são renovadas constantemente e até se pagam subsídios mensais de €40.00 a motoristas para lavarem as mesmas (e ai de quem ousar retirar tal subsídio). Vergonha de ver alguém (sem formação sequer na área) arrecadar €15.000 para “estudar” a compra de uma viatura táctica de combate a incêndios que custa pouco mais que esse valor! Vergonha de ver reinar uma sensação de impunidade e o compadrio provinciano ao qual também estão sujeitas entidades da protecção civil! Vergonha de ver um povo que se revolta mais se o país vizinho levanta um processo a um jogador de futebol por fuga aos impostos e até aplaude a corrupção em muitas áreas (com a célebre desculpa do “se não for assim”) e não é capaz de pedir mais ou assumir uma posição em relação aos destinos do seu país, sobretudo quando está em chamas! 

 

Onde estão os pais que tanto apregoam amar os filhos mas não se preocupam com as gerações futuras? Onde estão as acções concretas para mudar o rumo das coisas? Onde estão os cidadãos? Partilhar a “porcaria” de lamentos e cruzes nas redes sociais não muda a situação! Torna-vos (na vossa cabeça) mais aceites pelos outros, mas é só isso! Porque é que entre os países do sul da Europa, Portugal é o único a ver a sua área florestal a decrescer (30%!!!)? E a questão do corpo de guardas florestais? Porque é que só se fala de incêndios no Verão? Porque temos sempre a sensação de que a abertura da "Época de Incêncios" é uma espécie de "vamos lá que isto agora é que vai ser"?

 

Já chega! É preciso dizer basta!

 

Onde estão cumpridas as promessas do ano passado, feitas à pressa e com tanta pompa e circunstância (e com o país em chamas) por parte de Primeiro Ministro e Presidente da República? Não chegam sorrisos e afectos! Num mundo onde os sorrisos e as palavras soltas valem mais que acções concretas, temos de começar a pensar nos riscos e nos prejuízos da inoperância prática! Ignorarmos os factos e focarmo-nos na autopromoção e no discurso elaborado, sobretudo nesta temática, está a destruir o país! Onde estão os resultados? As coisas não acontecem com demagogia e afectos, bem como o mundo não avança com selfies! Se tivermos noção que aqueles que devem fazer algo o estão a fazer, passamos bem sem abraços e beijinhos!... Ou talvez a nossa preferência se fique efectivamente pelo folclore digno de filmes satíricos balcânicos.

 

Não digam também, às famílias daqueles que morreram que a culpa é do tempo, quando a ausência de trabalho e prevenção são notórias. Até poderão ter sido as condições meteorológicas, mas todos os anos? Tenham a vergonha de nem sequer aparecer junto dessas famílias! Não são discursos dignos de eucaristia a horas de telejornal que mudam as coisas! A responsabilidade de termos um país mais dia menos dia, transformado em carvão é vossa!

 

Eu tenho vergonha... Porque a culpa também é minha! Porque os culpados somos todos nós! À data, sinto que também sou responsável pela morte deste número de pessoas e isso envergonha-me!

 

 

 

 

Ainda a digerir esta situação, este espaço vai estar parado durante os próximos dias... Até porque o ano passado disse convictamente que uma desgraça muito, mas muito grande um dia iria acontecer a propósito do nosso “desprezo” pela questão dos incêndios... 

 

Últimas notas: a todos os que lutam contra a chamas com sentido patriótico enquanto, muitas vezes, outros sem qualquer preparação os empurram para o inferno, as minhas palavras de profunda ADMIRAÇÃO! Já escrevi sobre isto aqui. Lutemos! Agora, de facto, é o melhor a fazer.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


34 comentários

Imagem de perfil

De Ladys a 19.06.2017 às 15:13

E será que é desta que vão abrir os olhos? Não me parece! Seja como for, para muitos é tarde demais . Marina
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 19.06.2017 às 15:34

Têm de abrir! Não peço cabeças, não é a altura ideal para isso… Mas já é hora de dizer "chega"!

Não é o luto que honra estes mortos, mas sim o que poderá ser feito depois de todos estes acontecimentos! Não lhes valerá de nada, mas é o mínimo exigido.
Imagem de perfil

De Ladys a 19.06.2017 às 15:38

Que este sofrimento não tenha sido em vão, aguardemos ....
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 19.06.2017 às 15:41

Não poderá ser...
Imagem de perfil

De Sónia Pereira a 19.06.2017 às 15:25

Infelizmente somos um povo de memória curta. Esta comoção pelos incêndios acaba com o verão e a partir daí nada se vê, nada se exige, nada se faz. Além disso, somos solícitos nas acusações esporádicas, mas os que agora se queixam da desgraça dos incêndios, serão em parte os mesmos que virão chorar se forem impostas regras rígidas de limpeza, de replantação selecionada de árvores.
Acho que somos mais talhados para o drama do que para a ação.
Denoto nas tuas palavras uma certa raiva, impotência perante tal cenário, e bebo das tuas palavras, dos teus sentimentos.
Perante este cenário, o que sobra? Um nada...
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 19.06.2017 às 15:49

Tem sido assim todos os anos. Aliás, chamar esta situação de singular parece-me extremamente exagerado. Nada disto é novo e aqui socorri-me de argumentos dos especialistas para o afirmar…

No teu artigo falaste do minifúndio e da incapacidade de muitos para limparem os terrenos: o mundo andou muito depressa e Portugal focou-se nas áreas de vanguarda, o que é fantástico. O que não foi fantástico foi o esquecimento de outras áreas e situações territoriais tão ou mais importantes. Pode parecer duro da minha parte, mas… Quem tem um terreno tem o dever de garantir a sua manutenção. Acontece com as casas, com estabelecimentos e por aí adiante. Efectivamente, quem provar não conseguir fazer a manutenção do mesmo pode ver serem criadas formas de apoio, ou seja, limpeza em troca de exploração, pagamentos faseados… São só alguns exemplos. Ter terrenos e não poder limpar ou explorar os mesmos não pode servir de desculpa.

As minhas palavras, são as palavras da "malta do bairro"… Valem pouco, mas reflectem um sentimento comum. Revejo-me nelas… E sim, por vezes um pouco de sangue a ferver, é fundamental para se tomarem outros empreendimentos (digo isto, eu que até sou sempre das pessoas mais calmas e com o foco na solução), contudo… Existem limites.

Sobra o "nada" para aqueles que morreram, para aqueles que perderem os seus entes queridos e para quem tudo perdeu para lá de vidas humanas… Esperemos é que esse "nada" se transforme em "muito" e aqui, o cidadão não pode baixar a guarda.
Imagem de perfil

De Kalila a 19.06.2017 às 17:02

Já disseste tudo, amigo, pouco há a acrescentar. Talvez só uma pequenina achega: nem todas as casas das regiões rurais têm água de furo, algumas têm água da rede pública que também não funciona quando falta a luz. Como os postes e os cabos ardem e os canos em princípio não porque estão enterrados ou são metálicos, talvez que uma prevenção de geradores de recurso na distribuição da água fosse útil...
Sou leiga nestas coisas mas não me sai da cabeça o desespero daquelas pessoas com o fogo à porta e sem sequer água para o atacar ou prevenir.
Beijinhos.
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 19.06.2017 às 18:29

Não sou especialista na matéria, embora veja algum sentido. Se for exequível é uma grande ideia, embora (e quero acreditar que já existam) os geradores na fonte devem existir, o problema é fazer com que tal se possa fazer numa aldeia por exemplo e se os "tempos" não serão maiores do que alocação de meios dos bombeiros, por exemplo. É tema para um especialista :-)

Muitas pessoas ficam "pelo caminho" porque não conhecem o fogo, acreditam que o vão conseguir dominar. Já apanhei um susto desses enquanto ajudava um bombeiro (e era um incêndio mínimo e quase só com mato), algo que estava calmo e controlado de repente virou-se contra nós e tivemos de sair entre fumo e chamas. Já tenho um pequeno historial de combate a fogos… uma vez até tive uma abordagem da Polícia pouco simpática e o que me valeu foi um senhor que disse ter-me visto a mim e ao meu pai a sair do carro e apagar aquilo que seria um início de um incêndio na Serra da Boa Viagem.

Beijinhos...
Sem imagem de perfil

De Luís costa a 19.06.2017 às 17:15

Tenho a mesma opiniao mas voce esta mais preocupado que a maioria dos portugueses.Ja pensou em enviar o seu post ao senhor dos afetos?
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 19.06.2017 às 18:23

Para receber uma carta "padrão" a dizer que o mesmo se debruçou sobre as minhas inquietações?

Sou mais de cara-a-cara :-)

P.S: atenção que o actual "PR" não é o único "responsável"… Isto já é uma história com décadas...
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 19.06.2017 às 17:31


Quando escrevo "sem palavras", sabe o que quero dizer.

Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 19.06.2017 às 18:22

Perfeitamente...
Imagem de perfil

De HD a 19.06.2017 às 18:43

E pedem aos portugueses calma para poderem perceber o que se passou??? -.-
Espero bem que seja desta que se reforme de uma vez por todas esta questão grrrrrr
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 19.06.2017 às 19:35

Diz a experiência que pedir calma em momentos de tensão não é a melhor prática…

Esperemos que sim, mas confesso que tenho as minhas dúvidas… Se cair no esquecimento dos cidadãos voltará a acontecer, seja por motivos alheios a decisões políticas, seja por inércia na tomada de uma posição.

Imagem de perfil

De Maria a 19.06.2017 às 18:52

É uma vergonha sim...
Imagem de perfil

De O ultimo fecha a porta a 19.06.2017 às 19:39

Tocas na ferida e escreves o que muitos não querem ler.

Sobre os donativos, também já o critiquei. Criam-se linhas de chamadas de valor acrescentado, campanhas dr valor acrescentado, mas as cotadas portuguesas e multinacionais que lucram milhões com a politica florestal e com solidariedade alheia estão caladinhas que nem um rato.

Ainda ontem, numa estação de televisão publicitou-se um prémio chorudo numa festa popular qualquer , sob a forma de um sorteio, em troca de chamadas de valor acrescentado. Onde esteve a solidariedade dessa estação? Porque não disseram: o dinheiro da sua chamada para este concurso vai para as vitimas desalojadas?
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 19.06.2017 às 19:59

Não sou dono da razão, mas cansa-me alguma apatia nos cidadãos…

Eu assume que não darei um euro em donativos… Para mim, neste momento específico, mostrar a minha solidariedade é abrir mão para que se protele a tomada de decisões. No entanto, se me quiserem a participar em actividades de prevenção serei eu o primeiro a levantar o braço! Donativos não resolvem, sobretudo se são pedidos de todos os lados e mais alguns… E não sejamos aí também ingénuos, pelo caminho muito se "perde"…


Confesso que não tenho televisão e o que vi foi em casa da minha mãe. Esse concurso desconheço, no entanto admito que a vida tem de continuar, contudo… a invocação do "Luto Nacional" deveria ter sido em conta. Mas não me admira… Os festejos com os golos de Portugal devem ter sido audíveis em Marte...
Imagem de perfil

De C.S. a 19.06.2017 às 21:09

As promessas do ano passado de nada serviram este ano... É incrível como, ano após anos temos de ligar com incêndios cada vez mais devastadores. E uma tragédia assim...qualquer dia teria de acontecer, quando não são acauteladas as medidas que deveriam ser.
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 19.06.2017 às 23:21

Na verdade estas tragédias já aconteceram, por exemplo em 2003 ou em 2016, a diferença foi no número de mortes. 7 ou 8 mortes não são tão chocantes como cerca de 60! O problema não é novo, só que desta vez o número de vidas ceifadas e o modo como o foram, causou um impacte sem antecedentes.
Somos todos culpados...
Imagem de perfil

De The Daily Miacis a 19.06.2017 às 21:58

Por acaso acabei de escrever um post para amanhã sobre este tema, e tenho mesmo vergonha alheia.

Tenho vergonha porque nós temos todas as ferramentas, somos um povo tão à frente em tanta coisa, mas no toca no trabalho de prevenção e de longa duração preguiçosos!
E o pior é que seja causa natural, causa humana, é triste ter que morrer pessoas para agora começaram algumas mentes brilhantes do governo falar da gestão da biodiversidade de Portugal. Quando há anos se debate essa questão! Há anos que se alerta para essa problemática, e só agora é que realmente se vê o problema. Eu sou a favor dos guardas florestais e sou a favor de existir mais educação ambiental para TODA a população e não só para as crianças na escola, para alertar a população adulta, bem como mais serviço voluntariado ambiental.
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 19.06.2017 às 23:19

É um dilema nosso e não só… o foco no curto-prazo, no imediato e a ausência de pensamento estratégico. Não queremos sofrer hoje para colher amanhã.

Há anos que se fala, os especialistas são mais que muitos a alertar mas a floresta continua a ser um capricho político… Ou melhor, a falta dele…

O voluntariado ambiental não tem tanta visibilidade como o voluntariado junto das pessoas (é mais bonito aparecer a servir uma sopa do que a apanhar lixo numa praia)… E, na verdade, também nessa área tem de existir mais abertura, nomeadamente no acolhimento de voluntários com outras formações que vão além da biologia, só como exemplo.

E… Sejamos honestos… A floresta não tem a importância que a praia tem na mente dos portugueses, sobretudo pela ausência de conhecimento que os mesmos têm desta.

Obrigado pela visita...

Comentar


Pág. 1/2



Mais sobre mim

foto do autor



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Mensagens

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB