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A Desumanização de Mortos e Vivos.

por Robinson Kanes, em 06.06.17

IMG_2855.JPG

 Fonte da Imagem: Própria

 

Inegável... O facto de que quanto mais mortes ocorrem mais insensíveis nos tornamos às mesmas. Procuramos criar mecanismos de defesa de modo a que possamos afastar essa morte de nós, até porque é fugindo dela com elementos distractores, como o quotidiano, que podemos conceber uma vida normal.

 

Será que recusamos essa responsabilidade e queremos afastar-nos desse fardo, do peso desse caixão? Será que Aristóteles teria razão quando dizia que “a morte é morte de alguém e tê-lo sido de alguém não é levada pelo moribundo mas sim pelo sobrevivente”?. Será por isso que fugimos dessa e da nossa própria morte que será herança que outrem nos deposita? O alguém que só existe porque nós existimos?

 

Costumo afirmar que morro sempre um pouco quando perco as pessoas que realmente interferiram na construção do meu ser - as pessoas que, para o bem e para o mal, fizeram aquilo que eu sou. As pessoas que me acompanharam na criação da minha essência, que por elas foi influenciada e não por um qualquer Deus, seja através de uma predestinação, seja pela bondade do mesmo em relação a um livre-arbítrio. Vejo-me um pouco na imagem de Vergílio Ferreira quando nos diz no seu Conta-Corrente (Volume II) que “o homem viveu até hoje pelo que acumulou da humanidade – e viverá amanhã pelo que acumulou de desumanização”.

 

Por vezes sinto que carrego um pouco desses mortos comigo e que provavelmente vivo essa desumanização. Que os sustento a combater a desumanização, ou seja, de não encontrar a minha morte e, no fundo, também a dos outros mesmo antes de morrer. Mas o peso é grande demais e paradoxalmente tendo a perder a guerra...

 

Talvez não seja mais que isso mesmo: a dificuldade, não em encontrar uma nova Humanidade, mas em encontrar uma forma de ser novo perante uma velha Humanidade e, com isso, percorrer o caminho que um dia acabará na desumanidade de uma boca cheia de terra ou um corpo transformado em cinzas.

 

 

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31 comentários

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De Ana a 06.06.2017 às 10:25

Não sei bem se o meu comentário é apropriado ao que querias transmitir mas eu quando vou a funerais, não vou tanto pelos que partiram mas sim por aqueles que cá ficam a chorá-los.
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De Robinson Kanes a 06.06.2017 às 12:38

De facto vai. Não tanto pelos que partiram mas pelos que ficam… Queres desenvolver?
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De Ana a 06.06.2017 às 13:16

Não tenho muito a desenvolver, não sei o que se passa depois da morte. Se não se passa mais nada, se a "alma" fica aflita com o choque, se fica aliviada e afinal é tudo natural. Por isso preocupo-me sobretudo com a dor dos que ficam, que sei que existe e quero estar presente para ajudar a aliviar.

Quanto ao que escreveste se calhar é isso, se calhar não morremos com os que vão. Fazemos é com que eles continuem vivos com aquilo que deixaram em nós.
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De Robinson Kanes a 06.06.2017 às 15:41

Percebi. Obrigado pelo esclarecimento :-)

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De Chic'Ana a 06.06.2017 às 10:36

É verdade que a morte se está a tornar um conceito demasiado banal...
Contudo, quando é de pessoas próximas, marca-nos imenso, e sim, concordo quando dizes que todos nós transportamos um pouco desses mortos connosco.
beijinhos
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De Robinson Kanes a 06.06.2017 às 12:39

Sem dúvida.
Mesmo com aqueles que nos são próximos tenho sentido que existe um "desligamento" e sobretudo não na visão medieval de aceitar a morte, mas numa visão moderna de "já está, ainda tenho que ir ali".
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De Sónia Pereira a 06.06.2017 às 11:20

A frase do Vergílio Ferreira é fenomenal de tão certeira e a de Aristóteles não fica atrás.

Somos a soma de todas as perdas, mas também das novas chegadas, quer a nível individual, quer como sociedade. É natural que, mesmo como forma de sobrevivência, haja um voto de esquecimento daqueles que partiram. Carregar as perdas, as memórias daqueles que, de certa forma, são um pedaço de nós, não é fácil. É coisa capaz de nos fazer vacilar, fazer escorregar para a melancolia, cair na vontade de desistir.
As mortes daqueles que nos rodeiam, para além de serem a morte de um pequeno pedaço de nós próprios, são também a lanterna que alumia o caminho da nossa própria morte, a evidência de que também a morte nos espera.
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De Robinson Kanes a 06.06.2017 às 12:42

Penso que o luto é importante. De início, com as coisas bem frescas, penso que é fácil cair nessa melancolia mas o tempo serenará e é aí que a memória e o que ela possa ter de bom pode ser absorvida, dissecada, assimilada.

E é esse o caminho, embora pensemos que somos imortais...
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De Francisco Freima a 06.06.2017 às 11:35

Todos carregamos os nossos mortos, se as pessoas, de cada vez que morre um seu ente querido, se dedicassem a absorver uma virtude, o mundo seria um lugar melhor e ganharíamos a batalha contra a desumanidade :)
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De Robinson Kanes a 06.06.2017 às 12:40

Vou colocar essa ao lado do Aristóteles e do Ferreira.
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De Maria Araújo a 06.06.2017 às 12:55


Das pessoas da família que foram, sinto que a morte os aliviou do sofrimento, cumpriram a sua missão, nós temos de continuar o que eles nos deram e ensinaram.
Contudo, perante o que se vê hoje, pessoas que morrem nas ruas sem motivo, por actos terroristas, por homicídios descabidos, por vinganças e ódios, custa-me aceitá-los mas ao mesmo tempo esta desumanização que vivo e vivemos todos, é isto mesmo que escreveu:

"Por vezes sinto que carrego um pouco desses mortos comigo e que provavelmente vivo essa desumanização".
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De Robinson Kanes a 06.06.2017 às 15:42

E as pessoas que morrem "com motivo" por actos terroristas praticados por cada um de nós? :-)
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De Maria Araújo a 06.06.2017 às 16:47

Pois!
Agora, calou-me.

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De HD a 06.06.2017 às 18:29

Isto hoje está muito pesado, ao fim de um dia de trabalho desumano...
Sinto um pouco o mesmo, a minha falência com o desaparecimento de outros.
A perda, a memória pouco clara de um laço sempre incompleto... -.-



*outrem nos deposita (...)
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De Robinson Kanes a 06.06.2017 às 22:04

Caramba… Agora foi um xeque-mate. Queres desenvolver?
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De HD a 06.06.2017 às 22:07

Não é um tema que me sinta muito à vontade... :(

A perda dos outros, quando me associada, deixa-me sempre impotente pelo que não dei, pelo que não dei de melhor... não me é fácil (querer) explicar :'(
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De Robinson Kanes a 07.06.2017 às 09:11

Entendo… Entendo perfeitamente...
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De O ultimo fecha a porta a 06.06.2017 às 22:57

Acho que lidamos de forma mais temporária com a morte hoje em dia. Se olharmos para as pessoas mais velhas e a tradição católica em Portugal, há muito o costume de todos os fins de semana ir enfeitar os entes queridos aos cemitérios. As gerações mais novas não tendem a seguir esse caminho.
Porém, é algo subjetivo.
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De Robinson Kanes a 07.06.2017 às 09:12

Sim… Por um lado é o acreditar que o morto "vive" para além de… E isso está muito ligado também à questão religiosa e no fundo a uma certa saudade, a uma certa emoção de querer manter a pessoa "viva". Daí a importância de se fazer sempre o luto ou de se sepultar um corpo.

As gerações mais novas não tendem a pensar muito nisso...
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De O ultimo fecha a porta a 07.06.2017 às 23:11

Acho que não.

Nunca fiz esse exercício, mas se ficarmos duas horas de um sábado à porta de um cemitério, seria interessante verificar:
- a % de pessoas com menos de 50 anos que vão enfeitar sozinhas
- a % de pessoas com menos de 50 anos que vão acompanhar a mãe a enfeitar
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 08:23

Por acaso esse nunca fiz. Mas depois temos de calcular o número de visitas pelo número de campas visitadas. Não é má ideia.
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De O ultimo fecha a porta a 09.06.2017 às 22:04

O rácio deve ser bem jeitoso :)

há muitas pessoas que gostas de cuscar e opinar sobre as flores e o arranjo dos jazigos alheios
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De Robinson Kanes a 10.06.2017 às 09:23

Ainda há disso? Lá está, até é importante "parecer" :-)
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De O ultimo fecha a porta a 10.06.2017 às 11:51

Vem a uma freguesia menos urbana de Coimbra para cima e faz o teste...
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De Robinson Kanes a 10.06.2017 às 17:10

Desde que não seja a Pedrulha :-)
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De Kalila a 06.06.2017 às 23:29

Já sabes como eu sou simplista. A nossa vida é tão curta que temos poucas hipóteses de "fazer a diferença" dos demais. Por isso tentamos fazê-lo com os nossos, sermos-lhes preciosos, como fizeram connosco. Se possível, ainda melhores, mas seguindo o modelo. Damos continuidade ao que nos foi transmitido. Se já nos faltam, ainda nos afincamos mais, porque há toda uma cultura de honrar os falecidos. Virgílio Ferreira desacredita o futuro porque estes valores mais básicos estão em crise, acho que os "Conta-Correntes" são da fase existencialista dele. Já Aristóteles era um " desenlutado" por natureza e expurgava assim o seu próprio desprendimento.
A única desumanização que vejo é quando as pessoas ainda estão vivas mas não vivem já, os idosos em lares ou os doentes sem cura. No resto, chorar mortos é muito português e romântico, façam-nos ou não falta. Tanto que quando a dor é imensa (marido/mulher ou, o pior, filhos) quase se deixa banalizar porque parece tudo igual. A morte é o fim normal de cada um de nós, cabe-nos ser especiais...
Beijinhos, amigo.
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De Robinson Kanes a 07.06.2017 às 09:18

E será que continuamos a querer herdar aquilo que quem já partiu nos deixou? Será que é sempre assim?

Sim, Vergílio Ferreira escreveu os diários numa fase Existencialista, embora não veja a obra de Vergilio, ou melhor, o seu pensamento como um desacreditar do futuro (se que aqui vou contra a corrente de quem gosta e estuda o autor). Acredito em Vergílio como mais um pessimista-optimista… Um pouco como todos os existencialistas que nem sempre foram bem interpretados.

Cuidemos dos vivos para que morram em paz. Esse também é o meu desafio :-)
Em relação ao ser muito português chorar os mortos, é uma das coisas (boa ou má depende da leitura) que se têm vindo a alterar. Talvez por um certo utilitarismo inerente às pessoas (e aqui incluo as famílias também).
Beijinhos
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De Rita PN a 08.06.2017 às 00:13

Luiggi Pirandello escreveu no seu livro 'Um. Ninguém e Cem Mil':
"Ah, você julga que só as casa se constroem? Eu construo-me continuamente e construo-o a si, e você faz o mesmo. E a construção dura até que o material dos nossos sentimentos se desfaça e enquanto durar o cimento da nossa vontade. E porque acha que lhe recomendo tanto a firmeza da vontade e a constância dos sentimentos? Basta que aquela vacile um pouco e que estes se alterem um nada ou mudem minimamente, e adeus nossa realidade! Apercebemo-nos de imediato que não passava de uma ilusão nossa."

A identidade de um ser humano, constrói-se não só em si mesmo, mas também a partir daqueles que o rodeiam, sendo também ela uma herança que deixamos e que nos é deixada. Maior no que aos ente-queridos e amigos diz respeito. Desta forma, também em vida, ocorrem mortes por desapego, por falência de sentimentos, por falta do cimento entre os tijolos das relações interpessoais, muitas vezes pela pouca força da "firmeza da vontade. Outras, simplesmente porque é esse o caminho a seguir, o do afastamento. Sempre que uma relação se rompe, seja ela de amizade, familiar, amorosa ou profissional, há um capítulo que se cessa e uma parte que morre em cada um dos seres.

Aqui, arrecadamos três mortes: uma parte de nós, a nossa parte no outro e a parte do outro em nós.

Na morte propriamente dita, aquele final que nos espera a todos no limite da vida, tudo cessa. Esse é o fim, e sabemo-lo. Sabemo-lo tão bem que todas as ações que não tivemos, todo o carinho que não demos, todas as vezes que não estivemos presentes e tudo o que ficou por dizer nos assalta a mente , o coração e a alma. Não há como voltar a atrás. E com o remorso e peso de quem não fomos morremos, perante a morte de outrém. Em simultâneo, morre a outra parte em nós, mas nunca a nossa neles. Essa, manter-se-á viva enquanto cá andarmos. Seremos sempre os filhos desse alguém, os netos doutro alguém, os primos, irmãos, tios, sobrinhos, amigos... seremos sempre tudo aquilo que fomos porém, para nós próprios, passamos também a ser tudo aquilo que não fomos. Mas eles, serão para sempre aquilo que quisermos guardar e o que deles fizermos a partir daí. Presença ou ausência.

Há quem tenha necessidade de matar a morte. Há quem aprenda a lidar com ela. Há quem a saiba aceitar e há quem nunca consiga seguir adiante. Nenhum está errado. A nenhum se pode apontar o dedo. São formas de ser e de estar. São consequência da sua construção e posterior desconstrução. Alguns remendam-se, outros não.

A banalidade das mortes à distância é uma realidade. E quando digo à distância não falo só das notícias na comunicação social ou do outro lado do globo, falo na própria cidade, rua, prédio, na família do amigo, do primo em terceiro grau e em em todos aqueles em quem semeamos a distância.
Morreu. Foi isso, morreu. E assim não dói, assim não fere, assim não nos mata porque também em nós nunca nada nasceu ou foi construído.


Não sei se me consegui explicar... é demasiado complexo. Mas Pirandello ajudou!

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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 08:36

Acho que te conseguiste explicar na perfeição. Criaste uma visão abrangente do estado de espírito da morte, ou melhor, perante a morte.

Levantam-se várias questões: queremos falar da morte? Não queremos e varremos a questão para debaixo do tapete? Pensamos que somos imortais até… Ou simplesmente andamos demasiado ocupados para falar da morte? Interessante como, em relação à morte, estamos tão atrasados em relação aos nossos antepassados medievais. Talvez estejamos menos crentes e isso pode ajudar… Afinal é "cool" ir a Fátima tirar "selfies" mas não é tão "cool" acreditar efectivamente que existe vida para além da morte por exemplo. Costumo brincar e dizer: então, se tem mesmo fé porque é que chora, um dia vai encontrar a pessoa do outro lado. Por norma respondem-me que não é bem assim! Eu li a Bíblia, e lá é o que diz :-)

Parece que nos esquecemos que somos herdeiros de muitas mortes e também deixaremos a nossa em testamento para as gerações vindouras. Esquecemos que talvez sejamos também mortais e que somos somente mais um grão de pó. Mas… Somos demasiado importantes para fazer essa reflexão e humildemente aceitar isso…

Ainda vamos chegar à conclusão de Kierkegaard que tinha medo era da existência e não da morte :-)
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De Rita a 10.06.2017 às 10:22

A percepção que tenho é que também uma questão cultural, esta forma de encarar a morte como o contrário da vida quando na realidade é só uma parte da mesma (o nascimento é que acaba por ser o oposto da morte... ). No mundo ocidental temos muito a tendência para pensar assim.

Admiro quem consegue praticar o "desapego" pela vida, não no sentido de a desprezar ou não a aproveitar, mas sim no sentido de objectivamente perceber a morte e conviver com ela naturalmente e isso até contribuir para aproveitar e dar valor à vida porque inevitavelmente vai terminar.

É um assunto que me pesa, demasiado. Gostava de ter a lucidez de outras pessoas no que toca à morte...
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De Robinson Kanes a 11.06.2017 às 15:01

Penso que, quando atingimos esse ponto, nos livramos de muita carga… Não tenho a mínima dúvida. Eu ainda ando pela fase de interrogação, de percepção e de uma certa avaliação. Não é fácil lá chegar, ou então, é demasiado fácil e nós é que estamos a olhar para o caminho errado.

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