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IMG_0188.jpg

Respigadoras,  Jean-François Millet - Musée d'Orsay

Fonte da Imagem: Própria.

 

 

Finalmente, a questão das mulheres, que jamais poderiam ser nomeadas mordomos e não existindo homens numa casa, quando muito a casa da mulher poderia ser admitida (mediante pagamento) no conselho, mas nunca nomeada para os cargos de administração, não tendo participação nas reuniões, mas embora beneficiando das regalias do conselho. Apesar de tudo isto, todos os membros eram obrigados a participar no conselho, caso contrário seriam obrigados a pagar uma multa (jeiras). Também a exigência para com os líderes era tal que a qualquer momento poderia ser convocada uma reunião extraordinária com vista à expulsão destes - seria então eleito o responsável da contestação de modo a colocar à prova as suas capacidades de chefia - interessante(11). Aliás, uma das mais-valias deste tipo de organização era que as pessoas jamais seriam confundidas com os cargos.

 

Uma outra instituição, se assim lhe quisermos chamar, eram os Homens de Rodra, designados pelos mordomos e que eram os responsáveis por fazerem quase todos os serviços fora da aldeia (compras, representações...).

 

Uma palavra para a justiça . No caso de Rio de Onor só muito raramente se recorria à justiça fora de portas (Bragança era o tribunal mais próximo). A justiça era feita pelos mordomos e quando incapazes de decidir somente por si, convocavam o conselho. Quando existiam queixas, o próprio conselho nomeava peritos internos para aferir das diferentes partes. Sempre que era impossível acusar alguém, pois desconheciam-se os responsáveis do dolo, o próprio conselho agia como força policial de investigação. Associada a esta tarefa, o conselho, fiscalizava as áreas da aldeia, como o polícia de giro.

 

Existia também em Rio de Onor um seguro mútuo gerido pelo conselho. Sempre que tinha lugar qualquer desastre grave , a comunidade poderia ser obrigada a suportar os prejuízos (12).

 

A economia rionoresa era praticamente de subsistência, vivia-se do gado, da agricultura, e os mais pobres do carvão vegetal. Nos mercados, só o gado, o trigo e o carvão tinham saída. O dinheiro advindo destas vendas era reinvestido para pagar décimas, comprar adubos, cimento, ferro, tecidos e utensílios domésticos, bem como alguma mercearia. A subsistência assentava à data também na existência de algumas casas que não fazendo parte do conselho tinham de pagar o facto de pertencerem à aldeia com outros serviços, aliás, alguns vizinhos ganhavam também algo extra com serviços que normalmente não conseguiriam ser realizados pelos habitantes de Rio de Onor.

 

A igualdade é aparentemente visível, até porque o baixo nível económico era transversal. Havia também alguma economia local: arrendamento de terras (tendo como base um sistema quase feudal), trabalhos à jeira em terras mais abastadas, além de que o conselho não negava terras a quem as quisesse cultivar, obrigando à existência de uma junta de bois que não estava ao alcance de todos (denotam-se já aqui ligeiras oscilações no conceito de igualdade). Notar contudo, que os rionoreses eram também um povo dionisíaco (Dias; 1953) pelo que as dívidas aos bancos eram grandes, sobretudo do lado português, mais gastador e mais aberto à natalidade. Nota final, para o facto do pastoreio ser colectivo e composto pelo gado dos diferentes vizinhos (boiada, Cabrada e Al Ganau-ovelhas) (13) - tudo era aproveitado, até a bosta, para estrumar as culturas.

 

Muitos destes aspectos, tiveram uma análise funcionalista , ou seja uma tendência para olhar os organismos como casos perfeitos em que tudo funciona bem, o que se veio a revelar desastroso (14).

 

Continua...

___________________________

(11) Uma outra prova de que os poderes dos mordomos não eram absolutos, prende-se com o facto de que aquando da discordância do conselho face a estes, os casos eram alvo de uma votação (bamus a deitar piedras) da qual sairia a decisão por maioria absoluta.

(12) Se uma vaca quebrasse uma perna e existindo necessidade de ser abatida, os vizinhos eram obrigados a comprar uma quantidade de carne proporcional ao número de pessoas que têm em casa e aos bens que possuem em solidariedade com o vizinho que tivera o prejuízo.

(13) O gado era recolhido todas as manhãs e levado pelos pastores para o monte, regressando ao fim da tarde. Quando existia a necessidade de passarem mais tempo fora, os pastores eram revezados por outros todas as manhãs.

(14) Além desta análise sujeita a grandes falhas, em Rio de Onor, assistiu-se, como em muitas outras aldeias a uma espécie de representação. Ou seja após a monografia de Dias, os rionorenses alteraram o seu comportamento de modo a que este ficasse intimamente ligado à escrita e análise deste. O investigador acabou por interferir nos rituais locais e com isso moldar uma cultura. Um dos principais críticos desta situação foi o já referido O’Neill.

 

Os artigos anteriores podem ser consultados aqui e aqui.

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10 comentários

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De Maria a 25.01.2018 às 16:29

Meu Sábio... (vou ser a Maria parvalhona, ok?) quando vejo as (fantásticas) fotos que incluis nos teus posts, não posso deixar de imaginar que tens um salão enorme (tipo biblioteca) com fichas arquivadas (tipo biblioteca) onde guardas por ordem alfabética, temática, etc. a localização dos milhares de fotos de arte que tens :)

Eu mal consigo encontrar as minhas fotos do natal passado :)
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De Robinson Kanes a 25.01.2018 às 16:47

Qual parvalhona... Nada disso. ahahahahahah, não tenho um salão mas tenho de forma digital. Tento arquivar por local, data e com a respectiva descrição - mas nem sempre consigo, existem obras que me obrigam a voltar aos museus (in loco, via internet ou a enviar um email para me darem informações) e também me falta tempo para arquivar tudo, não sou assim tão "freak". Mas olha que nem tudo está assim tão organizado :-))))

Por vezes, sim, escrevo sobre um tema e recordo-me de uma tela, uma peça ou um momento e aí sim lá vou eu à procura, mas olha que às vezes anda bem às avessas :-)

P.S: gosto de trazer sempre um bocadinho das obras que gosto, é como se fossem minhas.
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De cheia a 25.01.2018 às 19:39

Muito interessante a abordagem deste comunitarismo, para um melhor conhecimento da realidade.
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De P. P. a 25.01.2018 às 19:49

Estou a ver a T2 de As Telefonistas (já tenho net, por fibra, desde ontem). A tua crónica levou-me a associar ambos: que bom consultor serias para a elaboração de boas séries históricas, como os Espanhóis tão bem fazem, e que mais tarde ou mais cedo será o nosso caminho.

A obra apresentada é iluminista, não é?
Abraço
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De Robinson Kanes a 27.01.2018 às 16:00

Não reúno os conhecimentos para tal... Quer de pessoas quer de "know how" :-)

Pintura realista... É um dos pintores franceses que mais me atrai e que inspirou nomes como Van Gogh.

Grande abraço, agora com fibra :-)
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De HD a 25.01.2018 às 20:39

Como tu dominas estas matérias, tanto conhecimento... :-)
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De Robinson Kanes a 27.01.2018 às 16:01

Sou um curioso, só isso :-)
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De Maria Araújo a 26.01.2018 às 18:15

O Robinson é uma fonte inesgotável de conhecimento e estudo.
E as fotos que escolhe são as mais bonitas que por aqui passam.
Bom fim de semana.
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De Robinson Kanes a 27.01.2018 às 16:02

Obrigado, não assim tanto... Mas obrigado :-)

Obrigado também pela referência às fotos. Não são tratadas, o que não ajuda, e não é raro, serem tiradas no momento... A correr e no meio do entusiasmo que nos faz focar mais nas coisas do que propriamente no facto da foto sair bem ou não.

Obrigado, mais uma vez, e bom fim de semana.

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